21 de outubro de 2016

19. Deus da lua

Afogar-se em areia movediça é um pouco melhor do que se afogar em água. Não há como se debater, chutar ou sacudir a cabeça. Não existe aquela luta desesperada para alcançar a superfície, nenhum lampejo de sol lá em cima convidando você a não desistir. Apenas um silencioso amortalhar. Uma imersão inevitável, como se o seu corpo tivesse sido envolto em um casulo quente.
Imagino que a sensação não seja muito diferente de nascer. A areia vai escorregando para cima, pela sua pele, o que deixa você desorientado, pois ela parece fluir no sentido oposto ao da gravidade. Uma pressão intensa aperta seus membros e seu tronco. Seus pulmões ardem com uma dor que parece fogo, mas você espera, espera, espera mais, torcendo, rezando e implorando para o suplício terminar, desejando aquele instante do parto em que a fria rajada de ar finalmente lhe permita gritar.
Mas então você percebe que não está sonhando. Que aquilo não é um nascimento, uma criação. Não. Pelo contrário: é o término. Não há luz no fim do túnel. A areia que se move não conduz a lugar nenhum. Esperar e prender a respiração são atos inúteis. Você será engolido inteiro.
A mente por fim se acalma, finalmente resignada ao destino, e você se prepara para a morte. Pergunta-se qual vai ser a sensação que a areia lhe trará quando a respirar. Será que vai doer? Será que você vai tossir? Será que vai sentir a aspereza preenchendo seus pulmões? Quanto tempo vai levar para sufocar? E o que vai acontecer com o seu corpo depois que você morrer? Será que vai afundar até o fim e acabar batendo em um fundo sólido, ou será que vai apenas cair para todo o sempre, deslizar pelo nada escorregadio até a areia arrancar a carne dos seus ossos e os seus pedacinhos se espalharem de qualquer maneira por aquele pântano?
Esses eram meus pensamentos enquanto meu corpo afundava. Cada objeto que tocava minha pele, fosse ele areia ou outra coisa, provocava uma nova sensação. A pressão nos meus pulmões, a força que puxava meu corpo, tudo doía de um jeito que eu nunca sentira antes.
Tornei-me hiperconsciente do espaço à minha volta, e foi por isso que, quando minhas pernas esfriaram de repente e a areia que penetrava minha calça começou a escorregar para baixo de novo, úmida e compacta, eu soube que algo tinha mudado. Que havia pelo menos um bolsão de ar logo abaixo de mim.
Embora meus pulmões estivessem prestes a explodir, prendi a respiração por mais alguns segundos, então me desloquei.
A metade inferior do meu corpo estava pendurada, mas a metade superior, a que precisava respirar, continuava presa. A areia movediça parecia me segurar pelos ombros e cabelos, sem querer abrir mão de sua vítima.
Em desespero, comecei a escavar, e desloquei punhados de areia até meus dedos conseguirem passar e um fraco sopro de ar seco fazer cócegas em suas pontas. Chutei, me debati e contorci o corpo exausto até que, com um ruído úmido, a areia cedeu e fui expelida para dentro de uma cavidade escura.
Engasgada, sorvi o ar rapidamente ao cair, sem saber se iria encontrar um chão sólido e morrer ou ser novamente sugada para dentro da areia movediça e ter que passar por tudo outra vez. Meus ouvidos estavam cheios de areia, mas pensei ouvir uma voz fantasmagórica chamar meu nome. Aos arquejos, chiando, agitei braços e pernas no ar, torcendo o corpo e dando cambalhotas enquanto despencava.
Desenvolvi uma súbita simpatia por Alice ao cair na toca do coelho. Nem sabia o que mais queria – parar de cair, vomitar e acabar com aquilo de uma vez ou conseguir enxergar. Naquele momento, qualquer uma dessas alternativas me parecia uma dádiva preciosa.
Enquanto eu despencava, os minutos se esticavam, longos e torturantes, e finalmente aceitei meu destino. Passei a não esperar mais ser salva. Se eu fosse sair dessa, já teria saído, pensei. Não, eu estava presa em uma espécie de limbo interminável, um terrível purgatório que me fez recordar todos os meus erros, fraquezas e arrependimentos, do qual não havia saída. Talvez eu já estivesse morta. Meus olhos ardiam com as lágrimas e sussurrei um nome. Não foi o dos meus pais, nem o da minha avó; nem mesmo o de Deus.
— Amon? — sussurrei, a voz trêmula. — Me perdoe.
Com a minha morte, sua temporada na Terra seria curta, mas talvez ainda houvesse tempo suficiente para ele se ligar a outra pessoa. Estava imaginando nosso feliz reencontro como espíritos desencarnados e me perguntando se a versão egípcia da vida após a morte tinha alguma interseção com a versão anglo-saxônica do paraíso quando bati em alguma coisa. Com a força de uma detonação, o impacto arrancou dos meus pulmões todas as partículas de areia que eu tinha respirado. Comecei a tossir com violência e me perguntei por que não estava morta. O objeto áspero que aparou minha queda estava agora enrolado à minha volta, me sufocando. Então ele falou:
— Pare de se contorcer, Lily. Você está segura.
Imobilizei-me, estiquei as mãos e toquei um peito coberto de areia.
— Asten? — sussurrei.
Dois olhos brilhantes de um tom bronze dourado cintilaram no escuro.
— Estava esperando outra pessoa?
— Não. Ninguém. Na verdade, estava esperando a morte — falei, engasgada.
Asten deu um grunhido.
— Pelo visto, não vai ser hoje. Você se machucou?
— Se eu me machuquei? — repeti, como se não tivesse entendido a pergunta.
— Consegue ficar em pé? — explicou ele devagar.
Pisquei os olhos.
— Ah. Sim. Acho que sim.
— Ótimo. — Ele me pôs de pé. — Agora que você chegou, pode me ajudar com Hassan.
— O doutor Hassan está aqui? — arquejei.
— Está. O corpo dele pesa mais do que o seu, então ele caiu mais rápido que você.
Asten se afastou e fui cambaleando atrás dele, com os braços esticados na frente do corpo.
— Ah, esqueci que você não consegue ver no escuro.
Asten acendeu o próprio corpo e nos rodeou com uma bolha de luz branca suave. Tirando o chão de terra batida sob nossos pés e alguns pedregulhos, não havia mais nada.
— Onde estamos? — perguntei.
— Não sei.
Chegamos à forma caída do Dr. Hassan e me ajoelhei ao lado dele, levando os dedos ao seu pescoço. Com a outra mão, senti seu peito subir e descer.
— A pulsação dele está forte — falei. — Não parece ter nada quebrado.
— Os membros dele devem estar intactos. Eu o segurei, do mesmo jeito que segurei você.
Ergui os olhos para ele por cima do ombro e perguntei:
— Você não se machucou na queda?
— Não estou preso à Terra da mesma forma que vocês. O poder do íbis estrelado me confere a capacidade de controlar a velocidade com a qual subo e desço.
— Espere aí. Você está me dizendo que pode voar?
— Estou. Você já me viu voando.
— Mas como pássaro. O que eu quis dizer foi: você consegue voar como homem?
Em resposta, Asten ergueu os braços, afastando-os ligeiramente da lateral do corpo, que se ergueu no ar. Sem se mexer, ele pairou a alguns metros do chão e depois desceu devagar.
Balancei a cabeça, impressionada, e tornei a me virar para o Dr. Hassan.
— Mas, se você o segurou, então qual é o problema?
— Não sei. Talvez ele esteja só desacordado.
Dei um tapa de leve no rosto do doutor.
— Osahar? Está me ouvindo? Acorde! — Sacudi seu ombro, mas ele continuou inconsciente. — Você pode carregá-lo? — perguntei, pegando o estimado chapéu fedora do egiptólogo e guardando-o na mochila.
— Posso.
— Por quanto tempo?
— Quanto for necessário.
— Ótimo. Então vamos tentar achar uma saída deste lugar.
Asten se agachou e pegou no colo o Dr. Hassan, jogando-o sobre o ombro como se fosse um paletó.
— Vou seguir você, Lily. Para onde quer ir?
— Acho que... acho que a gente deveria tentar ir por ali — sugeri e apontei para a frente.
Vagamos pelo que pareceram ser muitas horas, embora eu na verdade não tivesse muita noção do tempo. O único momento de alegria foi ao encontrar minha bolsa. Quando Asten torceu o nariz para a banana amassada que ofereci dividir com ele, dei de ombros e engoli com dificuldade a fruta esmigalhada, feliz por encontrar alguma coisa para encher meu estômago vazio. Enquanto caminhávamos, eu coçava e esfregava a camada de areia que fazia meu corpo pinicar e tentava tirá-la dos cabelos.
Comecei a entrar em desespero. Todos os pedregulhos com que cruzávamos me pareciam iguais, e quando fiz com eles uma pequena pilha parecida com uma flecha apontada na direção que estávamos seguindo, esta já havia desaparecido por completo quando demos meia-volta, poucos segundos depois.
O Dr. Hassan finalmente se mexeu. Ele deu um gemido e Asten o pôs no chão. Despejei um fio de água mineral em sua boca e limpei quanto pude a areia que formava uma crosta sobre o seu rosto.
— Hã... O que aconteceu? — indagou ele. — Onde estamos?
— Não sabemos. — Umedeci um pedaço de tecido que Asten havia arrancado do saiote já excessivamente curto e limpei o rosto do Dr. Hassan. — A gente caiu pela areia movediça até este lugar. Não tem nada aqui a não ser nós três.
Puxei da mochila seu chapéu antes branco, agora imundo e amassado, limpei um pouco da areia grudada na aba e o entreguei a ele, que abriu um sorriso gentil e aceitou.
— Ah... este chapéu me foi dado em homenagem ao meu primeiro achado arqueológico de verdade... uma escultura de pedra muito rara de Bast. — Quando ele tentou dar forma ao chapéu outra vez, a faixa se partiu. — Bem, talvez esteja na hora de deixar o passado para trás e me concentrar no futuro.
— Eu sinto muito, Osahar — falei.
— Não se preocupe com isso. Tivemos sorte de escapar com vida.
— Sim, mas ainda não encontramos uma saída.
— Lily tem razão. Esta masmorra não parece ter fim — disse Asten. — Mas talvez você consiga ver alguma coisa que eu não consigo. O que me diz, Hassan?
Os dois trocaram um olhar significativo, mas não consegui entender o que poderiam estar querendo dizer e, para ser bem sincera, estava cansada demais para me importar. Com a ajuda de Asten, o Dr. Hassan se levantou.
— Vou ver o que posso fazer — declarou, enigmático.
Girando em um círculo lento para examinar a escuridão, o Dr. Hassan murmurou algo distraidamente para si mesmo.
Após alguns instantes, eu já tinha começado a me perguntar se ele havia batido com a cabeça em alguma pedra e estava delirando quando ele se virou para nós e disse:
— Receio que estejamos presos em uma oubliette.
— Ubli o quê?
Oubliette... uma masmorra sem outra saída que não o caminho pelo qual se entra. É uma palavra francesa e significa “lugar de esquecimento”.
— O senhor quer dizer um lugar onde as pessoas jogam você para que seja esquecido ou um lugar tão escuro e vazio que você enlouquece e esquece quem é?
— Um pouco dos dois, eu acho.
— Então, se só existe uma entrada e a gente veio pela areia movediça, a única saída...
— Seria voltar pela areia movediça.
— E isso é possível? — indaguei e virei-me para Asten.
— Eu posso voar e nos levar até a areia, mas ela estava impregnada de magia, e nem mesmo eu consigo atravessar essa barreira.
— Ou seja, estamos presos.
— Por enquanto — disse o Dr. Hassan em voz baixa.
— Está dizendo que sabe de uma saída?
— O simples fato de não haver uma saída alternativa perceptível não significa que não exista saída. Acredito que talvez tenhamos outro jeito de escapar, sim.
— Então vamos!
Tenho certeza de que, mesmo à luz mortiça, a animação era visível no meu rosto. Já havia ficado presa em muitos lugares claustrofóbicos nas minhas aventuras com Amon e não apreciava nem um pouco a ideia de permanecer confinada em uma oubliette por mais tempo do que o necessário. A única coisa que me impedia de entrar em pânico e hiperventilar era a preocupação com Amon.
Segurei o Dr. Hassan pelo braço e o puxei alguns passos à frente antes de ele me deter. Com um tapinha na minha mão, ele disse:
— Talvez seja melhor libertar Ahmose antes de irmos embora.
— Li-libertar Ahmose? — gaguejei.
— Meu irmão está aqui? — indagou Asten.
— Está. Ou melhor, o sarcófago dele está aqui.
— Mas onde? — perguntei. — A gente não viu nada. Como o senhor sabe?
O Dr. Hassan hesitou antes de dizer:
— Não está muito longe. Venham.
Nós o seguimos por alguns instantes e ele então pareceu sumir no ar. Gelei.
— Doutor Hassan? — chamei, nervosa.
— Estou aqui, Lily.
— Aqui onde?
— Aqui. Segure a minha mão. Talvez ajude.
De repente, ele tornou a surgir na minha frente e estendeu a mão. Após dois passos, ergueu a perna, pisou no vazio, virou-se e sorriu.
— Confie em mim.
Asten segurou minha outra mão e devagar subimos atrás do doutor. O lugar no qual entramos era diferente daquele do qual tínhamos saído. Continuávamos rodeados pela escuridão, mas agora o chão estava coberto por grandes pedras. A oubliette estava pregando peças na minha mente, e as sombras nos limites da luz emitida por Asten projetavam desenhos sinistros nas pedras à nossa volta. Várias vezes me virei abruptamente, pensando que os rochedos na verdade eram gigantescos crânios rindo de nós e rangendo os dentes de seixos.
O Dr. Hassan seguiu direto até onde sua bolsa estava.
— Ah, olhem ela aí.
Enquanto ele limpava o objeto, perguntei:
— Onde estamos? Como entramos aqui?
— Ainda estamos na oubliette, mas em um setor diferente. Vocês dois estavam presos em uma ilusão de ótica.
— Não estou entendendo — falei.
— Já ouviu falar na escadaria impossível?
— Já. Estudei isso na aula de artes da escola. Espere aí. Está dizendo que estamos presos em uma escadaria impossível?
— Algo desse tipo. Se tivéssemos ficado lá, teríamos passado a eternidade andando em círculos.
— Existem muitas escadas assim no Egito? — perguntei. — Foi assim que o senhor descobriu?
— Não exatamente. — O Dr. Hassan pareceu pouco à vontade. — Ah! — exclamou ele. — Ali está. Já estou sentindo o calor do corpo de Ahmose. Ele está bem ali.
— Mas e os vasos canópicos dele?
O Dr. Hassan sorriu.
— Se ninguém tiver aberto as tampas, deve estar tudo bem.
— Mas...
— Afaste-se.
Com delicadeza, Asten me empurrou para longe do Dr. Hassan antes de eu conseguir terminar a pergunta. Levantou os braços e a tampa do sarcófago se ergueu no ar.
Assim como nós, o sarcófago estava imundo, coberto de terra e lama. Mesmo assim, pequenos pontos de madeira encerada ainda eram visíveis. Depois que a tampa caiu no chão e Asten confirmou que o corpo lá dentro era de fato o de seu amado irmão, começou a entoar um cântico.
O Dr. Hassan se ajoelhou ao pé do sarcófago, pegou na bolsa uma garrafa d’água cheia pela metade e um pacote esmigalhado de biscoitos salgados e os dispôs sobre uma pedra. Então me dirigiu um sorriso encabulado.
— Sei que não é necessário, mas sou um homem de tradições.
— Tenho certeza que ele vai gostar — sussurrei, oferecendo-lhe um leve sorriso.
Ficamos sentados em silêncio, vendo Asten entoar seu encantamento. Agora que eu sabia o que esperar, a ideia de ressuscitar uma múmia não me assustava tanto quanto da primeira vez. Asten murmurou:

A lua não enche nem míngua. A lua é fria como a morte.
Como você, irmão.
Ahmose, personificação da lua,
Está na hora do renascimento. Da renovação. Da recriação.
Sem você, a lua fica eclipsada. Os raios do sol não têm espelho.
O reino celestial precisa da sua glória resplandecente.
Venha, irmão. Pegue seu machado e sua maça.
Junte-se a mim outra vez em nosso destino comum.
Chegou a hora de cumprir nosso objetivo.
Meus inimigos serão os seus inimigos.
Meus aliados serão os seus aliados.
Juntos poremos ordem no caos
E fortaleceremos os laços que sustentam o universo.
Quando eu vivo, você também vive, pois com você compartilho minha existência.
Quando eu respiro, você também respira, pois com você compartilho o ar.
Sou Asten, guardião das estrelas.

Ele fez uma breve pausa e olhou para mim e para o Dr. Hassan.

Com o Olho de Hórus nós o procuramos.
Você vaga pela escuridão, desorientado e perdido,
Mas nós vamos iluminar seu caminho.

Pensei que os olhos de Asten fossem acender um caminho parecido com o que Amon havia acendido, mas em vez disso fomos rodeados por uma névoa repleta de faíscas de eletricidade, que estalava e zumbia feito uma lâmpada fluorescente prestes a queimar; uma hora a luz ficava bem forte, na outra escurecia. O Dr. Hassan grunhiu.
— O que houve? — perguntei, virando-me na sua direção.
Ele me dispensou com um aceno, mas suas mãos tremiam quando ele abaixou a cabeça, apoiando-a nelas, e começou a se balançar para a frente e para trás.
— Asten? — exclamei. — Tem alguma coisa errada.
— Preciso me concentrar, Lily. Hassan vai ficar bem.

Seu corpo é pó, desintegrado pelo vento,
Mas o vento me obedece, e o pó escuta.
Eu o chamo da terra dos mortos.
Venha, Ahmose! Atenda ao meu chamado.
Volte à forma do homem que foi outrora.
Eu invoco os quatro ventos para me dar poder,
E por meio deles lhe instilo o hálito da vida...

Mais uma vez, ruídos de uma respiração pesada nos rodearam. O Dr. Hassan levantou a cabeça.
— Você tem que abrir os vasos canópicos, Lily — disse ele. — Tem um escondido em cada canto do sarcófago. Encontre o botão que fica no fundo de cada canto e aperte. Isso vai abrir a caixa forrada e revelar o vaso que está lá dentro. Rápido!
O primeiro vento me atingiu bem na cara. Levantei-me, avancei contra ele e espiei dentro do sarcófago, onde tive uma visão bem de perto dos restos mortais de Ahmose. Como no caso de Asten, pedaços de ataduras esfarrapadas pareciam aderir às cascas ocas que eram seus braços e pernas, mas o corpo de Ahmose estava muito mais decomposto e danificado.
O segundo vento bateu e me arremessou com força contra o sarcófago. O corpo lá dentro não descansava na posição de repouso que certamente fora prevista para ele. Ossos quebrados estavam espalhados por toda parte, provável resultado da queda do caixão pela areia movediça. O sarcófago já tinha visto dias melhores. Uma grossa camada de lama e detritos cobria tanto a parte interna quanto a externa.
Rezei para os vasos não estarem quebrados. Seria um milagre se não estivessem, e precisávamos muito de um milagre. Já era difícil demais ter Amon ligado aos meus órgãos. Aquele nível de intimidade era demais para se ter com um semideus egípcio, quanto mais com dois.
Engoli em seco e senti o terceiro vento me empurrar. Era como tentar ficar em pé no meio de um furacão. Segurei-me no sarcófago para manter o equilíbrio; os cabelos fustigavam meu rosto e o pescoço, fazendo-os arder.
Na expectativa de que os ossos fossem se erguer no ar a qualquer momento, apressei-me em cumprir minha tarefa e não demorei para encontrar o botão. Apertei-o, e um painel de madeira se destacou. Escondido atrás deste, dentro de um nicho muito bem forrado, estava o primeiro jarro. Felizmente, era feito de pedra e estava inteiro, o que me deixou otimista em relação à possibilidade de encontrar os outros também intactos.
— Tem o rosto do faraó pintado neste aqui! Faz diferença qual deles eu abro primeiro? — gritei.
— Abra e pronto. Depressa! — berrou o Dr. Hassan antes de trincar os dentes de dor e cerrar as mãos trêmulas.
Algo com certeza estava errado, e eu sabia que devia ser mais do que a simples força do vento. Ele parecia estar tendo uma convulsão, mas, quando andei na sua direção, balançou a cabeça com veemência em uma negativa.
Tomando um pouco menos de cuidado com o jarro do que deveria, arranquei a tampa e nem sequer parei para observar a luz branca que saiu lá de dentro antes de começar a procurar outro.
O acesso ao segundo canto estava bloqueado pelos pés enfaixados da múmia, cujas pernas não estavam mais presas ao quadril. Com os dedos tremendo, empurrei de lado um dos pés expostos, encontrei o botão e peguei o vaso canópico. A luz branca que saiu dele foi se juntar à primeira e ambas ficaram rodopiando no ar logo acima de mim.
Encontrar o terceiro vaso foi complicado, pois ele não estava guardado no canto em que deveria. Vasculhei o espaço vazio e estiquei a mão até onde consegui alcançar, mas nada encontrei. Desesperada, ergui os olhos e reparei em algo cinza por baixo das ataduras que cobriam o tronco da múmia.
Engoli em seco, retesei o corpo e afastei algumas das ataduras. O vaso estava aninhado no espaço vazio onde antes ficava parte da caixa torácica da múmia.
O quarto vaso canópico foi o mais difícil de alcançar. O último canto do sarcófago estava tomado por uma pilha de ossos, no meio da qual o crânio se destacava.
Minhas mãos tremiam quando as enfiei no meio do bolo de lama, roupas e ossos que ocupava aquele espaço. Mudei os pedaços de posição do modo mais respeitoso e rápido que fui capaz, deixando o crânio por último.
As órbitas vazias dos olhos de Ahmose pareciam me observar enquanto eu trabalhava. Com um pedido rápido de desculpas, peguei seu crânio, pus ao lado do fêmur, encontrei o último botão e arranquei do nicho o quarto vaso. Como minhas mãos escorregavam por causa da lama e dos restos fossilizados que haviam sobrado de Ahmose, precisei de várias tentativas, mas por fim consegui tirar a tampa, e a luz branca que havia lá dentro se ergueu e começou a rodopiar acima de nós.
Depois de limpar as mãos na borda do sarcófago e desejar, não pela primeira vez, ter uma mala inteira cheia de lenços umedecidos, tornei a me juntar ao Dr. Hassan e meneei a cabeça para Asten.
Aos poucos, como se lutassem contra uma força tremenda, pequenos fragmentos do corpo de Ahmose, até os ossinhos mais diminutos, começaram a se erguer da pilha de restos dentro do sarcófago e a se agitar em círculos no ar. Logo foram seguidos por ossos maiores. Estavam quase todos limpos e livraram-se com facilidade dos pedaços remanescentes de atadura. O corpo inteiro de Ahmose parecia girar dentro de um liquidificador.

Grou – dê asas ao seu espírito
E facilite sua passagem.

A névoa carregada de eletricidade inchou e se tornou cinza e revolta. Minúsculos raios irromperam no meio das nuvens até uma violenta tempestade se desencadear e as nuvens explodirem, deixando em seu rastro apenas um pontinho de luz branca. A luz se moveu, passeando sem rumo pelos espaços escuros que a luz de Asten não conseguia alcançar.
— Não, irmão. Você tem que voltar para mim! — gritou Asten.
A personificação das estrelas ergueu as mãos e acenou para chamar a luz. Perto dele, o Dr. Hassan tremia, e aproximei meu corpo um pouco mais do seu para oferecer ajuda, mas ele não parecia consciente da minha presença. Após alguns instantes, Asten, que exibia uma expressão preocupada, deu um suspiro de alívio quando a pequena semente de luz por fim voltou e começou a inchar até assumir a forma de um pássaro prateado.
A criatura prateada, mais parecida com o íbis estrelado de Asten do que com o falcão dourado de Amon, começou a voar em círculos ao redor de Asten.
— Venha, irmão. Chegou a hora.
Com um grito retumbante, a ave planou até o sarcófago, onde as quatro luzes dos jarros se fundiram com ela. O animal foi logo cercado pelo redemoinho e acabou se desintegrando com uma explosão de luz prateada que foi absorvida pelas órbitas vazias do crânio da múmia.
A forma humana foi se montando feito um quebra-cabeça. Braços se uniram aos ombros, pernas ao quadril. As vértebras se encaixaram nos lugares certos. A mão direita tremeu várias vezes e então escutei um súbito estalo de madeira quando dois ossos dos dedos, antes bem presos à lateral quebrada do sarcófago, se ergueram no ar e encaixaram no lugar.
Raios brilhantes desceram pelos braços e pernas do esqueleto flutuante e a criatura, que poderia muito bem ter passado por um enfeite de Halloween ou decoração de consultório médico, começou a se contorcer. Veias recém-formadas se encheram de um sangue que parecia mercúrio, e músculos lustrosos se formaram sobre ossos reluzentes ao mesmo tempo que um coração começava a bater. Uma luz irrompeu das órbitas em dois fachos que caíram sobre mim, depois sobre o Dr. Hassan, e perguntei-me se o irmão de Asten já conseguia ver antes mesmo de os olhos voltarem a se materializar.
Asten concluiu o encantamento:

Quando você atravessar esse último portal da morte,
Gritos de alegria irão recebê-lo,
Banquetes lhe darão as boas-vindas,
Seu coração tornará a bater,
Seus membros tornarão a saltar,
Sua voz será ouvida outra vez.
Tudo o que foi perdido retornará.
Venha, Ahmose, e cumpra o seu destino!

Protegi os olhos até a luz diminuir, satisfeita por não ter desmaiado dessa vez. O irmão de Asten pairava acima de nós, resplandecente e luminoso. O saiote que usava era imaculado como se houvesse acabado de ser fabricado, e o corpo, limpo e radiante como o de um recém-nascido, deixou envergonhados todos nós, cobertos de sujeira como estávamos.
Aos poucos, ele baixou os braços e desceu até o chão ao lado do sarcófago. Dirigiu-se em voz baixa a Asten, em seguida se aproximou de mim e do Dr. Hassan. No início, pensei que o Dr. Hassan tivesse caído no chão outra vez em sinal de deferência ao deus da lua, mas quando olhei mais de perto constatei que ele estava inconsciente.
Preocupado, Ahmose se ajoelhou e virou o Dr. Hassan de costas. Perguntou-me alguma coisa, mas foi em egípcio. Tentei explicar que não estava entendendo, mas ele sorriu com gentileza e chegou mais perto do Dr. Hassan. Assim como Asten e Amon, Ahmose havia despertado nu a não ser pelo saiote branco. Da mesma forma que os irmãos, era muito bonito, só que mais corpulento, e tinha os ombros e braços revestidos por uma forte musculatura.
Ahmose começou a lançar um encantamento sobre o Dr. Hassan. Quando passei para o outro lado do egiptólogo e segurei sua mão, não pude evitar estudar aquele terceiro irmão.
Era fácil ver por que motivo aquele semideus preferia o machado ao arco e flecha. Apesar disso, ele tratou o egiptólogo com todo o cuidado; os grossos dedos lhe apertaram os ombros de modo muito suave. Não era algo que eu esperasse de um homem daquele tamanho.
Ao concluir o encantamento, os olhos de Ahmose encontraram os meus novamente e me senti capturada naquele olhar cinza-prateado. O Dr. Hassan se recobrou e se levantou para falar com os dois irmãos por alguns instantes antes de aceitar a água mineral que lhe ofereci. Eu havia planejado cumprimentar Ahmose com um aperto de mão ao me erguer, mas mudei de ideia ao constatar quanto estava suja.
— Bom, seja bem-vindo ao mundo — falei. — Meu nome é Lily.
Ahmose inclinou a cabeça para mim e estreitou os olhos cinzentos, em seguida olhou para o irmão, que lhe disse algo em egípcio. Ahmose assentiu e disse algo parecido com “Ah” antes de murmurar um curto encantamento.
— Eu sou Ahmose, personificação da lua — anunciou, com um sorriso caloroso.
— Muito prazer, Ahmose. O homem que você ajudou é o seu vizir, doutor Hassan.
— O prazer é todo meu. Em conhecer os dois — observou ele, educado.
— Sim... Então, Asten, temos algo mais a fazer, ou podemos ir andando? Estou preocupada com Amon — expliquei, enquanto o terceiro irmão me observava com um olhar perscrutador.
— Sim. — Ele olhou em volta. — Onde está Amon?
— Precisamos encontrá-lo depressa. Neste exato momento, ele está nas garras do assecla do Obscuro. Temo que nos reste pouco tempo — explicou Asten.
— Então vamos resgatá-lo, irmão.
Ahmose deu uns tapinhas no ombro de Asten.
Nós três tínhamos acabado de nos virar para o Dr. Hassan, que explicava sua ideia de como sair da oubliette, quando de repente os dois irmãos deram um grito e caíram de joelhos no chão. A última coisa que vi antes de a luz de Asten se apagar foi os dois protegendo os próprios olhos com as mãos em concha e o sangue escorrendo por entre seus dedos.

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