25 de outubro de 2016

18. O coração de um sonhador

— Quero que meu coração seja pesado na Balança da Justiça! — declarou Asten, a expressão selvagem como um furacão. O espaçoso salão subitamente pareceu apertado e pequeno, como se o ar estivesse cheio de segredos.
— Asten! O que você está dizendo? — sibilou Ahmose, alarmado.
— Você vai saber logo — respondeu Asten em voz baixa. Em seguida fez uma pausa, olhando brevemente para Ahmose, o arrependimento enchendo seus olhos, e acrescentou: — Irmão.
— Filho. Não faça isso. — Espantada, vi Anúbis ir em direção a Asten e pôr a mão em seu ombro. — Não é hora. Vamos encontrar outra maneira.
Asten deu de ombros e sorriu, tentando emitir seu característico risinho presunçoso, mas o resultado foi vazio e fraco, desprovido da espirituosidade e do charme habituais.
— Um dia isso ia acabar acontecendo, não é? Eu representei o papel por tempo suficiente. As mentiras vêm me corroendo há milênios. Pelo menos assim algo de bom pode resultar disso.
Maat pediu uma bebida, mas, antes de tocá-la, mandou a serva embora e em seguida pôs a taça na bandeja. O líquido vermelho transbordou e gotas pingaram no chão. Apesar de a serva se esforçar para limpar rapidamente a bebida derramada, meu olhar permaneceu fixo na mancha, hipnotizado. Parecia sangue no ladrilho branco. A pedra era tão porosa que absorveu o líquido e, apesar de todos os esforços, a garota não conseguiu remover o pigmento. Este pareceu um sinal formidável, agourento, e meu coração começou a bater forte no peito com a certeza de que alguma coisa horrível, irreversível, estava acontecendo.
Trincando o maxilar, Anúbis empertigou-se e se virou para Maat, apontando um dedo ameaçador na direção dela.
— Não haverá julgamento! — anunciou. — Asten não sabe o que está fazendo.
— Sei exatamente o que estou fazendo — contrapôs Asten com coragem. — E sei das consequências melhor do que qualquer um. Quantas almas condenadas acompanhei através da Ilha dos Mortos? Quantas vi serem queimadas no fogo ou engolidas pelos hipopótamos? Quantas arrastei até aqui para serem julgadas e vi desmoronarem em súplicas, chorando e uivando? Estou mais preparado do que a maioria, e sabia que o dia do ajuste de contas estava chegando. Deram-me mais tempo do que merecia. Graças a você, Anúbis. Você me ajudou a guardar meu segredo ao longo dos anos, até mesmo dos meus irmãos. Não sei bem por que fez isso, mas mesmo assim agradeço.
— Asten, por favor — disse Anúbis. — Reconsidere. Há muitos...
— Um julgamento foi requisitado e um julgamento acontecerá — anunciou Maat. Agitou o braço e todos os serviçais desapareceram. — Não sei que torpeza misteriosa vocês dois encobriram, mas logo descobriremos. Qual é sua condição? — perguntou baixinho a deusa.
Asten mordeu o lábio antes de soltar um suspiro fundo.
— Meu coração tem culpa. Não estou livre do pecado.
Maat moveu a mão com um floreio e Asten gritou de dor, apertando o peito. Partículas brancas de luz, ao mesmo tempo suaves e penetrantes como as estrelas, surgiram entre seus dedos e avançaram deliberadamente num ritmo ondulante. Seguiram na direção da mão estendida de Maat, unindo-se e se solidificando. Asten cambaleou e respirou pesadamente enquanto os últimos vestígios da luz deixavam seu corpo.
O material delicado se contraiu e se moldou no que parecia um bolo de argila reluzente. Maat soprou nele quase com reverência e aquilo que ela segurava estremeceu, depois se imobilizou.
Quando ela o entregou a mim para que o colocasse na balança, ouvi as batidas fracas do coração de Asten, um ritmo ligeiramente diferente do que vinha do escaravelho do coração. Olhei para ele alarmada, mas Asten parecia estar bem, ainda que sua respiração estivesse ligeiramente entrecortada.
— Vamos começar com as mais fáceis desta vez, está bem? — disse Maat, voltando-se e parando diante de Asten, o olhar penetrante fixo no rosto dele. — Você partiu corações? Fez com que outras pessoas chorassem?
Assentindo, Asten respondeu:
— Houve algumas mulheres que deixei com o coração partido no fim de nossos hiatos terrenos. Houve uma, em particular, por quem Ahmose se interessou e que eu roubei.
— E por que desperdiçou seu tempo com isso? — interrogou ela.
Asten deu de ombros.
— Eu me sentia solitário. Queria a companhia de uma mulher bonita. Mas não podia fazer nada para alongar minha estadia, por isso apenas desaparecia quando chegava a hora. Elas choravam, mas na maior parte dos casos superaram isso bem rápido.
— E o que aconteceu com Ahmose?
— Ahmose não é do tipo que ama e abandona uma mulher. Quando vi que ele estava levando a coisa a sério, intervim.
O corpo de Ahmose estava tenso, os punhos se fechando.
— Por quê, Asten? — indagou baixinho.
Asten olhou para o irmão com arrependimento.
— Porque isso teria acabado com você. Você teria feito o que Amon fez, só que pior. Teria sacrificado tudo, como ele fez.
— Então por que você não o impediu? — perguntou Ahmose.
— Não impedi Amon porque... — Asten parou e olhou para mim — ... porque ela o amava também. Tiombe não amava você — murmurou Asten baixinho.
— Não era você quem deveria julgar — disse Ahmose.
— Não — concordou Asten. — Não era. Eu me arrependi assim que fiz, mas me consolei quando vi sua raiva. Se havia algum risco de você matar alguém, seria eu, e não você mesmo, e fiquei em paz.
Ahmose cruzou os braços.
— Que bom que alguém ficou.
— Vamos passar à próxima pergunta — disse Maat. — Você cometeu violência?
— Cometi — respondeu Asten baixinho. — Lutei contra os mortos-vivos. Lutei contra os lacaios de Seth. Arrastei os condenados até os tribunais e ignorei suas súplicas. E... — ele inspirou, trêmulo — ... provoquei a morte de um inocente.
— Provocou? — perguntou Maat.
— Não. Mais do que provoquei — revelou ele. O olhar de Asten se voltou na minha direção e logo ele virou a cabeça, como se não suportasse me olhar. — Na verdade, fui eu que tirei a vida dele.
Arquejei, completamente chocada ao pensar que o rapaz que me carregava nas costas quando eu não podia andar, que flertava com um brilho nos olhos cor de chocolate e um risinho de quem sabia das coisas, que demonstrava gentileza e compreensão com Tia, era um assassino. Não conseguia associar a imagem do homem que eu conhecia com o que ele estava dizendo.
— Talvez seja melhor você explicar — sugeriu Maat.
— Lily conhece a história do nosso professor, de como saímos da escola naquele dia para caçar. A ideia foi minha. Ahmose e Amon relutavam em violar as regras. Eu era o rebelde do grupo, sempre tentando colocá-los em encrenca. Eles nunca teriam atacado os chacais se eu não fosse o primeiro a correr para o perigo.
Chacais?, Tia estremeceu e recuou dentro da minha mente.
— E só fiz isso porque sabia que eles não me deixariam lutar sozinho — prosseguiu Asten. — Os dois têm uma espécie de código moral nobre que aparentemente eu não possuo.
— Continue — encorajou Maat.
— Bom, naquela noite, depois de derrotar os chacais, nós acampamos e eu saí escondido, esperando recuperar os chifres do cabrito montês.
— E por que você precisava deles? — perguntou Maat.
— Minha... — ele fez uma pausa — ... mãe ansiava por um filho, um segundo filho. E eu fora ver uma feiticeira. Ela me disse que, se eu moesse os chifres do cabrito montês, misturasse com leite fresco de uma cabra que tivesse dado à luz recentemente pela primeira vez e desse de beber essa mistura à minha mãe, ela poderia conceber.
— Então você voltou para pegar os chifres — disse Osíris.
— Sim, e quando fiz isso encontrei o corpo ferido do nosso professor. Ele ainda estava vivo. Abaixei-me ao lado dele e o fiz beber do meu odre de água, mas ficou óbvio que era extremamente improvável que ele tivesse alguma chance de sobrevivência. Ele já havia perdido quase todo o sangue. A parte inferior da perna tinha sido decepada e carregada dali. Ele tinha feito um torniquete com um pedaço de pano rasgado, mas não havia nada que eu pudesse fazer. De verdade.
Asten respirou fundo e continuou:
— Qualquer coisa que eu tentasse só iria prolongar seu sofrimento. No tempo que levaria para eu trazer meus irmãos ele provavelmente teria morrido de qualquer modo. E a ideia de deixá-lo para ser devorado vivo enquanto eu os procurava era impensável.
Algo se partiu na mente de Tia.
— Como não é possível mentir enquanto seu coração está sendo pesado, você obviamente acredita que isso é verdade, e no entanto ainda se culpa pela morte dele. Por quê? — perguntou Maat.
Asten não respondeu de imediato. Tinha um olhar distante, como se estivesse repassando a cena medonha na mente, e eu me perguntei quantas vezes ele teria feito isso ao longo dos séculos.
— Ele tentou falar — disse Asten baixinho. — Mas nenhuma palavra escapou de seus lábios. Mesmo assim, eu sabia o que ele queria. Seus olhos imploravam, pediam que eu ajudasse. Nosso professor precisava de um milagre. Você me pergunta por que eu me culpo? — perguntou Asten com fervor. — Foi minha culpa ele estar lá. Era eu que queria o cabrito montês. Fui eu que agitei o sangue dos chacais. Não Amon. Nem Ahmose. Eu.
Asten fez outra pausa.
— Após fitar seus olhos desesperados, me decidi. Segurei seu ombro e sussurrei: ‘Desculpe.’ Então pousei a mão na testa dele, peguei minha faca e cortei sua garganta. O sangue que lhe restava se derramou nas minhas mãos.
Asten ergueu as mãos e olhou para elas, os olhos cheios de lágrimas. Em seguida encostou os dedos nos lábios trêmulos, fechou os olhos e respirou fundo, como se tentasse pôr de lado o horror que o assombrava.
— Ele não demorou muito para morrer — disse quando recuperou o controle da própria voz. — Depois disso, peguei meu prêmio, escondi os chifres no mato baixo e voltei para junto dos meus irmãos. Na manhã seguinte, quando soubemos que nosso professor estava desaparecido, o que senti foi o temor de ser apanhado, a vergonha de saber que a culpa era minha. Encontrariam o corpo dele, veriam o corte no pescoço e saberiam que foi feito por um ser humano. Iriam caçar o assassino.
A voz de Asten tremia de emoção.
— Quando o localizaram, os animais tinham violado seu corpo de tal modo que não dava mais para saber a causa da morte. — O corpo de Asten arfou quando ele respirou fundo. Em seguida, soltou a respiração com um misto de soluço e gargalhada. — E querem saber o que eu senti? Senti alívio! — gritou, com uma expressão de indignação e desprezo por si mesmo.
Lágrimas escorriam pelo meu rosto enquanto eu imaginava o jovem que Asten havia sido. Meu coração se partiu por ele.
Ele prosseguiu, balançando a cabeça:
— A tristeza pela perda do nosso professor não foi tão importante para mim quanto não ser apanhado. É verdade. A culpa me consumia, mas eu estava em segurança. Meu segredo estava intacto. Quando fui ver a feiticeira e contei o que havia acontecido, a mulher deu uma risadinha, alegre, e disse que o sangue do inocente que manchava os chifres tornaria o feitiço ainda mais poderoso.
— E você deu a poção à sua mãe? — perguntou Maat.
— Dei. — Asten passou as mãos sobre os olhos, apertando as palmas sobre as órbitas. — Era a única coisa que eu podia fazer. Eu lhe devia isso.
— Sinto que há algo nessa resposta que tem a ver com outra pergunta — disse Maat.
— Há — confessou Asten. — Eu decorei suas perguntas, Maat. As duas que restam são se eu tomei alguma coisa que não me pertencia e se já cometi perjúrio, ocultei a verdade ou enganei outras pessoas. A resposta para as duas perguntas é sim.
Se Maat ficou impressionada, não demonstrou, apenas esperou pacientemente que Asten explicasse.
— Quando eu tinha 10 anos, a velha ama de leite que havia cuidado de mim quando bebê estava no leito de morte. Como era meu dever, fui visitá-la. Quando cheguei perto da cama, ela dispensou todos os criados e me contou seu segredinho. Disse que, quando foi chamada para cuidar do bebê da rainha, o príncipe estava muito doente.
Asten continuou sem pausa:
— Um dia de manhã ela se levantou para olhar o berço do jovem príncipe e o encontrou morto. Entrou em pânico e rezou aos deuses para trazer de volta a vida do pequenino, mas isso não deu certo. Disfarçada, enrolou o bebê num pano e jogou o corpinho aos crocodilos, depois encontrou uma criada que tinha um filho da mesma idade e ofereceu suas riquezas roubadas dos cofres do rei em troca do bebê. Fez isso para salvar a própria vida, que correria risco caso soubessem que o príncipe havia perecido sob seus cuidados. A criada concordou.
Ele baixou a cabeça.
— Eu sou essa criança. Logo depois minha velha ama de leite morreu, levando seu terrível segredo para o túmulo. Assim que eu soube da verdade, ela passou a me atormentar. Com o correr dos anos, fiquei paranoico. Todo criado que me olhava, todo mercador que se demorasse fitando meu rosto era banido da minha presença. Uma vez surgiu um homem que se autoproclamou meu tio, exigindo dinheiro em troca do silêncio. Disse que sabia quem era minha mãe de verdade. Joguei-o na prisão. Depois de fazê-lo passar fome durante meses, o homem finalmente me disse onde eu encontraria minha família de verdade. Disfarçado, fui vê-los em um fim de tarde. Espionei-os e descobri que meu pai verdadeiro era um bêbado. Maltratava a mulher e as filhas, minhas irmãs. Logo depois correu o boato de que minha família tinha ido embora. Num dia de fúria, bêbado, meu pai havia matado minha mãe e depois vendido as filhas a mercadores que pagaram com bebida.
Asten suspirou.
— Mais uma vez, não senti indignação. Nem tristeza. Em vez disso, senti o doce júbilo do alívio. Minha mãe e minhas irmãs nunca tentariam me encontrar. Não existiam mais.
— Ah, Asten — falei, e estendi a mão, mas ele se afastou.
— Não fiz nada para ajudá-la. Minha mãe verdadeira morreu por causa do meu medo, da minha complacência. Minha covardia tem sido minha sombra por todos esses anos. O garoto, o príncipe que eu era, desapareceu, e em seu lugar havia um sósia, uma mutação, que não era verdadeiramente amada por ninguém, não era querida por ninguém e cuja falta ninguém sentia. Quando morri, meu último pensamento foi de que finalmente poderia ficar em paz, sabendo que não importava mais de quem eu era filho.
Asten virou-se para Ahmose, que permanecia totalmente imóvel, as mãos ao lado do corpo, uma expressão de choque no rosto.
— Está vendo, Ahmose? Eu não sou seu irmão. Não sou o homem destinado a fazer este trabalho. — Em seguida olhou para Anúbis. — O que sou é uma fraude. Quando confessei tudo isso a Anúbis depois de ele nos levar embora de casa para explicar nossos novos papéis, ele disse que já era tarde demais. Já havia me imbuído do seu poder. Não tinha como voltar atrás. — Asten ergueu os braços, as palmas das mãos para cima, como se estivesse se sacrificando no campo de batalha. — Eu era filho de um pedreiro — ele quase cuspiu a palavra —, criado por um rei e uma rainha que, mesmo no fim da vida mortal, não tinham ideia de que o filho era um impostor.
Olhando para mim, disse:
— Por isso fiquei desesperado para ajudar a rainha, a mulher que eu chamava de mãe, mesmo não sendo minha mãe de verdade, a ter outro filho. Mesmo com a feiticeira que me ajudou com a poção tendo cobrado um preço... impensável, eu sentia que não tinha escolha. Na época, achava que, se ela tivesse outro filho, eu poderia desaparecer discretamente e ele poderia governar. E agora vocês conhecem toda essa história sórdida.
Asten levantou a mão e foi indicando com os dedos a lista de seus erros.
— Eu menti. Enganei outras pessoas durante quase a vida inteira. Matei. Fui egoísta. Me abstive de agir para impedir que pessoas que tinham o meu sangue fossem maltratadas. Joguei um inocente na prisão. Bani quem não tinha culpa. Usurpei a vida de um príncipe real destinado a grandes feitos. E vivi paranoico com a possibilidade de perder minha posição a cada hora de cada dia. Sou chamado de Filho do Egito, príncipe de Waset, e no entanto não sou digno desses títulos. Enquanto meus irmãos são prata, eu sou uma pedra. Eles são cedros altos e eu sou um sicômoro comum.
Cobri a boca com a mão para conter um soluço. Como Asten podia ter mantido essas coisas escondidas no fundo do coração durante tanto tempo? Ele era bom em usar máscara. Eu jamais teria imaginado como seus pensamentos eram sombrios. Quanto ele tinha enterrado por trás de seu riso confiante.
— Há mais alguma coisa? — perguntou Maat, ainda com uma expressão neutra.
Asten pensou por um momento, depois assentiu.
— Nós falamos sobre o verdadeiro nome de Amon, e eu nem sei qual é o meu. Que nome minha mãe biológica me deu? Que tipo de legado eu poderia ter se minha própria mãe me trocou por dinheiro e meu pai vendeu as próprias filhas? Eu não passo de uma farsa. Usei meu legado fantástico para construir um muro de mentiras tão alto e forte que não há como transpô-lo.
Quando o eco de suas palavras sumiu, o único ruído no salão era o de nossa respiração. O leve som da balança se movendo atraiu minha atenção. Maat olhou para ela e estreitou os olhos, examinando o movimento durante um tempo. Prendi o fôlego enquanto a balança subia e descia, e finalmente ela parou, com o coração alguns centímetros mais baixo do que a pena, muito mais do que o de Amon.
Eu já ia dizer alguma coisa, protestar, lutar por Asten ou defendê-lo contando a Maat todo o bem que eu o tinha visto fazer, porém Maat pareceu antever minha intervenção e levantou um dedo de alerta, que me fez silenciar. Em vez de fazer seu julgamento ou mais perguntas a Asten, ela virou-se para Anúbis.
— Por que você escondeu de nós quem ele era?
— Não considerei isso importante.
— Ele é mortal.
— Não mais. — Anúbis mudou de posição e ergueu o olhar para Asten.
Maat inclinou a cabeça.
— Foi por isso que o escolheu, não foi?
Anúbis imobilizou-se.
— Como assim?
— Amon e Ahmose foram concebidos de modo sobrenatural. Asten não.
— É verdade. Mas isso não faz diferença.
— Não? — perguntou Maat.
— Não.
— Você devia saber — acusou Maat. — Como foi uma morte sobrenatural, você deve ter sido chamado para perto do bebê, do príncipe verdadeiro, para acompanhá-lo a Heliópolis e ajudá-lo a começar a jornada. Você sabia que ele havia morrido e no entanto insistiu que os Filhos do Egito poderiam sustentar o fardo do Cosmo.
— E estava certo, não estava?
— Até agora. Você teve sorte. Se soubéssemos...
— Se vocês soubessem, Seth não seria contido. Somente os três que foram criados por ele, mas alimentados por nós, têm o poder de mantê-lo a distância.
— Mas não temos três, não é mesmo? Temos dois. Asten não deveria ter a capacidade de exercer a mesma força dos dois irmãos. — Maat estreitou os olhos na direção do deus poderoso, mas ele se manteve firme, sem ceder um centímetro sequer. — Como você fez isso?
Sorrindo, Anúbis respondeu:
— Pedi à cegonha para me trazer um menininho.
Um sibilo exasperado escapou dos lábios de Maat.
— Então vejo que você planeja guardar seus segredos.
— Assim como você guarda os seus, Maat.
— Eu não tenho segredos — exclamou ela, e no entanto vi uma levíssima sugestão de alarme cruzar seu olhar.
Maat se aproximou do tablado.
— Diga-me, Asten, você sonhou seus próprios sonhos?
Asten virou a cabeça e pareceu relutante em falar. Por fim, disse:
— Refere-se aos Sonhos Que Poderiam Ter Sido?
A deusa suspirou, impaciente.
— Você sabe o que quero dizer. Não me importo com seus sonhos com cavalos de corrida ou lindas garotas saracoteando à sua volta numa campina.
Remexendo-se desconfortável, Asten respondeu:
— Eu vi mais de um caminho futuro.
— E...? — Ela se inclinou para a frente, em expectativa.
Asten deu de ombros.
— Isso tem importância? Talvez meus sonhos nem tenham a ver comigo. Você sabe muito bem que só vejo um futuro para cada alma, o sonho de uma vida perfeita, cheia de felicidade. Ver que há várias possibilidades para mim prova que há alguma coisa errada. Eu sou errado. Minha alma é quebrada. Então o que importam meus sonhos? Sei que todas essas possibilidades estão fora do meu alcance, de qualquer modo.
— Ele pode estar certo — disse Néftis. — Talvez a coisa não funcione com ele. Se fosse o príncipe verdadeiro, teria mais facilidade de acessar o poder de sonhar. Você sabe que às vezes ele tem dificuldade para invocar os sonhos.
Maat considerou as palavras dela.
— É verdade. Dar poderes como os que demos a um mortal deveria tê-lo destruído há muito tempo. É surpreendente que ele ainda funcione tão bem. — Ela pareceu chegar a uma decisão. — Muito bem, responda apenas a mais uma pergunta.
— O que é? — indagou Asten, cauteloso.
— Seus sonhos a incluem?
Maat apontou para mim e eu respirei fundo. Asten ergueu os olhos, fitando os meus, e havia algo neles que parecia ao mesmo tempo cheio de esperança e de pavor.
Depois de um momento cheio de tensão, ele admitiu baixinho:
— Incluem. — Meu coração quase parou. — Mas é o sonho que não deve se realizar.
— Por quê? — Dessa vez não foi Maat quem perguntou; fui eu.
Minha pele formigava e eu estava com dificuldade para respirar. Tinha a sensação de estar presa num espaço muito apertado e de que a única coisa que me mantinha concentrada em não perder o controle era Asten. Havia algo tangível entre nós. Algo quente que enchia meu ser e o espaço à minha volta. Algo que parecia errado e ao mesmo tempo certo.
— Por quê? — repeti.
— Porque...
Meu olhar prendeu-se ao dele e descobri que não podia desviá-lo.
— ... porque se esse sonho for verdadeiro, real, vai significar que eu traí meu irmão — disse ele baixinho. — E isso é algo com que eu não poderia viver.
Estávamos separados por alguns metros, mas por um breve momento foi como se estivéssemos suficientemente próximos para nos tocarmos. Fiquei em profunda sintonia com seu corpo, ciente dos ombros largos, da boca generosa, do cacho de cabelo que caía sobre a testa e de como seus olhos podiam me aquecer apenas com um olhar. Um formigamento agradável desceu pela minha coluna, como se alguém tivesse acabado de acariciar minha pele nua.
Osíris interrompeu:
— Você vai julgar o rapaz, então, Maat?
O calor abandonou minha pele e foi substituído por um medo de arrepiar. Mesmo sabendo que precisávamos chegar ao mundo dos mortos de alguma forma, eu não queria arriscar a alma imortal de Asten para isso.
— Sim. Vamos acabar logo com isso — disse Anúbis.
Maat pôs a pena na caixa, em seguida segurou o coração de Asten e ergueu os braços.
— Asten, Filho do Egito. Você submeteu seu coração a julgamento. Sua alma testemunha contra você. Decreto... que os feitos de seu passado não podem ser julgados adequadamente neste momento, porque você não teve tempo suficiente para ser absolvido dessas ofensas. A intervenção de um deus deformou sua linha temporal, e por isso vou conceder um adiamento temporário do julgamento.
Néftis sorriu, fazendo menção de se levantar, porém as palavras seguintes de Maat a fizeram parar:
— No entanto, para expiar seus crimes, condeno-o ao mundo dos mortos, para servir de guia a Lily e Tia. Se sobreviver às dificuldades que o esperam lá, se obtiver o perdão dos seus irmãos e aprender a colocar os outros à sua frente, iremos reavaliar sua situação... isto é, dependendo de você conseguir retornar, é claro.
Como se fossem um só, os deuses se levantaram e se aproximaram do tablado. Lado a lado, com expressão séria, esperaram enquanto Maat concluía:
— Que a misericórdia e a verdade estejam com você, Asten. Banimos seu coração para o mundo dos mortos.
O ar tremeluziu e a substância estelar que se encontrava na balança pegou fogo até se extinguir, deixando apenas fragmentos de cinzas pretas girando. O salão estremeceu e Asten caiu de joelhos, retorcendo-se e gemendo.
Corri até ele, abraçando-o com força, no momento em que tudo ficou imóvel.
Então Asten soltou um grito lancinante, seu coração se desintegrando em minúsculas partículas enquanto seu corpo sem vida sucumbia nos meus braços.

2 comentários:

  1. Gentee...só sei que o negócio tá esquentando e não to gostando da tia tomar controle da Lilly involuntariamente...

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