21 de outubro de 2016

24. Escaravelho do coração

Atravessamos várias camadas de pedra como se fossem água, até pararmos no interior da pirâmide. Grandes rochedos, como os que havia dentro dos túneis subterrâneos de Osahar, posicionados nos cantos, iluminavam o ambiente. Os pés de Amon tocaram o chão pedregoso e ele cambaleou, mas continuou a me abraçar firme, segurando meu corpo com a maior delicadeza de que era capaz. Minha cabeça pendeu de seu braço quando ele estendeu a mão para sentir onde estava. Após trombar em uma plataforma de pedra elevada que se parecia de forma bem suspeita com um altar, pousou-me cuidadosamente sobre ela.
Amon então afastou meus cabelos da testa e cruzou meus braços sobre o peito como se eu fosse Cleópatra em seu leito de morte. Minha vontade era gritar, berrar que estava viva, mas eu era prisioneira do meu próprio corpo. Ele se ajoelhou ao meu lado e tremores o sacudiram de cima a baixo quando encostou a testa na minha barriga; meu maior desejo era reconfortá-lo.
— Eu sinto tanto, Lily — murmurou ele. — Não desejava isso para você. Como fui ingênuo ao pensar que havia gerado poder suficiente sozinho. Eu deveria ter sabido que meus irmãos iriam me enganar. Eles não entenderam por que mandei você para casa, por que corri o risco de permitir que o caos reinasse, por que contrariei a própria razão da nossa existência. Agora, o que eu mais temia aconteceu. Como é possível eu não ter sentido que a doce energia penetrando minha alma era sua?
Ele pegou uma das minhas mãos e a apertou, acariciando os nós dos dedos com o polegar. Leves pulsações de luz do sol percorreram meu corpo: com certeza isso era um bom sinal, ou pelo menos um sinal de que eu não estava realmente morta.
Amon continuou a falar:
— O único consolo que tive ao deixá-la para trás foi acreditar que você tinha uma chance de viver, de exercer o direito que todas as pessoas nascidas nesta Terra têm e não valorizam: o de encontrar a felicidade. Agora você foi embora, deixou este mundo em busca do próximo. Meu maior e único desejo é segui-la, mas o meu caminho não é o mesmo que o seu. Meu destino me chama para outro lugar.
Ele baixou a testa até encostar na minha mão antes de acrescentar:
— Me perdoe, Lily. Me perdoe por tirá-la da sua casa, pelos fardos que lhe impus, por causar esta tragédia, e, acima de tudo, me perdoe pelas coisas que não me permiti dizer.
Uma luz se formou poucos metros atrás dele e um homem bonito acompanhado por um cachorro apareceu. Se eu não estivesse quase morta, teria adorado desenhá-lo. Seu tronco muito musculoso estava nu e ele usava um saiote plissado preto em vez de branco. Tinha os cabelos pretos e lustrosos.
O homem parecia ter mais ou menos a mesma idade do meu pai, mas tinha aquela beleza atemporal capaz de atrair qualquer mulher.
— Amon? O que está acontecendo? — indagou ele.
Amon ergueu a cabeça.
— Anúbis — falou. — Esta é Lily. Uma mortal. Fui forçado a depender da energia dela durante este meu despertar, e isso resultou na sua morte.
— Que... interessante. — Anúbis deu um passo mais para perto. Inclinando-se para me ver melhor, reparou que meus olhos estavam abertos e o observavam. Ao se aprumar, me deu uma piscadela, e eu concluí que gostava daquele homem, mas não confiava cem por cento nele. — Me conte como isso aconteceu — pediu ele a Amon.
A encarnação do deus do sol se levantou sem largar minha mão e se virou para o deus ao seu lado, o rosto voltado para  um ponto atrás dele.
— Apófis e Seth emprestaram parte de seu poder a um mortal, o mesmo que arrancou meus olhos e roubou três dos meus vasos canópicos, absorvendo assim meus poderes. Foi por isso que precisei de Lily.
— Entendo. Esse mortal foi derrotado?
— Sim. E Seth foi impedido de voltar por mais mil anos.
— Então você cumpriu seu dever de modo admirável. Está preparado para abrir mão de seus poderes de modo que possam ser guardados para uso futuro?
— Estou. Embora só me reste agora um único poder.
— Eu não teria tanta certeza disso.
Amon inclinou a cabeça.
— Não estou entendendo. O shabti do mal de Sebak abriu meus três jarros e o mestre dele absorveu a energia que eles continham.
— Sim, mas, como muitas vezes acontece, existem algumas... substituições possíveis.
— Que substituições?
— Nunca se deve subestimar um sacrifício voluntário. Lembra-se de quando Seth pediu aos seus pais que sacrificassem vocês três, tempos atrás? Vocês disseram ao seu povo que estavam dispostos a aceitar isso.
— Sim, eu me lembro.
— Quando uma pessoa se oferece para proteger aqueles que ama, isso gera imenso poder. Foi por esse motivo que os deuses o imbuíram de sua energia.
— Mas o que isso tem a ver com a minha situação?
— Ao se doar assim tão livremente, esta jovem restaurou o que foi tirado.
— Quer dizer que a morte de Lily restituiu todos os meus poderes?
— Não, a morte não. O amor dela. O sacrifício de Lily por você foi tão poderoso quanto o que você fez pelo seu povo. Os deuses não podem fechar os olhos a uma abnegação dessas, e em troca concederam uma grande dádiva. O amor dela por você restaurou aquilo que foi roubado. Você ainda precisará devolver seus poderes, claro, até a hora do seu próximo despertar, mas nessa ocasião eles serão completamente restituídos.
Amon virou as costas para o deus e se afastou alguns passos.
Anúbis lhe lançou um olhar incisivo.
— Não está grato por essa dádiva?
— Eu estou... triste por ela ter sido necessária.
— Ah. Entendo.
— Você... — começou Amon. — Sei que ela não é uma de nós, mas será que você consideraria a possibilidade de facilitar a jornada dela até o além como faz para mim e meus irmãos?
Anúbis esfregou o queixo, olhou rapidamente para mim e sorriu.
— Eu poderia fazer isso. Se ela estivesse de fato morta.
— O quê? — Amon girou nos calcanhares e tateou de volta até o altar. Pegou minha mão inerte e a acariciou. — Ela ainda está viva? Então por que não consegue falar nem se mexer? Por que não consigo senti-la?
— A energia dela foi exaurida até quase a morte.
— Tem algo que eu possa fazer por ela? Posso trazê-la de volta?
— Sim, e acho que no fundo você sabe que isso deve acontecer.
Pude ver o instante em que Amon entendeu o que seria necessário.
— Não existe outro jeito?
— Não que eu saiba. Você terá que anular tudo quando acabar, claro. Caso contrário...
— Eu entendo as consequências. — Amon apertou minha mão, e eu mal senti a pressão. — E se ela não conseguir?
— Estarei aqui para ajudá-la de todas as formas que puder. — Ao ver que Amon hesitava, Anúbis tornou a falar: — Se preferir deixá-la aqui e permitir que a ordem natural das coisas decida o desfecho, essa também é uma alternativa.
Amon deu um suspiro profundo antes de endireitar os ombros.
— Não. Eu vou fazer.
— Você deve saber que é apenas uma formalidade — disse Anúbis. — Por mais que você tenha tentado evitar que isso acontecesse, aconteceu. Agora é só uma questão de pronunciar as palavras.
— Estava torcendo para que não fosse assim.
— É mesmo? — indagou Anúbis, sorrindo ao cruzar os braços diante do peito. — Se eu fosse você, hesitaria em deixar de lado uma coisa dessas... quero dizer, até não haver outro jeito.
— Eu esperava poder poupá-la da dor.
— A dor dos mortais é passageira.
As palavras do deus me fizeram franzir o cenho mentalmente e pensei: Isso é você quem está dizendo.
— Enquanto o seu sofrimento dura muito, muito tempo — prosseguiu Anúbis. — Uma boa lembrança poderia tornar seu isolamento suportável.
— Talvez, na realidade, eu quisesse poupar nós dois — disse Amon.
— Ah, bem, é uma boa lição sobre a qual refletir até seu próximo despertar.
— Sim, Anúbis — respondeu Amon baixinho.
Não tive certeza de ter entendido grande coisa daquela conversa, mas, fosse qual fosse o assunto, Amon não estava satisfeito, e não pude evitar rememorar o diálogo e contar as vezes em que a palavra dor tinha sido pronunciada. O que estava prestes a acontecer não seria bom.
Acompanhado pelo fiel cachorro, Anúbis recuou, e na mesma hora Amon começou a entoar um cântico que reconheci. Era o encantamento que ele havia usado para criar nosso vínculo, mas dessa vez as palavras estavam um pouco diferentes.
Embora estivéssemos isolados dentro da pirâmide, um vento agitou meus cabelos.

Com o poder da minha boca,
O poder do meu coração,
Lanço este encantamento.
Assim como nossas formas estão ligadas hoje,
Nossas vidas também o serão.
Incansável, ela me serviu,
Como eu servi ao Egito.
Torne leves nossas plumas,
Velozes nossas asas,
Firmes nossos corações.
Combinamos a força de nossos corpos
E, ao fazê-lo,
Prometemos renovar um ao outro.
Onde ela for desconhecida, eu comparecerei.
Onde ela estiver sozinha, eu estarei.
Quando ela estiver fraca, eu a sustentarei,
Até mesmo na morte.
Nossos corações são firmes,
Nossas almas, triunfantes,
Nosso vínculo, inabalável.

Ao terminar o cântico, Amon estava debruçado sobre mim, me mantendo no lugar enquanto um vento forte ameaçava me derrubar da plataforma de pedra. Nosso vínculo anterior me deixara exaurida e doente, mas o que ele havia acabado de criar fez exatamente o contrário.
Respirei fundo quando uma sensação de fogo percorreu minhas veias. Senti calor, mas não dor. Meu corpo inteiro reluziu com um brilho dourado. De repente, tomei consciência da presença de Amon. A força do corpo dele era também a minha força. A dor no lugar onde seus olhos deveriam estar fez os meus arderem e se embaçarem com lágrimas. O peso no coração dele quase me fez chorar.
— Amon? — falei, a voz fraca, e ele estendeu os braços, me puxou em direção ao peito e enterrou o rosto no meu pescoço.
— Lily — suspirou ele.
— O que... o que acabou de acontecer?
Ele se aprumou e abaixou a cabeça para eu não ter que olhar suas órbitas vazias.
— Eu selei o vínculo entre nós — respondeu suavemente.
— Não estou entendendo. O que isso significa? Nós já não tínhamos um vínculo?
— Era temporário. Era isso que eu estava tentando evitar. O que existe entre nós agora é praticamente impossível de mudar.
— Por quê? Por que você queria evitar isso?
Enxuguei as lágrimas do rosto, irritada por estarem caindo.
— Lily. — Amon correu a mão pelo meu ombro e segurou meu pescoço. — Não é pelo motivo que você está pensando. Abra sua mente para mim e compreenda.
Pisquei os olhos rapidamente, funguei e tentei fazer o que ele dizia, mas não consegui me desvencilhar da ideia de que ele estava me rejeitando outra vez. Amon segurou meu ombro e me sacudiu de leve.
— Feche os olhos e tente sentir o que estou sentindo.
Fechei os olhos e me concentrei nele. Senti sua pulsação, ouvi sua respiração suave. As batidas do seu coração me distraíram por um instante, e então vi através dos seus olhos. Não dos seus olhos de verdade, mas pude ver o que ele tinha visto. Fui arrebatada por uma visão através do que agora percebia ser o Olho de Hórus.
E de repente entendi... tudo.
— Amon? — Levei a mão ao seu rosto. — Eu não sabia o que você sentia. Pensei que não quisesse ficar comigo.
— Eu não podia sequer me permitir considerar essa possibilidade. Mas eu queria. Mais do que jamais quis qualquer coisa.
Anúbis pigarreou e Amon me soltou e se virou na direção do deus, as costas rígidas.
— Talvez a idade esteja me deixando mole — disse o deus —, mas vou lhes dar alguns instantes a sós. E, ah, Amon? Você fica me devendo uma.
O belo deus me dirigiu uma última piscadela antes de agitar as duas mãos no ar. A um gesto dos seus dedos, as nuvens de fumaça cinza que se adensavam em torno delas foram empurradas na direção da cabeça de Amon, ocultando sua expressão. Ele gritou e levou a palma das mãos às órbitas oculares.
A fumaça chiou e então se afastou, formando novos dedos em sua mão mutilada, curando as mordidas, os cortes e os hematomas em sua pele e na perna. Quando a fumaça sumiu, ele abaixou as mãos e piscou. Seus olhos tinham voltado. Com um grunhido satisfeito e um latido discreto do cão, Anúbis desapareceu em meio a um clarão de luz.
Na mesma hora, os olhos cor de avelã de Amon marejaram, e ele estendeu a mão para tocar meu rosto. Seu calor solar desceu pelo meu maxilar.
— Você está... está me vendo? — indaguei.
— Estou.
— Está doendo?
Ele abriu um sorriso suave.
— Quase mais do que consigo aguentar.
Dei-lhe a mão.
— Você ainda pretende me abandonar, não é? — perguntei baixinho, no fundo sem querer uma resposta.
— Não tenho outra escolha.
— Tem certeza?
— Lily, se houvesse algum jeito de ficarmos juntos, eu faria qualquer coisa para isso acontecer. Será que você não entende isso?
— Agora entendo. — Subi a mão pelo seu rosto até os cabelos. Ele fechou os olhos, e na verdade pude sentir quanto ansiava por estar comigo. — Quanto tempo temos? — sussurrei.
— Anúbis só vai nos dar alguns instantes — respondeu ele, afastando-se de mim com relutância para ir até a extremidade da câmara. Fui atrás dele, mas parei ao reparar em um duto aberto.
— Vou ter que sair por ali? — perguntei.
— Não. O calor canalizado nas pirâmides durante a cerimônia derreteu as pedras dentro do duto. Seria um sofrimento horrível se você tentasse entrar aí.
— Ah.
Eu não sabia o que fazer nem o que dizer. Nunca tinha perdido ninguém antes. Nem mesmo um animal de estimação.
Podia sentir a determinação dele para fazer o que era certo, mas por algum motivo o que era certo me parecia errado.
Amon passou uma das mãos pelos cabelos e pareceu tomar uma decisão. Dando a volta no altar, aproximou-se de mim.
— Agora não precisa se preocupar com sua ida para casa. Tenho poder suficiente para manipular o tempo e devolver você ao momento em que saiu de Nova York.
— Quer dizer... que vai ser como se nada disso tivesse acontecido? — perguntei, a voz débil.
Ele deu mais um passo na minha direção e segurou meu pescoço, minhas costas imprensadas contra a parede da pirâmide.
— Com o tempo, você vai me esquecer — disse ele, olhando fundo nos meus olhos.
— Não. — Balancei a cabeça. — Eu nunca poderia esquecer você.
— Talvez não. — Amon deu um sorriso desolado e brincou com as mechas de cabelos no meu ombro. — Anúbis estava certo em relação a uma coisa, sabia?
— O quê?
Ele pressionou as mãos na parede, de um lado e outro da minha cabeça, e murmurou:
— A eternidade é um tempo longo demais para não se ter alguma coisa para lembrar.
E então seus lábios encontraram os meus.
Eu tinha esperado muito por aquele beijo, mas ele foi muito mais, muito melhor do que eu me atrevera a imaginar. Uma luz dourada explodiu atrás das minhas pálpebras fechadas e eu e o sol nos fundimos em um só ser.
As mãos de Amon me puxaram contra seu corpo e eu me dissolvi nele, meus braços e pernas formigando, quentes. Sua boca se movia devagar sobre a minha, como se ele pudesse fazer o beijo durar para sempre.
Um calor preencheu meu corpo e desabrochei como uma flor rara que floresce por um único dia antes de ser consumida pelo fogo do sol. Um rubor rosado tingiu minhas faces, à medida que os lábios de Amon iam lentamente traçando rastros em cada uma delas. Pulsações cálidas de energia percorreram minha espinha quando ele correu os dedos por toda a extensão das minhas costas, até finalmente parar na curva da lombar.
Amon.
Não sei bem se disse o nome dele em voz alta ou só pensei, mas a ideia de usar a boca para outra coisa que não beijá-lo de repente me parecia impossível. Meu corpo inteiro estava ao mesmo tempo encharcado de sol e chamuscado pelo astro-rei.
O sangue que corria em minhas veias parecia lava e meu mundo estava derretido, inflamável, em chamas. O calor da paixão que ardia entre nós seria capaz de fornecer energia a mais de dez cidades. Eu queria me afogar na luz dele. Amon parecia a areia movediça que quase havia me consumido – uma areia movediça líquida, quente, poderosa – e eu estava entregue.
Quando ele por fim se afastou, ambos ofegávamos. Meus lábios estavam inchados e quentes, e minhas pernas, trêmulas. A pele inteira do meu corpo havia se iluminado. Amon encontrou um fio solto de cabelo, correu os dedos por sua extensão e sorriu quando a luz dourada o tornou ainda mais brilhante.
— Linda — disse ele. — Você é linda de um jeito perfeito, magnífico. O sofrimento de todas as duras provas que precisarei enfrentar ao longo de mil anos vai se abrandar se eu puder recordar o sabor dos seus lábios doces.
Enlaçando-o pela cintura, enterrei o rosto em seu peito e perguntei:
— Você precisa mesmo ir?
Ele me abraçou e eu o senti beijar meus cabelos. Em vez de responder, ele falou:
— Quero te dar uma coisa.
Então se afastou e retorceu os dedos. A areia se ergueu até formar um montinho em sua palma. Ele pôs a outra mão por cima, sussurrou um curto encantamento e uma luz começou a brilhar entre os seus dedos. Quando esta diminuiu, ele fez sinal para que eu me aproximasse.
Na palma da sua mão havia uma joia em formato de escaravelho. A carapaça era feita de esmeraldas verdes do mesmo tom que os olhos de Amon quando brilhavam no escuro. Pequenas lascas douradas e minúsculos diamantes destacavam o contorno das asas e da cabeça.
Ele pôs a joia na minha mão.
— É pesada — comentei.
— Isto aqui é... Amset — sussurrou ele. — O meu coração.
— Como assim, seu coração?
— O que você sabe sobre mumificação?
— Hã, pouca coisa. Sei que o seu corpo fica preservado e envolto em ataduras, e que os seus órgãos são colocados dentro de vasos canópicos.
— Na maioria dos casos é assim. Mas nem todos os órgãos são retirados do corpo. O coração é deixado.
— Ah, é? Por quê?
— “O coração é a sede do intelecto, e a língua fala para torná-lo real” — murmurou Amon. — Quando entramos na outra vida, nossos corações são pesados na balança do juízo e, se somos considerados dignos, somos envoltos nas vestes da glória. Se nosso coração não passa no teste, um demônio nos devora.
— Bom, e você não vai precisar do seu?
— Em todo o tempo que passei no além, nunca vi a balança do juízo. Acho que nunca vou ver. Só se eu morrer de verdade. — Amon passou os polegares pelas minhas sobrancelhas e me beijou de leve no canto da boca. — De todo modo, como posso ficar com meu coração? Ele não me pertence mais. — Depois de uma breve pausa, arrematou: — Talvez seja errado eu pedir isso, mas, ao lhe dar este presente, torço para que você olhe para ele de vez em quando e pense em mim.
— É claro que eu vou pensar. Guardarei sua lembrança no meu coração para sempre.
Meus olhos se encheram de lágrimas, mas eu não as deixei rolar. Não queria desperdiçar nossos últimos e preciosos minutos com ele tentando me consolar. Se Amon precisava mesmo ir, eu queria me mostrar o mais forte possível.
Ele sorriu.
— Quando nosso vínculo se romper, você talvez não sinta a mesma coisa. Talvez deseje esquecer. Mesmo assim, sou grato por termos tido esse tempo juntos.
— Espere. — Afastei-me dele. — Você disse quando o nosso vínculo se romper?
— Sim. Ele precisa ser desfeito antes de eu deixar esta vida.
— Como assim, desfeito? Eu não quero romper nosso vínculo. Você sabe o que sinto por você.
— Se não encerrarmos nossa conexão, você nunca vai ter nenhum instante de felicidade. Não vai amar nenhum outro homem enquanto viver. Sua mente vai passear comigo na outra vida quando você sonhar. Isso vai levá-la à loucura, Lily. Vai destruir você.
Cruzei os braços.
— Era sobre isso que Anúbis estava falando? Era essa a dor que ele mencionou?
— Sim. Foi por esse motivo que mantive distância de você.
— Foi por isso que não quis me beijar antes, não foi?
Ele assentiu.
— Se eu tivesse te beijado, isso teria selado o vínculo. Quanto mais tempo dura a conexão, mais difícil é rompê-la. Até mesmo no nosso caso, com nosso vínculo formal só tendo durado um brevíssimo tempo, ainda haverá ecos, momentos em que chamaremos um ao outro de dimensões diferentes, mas, quanto antes rompermos o vínculo, melhor será para você.
— Então, supondo que eu concordasse, como romperíamos o vínculo?
— Você precisa me matar.
Ele ficou parado com os braços ao longo do corpo e os punhos cerrados, me encarando com aqueles olhos lindos e querendo que eu o encarasse de volta. Virei-lhe as costas e desabei no chão.
— Isso só pode ser uma brincadeira de mau gosto. Você não está me pedindo para sacrificá-lo de verdade, está? — esbravejei.
— É a única maneira de romper o vínculo — disse ele baixinho. — Quando uma conexão entre um de nós e um mortal é selada, a única maneira de rompê-la...
— É literalmente cortar você da minha vida.
Ele se agachou ao meu lado e apertou meu ombro.
— Você tem que matar quem fez o encantamento. Eu queria poupar você disso, mas era o único jeito de curar seu corpo.
O que ele disse me fez erguer os olhos.
— Anúbis falou alguma coisa sobre o encantamento ser só uma formalidade. O que ele quis dizer com isso?
— Ele quis dizer... — Amon fez uma pausa. — Quis dizer que o meu coração já tinha tomado a decisão muito antes de eu me dispor a admitir isso.
— Bom, não vai dar. Isso eu não consigo fazer. Não vou matar você, Amon. Se Anúbis quiser isso, vai ter que pôr a mão na massa. Eu não vou poder estar presente, e com certeza não vou poder fazer eu mesma.
— Você tem que fazer, Lily. Se fracassarmos, as consequências serão desastrosas para você.
— Não. — Balancei a cabeça, e as lágrimas que finalmente rolaram me cegaram. — Não! — repeti mais alto.
Suspirando e correndo a mão pelos cabelos, Amon sentou-se ao meu lado e me puxou para o seu colo. Solucei, molhando o pescoço dele com minhas lágrimas.
— Shhh, Nehabet — tranquilizou-me ele enquanto acariciava minhas costas, preenchendo meu corpo com um calor que eu queria rejeitar, mas que em vez disso absorvi como se nunca mais fosse senti-lo outra vez.
Por mais luz do sol que ele compartilhasse comigo, porém, dentro da minha barriga o frio continuava.
— Você sabe que a minha morte, de qualquer modo, é inevitável — murmurou ele baixinho.
Assenti com a cabeça junto ao seu peito.
— Mesmo que o nosso vínculo se rompa, eu vou pensar em você — prometeu ele suavemente. — Meu amor por você não vai diminuir. A cada noite que passar terei sua imagem em minha mente. Você é minha... minha Nehabet... uma rara flor do deserto que brota nas águas do oásis. À medida que os dias e anos da sua vida forem passando, eu vou protegê-la, e, quando sua flor fechar as pétalas e por fim se render à noite, encontrarei você na aurora de sua nova existência e serei seu guia na vida após a morte.
Fungando, eu disse:
— Não sei se sua vida após a morte e a minha são iguais.
Ele cerrou os dentes e retrucou:
— Não importa. Eu vou encontrá-la. Acredita em mim?
— Acredito — respondi baixinho.
Ele tornou a me beijar, bem de leve, e com seus lábios encostados nos meus pude sentir o sal das minhas próprias lágrimas. Até que fomos interrompidos pelo ganido de um cão.
Amon levantou a cabeça.
— Anúbis.
— Desculpe não ter escolhido um momento melhor para aparecer, mas já cuidei dos seus irmãos e não posso aguardar mais. — Ele olhou para nós e franziu o cenho. — Você explicou para ela o que precisa ser feito?
— Expliquei — respondeu Amon. — Mas é uma coisa difícil de pedir.
Anúbis acenou com a mão.
— Estarei aqui para ajudá-la.
— Quando tudo acabar, ela deve ser devolvida ao tempo e lugar em que me encontrou pela primeira vez.
— Sim, sim. Vou providenciar isso. Agora vamos, Amon, está na hora.
Amon me ajudou a me levantar e me deu um último abraço enquanto punha o escaravelho de esmeraldas no bolso da minha calça. Ao se afastar, balançou a cabeça de leve para indicar que aquilo era um segredo entre nós e em seguida segurou minha mão e me guiou até o altar de pedra.
Após me dar um último beijo despudorado e eletrizante, apesar de não estarmos sozinhos, Amon acariciou meu rosto, evidentemente relutante em me deixar. Por fim, ele se deitou sobre o altar. Prendi a respiração e meu coração disparou. Eu não posso fazer isso.
Anúbis agitou a mão no ar e quatro vasos canópicos surgiram em cima de um tablado próximo.
— Amon — disse ele, em tom autoritário —, você cede voluntariamente os poderes que lhe foram concedidos pelo grande deus Amon-Rá?
— Sim — respondeu Amon.
Mordi o lábio e torci as mãos, imaginando que Anúbis fosse agora sacar ferramentas enferrujadas e arrancar os órgãos de Amon. Em vez disso, porém, ele abriu as mãos e uma bola de luz dourada se ergueu do peito de Amon e disparou na direção do belo deus. Bem depressa, Anúbis afastou a luz de si e esta entrou em um dos jarros. Uma tampa se materializou da areia na forma de uma cabeça de esfinge, em seguida se colou à abertura e a lacrou com um facho de luz.
A mesma coisa se repetiu mais três vezes. Uma das tampas se transformou na cabeça de um babuíno. A outra virou a cara de um chacal. A última luz não emanou do corpo de Amon em forma de bola, mas sim como uma etérea criatura alada. Era o seu falcão dourado. A ave voou em círculos acima de nós, espiando-me com um olho dourado, e as pontas de suas asas roçaram minha face quando ela passou. O falcão deslizou em direção à fileira de vasos canópicos e pairou acima do último. Na forma de um jorro de luz, voou para dentro do jarro, que foi lacrado por uma última tampa com cabeça de falcão.
— E o poder do Olho? — perguntei. — Você vai tirá-lo também?
— O Olho de Hórus vai ficar com ele durante sua temporada — respondeu Anúbis, paciente. — Agora — ele sacou do ar uma linda faca cravejada de pedras preciosas, a lâmina curva reluzindo, ameaçadora, afiada, mortal — o resto é com você.
Ele me entregou aquela arma odiosa e eu, relutante, segurei-a, entorpecida.
— Não consigo — falei, aos soluços. — Por favor, não me obrigue a fazer isso.
Anúbis suspirou.
— Foi um erro. Ela tão tem estofo para ver além de si mesma.
— Ela vai fazer — retrucou Amon. — É mais forte do que você imagina. — Amon segurou minha mão que não estava com a faca e me puxou mais para perto. Sua pele não reluzia mais, agora que seus poderes haviam sido tirados. — Lily — começou ele —, não pense no que vai ser perdido. Pense no que foi ganho.
— Nada foi ganho — retruquei, debruçada sobre ele.
Grossas lágrimas gotejavam do meu rosto sobre o peito dele.
— Nós derrotamos Sebak. Impedimos Seth de despertar. Isso não é um triunfo?
— Não é a sensação que tenho.
— Então saiba que você conquistou meu coração. — Delicadamente, ele levou minha mão ao seu peito, abrindo meus dedos ali. Pegou a mão que segurava a faca, levou-a até junto da outra e a ponta da lâmina tocou a pele logo acima do seu coração. Uma vez minhas mãos trêmulas corretamente posicionadas, ele ergueu a sua e acompanhou com os dedos o contorno do meu maxilar. Então sorriu: um sorriso lindo, solar, de partir o coração. — Eu te amo.
Um choramingo de protesto escapou da minha garganta quando ele se levantou para me beijar, mas o beijo foi breve.
Amon tornou a se deitar, os olhos arregalados, enquanto um filete de sangue escorria do canto de sua boca. Em pânico, recuei um pouco e, para meu horror, vi que a lâmina afiada estava cravada no peito dele até o cabo.
— Não — sussurrei. — Amon? Não! — gritei, puxando a faca do seu peito. O sangue brotou do corte profundo e começou a escorrer pela lateral de seu corpo. — O que foi que aconteceu? — gritei.
Anúbis veio examinar Amon.
— Eu lhe dei um empurrãozinho para apressar as coisas.
— Você fez... o quê?
Anúbis olhou para Amon, então se virou e me encarou.
— Eu ajudei. Disse a ele que ajudaria. Hum... é melhor se despedirem agora. Ele só tem mais alguns segundos.
— Amon? — Debrucei-me sobre ele. — Eu sinto muito. — Não conseguia vê-lo através das lágrimas. Com raiva, enxuguei o rosto e beijei sua testa, suas bochechas e os lábios. Tentei em vão estancar o sangue que parecia brotar incessantemente de seu peito. — Não era isso que eu queria — sussurrei.
Amon arquejou, o líquido gorgolejando em seus pulmões. Seu corpo então se convulsionou e os lindos olhos cor de avelã, que me fitavam, ficaram vidrados e não piscaram mais. Aos poucos, o ar que ele acabara de inspirar escapou de sua boca e ele se foi.
Segurei seu rosto com as duas mãos e afastei-lhe os cabelos da testa. Com os olhos cheios de lágrimas e as mãos tremendo, sussurrei com a voz embargada:
— Eu também te amo.
Fiz uma prece silenciosa para que, onde estivesse, ele me escutasse e soubesse como era profundo o meu sentimento.
Anúbis deu um grunhido de satisfação. Com raiva, girei nos calcanhares e levantei o dedo para ele, sem ligar a mínima para o fato de ele ser um deus poderoso.
— Ainda não estávamos prontos! — acusei.
Ele sorriu.
— É bom ver que você tem mais fogo no coração do que pensei de início. Mas sejamos honestos: vocês nunca estariam prontos.
— Você não tem como saber isso.
— Pois saiba você, minha jovem, que sou um excelente juiz de caráter. Na verdade, julgar o caráter das pessoas é meu ponto forte, digamos assim.
— Não estou nem aí para o que você faz dos seus dias. Poderia ter sido mais paciente. Mais compreensivo.
— Que diferença faz? Você vai ficar com o coração partido. Ele vai ficar com o coração partido, embora no caso dele o termo se aplique tanto no sentido literal quanto no figurado. Prolongar seu tempo juntos não iria diminuir a dor. Só serviria para tornar a separação mais difícil de suportar.
Trinquei os dentes. Uma indignação incandescente tomou conta de mim e disparei:
— Sabe de uma coisa? Você não merece que Amon seja seu servo. Você... você é indigno do sacrifício dele.
Anúbis parou de sorrir; seus olhos se estreitaram e ele deu um passo em minha direção.
— Como eu sou uma divindade todo-poderosa muito clemente, e como sei que você agora está sob o jugo das próprias emoções, vou tentar esquecer sua falta de respeito. Mas um aviso: no futuro, preste mais atenção nas suas palavras antes de decidir pronunciá-las.
Ele fez uma pausa e então continuou:
— Agora, se ficar em silêncio, eu a deixarei assistir enquanto preparo sua amada encarnação do deus do sol para a vida após a morte.
Com um gesto do pulso, Anúbis materializou uma grossa pilha de ataduras e limpou o sangue do peito de Amon.
Enquanto fazia isso, falou comigo:
— Você sabe qual é o verdadeiro objetivo de uma pirâmide?
Ergui os olhos para o deus, sabendo que aquilo era uma tentativa de me distrair do que estava acontecendo. O cão de Anúbis encostou o focinho na minha mão e me encarou com olhos tristes enquanto seu dono repetia a pergunta.
— O quê? Não. Acho que não — respondi.
— É um lugar de ascensão. Chama-se também casa da natureza, casa da energia e casa da alma. — Anúbis levantou as mãos e o corpo de Amon se ergueu da plataforma de pedra. Ele havia cruzado as mãos do rapaz sobre o peito, no estilo mais usual para as múmias. Enquanto eu continuava observando, Anúbis girou o pulso em um círculo, a areia se levantou do chão e ele criou longas tiras de tecido que se enrolaram em torno dos pés de Amon e começaram a envolver-lhe todo o corpo.
Anúbis seguiu falando:
— Um corpo é bem parecido com uma pirâmide, sabe? Pode canalizar grandes quantidades de energia. É capaz de abrigar uma alma, mas, apesar disso, é feito com materiais naturais que acabam voltando ao pó de onde vieram. Fabricar uma múmia, porém, é criar um corpo imorredouro, um corpo forte o suficiente para que o ka, ou a alma, que o deixar possa ocupá-lo novamente. Para isso, determinadas coisas precisam ser feitas quando uma pessoa morre. A primeira é preservar o corpo, como estou fazendo agora.
As ataduras haviam chegado ao pescoço de Amon, e não consegui mais segurar as lágrimas quando o tecido completou o processo e cobriu sua cabeça. Anúbis me espiou por baixo do corpo flutuante de Amon e disse:
— Estou tentando reconfortá-la. Preste atenção, por favor.
Fuzilei o deus com o olhar, mas ele me ignorou e retomou alegremente seu trabalho macabro.
Com a areia, fabricou um lindo sarcófago, um caixão de madeira encerada decorado com ricos relevos que retratavam a recente batalha de Amon contra Sebak e seu exército de mortos-vivos. Arquejei ao ver uma representação minha em pé sobre a pirâmide ao lado de Amon.
— Que... que coisa mais linda — comentei, admirada, e estendi a mão para tocar o sarcófago.
Com a ponta dos dedos, acompanhei a forma de uma jovem com os cabelos riscados de luz e os braços em volta de um homem iluminado com os raios cintilantes do sol.
— Gostou? A arte dos sarcófagos é uma das minhas especialidades. — Anúbis limpou a garganta com um pigarro e dei um passo para trás quando o corpo envolto em ataduras de Amon flutuou na direção do caixão e em seguida se acomodou lá dentro. — Como eu estava dizendo, para criar uma múmia, três coisas precisam acontecer.
— Preservar o corpo — sussurrei, parada para ver o que Anúbis estava fazendo.
O deus estava curvado sobre Amon. Usou areia para criar lindos broches cravejados de joias, que então dispôs um por um dentro do sarcófago com Amon.
— Muito bem — disse o deus da mumificação. — Você prestou atenção.
— O que são essas joias?
— Amuletos protetores. Para repelir quem quiser fazer o mal enquanto o corpo de Amon estiver adormecido. Embora o grão-vizir atual esteja vindo agora mesmo pelos túneis e logo vá chegar para levar os irmãos até um local escondido, sinto que é imperativo tomar todas as precauções. Eu não achava que os amuletos fossem necessários antes, mas o fato de o corpo de Amon ter sido subtraído aos cuidados do vizir neste milênio prova que nenhuma proteção deve ser ignorada. Agora... — Anúbis ergueu a mão para reunir mais areia, só que nada apareceu. — Que estranho.
— O que houve?
— A última joia é a que fica em cima do coração. Tem a forma de um escaravelho.
— Um escaravelho do coração? — perguntei.
— Sim. — Anúbis estreitou os olhos para mim. — Você sabe onde ele está?
Senti a garganta se contrair, e em vez de responder fiz outra pergunta:
— O que acontece se você não o encontrar?
Anúbis coçou a orelha.
— Nada, eu acho. O escaravelho do coração só ajuda o ka errante a encontrar seu corpo, mas Amon não deverá ter dificuldade com isso.
— Ótimo.
Nessa hora, decidi guardar segredo em relação ao escaravelho do coração. Se o fato de eu ficar com ele não fosse causar nenhum problema, eu o queria. Era o único pedaço de Amon que eu poderia ter quando tudo aquilo acabasse.
— Pronto. O corpo está terminado.
— Mas qual é a terceira coisa?
— Terceira? Eu ainda nem fiz a segunda.
— Ah. Pensei que os amuletos fossem a segunda.
— Não. A segunda parte é dar vigor ao corpo, provendo-o de substância.
— Mas a comida não vai... sei lá, apodrecer depois de alguns dias?
— Sim, mas eu não disse que iria provê-lo de alimento. A palavra que usei foi “substância”.
Franzi o cenho e cruzei os braços.
— Creio que tenho certa familiaridade com essa palavra.
— Muitas pessoas a compreendem de forma equivocada — continuou ele, ignorando o que eu dissera. — Quando digo prover de substância, estou me referindo a prover o corpo de energia suficiente para ele se sustentar durante pelo menos um milênio, talvez um pouco mais. A força necessária para manter o corpo de Amon quando ele despertar está contida nos seus vasos canópicos.
— E foi por isso que ele precisou de mim quando não conseguiu encontrá-los.
— Sim.
— Mas, se você compartilhar sua energia, não vai ficar esgotado?
— Como eu sou um deus, minhas reservas são grandes o suficiente para prover de energia os três filhos do Egito durante esse tempo todo, sem me prejudicar.
Ele se inclinou acima da forma deitada de Amon e o tocou no ombro. Cheguei a ver a energia em forma de luz brotar dos ombros de Anúbis e descer por seus braços em ondas até entrar em Amon. Quando acabou, ele deu um passo para trás.
— Pronto. E agora, a última coisa. — Ele foi até a cabeceira do sarcófago e fez um gesto impaciente com o braço para que eu me aproximasse. — Venha. Você pode se juntar a mim neste último ato.
— O que tenho que fazer? — sussurrei.
— Precisamos recitar um encantamento do Livro dos Mortos e celebrar o nome dele enquanto o fizermos. Ao nomeá-lo, vinculamos seu corpo, o ka, sua alma, o ba, seu caráter, e o shuwt, sua sombra. O nome é a quinta peça que liga as outras quatro.

Guardiães do céu, da terra e de mais além,
A barca sagrada iniciou sua jornada
Levando consigo o querido filho do Egito.
Seu nome lhe foi dado pelo grande deus Amon-Rá.
Ele será tomado de volta. Será recuperado.
Ponham uma guirlanda de merecimento em seu pescoço,
Pois ele superou seus trabalhos terrenos.
Deem paz à sua alma e, quando chegar a hora,
Permitam que ele encontre o caminho de volta ao seu corpo.
O Olho de Hórus será seu guia.
Nós somos aqueles que lembramos seu nome após a morte.
Somos aqueles que gravaram seu nome no sarcófago.
Somos aqueles que gravaram seu nome em nossos corações.
Ele é AMON, daqui em diante e para sempre.
Invocamos seu poder, sua alma, seu corpo e sua sombra, e damos esse nome a cada um destes.
Que seu corpo fique protegido,
Para ele poder ascender em glória mais uma vez.
Vá agora, Amon, para um lugar de repouso,
Até a hora de nosso reencontro.

Ao final do encantamento, Anúbis ergueu as mãos, com as palmas para cima, e uma nuvem rodopiante de areia se solidificou até tomar a forma de uma tampa esculpida com motivos elaborados. Esta desceu com um baque decidido, encaixando-se no lugar, e tive a sensação de que o meu coração estava sendo trancado no sarcófago junto com Amon.
Um peso grave se abateu sobre mim, e de repente eu não podia mais respirar. Estava sufocando. Apoiei uma das mãos trêmulas sobre a superfície de madeira encerada, a escuridão foi se espalhando pela periferia do meu campo de visão e a última coisa de que me lembro é de desabar no chão.



Quando recobrei os sentidos, o calor das pirâmides havia desaparecido. Eu me vi rodeada por relíquias egípcias, mas algo estava diferente. Pus a mão sobre um piso frio de cerâmica branca e ergui o corpo até me sentar.
Um barulho próximo fez com que eu me virasse. Nas sombras, um homem grande e bonito estava apoiado na parede; a seus pés havia a estátua de um cão sentado, as orelhas pontudas espetando o ar.
— Anúbis? — arquejei.
Ele estava de terno e gravata, em traje de executivo.
Deu um passo à frente.
— Vou deixá-la no lugar em que encontrou Amon pela primeira vez. Adeus, Lilliana.
Com um piscar de olhos, Anúbis desapareceu junto com a estátua do cão.
— Espere! — chamei, mas não obtive resposta.
Levantei-me, atrapalhada, e reparei, irritada, que estava novamente usando minha camisa de grife, a calça capri e as sandálias de couro italianas. Minha bolsa, da qual o caderno despontava, encontrava-se encostada em uma parede, os folhetos das universidades dispostos em um semicírculo bem arrumado perto dela.
— Amon? — chamei, e corri em direção à parte interditada da exposição sobre o Egito.
Além do plástico, encontrei o mesmo espelho de cobre, as mesmas ferramentas, as mesmas caixas e a mesma serragem, mas nenhuma pegada. Nenhum sarcófago. Nenhum caixote grande com os escritos MÚMIA DESCONHECIDA DO VALE DOS REIS.
Amon havia sumido. Era como se ele jamais houvesse feito parte da minha vida. Jamais houvesse existido.
Um brilho dourado atraiu meu olhar; esperançosa, fui até lá, mas tudo o que encontrei foi a estátua de ouro de um falcão: Hórus, o Dourado. Encostei as mãos na vitrine; lágrimas escorriam dos meus olhos. Por um breve instante, enganei minha mente e tentei me convencer de que ele estava ali, junto comigo. Só que não estava. Amon tinha ido embora.
Suspirei, trêmula, enxuguei o rosto e, com a bolsa na mão, deixei a galeria do museu. Anestesiada, caminhei em direção à entrada e fiquei surpresa ao sentir a mão de alguém tocar meu braço.
— Senhorita Lilliana? Está tudo bem?
Respirei fundo e tentei sorrir, mas não sei se os meus lábios conseguiram formar muito mais que uma careta.
— Oi, Tony — falei. — Estou bem, sim. É que tive um dia muito, muito longo.
— Ah, então tenha uma boa noite, senhorita Young.
— Vou ter, sim. Ah, e Tony? — Ele se virou. — Por favor, me chame de Lily.
Ele abriu um sorriso caloroso.
— Claro, senhorita Lily.
Quando saí do museu, os cheiros, imagens e sons da cidade de Nova York me esmagaram. Eram conhecidos, mas não eram mais o que eu amava.
Como esquecer as paisagens de areia varrida pelo vento, os oásis no deserto, as pirâmides antigas e as múmias ressuscitadas e voltar à vida que eu conhecia antes? Minha temporada com Amon havia me transformado por completo.
Não era certo ficarmos separados. Eu não podia sequer pôr flores no seu túmulo.
Mesmo assim, sentia-me grata por saber que ele existia em algum lugar e que continuaria a existir muito tempo depois de eu desaparecer. Reconfortei-me um pouco pensando na sua promessa de me proteger de onde estivesse; no fundo do coração, sabia que ele estaria sempre comigo.
Amon tinha dito que um vínculo como o nosso significava que nos veríamos em sonho. Eu sabia que matá-lo devia ter rompido esse vínculo, mas ele não me parecia tão distante assim. Fechei os olhos, ergui o rosto para o sol, senti a pele se aquecer e imaginei que fosse Amon acariciando meu rosto. O calor desceu pelos meus ombros e pelo tronco antes de se concentrar no coração.
Senti um ardor, e sorri ao perceber meu coração batendo. Então baixei os olhos, intrigada, quando notei algo se mexer no bolso da blusa. Pus a mão lá dentro e encontrei o escaravelho do coração de Amon. No fim das contas, aquilo não era o meu coração batendo. Era a pedra marcando um ritmo lento, uma cadência reconfortante, cálida e viva na palma da minha mão. Embora os obstáculos parecessem insuperáveis, o coração de Amon era um pequeno milagre que me dava esperança.
Com um sorrisinho secreto, envolvi o escaravelho do coração com os dedos e ergui a outra mão para chamar um táxi.

3 comentários:

  1. É sério que vai acabar assim???????????

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  2. Esses dois me lembram Luce e Daniel!!

    Flavia.

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  3. chorei litros por eles scr mas foi legal ver um fim diferente
    vish

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