21 de outubro de 2016

21. Lágrimas de crocodilo

— Amon?
Afastei os cabelos da sua testa e me encolhi ao sentir sua pele fria e ao ver a terrível mutilação da qual ele fora vítima. Os brilhantes olhos cor de avelã de Amon tinham sumido, e meu coração estava tão partido e vazio quanto o homem sentado na minha frente.
Seus lábios estavam rachados e secos, e o ar chiava no seu peito como se ele fosse um velho acometido de pneumonia.
Lágrimas amargas fizeram arder meus olhos e escorreram pelas minhas faces. Não conseguia mais olhar para ele, então pousei o rosto em seu joelho.
A ironia era que, mesmo gravemente ferido, Amon sentia necessidade de me consolar. Ele começou a acariciar delicadamente os meus cabelos.
— Calma, Nehabet. Vai ficar tudo bem — disse ele, a voz áspera.
Então começou a tossir com tanta violência que levantei a cabeça, pus as mãos em seu pescoço e fiquei murmurando no seu ouvido até a crise passar. Quando ele afastou as próprias mãos da boca, estavam molhadas de sangue vivo.
Determinada, me levantei, só que depressa demais, o que me fez cambalear. Consegui me firmar, livrei-me das mãos dos irmãos de Amon que tentavam me amparar e virei-me para Ahmose.
— Minha energia pode ajudar a curá-lo?
— Não!
Essa surpreendente explosão pareceu esgotar tudo o que restava de forças a Amon. Algo dentro dele se partiu e ele desabou na cadeira, desacordado.
— O seu vínculo permite a transferência de energia, sim, mas duvido que a força que lhe resta baste para curá-lo — disse Ahmose em voz baixa.
— De toda forma, ele não iria querer pôr você em risco — acrescentou Asten. — O fato de ter absorvido toda a dor que lhe infligiram sem compartilhar nada mostra a intensidade da preocupação dele com você.
— Como assim? Está dizendo que ele evitou usar minha energia de propósito? Que ele bloqueou nossa conexão?
— As vezes em que você cambaleou ou se sentiu fraca foram momentos em que ele perdeu o controle, mas já faz algum tempo que está se privando da sua força.
— Que bobagem dele se permitir ficar tão fraco — comentou Ahmose.
— Você não teria feito o mesmo se sentisse o que ele sente? — rebateu Asten.
Ahmose resmungou e cruzou os braços diante do peito.
— Ao escolher esse caminho, ele está fechando suas possibilidades futuras.
— Talvez a possibilidade que resta seja a que o destino escolheu para ele.
Ahmose ignorou o comentário de Asten e explicou:
— Sem os seus três outros vasos canópicos, os poderes de Amon diminuíram de modo significativo. A esta altura, ele é quase tão mortal quanto você. Não fosse a força do falcão, é provável que a encarnação de Apófis o tivesse destruído. Não posso viajar ao passado para assegurar seu bem-estar, mas vou emprestar a ele toda a energia que puder agora, e torço para que seja suficiente. Você, Lily, por ser mortal, já está com sua energia perigosamente comprometida. Não me atrevo a usar mais nada.
— Eu me importo. Somando sua capacidade de curar e o que me resta de energia, quanto podemos devolver a ele?
Ahmose deu um suspiro, coçando o maxilar enquanto fitava minha expressão decidida.
— Eu talvez consiga curar o que está destruído dentro do corpo dele o suficiente para fazê-lo voltar a funcionar, mas os olhos são outra história.
— Posso contribuir de alguma forma? — quis saber o Dr. Hassan.
Ahmose fez que não com a cabeça.
— Somente quem está ligado a ele pode transferir energia. Nem que Asten se juntasse a mim e sugássemos toda sua energia, Lily, isso não bastaria para restituir os olhos de Amon e revigorá-lo o suficiente para executar a cerimônia. Restaurar o que foi arrancado de nossos corpos é extremamente complexo.
— O mais importante é a cerimônia — afirmou Asten. — Amon ainda tem seu terceiro olho. Isso irá sustentá-lo até Seth ser novamente contido.
— Terceiro olho? O Olho de Hórus, você quer dizer?
— Isso — respondeu Asten. Após um breve olhar na direção do Dr. Hassan, ele prosseguiu: — É provável que o Olho de Hórus tenha sido o motivo que levou Sebak a atacar os olhos de Amon.
— Ele queria o poder para si — especulei.
— Sim, mas Amon tomou alguns cuidados antes de se render — disse o deus das estrelas. — Infelizmente, o tiro parece ter saído pela culatra.
— Que cuidados? Como assim?
Com um suspiro, Asten passou a mão pelo crânio calvo.
— Sabíamos que o sacerdote do mal tentaria pegar o Olho, então nós o transferimos.
— Como? Quer dizer que ele está com vocês?
— Não. Temo que o atual guardião do Olho seja eu. — O Dr. Hassan deu um passo à frente. — Amon me transformou em receptáculo provisório para que eu o guardasse. Foi assim que consegui encontrar lugares ocultos na oubliette e achar uma saída.
— Sim — disse Ahmose. — Mas um mortal só é capaz de sustentar o Olho por um tempo curto. Se não conseguirmos transferi-lo de volta para Amon logo, o seu doutor vai começar a ter pensamentos irracionais, que levarão a alucinações e, depois de algum tempo, à loucura. Minha alma quase se perdeu porque o Olho não estava focado.
— Quando o despertamos, é isso? — perguntei.
— Sim. O Olho nos guia quando somos chamados do além, e sem a correta orientação de Hassan, eu poderia ter me perdido nos lugares escuros entre os dois mundos.
Arquivei essa informação e disse:
— Então, contanto que a gente devolva o Olho rapidamente, vai ficar tudo bem, certo? Que parte do plano deu errado?
— Esconder o Olho cumpriu nosso objetivo de que Sebak não o roubasse e usasse o seu poder, mas ele agora sabe que o Olho está em outra pessoa — explicou Asten.
— E vai vir atrás do doutor Hassan?
— Não. Ele acha que você está com o Olho — disse Ahmose.
O Dr. Hassan retorceu as mãos.
— Sebak é mesmo um pouco obsessivo.
Cruzei os braços.
— Isso é no mínimo um eufemismo.
— Pois é. Infelizmente, acho que desde o início ele a escolheu como alvo, pois sabia que você era a maior fraqueza de Amon — disse o egiptólogo. — E agora que acredita que você está com o Olho...
— Virá atrás de mim com mais vontade ainda.
— Além disso, agora que ele conseguiu canalizar a encarnação de Apófis, o que antes era uma obsessão vai se transformar em uma fome inquestionável — afirmou Ahmose.
— Ele não vai descansar enquanto não a tiver capturado, Lily.
A expressão normalmente jovial de Asten estava séria, o que me deu uma boa indicação de quanto minha situação era grave.
— Ah.
Descobrir que eu era o alvo de um deus-crocodilo do mal reencarnado não só em um sentido, mas em dois, não era exatamente o desfecho que eu esperava para minha aventura egípcia.
— Pelo menos agora nós sabemos como o sacerdote obscuro obteve seu poder — disse Ahmose.
— Sabemos? Eu perdi alguma parte? — perguntei.
— Ele roubou o poder contido nos três outros vasos canópicos de Amon — explicou Asten.
— Só que esse poder não foi previsto para um mortal, nem mesmo um mortal apoiado por Seth. O poder arruinou Sebak, arruinou sua mente — completou Ahmose.
— Veja bem, cada um de nós recebeu dons dos deuses — continuou Asten. — A exceção foi Amon, que recebeu um quinto dom: o Olho de Hórus. Os outros quatro ficam guardados nos vasos canópicos, e nós os absorvemos quando despertamos.
— Quais são os quatro poderes que Sebak roubou?
— Amon recebeu os nomes Revelador de Segredos, Protetor dos Aflitos, Senhor da Luz e Caçador da Verdade.
— E por que exatamente esses nomes são considerados poderes? — indaguei.
— Ser o Senhor da Luz lhe permite invocar o falcão dourado.
— Ok, então esse poder ele ainda tem. E os três outros?
Os irmãos de Amon se entreolharam, em seguida olharam para mim.
— Nem mesmo nós conhecemos a extensão total de nossos poderes — disse Asten. — É raro termos que usá-los para outro fim que não a realização da cerimônia.
— Mas usá-los é instintivo, e podemos sentir quando um dos outros está usando seu poder — disse Ahmose. — Sebak estava utilizando o poder de Amon, mas de modo deformado, distorcido, quase como se o poder estivesse sendo empregado da maneira oposta àquela para a qual foi concebido.
— Então... em vez de ser o protetor dos aflitos, Sebak é o defensor daquele que causa aflição?
— Exatamente.
— E vocês conseguem sentir o poder dele?
— Sim — continuou Asten. — Sebak usou o poder de Amon para descobrir encantamentos perdidos e distorcer outros, como aquele usado para nos despertar. Ele o subverteu para invocar os mortos, guerreiros sem raciocínio próprio condenados a um sofrimento eterno e corpos desfigurados. Devolvê-los ao além seria um gesto de bondade.
Pigarreei.
— Então eu vou fazer uma pergunta maluca: a gente consegue recuperar os poderes de Amon?
— Talvez — respondeu Ahmose. — Mas vai ser preciso convencer Sebak a abrir mão deles.
— Improvável — interveio Asten. — Para abrir mão dos poderes, ele precisa deixá-los de lado voluntariamente. A maioria dos homens não consegue ou não deseja fazer esse sacrifício.
Nessa hora, o Dr. Hassan, que havia passado os últimos minutos calado, se pronunciou:
— Talvez eu possa tentar convencê-lo.
Asten e Ahmose se entreolharam com uma expressão de dúvida.
— O objetivo de Sebak vai ser impedir a cerimônia — disse Asten. — Se ele conseguir atrapalhar o ritual, talvez possa juntar poder suficiente para despertar o deus do caos. Seth vai estar com sua força máxima logo antes da lua cheia.
— Quando vai ser isso? — perguntei.
— Amanhã à noite — respondeu Ahmose. — As estrelas vão estar alinhadas e o portal que impede o Obscuro de voltar à Terra vai ficar aberto por um curto período. Nossa tarefa é construir uma barreira poderosa o suficiente para impedi-lo de atravessar durante esse intervalo.
— Agora é de manhã cedo — disse o Dr. Hassan. — Ou seja, temos mais ou menos quarenta horas. Mas será que é possível detê-lo?
— Com Amon, sim — respondeu Asten.
Durante toda essa conversa, não saí de perto de Amon. Ele permaneceu inconsciente, mas eu mantive a mão em volta do seu braço na esperança de sentir um débil filete da minha energia sair do meu corpo para fortificá-lo. Nada aconteceu, porém, nenhum sinal de vida a não ser sua respiração superficial.
— Vamos curá-lo, então — falei, pronta para fazer o sacrifício necessário.
— Aqui não. — Ahmose deu um passo à frente, pegou Amon no colo e o pôs no ombro. — Precisamos de um lugar para descansar, e todos teremos que nos banquetear para estarmos fortes amanhã à noite.
— Podemos voltar para a minha casa — sugeriu Osahar.
Asten fez que não com a cabeça.
— Imagino que seu assistente saiba onde o senhor mora.
— Sim — respondeu Osahar com tristeza.
— Então precisamos de outro lugar — disse Asten.
Esfreguei meus braços pegajosos. Pensar em um banquete, uma ducha e um longo cochilo era incrivelmente convidativo.
— Não passamos por um hotel a caminho do...?
Meu comentário foi interrompido por um chacoalhar grave e um sibilo. Alguma coisa havia perturbado os zumbis mais ainda do que já estavam perturbados, e de repente me lembrei do arco de poder que Sebak havia lançado logo antes de sumir. O ruído inconfundível de garras arranhando a pedra e o clangor de membros cobertos por armaduras ecoaram no ar.
— Parece que os biloko voltaram. Será que conseguimos sair daqui em uma tempestade de areia? Ou quem sabe usando aquela nuvem de vaga-lumes que Asten sabe fazer? — perguntei, depois de correr os olhos pelo ambiente e constatar que não havia nenhuma outra porta.
— Precisamos poupar nossa energia para a cerimônia e para curar Amon — respondeu Asten. — No estado em que ele está, eu gostaria de evitar qualquer gasto desnecessário de poder. Se não tivermos outra escolha, faremos o que for preciso, mas por enquanto sugiro sairmos daqui lutando. Lily, fique atrás de Ahmose. Eu vou na frente. Doutor Hassan, o senhor virá do meu lado, e Ahmose e Lily nos seguirão. Entendeu?
Assenti com a cabeça, estendi a mão e peguei a única arma que consegui encontrar – um dos bisturis provavelmente usados para arrancar os olhos de Amon – e tentei ignorar as manchas de sangue no instrumento.
Como ainda estava armado, Asten ergueu o arco e mirou uma cintilante flecha com ponta de diamante na porta, já vergada com o peso de muitas criaturas tentando entrar. Com o Dr. Hassan segurando o cabo de prata do machado de Ahmose, e este com a maça em uma das mãos e o outro braço amparando Amon, preparamo-nos para tentar passar correndo.
A porta se abriu com um estrondo e uma penca de mortos-vivos se despejou para dentro do recinto à nossa procura.
Asten neutralizou três deles em rápida sucessão enquanto Ahmose bateu com tanta força em dois outros que eles rodopiaram e tombaram para um lado em uma pilha disforme de braços e pernas. Agarrando o Dr. Hassan, Asten o empurrou adiante. Ansiosa para sair daquele lugar cheio de zumbis, colei em Ahmose e o segui, os cabelos de Amon fazendo cócegas no meu rosto.
Ahmose fechou a porta com força e, arriscando-se a usar um pouco de seu poder, correu o polegar pelo batente.
— Agora eles não vão escapar — explicou.
Quando ele finalmente mudou de posição e me permitiu ver o que havia à nossa frente, gelei.
Eu estava esperando demônios biloko invisíveis. Suas mordidas doíam, mas não conseguir vê-los ajudava um pouco. No entanto, o que nos aguardava decididamente não eram demônios biloko, e tampouco soldados zumbis.
O que se aproximava sem fazer ruído era uma horda de crocodilos abrindo e fechando as bocarras. E mais: metade parecia estar com algum pedaço faltando. Alguns até usavam ataduras.
— É sério isso? Múmias de crocodilo? — gritei.
— Não acho que sejam todos múmias — disse o Dr. Hassan, agitando o machado de prata para a frente e para trás na cara de um dos bichos e se preparando para cortar sua pata.
Ele tinha razão. Alguns dos animais pareciam vivos, enquanto outros obviamente eram mortos-vivos.
— São muitos! — exclamei. — Como vamos sair daqui?
Quando uma das flechas de Asten ricocheteou na cabeça escamosa de um crocodilo gigante, ele gritou:
— Hassan! Suba nas minhas costas. — O Dr. Hassan trepou em Asten da melhor maneira que conseguiu, passando um braço em volta do seu pescoço, e estendeu a outra mão com o machado. — Lily! Segure a minha mão. Ahmose, pegue a outra mão dela.
Estava ladeada pelos irmãos, que fecharam os olhos e levantaram voo. Um crocodilo agressivo se esticou para cima na tentativa de morder uma das minhas pernas, mas Ahmose viu que eu estava em perigo e me puxou mais para o alto.
O movimento me soltou de Asten e, como Ahmose estava sustentando o meu peso somado ao de Amon, fiquei dependurada e caí, indo aterrissar nas costas de uma múmia de crocodilo que não gostou de a pata traseira que lhe restava ter quebrado com o impacto. O bicho se virou depressa e tentou me morder, agarrando minha camiseta. Então puxou com violência, lançando-me pela lateral de suas costas.
Infelizmente, uma segunda múmia de crocodilo estava me esperando do outro lado. Esse segundo crocodilo chegou mais perto e me acertou com sua pesada cabeça, imobilizando-me e estalando as mandíbulas sem dentes, enquanto um terceiro abocanhava minha bolsa. As garras rasgaram facilmente meu jeans. Desesperada, tentei me livrar das criaturas, mas o primeiro crocodilo mordia minha camiseta com força de mais para eu conseguir escapar.
— Lily! Segure-se em mim!
Ahmose, que havia descido até a altura das mandíbulas, passou o braço pela minha cintura. Segurei-o bem firme, com um braço em volta de suas costas musculosas e o outro agarrando Amon. Ahmose subiu pelos ares, levando conosco a múmia teimosa.
Asten aproximou-se e ergueu o braço. Com um gesto rápido, cravou uma flecha no olho do crocodilo, cujo corpo inteiro estremeceu antes de explodir em uma chuva de partículas de poeira cintilante.
Sem o peso extra, Ahmose pareceu se recobrar um pouco, embora eu tenha percebido que carregar duas pessoas exigia muito dele. Flutuamos acima do rio de crocodilos e saímos para o céu da aurora.
Ahmose e Asten seguiram na direção de um pequeno arvoredo do outro lado de uma duna, e mais uma vez me senti grata pelo fato de câmeras não conseguirem detectá-los. Depois de pôr o Dr. Hassan, Amon e eu no chão, ambos estavam ofegantes. Como não nos encontrávamos muito longe da estrada, eu disse:
— Que tal eu tomar a frente agora? Já volto.
Como qualquer garota de Nova York que se preze, eu estava acostumada a apresentar minha melhor cara mesmo durante as tragédias mais terríveis, e essa não estava muito longe disso. Depois de amarrar a camiseta em frangalhos na cintura e arregaçar a bainha do jeans rasgado, enrolei os cabelos incrustados de lama até formar o que torci para passar por dreadlocks e desci a rua até um cruzamento importante, incorporando a ideia de que era apenas uma adolescente mochileira em busca de aventura que tivera um pouco de má sorte.
Em quinze minutos, já havia encontrado um táxi grande o suficiente para comportar nós cinco e conseguido convencer o motorista a esperar depois de lhe prometer uma gorjeta bem generosa.
Embora o taxista tenha estranhado a falta de roupa de Asten e Ahmose, o que realmente o deixou preocupado foi Amon. O Dr. Hassan havia amarrado um lenço em volta de sua cabeça para esconder as órbitas vazias, mas o sangue não era tão fácil assim de disfarçar.
Quando o motorista protestou, eu disse:
— Está tudo bem. O sangue é cenográfico. Tivemos que reencenar um sacrifício no templo para um trabalho da aula de cinema da faculdade. Ele passou a noite em claro.
Eu não sabia se existia uma faculdade em Kom Ombo, e, mesmo que existisse, tinha quase certeza de que não seria permitido filmar ou reencenar qualquer coisa em templos históricos.
O homem nos olhou com cara de quem duvida e não parou de nos observar pelo retrovisor durante todo o trajeto até o hotel. Quando eu estava me preparando para sair, perguntou pela gigantesca gorjeta que eu tinha prometido.
— Só um instante — eu disse, e pus a cabeça para fora do carro para falar com Asten.
— Você consegue hipnotizar o motorista?
— O quê? O que é hipnotizar?              
— Você sabe, convencê-lo de que ele já foi pago.
O motorista, que falava inglês suficiente para entender o teor da nossa conversa, começou a armar um escarcéu e a dizer que estávamos passando a perna nele, mas Asten rapidamente ergueu a mão e o fez mergulhar num transe. Após algumas palavras murmuradas, o sujeito foi embora sem criar caso e nos deixou com nossos problemas.
Depois de mais um pouco de hipnose, chegamos a um belo quarto com varanda.
— Muito bem. Agora vamos curar Amon — falei, e me ajoelhei ao seu lado no chão, onde Ahmose o havia acomodado.
Estava preocupada, pois não conseguia detectar sequer um fiapo da conexão entre nós. Quando o toquei, não senti calor nenhum. Não conseguia captar as emoções dele, e as minhas tinham ficado relativamente estáveis nos últimos tempos.
Ahmose estava debruçado sobre o irmão, com as mãos pressionadas sobre seu peito.
— Ainda não, Lily. Eu o curei o suficiente para garantir que sobreviva, mas transferir a sua energia vai ser um processo delicado. Se eu cometer algum erro, você pode morrer, então preciso que esteja o mais forte possível antes de operarmos a transferência.
Suspirei.
— Ok. O que você quer que eu faça, então?
— Coma — respondeu ele, direto. — Descanse. Tome um banho. Faça o que tiver que fazer para relaxar a mente, alimentar o corpo e preparar a alma.
— Você faz parecer que essa vai ser minha última refeição.
— Vou fazer tudo para garantir que não seja.
Mordi o lábio e estendi a mão para acariciar os cabelos de Amon.
— Tem certeza de que ele vai ficar bem enquanto recupero as energias?
— Pode deixar tudo em nossas mãos — respondeu Asten. — A vida inteira cuidamos uns dos outros, e vamos continuar fazendo isso.
— Está bem. — Quando dei um beijo na testa de Amon, senti meu próprio cheiro e disse: — Vou tomar um banho. Doutor Hassan, o senhor pode pedir um banquete para o serviço de quarto?
— Claro.
Nossos quartos eram interligados, então deixei os homens em um, passei pela porta que separava os dois e entrei no segundo. Foi preciso quase meia hora para a água que escorria por meu couro cabeludo e meu corpo sair limpa. Quando terminei, estava tão cansada que me sentia eu própria um zumbi. Mesmo assim, limpei o vapor do espelho, passei loção hidratante generosamente em cada pedacinho de pele exposto, examinei os diversos arranhões e cicatrizes novos e penteei os cabelos.
Como não tinha roupas limpas para vestir, enrolei-me em um roupão e fui procurar os homens para avisar que o chuveiro estava liberado. Quando entrei no quarto, só encontrei Ahmose e Amon. Ahmose estava sentado no chão ao lado do irmão deitado, com os cotovelos apoiados nos joelhos e a cabeça enterrada nas mãos.
— Tirando uma soneca? — perguntei.
— Não, eu...
Ele ergueu a cabeça e arquejou quase inaudivelmente. O brilho de alguma coisa perpassou em seus olhos cinzentos, mas ele os fechou depressa e virou a cabeça.
— Asten e o doutor foram procurar umas roupas para você.
— Ah. Que gentil. Eu só queria avisar que o chuveiro está livre.
— Eu tomo banho depois que Asten voltar.
Ahmose continuava sem olhar para mim.
— Estou deixando você encabulado, não é? — comentei. — Você não deve estar acostumado a ver uma mulher só de roupão.
— Estou respeitando o limite que existe entre nós.
— Limite? Que limite?
— Não é certo olhar a mulher do meu irmão quando ele não pode ver. Sobretudo quando a mulher é linda como você.
Sorri.
— E eu pensando que Asten fosse o rei da lábia. — Levei as mãos ao quadril antes de continuar. — Não tenho certeza se o sentimento de Amon por mim é tão forte quanto você acha, mas mesmo assim vou deixar você em paz.
— Lily — chamou Ahmose quando eu estava prestes a fechar a porta. — Se Amon não se sentir assim, ele é um bobo.
A sinceridade da sua voz fez um leve arrepio descer pela minha espinha.
— Obrigada, Ahmose — respondi por cima do ombro antes de sair.
Sem conseguir dormir, com Amon daquele jeito, sentei-me em uma cadeira com o roupão em volta do corpo e deixei o silêncio me sedar. Sem precisar correr para salvar minha vida e sem a distração de um sacerdote do mal, tive tempo para me concentrar realmente em como me sentia. E eu nunca tinha me sentido pior em toda minha vida. Ahmose me chamara de linda, mas quando eu olhava no espelho tudo o que via era feiura e exaustão.
Minha pele, que em geral era macia, estava ressecada e cheia de hematomas; os pontos roxos, verdes e amarelos ainda doíam quando eu os apertava. Embora tivesse lavado o cabelo e passado condicionador várias vezes, havia perdido tufos no chuveiro, e a escova, que eu havia limpado de forma meticulosa, tinha tantos fios presos entre as cerdas que eu poderia ter recheado uma almofada.
Nenhuma quantidade de hidratante labial era capaz de curar meus lábios rachados. Eu certamente havia perdido alguns quilos, o bastante para as costelas saltarem. De modo geral, meu aspecto era o de alguém que precisava ser hospitalizado.
Para tentar me reidratar, bebi vários copos d’água, embora, pelo gosto, esta parecesse saída diretamente do Nilo.
Por fim, alguém bateu de leve na porta. Do outro lado, deparei com o Dr. Hassan segurando uma sacola que ele empurrou para os meus braços.
— Fizemos o melhor possível. Espero que você encontre alguma coisa aí dentro com a qual possa ficar confortável.
— Obrigada — falei, apertando a sacola junto ao peito.
— A comida vai chegar a qualquer momento. Acho que vou aproveitar e tomar um banho também.
— Quer usar o chuveiro daqui? — ofereci.
Ele fez que não com a cabeça.
— Vou dividir o segundo quarto com os outros.
Com um breve sorriso e um cumprimento de cabeça, ele fechou a porta atrás de si. As compras que tinha feito com Asten não estavam nada más, e percebi que o deus das estrelas provavelmente tinha mais experiência com roupas femininas do que Amon. Pensar isso me fez sorrir, mas o sorriso logo desapareceu quando pensei em Amon.
Vesti uma calça de algodão cáqui com um cordão na cintura. Ficou meio grande, mas bastou apertar o cordão. Então vesti uma bata, e achei um par de sandálias que me serviu perfeitamente. Depois de prender os cabelos agora ralos com um lenço, saí do quarto para ir ver o que os outros estavam fazendo.
Asten já estava escolhendo a comida que acabara de chegar. Ao me ver, falou:
— Isso, sim, é o que eu chamo de banquete — disse ele, erguendo um prato de carne assada. Levou o prato até o quarto em que Ahmose o aguardava com Amon e em seguida voltou, de cenho franzido. — O que está fazendo aí parada? Encha essa barriga, Lily. Não precisa esperar autorização.
Por hábito, pus algumas folhas de salada em um prato e servi uma colherada de legumes grelhados. Asten me observou com uma expressão incrédula enquanto eu me sentava à mesa.
— É só isso que você vai comer? Precisa de mais. Comer carne vai deixá-la forte. Tome.
Ele pôs um pedaço gigante e perfumado de cordeiro no meu prato e trouxe vários outros pratos mais para perto. Com um suspiro, olhei para o prato abarrotado e me perguntei se todos os homens egípcios alimentavam as mulheres daquele jeito ou se eram só os príncipes antigos. Enquanto comia, sentado na minha frente, Asten observava cada bocado que eu punha na boca. Empurrei a comida de um lado para outro do prato e finalmente ergui os olhos para seu rosto contrariado.
— Não parece certo comer sem Amon — comentei. — Foi ele quem me ensinou tudo sobre banquetes.
A expressão severa de Asten se abrandou.
— Entendo, mas pense que você deve fortalecer seu corpo para poder fortalecer Amon.
— Está tentando me dizer que devo comer por dois? — brinquei.
— Não entendo o que você quer dizer.
— Deixe para lá. Prometo que vou tentar comer mais.
De banho recém-tomado, o Dr. Hassan entrou no quarto. Havia conseguido encontrar uma calça, um colete cargo e até mesmo um chapéu novo, só que marrom em vez de branco.
— Muito bem — disse Asten. — Agora quem vai tomar banho sou eu, e quando voltar quero que pelo menos metade dessa comida tenha sumido.
Comi até não conseguir engolir mais nada e em seguida fui render Ahmose para ele poder tomar banho. Usando uma toalha molhada com água quente e sabão, lavei o rosto de Amon e limpei com cuidado os ferimentos de seu peito e dos braços. A água logo ficou vermelha com seu sangue. Quando Ahmose voltou, eu já tinha esvaziado a bacia seis vezes.
Não reconheci Ahmose e Asten no primeiro instante. Eles estavam totalmente diferentes vestidos com roupas modernas e, como Amon, tinham feito os cabelos crescerem. Ahmose tinha cabelos escuros e curtos, enquanto os de Asten eram mais compridos que os de Amon e estavam penteados para trás. Ambos pareciam modelos de passarela.
— Não é que vocês não estejam bonitos — comecei —, mas fazer crescer os cabelos não consome parte do seu poder?
— O poder necessário para isso foi mínimo comparado com o que precisamos — respondeu Ahmose.
— Além do mais, esperamos conseguir poupar energia e ir até o local da cerimônia como mortais — completou Asten.
— Até as pirâmides, vocês querem dizer. — Quando eles fizeram cara de surpresa, acenei com a mão e expliquei: — Amon me contou.
— Ah — entoaram os dois. Ambos ficaram se remexendo para a frente e para trás, constrangidos, até o Dr. Hassan entrar no quarto.
— Está pronta, Lily? — perguntou Ahmose.
— Estou.
— Queria que tivesse descansado mais — censurou ele, ajoelhando-se ao meu lado.
Quando dei de ombros, Asten se aproximou e me dirigiu um leve sorriso.
— Não se preocupe demais. Ahmose é um curandeiro muito habilidoso. Se existe alguém capaz de guiar Amon no caminho de volta para nós, essa pessoa é ele.
Asten meneou a cabeça e pôs minha mão dentro da mão imensa de Ahmose.
— Canalize o máximo de energia que conseguir, irmão — instruiu Ahmose.
Então fechou os olhos e pôs a mão na testa de Amon. Começou a entoar um cântico em egípcio, e arquejei quando pulsações de luz prateada surgiram sob a minha pele. A luz se fundiu, descendo pelo meu braço até a mão, e então pulou de mim para Ahmose.
A energia prateada acendeu a mão de Ahmose, em seguida se acumulou por um breve instante na testa de Amon antes de penetrar sua pele. Seu peito se ergueu quando ele deu um suspiro profundo. Meus braços tremeram, e de repente percebi que não conseguia engolir. Completamente exaurida, desabei sobre o braço de Ahmose. Asten estava postado do outro lado de Amon. De olhos fechados, tinha os braços esticados para a frente com as palmas viradas para cima, em postura de meditação.
Uma névoa branca começou a escorrer das pontas dos seus dedos, e parte dela jorrou na minha direção enquanto outra atingia Ahmose em cheio no peito. Inspirei, me sintonizando cada vez mais com os irmãos de Amon. Senti um gosto que parecia sal gelado, e entendi que era um sabor que pertencia somente a Asten: o sabor das estrelas. Quando expirei, pude ver que meu hálito e meus lábios estavam congelados. A névoa branca que exalei flutuou para baixo e se transformou em um segundo canal entre mim e Ahmose.
O triângulo que interligava nós três me permitiu sentir os desejos mais recônditos tanto de um quanto de outro. Asten ansiava por explorar tudo o que havia perdido ao passar séculos preso na vida após a morte. Ahmose queria trabalhar com as mãos, e secretamente desejava uma família. Então senti outra presença em nosso círculo – uma que identifiquei na mesma hora: Amon.
Senti quando ele reconheceu os irmãos e se alegrou por tê-los junto de si, até que percebeu que eu estava ali. Dentro da minha mente, eu o ouvi dizer: Lily? Não! Lily! O que ela está fazendo aqui? Ela não pode fazer isso! Se fizer, vai consolidar o vínculo!
Foi Ahmose quem respondeu: O vínculo é essencial, irmão.
Não! Eu não vou permitir.
Amon começou a resistir a Asten e Ahmose, sem querer aceitar sua ajuda e ao mesmo tempo aflitivamente necessitado dela. Sua raiva e seu desespero fizeram com que eu me retraísse. Eu me senti uma intrusa. Era claro que Amon não tinha a menor vontade de estar comigo, mesmo que isso garantisse sua sobrevivência.
Ao longe, ouvi Ahmose dizer em voz alta:
— Ele está rejeitando a transferência.
— Ele não vai ter forças para concluir a cerimônia — alertou Asten.
Meu ser etéreo foi empurrado à força de volta para dentro do meu corpo, então pisquei os olhos e os abri. A névoa que interligava Asten, Ahmose e a mim se dissipou, e os dois homens deram um solavanco para trás antes de se endireitarem.
— O que foi isso? O que aconteceu? — indaguei.
— Ele não me deixa canalizar sua energia.
— Por quê?
Meus olhos se encheram de lágrimas. Eu sabia que estava mais uma vez esgotada e abalada emocionalmente, mas meu cansaço era tanto que não consegui me controlar.
— Por que ele está sendo tão teimoso? — urrei. — Por acaso me despreza tanto assim a ponto de se arriscar a deixar a escuridão dominar o mundo?
— Ele não... ele não despreza você, Lily — retrucou Asten.
— Olhe aqui, não precisa defender seu irmão — falei, enxugando furiosamente as lágrimas. — Ele já é um deus egípcio bem grandinho, capaz de tomar as próprias decisões.
Tentei me levantar, mas constatei que minhas pernas não se moviam.
— A transferência de energia enfraqueceu você — explicou Ahmose.
— Mas eu pensei...
— Eu consegui canalizar um pouco da sua energia, mas não sei se vai ser suficiente. Enquanto isso... — ele se levantou e me pegou no colo sem dificuldade — ... você precisa dormir.
Magoada com a rejeição de Amon, não protestei, nem disse nada quando Ahmose me pôs na cama no quarto ao lado.
Quando ele fechou a porta, eu não tinha certeza se conseguiria descansar, mas o sono me pegou imediatamente. Dormi dezesseis horas seguidas. Quando acordei, duas coisas me deixaram em alerta na mesma hora. A primeira foi a luz da lua quase cheia que iluminava a cama, o que significava que tínhamos menos de 24 horas para salvar o mundo. A segunda foi que alguém me observava. Sentado em uma cadeira no canto do quarto, usando roupas limpas e óculos escuros, as longas pernas esticadas e cruzadas nos tornozelos, estava Amon.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!