25 de outubro de 2016

22. Ceifadores e chacais

— Corra, Lily! — gritou Asten, me puxando pelo campo. Fiquei alarmada quando nosso progresso praticamente parou, por mais que tentássemos ir depressa. O caminho que levava à saída do campo estava apinhado de fantasmas prostrados, abrindo sulcos no chão com as unhas, gadanhando desesperadamente os companheiros e tentando arrancar os pés do atoleiro que os prendia.
Agarravam nossos tornozelos, as unhas afiadas espetando minha pele. Quando conseguiam nos segurar, uivavam desesperados:
— Me salve!
— Me leve com você!
Outros gritavam:
— Não deixe que me colham!
— Vocês não podem detê-los?
Por mais que eu desejasse ser capaz de fazer alguma coisa, sabia que não poderíamos ajudá-los. Quanto mais longe íamos, mais violentos os fantasmas se tornavam.
Um espectro particularmente agressivo conseguiu me fazer tropeçar e um rosnado escapou de meus lábios. Ahmose invocou sua maça e seu machado, formados com os grãos de areia ao nosso redor, e Asten criou seu arco com uma aljava cheia de flechas com pontas de diamante. Puxei meu arco das costas e encaixei nele uma das flechas de Ísis.
Com Ahmose abrindo caminho e Asten na retaguarda, não havia muita coisa para eu fazer. Assim que eram acertados com a maça, os fantasmas afastavam os braços, cuidando dos vários ferimentos, embora alguns parecessem ter feridas muito piores do que qualquer uma causada por Ahmose.
Mesmo assim eles gemiam e gritavam, numa angústia terrível, e eu suspeitei de que a razão seria mais do que simplesmente a dor que infligíamos ao passar. Vários mordiam os pulsos ou tremiam de medo, depois ficavam olhando a distância.
— Continue — disse Asten quando parei para olhar de novo para trás.
Um fantasma enlouquecido se aproveitou de minha imobilidade e agarrou minha perna, puxando com tanta força que caí nos braços dele. Imediatamente fui enterrada num casulo de membros que puxavam meu cabelo e minhas roupas.
Saí cambaleando pela fileira, distanciando-me do caminho encontrado por Ahmose. Meu arco caiu para o lado e ficou para trás, enquanto as facas eram arrancadas das minhas mãos e jogadas com indiferença no chão fora do meu alcance.
Instintivamente minhas garras emergiram e eu as cravei no peito, nos braços e no pescoço dos que estavam ao meu redor. No entanto, eles prosseguiram com mais intensidade ainda, tão inabalados por meus ataques quanto zumbis. Entrei em pânico quando a imagem de uma matilha de hienas decididas a me destruir preencheu a minha mente.
Gritando em desespero, eu empurrava e dava socos, tão frenética para escapar que não havia nada da esfinge e nem mesmo da leoa em minha atitude. Tinha sido reduzida a uma casca trêmula de mim mesma, uma criatura fraca que só conseguia reagir aos golpes com lágrimas.
Uma sombra caiu sobre a pilha de corpos e um a um os agressores desapareceram numa nuvem de areia que soprou no meu rosto. Asten estava usando uma das suas flechas com ponta de diamante, enchendo-me de alívio e de uma esperança fervorosa. A princípio achei que ele estava espetando os crânios dos mortos, mas, depois de ele ter afastado um número suficiente deles, vi que seu alvo eram os corações.
Alguns fantasmas perceberam o que ele estava fazendo e gritaram, tentando se afastar dele ou, quando isso não dava certo, distraí-lo para não ver os globos reluzentes que eram seus corações. Ele os deixou afastar o corpo o máximo que os pés enraizados permitiam, depois rapidamente acabou com os fantasmas mais agressivos que continuavam perto de mim. Os outros nas proximidades se encolhiam como cachorros espancados, os braços cruzados sobre a barriga, as costas curvadas ao se afastarem de nós.
— Você está bem? — perguntou Asten, agachando-se ao meu lado. Seu olhar percorreu meu rosto e depois desceu pelo meu tronco trêmulo. Eu ansiava por ser abraçada. Ser acariciada e reconfortada. Por que ele não me toma nos braços? Asten tocou a parte de baixo do meu queixo e ergueu meu rosto até nossos olhares se encontrarem. Tentei expressar através dos olhos quanto precisava dele, quanto ardia por seu toque, mas creio que não tive sucesso. Ele perguntou de novo:
— Você está machucada, Lily?
Algo dentro de mim se encolheu e recuou, como os fantasmas ao redor.
— Estou — respondi, sentindo a confiança e o controle das emoções retornarem a cada momento que passava. — Vou ficar bem.
Asten inclinou a cabeça e me olhou como se não confiasse nas minhas palavras, mas por fim assentiu e estendeu a mão.
— Então venha.
Depois de me ajudar a ficar de pé, me entregou as facas-lanças e o arco com as preciosas flechas de Ísis.
— Asten?
— Hein? — respondeu ele, atento aos fantasmas ao redor.
— Por que eles estão tão obcecados por mim?
— Deve ser o escaravelho do coração. Como imortais, eles podem sentir coisas além da compreensão de um ser vivo. Coisas como o amor ficam tangíveis para nós. É uma coisa física, inebriante. Como Filhos do Egito podemos manipular encantamentos para controlar o que não é visto, mas o amor é um encantamento ímpar, incontrolável, mais poderoso do que qualquer coisa que os deuses possam criar. Talvez por isso até eles sejam vítimas do amor.
Eu estava tentando entender suas palavras quando os fantasmas à nossa volta ficaram em absoluto silêncio. Sem nos movermos, olhamos ao redor. Cada fantasma no campo estava encolhido, com os braços envolvendo as pernas e as cabeças abaixadas quase entre os joelhos.
— O que está acontecendo? — perguntei.
— Não sei direito — respondeu Asten, pondo a mão no meu ombro num gesto tranquilizador de que parte de mim precisava desesperadamente.
O que quer que estivesse acontecendo não parecia bom. Se antes já éramos visíveis demais no campo de formas cinzentas, agora que estávamos de pé num campo plano e baixo, rapidamente ficou óbvio que seríamos alvos fáceis. Só demorou alguns segundos para nossos temores mais profundos aflorarem à superfície.
— Eles estão aqui — declarou Ahmose.
A calma fantasmagórica era agora pontuada por um novo som – um estalo que crescia em intensidade a cada momento que passava.
Não havia onde nos escondermos.
Ahmose se ajoelhou no chão e, estendendo a mão sobre a areia, murmurou um encantamento.
Depois de alguns segundos, ficou de pé.
— Por aqui — anunciou. — Sobre esse morro há uma pedra grande contra a qual podemos apoiar as costas.
Enquanto seguíamos para a pedra, os estalos aumentavam e em seguida diminuíam repetidamente. Os fantasmas ao redor se afundaram mais no pântano. Notei que meus passos ficaram mais lentos, os pés aderindo ao chão, ainda que o solo parecesse igual.
Quando contei isso a Asten e Ahmose, eles se entreolharam rapidamente e Ahmose explicou:
— É o desespero. Você está sentindo o peso dele no coração. Tente se concentrar nas coisas que elevam sua alma.
— Isso está afetando vocês também?
— Está. Mas é alarmante saber que o solo está pegajoso para você. Significa que se encontra mais adiantada. Está preocupada com Amon? — perguntou ele.
— Amon? — A verdade era que, desde que havia voado nos braços de Asten, eu pensava em pouca coisa além dele. Isso não está certo, pensei. Avaliei meus sentimentos. Parecia haver uma espécie de infelicidade escura preenchendo meu ser, e isso não era normal. Eu não era o tipo de garota que chafurdava na tristeza. Eu me levantava e fazia alguma coisa para consertar o que estivesse me incomodando. Não tinha tendência à depressão.
Se era mesmo o desespero que fazia meu coração pesar, não era por causa de Amon. Eu tinha uma certeza razoável de que estava no caminho certo para salvá-lo. Estava preocupada com ele, claro. Salvá-lo era a coisa mais importante para mim e, ao mesmo tempo, não era. Havia outra coisa me corroendo no fundo da mente. E quanto mais eu pensava nisso, mais a emoção parecia estranha.
Como se ela não me pertencesse. Mordi o lábio, tentando deduzir o que era.
Chegamos à pedra e Asten me olhou longamente antes de se aproximar de Ahmose e conversar com ele em voz baixa. Alguma coisa faminta e feroz dominou meu ser e então essa coisa se despedaçou e as solas dos meus pés afundaram alguns centímetros na areia. Entrei em pânico, lembrando-me da areia movediça que quase me havia matado. Isso não ia acontecer de novo.
Tentei respirar fundo para me acalmar, me concentrar como Ahmose havia aconselhado, mas meus pulmões não se expandiam. Envolvi a garganta com as mãos, fechei os olhos e me concentrei.
Era difícil engolir e sentia uma ardência dolorosa nos olhos.
De repente eles se abriram. Eu sabia qual era a emoção turbilhonando dentro de mim. Era a dor do coração partido. Mas isso não tinha lógica. Amon estava vivo. Ele me amava. Por que meu coração doía como quando Anúbis me levara de volta para Nova York? A ideia de que uma coisa horrível, uma coisa... definitiva havia acontecido com Amon congelou o sangue nas minhas veias.
Mas eu continuava sentindo o coração dele bater firme no ponto em que o escaravelho encostava na minha pele, de modo que não podia ser isso.
Ahmose nos deixou brevemente para procurar uma posição melhor.
— O que há de errado? — perguntou Asten, a preocupação gravada no rosto bonito.
— Isso... isso dói. — Foi uma declaração gutural arrancada das profundezas da minha alma.
— Dói o quê?
— Eu não... eu não sei — sussurrei, os lábios tremendo enquanto lágrimas escorriam dos cantos dos olhos. Sacudi a cabeça ligeiramente, tentando afastar as ondas de tristeza que pareciam me dominar.
Com expressão dolorida porém resignada, Asten passou um braço por sobre meu ombro e, desajeitado, ficou dando tapinhas nas minhas costas. Um choro desesperado brotou de mim e enterrei o rosto em seu peito, envolvendo sua cintura com os braços. Mais senti do que ouvi seu suspiro quando ele passou o outro braço ao meu redor, me envolvendo completamente em seu calor.
— Diga o que a incomoda, leoazinha — murmurou Asten, esfregando minhas costas em pequenos círculos. — O que provocou isso na minha guerreira feroz?
— É minha irmã — eu me ouvi dizendo.
Asten se inclinou para trás e me olhou com uma certa confusão, que só aprofundou a covinha linda em seu queixo.
— Sua irmã? — perguntou — Eu não sabia que você tinha uma irmã.
Pisquei, e uma lágrima reluzente que estivera grudada em meus cílios caiu em sua camisa.
Toquei a ponta do dedo no ponto molhado, fechei os olhos e depois abri a mão sobre seu peito musculoso.
— Está se referindo a Tia? — insistiu ele.
Respirando fundo, levantei a cabeça.
— Não. Não estou falando de Tia. — Uma onda de profundo ressentimento e desapontamento tomou conta de mim. — Tudo bem, Asten — falei com um leve tremor na voz. — Vou ficar bem.
Ele me lançou um olhar mostrando que não estava nem um pouco seguro disso. Nesse momento, Ahmose veio correndo para onde estávamos, gritando:
— Eles vêm aí!
Os estalos que haviam surgido desde que os fantasmas ficaram em silêncio tornaram-se mais intensos, até que ficou impossível dizer de onde vinham. Estávamos envoltos pelo som e fiquei bastante confusa com ele. Queria atacar e nos proteger, mas lutei comigo mesma, esperando a orientação de Ahmose. Levei a mão às costas para pegar o arco, mas parei abruptamente, com o braço levantado. Não!, gritou Tia na minha mente. O arco, não!
O quê?, respondi, abalada porque não conseguia mais controlar o braço. Por que está fazendo isso? Quer brigar por causa de armas, agora? Os ceifadores estão vindo!
Sei que os ceifadores estão vindo, Lily. Ela quase cuspiu meu nome. E desta vez vamos lutar nos meus termos. Não nos seus. Só porque compartilho seu corpo não significa que compartilho seu pensamento o tempo todo.
Qual é o seu problema? Primeiro me ignora quando tento falar com você, agora está gritando comigo.
Será que não poderia arranjar uma hora melhor para discutir?
Não estou discutindo. Estou simplesmente dizendo como isso vai acontecer. E que vamos usar nossas facas, não o arco.
Lutei para ter o controle, mas percebi rapidamente que Tia estava decidida e minha mente ficou imobilizada por sua rebelião. Foi Tia, e não eu, que levou a mão às costas e pegou as facas. Foi Tia que as girou nas mãos e pressionou com o polegar o botão que alongava as armas, transformando-as em lanças mortais. Fincando-as na areia junto aos nossos pés, ela olhou para o campo, inclinando as orelhas em busca da origem dos estalos.
Não foi preciso esperar muito. Formas escuras circulavam preguiçosamente acima do campo. Eram aéreas, e de vez em quando desciam em intervalos aleatórios para colher uma vítima escolhida. Como o clichê da morte, os anjos da segunda morte dos fantasmas carregavam uma espécie de foice curva, mas não tão longa quanto aquela carregada pelos ceifadores dos filmes de terror. Essas criaturas agiam como grandes pássaros mergulhando no campo atrás de uma espiga de milho ou de uma minhoca, mas o ato finalizava com um ensurdecedor ruído de corte, seguido por um grito rápido mas apavorante.
Um instante depois, um fantasma cinza, de membros frouxos, após ter o coração reluzente enfiado sem cerimônia pela goela abaixo, era jogado de modo casual numa sacola pendurada no ombro do ceifador vestido com um manto. Essa era uma coisa que as lendas haviam acertado. Os ceifadores usavam mesmo mantos pretos, compridos, que flutuavam no vento infernal do deserto.
Cheiravam a desespero e podridão.
Permanecemos quietos, prontos para lutar, mas na esperança de sermos ignorados. Observando a colheita com fascínio, perguntei-me o que o Dr. Hassan acharia deste lugar. Asten e Ahmose mantinham-se perto de mim, empunhando suas armas, a respiração ressoando nos meus ouvidos.
Justo quando estávamos finalmente em segurança para fugir, um fantasma não muito distante, escolhido como alvo por um ceifador, começou a agitar as mãos na nossa direção e a gritar:
— Invasores!
Jogando o fantasma no chão como se fosse um saco de lixo, o ceifador virou-se em nossa direção. O fantasma abandonado, com uma das pernas ainda presa no atoleiro, tentou freneticamente escapar do campo. Não teve sucesso. Em alguns instantes, outro ceifador apareceu, agarrou o espectro agitado e terminou de colhê-lo, junto com seu coração.
A forma vestida de preto que nos olhava aproximou-se e esticou o corpo no ar. O estalo terrível começou quando ele virou a cabeça para um lado e depois para outro. Com o movimento, o capuz caiu para trás e pude ver de onde o barulho vinha. Era a mandíbula do ceifador.
Através de Tia eu soube que a criatura sentia nosso cheiro por meio do movimento do maxilar. Quando o ceifador abria a boca, a língua, um músculo preto e comprido, provava o ar. Depois de puxar o órgão de volta para a bocarra escancarada, a mandíbula estalava cerca de uma dúzia de vezes, como se mastigasse nosso cheiro.
A criatura mais parecia um inseto do que um esqueleto, mas dava para ver como ela poderia ser confundida com um esqueleto. A distância, os padrões em preto e branco em sua cara lembravam ligeiramente um crânio humano. A mandíbula, porém, tinha um formato diferente; era mais como a de uma formiga ou vespa.
A boca que estalava não se movia para cima e para baixo, como um maxilar humano. Em vez disso, um lado batia contra o outro horizontalmente. E era uma boca enorme, muito maior do que uma criatura daquele tamanho deveria ter. O ruído que aquilo fazia, pairando acima dos fantasmas, me fez lembrar de um enxame de marimbondos. Olhos reluzentes ardiam, nos examinando.
Depois de um momento tenso, o zumbido aumentou em vários graus e notamos que vários outros ceifadores se aproximavam rapidamente. Asten deve ter concluído que seria melhor lutar contra um deles logo do que esperar o ataque do grupo, por isso disparou uma flecha. A ponta de diamante encontrou o alvo e se cravou no pescoço do ceifador. Um berro insano encheu o ar e a criatura flutuou lentamente para o chão, debatendo-se nos espasmos da morte.
Outros berros soaram enquanto Asten disparava uma flecha depois da outra. Logo eles chegaram suficientemente perto para serem alcançados pelas lanças, e eu atirei uma e depois a outra, conseguindo ferir seriamente um ceifador e matar mais um. O número das criaturas aumentou, fomos cercados e a luta passou a ser corpo a corpo. Invoquei minhas garras e ataquei com elas, continuando a matar. Havia algo catártico em estar num combate.
Toda a confusão que eu havia sentido se dissipou e minha mente se esvaziou das preocupações e emoções errantes. De repente me senti no controle do meu corpo. Enquanto lutava, meus membros se moviam sem hesitar, instintivamente. Busquei o poder da esfinge e meu desejo foi atendido.
Nunca Tia e eu havíamos trabalhado de modo tão unificado, e eu adorei a sensação. Com a mão, esmaguei a traqueia de um ceifador enquanto cravava as garras no coração de outro. Não havia disputa. Nem domínio. Nem incerteza. Éramos uma só, com uma conexão ainda maior do que a que havíamos experimentado no barco de Cherty.
A segunda onda de ceifadores se aproximou, dessa vez com os ferrões à mostra. Derrotei facilmente meus dois atacantes, mas cinco desceram para cercar Ahmose, que fora atingido mais de uma vez pela foice curta de um ceifador. O sangue tingia a manga de sua túnica. Senti o cheiro forte no ar, mas dava para ver que o ferimento não ameaçava sua vida.
Fui na direção dele, mas então Asten foi picado na perna e eu hesitei. Sem pensar, mudei de direção e segui até Asten, usando as garras para arrancar o ferrão do corpo do ceifador. Depois agarrei o manto do ceifador e bati com sua cabeça numa pedra até que o corpo ficou frouxo.
Ansiava por confortar Asten, mas ouvi o grito de Ahmose e trinquei os dentes.
Sentindo que não me restava outra opção, coloquei uma das preciosas flechas de Ísis na corda, levantei o arco e mirei. A flecha se cravou no ombro de um ceifador, mas a criatura reagiu de modo muito diferente de como reagia às de Asten. Em vez de gritar ou cair quando foi ferido, imediatamente o ceifador parou de lutar e veio na minha direção, o braço ferido pendendo frouxo, a flecha ainda se projetando de seu corpo.
O zumbido familiar enchia o ar, um som tão poderoso que minha pele formigava com as vibrações. Os outros ceifadores pararam, olhando o primeiro, e um a um o seguiram enquanto ele descia até o chão junto aos meus pés. Gradualmente os sons fizeram sentido e as palavras tomaram forma.
— Como podemos servir à deusa? — disse o ceifador ferido.
Nem Asten nem Ahmose pareceram entendê-lo.
— Para começo de conversa, podem parar de nos atacar — respondi, com as garras ainda estendidas de modo ameaçador.
— Vamos deixar que vocês passem — afirmou outro.
— O que diremos à senhora? — perguntou um ceifador alarmado aos irmãos. — Muitos morreram!
— Ela saberá! — arengou outro. — Vai nos devorar!
O ceifador que eu tinha acabado de ferir disse:
— Vamos distraí-la com um número dobrado de corações e tentar esconder nossos ferimentos e nossas baixas.
— Ela vai descobrir! — lamentou um, desesperado.
— Não importa! — gritou o primeiro. — As lágrimas da deusa nos chamam. Se isso significar nossa morte, que seja.
— Obrigada — falei. — Meu amigo foi picado. Vocês podem curá-lo?
— Infelizmente, não — respondeu o ceifador, as palavras zumbindo na minha mente. — Mas o unguento da árvore-mãe na Floresta Turquesa pode anular o veneno.
— Sim — ecoou outro. — Se vocês chegarem a tempo. Ele só tem algumas horas.
— Horas? — perguntei, o medo por Asten crescendo em meu peito. Até então ele não dava sinais de estar envenenado, exceto pela perna ferida, que mancava um pouco, e por uma película de suor que cobria sua testa.
— Vão para oeste — disse um deles. — Encontrem a Fonte dos Chacais. O caminho por baixo vai levá-los às árvores.
Os ceifadores se viraram para ir embora, mas um deles hesitou.
— Vamos esconder a presença de vocês da Devoradora enquanto pudermos, mas a mente dela é afiada. Ela vai descobrir logo nossa duplicidade. É melhor se apressarem.
— Espere! — gritei antes que o último ceifador fosse embora. Ele hesitou, flutuando no ar acima de nós. — Depois de curarmos Asten, planejamos atacar a Devoradora. Vocês vão nos ajudar?
O ceifador me olhou, as mandíbulas estalando baixinho enquanto ele pensava no pedido.
— Vocês são guerreiros corajosos, mas são três, e ela tem o poder de milhares à sua disposição. Nós, ceifadores, somos subordinados a ela, estamos a seu serviço. Ela saberá, se ousarmos desafiá-la. Já houve um tempo em que servíamos a uma deusa diferente, mas fomos enganados para ajudar ao Caos, e agora estamos aqui, sob as ordens da Senhora dos Mortos. Mas sempre vamos nos lembrar de quem foi nossa criadora. Daquela que perdemos.
Ele fez uma pausa.
— Vou pedir a meus irmãos que pensem na sua proposta. Mas saiba que a coisa da qual você fala é muito perigosa. Provavelmente pereceremos todos na tentativa e ela vai se vingar de toda a nossa colmeia. Se ela matar nossa rainha e nossos não nascidos, nossa espécie vai perecer.
— Mas, se tivermos sucesso, vocês não precisarão mais servir a ela — argumentei.
— Verdade. — O ceifador provou o ar enquanto pensava. — Quando vier para o combate, dispare uma das flechas da deusa para o céu e nós veremos o que podemos fazer.
— Obrigada — agradeci, e me despedi com um gesto de cabeça.
Enquanto os ceifadores partiam, eu me aproximei de Asten.
— Como você está? — perguntei.
— Minha perna só está meio entorpecida. Acho que posso andar com alguma ajuda.
Fiz uma careta ao examinar o ferimento.
— Você pode fazer um pedaço de pano, Ahmose?
Em alguns segundos Ahmose criou uma pilha de ataduras, que se dobraram nas minhas mãos.
Levantei uma sobrancelha para ele.
— O que foi? — perguntou, notando minha expressão.
— Será que você poderia ser um pouquinho menos agourento? — perguntei, enrolando a atadura na perna de Asten. — Isto é atadura de múmia.
Ahmose deu de ombros.
— Foi a primeira coisa em que pensei.
Suspirei.
— Acho que não posso culpá-lo. Quando voltarmos ao mundo real, terei de levar vocês em um tour para conhecer todo tipo de coisas modernas, inclusive hospitais com suprimentos esterilizados.
— E comida — acrescentou Asten. — Eu gostaria de experimentar mais daqueles doces que Amon me apresentou.
— Fechado — concordei com um sorriso.
Por um momento fiquei imóvel, lembrando-me de quanto Amon apreciava comida, especialmente aqueles discos doces recheados com frutas. Havia muitos lugares que eu poderia apresentar a ele. Um monte de comidas novas que poderíamos experimentar juntos. No entanto, as palavras seguintes de Asten furaram minha bolha de felicidade:
— Infelizmente não vamos voltar com você. Você sabe que, mesmo se derrotarmos a Devoradora, Ahmose, Amon e eu não poderemos retornar ao seu mundo. Só devemos despertar daqui a mil anos.
— Será que eles não deixariam que vocês tirassem umas feriazinhas merecidas? — propus. — Quem sabe durante uns cem anos?
— Duvido, Lily — disse Ahmose. — Nunca, nos nossos longos séculos de existência, tivemos folga.
— Teremos de fazer algo para mudar isso. Mas uma coisa de cada vez. Agora precisamos salvar Asten, depois Amon. Você consegue encontrar um caminho para a Fonte dos Chacais, Ahmose?
— Acho que sim.
Ele soltou o braço de Asten e eu o peguei, oferecendo ajuda enquanto ele tentava se apoiar na perna ferida. Ahmose levantou os braços para entoar um encantamento, depois bateu palmas.
Todo o vale começou a estremecer.
— O que está acontecendo? — gritei.
— Não sei! — exclamou Asten, tropeçando. Nós nos agarramos um ao outro enquanto os penhascos ao redor ribombavam, prontos para nos esmagar.
Uma fenda se abriu na montanha no fim do vale, poeira e pedras chovendo no espaço escuro que se formou. Ahmose havia fendido a montanha ao meio. Quando o terremoto acabou, nós três olhamos a fenda recente que levava para fora do vale.
Em menos de uma hora estávamos na fenda e rapidamente ficou claro que seria um grande esforço para Asten escalar o terreno rochoso.
— Vocês deveriam me deixar para trás — disse ele depois de fazermos uma parada, ambos ofegando de exaustão.
Ahmose procurava os melhores lugares para subir, encontrando os pontos mais estáveis enquanto descansávamos. Mesmo assim, Asten exibia sinais de fraqueza e tínhamos um caminho longo, muito longo, a percorrer.
— Não vamos deixar você — garanti. — Isso não vai acontecer.
— O tempo é crucial. Você precisa salvar Amon. Sem dúvida o mundo é mais importante do que eu. Eu nem sou um receptáculo escolhido. Sou apenas um ser humano que foi envolvido nisso.
— E o que você acha que eu sou? Eu não decidi exatamente virar o que sou agora. Nós fazemos isso para salvar as pessoas que amamos, e eu considero você parte desse grupo.
— É mesmo? — Seu olhar percorreu meu rosto, examinando-me como se procurasse a resposta para sua pergunta.
— É mesmo o quê? — respondi baixinho.
Ele não esclareceu, mas levou a mão ao meu rosto e limpou uma mancha de terra. Pressionei minha mão contra a dele, desejando que ele sentisse o toque. Asten me deu um sorriso doce que me dizia que podia de fato sentir. A dor que eu havia sentido antes, apesar de ainda não entender totalmente sua causa, dissolveu-se com seu sorriso. Asten se inclinou para mais perto e minha respiração falhou, o coração palpitando no peito enquanto o ar à nossa volta ficava denso.
— Só mais um pouquinho e você poderá levitar, Asten! — Ahmose gritou e desceu até onde estávamos, e o momento íntimo passou. — O poder de atração do Pântano do Desespero enfraquece uns cinco metros acima. Assim que levarmos você até lá, deve ficar muito mais fácil para nós.
Fiquei feliz porque iríamos conseguir. Iríamos salvá-lo. Mas então por que o Pântano do Desespero continuava puxando meu coração? Pensei nisso até chegarmos ao ponto em que Asten pôde levantar voo.
Um instante depois Ahmose estendeu a mão para mim e me puxou para seus braços. Flutuamos os três, subindo a encosta do penhasco. Permanecemos no ar, sobrevoando um terreno rochoso pontilhado por montes pulsantes de terra que certamente abrigavam feras monstruosas que não queríamos encontrar. Picos serrilhados furavam o céu, lançando sombras agourentas. Não havia sol, mas a luz era suficiente para enxergarmos. Diferentemente do alvorecer, não existia promessa de claridade e esperança, nada para esperarmos com ansiedade. Sabíamos que somente o sofrimento nos esperava. Tudo era crepúsculo. Anoitecer. Feio e desprovido de estrelas. Era como se estivéssemos à beira do horror e do desespero, aguardando que os monstros que se escondiam embaixo da cama se sentissem tranquilos com nossa presença para se revelar.
O ar assombrado de expectativa que me mantinha nervosa ecoava na paisagem. Mesmo com a visão aumentada, eu só podia enxergar a uma curta distância. Cavernas e bolsões escuros, tocas escondidas e mirantes escarpados por toda parte, todos potencialmente ocultando alguma coisa ou alguém decidido a nos destruir. Arrepios levantavam os pelos da minha nuca. Eu tinha certeza de que estávamos sendo vigiados. Seguidos.
Para me distrair, perguntei a Ahmose sobre os ceifadores.
— Por que eles não viraram pó, como os fantasmas?
— Eles são como você — respondeu ele.
— Como eu? O que você quer dizer?
— Estão vivos. Quando morrem, é a primeira morte. Seus corpos são enterrados aqui e as almas são julgadas. Os fantasmas têm uma segunda morte, definitiva.
— E isso poderia acontecer com vocês? Quero dizer, virar pó?
— Poderia, mas a Devoradora vai manter Amon vivo pelo maior tempo possível — disse ele, deduzindo que eu estava pensando em Amon. — O coração dele pode alimentá-la por muito tempo.
— Quanto? — perguntei, distraída.
— Quanto o quê?
— Quanto tempo até ela ter absorvido o suficiente do poder dele para se libertar?
— Não sei. Amon é o mais poderoso de nós três, já que possui o Olho. Mas pode ser que não demore muito.
Pensei em Amon, maravilhada por ele ter conseguido sobreviver tanto tempo no mundo dos mortos. Ao contrário de mim, ele estava sozinho.
Com o tempo a paisagem soturna mudou e chegamos a uma espécie de oásis alienígena. Árvores estranhas se erguiam no ar e o som de água nos atraiu.
Pousamos e Ahmose foi até o irmão. Um calor febril e uma camada de suor haviam brotado no rosto de Asten e, apesar de suas tentativas para nos tranquilizar, ele gritou quando seu pé tocou o chão. Mesmo com a perna coberta pelas ataduras, dava para ver como estava inchada.
As árvores estavam próximas demais para que Asten continuasse levitando, por isso Ahmose carregou o irmão nas costas enquanto eu ia à frente, com as facas preparadas. No momento em que encontramos a fonte de água – um grande poço borbulhante no meio do oásis – o barulho das criaturas parecidas com pássaros nas árvores cessou. A experiência recente demais com os fantasmas e os ceifadores me veio à mente e eu soube com Tia que o som das criaturas na vegetação ao redor significava que tudo estava bem e que o momento em que o barulho cessou foi aquele em que o predador chegou. Esperei, mas sem muito otimismo, que os predadores que eles pressentiam fôssemos nós.
Estava errada.
Um cheiro almiscarado, sinistro, como o de um animal que vivia numa toca, tingido pelo leve fedor de podridão, atacou minhas narinas. Girei, mantendo-me de costas para a água e com os irmãos atrás de mim. Ahmose pousou Asten e também sacou suas armas, posicionando-se ao meu lado.
Antes mesmo que eu pudesse me preparar para atirar uma faca, dezenas de criaturas enormes, parecidas com lobos, nos cercaram. O pelo de suas costas encurvadas estava eriçado, as garras afiadas estalando nas pedras do caminho. Encontravam-se agachados, desnudando as presas brilhantes, os olhos amarelos cintilando com intenção assassina. Seu rosnado, reverberando, provocava pequenos arrepios na minha pele. Minha respiração acelerou e um medo frio lambeu-me as veias. Chacais!, gritou minha mente.
Antes, lutando contra os ceifadores, eu me senti confiante, segura. Por algum motivo, essa situação era diferente. Eu sabia que as presas afiadas como navalhas rasgariam minha garganta, me devorariam. Eles não tinham misericórdia. Não hesitariam em destruir. Matar.
Um dos animais chegou mais perto, sua forma se dissolvendo como fumaça líquida e depois se solidificando próximo demais para que eu me sentisse confortável.
Por que vocês estão aqui?, perguntou a criatura parecida com um lobisomem gigante. Vieram saciar nossa fome?
— Os ceifadores disseram que vocês podem nos ajudar a chegar à Floresta Turquesa.
E por que faríamos isso?, perguntou a fera com uma espécie de riso gorgolejante, a mandíbula se abrindo e depois desaparecendo por um átimo antes de se fechar de novo como uma armadilha. O sopro de ar que ele lançou pelas narinas trouxe um gosto apimentado e feroz à minha língua. Ele levantou a cara e depois se dissolveu, reaparecendo pouco mais de um metro à minha direita.
Forasteiros. O cheiro de vocês nos instiga, disse o chacal líder. Vocês agitam nosso sangue com o gosto estimulante do seu pavor. Ele paira sobre nós preguiçosamente e nos revigora até ficarmos loucos com o que promete. O chacal moveu a cabeça, empolgado. Nós, chacais, temos a força das grandes rochas. Nossa carne é como ferro. Nossos dentes, afiados. Nossas mandíbulas, armadilhas de aço. Seus dentes são quebrados, cegos. Um de vocês está fraco. O veneno bebe o espírito dele. E você?, disse, dirigindo-se a mim. Você cheira a medo. Acho que a matilha vai jantar bem esta noite.

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