25 de outubro de 2016

20. O sopro do mal

Abrir meus olhos não afugentou os monstros. Pelo contrário. Meu nível de desconforto aumentou. Asten e Ahmose não estavam à vista. O fogo que eu podia jurar que estivera queimando havia sumido. Era como se eu estivesse sonhando acordada. Parei de andar quando subitamente o estalo de um chicote reverberou na escuridão. Então um grito familiar me fez sair daquele estado e dei mais um passo adiante, e depois mais outro.
A forma indistinta à minha frente acabou sendo uma pedra coberta com uma fina camada de areia.
O ar estava quente e opressivo, como se algo denso e pegajoso tivesse penetrado nos meus pulmões. Não demorou muito para que eu sentisse uma pontada na lateral do corpo em razão da respiração dificultosa.
Ainda assim, eu sabia que o grito havia sido de Amon. Eu precisava encontrá-lo.
O escaravelho do coração de Amon batia violentamente contra meu ombro, o ritmo irregular no lugar da pulsação firme e forte de sempre, mas eu podia senti-lo me guiando, me fazendo avançar. Meu coração começou a imitar aquele ritmo entrecortado e cheio de medo. Esgueirando-me pela penumbra, só me restava a esperança de encontrar a fera que causava o sofrimento de Amon.
Uma voz rouca e gutural veio das profundezas do caminho.
— Sim. Ela se aproxima. Exatamente como previ.
— D-deixe-a... — gaguejou Amon — ... deixe-a fora disso.
— Acho que não — respondeu a voz antes de soltar uma gargalhada aguda que me causou arrepios.
Ao mesmo tempo, ouvi o som de mil pares de asas que pareciam alçar voo.
Não dava para ver nada, mas minha imaginação conjurava bandos de coisas aladas e assustadoras à minha volta, prontas para extrair meus olhos e arrancar tiras de carne com mordidas. Arquejei, me dando conta de que exatamente isso podia estar acontecendo com Amon agora. Acelerei o passo, uma das mãos roçando na pedra grande, a outra tateando no escuro. Quando cheguei a uma parte lisa, parei e examinei a estrutura com as pontas sensíveis dos dedos.
— Não é pedra — murmurei baixinho.
Uma ânsia instintiva fez com que eu me inclinasse à frente, fechasse os olhos e inalasse. Mesmo sem a ajuda de Tia eu soube, de algum modo, o que era. Quase podia sentir o gosto na língua.
— É ferro. Uma parede de ferro.
Perguntando-me onde eu poderia estar, fui em frente.
O calor continuava a pressionar meus pulmões a cada respiração, como se o diabo tivesse envolvido minhas costelas com as mãos. Comecei a inspirar de forma mais rasa e forçada. A última coisa que eu queria agora era desmaiar. Amon precisava de mim. Corri na direção das vozes, arfando, mas não havia abertura na parede de ferro e logo ficou claro que a conversa que eu estava entreouvindo acontecia do outro lado.
Amon soltou um grito e o desespero crescente me dilacerou.
— Tem de haver um modo — murmurei.
Suba, sussurrou Tia. Quase instintivamente permiti que o poder da esfinge fluísse pelos meus membros; o calor que desceu pelos braços me encheu de força. Meus dedos se retesaram e alongaram, as garras impiedosas tornando-se ainda mais afiadas diante dos meus olhos.
Com um grunhido, recuei alguns passos e saltei. Meu olhar se fixou num ponto pouco nítido acima, que talvez eu pudesse usar como apoio para as mãos. Quando passei facilmente por ele, ofeguei surpresa e tateei desajeitadamente na pedra até que minhas garras se prenderam. Para meus olhos humanos, a parede era lisa e intransponível, mas com os sentidos aguçados eu podia sentir imperfeições minúsculas, pequenas cristas e fendas estreitas.
Como um gato numa árvore, subi com agilidade, sustentando todo o peso do corpo apenas com a força dos dedos. No topo do muro, agachei-me, apoiada nos calcanhares, enquanto utilizava a força combinada que me tornava, junto com Tia, única. No entanto, eu sabia que nossa força não era mais como antes. Nossos olhos se estreitaram e entraram em foco. Pisquei e, como se alguém tivesse apertado um interruptor de repente, os vultos escuros que estavam lá embaixo tomaram forma.
Inclinei a cabeça para escutar à medida que uma espécie de teatro ao ar livre empoeirado surgia diante dos meus olhos. No formato de uma tigela e cercado por um muro de metal impossivelmente alto, estava sendo usado para um espetáculo, e a principal fonte de entretenimento era o homem que eu amava. Em vez de arquibancadas, as bordas do estádio circular estavam cheias de espectros que não estavam se divertindo nem um pouco. Pelo que eu via, estavam mais para torturados. Magras e débeis, as criaturas puxavam os próprios cabelos e as roupas, sibilando. Debatendo-se, seus corpos se fundiam e se moviam de modos estranhos, quase atravessando uns aos outros, como fantasmas. Dava para ver claramente as bordas e as quinas do muro de ferro contra o qual elas comprimiam os corpos. Ainda que suas formas flutuassem entre o carnal e o imaterial, elas pareciam incapazes de atravessar o muro e escapar. Eram tantas se movendo num espaço tão apertado que mais pareciam uma fera multifacetada do que indivíduos.
Eles são muitos, disse Tia.
Concordei, horrorizada. Então alguma coisa provocou a massa. Como se fossem um só, eles começaram a chorar e rasgar as roupas. Uma mulher – pelo menos achei que era uma mulher – pressionou as mãos contra o rosto e estas se fundiram às faces enquanto ela uivava.
Aquilo me fez lembrar do quadro O grito, de Edvard Munch, que ficou exposto por um tempo no Metropolitan. Lembro-me de admirá-lo imaginando que coisa medonha podia ter acontecido para fazer alguém berrar daquele jeito. Agora eu sabia. A pessoa estava sendo banida para o mundo dos mortos.
No centro do círculo formado pela horda, Amon pendia de correntes que prendiam seus pulsos a um grande poste. Sua túnica caía da cintura para baixo em trapos. Uma fera monstruosa, muito parecida com um Minotauro albino, só que com dois pares de chifres e boca de crocodilo, se aproximou. Com braços da grossura de pernis natalinos, golpeou com um chicote as costas de Amon, produzindo um estalo retumbante.
Gritei quando o ar deixou o meu corpo. Tiras de carne tinham sido arrancadas e feridas fundas e entrecruzadas decoravam suas costas musculosas e nuas. Agora eu sabia por que estava tendo dificuldade para respirar.
Um qilinbian, disse Tia debilmente, e odiei a ideia de que as pontadas que eu estava sentindo e a fraqueza no meu corpo se deviam ao que estava sendo feito com Amon. O fato de ele ter mantido a maior parte dessa dor longe de mim por tanto tempo significava que ele estivera sofrendo imensamente e, pela aparência, por um bom tempo.
Um o quê?, perguntei.
Em vez de falar através da nossa conexão mental, que parecia mais difícil do que normalmente, uma imagem do que ela queria dizer se formou na minha mente. De súbito entendi o propósito da arma e de como era utilizada. Era um chicote usado contra unicórnios.
Suficientemente afiado para cortar a carne, que era muito, muito mais resistente do que a de qualquer animal do mundo mortal, causava um dano terrível, até mesmo na carne dos mortos, o que eu imaginava que seria difícil de conseguir. Encolhi-me pensando no que uma arma daquelas poderia fazer a um ser vivo, até mesmo um ser vivo imbuído de poder como eu e Tia.
Contive um soluço, sentindo-me impotente para proteger de tanta dor o homem que eu amava, mas havia uma parte nova de mim que absorvia a cena com uma espécie de indiferença calculada. Meu lado mortal, humano, berrava desesperadamente que iríamos salvá-lo. Precisávamos salvá-lo. Era para isso que tínhamos vindo até ali. Era o motivo até mesmo de Tia estar comigo.
Mas ali agachada, observando todas as variáveis e avaliando como superá-las, meu tumulto emocional diminuiu. Assim como eu ocupava um lugar “nos fundos” no meu próprio corpo quando Tia estava no comando, senti meu eu humano ser posto de lado. Mas quem assumiu o controle não foi totalmente Tia nem fui totalmente eu; foi... nós.
Nesse momento não éramos leoa e humana residindo no mesmo corpo. Éramos alguém novo, alguém poderoso – um ser natural que era totalmente... outro. Um guerreiro que desejava lutar, e não por amor ou dever, nem por alimento ou para proteger os filhotes. E sim porque esse era o nosso propósito.
Esse era o motivo pelo qual tínhamos sido criadas. Esse era o motivo. Para derrubar essa ameaça. E esse novo alguém queria resgatar Amon, mas não queria necessariamente salvá-lo pelos mesmos motivos que eu.
Eu... nós... piscamos. Alguma coisa estava mudando. Apesar de eu fazer uma tentativa débil para impedir aquilo e assumir de novo o controle do meu corpo, de algum modo sabia que, se eu e Tia quiséssemos usar nosso poder inteiramente, como era necessário, precisaríamos permitir que essa mudança acontecesse e precisaríamos aceitá-la. Sentindo mais do que ouvindo a concordância de Tia, respirei fundo e parei de lutar, tornando-me mais observadora do que participante.
Nossas garras se cravaram na borda do muro enquanto nos inclinávamos para a frente, deixando arranhões fundos no ferro. As aparas do metal que se soltaram caíram sobre a cabeça dos seres lá embaixo, mas nenhum percebeu. Os corpos não pareciam ter consciência de muita coisa além do próprio sofrimento.
A simples ideia de entrar no mesmo espaço ocupado por aqueles corpos fez meu sangue gelar nas veias. Mas isso só impactou a minúscula versão humana de mim mesma, espremida dentro de mim. A parte que era esfinge temia pouca coisa. Enquanto me esgueirava pela borda procurando o lugar mais rápido e mais silencioso para descer, preparei-me mentalmente para o que estava decidida a fazer, sabendo que logo estaria cercada pelos mortos perdidos.
Nesse momento, a voz falou de novo. Fiquei paralisada no topo do muro e olhei para baixo. O Minotauro havia enrolado seu chicote e estava imóvel, de cabeça baixa. Perplexa, procurei a fonte da voz.
Havia pensado que era ele falando. Mas então a vi.
A princípio foi difícil distingui-la. Uma espécie de nuvem escura a cercava, ocultando-a até que ela quisesse ser vista. A nuvem se movia com bichos alados que guinchavam batendo as asas coriáceas, permitindo-me brevíssimos vislumbres do ser que se encontrava no centro do bando ameaçador.
Lentamente a massa que se retorcia se aproximou do Minotauro e um braço comprido e torneado se estendeu na direção do monstro pálido. As unhas dela eram pintadas de preto, a pele tinha um tom cinza-esverdeado. As asas golpearam o corpo do Minotauro, mas a fera não se mexeu, nem mesmo quando várias daquelas criaturas a morderam com força suficiente para tirar sangue, que escorreu brilhante pelo braço pálido.
Quando sua mão envolveu lentamente o bíceps enorme do Minotauro, a criatura deu um sorriso beatífico. Mesmo a distância dava para ver que ele estremecia de prazer com aquele toque.
— Pode senti-la, deusinho bonito? — perguntou a mulher a Amon enquanto uma perna comprida emergia da massa alada. — Ela está muito perto. Talvez, se você... cooperar — provocou —, eu acorrente os dois juntos, para que você possa olhar enquanto sugo a vida dela.
Sua voz parecia familiar. Eu a tinha ouvido antes, mas naquele momento não consegui identificar onde. Os morcegos preto-avermelhados aproximaram-se ainda mais dela, acomodando-se por fim em suas costas e ombros e formando uma capa ondulante. Os menores, de asas prateadas, pousando-lhe na cabeça, tornaram-se um adereço reluzente. O efeito causava arrepios, especialmente quando os lacaios pousados em seus ombros erguiam as asas afiadas na forma de dragonas pontudas que protegiam o que de outra maneira poderia ser uma garganta vulnerável. Minhas mãos coçavam, ansiosas para testar o gume das facas-lanças contra sua armadura viva.
Ela era bonita, com cabelos compridos presos no topo da cabeça, curvilínea, no estilo de uma mulher fatal. Cada centímetro dela a fazia parecer a rainha do mundo dos mortos. O Dr. Hassan havia me mostrado imagens da Devoradora num livro durante a viagem para Luxor. Nelas, a Devoradora parecia um hipopótamo monstruoso com dentes afiados.
A versão verdadeira, contudo, mais parecia o tipo de mulher que dominava cada homem que conhecia usando apenas um olhar – e depois tirava tudo que ele possuía. Também era fácil demais imaginá-la mastigando as vítimas no café da manhã, cuspindo as carcaças mutiladas e pegando mais uma dúzia para o almoço. Era atraente, esperta, perigosa e provocadora – exatamente como a viúva-negra que aparentava ser.
— Ah! — Ela gargalhou, um som ao mesmo tempo adorável e absolutamente apavorante. — Ela está trazendo seu coração. Isso é melhor ainda. Agora posso me demorar saboreando você durante séculos!
O brilho devasso nos olhos ou o modo como ela lambia os lábios cor de cereja poderiam ser confundidos com algo sugestivo, mas a parte de mim que era Tia sabia o que era. A criatura estava faminta. E eu e Amon éramos um verdadeiro bufê com o qual ela poderia se refestelar. Pela primeira vez no sonho imaginei se minha presença representaria para Amon um risco ainda maior. Se nossa conexão no mundo dos mortos significava que eu estava mesmo ali, e não apenas sonhando.
A Devoradora correu a mão pelo ombro maciço do ajudante monstruoso ao seu lado e depois fez beicinho.
— Sabe, faz muito tempo que eu não como. Estou praticamente definhando.
A mulher passou as mãos pelas curvas de seu corpo em formato de ampulheta, fazendo os pequenos morcegos que a adornavam guinchar e se rearrumar em seu vestido. Algo dentro de mim me incitava a agir, apenas em parte para colocá-la no devido lugar. O outro lado reagia ao desafio de outro predador que tentava roubar o que nos pertencia. Amon era nosso e ninguém iria tirá-lo de nós nem questionar nosso direito.
Levantei-me e corri, os pés leves como o voo de uma ave de rapina, saltando do muro de ferro, dando uma cambalhota no ar e aterrissando agachada, com um joelho no chão, de frente para a Devoradora e seu gigantesco lacaio com o chicote. Conscientemente eu havia me colocado entre eles e Amon. Fiquei surpresa com a distância que havia percorrido com um único salto, mas não demonstrei. Ergui a cabeça e olhei furiosa para a mulher, que me devolveu o olhar com uma mistura de prazer e leve curiosidade.
Saber que ela podia sentir minha presença era desconcertante; quando seu olhar se cravou em mim, imaginei se teria cometido um erro ao me mostrar. Antes, quando andava nos sonhos com Amon, nenhuma criatura do mundo dos mortos havia notado. Agora tudo era diferente.
Pondo-me corajosamente em pé, os dedos estendidos em garras de aspecto maligno, anunciei:
— Eu diria que você está mais para gordinha.
O sorriso dela hesitou. Agora que estava mais perto, notei os detalhes que a tornavam mais demônio do que humana. Seus olhos tinham pupilas verticais alongadas, como as de um réptil. Em vez de cílios, ela tinha minúsculas plumas que se abriam em leque em torno das pálpebras, como pés de galinha felpudos, e se fundiam à pele acima das faces. O cabelo comprido que pendia como penas terminava em minúsculas farpas espinhosas que se moviam por vontade própria enquanto ela andava, estendendo-se na minha direção feito cobras prontas a dar o bote.
As pequenas criaturas prateadas que formavam o adereço de cabeça piscaram, me olhando; seus olhos pretos assentavam-se tão fundo nas cabeças recobertas de ossos que pareciam esqueletos vivos. E, quando ela abriu os lábios, vi uma luz esverdeada emanando de sua boca, como se tivesse engolido alguma coisa radioativa.
— Que delícia você ter vindo se juntar a nós — disse ela com expressão de júbilo. — Estou ansiosa para conhecê-la melhor.
Então começou a vir lentamente em minha direção, o cabelo subindo e ondulando em volta da cabeça. Levei a mão às costas, por cima dos ombros, procurando as facas-lanças, e entrei em pânico ao ver que não estava com elas. Erguendo as mãos, com as unhas pretas a uma distância em que ela poderia me arranhar, ela abriu a boca e soltou um gemido capaz de arrepiar. A luz em sua boca soltou uma névoa verde que me envolveu rapidamente. Ao respirá-la, senti que estava me afogando num veneno gelado que tomava conta dos pulmões, como se nitrogênio líquido tivesse sido derramado pela minha garganta.
Levantei as garras para atacar, mas seu corpo passou direto pelo meu, deixando-me com um arrepio que penetrou nos ossos e com um gosto de hortelã mofada na boca. Ela girou, gritando de novo, mas dessa vez em frustração. Com isso, veias cinza-esverdeadas se projetaram de sua pele lisa como porcelana, fazendo-a se rachar e se partir. Uma luz verde vazou pelas rachaduras, mas, quando a criatura respirou fundo, elas se fecharam.
A Devoradora sorriu, dessa vez ligeiramente irritada, e se dirigiu a mim educadamente, como se tivesse me convidado para tomar um chá:
— Este é apenas um revés temporário — garantiu. — Só preciso reunir minhas forças. Eu estava definhando — acrescentou num aparte à criatura-touro albina que continuava parada exatamente no mesmo lugar. Agora que ela não o estava tocando, ele parecia muito menos apaixonado pela benfeitora. Na verdade, notei que ele me lançava um olhar de admiração. Interessante.
Com um floreio da mão, ela convocou cerca de uma dúzia de membros da multidão que gemia nas extremidades do espaço. Seus gritos de protesto se intensificaram enquanto eles marchavam compulsivamente – contra a sua vontade, estava claro. Quando a massa de formas fantasmagóricas se aproximou, todos tremeram e, apesar de o escolhido lutar contra o poder da Devoradora, finalmente virou o rosto na direção dela e baixou a cabeça.
— Coma — ordenou ela.
Comer? Eu pensava que ela é que comia. O que está acontecendo?, pensei. Só então notei que cada fantasma tinha um globo reluzente nas mãos: o próprio coração.
O espectro se sacudiu violentamente e depois gritou, como se todo o seu corpo estivesse sendo rasgado. Sua boca se abriu mais e mais e, quando ficou escancarada, parecendo apta a engolir um leitão assado inteiro, seus olhos mudaram de apavorados para ferozes. O fantasma engoliu seu próprio coração, depois saltou sobre o fantasma mais próximo e mordeu sua forma etérea.
O segundo fantasma uivou miseravelmente e não se passou muito tempo até ser totalmente consumido; então ele comeu o próximo, cada um tentando passar por cima do outro para escapar do horror.
Fiquei parada, como se estivesse presa numa casa mal-assombrada sem ter como escapar. Queria cobrir os olhos com as mãos e gritar até que a cena de pesadelo acabasse, mas também precisava saber exatamente o que a Devoradora era capaz de fazer, para encontrarmos um modo de derrotá-la.
Horrorizada, empurrei o medo para uma parte minúscula dentro de mim. Assim como minhas emoções com relação a Amon foram suprimidas, meus sentimentos com relação ao que acontecia foram ignorados. Eu não estava no comando. Tia não estava no comando. A esfinge estava no controle e queria testemunhar isso.
— Pronto, pronto — disse a Devoradora com um estalo da língua. — Já está acabando, Gostoso. Vamos pôr fim ao seu sofrimento, está bem? — Ela estendeu a mão num gesto que era quase caloroso, mas, por baixo dele, via-se claramente uma ameaça gélida.
O fantasma tornou a entrar em pânico, correu na direção do muro invisível e tentou subir usando suas garras. Enquanto ele fazia isso, a boca da rainha má se abriu e, apesar de não ter se escancarado tanto quanto a do espectro, também pareceu de um tamanho que não era natural. Uma luz verde fluiu de dentro dela, envolvendo-o como uma névoa ártica sobre um iceberg.
Ela estendeu as mãos e envolveu a alma trêmula do homem nos braços, segurando-a com força e fundindo sua essência na dela. Seu toque era quase terno – isto é, até que seus cabelos se levantaram em torno da forma dos dois e as farpas se cravaram no ser fantasmagórico, grudando-se dolorosamente a ele.
A Devoradora guinchou com o som de mil trens se chocando e foi quase um alívio quando o fantasma começou a perder a coesão antes de ela sugá-lo completamente e o ruído áspero cessar.
Virando-se para nós, ela lambeu os lábios, usando o dedo para enfiar os fiapos cinza que pendiam da boca.
— Humm — disse, e seus olhos calculistas nos percorreram de cima a baixo, os lábios manchados tão vermelhos quanto um coração partido. — Delicioso. — Delicadamente, alisou as criaturas aladas que pendiam de sua capa. — Então, onde é que nós estávamos? Ah, sim. Venha cá, pequenina. Confie na minha sombra e eu vou devorá-la.
— Lily! — gritou Amon. — Acorde!
— O quê?
Olhei na direção dele, confusa, mas então minha atenção foi novamente capturada pela Devoradora, que se esgueirava, aproximando-se cada vez mais. O fato de ela ser capaz de se mover de modo tão imperceptível quanto um vampiro era inquietante.
— Acorde, Lily! — gritou Amon de novo.
Acordar?, repeti na minha mente, o cérebro enevoado.
— Acorde logo!
Em vez disso, desmaiei.
— Acorde, Lily! — gritou uma voz diferente.
Abri os olhos e encontrei Asten e Ahmose preocupados, debruçados sobre mim. A fogueira tinha virado brasas.
— O que... o que aconteceu? — perguntei.
— Não conseguíamos acordar você — disse Ahmose.
— Você estava chorando enquanto dormia — acrescentou Asten.
Assentindo, sentei-me e segurei as mãos dos dois irmãos.
— Tenho uma notícia terrível.

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