25 de outubro de 2016

19. O Lago de Fogo

Anúbis segurou minha mão.
— A corda que a liga ao mundo dos vivos está ativa. Quando estiver pronta para deixar o mundo dos mortos, estenda a mão e pense em mim. Isso vai levá-la a um ponto de saída e eu irei pegá-la. Ahmose vai acompanhá-la, já que ele tem a capacidade especial de mantê-la no caminho reto e estreito. — Ele olhou para Ahmose. — Agora é com você, Desbravador.
— Entendi — respondeu Ahmose.
— E agora? — perguntei assim que os deuses desapareceram e o salão luminoso ficou outra vez envolto em escuridão.
Ahmose se agachou perto de mim e pôs a mão no meu ombro.
— Vamos esperar — disse ele. — Não deve demorar muito.
— O que estamos esperando? — perguntei enquanto afastava o cabelo de Asten da testa. Sua pele estava lisa e ainda quente ao toque. O rosto parecia em paz. Eu esperava que ele tivesse a segunda chance da qual Maat havia falado, que de algum modo ela pudesse enxergar Asten como eu enxergava. Ele havia cometido erros, mas eu não achava que fossem impossíveis de redimir. Meu coração chorava por ele e por tudo que ele havia passado, mas eu me consolava com o fato de que Anúbis tinha visto em Asten o mesmo que eu vira. Ele deu seu poder a Asten mesmo sabendo de tudo. Isso devia significar alguma coisa.
Enquanto eu fazia uma lista mental dos possíveis motivos para Anúbis ter mantido o segredo de Asten por tanto tempo, senti que o homem que eu tinha nos braços se mexia ligeiramente. Seus olhos se abriram, trêmulos, e ele ficou em pé devagar. Quando perguntei se estava bem, ele não respondeu, apenas começou a andar, parecendo estar em transe.
— O que há de errado com ele? — perguntei a Ahmose, deslocando-me para o lado quando Asten tentou passar por cima de mim.
— Ele está indo para o portão. Fique perto de mim.
Seguimos Asten por um corredor comprido e, quando chegamos a um beco sem saída, ele não hesitou e avançou em frente.
— Não conseguiremos ver — avisou Ahmose. — Só os condenados sentem o apelo do mundo dos mortos.
— Mas então como Amon... — eu ia perguntando quando Ahmose segurou meu braço.
— Ele está atravessando! — gritou. — Depressa, Lily!
Antes que eu entendesse o que estava acontecendo, Ahmose agarrou o ombro de Asten e passou o outro braço em volta da minha cintura. Foi bom ele ter feito isso, porque imediatamente nós três fomos sugados por um vórtice, um ciclone tão poderoso que levantou meu cabelo, arrastando-nos através do muro de pedras enquanto despencávamos juntos em círculos vertiginosos.
A mão com a qual Ahmose segurava o irmão escorregou e ele lutou para agarrá-lo novamente pela túnica e em seguida pelo pulso. Ao mesmo tempo, ele me puxou para junto dele. Envolvi sua cintura com os braços, enterrando a cabeça em seu peito enquanto o vendaval uivava à nossa volta.
Absolutamente enjoada com os giros, tentei em desespero não vomitar em cima de Ahmose, uma atitude que seria extremamente ingrata, considerando-se que ele era a única presença firme no meio de todo aquele tumulto.
Justo quando pensei que não aguentaria mais nem um minuto, os movimentos giratórios cessaram. Mas só tivemos um breve momento de descanso antes que o vento começasse a nos jogar na direção oposta, a princípio devagar, depois cada vez mais rápido. Engoli em seco e mordi o lábio até sangrar, na esperança de me distrair da sensação de vertigem.
— Agora estamos transitando do superior para o inferior! — gritou Ahmose.
Mesmo se eu quisesse responder, não conseguiria. Os ventos nos golpeavam e eu era arremessada de um lado para outro com tanta rapidez que não sabia em que direção íamos. Meu cabelo se enroscava no rosto, como uma bandeira em um furacão. Se antes eu achara que ia vomitar, agora me sentia pronta para morrer de vez. Nem mesmo Tia, com seus instintos felinos, conseguia me ajudar a recuperar o equilíbrio, e de qualquer modo ela estava tão apavorada que eu mal conseguia mantê-la concentrada. Implorei silenciosamente a princípio, depois em sussurros desesperados, que aquilo acabasse logo e então me lembrei do presente que Hórus havia me dado.
Cravando os dedos da mão esquerda nas costas de Ahmose, levantei devagar a direita até o cordão em meu pescoço. Ao segurá-lo, ele esquentou e a força do vendaval diminuiu. A rotação ficou mais lenta e nossos movimentos ganharam peso, como um par de tênis numa secadora, batendo uns contra os outros enquanto girávamos até pararmos finalmente.
Abri os olhos e soprei o cabelo revolto de cima do rosto. Ahmose perguntou se eu estava bem e em resposta fiz um gesto com a cabeça, conseguindo apenas lhe oferecer um sorriso débil. Mais uma vez me senti grata, não só por sua força e pela capacidade de manter nós três juntos como também por sua presença tranquilizadora. Ainda estávamos descendo aos poucos, mas nossos corpos agora caíam com suavidade, devagar, como uma semente de dente-de-leão. Sem o vento, a sensação era quase agradável.
Ahmose grunhiu enquanto puxava o irmão mais para perto.
— Pode se segurar no meu pescoço, Lily? — perguntou.
— Posso. — Passei um braço em volta do seu pescoço e depois o outro, trançando os pulsos quando percebi que meus músculos não faziam mais força para me segurar a ele. — Quando disseram que eu poderia vir agarrada em alguém, não achei que o significado fosse literal — falei, olhando para as costas de Asten. Ele não havia falado desde o colapso, e eu me perguntei se Asten seria um zumbi durante todo o tempo em que estivéssemos no mundo dos mortos. Essa ideia me deixou muito inquieta.
— Isso é bastante perigoso, Lily. Você deve ficar perto de mim o tempo todo.
Voltei a atenção para o rosto de Ahmose, que estava a apenas alguns centímetros do meu. Seus olhos cinza-aço estavam cheios de preocupação. Assentindo, respondi:
— Vou fazer isso, acredite. Não precisa dizer duas vezes.
— Ótimo. — Sua mão quente estava aberta na base das minhas costas, e arrepios me subiram pelos braços. De repente fiquei muito consciente da proximidade de nossos corpos. Seu rosto roçou no meu, e a sensação de sua barba áspera na minha bochecha foi tão gostosa que me fez estremecer.
Também notei quão cheirosa sua pele era: como uma floresta de carvalhos e musgo com os odores pungentes do outono.
Uma luz vinda de baixo iluminou a pele de Ahmose, fazendo os olhos cinza assumirem um tom prateado, e eu prendi a respiração, perdida neles por um breve momento. Ele olhou para baixo e apertou minha cintura.
— Aguente firme, Lily. Estamos quase lá.
O que há de errado comigo?, perguntei a Tia.
Anúbis disse que você tem uma conexão com os três irmãos. Talvez isso seja resultado dessa conexão. Em momentos de estresse, uma leoa procura seu protetor e se une a quem defende o bando.
Bom, se o estresse é o gatilho, pelo menos temos uma boa desculpa, pensei com ela, tentando afastar a sensação.
Segurando com mais firmeza o pescoço de Ahmose e ignorando o fato de que me sentia segura nos seus braços, fechei os olhos e esperei o impacto. Abri-os, surpresa, quando senti os braços de Ahmose envolverem totalmente minha cintura e me baixarem ao chão sem nenhum solavanco.
Asten, que Ahmose havia deixado na areia, estava se levantando devagar enquanto Ahmose se afastava, esfregando a nuca e me espiando com o canto do olho. Fiquei me perguntando se ele teria sido tão afetado por mim quanto eu tinha sido por ele e me senti mais confortável evitando encará-lo.
Indo rapidamente para a linha de visão de Asten, chamei seu nome e, como ele não reagisse, peguei sua mão e apertei. Ele nem ao menos se mexeu. Tentei engolir a frustração e depois inclinei a cabeça, buscando entender por que me sentia daquela forma. Eu estaria querendo a atenção dele também?
— Ele só vai poder responder quando acharmos seu coração — explicou Ahmose.
— Ah, entendo — falei, ainda sem olhar para ele. — Então, por onde começamos a procurar? — perguntei enquanto soltava Asten com relutância.
— O coração procura aquilo que lhe causa mais dor. Uma alma banida só recupera o coração se lutar contra os demônios que a assombram. Quanto pior o crime, mais intensa a batalha. O coração de Asten está sendo vigiado pelo demônio que se agarra a ele com mais força. Asten será atraído para esse monstro, então temos de segui-lo.
— Certo.
Ahmose ergueu os olhos, espiando a paisagem agourenta ao nosso redor. Parecíamos estar numa terra devastada. Um cheiro sulfuroso, de algo se queimando, era trazido pelo vento. Grandes montes de terra e pedras se espalhavam ao acaso. Com minha visão de esfinge eu podia detectar uma ligeira pulsação em alguns, que, se estivessem na Terra, teriam me feito pensar que eram cupinzeiros. Como estavam no mundo dos mortos, quem sabia que criaturas horríveis habitavam aqueles montes?
A princípio achei que o terreno era semelhante ao Lugar Onde os Sonhos Nascem, com seus pináculos e formações rochosas, mas, depois de inspecioná-lo mais um pouco, vi que as cores que iluminavam as rochas eram berrantes e ameaçadoras. Os montes de pedras lançavam sombras escuras onde coisas sinistras se retorciam, escondiam-se ou se arrastavam na penumbra crepuscular.
Em vez de beleza, ocorreu-me a ideia de que a morte e a podridão estavam comendo lentamente aquela paisagem.
O chão era rochoso, com pedras afiadas espalhadas pela areia. E a profundidade da camada de grãos sugava nossos pés, quase me fazendo tropeçar a cada passo ao me arrastar pelo terreno.
Minhas sandálias brancas rapidamente foram ficando desconfortáveis. Os únicos marcos que eu via no terreno eram algumas árvores nuas e feias que estendiam garras afiadas e esqueléticas para agarrar meu cabelo. Tia me emprestou sua força para que eu suportasse a temperatura infernal, mas não havia nada que eu pudesse fazer com relação ao fedor de enxofre e podridão.
Asten parecia seguir para o lugar de onde emanava o cheiro de enxofre. Sem saber se era uma coisa boa ou ruim, verifiquei se nossas facas estavam a postos e se meu arco e a aljava de flechas continuavam às minhas costas, e então fui atrás dele.
Meu coração dizia que Amon estava numa direção diferente, mas eu temia que, se não seguíssemos Asten, o perdêssemos. Tia concordou e começamos a acompanhá-lo. Depois de quatro passos, eu já estava com dificuldade para manter o ritmo. Asten deslizava sobre o terreno como um fantasma, enquanto eu me arrastava como se estivesse atravessando um lamaçal.
— Ele está se adiantando — gritei.
— Aqui — disse Ahmose. — Segure minha mão. Eu posso encontrar o caminho mais seguro.
Pus a mão na dele e ela foi rapidamente envolvida por sua palma grande e quente.
Isso é bom, disse Tia. Não como o abraço de Hórus, mas acalma. Reconforta. Entendo seu desejo por este aí. Seus filhotes teriam bom tamanho e seriam saudáveis.
Ai! Você está falando em filhotes? Pare com isso! A situação já está esquisita demais, repliquei em pensamento. Sou jovem demais para pensar numa prole.
Você não é capaz de se reproduzir nesta idade?, ela perguntou.
Isso estava ficando constrangedor. Com relutância, expliquei: Meu corpo tem a capacidade, mas os humanos geralmente só se reproduzem quando se estabelecem. Primeiro terminam a faculdade, se casam e compram uma casa.
Ah, disse ela. Acho que seria adequado encontrar um local bom para criar os filhotes. Como você está numa condição transitória, faz sentido esperar um tempo.
Ignorando minha leoa interior, voltei a atenção para Ahmose, que mantinha a outra mão estendida acima da areia. A princípio nada aconteceu, mas então os grãos começaram a se mexer.
Asten continuou a avançar e eu me preocupei de novo, pensando que ele ia escapar de nós. A areia endureceu e um caminho torto se formou, surgindo e desaparecendo de vista.
Ahmose pisou num trecho de areia firme.
— Se formos por este caminho, vamos evitar os buracos que iriam nos engolir e levar à destruição.
— E quanto a Asten?
— Asten deve seguir seu caminho. Vamos ficar o mais próximos dele que pudermos e só nos desviaremos da trilha se for absolutamente necessário.
— Certo. Você vai na frente.
Eu esperava que, assim que visse Amon de novo, esses sentimentos incômodos que estava tendo com relação a outros homens desaparecessem. Quer viessem de Tia ou não, aparentemente eu era uma participante voluntária, ainda que relutante.
Tentei não pensar no assunto, mas, como nesse momento Tia tinha os pensamentos voltados para os braços bem definidos de Ahmose, os meus também foram nessa direção. Ela se perguntava se poderia vir a amar algum dos dois, e eu não podia censurá-la. Ambos eram boas opções.
Seus pensamentos iam particularmente na direção de Asten e, enquanto andávamos, ela repassou na mente a confissão dele. Tinha simpatia por ele, pois ela também se sentia deslocada e pouco digna. A ideia de que Tia não se considerava tão importante quanto eu me chocou e prometi tentar dar a suas opiniões e seus pensamentos o mesmo peso que aos meus.
Asten surgia e desaparecia de vez em quando, mas Ahmose sempre nos garantia que ele estava perto; a trilha de fato parecia seguir a mesma direção em que ele andava. De vez em quando Ahmose parava, punha as mãos no caminho e descobria uma nova direção que nos levava para mais perto de seu irmão. Após algumas horas atravessando aquela paisagem monótona perdida em meus pensamentos, finalmente encontramos a fonte do cheiro de queimado.
A princípio não estava claro o que era aquilo. O horizonte reluzia com um tom laranja-dourado e pensei que podia ser um pôr do sol, embora Ahmose tivesse me dito que não achava isso possível. Um pôr do sol indicaria a presença de Amon-Rá, que, apesar de ter me guiado até Cherty, jamais havia posto os pés no mundo dos mortos. Pelo menos até onde Ahmose sabia.
Logo descobrimos o que provocava as luzes acima dos morros. Chegamos a um amplo lago com um líquido turvo e chamejante que ondulava e se mexia como se houvesse várias formas se retorcendo abaixo da superfície. Asten parou, como se avaliasse o ambiente. A luz que vinha daquilo se refletia em seu rosto como o tremeluzir de uma fogueira, e eu achei linda a força silenciosa e a aspereza de seu queixo. Senti uma ânsia avassaladora de passar a ponta dos dedos por ele.
Asten piscou, como se acordasse de um sonho, e nesse momento me olhou. Deve ter visto algo na minha expressão, porque a dele mudou. Seus olhos castanhos se iluminaram com ternura e os lábios se separaram ligeiramente, como se ele tivesse encontrado algo que procurava havia muito tempo. Dei um passo, chegando mais perto dele. Por um brevíssimo momento pensei que ele iria tocar meu rosto, mas então algo rompeu a superfície do lago e exigiu sua atenção.
Quando o momento passou, sacudi a cabeça ligeiramente, imaginando o que estaria acontecendo, afinal. Talvez o escaravelho do coração o estivesse afetando também. Eu sabia que era apenas questão de tempo até que a pedra começasse a influenciar Asten e Ahmose, mas essa era a primeira indicação de que um deles estava se dobrando ao seu poder. Respirando fundo, prometi ser mais forte e me virei para o lago.
Eu jamais havia imaginado uma coisa assim. Do outro lado da água ardente havia uma espécie de cachoeira que parecia alimentá-la, mas o líquido era denso e viscoso, de um dourado caramelo com chocolate, iluminado por trás. O lago era lindo à sua maneira, mesmo eu sabendo que os demônios pessoais de Asten deviam viver escondidos em suas profundezas. Enquanto pensava no que eles poderiam ser, Asten aproximou-se da borda daquela água feroz.
— Pare! — gritei. — Não entre!
O medo agarrou com força meu coração. Sentia um pavor mortal de que Asten se afogasse ou se queimasse naquelas ondas abrasadoras.
— Que lugar é este? — perguntei a Ahmose quando Asten parou à beira d’água.
— Já ouvi falar, embora não seja nem um pouco como eu imaginava. Chama-se Lago de Fogo, um local de purgação. Os erros que cometemos podem ser, em essência, lavados. Isto é, se a pessoa não se afogar durante o processo. É interessante que o coração dele tenha vindo parar aqui.
— Não são todos que vêm para cá?
— Não. A maioria vai para o Pântano do Desespero. O fato de o coração de Asten ter vindo para cá significa que os males que ele fez causaram mais dor a ele próprio do que a qualquer outra pessoa. A má notícia é que o coração dele procurou o ponto mais fundo do mundo dos mortos para se esconder, algo que podemos atribuir ao tempo que Asten permitiu que esses sentimentos e erros do passado infeccionassem. A boa notícia é que, se ele conseguir trazer o coração à superfície, poderá em essência ficar livre dos seus demônios. Isso não é um feito pequeno no mundo dos mortos.
— Então você está dizendo que Asten vai mergulhar? — perguntei, esperando estar errada.
— É o que suponho. Agora mesmo o coração dele o está chamando das profundezas.
Nesse momento uma criatura grande com mandíbulas escancaradas rompeu a superfície e mergulhou de volta. Seu olho deve ter nos visto porque ela veio à tona não uma, e sim duas vezes mais, sempre chegando mais perto. Sacudi a cabeça.
— É perigoso demais. Não podemos deixar que ele entre aí.
— Acho que não temos escolha — declarou Ahmose.
Asten se virou para nos olhar com um sorriso fraco e entrou na água.
Ahmose segurou meu braço quando tentei ir atrás dele, lançando-me um olhar dolorido.
— Ele precisa lutar contra os seus demônios para reconquistar o coração — disse ele, brincando com uma mecha do meu cabelo.
Virei-me e olhei desesperada para o lago. A água dourada se grudava nas pernas de Asten como uma gosma densa.
Entrei em pânico. Íamos perdê-lo. Não podíamos perdê-lo. Não quando eu pensava que poderia amá-lo. Não. Espere. O quê? Está errado. Não, não é, insistiu minha mente. Meu coração estava disparado como uma gazela e, antes que eu entendesse o que estava fazendo, saltei do caminho e corri para a margem.
— Lily! Espere! — gritou Ahmose, mas eu o ignorei e segui em frente, adentrando o líquido viscoso no momento em que Asten mergulhava.
— Asten! — gritei, jogando as facas, a aljava e o arco na areia antes de mergulhar sob as ondas também. Quando não pudemos mais enxergar, sintonizei minha mente com a de Tia e invoquei nosso poder. Subitamente a treva que preenchia nossa visão se dissipou e pudemos ver claramente Asten adiante. Uma rocha luminosa o atraía para adiante e para baixo.
Nadei desajeitadamente, minha metade humana e minha metade leoa movendo-se como duas criaturas disparatadas brigando. O tempo todo eu alternava do nado de peito para o nado cachorrinho e acabei chutando violentamente, rasgando a água como se ela fosse um grande animal. Ainda que o Lago de Fogo se mostrasse viscoso e avermelhado, a água era fria, tão fria que parecíamos ter afundado numa sepultura. Meus olhos se fecharam e Tia aumentou nossa temperatura corporal o suficiente para voltarmos a viver – pelo menos até onde isso era possível no mundo dos mortos.
Nossas garras se estenderam naturalmente quando um monstro coberto de escamas atacou. Riscamos as unhas pela lateral dele e o sangue preto encheu a água antes que a criatura desaparecesse. Usei a Estela de Cura de Hórus para consertar um talho maligno na perna que a fera dentuça havia aberto antes de sumir.
Um cardume de minúsculos peixes mordedores nadava ao redor de Asten, mas ele não prestava atenção, descendo cada vez mais. Sentindo que algo nos caçava, virei-me e tentei ver o que era, nadando depressa e ousadamente na direção do predador. Com um movimento rápido das garras, despachei a criatura e prossegui. Esse lago poderia ser o nosso fim. Asten já era apenas um pontinho na borda da minha visão. Eu mal podia vê-lo, mesmo com nossas habilidades de esfinge.
Outra criatura monstruosa me viu. Isso estava começando a parecer uma versão aquática daquele brinquedo em que se acerta com uma martelada o bicho que sai de um buraco só para ver surgir outro. Fechei o punho com força e usei apenas o poder da mente para destruí-lo. A fera enorme se sacudiu violentamente por um minuto antes de se imobilizar.
Eu já estava prendendo o fôlego por muito mais tempo do que conseguiria como humana, e meus pulmões nem estavam ardendo. Esperava que a mesma coisa estivesse acontecendo com Asten. Ele fora imbuído de poderes divinos e tecnicamente estava morto, de modo que isso podia contar a nosso favor. Enquanto ele nadava em meio ao cardume de peixes letais, seu sangue enchia a água, e eu me preocupava com a possibilidade de o cheiro atrair predadores maiores. Diminuí a distância entre nós.
Asten estava flutuando acima de seu coração reluzente, cercado pelas criaturas malignas que arrancavam pedacinhos de sua carne. Os gritos abafados dele me dilaceravam. Cheguei mais perto, mas os peixes me ignoraram completamente e nadaram para o outro lado dele, evitando-me quando eu me aproximava. Tentar atacá-los com as garras se mostrou infrutífero, por isso bati as pernas e tentei pegar o coração reluzente.
No entanto, o coração era pesado demais para que o levantasse. Fiz força, puxei e usei tudo que tinha para tentar arrancá-lo do leito em que estava. Não havia nada que eu pudesse fazer enquanto Asten era despedaçado. Ele lutava e se debatia, mas em vão. Não conseguia fazê-los parar. Então, subitamente, o comportamento dos peixes mudou. Em vez de atacar, eles pairaram, como se esperassem alguma coisa.
Meus cabelos giravam em espirais à minha frente e eu os empurrei para o lado, com raiva.
Asten!, pensei, nadando mais para perto dele. Não desista! Mas ele havia desistido. Levantando as mãos e fazendo uma careta ao ver os pedaços de carne que pendiam da ponta de seus dedos e flutuavam como pedacinhos de pão encharcado, piscou uma vez, duas e então seus olhos me encontraram.
Ficamos nos encarando por um longo momento, e naqueles segundos preciosos tentei implorar com os olhos, transmitir quanto eu queria que ele vivesse. Asten pareceu entender. Com os lábios se curvando para cima num sorriso doce, assentiu e inclinou a cabeça para trás, estendendo os braços.
Fechou os olhos e se entregou ao cardume. Os peixes minúsculos porém monstruosos ficaram muito agitados. Nadaram ao redor dele com velocidade crescente, cada vez mais rápido, até que suas formas tornaram-se indistintas. Então, de uma só vez, todo o grupo mergulhou sobre ele, rasgando sua barriga, penetrando sob a pele. Asten gritou enquanto todo o seu corpo se enchia de luz – luz que emanava da ponta dos dedos arruinados, dos pés, da boca e dos olhos.
Todo o meu corpo tremeu, o coração pressionando contra as costelas, como se estivesse pronto para explodir. O pesar e a tristeza me rasgavam tanto que eu mal me importava se viveria. Asten ia ter uma segunda morte, a morte permanente, e eu não podia fazer absolutamente nada para impedir. De que adiantava ter o poder de uma esfinge se eu não podia proteger as pessoas de quem gostava?
Abaixo de nós o coração de Asten explodiu em mil partículas de luz, que flutuaram de volta para sua pele reluzente. Ali, afundaram nela, fazendo seus membros se curarem. Os espasmos de seu corpo diminuíram e, quando pararam, sua cabeça tombou para a frente. Ele flutuava na água de fogo, inconsciente. Pelo menos era o que eu esperava.
Retraí as garras, me aproximei devagar e passei um braço por sua cintura. Quando toquei seu rosto, os olhos se abriram. O alívio jorrou através de mim e desejei ser capaz de rir histericamente e chorar ao mesmo tempo.
Um brilho familiar iluminava os olhos cor de chocolate de Asten e ele piscou, a lateral da boca subindo em seu característico sorriso maroto. O gesto era sincero e genuíno. E no entanto não era. Ele se sentia feliz por estar vivo e por eu estar ali com ele. Embora estivesse obviamente cansado, era Asten inteiro e completo de novo. Só que agora havia uma calma aceitação em seus ombros. Ele havia absorvido o fardo de seus demônios. Não somente os tinha enfrentado como também lutado contra eles e vencido. Sempre fariam parte dele, mas deixariam de prendê-lo. E, mais importante, não pesariam mais em seu coração. Asten segurou minha mão e apertou gentilmente, depois levou-a aos lábios e pousou um beijo suave na palma.
Puxou-me, querendo que eu ficasse mais perto, e fui voluntariamente, envolvendo seu pescoço com os braços. Suas sobrancelhas se levantaram numa interrogação, mas então ele assentiu, como se isso também fosse algo que ele pudesse aceitar. Depois olhou para cima e bateu as pernas, levando-me para a superfície.
Eu não sabia direito quanto tempo tínhamos passado submersos, mas, pela expressão de Ahmose, vi que fora tempo demais. Ele andava de um lado para outro freneticamente e só notou nossa presença quando ouviu as tentativas agitadas de chegarmos à margem. Veio correndo até a água e me puxou, apertando-me contra o corpo.
— Lily — ofegou, aliviado. — Achei que você estava perdida.
— Estamos bem — expliquei, dando-lhe um abraço rápido e depois me afastando, as densas ondas de líquido laranja me empurrando contra ele enquanto eu avançava.
— Não pude ir atrás de vocês. Tentei, mas cada vez que punha os pés na água ela ficava dura como pedra. Quando eu recuava ela voltava a ficar líquida. Achei que se tentasse chegar até você iria matá-la. Caso contrário, eu teria ido.
— Que estranho — comentei. — O lago permaneceu líquido o tempo todo em que estivemos lá embaixo. Por que será que ele me deixou ir atrás de Asten e não deixou você?
— Talvez ele tenha sentido nossa ligação — supôs Asten.
— É. — Ahmose cruzou os braços. — Talvez seja hora de você contar tudo sobre esse sonho do qual falou e qual é o papel de Lily nele.
Asten franziu a testa e estendeu a mão para mim. Aceitei seu braço com naturalidade e fui até a margem com ele. Quando olhei para trás, Ahmose é quem estava franzindo a testa. Por cima do ombro, Asten respondeu:
— Você sabe que só tenho permissão de compartilhar um sonho com a pessoa ou as pessoas que estão nele, e neste sonho... — ele olhou para mim brevemente — ... definitivamente você não está. — Asten ergueu os olhos, como se procurasse alguma coisa e, apesar de não haver um sol no céu, ele disse: — Sugiro que a gente encontre um abrigo. A noite está chegando.
Logo Ahmose se juntou a nós e também olhou para o céu antes de levantar as mãos e murmurar um encantamento. A areia ao redor se moveu e depois se acomodou enquanto os olhos dele viam alguma coisa que os nossos não enxergavam.
— Encontrei um caminho — disse ele.
— Bom. — Asten assentiu e se virou para mim, tocando a ponta do meu nariz com delicadeza, os olhos brilhando. — Por mais que você pareça fascinante encharcada com as águas ardentes, provavelmente está desconfortável e é a própria imagem de uma pobre devota. Se me permite, posso fazer alguma coisa mais adequada à sua condição...
Baixei a cabeça e tentei ignorar o modo como os olhos de Ahmose se estreitavam com uma ponta de ciúme. O escaravelho estava fazendo sua magia. Eu sabia que ele estava afetando Asten também, mas isso não me incomodava. Nem um pouco. E isso eu achava desconcertante.
Asten murmurou alguma coisa, movendo as mãos enquanto uma névoa familiar se erguia da areia e me cercava; as estrelinhas flamejantes tremeluziram em torno do meu corpo, me esquentando e se assentando na pele com pequenos estalos.
Um tecido seco me envolveu, abraçando meus membros. Mas, para meu deleite, o tecido se movia e se esticava junto comigo. Quando a nuvem reluzente se dissipou, passei a mão pelo braço, gostando da sensação da blusa de seda branca sobre a pele. Meu arnês de couro ainda estava confortável nos ombros, as facas-lanças facilmente desembainhadas, como se tivessem acabado de ser limpas e afiadas, e eu usava uma calça capri cáqui macia e justa com botas marrons que chegavam ao meio da canela.
Momentaneamente em pânico, passei as mãos sobre a blusa e soltei um suspiro de alívio quando encontrei o escaravelho do coração de Amon preso ao arnês.
— Obrigada — falei, maravilhada com a maciez do tecido. Levei a mão ao cabelo e descobri metade dele preso frouxamente na nuca com uma tira de couro. As outras partes, mais curtas, esvoaçavam com a brisa.
— Achei que você gostaria de alguma coisa prática e simples no cabelo — disse ele.
— E gostei.
Sorri para ele. Espere aí. Eu sorri? Tia me garantiu que nós sorrimos, mas de repente eu não conseguia lembrar. Pensei mais um pouco, o cérebro dolorosamente forçando lembranças para a superfície até que elas finalmente se soltavam como tesouros esquecidos enterrados embaixo da areia. Mesmo assim, eram embaçadas, quase desbotadas, e percebi que só podia recordá-las de uma certa distância. Minha mente estava lenta. Menos... no estilo de Lily. Lembrei-me então de que Amon gostava do meu cabelo solto e encaracolado, do meu jeito de sempre, e pude relaxar de novo.
Amon era o motivo de eu estar ali. O motivo para eu ter vindo ao mundo dos mortos. Como podia ter distanciado meus pensamentos dele ao menos por um instante?
Ahmose segurou minha mão e me virei para trás e ofereci a outra a Asten.
— Você vem? — perguntei.
Asten inclinou a cabeça em direção à minha e respondeu com uma piscadela travessa.
— Nem mil feras monstruosas poderiam me afastar de você.
Dei um sorrisinho e, com ele de um lado e Ahmose do outro, tudo parecia bem. Partimos juntos – nós quatro, incluindo Tia – e não se passou muito tempo até que eu percebesse que havia um motivo para ter tido dificuldade em me lembrar de Amon. Ele estava se distanciando de mim propositadamente, para me proteger. No entanto, eu ainda podia sentir que seu coração me chamava. Agora que eu tinha Asten e Ahmose do meu lado, a distância de seu coração parecia insuportável.
Seguimos em frente, eu me esforçando ao máximo para ignorar a dor e o sofrimento que agora podia sentir reverberando em meu corpo. Aquilo me enfraquecia a ponto de eu achar difícil andar.
Logo notei que Asten e Ahmose também estavam perturbados. Algo estava nos exaurindo. Roubando nossa energia. A certa altura fui carregada e finalmente apaguei, sonhando com uma coisa terrível, mortal. E essa coisa sabia que eu estava ali.

4 comentários:

  1. Um é pouco
    Dois é bom
    Três é melhor ainda
    Quatro é FANTÁSTICO!!!

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    1. nao , 4 e suruba , orgia , menage...

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    2. Eles estão mais para cinco. agora que tem a Tia.

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    3. Eles estão mais para cinco. Agora que tem a Tia.

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