21 de outubro de 2016

23. Olho por olho

Não pude evitar o calafrio que me desceu pela espinha. Havia literalmente milhares de zumbis entre os irmãos e as pirâmides. A massa negra parecia uma praga arrepiante e desoladora, à espera para cravar os dentes nos três suculentos semideuses. Ahmose e Asten tinham doado tanto de sua força para sustentar Amon que agora estavam quase tão esgotados quanto ele. Mesmo que decidissem combater, Amon teria literalmente que lutar às cegas.
— Precisamos ajudá-los! — gritei.
— E vamos fazer isso. Só precisamos esperar que todos os lutadores entrem na arena.
Assim que o Dr. Hassan disse essas palavras, um ronco sacudiu o chão e uma fissura se abriu no meio da massa de zumbis. Uma luz forte jorrou da abertura, acompanhada por uma névoa. Mesmo de longe, pude distinguir a gigantesca garra de crocodilo que emergiu da rachadura na terra. Ela se esticou e se cravou fundo no chão antes de um corpo descomunal surgir atrás dela. Era um monstro horrendo: metade homem, metade Godzilla, com um rabo comprido de crocodilo.
— Aquilo... aquilo é Sebak? — perguntei, incrédula.
— Temo que sim — foi a resposta do Dr. Hassan.
A lua despontou no horizonte e iluminou a paisagem com sua forte luz prateada. Corajosos, os três irmãos mantinham-se de pé diante da criatura, cuja proporção e altura superavam as da Esfinge. Como se fossem um só, ergueram as mãos no ar. O encantamento que começaram a entoar ecoou tão alto que não tive a menor dificuldade para escutar, embora não compreendesse as palavras.
Uma luz borbulhou ao seu redor – uma turbilhonante massa prateada, dourada e branca. A bolha tremeluzente foi aumentando de tamanho até explodir feito uma supernova, espalhando luz em todas as direções antes de baixar até o chão e cercar as pirâmides. Então, aos poucos, a luz começou a subir, formando uma parede que cresceu até se curvar acima de nossas cabeças, criando uma cúpula transparente e iridescente.
O Dr. Hassan soltou um grunhido satisfeito.
— Pronto. Agora não podemos ser vistos de fora. Para todos os efeitos, os cidadãos do Cairo verão apenas uma imensa nuvem de tempestade cobrindo as pirâmides. Não conseguirão ver nem ouvir nada que acontecer dentro da esfera de luz. Todos os interessados em visitar as pirâmides hoje à noite darão meia-volta e até esquecerão que tentaram vir aqui.
Eu não tinha certeza se isso era uma coisa boa ou ruim. Mas sem dúvida, se o povo do Egito soubesse que seus deuses estavam lutando para manter afastada a energia do mal e impedir a ascensão do deus do caos, no mínimo ficariam preocupados.
Nas histórias em quadrinhos, os cidadãos comuns muitas vezes acorrem em defesa de seus heróis. Sim, também acabam atrapalhando e muitas vezes precisam ser salvos da morte, mas naquele caso a distração dos mortais talvez ajudasse a impedir o avanço dos zumbis. É claro que, com a sorte que tínhamos, eles provavelmente seriam mordidos e iriam engrossar as fileiras dos mortos-vivos.
— Agora? — perguntei, virando-me para o Dr. Hassan.
— Sim. Chegou a hora.
Ele pegou um livro antigo e correu o dedo por uma das páginas até encontrar o que procurava.
A voz de Asten soou de dentro da nuvem, tão clara quanto se ele estivesse ao nosso lado.

As estrelas sussurram a vontade do cosmos.

Um silvo, como a espuma do mar lambendo a areia, ecoou à nossa volta, e um movimento mais acima atraiu meu olhar.
Do outro lado da cúpula cintilante, as estrelas brilhavam mais do que eu jamais tinha visto, algo que não seria possível tão perto de uma cidade grande. Todas pulsavam com força, as constelações conhecidas parecendo próximas o bastante para eu tocá-las. As mais distantes também pareciam estar mais perto e, quando olhei para cima, me senti leve, como se pudesse flutuar na direção do céu noturno e me perder no universo.
Eu conseguia distinguir as cores das estrelas a olho nu, algo que sabia ser impossível. Identifiquei os anéis de Saturno, uma estrela binária e uma galáxia distante. Então, de repente, o mundo se modificou.
As estrelas caíram.
Ou melhor, elas estavam se movendo, e o céu noturno pôs-se a girar feito um pião, cada estrela deixando atrás de si um rastro de luz. Tonta, estendi a mão para segurar a do Dr. Hassan, e o firmamento desacelerou até parar. O desenho das estrelas lá em cima já não era conhecido. Era quase como se eu estivesse vendo o céu da perspectiva de outro ponto na galáxia.
Ahmose falou em seguida, sua voz grave ecoando dentro da minha cabeça:

A lua preenche o ar com um poder vibrante.

A luminosa lua cheia, que só havia despontado pela metade acima do horizonte, começou a brilhar cada vez mais forte. Sua luz prateada se derramou sobre a paisagem quase como um líquido, banhando toda a área das pirâmides com um brilho cor de prata. A lua acelerou até ficar quase na vertical acima do topo dos templos, então parou.
Gelei quando a voz profunda de Amon me envolveu. Apesar do poder que emanava dela, ainda pude sentir um leve tremor, um quê resignado de tristeza, e me perguntei se seria possível ele estar arrependido por ter me mandado embora.
Ou estar sentindo a minha falta tanto quanto eu sentia a dele.

O sol revela todos os caminhos ocultos
E expõe tudo o que é secreto e sombrio.

Quando ele pronunciou a última palavra, uma luz brilhante jorrou e se irradiou dos três servos dos deuses de pé diante da escuridão. A luz subiu até envolver tudo dentro da cúpula, ardendo com tanta intensidade que o mundo visível tornou-se branco. Foram necessários vários instantes para que eu pudesse identificar até mesmo formas. Uma sombra próxima falou comigo:
— Está me vendo, Lily? Eu devia ter avisado para você não olhar.
O borrão na minha frente entrava e saía de foco.
— Não. Está tudo borrado.
Tornei a ouvir a voz de Amon, e suas palavras me deram coragem:

Fiquem firmes, irmãos.
Fortaleçam seus corações.
Vamos atacá-los como o falcão, o íbis e o grou.
Vamos matá-los e destruí-los,
Devolvendo-os ao pó de onde vieram.

O Dr. Hassan deu tapinhas na minha mão.
— A batalha começou. Preciso fazer meu encantamento. Quando chegar a hora, você tem que me passar o objeto certo.
Ele me entregou uma caixa na qual havia colocado vários objetos. Um deles cortou meu dedo quando tateei lá dentro e percebi que era uma pequena faca. Havia também um isqueiro, uma vara de metal mais ou menos do tamanho de um taco de beisebol infantil, um pedaço de corrente grossa, um frasco de líquido tampado e um objeto pesado coberto com plástico.
Era algum tipo de ferramenta, mas apenas pelo tato não pude distinguir exatamente qual. O Dr. Hassan fez outra pergunta, mas eu estava distraída com os sons do embate. Preocupava-me o fato de Amon ter que lutar cego. Agora que eu também não conseguia enxergar, pensar que estava cercada por mortos-vivos invisíveis e por um demônio crocodilo gigante pronto para me engolir era aterrorizante. O Dr. Hassan limpou a garganta com um pigarro.
— Lily, vou começar.
Virei o rosto na sua direção, pronta para ajudar.
Com uma voz ribombante, ele gritou:

Eu, o grão-vizir, guardião dos três pontos do Triângulo Impossível,
Invoco o além para que empreste sua força.

Era a primeira vez que ele mencionava o tal triângulo impossível. Perguntei-me o que seria. Mentalmente, fiz algumas anotações e acrescentei essa expressão a uma longa lista de perguntas sem resposta. Será que ele estava de posse de algum objeto mágico triangular? Por que era o guardião dos três pontos, e que pontos eram esses? Será que o além era o mesmo que o mundo dos mortos?
O Dr. Hassan prosseguiu:

Nós defendemos o caminho entre
A terra, o céu e os lugares mais além,
Mas o nosso inimigo veio para o meio de nós.

Ele se virou na direção dos ruídos da batalha e ergueu os dois braços no ar. Sua imagem havia começado a entrar em foco, mas tudo continuava meio borrado.

Ó Traiçoeiro, estamos lhe avisando: recue!
Não tente nos enfrentar.
Você agarra-se à escuridão e abomina a luz.
Busca a amizade com o mal, e portanto
receberá a recompensa daquilo que abraça.
Você se prendeu com grilhões ao caos.

Imaginando que essa fosse a minha deixa, enrolei a corrente no braço, pressionando os dedos nos outros objetos da caixa para poder pegá-los depressa.

Seu veneno é forte como o de mil víboras.

Ouvi um silvo e percebi que o barulho vinha do espantalho que tínhamos feito. Minha pele se arrepiou inteira e me afastei dele, cambaleando. Não sabia se as cobras que estava ouvindo eram de verdade, se eram representações de Sebak ou apenas uma peça que minha mente estava me pregando – nada naquele mundo maluco parecia impossível – mas, em todo caso, me afastei o máximo que me atrevi, ainda sem conseguir ver exatamente onde o terraço acabava.

Você transformou seus dentes em facas.

Ouvi outro som monstruoso, e dessa vez soube o que era: crocodilos. Com um arquejo apavorado, mudei de posição, nervosa, mas não havia nenhum corpo comprido ou forma escura vindo na minha direção. O boneco se contorceu e tentou se soltar da fita adesiva que tínhamos usado para prendê-lo à vara.

Nós, seus inimigos, o condenamos.

O Dr. Hassan se aproximou do boneco que representava Sebak e cuspiu nele. O espantalho amarrado projetou a cabeça para a frente e para trás freneticamente, sua forma agora muito diferente daquela que havíamos criado.

Nós, que desejamos diminuir seu poder, o atacamos.

— Agora, Lily! — balbuciou o Dr. Hassan, e tateei desesperadamente os objetos até por fim escolher a vara de metal.
Com um grito, o doutor acertou o boneco três vezes, e ouvi um estalo seco como o de ossos se partindo. Um berro raivoso ecoou, mas não veio do boneco, e sim da criatura gigante perto das pirâmides. Semicerrei os olhos e concentrei o olhar no caos de cores lá embaixo.
A primeira coisa que consegui distinguir foi o monstruoso crocodilo em que Sebak tinha se transformado. Ele havia escalado a imensa pirâmide e estava agora mais ou menos na metade da subida, mas sua pata dianteira esquerda pendia sem vida junto ao corpo, e uma das traseiras parecia ter perdido a força. Ele se agarrava à pirâmide com uma das patas imensas, tentando se equilibrar. Pedaços de pedra se soltavam da construção e se espatifavam ao atingir os níveis mais baixos.
Ahmose, o corpo prateado e cintilante, ergueu no ar sua maça e a desferiu contra a outra pata do monstro, espatifando o osso. O príncipe então se transformou em um grou prateado. Era a primeira vez que eu o via em forma de pássaro. O grou saltou da pirâmide e começou a voar em círculos no céu, à procura dos irmãos. Lá embaixo, a horda de zumbis havia se reunido em dois pontos, e com dificuldade pude distinguir duas centelhas, uma dourada e outra branca, no centro de cada grupo. Tínhamos que nos apressar.

Nós, que desejamos provocar medo em seu coração, o transpassamos.

Meus olhos enfim se acostumaram à luz e entreguei depressa ao Dr. Hassan um canivete. O boneco que se contorcia na nossa frente era quase tão monstruoso quanto a criatura lá embaixo. Ele gritou: um som terrível, de gelar o sangue. Tomado por espasmos, debateu-se de um lado para outro e acabou rasgando a fita adesiva que prendia seu tronco. Então se jogou para a frente e quase me agarrou, mas o Dr. Hassan me puxou, tirando-me do seu alcance no último segundo.
A única coisa que agora prendia o boneco à estaca era a fita adesiva em torno de seus tornozelos.
— Lilliana, você voltou — disse a criatura. — Venha, deixe-me admirar seus olhos tão lindos — sibilou, esticando os esses com um movimento da língua.
— Não adianta — respondi, com o máximo de coragem de que fui capaz. — Eu não tenho o que você está procurando.
— Tem, sim — afirmou o monstro.
— Não. Amon não deu o Olho para mim. O Olho nunca esteve comigo.
Ele riu, e aquele som fez todos os nervos do meu corpo se eriçarem.
— Eu não sou bobo. Sei que você não está com o Olho. Mas isso não importa. A encarnação do deus do sol fará qualquer coisa por você. Inclusive me dar o poder que desejo.
— Você está errado — respondi, reunindo toda a coragem de que era capaz. — Ele me deixou para trás. Nem sabe que estou aqui.
Um clique escapou da garganta da criatura, como uma zombeteira expressão de empatia.
— Então talvez devesse saber — disse o boneco, com um olhar lascivo e perigoso.
Quando ele falou, seus olhos se reviraram para trás e uma névoa vermelha começou a girar em volta de seu corpo.
— Não! — berrou o Dr. Hassan. — Não!
O corpo do boneco se sacudiu em fortes convulsões, como se estivesse sendo eletrocutado, e então desabou, vazio e sem vida. Quando a névoa vermelha clareou, o boneco havia voltado a seu aspecto original; a única diferença era que agora as roupas e almofadas estavam todas rasgadas.
— O que houve? O que acabou de acontecer? — exclamei.
— Rápido, Lily, a corrente!
Aproximando-se do boneco, o Dr. Hassan o envolveu com a corrente, passou-a a mim novamente e eu a devolvi. Fizemos isso várias vezes, até termos enrolado com muitas voltas a corrente no boneco. Então o Dr. Hassan bradou:

Nós, que desejamos vê-lo preso, o acorrentamos.

Nada aconteceu. O egiptólogo olhou pela borda do edifício em direção à pirâmide distante onde a criatura que era Sebak estava se recuperando.
Ele tornou a gritar:

Nós, que desejamos vê-lo preso, o acorrentamos!

— Por que não está dando certo? — perguntei.
— É tarde demais. Ele invocou sua essência.
— Mas a gente não pode... sei lá, invocar de volta?
O Dr. Hassan fez que não com a cabeça.
— A cerimônia precisa ser concluída. Teremos que ir até a própria criatura.
— Está falando sério? Não temos tempo! Eles mal estão conseguindo conter os zumbis agora.
— Precisamos ir! Rápido, vista isto!
O Dr. Hassan abriu com violência a última sacola, que continha roupas que a princípio eu pensara serem para o boneco. Não havia tempo para perguntar por que ele queria que eu vestisse uma calça e um colete de brim, e as peças eram grandes o bastante para que eu as vestisse com facilidade por cima das minhas. Quando o Dr. Hassan se aproximou de mim, com a corrente enrolada em volta do pulso, pegou a caixa, pôs no bolso do colete um isqueiro e o que eu então reconheci como um pequeno machado e enfiou na minha cabeça o chapéu que eu havia tirado da sacola.
Com as mãos nos meus ombros, fitou-me firme nos olhos e disse:
— Quando chegar a hora, você precisa fingir que sou eu e conduzir Amon até o alto da grande pirâmide. Não fale com ele. Use estas luvas para que ele não sinta a delicadeza de suas mãos. Aqui, pegue minha jaqueta também.
Ele enfiou meus braços nas mangas da jaqueta e a puxou até meus ombros enquanto eu tentava amarrar o cadarço da calça cargo.
— Isso é muito importante, Lily! — insistiu. — Se ele souber que é você, não vai concluir a cerimônia. Sei que é uma coisa difícil de pedir, mas, quando você sentir que ele está puxando a sua energia, tem que se abrir para isso. Permita que Amon pegue o que precisar, entendeu? Me diga que entendeu!
Anestesiada, assenti. Um milhão de perguntas passavam pela minha cabeça, mas eu não conseguia me concentrar em nenhuma. Em pé na beirada do edifício, o Dr. Hassan gritou algo em egípcio e, lá embaixo, um tremor sacudiu um dos grupos de zumbis e os atirou para longe do ponto no qual estavam concentrados, como se uma bomba houvesse sido detonada. O íbis estrelado alçou voo, batendo as asas vigorosamente, e veio na nossa direção.
Ao aterrissar, retomou sua forma humana.
— Asten?
Dei um passo em sua direção. Ele estava sangrando muito e apresentava diversos hematomas. Cortes e talhos fundos faziam riachos vermelhos escorrerem por seus braços e peito; a camisa estava em farrapos. Os cabelos escuros dos quais ele tanto parecera se orgulhar estavam encharcados de suor e mechas caíam sobre os olhos.
Respirando fundo e estremecendo, Asten olhou para mim e em seguida se virou para o Dr. Hassan.
— Ela sabe o que fazer? — indagou, a exaustão irradiando de seu corpo inteiro.
— Sabe. Ela está pronta.
— Então subam nas minhas costas. A batalha vai ser dura, Hassan.
O homem mais velho lhe deu tapinhas no ombro.
— O ritual está quase concluído. Surgiu apenas uma pequena complicação.
Eu estava a ponto de comentar que a complicação na verdade não era tão pequena assim, mas então olhei para Asten e não consegui. Em vez disso, falei:
— Cuide-se, Asten.
Ele me abriu um sorriso débil.
— Minha avaliação inicial sobre você estava inteiramente errada — declarou ele.
— Ah, é?
— Sim. — Erguendo os dedos, ele tocou minha face e minha pele formigou. — Nunca conheci uma devota mais dedicada — disse ele. — Adeus, Lily.
Ele baixou a mão e, com uma explosão de luz, transformou-se no íbis estrelado.
Depois de o Dr. Hassan e eu montarmos em suas costas, Asten levantou voo. Senti o vento no rosto quando ele seguiu direto para a mais alta das pirâmides, onde o grande deus-crocodilo que era Sebak pairava, assistindo com monstruoso deleite a seu exército de zumbis impedir os filhos do Egito de concluir seu trabalho.
A lua estava tão grande e próxima que eu tinha a sensação de que estávamos voando direto para dentro dela. Não podia ter certeza, mas ela me parecia posicionada exatamente acima da pirâmide. Era possível que a posição não fosse assim tão exata, mas eu sabia que, se os três irmãos não concluíssem a cerimônia antes de a lua passar por cima da pirâmide, seria tarde demais.
O íbis deu um grito e Sebak virou a cabeça na nossa direção. Com um urro, lançou-se para cima e rasgou a asa branca de Asten com uma das garras cheias de escamas. A asa se partiu com um estalo e despencamos. Asten aparou nossa queda com o próprio corpo. Caímos do outro lado da pirâmide, Asten se transformou novamente em humano e ficou segurando o braço, ofegante.
— Vão! Vão! — ordenou ele.
Sorriu de leve para mim quando o Dr. Hassan me agarrou pelo braço, me levando para o outro lado da pirâmide. Antes de virarmos a esquina, vi Asten correr, saltar da pirâmide, dar uma cambalhota no ar e aterrissar no meio da horda de zumbis com uma flecha em cada mão, apesar do braço quebrado. Ele cravou as flechas nos olhos de dois mortos-vivos e ambos explodiram em uma nuvem de poeira.
O Dr. Hassan me fez descer a pirâmide, o tempo todo meus pés escorregando quando eu tropeçava em pedras soltas.
Antes de chegarmos ao chão, uma garra horrível se cravou na lateral da pirâmide bem na nossa frente. O corpo transformado de Sebak surgiu pela esquina. A visão daquele sorriso medonho era o bastante para me fazer parar e sair correndo na outra direção, mas o Dr. Hassan hesitou apenas um instante, depois continuou a correr e me deixou para trás.
— Doutor Hassan, espere! — chamei, enquanto tentava ir atrás dele.
— Ah, Lilliana — disse a criatura, passando uma língua gigante por dentes afiados do tamanho de estalactites. — Pensei que fosse precisar procurar você. Que bom ter aparecido na minha frente por livre e espontânea vontade.
O Dr. Hassan havia sumido, e eu estava no meio da lateral de uma pirâmide, cara a cara com um demônio crocodilo, sozinha. Não tinha arma nenhuma. Plano nenhum. Poder nenhum. Então entendi que a obsessão de Sebak por mim fora o que havia possibilitado a fuga do Dr. Hassan. Se eu conseguisse distraí-lo por tempo suficiente, talvez os irmãos pudessem concluir a cerimônia.
— Deve ter sido muito difícil para você aceitar ser o assistente de outra pessoa — falei. — É um desperdício um homem com a sua capacidade ter que ficar bajulando outro menos talentoso.
Piscando os olhos, a criatura abaixou a cabeçorra e fechou as mandíbulas a menos de 30 centímetros de onde eu estava.
— Como ela se assusta fácil — disse ele, rindo.
— Não estou assustada — menti. — Na verdade, a maior emoção que sinto por você é pena.
— Pena? — cuspiu ele. — Você sente pena de mim? Eu sou a criatura mais poderosa que o mundo já conheceu! Nem mesmo o seu patético deus do sol é capaz de me superar.
— É. — Fiz que sim com a cabeça. — Isso é verdade. Mas será que você não entende? Você trocou um chefe por outro. Não pode negar que os seus anseios e poderes lhe foram dados por Apófis.
— Falando em anseios — a nova cabeça de Sebak chegou mais perto, sua língua se projetando para fora e lambendo o ar em volta do meu corpo para sentir seu gosto —, há dias estou me negando a oportunidade de provar você. Os demônios biloko me deixaram... com fome.
A língua carnuda encostou no meu braço, felizmente coberto por tantas camadas de roupa que não senti, mas então tocou meu rosto.
A sensação não era muito diferente de ser lambida por um cachorro – isto é, se o cachorro na verdade fosse uma sucuri cuja saliva ardesse feito minúsculas facas. Tive a impressão de que minha bochecha havia sido esfregada com uma gilete.
Passei a mão enluvada ali e ela ficou suja de sangue.
— Ah, querida, que delícia você é. Vou adorar tê-la só para mim depois que me livrar dos outros.
— Na verdade não é você quem está falando, entende? É Apófis. Agora mesmo ele está influenciando você. É ele quem está provocando esses sentimentos.
O monstro chegou ainda mais perto.
— Apófis não me deu nada. Fui eu que roubei o poder deles.
— Mesmo que isso seja verdade, quando você permitir que o portal se abra, Seth vai aparecer.
— E daí?
— E daí você vai ficar outra vez subordinado a alguém mais poderoso. Acho que não entendo mesmo por que iria querer uma coisa dessas. Você quer que o mundo o veja como alguém inferior? Como um deus menor?
— Seth vai me recompensar. Eu serei grande como ele. Juntos vamos escurecer a força do sol, fazer as estrelas desaparecerem do céu e deixar a lua vermelha como sangue. Quando derrotarmos os outros deuses, eu vou roubar o poder de Seth também. Vou dominar tudo.
— Para ser bem sincera, duvido. Quantos homens você conhece que estão no poder e desistem dessa posição? Eles precisam ser destituídos à força.
— Então eu vou destituí-lo.
— Não seria mais fácil deixar os irmãos fazerem o seu trabalho? Impedir a vinda de Seth? Aí eles vão embora e só você vai restar.
Sebak piscou, como se estivesse refletindo sobre as palavras que eu acabara de dizer, mas logo as descartou:
— Isso não vai ter a menor importância depois que o todo-poderoso Olho estiver comigo. Falando nisso...
Aproximando o corpanzil do meu, Sebak passou uma das patas por cima de mim e cravou a garra na lateral da pirâmide, efetivamente me aprisionando.
— Encarnação do sol! — gritou ele então, e sua voz se espalhou pela noite do deserto. — Se quiser ver sua namorada outra vez, sugiro que me traga o que estou buscando!
Após alguns instantes de tensão, ouvi a voz de Amon gritar de volta lá de baixo:
— Você não me engana, vil criatura! Lily está segura a caminho de casa. Venha até aqui e lute, para eu poder lhe retribuir o favor que você me fez recentemente!
Por fim, vi Osahar. Enquanto eu mantinha Sebak ocupado, o doutor conseguira prender a corrente em volta da pata traseira do monstro. Com um grito, ele pulou da pirâmide segurando a corrente e seu corpo voou por cima da pata pendente. O monstruoso crocodilo rugiu e se virou para ver o que estava acontecendo. Dependurado na ponta da corrente, o Dr. Hassan entoou:

Nós, que desejamos vê-lo preso, o acorrentamos!

Sebak gritou e se debateu contra a lateral da pirâmide, então se imobilizou, prendendo-me onde eu estava. Ao mesmo tempo, o exército de zumbis congelou. Com uma explosão de luz prateada, corpos saíram voando em todas as direções. O grou prateado levantou voo e seguiu na direção do topo da segunda pirâmide. Vi a forma humana de Asten correr em direção à menor das pirâmides. O Dr. Hassan soltou a corrente e se deixou cair, rolando, até parar vários níveis abaixo de mim. Com uma careta, pôs-se de pé e começou a subir até onde eu estava.
Os olhos de Sebak nos acompanharam, mas seu corpo continuou imóvel. Quando o Dr. Hassan chegou à minha altura, tentou em vão me libertar das garras do monstro. Como não conseguiu, subiu mais um pouco até poder alcançar sua cabeça.
— Sebak, não jogue fora sua vida deste jeito — disse ele. — Você é o arqueólogo mais talentoso com quem já trabalhei. Desista do poder que roubou e nós pouparemos sua vida.
— Se você compreendesse mesmo o que é o poder, saberia que eu preferiria morrer mil mortes a abrir mão dele — replicou o monstro. — Não. O deus do sol está enfraquecido. Ele não vai conseguir completar a cerimônia. O deus do caos virá, e, quando vier, vai me despertar e reconstruir o corpo que vocês estragaram, e eu voltarei para me vingar de vocês — ele fez uma pausa e me abriu um sorriso de crocodilo — e dela.
— Sinto muito, meu colega, muito mesmo. Sinto que você tenha sido tão ludibriado e que a sua ânsia de poder tenha resultado em tamanha devastação e na perda de uma mente brilhante. Adeus, Sebak.
O Dr. Hassan inspirou fundo e gritou:

Nós, que desejamos derrotá-lo, corrompemos seu corpo!

Tirando o machado de dentro da jaqueta, ele o ergueu acima da cabeça, pronto para desferi-lo contra o olho demoníaco de Sebak, e foi então que escutei uma voz dolorosamente conhecida:
— Pare!
Às cegas, Amon escalava a lateral da pirâmide em nossa direção. Arquejei e pressionei a mão livre sobre a boca para conter um soluço. Nos lugares em que não estava sangrando, sua pele exibia um tom acinzentado, e os óculos escuros que antes cobriam seus olhos tinham sumido. As órbitas vazias onde deveriam estar seus olhos faziam meu coração doer. Em uma de suas mãos faltavam alguns dedos, e seus ombros, rosto e pescoço estavam cobertos de mordidas.
— Hassan? — chamou ele.
— Estou aqui, Mestre — gritou o Dr. Hassan. — O que foi? Por que está querendo que eu pare?
— Ele estava...? Ele está falando a verdade? Lily está aqui? Ela foi capturada?
— É claro que ela está aqui — provocou Sebak. — E nem danificada está... pelo menos não muito.
Houve uma pausa e então o Dr. Hassan se dirigiu a Amon:
— Deve acreditar em mim quando digo que Lily está segura. Sebak enlouqueceu.
Amon abaixou a cabeça por alguns instantes, mas então os músculos de seu braço se contraíram.
— Muito bem. — Ele estendeu uma das mãos e Osahar a segurou e puxou para ajudá-lo a subir os últimos degraus. Agarrando o ombro do cientista, Amon perguntou: — O senhor permite que eu mate esse monstro vil?
O Dr. Hassan examinou seu rosto.
— Claro — disse, interpretando a linguagem não verbal do rapaz, e lhe entregou o machado. — Precisa que eu o guie até lá?
Amon fez que não com a cabeça.
— Não. Vou usar o Olho.
Ao ver Amon se aproximar, Sebak falou, ofegante:
— Ela está aqui! Estou dizendo a verdade!
— Como você roubou o poder contido nos meus jarros da morte, não posso medir a verdade nas suas palavras. Assim sendo, acredito que o meu grão-vizir não me enganaria — disse Amon em voz baixa.
O Dr. Hassan abaixou a cabeça, pesaroso, e Sebak riu.
— Ah, estou vendo que prefere se fazer de cego diante da situação. Muito apropriado. — Amon apertou mais o machado. — Acho que não importa se você acredita em mim ou não. Você vai fracassar, e eu vou me reerguer. Servi bem ao meu mestre e serei recompensado generosamente pelo meu esforço.
Inclinando a cabeça na direção do monstro gigante como se estivesse olhando diretamente para ele, Amon chegou mais perto da criatura imobilizada e disse, sério:
— Falando em se fazer de cego, acho que devo retribuir o favor. — Com um sorriso ameaçador, Amon ergueu o machado, pulou sobre a cabeça do crocodilo e cravou a arma no seu olho, que piscava. Depois de fazer o mesmo com o outro olho amarelo, largou o machado ensanguentado. — Desejo que este despertar chegue ao fim.
— Sim — concordou o Dr. Hassan. — Logo estarei com você.
Com cuidado, Amon se afastou, indo sentar em um dos degraus da pirâmide, a poucos metros de onde eu estava imobilizada. Apoiando os cotovelos nos joelhos, segurou a cabeça com as mãos, seu corpo inteiro tremendo.
Aquela experiência toda devia estar sendo terrível para ele. Tudo o que eu queria fazer era reconfortá-lo. Pôr sua cabeça sobre o meu colo e afagar seus cabelos. Tentar fazê-lo esquecer a dor e o sofrimento pelos quais tinha passado. Se pudesse, eu o teria roubado daquele seu horrível dever, daquela cruel responsabilidade que ele insistia em honrar. Mas eu não podia nem sequer deixá-lo saber que estava ali.
O Dr. Hassan pôs fogo no corpo inerte de Sebak e então concluiu o ritual:

Nós, que desejamos vê-lo arder, o queimamos.

Um grito de mil mortes encheu o ar enquanto o corpo gigantesco de Sebak, a encarnação de Apófis, era queimado vivo.

Nobres são os filhos do Egito.
Os deuses do sol, da lua e das estrelas estão firmes.
Os pontos do Triângulo Impossível estão imbuídos de poder.
Você não pode nos derrotar,
Pois não seremos demovidos.
Vá embora, Apófis,
Seu crocodilo maldito!

Com essa última frase, o corpo de Sebak estremeceu, fazendo a área em torno das pirâmides rugir. Vapores rançosos de fumaça negra emanaram do corpo à medida que o fogo ardia cada vez mais forte, até Sebak inteirinho ser consumido em um clarão vermelho.
Quando seu corpo desapareceu, as cinzas sendo levadas por uma leve brisa, levantei-me, testei a firmeza de pernas e braços e suspirei de alívio ao constatar que ainda estava inteira. Dando um passo à frente, olhei para o vale mais abaixo e vi uma névoa vermelha se dissipando, único indício de que ali houvera uma grande batalha entre zumbis e múmias.
Com um movimento cansado, Amon se levantou de onde estava sentado e disse:
— Venha, Hassan. Está na hora de concluir este trabalho.
— Sim, Mestre. Eu agora o levarei até o alto do templo e, quando a cerimônia estiver concluída, recolherei seus corpos.
Amon não respondeu nada, o rosto virado para longe das pirâmides, como se procurasse algo ao longe.
— Como quiser — falou baixinho.
O Dr. Hassan acenou para que eu me aproximasse de Amon e levou um dedo aos lábios para garantir que eu não dissesse nada. Quando me vi diante de Amon, o grão-vizir disse:
— Se puser a mão no meu ombro, vou conduzi-lo.
Amon estendeu o braço e roçou a mão no chapéu antes de tocar meu ombro. Então fez um gesto afirmativo com a cabeça.
— Estou pronto.
O Dr. Hassan acenou para que eu avançasse. Eu não sabia por quanto tempo conseguiria manter a farsa e tinha quase certeza de que Amon perceberia que eu não era o Dr. Hassan, mas ele não disse nada. Apenas me seguiu até chegarmos ao topo da pirâmide. Andei bem devagar, temendo que ele caísse.
O sangue de sua mão mutilada respingou na frente da minha jaqueta. Ao ver isso, uma lágrima escorreu pelo meu rosto em resposta. Quando parei, segurei a mão de Amon, triste pelo fato de a grossa luva me impedir de sentir seu toque uma última vez, e a pousei sobre a pedra lisa acima de nós.
— Espere aqui — disse Amon, e assumiu posição, com os dois pés bem plantados no templo.
Erguendo os braços no ar, ele começou a entoar um cântico e sua pele se acendeu um pouco, embora fosse claro que o seu poder estava muito diminuído e seus braços tremessem. A lua cheia encontrava-se exatamente acima de nós e de onde eu estava Amon parecia segurá-la com as duas mãos.
Os corpos de Asten e Ahmose ardiam qual fogueiras acesas em seus respectivos templos, mas o de Amon continuava mortiço. Enquanto os três prosseguiam com o cântico, vi uma luz prateada se acumular em volta da lua e ser projetada na direção de Ahmose. As estrelas cintilantes perderam um pouco do brilho e um raio de sua luz rodopiou em volta de Asten.
As pirâmides de Asten e Ahmose brilhavam com intensidade na noite, branca e prateada, mas aquela sobre a qual eu estava em pé com Amon continuava escura. A energia girava feito um redemoinho no céu noturno e acendia o firmamento como uma aurora boreal. Raios de luz prateada e branca vieram na nossa direção. Os braços de Amon pararam de tremer e seu corpo se acendeu mais um pouco.
Os irmãos entoaram seu encantamento e uma névoa de luz das estrelas veio na minha direção. Para minha surpresa, ela me envolveu e arquejei quando os pontinhos de luz fizeram minha pele formigar e então a penetraram. Senti um puxão.
Sabia que aquela era a maneira de Asten canalizar minha energia para Amon. Instintivamente, resisti, mas então vi uma luz dourada rodear Amon e lembrei-me de ter, voluntariamente, me oferecido, e a minha energia, para aquilo dar certo.
Fechei os olhos e imaginei que estava oferecendo tudo a Amon – meu coração, minha mente, minha alma e meu corpo.
A corrente ficou mais forte e a dor me fez arquejar entre dentes. Caí para trás quando algo se partiu dentro de mim e comecei a flutuar – sem dor, como em um sonho, plena de uma forma como nunca havia me sentido.
Deitada de costas, ergui os olhos para o cosmos. Pulsações de energia lambiam meu corpo como ondas, começando pela cabeça e descendo até os dedos dos pés antes de subir outra vez. Um zumbido preencheu minha mente ao mesmo tempo que uma luz dourada explodia à minha volta.
Uma névoa dourada se inclinou acima de mim, flutuando para o alto e afastando-se, indo penetrar a pele de Amon. Seu efeito foi revigorá-lo, e o brilho de seu corpo aumentou. Ocorreu-me que, se eu tivesse que morrer, aquela seria a melhor maneira possível. Não sentia as pedras pressionando minhas costas nem a perda emocional provocada por deixar a vida para trás. Tudo o que sentia era a maravilha do universo e a percepção do pedacinho pequeno dele que eu representava.
Lá em cima, a explosão de luzes se separou em três pontos. Acompanhei-os no céu com os olhos: um branco, outro prateado, o terceiro dourado. Os três haviam formado uma constelação. Era uma coisa linda de se ver. Nesse momento, porém, algo se abriu no céu acima dela – uma fenda escura – com um mal terrível a atravessando. Parecia uma tempestade iridescente, mas eu sabia que era bem mais do que isso.
O céu trovejou e se agitou; o medo me invadiu e soltei um gemido, sem conseguir me controlar. Um rosto sinistro, malévolo e ameaçador surgiu, e eu sabia que faltavam apenas segundos para sermos todos consumidos por ele.
Grandes pedras de granizo começaram a cair, fustigando meu corpo enfraquecido, mas eu mal as sentia. Ao chegar perto da aura dourada de Amon, as pedras se desintegravam, mas eu estava fora desse círculo de proteção. Uma pedra gelada me acertou na têmpora e senti a umidade do sangue. A pedra estava fria. Não, eu estava fria. Tremendo, tentei mudar de posição, ávida por me esconder da coisa que parecia estar me observando, mas constatei que não conseguia nem mesmo erguer pernas ou braços.
Desesperada para fugir e incapaz de fazê-lo, senti meus olhos se encherem de lágrimas. A paz que sentira segundos antes havia sumido. Eu soube então que era tarde demais. Seth tinha chegado e estava vindo atrás de nós. Eu não iria só morrer; seria descriada, apagada. Minha família sequer se lembraria de que eu um dia havia existido. Pior ainda: Amon iria me esquecer por completo. Por alguma razão, esse pensamento me parecia o mais trágico dos dois.
Então os três pontos de luz jorraram formando um arco, feito estrelas cadentes, e as luzes irmãs convergiram rodopiando. Em seguida, começaram a descer velozmente na direção das pirâmides. Os raios disparavam pelos dutos das construções até saírem do outro lado. Seus rastros formaram uma série de triângulos que conectaram tudo. É o Triângulo Impossível, pensei, assombrada.
O centro foi preenchido por arabescos brancos, dourados e prateados, que foram ficando cada vez mais brilhantes até se fundirem para formar uma grossa coluna apontada diretamente para a fenda que se abrira no universo. Um fluxo de luz atingiu a nuvem de tempestade e a consumiu, e, com uma derradeira explosão de energia, a fenda se fechou e desapareceu em uma tempestade fulgurante de luz branca, dourada e prateada.
Aos poucos, a luz foi ficando mais fraca e os rastros que formavam o Triângulo Impossível foram reabsorvidos. A bola de luz branca disparou na direção de Asten, a prateada flutuou preguiçosamente em frente à lua e foi se acomodar nos ombros de Ahmose e a dourada voltou para Amon, que a segurou na mão. A luz penetrou seu corpo e ele cambaleou para trás.
— Está feito — disse ele. — Venha, Hassan. Vou levá-lo comigo.
Eu não conseguia me mexer. Não conseguia dizer nada.
— Hassan? O que houve? Onde você está? — Amon desceu um ou dois degraus até seu pé tocar meu ombro. — Hassan? — Agachando-se ao meu lado, levantou meu braço e tentou me fazer falar. Tirou meu chapéu e deu alguns tapas de leve no meu rosto, então parou de repente quando seus dedos tocaram meus cabelos. Ele correu as mãos pelo meu rosto e pescoço.
— Lily? — perguntou, arfando. — Não. — Ele arrancou do meu corpo a pesada jaqueta, pegou-me no colo e afundou o rosto no meu pescoço. — Não! — gritou.
Amon achava que eu estivesse morta, percebi. Só que eu não estava. Pelo menos, achava que não. Mas ele não tinha como saber. Nem mesmo eu podia dizer com certeza se estava respirando. Talvez tivesse mesmo morrido e estivesse tendo uma experiência fora do corpo. Amon pressionava os lábios no meu rosto e na minha testa, seus braços tremiam, sua respiração estava entrecortada. Se ele ainda tivesse olhos, provavelmente estaria chorando. Que tristeza não poder chorar, pensei.
Abraçando-me com força, com a voz embargada, Amon começou a entoar um encantamento. O alto da pirâmide se liquefez e afundamos em uma escuridão que se fechou acima de nossas cabeças.

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