25 de outubro de 2016

23. Sangue do coração

Tirei uma flecha de Ísis da aljava. Restam onze. Os olhos amarelos da criatura se arregalaram, seu corpo foi virando fumaça. Mas, antes que ele pudesse desaparecer por completo, cravei a flecha fundo no músculo grosso do pescoço do chacal, esperando que ela se firmasse.
Felizmente isso aconteceu. Um uivo fantasmagórico encheu o ar e logo foi ecoado por cada membro da matilha. Imaginei se minhas ações teriam nos salvado ou simplesmente dado aos cães do inferno o motivo de que precisavam para atacar.
Afastando o braço, invoquei minhas garras, preparando-me para cravá-las na garganta do animal que se retorcia embaixo da minha flecha.
— Como chegamos à Floresta Turquesa? — gritei.
Não nos curvamos à sua vontade. Não importa quem a proteja.
— Você vai me contar ou morre — sibilei.
O chacal virou rapidamente a cabeça para morder meu braço, mas fracassou. Todo o seu corpo tremia enquanto tentava virar fumaça, mas a flecha o obrigava a permanecer como carne e sangue.
Nós não servimos a ela. Não mais, sibilou. Agora obedecemos a uma nova rainha.
— A Devoradora — completei, e me perguntei se teria cometido um erro grave ao achar que aquelas feras seriam pacificadas tão facilmente quanto os ceifadores. — Ótimo. Então você escolhe a morte! — exclamei, segurando a flecha, torcendo-a e enterrando-a mais fundo.
A fera gritou com um ganido patético.
Espere!, cuspiu ele.
— Mudou de ideia? — perguntei com falso ar de inocência.
O chacal não respondeu de imediato e eu dei de ombros, na intenção de acabar com ele. É o que ele merece, minha voz interior me garantiu. O vira-lata, carniceiro da morte. A espécie dele é uma praga na savana. Não serve nem para aves de rapina. Toda a espécie precisa ser erradicada.
O que está acontecendo comigo? Pisquei, tentando entender meus pensamentos. Eu nunca tinha sido vingativa. Principalmente com relação a animais. Claro, aquele ali pretendia nos transformar em jantar e eu o mataria se fosse necessário, mas preferia afugentar todos, na pior das hipóteses, e, na melhor, arrancar deles a informação de que precisávamos. Esses pensamentos sombrios de matar absolutamente todos devia ser coisa da esfinge. Espero. Preciso me controlar.
— Olhe — argumentei —, prefiro não matar você. — A voz dentro de mim gritou em oposição. — Só quero levar meu amigo à Floresta Turquesa. Não há necessidade de derramar sangue.
A única coisa que me impedia de atacar – um gesto que certamente acabaria na minha primeira morte ou na segunda de Asten e Ahmose, ou de todos os três – era a lembrança de que Asten estava se deteriorando rapidamente. Ele precisava chegar à cura. Isso era muito mais importante do que qualquer possível necessidade de matar a matilha de chacais monstruosos.
— Digam o que preciso saber, agora mesmo! — gritei para o grupo. — Digam ou o seu líder morre!
Olhei o círculo de olhos amarelos piscando até que notei um movimento à direita. Um chacal menor, fêmea, avançou devagar. Não temos opção a não ser obedecer, apesar de meu pai lutar valorosamente contra a coerção, disse ela.
Uivando de dar pena, ela avançou se arrastando à frente e encostou a cabeça no flanco do pai. Ele se virou e a mordeu, abocanhando sua pata e apertando até sangrar, mas mesmo assim ela falou: Você deve entrar nas Águas do Esquecimento. Mergulhe fundo. Quando emergir, vai estar na Floresta Turquesa.
Ouvi um estalo e o pequeno chacal soltou um grito. O pai havia quebrado a pata da filha. Ela desmoronou e lambeu o sangue do membro partido.
— Uma última coisa — falei, me curvando para falar com a filhote que sofria. — Por que ainda não atacaram?
Não podemos, gemeu a pequenina. Não enquanto a flecha estiver no nosso líder.
A fera principal rosnou, maligna, e latiu para a matilha. Os outros ecoaram os latidos e eu soube que era apenas questão de tempo antes que se lançassem sobre nós. Levantei as costas e disse:
— Então é melhor irmos. Ahmose, leve Asten até a água. Vou me juntar a vocês em instantes.
O ódio do chacal por mim era tangível.
Vou rasgar sua barriga e me refestelar em suas entranhas suculentas enquanto você olha, prometeu, sem que os olhos que pareciam joias jamais se desviassem dos meus. Se a Devoradora encontrar você primeiro, ela vai fazer ensopado com seus ossos e jogar para mim as entranhas fervidas como petisco. De qualquer modo, vamos consumir você.
— Nenhum chacal — cuspi a palavra para o animal ferido — jamais vai me pegar desprevenida. — Com isso segurei a flecha e a cravei o mais fundo que pude em seu pescoço, depois quebrei a haste, deixando a ponta entranhada em seu corpo. Ele desmoronou, mas ainda estava vivo. Torci para que permanecesse assim pelo tempo suficiente para escaparmos.
A matilha começou a latir feito louca, uma cacofonia que entendi e temi instintivamente. Eles nos caçariam. Apesar de se curvarem ao poder de Ísis, agora serviam à Devoradora. Diferentemente dos ceifadores, esse grupo de criaturas do mundo dos mortos não ia nos ajudar contra aquela a quem serviam.
Mantendo as costas voltadas para o poço, os olhos fixos nos animais, que chegavam mais perto, fui recuando lentamente, um passo de cada vez. Logo estava à beira d’água e, sem olhar para baixo, me dirigi cada vez mais para o fundo até a água estar batendo no peito. Torci para que ela não estragasse o arco, mas nenhuma opção me ocorreu a não ser mergulhar com ele.
Por alguns segundos achei que os chacais tinham nos enganado, levando-nos para uma posição mais vulnerável antes de nos atacar. Mas então me lembrei dos ceifadores. Eles tinham dito que chegaríamos à floresta encontrando a Fonte dos Chacais e seguindo o caminho por baixo.
Mergulhar no poço era o caminho mais baixo que poderíamos seguir. Respirei fundo e mergulhei, com Asten e Ahmose logo atrás.
Nadei, descendo cada vez mais, mas não consegui encontrar o fundo. Senti um braço roçar no meu, mas, quando tateei no escuro e olhei naquela direção, não vi nada além do negrume. Batendo as pernas, continuei. Diferentemente do que havia acontecido no Lago de Fogo, meus pulmões começaram a arder. O que quer que estivéssemos procurando, era melhor encontrar logo. Pisquei.
O que era mesmo?
Nós estávamos procurando alguma coisa. Nós? Quem éramos nós? Por que estou na água? Isto é um sonho? Um pesadelo? Minha mente era uma página em branco. Gritei, mas rapidamente reprimi o grito para economizar o ar. Bolhas escaparam de minha boca, descendo para onde eu estava virada, e não para cima. Bati os braços e nadei em círculos, procurando alguma coisa, qualquer coisa, que me dissesse onde eu estava e como sair.
Então, de repente, uma luz se acendeu perto de mim. Assumiu a forma de um homem. Era bonito e forte, mas seu rosto indicava dor. Movia-se desajeitadamente na água. Nadei para perto dele, querendo ajudá-lo, e nisso esqueci a pontada nos pulmões. Ele me fitou com uma expressão curiosa quando me aproximei, mas estava claro que também não sabia quem eu era.
Hesitante, estendi a mão para a dele. Quando nossos dedos se tocaram, minhas lembranças voltaram num jorro. Asten. Juntos procuramos Ahmose e o encontramos ali perto. Quando Asten segurou o ombro dele, Ahmose olhou para nós. Seu corpo se iluminou como o de Asten, com uma diferença: o corpo de Asten era de um branco brilhante a ponto de ser quase azul, e o de Ahmose, de um branco mais suave, mais pálido. Os dois eram diferentes de Amon, cuja pele reluzia num tom de ouro amanteigado. Perguntei-me se aquela variação teria algo a ver com seus poderes ou com os corpos celestiais que representavam.
Então lembrei do amuleto que Hórus tinha me dado. Ele dissera que a pedra não só ia me curar como também me ajudaria a me orientar. Assim que segurei a pedra, tudo mudou. Meu corpo se moveu na água como se houvesse uma força invisível me puxando. Nós três começamos a nos mover, mas não por esforço próprio; era a água. Assim que os três nos unimos, ela jorrou à nossa volta com tanta força que precisei fechar os olhos.
Mal podia ver Asten e Ahmose através da nuvem dos meus cabelos, mas suas auras reluzentes ainda iluminavam a água que nos cercava, por isso eu sabia que eles estavam perto. A luz do dia nos chamava para o alto e, justo quando não pude mais segurar o fôlego, rompemos a superfície.
Tia?, tentei alcançá-la, mas, desde nossa luta, ela estava silenciosa. Procurei-a mentalmente, mas não pude sentir sua presença. Percebi então que vinha se tornando cada vez mais difícil encontrá-la quando ela não queria ser achada.
As preocupações com Tia, porém, tiveram de ficar em segundo plano. A primeira coisa que precisávamos fazer era pegar o unguento da árvore para salvar Asten. Tínhamos de descobrir qual árvore na floresta era a mãe. Vadeei até a margem e fiquei de pé, sacudindo vigorosamente o corpo para tirar o excesso de água e torcendo o cabelo, aborrecida por tê-lo mantido por tanto tempo.
Sabia que deveria raspá-lo ou, no mínimo, cortá-lo. Estava uma confusão só e os fios compridos se embolavam.
Jogando-o por cima do ombro, verifiquei imediatamente as armas, tirando pelo menos um litro de água de dentro da aljava. Agachei-me perto de Asten e pus a mão em sua testa. A pele estava fria; eu não sabia se isso era natural para ele no mundo dos mortos ou se estava mesmo perto da morte.
— Vamos encontrar a cura — sussurrei — e esse sofrimento vai passar como a água de um rio fundo.
Franzi a testa. Quando foi que me tornei assim tão poética?
No entanto, fui recompensada pela eloquência quando Asten pegou minha mão, me presenteando com um leve sorriso que aprofundou a cova em seu queixo. Retribuí o sorriso, mas depois balancei a cabeça ligeiramente e tirei a mão.
— Ahmose, precisamos encontrar a árvore-mãe — declarei.
— Eu vou — ofereceu-se ele. — Você deve ficar com Asten.
— Não. É melhor eu ir. Esta floresta é a mesma por onde viajei nos sonhos... — olhei para Asten, cujos olhos me examinavam abertamente — ... com Amon.
Alguma coisa me fez sentir culpa quando disse seu nome em voz alta.
Asten virou a cabeça.
— Deixe-a ir — disse baixinho a Ahmose. — Mas, se você não voltar em algumas horas, vamos procurá-la.
Assenti, embora soubesse que tão cedo Asten não sairia de onde se encontrava.
— Algumas horas, então — concordei.
Levantando-me, segui para a floresta, memorizando os cheiros que me guiariam de volta ao lugar onde os havia deixado.
Contornando o poço amplo, examinei as árvores por ali, me perguntando como seria uma árvore-mãe. Imaginei que seria a mais velha da floresta, e as que ficavam perto do nosso acampamento tinham no máximo uns dez anos, pelo menos pelo que eu sabia da flora no mundo dos vivos. Além disso, as folhas das árvores mais novas tinham um tom azul mais brilhante.
Sabendo que precisava encontrar uma área de árvores mais antigas, tomei a direção oeste, procurando os grupos de espécimes mais escuros. Meus passos eram suaves, quase silenciosos, enquanto seguia pelo musgo macio que crescia em tufos verde-azulados. Odores mais almiscarados, de idade e morte, me informaram que estava indo na direção certa.
A floresta se encontrava num silêncio fantasmagórico. Não se ouvia o zumbido normal de insetos ou o canto dos pássaros. Animais maiores se escondiam nos arbustos. Eu podia ouvi-los se movimentando, intranquilos com minha presença, mas o fedor de amônia se grudava neles, tornando-os totalmente impróprios como alimento.
Por duas vezes senti o cheiro de algo que fez minha boca se encher d’água, e quando parei só por um instante tive a sorte de capturar um deles. Joguei o corpo na minha sacola, mas o que eu havia apanhado não seria grande coisa como jantar.
A floresta era fria. Era o lugar mais frio em que eu estivera no mundo dos mortos. Ansiei por sentir o sol na pele. Como seria bom me esticar no capim aquecido e aproveitar o calor do sol!
Andei e andei pela floresta, mas as árvores que via eram novas, as folhas turquesa cintilando e dançando à brisa fria.
— Olá? — gritei para qualquer criatura que estivesse ouvindo. — Estou procurando a árvore-mãe.
Não houve resposta. Uma hora depois finalmente cheguei a uma parte mais antiga da floresta. Essa região era escura, especialmente no interminável crepúsculo do mundo dos mortos. De novo gritei, dessa vez mais baixo:
— Olá?
Nada. Mas podia sentir que alguma coisa me vigiava. Senti o calor denunciador formigando em minha coluna.
Parei ao pé de uma árvore grande, muito parecida com a que tinha dado água a Amon no meu sonho. Pelo canto do olho percebi minúsculas asas adejando, mas, quando me virei naquela direção, não havia mais nada.
Era possível que eu tivesse imaginado, mas por um momento pensei ver movimento nos galhos que se arqueavam sobre minha cabeça.
— Que floresta linda! — falei, bocejando, na esperança de que elogios atraíssem quem me vigiava. — É de longe o lugar mais lindo e seguro do mundo dos mortos. A gente quase esquece todos os problemas aqui. É um paraíso num lugar infernal.
— Não estou nem aí! — ouvi uma voz minúscula sussurrar.
Pisquei e prendi a respiração, tentando captar novamente as palavras. Eu não as teria percebido se não fosse minha superaudição de esfinge.
— E daí se você gosta dela? Não vou lá embaixo. — Uma pausa. — Se ficarmos quietas, ela vai embora.
— É você, fada pequenina? — arrisquei, mas a única resposta foram os ramos farfalhando. — Não vou machucar você. Venha conversar comigo, por favor...
Após alguns segundos de silêncio um galho estalou no alto da árvore e um objeto reluzente desceu em disparada. Parou flutuando à minha frente, cruzou os braços e disse:
— Não sou pequenina. E seu lugar não é aqui. Sugiro que vá embora.
Abri um sorriso.
— Você me parece bem pequena, bonitinha.
— Ah, eu sou bonita mesmo — disse a fada, acariciando o cabelo ruivo e brilhante e agitando as asas quase translúcidas. — Mas não sou pequena. Sou tão grande quanto você. — Ela levantou o queixo com orgulho e depois me olhou de cima a baixo. — Ou pelo menos já fui. Bom, talvez não tão grande quanto você. Suas mãos são gigantescas! — Ela olhou minhas mãos, boquiaberta.
— O quê? — Levantei-as para examiná-las e franzi a testa. Minhas mãos são grandes demais? Será que as garras fizeram alguma coisa com elas? Agora tenho dedos de gorila? Eu nunca havia me sentido insegura em relação a uma parte do meu corpo e não gostei daquele sentimento. Olhei para ela, a testa ainda franzida. — Minhas mãos são perfeitamente proporcionais ao restante do corpo.
— Eu discordo — disse ela, voando em círculos ao meu redor. E farejou delicadamente. — E mais: para mim você está com um cheirinho de sujeira, também.
— Olha, eu passei por muitas coisas. Não vim aqui para brigar com você. Preciso de um favor.
— Rá! Eu falei que ela queria alguma coisa. — Ela balançou o dedo para a árvore como se dissesse “Eu avisei”. — O que você quer? — perguntou com as mãos nos quadris. — Não que eu vá dar. Só estou perguntando para acabarmos logo com isto e nos livrarmos de você.
Estreitei os olhos para a fada.
— Você é uma coisinha impertinente. E pensar que quase senti pena de você vendo como ajudou Amon quando ele estava morrendo de sede.
A fadinha me olhou boquiaberta, em choque.
— É um truque. Não vê? — disse ela para a árvore. — As palavras bonitas dela não passam disso. Se a gente escutar o que ela fala, isso vai acabar mal. Eu tenho certeza. — Ela inclinou a cabeça para ouvir, mas eu não escutei nada. — Nem venha com essa! Você confia demais! — gritou para a árvore.
— Você tem mesmo o tronco rachado. Talvez a Devoradora a tenha mandado. Já pensou nisso? — A fada girou e ergueu as mãos, atarantada. — Está bem! Vou perguntar. Isso vai deixar você feliz?
— Não quero fazer mal a nenhuma das duas — declarei. — E não fui mandada pela Devoradora. Na verdade, eu vim aqui para destruí-la. Ela está com meu... meu Amon prisioneiro, e agora mesmo, enquanto conversamos, ela está sugando a energia do coração dele.
A fada piscou.
— Amon é seu namorado, então?
Confirmei com a cabeça.
— E você disse que a Devoradora o pegou? — perguntou, parando imediatamente de discutir.
— Nós dois somos... conectados. Foi assim que eu soube que você estava aqui.
A mocinha alada aproximou-se e me olhou nos olhos.
— O que você quer de nós?
— Meu... amigo, irmão de Amon, foi picado por um ceifador. Eles disseram que o unguento da árvore-mãe da Floresta Turquesa poderia salvá-lo. Estou presumindo que esta seja a árvore-mãe — falei, indicando a copa folhosa acima de nós.
— Claro que esta é a árvore-mãe — disse a fadinha, irritada, e soltou um sopro de ar. — Mas não importa. Ela não vai lhe dar o unguento.
— O quê? Por que não? Você não quer que a gente salve Amon?
— Quero. Isto é, não fico feliz por ele ter ido parar nas garras da Devoradora, mas na verdade a culpa é dele. Se tivesse ficado aqui, escondido, como eu disse a ele...
— Bom, agora o irmão dele está morrendo. É isso que você quer? Não sente nenhuma simpatia pelos outros?
A fada ofegou, como se tivesse levado um tapa. Lágrimas encheram seus olhos verdes brilhantes, embora ela se recusasse a deixá-las se derramar, e suas faces rosadas ficaram ainda mais coradas.
Ela respirou fundo algumas vezes, depois disse com voz abafada:
— Eu... não quero que nada de mal aconteça com Amon nem com o irmão dele. E não pense que sou ingrata. Não sou. Só aprendi a ter cuidado. Você precisa entender que a árvore enfraquece quando dá a seiva. A força dela impede que o mal lá de fora entre na nossa floresta. Se ela entregar a energia para salvá-lo, não vai ficar com o suficiente para nos proteger nem para proteger a si mesma. Ela poderia morrer.
Soltei um breve suspiro e disse:
— Sinto muito. Mas você precisa entender que eu sou capaz de qualquer coisa para salvar Asten. Estou pedindo porque é o modo certo de fazer as coisas, mas eu... preciso dele. Ele tem de viver. Qualquer outra coisa é inaceitável.
— Devo entender que você está nos ameaçando? Não gostamos de ameaças. Especialmente vindas de garotas recém-chegadas do campo como você.
Eu não tinha a menor ideia se ela tinha acabado de me insultar ou elogiar.
— Não é ameaça — repliquei. — É só como as coisas são.
A fadinha me olhou desconfiada.
— Olhe — eu disse —, dê apenas o suficiente para salvá-lo. Só peço isso. Nós até podemos ficar acampados aqui, vigiando a árvore enquanto ele se cura, mas, assim que isso acontecer, precisaremos ir em frente.
— Não gosto muito de você — disse a fada, franzindo a testa. — E além disso... — Ela parou e virou a cabeça bruscamente para o alto. — Não! — gritou. — Não vou fazer isso, seu arbusto tolo. — Em seguida disparou cerca de um metro e meio para o alto e olhou o tronco com expressão incrédula. As folhas da árvore tremularam. — Você não pode! Não faça isso! — gritou, sacudindo o punho.
A fada voou ao redor do tronco, gritando e puxando o cabelo ruivo. Fiquei de pé e tentei acompanhar seu voo errático, mas nisso um galho em movimento atraiu minha atenção. Ele passou por cima da minha cabeça e sua ponta fina tocou o tronco. Lentamente riscou um caminho descendente e com isso uma luz irrompeu do tronco, rachando-o, como se o galho estivesse abrindo um zíper.
Estreitei os olhos por causa da claridade, mas vi que alguma coisa batia dentro do tronco.
Respirando fundo, percebi que estava vendo o coração da árvore. O globo reluzente pulsava num ritmo lento e constante. Era lindo. A árvore tinha pegado seu coração de volta. Havia enfrentado seus demônios, como Asten. Sorri, mas nesse momento o membro fino furou o coração da árvore.
— Não! — gritei, justamente quando a fada desceu ligeira para ver o que estava acontecendo.
Então irrompeu em copiosos soluços, agarrando-se ao tronco.
— Depressa, pegue o líquido que escorre do coração — disse a fadinha. — Não deixe que se desperdice nem um pouquinho!
Corri para a árvore e pus as mãos em concha perto de seu coração. A seiva branca, quente e pegajosa, escorreu para os meus dedos. A fada voltou justo quando a seiva ameaçava se derramar e trouxe uma folha enorme visivelmente pesada demais para ela, mas, de algum modo, conseguiu posicioná-la embaixo das minhas mãos. Levantei o joelho para sustentá-la e com cuidado deixei toda a seiva escorrer para ela. A fada ergueu um dos lados para impedir que a seiva escorresse pela borda.
— Agora chega! — ordenou a fada.
A luz dentro da árvore havia diminuído significativamente. Depois de mergulhar com delicadeza as mãos na seiva, a fada comprimiu as palmas contra o ferimento no tronco, esfregando a seiva nas bordas, e o corte fundo se fechou.
— Sua árvore idiota, altruísta, generosa demais, que adora correr riscos! — lamentou a fada. — Morrer uma vez não bastou? Você teve de lutar tanto para conseguir o coração de volta e agora entrega para a primeira pessoa que pede ajuda.
A fada se virou para mim com um olhar furiosíssimo.
— Espero que esteja feliz. Agora saia daqui e salve o irmão de Amon. Se conseguir fazer metade das coisas que prometeu, vou ficar impressionada. Mas provavelmente esse presente precioso vai ser desperdiçado. Sugiro que use suas mãos gigantes para garantir que nenhuma gota se derrame. E aqui. — A fada estalou os dedos e uma bolsa se materializou encostada no meu quadril.
— O que é isto? — perguntei.
A fada deu de ombros.
— A ideia não foi minha. A árvore acha que você vai precisar. Se fosse por mim, não teria dado nada. E vou avisar agora mesmo: se eu descobrir que você é uma forjadora de mentiras, vou caçá-la e fazê-la sofrer até que nem todos os trevos da Irlanda possam salvá-la.
Assenti, solene. Por mais que ela fosse diminuta, levei suas palavras a sério.
— Obrigada — eu disse à árvore, depois me virei para a fada. — Então, como eu faço o unguento? — perguntei, irritada com ela, mas ao mesmo tempo com respeito e gratidão.
— A seiva é o unguento. É o sangue do coração da árvore. Agora vá. Depressa. E espero nunca mais pôr os olhos em você.
Com isso, me levantei cautelosa, cuidando para que a seiva se mantivesse estável na folha.
Depois de dar alguns passos, virei-me.
— Obrigada. Às duas. Prometo que este presente será lembrado e bem usado. Se houver algum modo de retribuir o favor, contem comigo.
Demorei duas horas para voltar ao acampamento e, quando entrei na clareira, senti dois cheiros distintos. O primeiro era de uma fogueira, e me senti grata por Ahmose ter acendido um fogo. Se ele ainda não havia caçado, achei que poderíamos comer o que eu tinha trazido e de manhã caçar de novo. Francamente, nesse momento o sono era mais importante para mim do que a comida. O segundo cheiro que senti foi de deterioração. Podridão. E me detive bruscamente, uma sensação de horror tomando conta de mim.
— Ahmose, ele...?
— Morreu? — Ahmose sacudiu a cabeça. — Ainda não.
— Então precisamos correr. Espero que possamos salvar a perna. Esse unguento deve curá-lo. Só espero que seja suficiente. — Aproximei a folha cheia de seiva da perna dele e cobri o ferimento com ela. O líquido reluzente empoçou lentamente embaixo da folha e escorreu gosmento pela coxa dele. Esfreguei a folha em círculos minúsculos, certificando-me de concentrar a maior parte da seiva no ferimento. Asten gemeu e se debateu. — Segure-o! — gritei para Ahmose.
Eu não sabia o que faria se o perdesse.
— Vou lavar as mãos. Você pode fazer ataduras novas?
Ahmose assentiu e fui até o poço, mergulhando as mãos na água e esfregando com força.
O líquido reluzente chiou e borbulhou, criando uma nuvem de luz que lentamente se dissipou. Onde a água brilhante batia na margem, minúsculas coisas verdes começaram a reluzir e crescer. Plantinhas estendiam as folhas vibrantes e o musgo se adensou e se espalhou. Fiquei observando, fascinada, e depois corri de volta para Asten.
Ahmose estava enrolando a perna do irmão.
— A febre já diminuiu — disse ele. — Parece que seu unguento está funcionando.
— Vamos torcer para que não seja tarde demais.
Ahmose terminou de enrolar as ataduras e se levantou.
— O que é isso? — perguntou.
— O quê?
— Que sacola é essa? Você não estava com ela quando saiu daqui.
— Ah. É uma coisa que a fada me deu. Isso e um tipo de criatura da floresta que eu peguei.
— Fada?
— Sim. É uma longa história. — Puxei o cordão, soltando a sacola, e a abri. — Comida! — exclamei. Dentro havia uma variedade de castanhas e frutas secas. — A árvore fez questão que eu trouxesse isto, junto com a seiva.
— Teremos de agradecer a ela — disse ele, enfiando a mão na bolsa para pegar um punhado.
Também me entregou um odre de água, e pelas grossas dobras de tecido vi que ele o havia feito e provavelmente enchido com a água do poço. Vários outros estavam na base de um tronco caído, gordos e quase estourando com o líquido precioso.
Ahmose sugeriu que nos revezássemos vigiando e se ofereceu para ficar de olho em Asten enquanto eu dormia. Fiquei grata demais, e tinha acabado de deixar que o sono se aproximasse furtivamente quando um pensamento me ocorreu. Lembrei que de jeito nenhum poderia dormir até que Asten pudesse vigiar meus sonhos. A probabilidade de a Devoradora nos encontrar seguindo meu eu do sonho era grande demais para que eu corresse o risco.
Ahmose já havia se afastado, circulando em volta do nosso pequeno acampamento. Não querendo incomodar Asten nem interromper seu processo de cura, espiei o ferimento, notando que um cheiro medicinal havia substituído o fedor de podridão. Parecia estar se curando em um ritmo muito rápido. Ele se remexeu.
Agachei-me ao seu lado e pousei a ponta dos dedos em sua testa para ver se estava com febre.
— Como está se sentindo? — perguntei.
Asten abriu os olhos.
— Não tão bem como você parece estar. — Ele me ofereceu uma versão débil de seu sorriso maroto. Mas este foi tão bem-vindo quanto a época das chuvas depois de uma seca. Eu não tinha percebido quanto sofrera com a possibilidade de nunca mais vê-lo. — Oi, leoazinha — disse ele em voz baixa. — É bom ver que você conseguiu voltar. Se tivesse de ir atrás de você, eu a faria se arrepender.
Retribuí seu sorriso.
— Por que não guarda essa ameaça para quando puder cumpri-la?
— Talvez eu faça isso — respondeu ele, e suspirou, tornando a fechar os olhos.
Quando supus que ele tinha caído no sono de novo, tentei me afastar, pensando em encontrar Ahmose e dizer que não havia sentido em nós dois ficarmos acordados, mas Asten segurou minha mão e a apertou contra o peito.
— Não me deixe — murmurou, sonolento.
Devagar, levantei a outra mão para afastar seu cabelo da testa.
— Não vou, Tene. — Franzi a testa, cogitando onde teria ouvido essa palavra. Seria egípcia? Asten respirou fundo e senti na mão as batidas de seu coração. — Agora fique quieto. Você precisa descansar.
— Você também precisa dormir. — Sua voz vibrou levemente sob o peito.
— Eu... não posso. Primeiro você precisa ficar bem.
— Estou me curando. Posso sentir os efeitos do veneno se esvaindo. Então relaxe. Vou sobreviver.
— Não é isso. — Minhas bochechas ficaram vermelhas. — Você precisa estar suficientemente bem para... vigiar meus sonhos.
Asten abriu os olhos, inclinando a cabeça para me olhar.
— Posso fazer isso — disse baixinho.
— Mas eu pensei...
— Venha. — Asten estendeu os braços. Quando viu que hesitei, explicou: — Vai ser mais fácil para mim se estivermos nos tocando enquanto dormimos.
Assenti e me desloquei, desajeitada, para o seu lado. Ele então me envolveu com um dos braços. Em seguida, me puxou mais para perto, minha cabeça apoiada em seu ombro, e pegou minha mão e a levou ao peito.
— Pronto — disse ele. — Muito melhor. Agora tente acalmar o corpo. Prometo que vou esperar você em seus sonhos.
Havia alguma coisa ao mesmo tempo apavorante e empolgante nessa ideia, mas tentei seguir suas instruções e acalmar meu coração disparado. Felizmente o corpo estava tão exausto que não protestou muito e eu fechei os olhos, deixando a mente vaguear para longe, muito longe.

Um comentário:

  1. Sério? eles simplesmente pularam na Água do "Esquecimento" e achou estranhou se esqueceram das coisas??? depois de tudo que ela passou ate ali e todas as coisas estranhas? Mesmo estando com dois semideuses de milhares de anos???? Ninguém cogitou a possibilidade? ¬¬

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