21 de outubro de 2016

22. Pirâmides

— Amon? — sussurrei no quarto banhado de luar. — Como está se sentindo?
— Nada mau para as circunstâncias — respondeu ele.
— Os seus irmãos...
— Estão descansando. O doutor Hassan também.
— Ah.
Eu não sabia o que dizer. O trauma pelo qual tínhamos passado e a perspectiva daquilo que ainda precisávamos superar era demais, e a pontada de incerteza, real demais para que eu me sentisse completamente à vontade com ele.
— Como estão seus olhos? — foi minha pergunta tola.
Ele abriu um sorriso que era metade sarcasmo, metade careta.
— Não saberia dizer, já que eles não estão comigo no momento.
— Desculpe — balbuciei. — Foi uma pergunta insensível.
— Não precisa se desculpar. Quem precisa pedir desculpas sou eu. Meus irmãos me disseram que estão preocupados com você.
— Ah, é?
— Sim. Parece haver uma certa confusão em relação ao nosso vínculo.
Umedeci os lábios e senti o coração bater com força dentro do peito. O que ele estava prestes a dizer iria partir meu coração ou então juntar seus pedaços.
— O que você disse a eles?
— A verdade. Que não tenho o menor desejo de consolidar esse vínculo com você e que não vou mais usar sua essência vital. Na verdade, gostaria de expressar meu arrependimento pelo que você teve que suportar até aqui.
— Entendo.
— Meus irmãos acham que não vou conseguir completar a cerimônia sem você.
— Eles estão certos?
Amon contraiu os músculos do maxilar antes de responder:
— Não. O doutor Hassan tem uma ideia que deve manter Sebak afastado por tempo suficiente para nós três completarmos a cerimônia. Meus irmãos concordaram com esse plano acreditando que você ficará do meu lado até eu voltar para o além.
— Eu posso fazer isso.
Amon se inclinou para a frente e uniu as mãos.
— Jovem Lily — ele deu um suspiro —, o meu desejo é que você vá para casa. Agora. Antes de tudo isso acontecer.
— Mas parece que os seus irmãos acreditam que você vai precisar de mim.
Amon deu uma risada breve e sem alegria.
— Não do jeito que eles imaginam. — Ele fez uma pausa e esfregou a mão no maxilar. — Eu acho que ainda tenho energia suficiente para fazer o que fui chamado a fazer.
— E se não tiver?
— Então que seja.
Amon se recostou na cadeira, como se a nossa conversa o tivesse exaurido por completo. O rapaz ferido ali no meu quarto era uma sombra do homem que eu conhecera. Ele não falava de amor, nem dizia que iria sentir saudade, nem mesmo se mostrava agradecido pelo tempo, para não falar na energia, que eu havia lhe dedicado. Mais perturbador ainda era o fato de que ele agora parecia não ter fé no seu objetivo.
O deus do sol estava despedaçado. Fora traído pelo próprio corpo. Era um ser eterno sem esperança. O desespero e o sentimento de perda que irradiava eram evidentes, mesmo com ele bloqueando nossa conexão. Não havia mais o sorriso caloroso, nem o encantamento ao descobrir o mundo à sua volta, nem a crença de poder superar qualquer obstáculo para cumprir seu dever. Aquela com certeza não era a pessoa que eu conhecera e pela qual havia me apaixonado.
— Amon? Ainda existe uma saída. Tem que existir.
— Não, Lily. Não existe.
— Conte para mim. É mais do que os seus olhos, eu sinto. Não precisa esconder nada de mim. Eu posso ajudar.
Amon soltou um suspiro lento e comprido. Quando levantou a cabeça, sua expressão era inescrutável.
— Você é fraca, Lilliana. É mortal. Se eu quisesse, poderia reduzi-la a pó apenas com a mente. Não existe lugar para você ao meu lado. Está na hora de você aceitar isso.
Fiquei sem ar por alguns segundos. Embora reconhecesse a verdade nas suas palavras, o que ele disse me magoou. Eu era mesmo fraca e mortal. Além disso, como dizia Asten, era uma péssima devota. Mas o pior não era ser chamada de fraca nem ouvir que ele não me queria ao seu lado – isso eu talvez conseguisse superar. Não tinha ilusão nenhuma em relação às minhas forças e fraquezas.
Não, o pior foi ouvir meu nome inteiro – Lilliana – sair de sua boca. Ele nunca havia me chamado assim antes, e o modo formal como o pronunciou fez com que eu me lembrasse quem era de verdade. Lilliana. O nome que meu pai usava com sua voz tolerante porém severa. O nome pelo qual minha mãe me chamava quando queria ter certeza de que eu havia escutado suas instruções, ou quando me apresentava nas festas.
Até então, Amon nunca tinha me chamado assim.
Lily era o nome de uma garota que partia rumo a aventuras fantásticas. No fundo, porém, eu era Lilliana, comportada e certinha, com um grande futuro pela frente, querendo ou não. A sensação era de que o próprio Amon tinha batido a porta da gaiola dourada por cujas grades eu me atrevera a olhar.
Com Amon, eu tinha jogado a cautela para o alto. Deveria ter pensado melhor antes de fazer isso. Lilliana teria pensado melhor.
Com o corpo rígido, joguei a coberta longe, sem me importar com o fato de que Amon estava no quarto. Em algum momento durante a noite, tinha ficado só de calcinha e sutiã, e minhas roupas novas estavam sobre a mesinha de cabeceira.
Mas, enfim, Amon não podia me ver, o que era uma boa coisa: lágrimas quentes de raiva tinham começado a escorrer pelo meu rosto.
Estava enfiando a bata pela cabeça com movimentos bruscos quando Amon pigarreou.
— É bom você saber que eu posso vê-la.
— O quê? — falei, girando nos calcanhares e apertando a calça na frente do corpo. — Como é possível?
— Hassan devolveu o Olho de Hórus.
— Mas eu pensei que o Olho fosse uma coisa para ler mentes... um jeito de encontrar caminhos.
— O Olho é muitas coisas, e parece ser capaz de fazer ainda mais do que imaginávamos.
— Bem, então desligue isso para eu poder terminar de me vestir.
— A imagem desapareceu. Pode se vestir agora.
Embora ele tenha me garantido que não estava espiando, um leve sorriso levantava os cantos de sua boca. Decidindo que o pudor era a menor das minhas preocupações, vesti depressa a calça e comecei a vasculhar embaixo da cama em busca das sandálias.
— Mas como você configurou o Olho para ver?
— Você não entendeu. Eu não consigo ver. O Olho só me mostrou uma imagem como aquela que você mostrou para mim no seu... telefone.
— Bem, parabéns pelo striptease de despedida. Se me der licença, vou ver se sobrou alguma comida.
— Lily.
O modo como ele disse meu nome me fez estacar. Amon se levantou e estendeu a mão até tocar a parede. Tateando, chegou até mim. Quando estava a menos de meio metro, suas narinas se inflaram e ele parou.
Hesitante, esticou os dedos até eles entrarem em contato com meus cabelos.
— Não foi minha intenção constranger você nem lhe causar desconforto — murmurou. — O Olho responde aos desejos da pessoa que o possui. Era por isso que o doutor Hassan de repente sabia as respostas para as muitas perguntas que tinha na mente.
— Então você desejava...
Amon correu os dedos pelos meus cabelos e uma luz dourada se espalhou pelos fios e acrescentou novos reflexos às minhas mechas castanho-escuras.
Ele deu um passo para trás e suspirou.
— Ver você de novo antes de ir embora deste mundo.
Aguardei alguns segundos, dando-lhe tempo de acrescentar mais alguma coisa, mas ele não o fez. Lily e Lilliana travavam uma guerra dentro da minha mente. No final, não sei qual das duas ganhou. Meu lado fraco, que queria consertar a situação e perdoar, ou meu lado forte? Será que Lily tinha assuntos pendentes com Amon ou era Lilliana que se agarrava desesperadamente à esperança de poder ser algo mais, significar algo mais para alguém como ele?
Fosse como fosse, decidi deixá-lo em paz. Afinal de contas, ele estava salvando o mundo. O mínimo que eu podia fazer era não assediá-lo como uma típica adolescente.
— Posso ver? Os seus olhos?
Ele pensou por alguns instantes, então fez que não com a cabeça.
— Não é a imagem de mim da qual quero que se lembre.
— Acha que eu não vou aguentar?
— Você ficou impressionada quando Asten despertou.
— Bom, é verdade. Foi minha primeira ressurreição de múmia, você sabe. Devia ter me visto quando Ahmose despertou. Eu me saí bem melhor.
Amon sorriu, e senti que ele também não queria se despedir de um jeito ruim.
— Por que não me conta como foi?
— Você já comeu?
— Esperava poder desfrutar de um banquete com você uma última vez — respondeu ele.
— Acho que é o mínimo que posso fazer. Vamos ligar para o serviço de quarto e pedir um banquete de despedida. Será que eles servem café da manhã a esta hora?
— Você acha que podem ter aqueles pãezinhos redondos e doces, recheados de frutas cristalizadas?
— Vou ver.
Voltamos ao modo “apenas bons amigos”, mas uma tensão velada perdurava entre nós. Eu analisava exaustivamente cada palavra em busca de um duplo significado oculto. Cada toque dele queimava minha pele como se eu tivesse encostado nela um atiçador de lareira em brasa. Minhas emoções estavam todas ali, à flor da pele, expostas, cruas e sensíveis.
Quando a comida chegou, Amon pareceu se animar. Comemos juntos; ele não parava de empurrar pratos e mais pratos na minha direção, e muitas vezes inclinava a cabeça para ouvir se eu estava mesmo comendo, enquanto eu lhe contava sobre a areia movediça e como tínhamos encontrado o sarcófago de Ahmose. Quando já não conseguia comer mais nada, afastei o prato e beberiquei um copo de água com gás.
— Parece que comi um rinoceronte — falei, gemendo.
— Impossível — disse Amon, pegando o último pão doce e cortando-o ao meio para me oferecer um pedaço. — Se tivesse comido um rinoceronte, teria um chifre saindo de você.
Minha risada foi um pouco menos descontraída do que antes, pois eu agora sabia que a nossa separação era iminente.
— Como você sabe que não tem? — perguntei.
Na mesma hora me arrependi de fazer uma pergunta daquelas para alguém que acabara de perder os olhos.
Mas Amon levou o comentário na esportiva:
— Eu posso não saber, mas tenho como descobrir.
— Ah, é? Como? — Olhei para ele, desconfiada.
Ele estendeu a mão, segurou meu braço, me fez ficar em pé e subiu a mão lentamente pelo meu braço. Parando no cotovelo, ele o esfregou com os dedos.
— Humm, esta parte é rugosa como um rinoceronte, mas um chifre seria bem mais pontudo.
Sorri, pensando que não poderia me esquecer de pôr na mala um frasco de hidratante bem caro na próxima vez que fosse passar férias no Egito. Amon correu as mãos pelos meus ombros e subiu pelo pescoço. Demorou-se alguns instantes apertando minhas bochechas e beliscando o nariz, e ambos rimos. Então ficou sério outra vez e desceu as mãos pelas minhas costas.
Quando chegou à cintura, seus dedos encontraram a fenda lateral da bata e acariciaram minha pele nua. Os polegares traçaram pequenos círculos e então seus dedos percorreram minha barriga trêmula até o umbigo.
Pequenas ondas de calor se irradiavam pelo meu ventre.
— Como é macia — sussurrou ele, movendo as mãos outra vez para minhas costas e me puxando mais para perto.
Deslizei as mãos pelo seu peito e enlacei seu pescoço.
Enquanto me deliciava com a sensação dos seus braços, olhei para o seu rosto acima de mim. Levei um susto quando, em vez dos lindos olhos cor de avelã, deparei com os óculos escuros e meu próprio reflexo me encarando. Embora eu tenha erguido o rosto, esperando o beijo que havia tanto tempo eu imaginava, o que ele fez foi encostar os lábios na minha testa.
— Vou sentir saudade de você, Lily.
Algo se partiu dentro de mim. Aquelas palavras doces tinham mais poder do que todas as coisas incríveis que eu o vira fazer. O gracioso presente daquelas seis palavras era uma gentileza da qual eu precisava muito. Até aquele instante, porém, não sabia quanto.
— Eu também — respondi, com os olhos marejados.
Naquela última semana, eu estivera mais propensa ao choro do que em toda a minha vida. Não era de espantar que houvesse tantas canções de amor no mundo. O que eu tinha vivido com Amon daria uma música e tanto.
Ele deve ter me ouvido fungar, pois segurou meu rosto e limpou as lágrimas com os polegares, substituindo as trilhas úmidas por seu calor dourado.
— Lily?
— Sim? — respondi, piscando os olhos para clarear a visão.
— Sinto informar que não existe rigorosamente nenhuma prova de que você comeu um rinoceronte.
Eu ri, depois chorei mais ainda. Amon sorriu.
— Está na hora de acordar meus irmãos. O doutor Hassan vai levar você para o aeroporto e nos encontrar nas pirâmides depois de providenciar nosso transporte. Sinto muito não poder mandar você de volta pela tempestade de areia, como prometi. Se tivesse mais poder à minha disposição, juntaria as semanas para os seus pais não perceberem sua ausência.
— Tudo bem. Eu entendo — falei, meneando a cabeça.
— O doutor Hassan disse que você precisaria de documentos, é isso?
— Não se preocupe. Eu ligo para os meus pais. Eles vão cuidar de tudo.
— Vão ficar bravos com você?
— Digamos apenas que esta situação é a crise de adolescência mais incrível que alguém poderia ter. — Quando ele inclinou a cabeça, sem entender, arrematei: — Vão. Mas vou sobreviver.
— Ótimo. Ficarei mais tranquilo sabendo que você está segura. Me desculpe, jovem Lily, por tudo. Não queria envolver você na nossa causa de forma tão completa.
— Não precisa se desculpar. — Atrevendo-me a tocá-lo pela última vez, levei a mão ao seu rosto, descendo pelo ombro devagar e apertando. — Apesar do meu estado emocional confuso, esta foi a maior aventura da minha vida. — Ele pegou minha mão e a levou aos lábios. Quando pousou um beijo cálido no meu pulso, pigarreei. — Agora vamos acordar seus irmãos.
Entrelaçando os dedos nos dele, eu o guiei até o outro quarto. Já acordado, Asten estava entretido em uma conversa séria com o Dr. Hassan. Deixei Amon com eles enquanto ia procurar Ahmose.
A encarnação da lua dormia com a bochecha encostada na mão. Como o outro quarto era paralelo ao meu, os raios da lua quase cheia batiam em seu rosto e emprestavam à sua pele um brilho prateado.
— Ahmose? — chamei baixinho. — Hora de acordar.
Piscando, o homenzarrão se mexeu enquanto os olhos brilhantes e prateados encontravam os meus. Ele sorriu.
— Você parece mais disposta, Lily.
Torcendo as pontas da bata, respondi:
— Graças à sua cura e a muitas, muitas horas de sono. — Ele se apoiou em um dos cotovelos, e o lençol escorregou até sua cintura. Embora eu já o tivesse visto sem camisa, por algum motivo agora me pareceu mais íntimo. Abaixei a cabeça e concluí: — Esperamos você lá fora.
Saí do quarto depressa e fui me sentar ao lado de Asten. Ele me olhou demoradamente, depois moveu os olhos na direção de Amon.
— Como está se sentindo? — perguntou.
— Bem. Na verdade, estou mais preocupada com vocês três.
— Ah, é? Por quê?
— Bom, o fato de Amon me mandar embora significa que eu não vou saber se vocês conseguiram realizar a cerimônia. Imagino que vá saber se não for esse o caso, porque o mundo vai terminar, a escuridão vai reinar, etc. Mesmo assim, seria legal saber se vocês, bem, sobreviveram para voltar algum dia, digamos assim.
Asten franziu a testa, como se estivesse tentando compreender o meu discurso, então olhou para Amon, que estava sentado com os óculos escuros fitando o nada. Seu irmão exibia uma expressão inflexível e tinha o maxilar contraído.
— Entendo — disse Asten, devagar. — Pensei que tivéssemos conversado sobre isso.
— Lily está sob os meus cuidados — afirmou Amon. — Quem decide o nível de risco aceitável sou eu. Ela vai voltar para a vida dela em Nova York. Assunto encerrado.
— Que assunto está encerrado? — perguntou Ahmose, entrando no quarto e tentando passar pela cabeça uma camiseta com os dizeres EU ♥ EGITO.
Abafando uma risada que fez todos os três irmãos se virarem na minha direção, fiquei sentada sem dizer nada, curiosa para ouvir o que Amon tinha a dizer.
— Eu estava dizendo a Asten que meu desejo é mandar Lily para casa — explicou Amon.
Ahmose deu um suspiro.
— Você sabe que as probabilidades não estão a nosso favor.
— Pouco importa. Não vou pôr a vida dela em risco.
— Ela não deveria poder avaliar os riscos segundo seus próprios critérios? — insistiu Ahmose.
— Não é justo usá-la para o nosso benefício. Lily vai embora.
Asten se intrometeu:
— Irmão, não estamos dizendo que desejamos mal a ela. Pelo contrário: nós também queremos protegê-la dos perigos do nosso mundo, mas se houver necessidade...
— Se houver necessidade? — repetiu Amon, irado. — Faz milênios que nós servimos aos deuses, e já nos sacrificamos a eles inúmeras vezes! Quem sabe, ao ver que fracassamos, eles se dignem a resolver os próprios problemas, para variar um pouco. Eu, de minha parte, me recuso a comprometer essa mortal inocente só para dar mais vida boa àqueles que passaram tanto tempo calados.
— Os deuses nos abençoaram — começou Ahmose.
— Eles nos amaldiçoaram, isso sim! — contrapôs Amon. — Abusaram de nós. Nos sangraram até a última gota. E para quê? Para solucionar um problema que eles mesmos deixaram supurar. Por que devemos continuar a agir como seus guardiões cósmicos?
Mordi o lábio. Pelo visto, a informação que o Dr. Hassan tinha compartilhado comigo sobre os deuses terem protegido os três irmãos da ira de Seth não era senso comum. O Olho tinha lhe revelado muitas coisas. Senti uma pontada de inveja por não ter tido acesso a ele também.
Como seria bom ter respostas instantâneas para qualquer pergunta. Olhei para o Dr. Hassan e o vi balançar a cabeça muito de leve. Era óbvio que o egiptólogo não queria dividir aquela informação com eles por enquanto. Resolvi aguardar e questioná-lo a respeito depois, antes de mencionar o assunto com os outros três.
— Irmãos — prosseguiu Amon —, nós concordamos com este arranjo para agradar aos nossos antepassados, mas eles já partiram para o além há muito tempo. Protegemos o mundo, mas o mundo nos teme, ou pior, não se importa conosco. Nós existimos, mas não temos vida. Cumprimos nosso dever, mas sem alegria, pelo menos no meu caso. Não vou roubar de Lily a preciosa oportunidade de viver, de ser mortal e livre. Ela merece mais. Não vou tirar dela o que foi tirado de nós.
Fez-se silêncio e por fim Ahmose estendeu a mão e a pousou no ombro do irmão.
— Está bem. Vamos respeitar a sua decisão.
— Mas... — começou Asten, porém parou quando Amon levantou a cabeça. Então ele murmurou, infeliz: — Vamos respeitar sua decisão.
— Ótimo — disse Amon, levantando-se. — Agora vamos acabar com isso. Doutor Hassan? — Osahar se levantou depressa e foi até Amon, que pôs a mão no ombro do vizir. — Leve-nos ao aeroporto.
— Sim, Mestre.
Dessa vez, Amon não reclamou do tratamento.
Em questão de segundos, o Dr. Hassan e eu recolhemos nossos poucos pertences e antes de o dia nascer já estávamos a bordo de um táxi com destino ao aeroporto. Quando chegamos, o Dr. Hassan comprou passagens para os três irmãos em um ônibus turístico com destino às pirâmides de Gizé. Disse-lhes que se juntaria a eles o mais rápido possível.
Ahmose e Asten me abraçaram forte na despedida, desejando-me felicidades. Amon apenas me segurou pelos ombros e deu um beijo fraterno no meu rosto.
— Adeus, Lily — disse, rígido.
— Isso é o melhor que você pode fazer? — provoquei, embora a dor de saber que nunca mais iria vê-lo fosse evidente.
Ele não entendeu meu comentário; ou talvez tenha entendido.
— Farei o possível para não precisar de você — respondeu.
Sem dizer nada, aquiesci, e, antes de conseguir formular outro motivo para fazê-lo se demorar mais um instante comigo, ele já estava embarcando no ônibus. Ahmose e Asten acenaram por uma janela aberta, mas Amon, que foi se sentar logo atrás deles, manteve os olhos fixos à frente, uma expressão indecifrável colada no rosto. Não senti emoção alguma vindo dele, e entendi que ele devia ter cortado por completo a nossa conexão com a mesma facilidade com que havia me dispensado da sua vida.
Respirei fundo, abalada, e me virei para o Dr. Hassan enquanto o ônibus dobrava a esquina e desaparecia em meio ao tráfego.
— Certo. Acho que a primeira coisa a fazer é ligar para os meus pais.
— Não vai ser necessário.
— Não? — estranhei, confusa. — Eles precisam saber que estou bem e me mandar os documentos de que preciso para ir embora.
— Sim, sim. Vamos ligar para eles, só que não hoje.
— Por que não?
Seus olhos brilharam quando respondeu:
— Porque você não vai para casa ainda, Lilliana Young. Você vem comigo. — Correndo os olhos à nossa volta, ele leu uma placa no alto. — Sim. É por aqui mesmo.
A passos largos, serpenteamos entre as muitas pessoas à nossa volta em direção a um guichê de passagens.
— Para onde estamos indo? — perguntei quando ele terminou de falar com o atendente em sua língua materna.
— Para as pirâmides.
— Hein?
Osahar parou por um instante para explicar:
— Apesar de Amon insistir que a sua presença não é necessária, tanto Asten quanto eu acreditamos que o destino do Egito, ou melhor, do mundo, pode estar nas suas mãos. A pergunta que preciso fazer agora é: o que você estaria disposta a sacrificar para garantir a sobrevivência de Amon?
Não havia muitas pessoas no mundo pelas quais eu abriria mão de qualquer coisa. Nos meus desenhos, as pessoas realmente apaixonadas só tinham olhos umas para as outras. Dava para ver na cara delas. Eram capazes de morrer umas pelas outras. Preferiam sofrer em vez de presenciar o sofrimento do ser amado.
Minha vida não tinha essa profundidade emocional. Com exceção da minha avó, eu não tinha certeza de que alguém estaria disposto a morrer por mim, de que me amasse tanto assim. Mais do que qualquer outra coisa, eu ansiava por uma conexão profunda com outra pessoa.
Ao conhecer Amon, pensara ter finalmente encontrado isso. Havia alguém no mundo que entendia o significado de sacrificar alguma coisa por outra pessoa. Agora eu sabia exatamente qual era o meu tipo de homem. Não tinha nada a ver com a cor dos olhos, nem com ser alto ou musculoso. O que importava era aquela qualidade fugidia, tão difícil de capturar.
Eu queria alguém que me amasse tanto a ponto de estar disposto a morrer por mim. Acreditava que Amon fosse essa pessoa. Pelo menos pelo mundo ele estava disposto a morrer. Além disso, embora tivesse me rejeitado, eu ainda tinha quase certeza de que sacrificaria qualquer coisa em nome da minha segurança. Talvez o que o estivesse fazendo manter distância fosse o seu senso de dever. Talvez ele quisesse morrer e acabar com aquela vocação celeste. Ou talvez simplesmente não estivesse tão interessado em mim quanto eu estava nele.
De um jeito ou de outro, decidi que, mesmo os meus sentimentos por Amon não sendo mútuos, ele merecia o meu apoio. Era um homem digno de amor, e, se eu quisesse um dia ser o tipo de pessoa que merecesse a atenção correspondida de alguém – embora não acreditasse que um dia fosse encontrar alguém como ele – então precisava estar disposta a me sacrificar por algo que não fossem as minhas próprias necessidades e desejos.
Eu precisava dar um salto no escuro e ver aonde este iria me levar.
— Qualquer coisa — respondi, após suspirar longamente. — Eu sacrificaria qualquer coisa para ajudá-lo.
— Excelente. É tudo o que eu preciso saber. Temos que nos apressar para chegar antes deles. Não deve ser muito complicado. De ônibus eles vão chegar a tempo, mas nós dois estaremos lá primeiro.
— Como?
Ele sorriu ao mesmo tempo que o atendente lhe entregava um molho de chaves.
— Vamos de carro.
Em geral, o trajeto de Kom Ombo até Gizé de carro levava dez horas, mas o Dr. Hassan o completou em oito, parando apenas quando eu insistia que era absolutamente necessário. Quando entramos no Cairo, em vez de prosseguir até as pirâmides, ele me pediu que esperasse no carro enquanto entrava em um mercado ao ar livre. Vinte minutos depois, voltava com os braços carregados de sacolas, que jogou de qualquer maneira no banco de trás.
— Para que tudo isso? — perguntei.
— Você vai ver.
Durante todo o trajeto, ele manteve o mistério em relação a seu plano ultrassecreto de vizir e se esquivou com desenvoltura das minhas muitas perguntas. Eu só sabia que era uma parte importante do seu plano e que ele havia combinado tudo com Asten.
Quando comentei o desejo de Amon de que eu deixasse o Egito, Osahar disse que, se tudo corresse conforme planejado, ele jamais saberia que eu estive presente, o que para mim era até bom. Quem sabe meu coração rejeitado se curasse, nem que fosse um pouquinho, se eu soubesse que havia ajudado a salvar o mundo, e melhor ainda se, de quebra, eu conseguisse evitar levar mais um fora de Amon.
As pirâmides não demoraram muito a surgir. O Dr. Hassan serpenteou pelas ruas movimentadas e cheias de gente até chegar às portas do complexo arqueológico. Vários ônibus de turismo se enfileiravam na areia compacta. Alguns homens de camisa branca e chapéu policiavam a área montados em camelos. Eu estava surpresa com a quantidade de turistas.
— O sítio não é protegido? — perguntei.
O Dr. Hassan agitou a mão no ar.
— Não incentive um arqueólogo a falar sobre preservação de sítios históricos. Eu poderia passar semanas discorrendo sobre isso, mas, para ser bem sincero, estou sem tempo agora.
— Ok, mas como vamos conseguir fazer alguma coisa com esses turistas todos?
— Ah, os turistas e comerciantes vão embora assim que os irmãos chegarem.
— Como? — Quando ele sorriu, arrematei: — Espere. Não precisa me falar. Eu vou ver, certo?
— Certo.
Ele estacionou o carro, pegamos as muitas sacolas e seguimos em direção à Grande Esfinge. Pelo menos o monumento ao qual chegamos estava isolado por cordas para que ninguém pudesse tocá-lo. Depois de mostrar o crachá para um segurança que impedia a entrada de dezenas de turistas, o Dr. Hassan abriu um portão e acenou para que eu fosse atrás dele. Fui seguindo as pegadas que seus pés deixavam na areia e ergui os olhos quando chegamos em frente à Esfinge. Era difícil acreditar que estava realmente ali. De tão absorta no ambiente à minha volta, sobressaltei-me quando o Dr. Hassan tocou meu braço.
— Por aqui — disse ele.
Depois de me conduzir até uma antiga estrutura de pedra que parecia uma série de câmaras vazias, ele pôs a mão atrás de um tijolo um pouco saliente nos fundos do recinto e empurrou alguma coisa. Um ronco mecânico estremeceu a área em que estávamos e fez uma cascata de areia cair sobre a entrada. A parede dos fundos então se afastou para o lado e revelou degraus que desciam rumo à escuridão.
— Esconderijo de arqueólogo ou segredo de grão-vizir? — perguntei, apontando para a abertura.
— Grão-vizir — balbuciou ele enquanto recolhia seus pertences. — Vamos.
Fui cambaleando atrás dele, descendo sem parar até a porta se fechar e nos vermos rodeados por um breu total.
— Doutor Hassan? — sussurrei, aflita.
— Espere um instante.
Meus olhos começaram a se acostumar com a escuridão e notei uma série de pedras grandes dentro de alcovas. Todas reluziam como a que Asten tinha me dado no Oásis das Pedras Sagradas.
— Foi Asten quem fez essas pedras? — indaguei.
Osahar fez que não com a cabeça e recomeçou a descer os degraus.
— Talvez, em algum momento no passado. Tudo o que sei é que elas se regeneram toda vez que a cerimônia é concluída. A luz perdeu força ao longo dos últimos mil anos, mas, quando a nossa tarefa estiver concluída, ficará tão claro aqui dentro que vai fazer parecer que um sol particular brilha nesse lugar. Minha teoria é que, de alguma forma, as pirâmides geram a energia.
— Interessante. — A bolsa pesada bateu na minha perna. — Então, agora vai me dizer para que servem essas tralhas todas?
— Eu vou fazer uma efígie.
— Como um boneco vodu?
— Em escala bem maior.
— Para quê?
— Existe um encantamento capaz de enfraquecer Apófis, ou até destruí-lo.
— E o senhor espera que funcione com Sebak?
— Sim. Vou precisar da sua ajuda para fabricar o boneco.
Chegamos ao pé da escada e paramos diante de uma pesada porta. Osahar pegou uma chave pendurada em uma corrente em seu pescoço e a encaixou na fechadura antiquíssima. Quase tive medo de a chave não girar, tão velha era a fechadura, mas funcionou, e a porta se abriu sem emitir um rangido sequer. Dentro do amplo recinto havia uma mesa de trabalho e uma enorme pedra reluzente do tamanho de uma cômoda.
Pousei as mãos sobre a pedra e constatei que estava quente, mas não a ponto de queimar. Pude sentir que um zumbido de energia emanava dela. Velhos pergaminhos e livros ocupavam prateleiras feitas à mão, e ferramentas variadas, tanto modernas quanto antigas, pendiam de pregos na parede.
— Foi o senhor quem criou este espaço?
O Dr. Hassan fez que não.
— Acrescentei algumas coisas ao longo dos anos, mas isto existe desde a época em que Amon nasceu. — Ele apontou para um túnel, depois para outro situado em um canto diferente. — Essas passagens subterrâneas conectam as pirâmides e chegam até debaixo da Esfinge. É assim que os vizires resgatam os corpos dos irmãos quando seu tempo na Terra se esgota — concluiu ele em voz baixa.
— Ah.
Embora eu soubesse que Amon precisava morrer para poder despertar de novo, pensar que o seu corpo seria resgatado e meticulosamente preservado me perturbou. Tive o súbito impulso de sair correndo até seu ônibus de turismo e lhe implorar que não fizesse aquilo. Em vez de ceder às emoções, porém, lembrei a mim mesma que era apenas uma garota mortal que havia passado um tempo, ainda que breve, na companhia de deuses encarnados. Quem era eu para julgar se a sua tarefa era digna ou se os sacrifícios que eles faziam eram justificáveis?
Ainda não sabia o que Osahar tinha previsto para mim, mas, se havia algo que eu pudesse fazer para aliviar o fardo de Amon, estava disposta a ir até o fim.
— O que o senhor precisa que eu faça? — indaguei.
— Pegue essas sacolas e forme um corpo.
— Como um espantalho?
— Exatamente.
Enfiei as mãos nas sacolas e encontrei uma calça, um pedaço de corda, uma faca e várias almofadas de diversos tamanhos. Enquanto enfiava as menores dentro das pernas da calça, o Dr. Hassan abriu um buraco na maior e pôs uma ferramenta e um pente lá dentro.
— Esse objetos pertenciam a Sebak — explicou.
Depois de vestirmos o espantalho improvisado, o Dr. Hassan me passou uma jaqueta de pele de crocodilo bem chamativa.
— Isso é de verdade? — perguntei.
— Ele agora é parte crocodilo. Para minimizar seu poder, precisamos destruir todas as suas partes.
— E qual é o encantamento? — indaguei enquanto o Dr. Hassan terminava de preparar uma poção.
— É mais um ritual do que um encantamento. A efígie está pronta?
— Acho que sim. É que havia outras roupas e um chapéu dentro das sacolas. O senhor acha que preciso pôr mais camadas?
— Não. Essas coisas são para depois. Por favor, traga a sacola que sobrou. Eu carrego o boneco.
O Dr. Hassan pegou uma pequena marreta e uma vara de metal de aspecto pesado e em seguida recolheu o boneco. Então me conduziu por vários túneis compridos. Por fim, subimos mais um lance de degraus que parecia não acabar nunca.
Quando alcançamos o topo, nos vimos no alto de uma antiga estrutura. O sol havia acabado de se pôr e o céu alaranjado aos poucos ia ficando roxo.
— Aonde foi todo mundo? — indaguei, surpresa ao ver que o vale antes lotado estava tão deserto quanto uma igreja na segunda-feira.
— Eles chegaram — disse o Dr. Hassan. — Como eu disse, quando os filhos do Egito pisam o solo em torno das pirâmides, as pessoas nos arredores vão embora na mesma hora. Ficam distraídas de repente, ou então se lembram de que precisam estar em outro lugar. Tenho uma teoria de que é por causa da energia que os irmãos irradiam. — Ele suspirou. — Há tantas perguntas que eu gostaria de fazer... Quem dera tivesse tempo para isso... O cientista em mim lamenta o pouco tempo que passarei na companhia deles, mas o meu lado vizir se sente grato por ter tido ao menos isso.
Eu me identificava com os sentimentos contraditórios do doutor.
Estreitando os olhos por causa da pouca luz, distingui três pontinhos pretos em pé junto à Esfinge.
— Estou conseguindo vê-los!
Um dos irmãos deu alguns passos à frente e passou pela Esfinge no exato instante em que um sibilo, parecendo areia escorrendo por uma ampulheta, encheu o ar. O barulho foi aumentando de volume até se tornar insuportável.
— O que houve? — berrei, pressionando as mãos nos ouvidos.
— É o sacerdote maligno de Seth — respondeu o Dr. Hassan.
Com gestos rápidos, ele pegou a vara de metal e bateu nela com a marreta até cravá-la no telhado. Corri para ajudá-lo a prender o boneco na vara. Bem na hora em que terminamos, o silvo cessou e um silêncio sinistro se espalhou pela paisagem.
Uma brisa afastou meus cabelos do pescoço e eu me virei devagar. Amon, Asten e Ahmose encontravam-se em um ponto no qual uma trêmula massa escura agora surgia entre eles e as pirâmides.
— O que é aquilo? — arquejei.
— Aquilo, querida, é um exército de mortos.

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