21 de outubro de 2016

20. No olho de quem vê

— O que está acontecendo? — gritei. — Alguma coisa deu errado quando despertamos Ahmose?
Às cegas, estendi a mão e segurei a manga da camisa do Dr. Hassan. A respiração pesada e os arquejos cruciantes dos irmãos de Amon eram uma agonia. Fui até eles, agachei-me e subi as mãos por um par de braços fortes até tocar um rosto de homem. Era Ahmose.
Um sangue pegajoso cobria suas faces, e tentei limpá-lo com o polegar.
— Me diga — pedi. — É muito sério?
— Não é... não somos nós.
— Não estou entendendo. Como assim, não são vocês?
Asten estendeu a mão e tocou meu ombro.
— Ele está querendo dizer que estamos bem. É um ataque contra nós, mas vamos nos curar de...
Ahmose interrompeu Asten:
— Não foi isso que eu quis dizer. A coisa que nos feriu...
— Não precisamos falar sobre isso agora — insistiu Asten. — Só vai causar preocupação desnecessária. Confie em mim quanto a isso, irmão, e não diga mais nada.
Ahmose fez uma pausa antes de falar:
— Muito bem. Vou confiar no seu julgamento.
— Algum de vocês dois está bem o suficiente para nos proporcionar um pouco de luz? — perguntei.
— Talvez, se puder me curar, irmão.
Ahmose grunhiu:
— Sim, claro. Me dê aqui sua mão.
Recuei um pouco para que Asten pudesse assumir meu lugar, e a voz grave de Ahmose entoou um encantamento para o irmão. O que quer que tenha sido, terminou depressa, pois o corpo de Asten se acendeu por dentro outra vez. A luz começou bem fraca, mais ou menos como uma lâmpada de emergência, mas depois aumentou de intensidade.
Sem se virar para mim, Asten perguntou:
— Você tem água suficiente para molhar um pano?
— Claro. Só um instante — falei. O Dr. Hassan me estendeu um lenço e usei o pouco de água que restava para molhá-lo. — Tome — eu disse, entregando o pano para Asten.
Sempre de costas para mim, ele o pegou. Ouvi um barulho de tecido sendo rasgado e os dois rapazes começaram a limpar o rosto. No de Asten, ainda coberto de sujeira e lama, as trilhas de sangue não eram tão visíveis, mas Ahmose agora tinha marcas inconfundíveis na pele nova e imaculada. Lágrimas cintilavam em seus olhos cinzentos, que no entanto não pareciam feridos.
— E então? Algum de vocês dois quer me explicar o que acabou de acontecer?
Ahmose olhou para Asten, que respondeu com toda a calma, como se sangrar pelos olhos fosse algo que acontecesse todos os dias:
— Foi apenas um dos sinais de que estamos chegando perto da hora da lua cheia.
Olhei para ele como quem diz “Não acredito em uma palavra do que você está dizendo” e virei-me para ver o que o Dr. Hassan achava daquilo, mas o egiptólogo se recusou a fazer contato visual comigo, sinal de que também estava me escondendo alguma coisa.
— Não acredito nisso nem por um segundo — declarei por fim. — Vocês acham que eu sou só uma mocinha submissa do seu século, que acredita em qualquer coisa que um homem diz?
Ahmose inclinou a cabeça e sorriu.
— Nunca conheci nenhuma mulher, qualquer que seja o século, que leve a palavra de um homem ao pé da letra. Na minha experiência, as mulheres em geral têm mais discernimento e é mais difícil enganá-las do que aos homens.
Sacudi o dedo para ele.
— Viu? Você está virando rapidamente meu irmão preferido. Como tal, com certeza vai querer me contar a verdade.
Ahmose deu de ombros e disse:
— Preciso respeitar a avaliação de Asten sobre a situação. Ele despertou antes de mim.
— Sim, menos de um dia antes!
Virando-se para Asten, cuja boca estava contraída em uma expressão de teimosia, Ahmose disse:
— Talvez ela precise saber.
Asten cruzou os braços diante do peito e suspirou.
— Ela vai descobrir mais cedo ou mais tarde. Temo que o choque a enfraqueça mais ainda.
— Eu não estou fraca.
— Está mais fraca do que imagina.
— Doutor Hassan, por favor, diga a eles que estou bem.
O Dr. Hassan deu um passo à frente e segurou minha mão.
— Calma, calma. Vai ficar tudo bem. Quem sabe possamos continuar esta conversa depois de encontrarmos Amon?
Amon era praticamente a única coisa capaz de me distrair.
— Sim — concordei, lembrando que tínhamos deixado Amon nas mãos de um sacerdote do mal. — Vamos sair daqui e resgatar Amon, depois vocês três vão ter algumas explicações a dar.
Girei nos calcanhares, recolhi minha bolsa, dei o braço ao Dr. Hassan e esperei que ele nos guiasse até a saída. Enquanto ele começava a avançar, ouvi Ahmose sussurrar para Asten:
— Gostei dela.
— Eu também — respondeu Asten. Então falou mais alto: — Apesar de ela ser uma devota bem ruinzinha, e ter o péssimo hábito de não desfalecer aos meus pés como faria qualquer mulher em sã consciência.
— Nesse caso, gosto ainda mais dela.
Os dois irmãos nos seguiram.
— Pare — ordenou Ahmose.
— O que houve? Você viu alguma coisa? — perguntei.
— Você está ferida.
— Estou. Uns demônios biloko me atacaram.
— Biloko? — Ahmose trocou olhares com o irmão, em seguida se ajoelhou para examinar minha perna. — Isto aqui eu posso curar, mas o outro precisa esperar até estarmos os três juntos. E mesmo assim...
— Que outro?
Asten se intrometeu:
— Ahmose, faça logo o que puder com a perna e o braço dela.
— Muito bem. — Ahmose aquiesceu. — Lily, segure a minha mão, por favor.
Ele tinha uma voz muito agradável, grave e reconfortante. Pus a mão na sua e ele a envolveu com seus dedos grandes, pousando a outra mão por cima. Um calor penetrou minhas veias, enquanto pequenas pulsações de luz prateada acendiam sua pele.
O alívio se propagou até o ferimento no meu braço, depois desceu até a perna, e uma sensação que era um misto de coceira e cócegas se apoderou dos meus membros feridos. Arquejei quando a queimação da mordida desapareceu e foi substituída por um formigamento cálido e agradável, como se eu tivesse acabado de fazer shiatsu na perna e no braço.
Ahmose abriu os olhos.
— Pronto. Como está se sentindo?
— Incrível! Obrigada!
— Foi uma pequena gentileza para lhe retribuir o sacrifício que está fazendo ao nos ajudar.
— Sim, ela fez muita coisa.
Asten se aproximou depressa, me segurou pelo braço e me guiou para longe do irmão, que nos seguiu bem-humorado.
Enquanto serpenteávamos entre os rochedos fantasmagóricos, olhei para trás e me perguntei por que motivo Asten estava tentando manter o irmão distante de mim. Mesmo que eu não fosse uma grande observadora de pessoas, os seus subterfúgios eram evidentes.
O Dr. Hassan, que seguia na frente, parou de repente e encarou fixamente o vazio diante de nós. Estendendo a mão, apalpou o ar e correu os dedos por linhas invisíveis até eu ouvir um clique.
— Achei! — exclamou com um sorriso. Segurando um pedaço de algo imperceptível aos meus olhos, ele puxou e em seguida projetou as mãos para a frente. Uma parte grande do espaço diante de nós deslizou para o lado e revelou um túnel comprido com degraus no fim. — Este portal é a nossa saída — anunciou, apontando para o buraco que havia criado.
— Como? Como o senhor fez isso? — perguntei.
— Ah. — Ele suspirou e coçou a cabeça. — Bom, é difícil explicar.
— Não temos tempo, doutor. Amon está esperando — lembrou-lhe Asten.
— Sim, sim. Vá na frente, querida.
Com cuidado, passei pela porta oculta e entrei no túnel. Mais uma vez tivemos que usar a luz gerada por Asten e Ahmose para avançar. Correntes escuras com algemas pendiam de ganchos de metal. Lá no alto, vi restos de pedras talhadas que antes eram arcos cruzados. Alcovas abrigavam estátuas de deuses egípcios com expressões torturadas.
— Que lugar é este? — indaguei, me encolhendo ao ouvir minha voz ecoar pelos corredores vazios.
— Acho que é um local secreto de reunião dos asseclas de Seth — sussurrou o Dr. Hassan.
Passamos por um recinto grande no qual havia uma estátua do deus com cara de cavalo que ia do chão até o teto.
Grandes poças de líquido escuro se acumulavam nas rachaduras e reentrâncias do piso de pedra.
— Isso é... sangue? — perguntei, hesitante.
O Dr. Hassan manteve os olhos fixos à frente e passou um braço pelo meu ombro para me impedir de ver.
— É melhor não pensar nessas coisas — sugeriu ele depois de passarmos. — Basta dizer que tenho certeza de que o deus do caos foi cultuado aqui.
Subimos a escada do corredor comprido e deparamos com uma série de portas e túneis.
— Para que lado? — perguntei.
— Sigam-me — disse o Dr. Hassan.
Nem Asten nem Ahmose protestaram quanto à liderança de Osahar, e guardei essa informação no fundo da mente, acrescentando-a à lista de coisas estranhas que diziam respeito à relação entre os irmãos e seu grão-vizir. Apesar de estar com a mente transbordando de perguntas, como sempre, continuei em frente sem fazer mais nenhuma. Algo com certeza estava acontecendo entre o Dr. Hassan e Asten, e eu não me espantaria se descobrisse que Ahmose, apesar de recém-despertado, também tinha participação. Estava ficando louca de tanto pensar no motivo de precisarem esconder coisas de mim. Quando o Dr. Hassan achou a porta que queria, seu rosto se acendeu como se ele houvesse acabado de desvendar o segredo do universo. Finalmente chegamos a uma última escada, e ele anunciou:
— Estamos livres.
No fim dos degraus, uma pesada porta de madeira estava trancada pelo lado de fora. Nós quatro a empurramos, mas grossas correntes que chacoalharam do outro lado a tornavam praticamente impossível de abrir.
— Vizir, se o senhor puder ficar de olho na garota de Amon, vou tentar abrir esta porta — disse Ahmose.
— Espere um instante, quem disse a você que eu era...?
Olhei para Asten, que me abriu um sorriso encantador e deu de ombros.
— Bom, vocês estão enganados. Os dois. Amon é só meu amigo.
Ahmose já tinha apoiado as duas manzorras na porta. Depois de firmá-las ali, virou-se para me olhar com seus olhos cinzentos como aço.
— Vocês estão ligados um ao outro. Como irmão dele, posso sentir isso, mesmo sem os comentários de mulherzinha de Asten.
Agora com o cenho franzido, Asten rebateu:
— Nada é certo por enquanto. Além do mais, por que sou obrigado a aguentar suas zombarias insuportáveis século após século? Só porque sou mais bonito do que você e meu corpo não está coberto com tanto pelo a ponto de competir com um chacal, isso não é motivo para me chamar de mulherzinha. A sua inveja não é digna de você.
— Sim, Asten, você é muito bonito. Na maior parte do tempo. Agora não, claro, já que está coberto de sujeira. É uma pena esta masmorra não ter um espelho para você poder verificar a própria aparência. Sei quanto se orgulha dela. Tenho certeza de que ficaria arrasado se visse o seu estado atual.
— Ora! Talvez fosse melhor termos deixado você dormir um pouco mais seu sono eterno. De tão mal-humorado, parece uma mulher de peixeiro enrugada. Isso tem a ver com o que aconteceu com aquelas devotas no nosso último despertar? A culpa não foi de todo minha, você sabe.
— Ah, Asten. Você não consegue evitar chamar a atenção toda para si.
Ahmose correu os dedos pelas frestas da porta. Não tive certeza do que ele estava procurando, mas apenas metade da sua atenção parecia focada na discussão com o irmão.
— Para conquistar a atenção de uma mulher, tudo o que se precisa fazer é escutá-la — afirmou Asten.
— Eu escuto. Só não fui abençoado, como você, com a capacidade de enfeitiçar as mulheres com as minhas palavras. Somando isso ao seu belo rosto, nenhuma mulher jamais repara na minha presença.
— Eu repararia — falei, casualmente. — E acho os dois muito bonitos. Uma garota teria sorte de conquistar o interesse de qualquer um de vocês.
Asten sorriu.
— Sua beleza só é ofuscada pelo seu raro grau de sabedoria.
Ahmose balançou a cabeça e continuou:
— Está vendo como ele usa a língua para adular desavergonhadamente as mulheres? Por favor, tranquilize-me e diga que não vai cair nesses truques baratos.
— Hã... — Ahmose tinha se posicionado do outro lado da porta e, enquanto eu falava, começou a examinar cada saliência nodosa da madeira. — Se não se importar, prefiro não falar sobre como Asten usa a língua.
Asten me deu uma piscadela e Ahmose se imobilizou. Seu rosto ficou muito vermelho e ele disse:
— Desculpe. Não pensei que as minhas palavras pudessem ser mal interpretadas.
— Sem problema.
Achei uma graça o jeito como ele ficou encabulado. Aquilo era um sopro de ar fresco, sobretudo em um homem tão grande e seguro de si. Quando ele me encarou, todo envergonhado, abri-lhe um largo sorriso, o que pareceu fazê-lo relaxar um pouco. Ele tornou a se virar para a porta.
— Ah, achei o caminho — anunciou. — Agora, se tiverem a bondade de dar um passo para trás, vou ver se consigo abrir um espaço para fugirmos. Eu pediria sua ajuda, Asten, mas não quero que você bagunce os cabelos.
Asten cruzou os braços.
— Eu não tenho cabelo. Nem você, aliás. Seu crânio está pelado feito um ovo de ganso, mas para você está tudo bem, já que o seu cabelo nunca foi mesmo tão bonito quanto o meu — disse ele.
Era óbvio que não queria encerrar aquele divertido diálogo.
Ahmose deu um suspiro, mas foi com um sorriso que disse para mim:
— É verdade. Ele é o mais bonito de nós, o que é um milagre, levando-se em conta o número de vezes que soquei a cara desse encantador de cobras metido a besta. — Por cima do ombro, completou: — Depois que resgatarmos Amon, vou lhe dar sua surra milenar de boas-vindas ao mundo dos vivos.
— Mal posso esperar — disse Asten, rindo largamente. — Agora abra essa porta.
— Sim, irmão.
Ahmose sussurrou um encantamento em egípcio e encostou a parte carnuda do polegar em uma nódoa circular da porta de madeira. Uma luz prateada passou de seu polegar para a madeira, deixando sobre a superfície trilhas reluzentes de tamanhos diversos, como estradas em um mapa.
A luz foi ficando cada vez mais forte e a porta começou a tremer. Ahmose deu um passo para trás, envolveu-me com um dos braços e virou meu rosto na direção de seu peito.
— Cubra os olhos — instruiu.
Obedeci, mas fiquei espiando pelas frestas entre os dedos.
O tremor tornou-se mais intenso e então a porta explodiu, fazendo voar pelos ares pedaços fragmentados que pareciam peças de quebra-cabeça. Quando acabou, perguntei:
— Como você fez isso?
Ahmose inclinou a cabeça.
— Eu sou o abre-caminhos — respondeu apenas.
— Mas isso não é um caminho. É uma porta.
— Sim. Eu encontrei o caminho da fraqueza na porta.
— Incrível! — exclamou o Dr. Hassan.
Passamos pela porta e saímos de um prédio abandonado a alguns quarteirões do templo. De repente eu me senti tonta, pela falta de sono, o fato de ter quase morrido, de não comer direito há dias, ou uma combinação das três coisas. Tropecei em um pedaço da porta e Asten me amparou.
— Ahmose, podemos fazer alguma coisa para sustentar as forças dela? — perguntou.
Os irmãos trocaram um olhar pleno de significado.
— Só quando encontrarmos Amon — respondeu Ahmose.
— Tudo bem. Com certeza é a glicose no sangue que está baixa — afirmei. — Assim que salvarmos Amon, vamos comer alguma coisa.
Não pude evitar perceber que os dois irmãos não paravam de olhar para mim enquanto andávamos, e que estendiam os braços para me amparar mesmo quando não era necessário.
Logo chegamos ao templo, e dessa vez entramos por uma porta dos fundos no lado dedicado a Hórus. Ainda estava escuro, mas o dia iria raiar em breve.
Eu não tinha tanta consciência do espaço à minha volta quanto deveria e a princípio nem sequer reparei que era eu quem estava fazendo barulho quando ouvi cacos de vidro espalhados pelo chão estalarem. Todo mundo tinha dado a volta, evitando pisar no vidro, menos eu.
— Desculpe — eu disse, e parei onde estava.
— Que pena — murmurou o Dr. Hassan. — Alguém roubou os instrumentos médicos antigos que estavam expostos aqui e quebrou a tabuleta com imagens que provavam que os meus antepassados egípcios realizavam cirurgias complexas.
— Argh... isso...
Um grito me distraiu e não me deixou completar a frase sobre a cena grotesca que acabara de imaginar graças à descrição do Dr. Hassan.
— Amon! — gritei, enquanto Ahmose me suspendia rapidamente por cima dos cacos de vidro e corríamos em direção ao som. Antes de eu conseguir dar dois passos no recinto contíguo, Ahmose me reteve.
Com as mãos grandes pousadas nos meus braços, ele me encarou e disse:
— Vamos juntos.
Aquiesci, desesperada para fazer alguma coisa, e fiquei me apoiando ora num pé, ora no outro, aflita, enquanto Ahmose e Asten fabricavam suas armas. Eles estenderam as mãos e começaram a murmurar baixinho enquanto minúsculos grãos de areia iam se erguendo no ar, vindo de todos os cantos do ambiente. Como a areia reunida não foi suficiente para formar uma arma, foi incrementada por um filete regular vindo de fora até uma bola suficientemente grande se materializar diante de cada um dos irmãos.
A areia de Asten se alongou e adquiriu a forma de seu arco e de uma aljava cheia de flechas com ponta de diamante, mas as partículas de Ahmose se separaram e formaram duas bolas de tamanho igual. Uma delas se solidificou e se tornou um reluzente machado de prata. O fio duplo reluzia, afiado, e a superfície era coberta por hieróglifos entalhados. A segunda arma parecia um martelo, só que vários centímetros mais comprido. Em vez de uma unha para retirar pregos, uma das extremidades era formada por uma ponta grossa, enquanto a outra tinha uma chapa do tamanho da minha mão cravejada com vários dardos de aspecto perigoso. Uma farpa na parte de cima completava a arma mortal, que o Dr. Hassan me disse ser uma maça.
— Fique bem atrás de nós — ordenou Ahmose, girando a arma para testar seu equilíbrio. — Se tudo estiver seguro, sua tarefa será libertar Amon. Entendeu?
— Entendi — sussurrei.
O Dr. Hassan pegou na bolsa algumas ferramentas de escavar e me passou uma pá de pedreiro coberta de lama endurecida, ficando com duas limas pontiagudas para si mesmo. Ajeitamos nossas bolsas nos ombros e fizemos um gesto de cabeça para os dois guerreiros egípcios a postos na nossa frente.
A adrenalina corria pelas minhas veias quando mudei de posição e examinei minha pá de pedreiro de aspecto frágil.
Asten me dirigiu um breve sorriso e falou:
— Vamos em frente.
Sem fazer barulho, os dois irmãos avançaram na direção dos gritos e, quando assinalaram um para o outro que a área estava livre, o Dr. Hassan e eu também avançamos. Já tínhamos passado por três cômodos quando finalmente topamos com guardas.
Havia algo de... antinatural neles. Durante a breve visão que consegui ter, reparei que seus corpos não apresentavam as proporções corretas e que seus olhos exibiam um brilho branco espectral. O Dr. Hassan colou as costas na parede ao meu lado. Parecia nervoso, o que me deu mais medo do que as criaturas postadas entre nós e Amon.
— Eles são Masaw Haput... os nascidos da morte — sussurrou ele. — Você certamente os chamaria de zumbis.
— Zumbis? Está falando sério?
— Mais uma prova de que estamos lidando com um talentoso necromante.
— Mas então como vamos enfrentá-los? Se já estão mortos, como podemos matá-los?
— Não se pode... matá-los — interrompeu Ahmose. — Você vai ficar escondida. E eles vão voltar ao estado do qual foram despertados quando dermos cabo do ser maligno que os invocou.
— O que fazemos agora? — perguntei ao Dr. Hassan.
— Ficamos aqui, eu acho.
Olhei para os guerreiros zumbis, imóveis como estátuas. A pele cinza encovada e os ossos estavam cobertos por tiras de couro preto. Os ossos expostos, que já não conseguiam mais se articular usando ligamentos, estavam unidos de alguma forma com arame, e as juntas conectadas por grampos compridos. Alguns membros podres deviam se manter no lugar pela armadura presa a seus corpos; tirando esse fim, na minha opinião, a armadura zumbi parecia meio supérflua.
Amon tornou a gritar, dessa vez mais alto.
— Temos que salvá-lo! — sibilei, tentando manter a voz baixa. Uma forte explosão de energia do outro lado da porta fechada fez as paredes tremerem, e um pedaço de rocha desabou perto de nós, levantando uma cascata de poeira.
As sobrancelhas arqueadas do Dr. Hassan traduziram o tamanho do deslizamento.
— Lily! — gritou ele. — Abaixe-se!
Eu me atirei ao chão ao mesmo tempo que o Dr. Hassan cravava suas duas limas bem fundo no peito de um dos guerreiros zumbis. A criatura apenas nos encarou, respirando irregularmente. Então, erguendo a espada acima da cabeça, soltou um grito sobrenatural, com a mandíbula escancarada, presa apenas por um grampo de metal ao crânio.
Bem na hora em que a espada ia baixar sobre nós, o machado de prata de Ahmose a aparou. O deus da lua desviou a arma do zumbi ao mesmo tempo que erguia a sua e decepava a cabeça da criatura com um golpe poderoso.
— Vamos, Lily — disse ele, estendendo a mão.
Empunhando o arco, Asten estava em pé do outro lado do recinto. Quando ele disparou uma flecha reluzente com ponta de diamante, mais uns dez guardas surgiram na esquina, como bestas-feras sentindo cheiro de carne fresca. A flecha atingiu o guarda ainda postado junto à porta, cravando-se no espaço entre seus olhos, e a criatura explodiu. Na mesma hora, Asten puxou outra flecha da aljava.
— Lily! Aqui! — gritou ele.
O Dr. Hassan me seguiu de perto quando fui até Asten. Depois de todos os zumbis serem neutralizados, Ahmose juntou-se a nós. Estávamos prestes a passar pela porta quando esta se abriu e mais guerreiros mortos-vivos apareceram.
Enquanto Asten e Ahmose combatiam a nova horda, olhei para trás de mim. Os guerreiros caídos estavam se levantando outra vez. Na verdade, aquele que Ahmose tinha decepado havia encontrado a cabeça e tornado a colocá-la sobre os ombros, ainda que meio torta. Dali a segundos, ele nos alcançaria.
— Só podemos fazer o encantamento quando Amon for solto! — exclamou Asten.
Por entre a massa de corpos no vão da porta, vi uma bruma vermelha e um homem em pé no meio dela. Eu sabia que era o necromante.
Agarrei a mão do Dr. Hassan.
— Precisamos passar e soltar Amon!
— Mas eles disseram para esperar uma oportunidade.
— Vamos ter que criar nossa própria oportunidade!
Corremos entre os corpos caídos e conseguimos evitar ser pegos, exceto pelo braço de um dos zumbis sem cabeça que agarrou minha perna. Dei um chute tão forte que ele me soltou, então me abaixei e segui em frente. O braço de Ahmose pendia flácido junto ao seu corpo, e Asten tinha um ferimento fundo na coxa. Ambos exibiam várias marcas de mordidas, o que não era um bom sinal, considerando que estavam lutando com mortos-vivos.
Mesmo sem saber se o Dr. Hassan ainda estava atrás de mim ou não, corri na direção de Amon. Ele estava amarrado a uma cadeira de frente para a névoa rubra que ocultava os traços do homem atrás dela. Ignorei a névoa e comecei a cortar as cordas que prendiam os braços de Amon. Minha frágil pá de pedreiro não estava adiantando muito.
— Ah, Lily — disse a sombra espectral. — Estávamos esperando você.
A voz soava familiar, mas não consegui identificar onde a tinha escutado antes.
— Então que bom que eu não decepcionei vocês — declarei, sem deixar nada me distrair da tarefa de soltar Amon.
A cabeça dele estava caída junto ao peito, mas ao ouvir minha voz ele a levantou, e suas palavras soaram cheias de dor.
— Jovem Lily? — arquejou ele.
— Sim, sou eu. Aguente firme. Viemos resgatar você.
— Temo que a sua tentativa de resgate seja inútil. Como vê, eu queria que você viesse — respondeu a voz suave e sinistra do meio da bruma.
— É mesmo? Foi por isso que nos jogou na areia movediça? — perguntei.
— Nada disso. Nessa vocês caíram por conta própria. Como conseguiram sair, aliás? Estou curioso.
— Não vou compartilhar informações com o lado do mal, muito obrigada. — Uma das cordas que prendiam Amon finalmente se partiu. Comecei a cortar a segunda. — Mas se você quiser compartilhar alguma informação conosco, eu não faço objeção — eu disse para a sombra. — Por exemplo, por que não vem até aqui e se apresenta direito? Quero dizer, a menos que prefira ser chamado de Necromante Assecla Obscuro de Seth, que é como eu venho chamando você.
Uma risada ecoou pelo recinto.
— Vou gostar de conhecer você melhor, Lilliana Young.
Consegui cortar a segunda corda.
— Ai, que sinistro... Não fazia ideia de que o assecla obscuro sabia o meu nome.
Arrisquei uma olhada na direção da porta para ver como Asten e Ahmose se saíam. No entanto, assim que restaram apenas uns poucos guardas zumbis, o senhor das sombras lançou um jorro de névoa rubra na direção deles.
— Lily! Onde você está? — gritaram eles.
— Aqui! — respondi, mas os olhos deles reluziam no meio da névoa como refletores em uma noite nublada.
— Eles não conseguem vê-la nem ouvi-la agora, o que torna o nosso diálogo ainda mais íntimo. Amon, é claro, está tão incapacitado que vou lhe permitir escutar. Isso me causa imenso deleite, sabe?
A sombra se aproximou e, embora o seu semblante ainda estivesse escondido, ficou evidente que era um homem, e muito diferente dos monstros zumbis que havia criado.
Ouvi um cântico grave ecoar dentro da nuvem vermelha, e um homem de capa se adiantou e me segurou pelo braço. A boca era o único traço visível de seu rosto, e tinha agora os cantos virados para cima em um sugestivo sorriso de lascívia.
A última corda estava presa só por alguns fios. Se Amon tivesse ainda alguma força, poderia tê-la arrebentado, mas ele continuou ali sentado, de costas para mim, afundado na cadeira.
O sacerdote necromante me puxou com violência na sua direção e esticou os dedos compridos para acariciar meu rosto.
— Desde que os meus demônios biloko provaram da sua carne, devo confessar que ando pensando na ideia de saboreá-la eu mesmo.
Estreitando os olhos, encarei-o com meu mais mortífero olhar de socialite, do tipo “Tire essas mãos de mim”, e minha mais sarcástica expressão de menina rica.
— Acho que, se tivesse escolha, preferiria os demônios biloko.
Quando abri um sorriso zombeteiro, ele me sacudiu.
— Você não diria isso se soubesse quem eu sou. Em que me transformei.
— Está falando sério? Eu sou de Nova York. Nada me espanta.
— Talvez a convivência com os filhos do Egito tenha deixado você... anestesiada. Mesmo assim, pretendo impressioná-la... — ele sorriu — ... de uma forma ou de outra. Sabe, fui recriado como muito mais do que o homem que era antes. O poder de alguém morto há bastante tempo me preencheu. Eu sou... — ele fez uma pausa para aumentar o efeito — ... Apófis. — E prolongou o final do nome, sibilando.
Torcendo o nariz como se tivesse sentido um cheiro desagradável, retruquei:
— Eu já imaginava. Então o cheiro está explicado. Pensando bem, estou mais impressionada com os filhos do Egito. Você é só a imitação barata de um aspirante a deus devasso com fetiche por crocodilos. Não me impressiona nem um pouco.
— Eu sou muito mais do que isso! — gritou ele, lançando-me do outro lado do recinto. Quando aterrissei, saí rolando até bater na parede com um baque. Meu corpo já exausto não queria se levantar. Lentamente, rolei de lado a tempo de ver o assecla de Seth com sua capa avançar na minha direção a passos largos, mas ele foi detido pelo som de um cântico que encheu o ar.
— Não! — berrou ele, girando nos calcanhares. O Dr. Hassan, trêmulo, estava em pé atrás de Amon segurando a última corda partida em uma das mãos e um pequeno objeto prateado na outra. — Seu tolo! Por acaso sabe o que fez?
Pontinhos de luz tomaram conta do ambiente, lembrando-me a fumaça de vaga-lumes de Asten. Centelhas rodopiantes douradas, prateadas e brancas colidiram e aumentaram de tamanho. Então cercaram o assecla de capa e começaram a rodear seu corpo cada vez mais depressa. Ele gritou e, quando arqueou as costas, o capuz que cobria sua cabeça caiu.
Arquejei e o Dr. Hassan deu um passo à frente, sem acreditar.
— Sebak? — exclamou ele. — Você me traiu! Por quê? — Seu rosto ficou muito vermelho. — Você jurou defender a ordem!
Encurralado, o Dr. Sebak Dagher, agora a encarnação de Apófis, retrucou com crueldade:
— Você é uma relíquia caquética, indigno e incapaz de tomar o poder que está à sua disposição. Eu o teria matado há muito tempo se tivesse confiado em mim o suficiente para revelar a localização dos vasos canópicos de Amon.
As luzes o apertaram com mais força.
— O Obscuro está despertando, e não há nada que vocês possam fazer para detê-lo! — Agora desesperado, Dagher continuou feito um fanático: — Sua mão não poderá ser contida. Ele construirá seu trono com os ossos daqueles que se opuserem. Não se enganem: os poderes do Obscuro vão prevalecer.
— Sebak, ainda há tempo! — gritou o Dr. Hassan. — Você precisa parar com isso! Não tem a menor chance de vencer.
Ignorando Osahar, Sebak virou-se para mim e disse:
— Estou ansioso pela oportunidade de admirar seus lindos olhos outra vez.
Ele projetou os braços para a frente, e uma luz vermelha jorrou de seus dedos e saiu pela porta. Então juntou as mãos e desapareceu ao som de uma trovoada.
A névoa vermelha que cercava Asten e Ahmose se dissipou e os dois irmãos logo usaram seus poderes para atirar longe os corpos dos zumbis que coalhavam o chão e aqueles que ainda se precipitavam na direção da porta.
Ahmose veio correndo até mim, enquanto Asten disparou até Amon. Ferida de novo, manquei até o Dr. Hassan, que parecia totalmente atarantado com a traição de seu assistente. Depois de apertar sua mão, tentando confortá-lo, me aproximei de Amon. No chão, aos seus pés, havia uma bandeja de instrumentos antigos, certamente os mesmos roubados da vitrine.
Uma poça de sangue pegajoso rodeava a bandeja. Chutei-a longe com violência, ajoelhei-me aos pés de Amon e segurei sua mão. Filetes de sangue haviam secado nos seus braços; crostas escuras marcavam o espaço entre seus dedos. Havia talhos profundos em vários pontos da coxa, e feias punhaladas eram visíveis entre os farrapos do que restava da camisa.
Subi as mãos por seu braço cuidadosamente.
— Amon? Você consegue me ouvir? Estamos aqui — falei. — Acabou.
Ele se sobressaltou, os cabelos pendendo inertes sobre o rosto abaixado.
— Lily? — perguntou, com a voz embargada.
— Sim, sou eu. Seus irmãos estão aqui. Você está livre agora.
As mãos de Amon agarraram as laterais da cadeira e os tendões de seu braço saltaram quando ele tremeu. Por fim, respirou fundo e ergueu a cabeça.
A visão de seu rosto me encheu de horror.
Um soluço alto, seguido por arquejos desesperados, ecoou pelo recinto, e levei alguns instantes para entender que vinham de mim.
O lindo deus do sol dourado, o homem por quem eu agora admitia estar me apaixonando, ergueu a cabeça e estendeu a mão à frente, às cegas.
Seus antes lindos olhos cor de avelã – agora duas órbitas escuras, ensanguentadas e vazias, uma verdadeira visão de pesadelo – voltaram-se na minha direção.

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