21 de outubro de 2016

18. Templo do Crocodilo

Senti o estômago se contrair quando fechei os olhos e me agarrei ao pescoço comprido de Asten. No meio do árido vale desértico havia um pontinho marrom que eu não podia distinguir, e perguntei-me se seria um animal que tinha morrido ao sol ou uma planta nascida no meio do nada. No fim das contas, não era nem uma coisa nem outra.
O imenso íbis se inclinou e levantou as asas para diminuir o ritmo da descida, em seguida passou a batê-las depressa até pousar na areia próximo ao objeto. Asten se virou e se abaixou para eu poder descer. Quando me afastei, cambaleante, ficou todo branco e brilhante, então explodiu e se materializou em sua forma humana. Instantes depois, o falcão dourado aterrissou ali perto e também mudou de forma.
— Lily — disse Amon, aproximando-se. — Obrigado por cuidar dela — acrescentou, segurando o braço de Asten.
— Foi um privilégio. Mesmo.
Asten piscou para mim, então se afastou pela areia junto com o Dr. Hassan.
Amon deslizou as mãos quentes pelos meus ombros, passando a ponta dos dedos delicadamente pelo braço enfaixado.
— Ainda está doendo?
— Sim. Mas não tanto quanto teria doído uma mordida de verme.
— Nem brinque com essas coisas. — Amon tinha o semblante sério. — Aquele verme poderia tê-la matado, e meu poder não teria bastado para impedir isso.
— Mas eu estou bem. Seu irmão me tirou de lá a tempo. Usou sua magia das estrelas, ou sei lá o quê.
Sem dizer nada, Amon tocou meu pescoço, e entendi que estava tentando avaliar meus ferimentos. Afastei a mão dele com um gesto suave mas decidido.
— Ei. Quero que você pare de se preocupar tanto comigo. Garanto que, se estivesse mesmo tão perto assim da morte, eu saberia. Precisamos que você se concentre mais nessa cerimônia, não acha? A lua está quase cheia. Não nos resta muito tempo.
Amon contraiu o maxilar, como se não dizer nada lhe exigisse um esforço monumental, e aquiesceu. Começamos a andar até onde estavam Asten e o Dr. Hassan, mas, quando minha perna ardeu por causa da mordida e arquejei, Amon me pegou no colo e me carregou, aquecendo meu corpo com seu poder. Eu sabia que ele não podia desperdiçar nenhuma parcela da energia que lhe restava e estava planejando protestar quando ele murmurou no meu ouvido:
— Nem pense em me contrariar nisso, Nehabet. Pelo menos me deixe fazer o que puder por você.
Lembrei-me da sua tendência a se culpar e a sentir necessidade de me ajudar, então me recostei e aproveitei sua proximidade, pensando que retribuiria o favor mais tarde.
O sol forte bem acima de nossas cabeças revigorou Amon e sua pele absorveu a luz. Enquanto olhava para seu belo rosto humano, pensei em quanto fora boba por ter tanto medo de me apaixonar por uma múmia.
Amon não podia fazer nada em relação ao que era. Não tinha pedido para ser um herói do Egito, muito menos que o próprio corpo passasse séculos apodrecendo. Ele era apenas um homem envolvido em um jogo celeste: um poderoso peão que os deuses movimentavam no tabuleiro e sacrificavam em nome de seus próprios objetivos.
Decidi que tentaria encontrar um jeito de tirar Amon e seus irmãos daquela situação. Primeiro, porém, precisávamos resgatar o terceiro irmão. De tão entretida com meus pensamentos, nem sequer me dei conta de que os outros estavam parados em círculo, calados, olhando para alguma coisa no chão.
— O que foi? — Virei-me para ver o que os havia deixado tão boquiabertos. Amon me acomodou no colo e se virou para que eu pudesse olhar melhor. O que vi me fez soltar um arquejo trêmulo. Deitado na areia à nossa frente, havia um homem. Queimado, ferido e sangrando, com um dos olhos arrancado, braços e pernas quebrados, ossos expostos em vários pontos, ainda assim ele respirava.
— Mestre?
O homem tossiu, e o sangue que ele cuspiu se coagulou, formando caroços na areia quente. Amon fez menção de me entregar a Asten, mas contorci-me o suficiente para fazê-lo mudar de ideia e me pôr no chão. Ele então se agachou e tocou o ombro do homem.
— Estou aqui. Anúbis o mandou — disse Amon. Não era uma pergunta, e sim uma afirmação. O homem assentiu com a cabeça. — O que houve com você? — indagou Amon, e nessa hora reconheci a forma toda machucada.
Era o shabti mais alto que fora despachado para procurar o deus da lua.
Pelo visto, ao menos ele havia sido fiel. Abaixei-me ao lado de Amon, estendendo a perna machucada junto à do homem.
— Foi... — ele engoliu em seco dolorosamente, e senti uma pontada no coração ao ver que vários de seus dentes também tinham sido quebrados — ... foi o Obscuro.
— Ele o encontrou e o machucou? Torturou você para obter informações?
shabti fez que não com a cabeça, e até mesmo esse leve movimento o fez gemer de dor.
— Ele não queria infor... — ele emitiu um chiado — ... informações.
— Então o que ele queria? — indagou Asten, a empatia dando cor ao seu rosto.
— Impedir a cerimônia e mandar um re... recado para vocês.
Tremores percorreram seu corpo, e ele começou a entrar em convulsão. Amon ergueu os olhos para o irmão, que aquiesceu, ergueu as mãos e começou a falar em egípcio e a lançar um encantamento no shabti. Não entendi o que Asten fez, mas pelo visto deu certo. Os tremores cessaram, e o único olho que restava ao homem clareou um pouco.
— Que recado? — perguntou Amon com voz branda.
O rosto do criado se acendeu com uma expressão fervorosa e ele arquejou quando um poder invisível levantou seu tronco. Os braços quebrados pendiam ao lado do corpo, e seu olho se revirou na órbita até que tudo o que consegui ver foi um globo branco reluzente posicionado ao lado da outra órbita vazia.
Com uma voz sibilante muito diferente da sua, palavras começaram a sair da boca do shabti, e levei alguns instantes para compreendê-las:

Vocês vieram aqui em busca do poder da lua,
Mas ele foi escondido dentro de uma nuvem escura e seu poder foi derrotado.
Vocês que o pranteiam serão lançados em um fogo que a tudo devora,
Onde chorarão e morderão os próprios dedos,
Pois não conseguirão deter a maré de escuridão.
Esta já se agita à sua volta, fustigando-os, dilacerando-os.
As moscas se multiplicam e os vermes arrancam a pele de seus ossos.
Mas ele pode ser libertado dessa prisão de podridão.
O preço? É pequeno. Um nada. Uma irrelevância.
Tudo o que busco é um olho.
Mas nenhum olho normal bastará para libertar alguém tão importante.
O pagamento exigido é o Olho de Hórus.
Ele será engolido inteiro, devorado por monstros famintos.
Somente então vocês poderão se reunir a seu irmão perdido
No reino dos mortos.
Se não vierem buscá-lo,
Eu me vingarei com um dilúvio infernal.
Escurecerei a glória do sol.
Arrancarei da lua lágrimas de sangue,
E sacudirei os alicerces do cosmos
Até a última estrela do firmamento cair,
E a humanidade irá minguar até virar um nada absoluto.

A cabeça do shabti tombou para trás e pendeu, inerte, quando ele se calou. Lentamente, seu corpo desabou na areia, que se espalhou sobre ele como se o estivesse enterrando vivo. Em pouco tempo, apenas a cabeça era visível, e a areia em cima dele se solidificou até formar uma estrutura muito intrincada semelhante a uma antiga construção egípcia.
Horrorizada, levei as duas mãos à boca.
— Isso sig... Ele quis dizer que está com Ahmose e quer trocá-lo pelo... pelo olho de Amon?
Eu arfava, mal conseguindo pronunciar as palavras.
Encarar a órbita vazia onde antes ficava o olho do shabti me deixou enjoada, sobretudo quando imaginei a dor de perder Amon. Aquilo não podia acontecer com ele. Simplesmente não podia.
Amon e Asten não responderam e, quando olhei para o Dr. Hassan, este tirou o chapéu e abaixou a cabeça. Aquilo não era nada bom. Torci para ter entendido mal, para que algo tivesse se perdido na tradução. Torci para que Amon não estivesse considerando trocar seu olho pelo irmão.
Amon e Asten passaram alguns instantes estudando a estrutura em cima do shabti, em seguida trocaram um olhar demorado. O deus do sol se ajoelhou junto à cabeça do criado moribundo e passou a mão pelo rosto do homem.
— Você me ajudou muito — murmurou Amon. — Eu o liberto de sua servidão. Que seu serviço leal lhe proporcione uma vida abençoada após a morte.
Com um profundo suspiro, a força vital do homem lhe escapou pela boca e pairou no ar por uns poucos segundos antes de implodir e desaparecer com um clarão de luz.
O corpo que repousava sob a areia estremeceu. Finos raios de luz dourada começaram a se agitar à sua volta em um redemoinho, e então a forma do shabti murchou, destruindo a estrutura de areia. Amon afundou a mão no monte de areia e tateou até encontrar o que procurava. Bem devagar, removeu da areia a estatueta de pedra que representava o shabti e a entregou ao Dr. Hassan, que a limpou com uma expressão séria e a guardou na mochila.
— Vamos para o templo, então? — indagou o Dr. Hassan após fechar a mochila.
Asten assentiu.
— A estrutura continua de pé?
— Sim. Embora esteja se desintegrando aos poucos.
— Como todos nós — retrucou Amon com gravidade.
Ele e Asten puxaram o Dr. Hassan de lado e os três se afastaram alguns metros até eu não conseguir mais distinguir o que estavam dizendo, sobretudo porque falavam em egípcio. Fiquei irritada por estar sendo excluída. Quando terminaram de confabular, Amon perguntou:
— Doutor Hassan, o senhor poderia fazer a gentileza de acompanhar Lily até um pouco mais adiante no vale? Asten e eu precisamos conversar a sós.
— Mas é claro.
Amon me enlaçou pela cintura e me ajudou a levantar.
— E quem sabe também cuidar dos ferimentos dela? — acrescentou ele enquanto o Dr. Hassan passava um braço pelos meus ombros.
— Esperem aí. — Virei-me de volta para Amon. — Não estou entendendo. Que construção era aquela na areia? Vocês não estão planejando fazer nada drástico, estão?
Amon me dirigiu um olhar demorado e triste antes de se virar para o irmão. Obediente, o Dr. Hassan me conduziu para longe, em seguida se agachou para examinar minhas ataduras.
— Vamos precisar trocar esses curativos. Não quer se sentar, querida?
Ele me segurou pela mão e me estabilizou enquanto eu saltitava até um rochedo grande e me sentava. Entreguei-lhe o rolo de atadura que ele trouxera e comecei a fazer perguntas sobre o que estava acontecendo. O doutor parecia relutante em compartilhar informações e não parava de olhar para trás na direção dos dois homens a uma boa distância de nós.
— Acho que vamos para o templo de Kom Ombo, o Templo do Crocodilo.
— Foi lá que eles pegaram Ahmose?
— Se o mensageiro tiver dito a verdade, e acredito que ele tenha dito.
— Como o senhor sabe?
— Porque esta região do país nem sempre foi a terra devastada que você está vendo agora. Quando escondi Ahmose aqui, havia um oásis parecido com aquele onde escondi Asten. Ele foi enterrado no tronco oco da árvore mais alta, e também era protegido por criaturas imortais. O toque do Obscuro...
— Traz a morte? — Engoli em seco.
— Não. — O Dr. Hassan balançou a cabeça enquanto prendia meu novo curativo. — O que ele traz é muito pior do que a morte.
— Como é possível algo ser pior do que a morte?
O Dr. Hassan olhou sem piscar por cima do meu ombro por um momento. Seus olhos adquiriram um brilho vítreo enquanto ele parecia ponderar minha pergunta.
— Ah — disse ele então, como se alguém houvesse soprado a resposta no seu ouvido. Por fim, concentrou-se no meu rosto e sorriu. — Sabe, mesmo na morte existe a lembrança de uma vida vivida. A pessoa ou o animal que morre continua a alimentar a terra, e as gerações são influenciadas pelas vidas de seus ancestrais. O que Seth faz é mais do que a simples destruição. Ele descria.
— Descria?
— Desfaz. Ele destrói todos os aspectos da vida até não sobrar mais nada... — o Dr. Hassan enterrou os dedos na areia e a deixou escorrer por entre eles — ... só a terra estéril. Até mesmo as pegadas dos que nos precederam são apagadas. Foi isso que ele quis fazer com Ahmose, Asten e Amon séculos atrás. Ele queria mais do que um simples sacrifício; queria descriá-los. Teria sido como se os três jamais houvessem existido, e todas as coisas boas que aconteceram por causa deles, todas as vidas que eles influenciaram, tudo isso seria apagado. Seu povo teria sido obrigado a suportar um sofrimento terrível, e a descriação teria enfraquecido os deuses a ponto de subjugá-los.
— Seth é capaz disso?
— Ah, é sim. Derrotar o mal é espalhar a luz da bondade, entende? É isso que dá aos deuses sua força. Ao criar algo bom, como quando Seth usou seu poder para curar a Terra e abençoar o povo do Egito, ele atingiu um determinado nível de poder.
— Pelo fato de o povo o venerar?
— Em parte, mas não é tão simples. A veneração do povo serviu para tranquilizar os outros deuses, colegas de Seth. Ele enganou a todos, mortais e imortais, e parecia estar servindo à humanidade quando na verdade a estava preparando para uma queda terrível. O poder que ele conquistou na criação e no serviço à humanidade era apenas uma fração do que ele teria obtido ao descriá-la. Mas descriar exige tempo, e é muito mais fácil descriar alguém que já morreu do que uma pessoa viva. Foi por isso que Seth pediu ao seu fiel sacerdote que sacrificasse os irmãos.
— Quer dizer que quando ele tentou matar Osíris estava tentando descriá-lo?
— Muito bem, Lily. É isso mesmo. No entanto, antes de Seth conseguir terminar o trabalho, Ísis encontrou o corpo do marido e ela e Anúbis o recriaram. Infelizmente, ficaram faltando algumas partes e Osíris não pôde mais viver sobre a Terra.
— E é por isso que ele hoje vive no mundo dos mortos.
— Sim. Por sorte, a duplicidade de Seth em relação a Amon e seus irmãos foi descoberta a tempo e seus planos foram frustrados antes de ele conseguir terminar o que havia começado. Como sabia que Seth continuaria a tentar descriar os três príncipes, uma vez que investira tanta energia neles, Anúbis tirou-os da equação transformando-os em servos do Egito e lhes atribuindo os poderes celestiais dos deuses. Enquanto eles mantiverem seu poder, Seth não poderá destruí-los para conseguir o que quer.
— Nesse caso, por que Seth não pode simplesmente descriar outras pessoas? Como eu, o senhor ou o pai de Amon, por exemplo? Isso não lhe daria poder?
— Em teoria, sim, mas os deuses seriam alertados e interviriam. No caso do nascimento de Amon, Asten e Ahmose, como foi Seth quem os fez nascer, o único deus capaz de ouvir e reagir ao perigo seria ele próprio. Destruir as próprias criações tem por resultado uma injeção de poder tão forte que não se pode negar nada ao imortal que conseguir isso. Entretanto, tem um preço terrível.
— Se ele não foi avisado, como Anúbis soube que precisava vir ajudar?
— O povo fez preces tão sinceras e demonstrou tanta preocupação com seus amados príncipes, sobretudo as mães dos rapazes, que os deuses não puderam ignorar suas súplicas fiéis.
Nossa conversa foi interrompida quando Asten e Amon se aproximaram. Asten franziu o cenho para o Dr. Hassan e o encarou com um olhar cheio de significado. Embora nenhuma palavra tenha sido trocada, o doutor fez uma careta como se tivesse acabado de ser repreendido e então meneou a cabeça, respeitosamente. Perguntei-me se os dois irmãos estariam zangados com ele por me revelar coisas de mais.
Na minha concepção, eu tinha o direito de saber, de modo que segurei a mão do Dr. Hassan e lhe dei alguns tapinhas tranquilizadores.
— Nós decidimos procurar o templo — declarou Asten. — É vital localizarmos nosso irmão.
Amon tinha a cabeça baixa e parecia estar com dificuldade para focar o olhar. Fechei os olhos e tentei captar o que ele estava sentindo, mas foi como se eu estivesse isolada por um muro de pedra e, por mais que subisse ou andasse, não conseguia transpô-lo nem contorná-lo.
— Amon?
— Vai ficar tudo bem, jovem Lily — sussurrou ele, a voz sem entonação. — Você precisa confiar na orientação de Asten.
— Pode parar! — esbravejei, pondo-me de pé, sem conseguir mais me controlar. O esforço para ficar ereta enfraqueceu um pouco minha justificada indignação, mas mesmo assim insisti e dei um cutucão no peito de Amon com o dedo. — Não pude deixar de notar que vocês estão praticamente me ignorando e tomando decisões drásticas sem qualquer preocupação com o que penso a respeito — protestei, sem parar de cutucá-lo. — Como você sabe, tenho tanto interesse no desfecho desta aventura quanto vocês, então tenho o direito de saber... o que está... acontecendo — declarei, pontuando a última frase com três derradeiros cutucões.
Em toda a minha vida, eu nunca havia expressado o desejo de participar, de tomar minhas decisões. Aquilo me deu certo orgulho. Duvidava que fosse ter a mesma força para me impor de modo semelhante diante dos meus pais, mas fazer isso com Amon e o irmão já era um passo enorme.
Amon envolveu minhas mãos com as suas e apertou-as levemente.
— Eu sinto muito, Lily. Não era minha intenção deixá-la de fora. Eu só quero proteger você.
Ele parecia muito cansado; sua pele estava fria. O sol que seu corpo irradiava não o aquecia mais como antes de encontrarmos o shabti agonizante.
— Eu entendo — respondi, em tom mais brando. — Entendo mesmo. Mas eu sou mais forte do que você pensa. Pode me dizer a verdade. Juro que não vou sair correndo.
Asten nos observava com um fascínio evidente, enquanto o Dr. Hassan parecia constrangido por estar testemunhando nosso diálogo. Por alguns instantes, perguntei-me se Amon iria responder, mas então ele ergueu os olhos e levantou a mão para ajeitar uma mecha de cabelos atrás da minha orelha.
— Muito bem — falou, com um suspiro. — Mas saiba que o que precisa ser feito será. Vou deixar todas as explicações a cargo de Asten.
Depois de apertar minha mão uma última vez, ele se afastou de lado e disse algumas palavras em egípcio para o Dr. Hassan. Em seguida entoou um encantamento para invocar o falcão dourado. A grande ave aguardou em silêncio enquanto Asten nos dava algumas breves instruções.
— Vocês dois vão voar comigo — disse ele. — Amon agora está fraco demais para carregar alguém. Quanto à questão de lhe falar sobre o nosso plano, darei informações no caminho.
Olhei para o pássaro dourado. Ela estava imóvel, letárgico, e me perguntei se Amon teria energia ao menos para levantar voo. Ele estava se recusando a usar minhas reservas, e estava se matando aos poucos para me salvar. Eu não iria permitir isso, não com ele prestes a enfrentar um poderoso sacerdote do mal e necromante, se não o deus do caos em pessoa.
Asten se transformou no íbis estrelado e o Dr. Hassan e eu o montamos, eu na frente. Com uma corrida cheia de solavancos e batendo as asas poderosamente, a ave levantou voo, e o falcão dourado a seguiu. Ok, pode ir desembuchando, pensei.
Desembuchando o quê?
— Pode falar. Me diga o que está acontecendo — falei em voz alta.
— Talvez eu possa explicar... — sugeriu educadamente o Dr. Hassan.
Pode, respondeu o íbis. Mas lembre-se dos limites desta vez.
— Sim, Magnífico.
— Que limites? — eu quis saber.
— Os irmãos querem que eu preste atenção na informação que compartilhar. Algumas das coisas que eu... descobri... não me pertencem, e não tenho o direito de falar sobre elas — respondeu o Dr. Hassan com simplicidade. — O que posso lhe dizer é o seguinte: no caminho para cá, Amon compartilhou comigo o que estava pensando, e juntos chegamos à conclusão de que ainda há tempo. Nem todos os sinais do despertar do Obscuro estão presentes.
— Como assim?
— O que estou querendo dizer é que nós acreditamos que o caos com o qual deparamos tem outra origem que não Seth. Se conseguirmos despertar Ahmose e os três irmãos puderem concluir a cerimônia, será tarde demais para Seth despertar, e ele e o seu poder, por maior que possa parecer agora, permanecerão adormecidos por mais mil anos.
— Isso significa então que nós não vamos trocar o olho especial de Amon por Ahmose?
O Dr. Hassan fez uma brevíssima pausa antes de responder:
— Não... não vamos.
— Bem melhor. Qual é o plano, então?
O doutor gaguejou ao responder.
— B-b-bom... sabe...
Amon vai distrair o sacerdote de Seth enquanto nós três localizamos Ahmose, interveio Asten.
— Mas e se ele se machucar?
Houve uma pausa demorada. Enquanto Amon tiver o Olho de Hórus, não pode ser derrotadodisse o íbis estrelado em tom casual.
Aguardei um pouco antes de responder:
— Então você jura que faremos tudo o que estiver em nosso poder para tirá-lo de lá o mais rápido possível?
Essa promessa é fácil de cumprir. A ideia de deixar meu irmão nas garras de um sacerdote demoníaco não me agrada nem um pouco.
— Ótimo. Contanto que estejamos na mesma frequência.
— O que ela quer dizer é... — intrometeu-se o Dr. Hassan.
O íbis o interrompeu: Eu entendi o significado geral. Amon tem sorte por ter uma devota leal como você, disse Asten.
Asten e o Dr. Hassan passaram o resto do voo conversando sobre o Egito antigo. Enquanto eu escutava, o calor do dia pulsando no meu corpo, percebi quanto estava exausta. O fato de não comer desde a noite anterior certamente não ajudava, mas, por estranho que parecesse, eu estava sem apetite.
Sentia os olhos ressecados e pegajosos, coisa que o vento só fazia piorar. Por sorte o Dr. Hassan estava comigo, pois peguei em um sono tão profundo que soltei o pescoço de Asten. Horas devem ter se passado enquanto eu dormia, pois ao abrir os olhos deparei com um poente laranja e dourado.
Acordei com o Dr. Hassan me segurando firme. Ele deve ter visto que eu estava ficando queimada de sol, pois pusera seu amado chapéu em minha cabeça. Constrangida, agradeci-lhe por ter me impedido de cair.
Amon vai se separar de nós agora, informou Asten. Quer que eu dê algum recado para ele?
Vi o falcão dourado gigante passar voando bem rápido por nós em direção a um grupo de dunas altas na outra margem do Nilo, enquanto nós continuávamos a seguir para o sul.
— Diga a ele que eu... — Mais uma vez evitei expressar o que realmente queria dizer. — Diga a Amon que espero tornar a vê-lo. E em breve.
Alguns instantes depois, Asten me transmitiu a resposta de Amon. Ele disse que o seu maior desejo é vê-la novamente também, e que vai fazer de tudo para garantir que isso aconteça.
As penas de Asten, que reluziam com a luz das estrelas, se apagaram quando sobrevoamos uma cidade.
— O senhor acha que o radar da cidade pode nos ver? — perguntei ao Dr. Hassan. — Imagino que, se conseguissem nos ver, a esta altura já teriam lançado um míssil.
O que é míssil?, perguntou Asten, e o Dr. Hassan pigarreou.
— É uma arma de grande porte feita de metal que explode no impacto e destrói tudo no seu raio de alcance, que varia dependendo da potência. Nesse caso, as nossas tecnologias modernas não são aplicáveis.
— Por que não? — perguntei.
— Porque Amon e Asten não podem ser vistos pela tecnologia — disse o Dr. Hassan. — E nós somos pequenos demais para que alguém que esteja observando o céu nos ache interessantes.
Asten envolveu nós três em fumaça de vaga-lume, de modo que o fato de escolher como pista de pouso uma rua principal, com um prédio residencial de um dos lados e várias lojas do outro, não foi muito problemático.
Enquanto Asten tornava a assumir sua forma humana, o Dr. Hassan avaliou o ambiente à nossa volta.
— O templo fica mais ou menos um quilômetro e meio para o norte. Estão vendo a luz que sai dele?
— Sim — respondeu Asten. — Vamos nos aproximar discretamente, e Amon vai entrar em contato comigo assim que descobrir o paradeiro do nosso irmão. Venha, Lily. O doutor Hassan vai nos conduzir, e você ficará perto de mim. — Quando lhe lancei um olhar incerto, ele se apressou em arrematar: — Amon insistiu.
Começamos a andar os três, e eu logo fiquei para trás. Por fim, Asten parou e pôs as mãos nos meus ombros.
— Não há muito que eu possa fazer para aliviar sua dor. Não consigo curar ferimentos como Ahmose. Você por acaso me deixaria levá-la no colo?
— Está tudo bem. Eu vou conseguir — falei, teimosa, enquanto mancava, cada passo disparando pontadas de uma dor lancinante pela perna acima, até a articulação coxofemoral. Perguntei-me se o Dr. Hassan poderia ter se enganado ao dizer que o biloko não tinha veneno, pois meus braços e pernas pareciam ocos. Meu sangue corria pesado e espesso e latejava nas têmporas como se não estivesse mais circulando, e sim coagulando dentro das veias. Para completar, eu estava tonta, mas atribuí esse fato mais ao voo do que às doloridas mordidas na perna e no braço.
Ao me ver dar mais alguns passos, Asten franziu o cenho e me advertiu:
— O tempo é curto, Lily. Preciso insistir para carregá-la.
— Ok, mas eu prefiro ir nas costas.
Ele estranhou.
— Acho que você não está me entendendo. Eu posso me transformar em íbis, um pássaro. Não assumo a forma de um camelo.
Com uma risadinha mútua e uma pequena ajuda do Dr. Hassan, logo fui acomodada nas costas muito cálidas e muito nuas de Asten, com as pernas enroscadas em sua cintura e os braços em seus ombros.
— Assim vai ser bem mais rápido. Vamos, Hassan — chamou Asten, começando a trotar.
Mesmo descalço, ele atravessou pedras e areia, calçadas e cascalho sem nem hesitar. Andava depressa e só parava para reavaliar nossa direção, retomando logo o caminho. O Dr. Hassan nos seguia em silêncio. Quando paramos atrás de algumas árvores, o egiptólogo, ofegante, me ajudou a descer das costas de Asten.
— O que vamos fazer agora? — sussurrei.
— Esperar — respondeu Asten, observando com atenção a escuridão enquanto apurava os ouvidos, na expectativa de escutar a voz do irmão.
Aflita por causa de Amon, tirei o caderno da bolsa e fiz um esboço do templo para tentar matar o tempo.
O templo de Kom Ombo não era tão bem preservado quanto outros sítios arqueológicos do Egito. Ficava em cima de uma duna alta, com o Nilo a leste. Kom Ombo parecia mais um templo grego do que os templos egípcios que eu vira até então.
Várias colunas grossas sustentavam um segmento superior em ruínas, que aparentava ser um terraço, do qual apenas um pedaço do portão monumental havia sobrevivido. Cada uma das colunas estava iluminada por um suave brilho amarelo que dava ao edifício inteiro um ar mal-assombrado, sobretudo quando o vento soprava com mais intensidade e assobiava pelas rachaduras e frestas. Era quase como se os fantasmas dos sacerdotes e faraós do passado estivessem sussurrando nas sombras escuras das colunas.
O Dr. Hassan apontou para o meu desenho.
— O lado direito se chama Casa do Crocodilo, e esta metade aqui é o Castelo do Falcão.
— Pensei que aqui fosse o templo de Apófis, o deus-crocodilo.
— E é. Mas está vendo aquela linha divisória ali? — Ele apontou para o prédio. — Se você dividisse o templo em dois, ficaria com partes iguais de ambos os lados. Há duas entradas espelhadas, dois pátios internos com um altar central em cada um, dois salões hipostilos, um par de colunatas idênticas e uma capela em cada lado. Cada setor do templo era administrado por um sumo sacerdote diferente. Antigamente, o Nilo passava bem mais perto do templo. Os crocodilos, reverenciados como criaturas sagradas, ficavam tomando sol na margem, junto à entrada. Mais tarde, quando o curso do Nilo mudou, os crocodilos foram embora. Mesmo assim, havia e ainda deve haver centenas desses répteis mumificados dentro e em volta da área do templo.
— Que interessante. Mas a quem era dedicada a segunda metade do templo? — indaguei. — Tinha alguma coisa a ver com Amon? Imagino que sim, por causa do falcão.
— Não com Amon propriamente dito, mas com Hórus... um dos deuses que lhe emprestaram seu poder.
— Mas o que são...
Estava distraída quando ouvi um arquejo de Asten, e girei nos calcanhares.
— O que foi? — sibilei. — O que está acontecendo?
Asten respirou fundo e controlou a expressão em seu rosto.
— Nada além do esperado. Recolha suas coisas. Temos que procurar Ahmose. — Entre dentes, ele continuou a murmurar: — Vamos torcer para os sacrifícios não terem sido em vão e para conseguirmos encontrá-lo.
Em silêncio, entramos no templo e começamos a vasculhar as sombras das colunas e a olhar atrás de qualquer pedaço de pedra grande o suficiente para esconder o irmão de Amon.
— Amon e o assecla obscuro de Seth estão agora combatendo do outro lado do templo. Ahmose está escondido aqui. Pelo menos foi isso que ele disse a Amon.
— Você vai conseguir sentir a presença dele? — perguntei.
— Eu só consigo ouvir sua voz depois que ele for chamado do reino dos mortos. Seu corpo é igualzinho a todos esses cadáveres antigos.
Asten apontou para uma parte separada coberta por vidro transparente. Atrás do vidro viam-se crocodilos mortos e empoeirados, de comprimentos variados.
— Ah, essas são algumas das múmias de crocodilo sobre as quais falei — comentou o Dr. Hassan.
— Obrigada. Imaginei que fossem — sussurrei.
Asten tinha nos protegido com fumaça, mas não vimos nem sinal de Ahmose nem de um sarcófago em lugar nenhum da parte do templo dedicada aos crocodilos. Verificamos cada recinto, cada porta e cada pedra, mas não achamos nada a não ser as ferroadas da areia varrida pelo vento.
— Fomos enganados — murmurou Asten.
— Bem, sim. O trapaceiro jamais revela seu jogo. Venham, vamos resgatar Amon — falei, dando um passo para trás em direção ao centro do templo, mas Asten esticou o braço depressa para me deter.
— É tarde demais — sussurrou ele.
— O que você quer... — Parei de falar ao sentir o vento ficar mais forte. Uma nuvem escura de areia atravessou em um redemoinho toda a extensão do pátio aberto. — ... dizer? — gritei, ao mesmo tempo que Asten me recolhia do chão e começava a correr.
O Dr. Hassan deu a volta correndo em uma coluna grande e passou por uma porta.
— Por aqui, Magnífico! Podemos nos esconder!
Dentro do recinto escuro, colamos o corpo contra uma parede na esperança de não sermos vistos. Depois que a tempestade de areia passou, esperamos vários minutos. Ergui os olhos para Asten, e ele me abriu um sorriso de alívio.
Justamente quando pensamos que devíamos estar em segurança, um tremor sacudiu o templo. O chão de terra batida aos nossos pés afundou vários centímetros e eu cambaleei, indo de encontro a Asten, que me segurou sem dificuldade.
Havia uma pequena abertura no alto da parede à nossa frente, mas de repente me pareceu muito mais alta do que segundos antes. Levantei o dedo, apontei para lá e comecei a articular para o Dr. Hassan as palavras Tem alguma coisa errada quando senti um puxão forte nos tornozelos. Era um peso que parecia me apertar, como se uma sucuri tivesse me pegado. Olhei para baixo e não entendi quando vi meus pés enterrados na areia. Como isso aconteceu?
Eu me lembrava claramente de ver um chão de terra batida ao entrarmos. De repente, meus olhos dispararam na direção de vários objetos. Uma pedra pesada do outro lado do recinto tinha agora um terço de sua superfície enterrado na areia. As pedras soltas na base da parede tinham desaparecido por completo. E a minha bolsa, que eu havia jogado no chão ao entrar, estava enterrada até a metade.
Aquilo não fazia o menor sentido. Tentei soltar as pernas, mas só fiz afundar ainda mais. A areia agora estava na metade das minhas canelas.
— Asten? — chamei, em pânico, apertando seu braço.
— Eu sei, Lily. Era uma armadilha.
— Doutor Hassan? — chamei, girando o corpo para vê-lo.
— Estou aqui — respondeu ele com voz débil.
Estava afundado até o meio das coxas.
Virei-me para a parede e me debati, tentando me segurar, procurando alcançar alguma coisa que me impedisse de afundar, mas os movimentos só serviram para apressar o processo.
— Pare com isso, Lily — pediu Asten em voz baixa.
— Tem alguma coisa que você possa fazer? Algum tipo de mágica para nos tirar daqui?
— Já tentei. Desde que reparei na areia movediça, quando o templo tremeu, estou tentando um encantamento depois do outro. Não adianta. O Obscuro amaldiçoou esta areia. Quando ela captura alguém, não solta mais.
— Mas nós vamos sufocar! Vamos morrer!
— Sim. Você vai morrer. Quanto a mim, passarei a eternidade enterrado vivo.
— Isso não pode ser o fim! Por que está desistindo? Com certeza Amon consegue nos salvar!
Debati-me feito uma louca, para a frente e para trás, e afundei até o peito.
— Lily! — gritou Asten. — Ficar se mexendo só piora! Você tem que ficar parada!
Levantei os braços e segurei os dedos dele, desesperada; a pressão da areia parecia um torno em meu peito. Em vez de Asten me puxar para fora, contudo, eu o fiz afundar comigo. Não conseguia mais virar a cabeça o suficiente para ver o Dr. Hassan. As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto à medida que eu ia me sentindo sufocar. A areia subiu até meu pescoço, e meus braços ficaram tão pesados que finalmente os baixei. Era isso. Eu ia ter uma morte horrível, uma das piores que conseguia imaginar.
No fim das contas, teria preferido ser esmagada no cubo de pedra no Vale dos Reis. Pelo menos lá estava com Amon.
Um leve puxão nos cabelos fez minha cabeça se inclinar para trás. Eu ainda tinha mais alguns segundos de ar.
A areia enfiou seus dedos ásperos entre os meus cabelos e encheu meus ouvidos. Consegui respirar fundo e então a areia cobriu minha boca e começou a subir pela testa. Fechei os olhos e afundei naquele abismo viscoso.

Um comentário:

  1. nooossssaaa...anem, kd o Amon???? não to gostando do mistério ¬¬

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