21 de outubro de 2016

17. O primeiro pássaro é o que pega a minhoca

— Corram! — gritou Amon, agarrando meu braço e me puxando em direção ao outro extremo da caverna.
O Dr. Hassan e Asten nos seguiram.
Pedras caíam à nossa volta, e a criatura guinchou, frustrada, antes de dar uma guinada na nossa direção; seus dentes de navalha rasgaram o espaço que acabáramos de deixar. Como aparentemente não conseguia se contorcer mais para sair do buraco, o monstro recuou e tornou a se enterrar na montanha.
Embora estivéssemos separados pela rocha, a criatura parecia saber exatamente onde estávamos. Amon disse achar que ela podia nos ouvir, e dito e feito: quando paramos de correr, ela também parou. Sem fazer barulho, penetramos mais fundo na caverna, e por alguns momentos pensei que a tivéssemos despistado, mas então o Dr. Hassan esbarrou sem querer em uma estalagmite e fez pedaços de rocha deslizarem até o chão. Com um grito alto que ecoou em todas as direções, o verme gigante retomou a perseguição e foi se aproximando depressa.
Pedras tornaram a cair quando outra fissura apareceu no teto. Não era grande o suficiente para o corpo da criatura passar, mas uma comprida língua roxa saiu lá de dentro e se agitou no ar bem à nossa volta. Ao sentir nosso cheiro, o monstro berrou e bateu com o corpo na pedra, desesperado, tentando passar.
— Por aqui! — gritou Amon ao mesmo tempo que o alto da cabeça do verme passava pela fenda e pedaços de sua carne eram arrancados.
O bicho tentou em vão nos abocanhar quando passamos por ele correndo até outra parte da caverna e nos escondemos atrás de umas pedras. A curta corrida me deixou ofegante; eu ainda sentia os efeitos da exaustão da energia por Amon. O verme tornou a penetrar na montanha, e o movimento de seu corpo fez a caverna estremecer.
— Chegamos a um beco sem saída — disse Asten em voz baixa.
— O que vamos fazer? — sibilei, apavorada diante da perspectiva de virar comida de verme dali a pouco. — Só temos dois ovos de serpente!
— É tarde demais para fugir — murmurou Asten, quase contente. — Talvez tenha chegado a hora de lutar. — O irmão de Amon invocou a areia e esta se ergueu no ar até formar um arco e uma aljava cheia de flechas com ponta de diamante. — Você vem comigo? — indagou ele a Amon.
O deus das estrelas pelo visto não sentia um pingo de medo, e parecia até satisfeito por ter a oportunidade de testar seu corpo recém-reconstituído. Amon, porém, mostrou-se hesitante:
— Meus poderes estão fracos, Asten. Preciso levar Lily para um lugar seguro. Minha prioridade é ela.
Asten parou de examinar sua arma recém-materializada e se virou para o irmão, observando-o por alguns instantes.
— Entendi. — Ele lançou um breve olhar na minha direção antes de acrescentar: — Acho que ela vai estar segura. Você sabe que a criatura quer a nós, não uma mortal.
— Não. Ele vai vir atrás dela. Já mandou seus monstros das sombras uma vez, e eles agora tomaram gosto pela carne de Lily.
Asten arqueou as sobrancelhas e abriu um sorriso descarado.
— Não posso culpá-los — comentou, então olhou para mim com ar intrigado. — Mas confesso que não entendo por que...
— Quando a nossa situação não estiver tão difícil eu explico — interrompeu Amon, pronunciando as palavras em voz baixa enquanto observava as paredes em busca de sinais da criatura.
No escuro, quase não dava para ver a luz que seu corpo irradiava, e, mesmo que eu não estivesse sofrendo os efeitos do despertar de Asten, era óbvio que a operação havia usado a maior parte das reservas de força de Amon. Eu não sabia como ele aguentaria despertar outro irmão e concluir a cerimônia, quanto mais combater um monstro gigante, quando lhe restava tão pouco poder.
Estava prestes a oferecer um pouco mais da minha energia, sobretudo se ele estivesse com a intenção de ir atrás daquele verme infernal, quando Asten o segurou pelo ombro e disse:
— Se você não pode lutar como um deus, irmão, então lute como homem. Deixe o resto comigo.
Amon olhou na minha direção, soltou um suspiro trêmulo e segurou o braço do irmão. Então aquiesceu com a cabeça e disse em voz baixa:
— É bom ter você de volta, Asten.
O irmão sorriu enquanto punha a aljava nas costas.
— É bom estar de volta e ter um corpo para o qual voltar, aliás. Também estou grato pelo meu rosto inteiramente reconstituído, é claro, já que tenho um fraco por ele — completou o rapaz com um olhar atrevido na minha direção. — Vamos, Amon?
Em resposta, Amon balançou os dedos na direção da areia e milhões de pequenas partículas se ergueram e se transformaram em um par de espadas curvas. O Dr. Hassan soltou um arquejo audível e, animado, exclamou:
— As cimitarras de ouro de Amon-Rá! — Tentei fazê-lo se calar antes que o verme nos ouvisse, mas ele continuou falando: — Ver isso com meus olhos de mortal é uma bênção maior do que qualquer coisa que eu jamais sonhei!
De fato, quando o Dr. Hassan estava terminando a frase, a montanha roncou. Ele tapou a boca com as mãos.
— Desculpe — murmurou.
Mais adiante no corredor, pedras grandes caíram, soltando poeira e fragmentos de rocha. Então nós quatro nos abaixamos, em preparação para o ataque. Amon ergueu a espada e Asten ajeitou no arco uma flecha com ponta de diamante. Ninguém disse nada, e a criatura se aquietou quando não conseguiu encontrar um ponto de entrada maior do que uma maçã.
Com um floreio, Asten desenhou círculos no ar com a mão. Uma bruma negra cintilante se formou a seus pés e logo nos envolveu. Luzinhas diminutas começaram a piscar feito vagalumes. Parecíamos estar flutuando no espaço, cercados por milhares de estrelas em miniatura. Levantei a mão para tocar uma delas e a segurei entre os dedos. Quando esfreguei o polegar, a estrela luziu e explodiu entre meus dedos com uma pequena descarga de energia.
— Ai! — sussurrei.
— Sua mãe não a avisou para não pôr a mão no fogo? — perguntou Asten enquanto movia a névoa em círculos ao nosso redor.
— Algo nessa linha — murmurei. — Ele vai achar a gente?
— Não agora, mas nem mesmo eu, por mais poderoso e atraente que seja, consigo sustentar esta situação para sempre.
— É bom ver que você não perdeu seu jeito com a magia, Asten — comentou Amon enquanto entregava as espadas para o Dr. Hassan segurar.
A impressão que tive foi de que ele havia lhe passado um bebê, tamanho o cuidado com que Osahar as segurou. A única resposta do deus das estrelas foi encarar Amon com ar de quem diz “Como você pôde ter alguma dúvida?”, mas essa atitude arrogante desapareceu enquanto ele observava o irmão.
Amon apertou-lhe o ombro e prosseguiu:
— Tenho uma ideia de como podemos fugir, mas vai ser perigoso.
— O perigo vai me revigorar, depois de mil anos de tédio — replicou Asten enquanto controlava com cuidado a fumaça piscante.
— Vai ser necessária uma coordenação precisa.
— Me diga do que você precisa — disse Asten.
— Primeiro, temos que nos separar. Afastar a criatura de Lily e do doutor Hassan.
— Não tenho certeza se isso é uma ideia muito...
Asten me interrompeu:
— Está bem. E depois?
— Voltamos ao ponto por onde entramos, onde você foi despertado, e atraímos o monstro até lá. Tem uma cachoeira não muito longe daquela parte da caverna, então a rocha ali deve ser mais porosa.
— Ah, então você quer que a criatura passe.
— Rapazes, agora eu tenho certeza de que isso definitivamente não é uma boa...
Amon prosseguiu como se eu não tivesse dito nada:
— Se conseguirmos fazer o verme quebrar um trecho suficientemente grande da rocha, podemos fugir por essa abertura.
Asten apertou o ombro do irmão.
— Você tem força suficiente?
— Para isso, sim.
— Então vamos em frente.
Amon finalmente se virou para mim.
— Quando ouvir o teto desabar, venha até mim o mais rápido que puder.
— Mas...
— Segure isto aqui. — Asten me entregou uma pedra clara. — Vai precisar da luz.
Ele envolveu a pedra com as mãos e sussurrou algumas palavras que a fizeram se acender por dentro. Depois de apertá-la de leve entre as mãos, tirou o arco do ombro e começou a descer o corredor, fazendo o máximo de barulho possível.
Com um leve sorriso, Amon passou o polegar suavemente pela minha bochecha e pegou as cimitarras de ouro das mãos do Dr. Hassan. Partiu correndo atrás do irmão e, depois de se distanciar um pouco de nós, começou a berrar e bater nas paredes. A montanha roncou quando o verme recolheu a antena que se projetava da rocha, guinchou e saiu atrás de Amon e Asten.
— Eles vão acabar morrendo — balbuciei enquanto cruzava os braços e esfregava a pele, tentando desfazer o arrepio que se espalhara por ela depois de Amon e seu calor se afastarem.
— Sim. Em algum momento — respondeu o Dr. Hassan.
— O senhor parece bem à vontade com isso tudo — resmunguei. — Por acaso não se preocupa com nada? Nem com a própria vida?
O Dr. Hassan pegou a pedra brilhante da minha mão e fez um gesto de quem descarta o assunto.
— Minha vida não tem importância — afirmou. — Cada maravilha que vi, cada momento mágico é um presente que valorizo, e me considero um homem de sorte pelo simples fato de ter vivido o suficiente para presenciar essas coisas. Se eu morrer hoje, irei para a outra vida feliz e abençoado.
— É, mas eu tenho mais umas coisinhas que gostaria de fazer antes de desistir.
— Sim, claro. Você é jovem. Ainda não teve tempo nem de pensar nos seus sonhos, que dirá realizá-los.
Aos poucos, a bruma cintilante à nossa volta se dissipou e o barulho dos irmãos provocando a criatura gigante chegou aos nossos ouvidos.
— Nós vamos conseguir, não vamos? — indaguei, preocupada com a luta de Amon e Asten contra o verme demoníaco.
— Não tenho dúvidas. A luz sempre supera a escuridão.
Para provar o que dizia, ele ergueu a pedra iluminada que estava segurando.
— Seu discurso está mudado. O que aconteceu com “me preparar para o pior”?
Ele levantou a cabeça; parecia estar processando o que eu acabara de dizer.
— Sabe, minha querida, eu me sinto dividido em relação a esse assunto. Meu lado cientista parece estar em guerra contra o homem de fé. Neste momento, porém, diante dos acontecimentos milagrosos que presenciei, eu ultrapassei a linha e adentrei o terreno da fé. Sempre acreditei, sabe, mas, quando o mundo secular insiste que os deuses não são reais, a gente começa a duvidar. Acho que, mesmo sem que eu percebesse, minha fé me sustentou esses anos todos. E agora eu sinto... — Ele riu. — Bem, o que estou experimentando agora é uma grande sensação de “Eu tinha razão”.
— Hum... não acho que eu tenha o mesmo grau de fé que o senhor.
— A fé não passa de uma disposição para acreditar, e com o tempo essa crença vai ficando mais forte e mais afiada, até se tornar capaz de cortar suas dúvidas com a mesma facilidade das cimitarras de Amon.
— Humpf.
O Dr. Hassan continuou:
— O que estou querendo dizer é que Amon e o irmão não são meros mortais que aspiram a ser deuses, como nossos faraós de antigamente. Eles são verdadeiros deuses que vivem no meio dos homens. E mais: são guerreiros, protetores divinos que desejam realizar sua vocação celeste. Com certeza o fato de testemunhar seu poder, de experimentá-lo em primeira mão, poderá inspirá-la a ter pelo menos um pouquinho de fé.
— Tem razão. É incrível o que eles conseguem fazer e o que já realizaram, mas, por mais impressionada que eu esteja com o poder de Amon, posso ver e sentir o que isso lhe custou. Ter tanta responsabilidade assim nem sempre é uma bênção. Então, sim, eu tenho dúvidas.
— Entendo.
— Duvido que Amon tenha forças para cumprir seu papel — continuei. — Mesmo que a sua missão seja bem-sucedida, duvido que ele esteja feliz preso nesse limbo que é a vida após a morte conforme ele descreveu. Mais do que tudo, duvido que essa vida, esse sacrifício que precisa ser feito e refeito, valha a pena. Amon merece mais.
O Dr. Hassan passou alguns instantes calado, e seus olhos pareceram penetrar fundo a minha alma. Sustentei seu olhar, meus sentimentos inabaláveis.
— Talvez você tenha razão — admitiu ele por fim. — Talvez a consorte de Amon tenha o espírito tão afiado quanto suas espadas.
Eu estava prestes a lhe perguntar o que ele queria dizer com consorte quando a caverna estremeceu com tanta força que só podia significar uma coisa: o verme demoníaco tinha conseguido passar.
— É a nossa deixa! — gritei, e agarrei o Dr. Hassan pelo braço para me equilibrar.
Saímos correndo em direção ao outro lado da caverna, com pedras caindo a toda volta. Ergui o braço livre em uma débil tentativa de me proteger de ser esmagada.
Dessa vez foi muito mais difícil chegar ao outro lado da caverna. A estrutura inteira parecia à beira do colapso. Esquivamo-nos de estalactites caídas e estalagmites quebradas e chegamos ao outro lado com apenas alguns cortes e arranhões sem gravidade. Mas o caos e a destruição que vimos ao dobrar a esquina eram assustadores.
O verme gigante pendia do teto, seu corpo mole gotejando um pus sanguinolento em vários pontos. Uma fissura na rocha jorrava água na qual Amon e Asten chapinhavam até os joelhos. Se a água havia subido tão depressa, em breve estaria acima de nossas cabeças. A cachoeira desviada não pareceu deter o verme, que entrou na água e começou a se contorcer de um lado para outro feito uma grotesca e inchada serpente aquática.
Amon cortou o verme no flanco, enquanto Asten criou um pó mágico que se levantou em pequenas nuvens de luz ofuscante o suficiente para nos cegar. Em retaliação, o verme abriu a boca e, irado, cuspiu em cima de tudo uma gosma verde fluorescente e grandes bolos de saliva reluzente. As pedras sobre as quais seu veneno caiu silvaram e estalaram. Por sorte, Amon e Asten saíram da frente depressa o bastante para evitar aquela bile tóxica.
Com um tranco fortíssimo, o verme fez o resto do corpo passar pela abertura da caverna desmoronada e girou a cauda em direção a Asten enquanto mantinha a bocarra de dentes afiados aberta e apontada para Amon. Arquejei, horrorizada, ao ver outra boca aberta na ponta de sua cauda.
— Asten! — gritei. — Cuidado!
Em reação à minha voz, a criatura se sacudiu violentamente, acabou derrubando Amon e pôs-se a rastejar na minha direção, deixando atrás de si uma trilha brilhante de gosma nojenta. Sua antena, que eu agora via ser uma dentre muitas que se projetavam de buracos nas laterais de sua cabeça, contorcia-se como um parasita roxo comprido, enquanto a boca se movia antecipando a mordida. Amon atacou a criatura com vigor e cravou as duas cimitarras bem fundo no corpo carnudo, mas o verme o ignorou e continuou a avançar.
— Amon! — gritei quando seu corpo se chocou contra o teto.
— Vai ficar tudo bem com ele — murmurou uma voz no meu ouvido.
Girei nos calcanhares, mas não consegui ver nada exceto escuridão; então uma diminuta centelha brilhou na ponta do meu nariz.
— Asten?
— Ao seu dispor, bela devota. Se quiser ter a bondade de me seguir.
Enfurecida, a criatura veio correndo na minha direção, mas a mão de alguém se materializou no escuro, segurou a minha e me arrastou para dentro de uma névoa rodopiante e escura cheia de vaga-lumes cintilantes. De repente, Asten ficou visível. O verme parou e testou o ar com a antena a poucos centímetros de nossos rostos, mas não conseguiu nos localizar.
Enquanto Amon berrava com o monstro, fazendo a criatura frustrada se virar para ele, Asten continuou a segurar com força a minha mão. Sem permitir que eu desse sequer um pio de protesto, ele nos fez sair de trás da estalagmite e voltar para o trecho inundado da caverna.
Chegando lá, vi o Dr. Hassan encarapitado em uma pedra rodeada de água que lhe chegaria à cintura se ele estivesse no chão. Embora Asten e eu também nos encontrássemos em uma posição elevada, a água que vazava da cachoeira continuava a subir, e em poucos segundos ultrapassou nossos tornozelos.
— Se você puder ficar de fora... — advertiu Asten.
— Não estou entendendo. Precisamos voltar para ajudar Amon.
— Amon é perfeitamente capaz de se safar sozinho.
— Mas...
— Confie em mim.
Ele me encarou com um olhar que não tinha nada de flerte ou arrogância. Era uma expressão quase de súplica, com a qual não parecia muito à vontade.
— Está bem — sussurrei.
Asten entoou um encantamento e seu corpo se acendeu por dentro. Uma luz intensa e branca como a das estrelas o envolveu e aumentou até ocupar tanto espaço que tive que recuar e desviar os olhos. A água agora estava nos meus joelhos e banhava os pés do Dr. Hassan.
Um grito de pássaro ensurdecedor atraiu minha atenção outra vez para Asten. Em vez do belo príncipe egípcio, uma ave branca reluzente, grande o suficiente para fazer frente ao verme gigante, avançava e recuava dentro d’água sobre patas compridas. Parecendo muito à vontade, abaixou a cabeça na minha direção e tocou delicadamente meu ombro com seu bico afunilado.
Suba nas minhas costas.
— Asten?
Sim. Rápido. Precisamos nos apressar. Amon está ficando cansado.
A grande ave se abaixou e eu me aproximei e segurei seu pescoço, que era fino em comparação com o resto do corpo, mas pude sentir a poderosa musculatura por baixo das penas macias.
— E se eu cair ou ficar enjoada por causa da altura? — perguntei, passando a perna por cima das costas do pássaro e me acomodando em cima dele.
Não vou deixar você cair, mas, se você vomitar nas minhas lindas penas, eu provavelmente vou jogar você no chão.
A risada dele ecoou na minha mente. Depois de mergulhar o bico em uma pilha molhada de vermes que se contorciam, a ave levantou a cabeça e engoliu dois gigantescos bocados antes de sair andando pela água.
Não era o banquete que eu esperava, mas os vermes vão me dar energia para o voo.
Com uma careta, olhei para as larvas reluzentes e me perguntei se algum dia chegaria àquele grau de desespero.
Asten abriu as asas e as bateu antes de subir vários metros com um único e poderoso salto. Agarrei-me desesperada ao seu pescoço enquanto ele pulava até uma pedra que se projetava da água. Vi o Dr. Hassan acenar para nós enquanto Asten pulava no ar e abria as asas.
Quando a ave ganhou altura, o vento lançou meus cabelos para trás. As pontas de suas asas roçaram a água que caía da cachoeira e então chegamos a céu aberto, sobrevoando o Oásis das Pedras Sagradas. Meu estômago parecia ter sido deixado na caverna, e por um minuto de desespero me perguntei se ia vomitar. Quando Asten se estabilizou e começou a voar em círculos acima da montanha, finalmente consegui controlar o enjoo.
Você não está passando mal, está?, indagou ele como se estivesse lendo meus pensamentos. Perguntei-me se conseguia fazer isso, como Amon.
Respondi sem emitir nenhum som. Você me ouve se eu falar só na mente?
Ouço. Mas preciso me concentrar.
— Então, enquanto conseguir me escutar, eu vou falar normalmente com você.
Muito mais fácil. Obrigado.
— De nada. Agora vamos voltar para buscar Amon.
Lembra que você concordou em confiar em mim?
— Lembro, mas...
Nesse exato instante, na forma do falcão dourado, Amon irrompeu do buraco na montanha com um Dr. Hassan encharcado agarrado ao seu pescoço. O falcão batia as asas furiosamente e se sacudia de um lado para outro, o que a princípio pensei que fosse uma tentativa de ajudar o Dr. Hassan a se acomodar com segurança nas suas costas, mas então o gigantesco verme emergiu da montanha logo atrás deles, com a boca aberta e o corpo machucado.
O monstro abocanhou as penas do rabo do falcão e a ave se desvencilhou com um grito. O único prêmio do monstruoso verme foi uma solitária pena dourada e reluzente que rodopiou no ar e caiu lentamente até ir parar nas pedras molhadas onde antes ficava a cachoeira. O verme deu um derradeiro grito, quase pesaroso, antes de recuar para o interior da montanha.
A ave dourada logo chegou até nós e levantou a cabeça para me olhar.
— Está tudo bem, Amon? — perguntei, mas, por mais que me concentrasse, não consegui ouvir a resposta.
Se tiver algum recado para ele, eu posso transmitirdisse Asten. Estou ligado tanto a Amon quanto a Ahmose.
— Sério? Como é isso? Você consegue ouvir Ahmose mesmo que a gente ainda não o tenha despertado?
Espere um instante. Asten inclinou a cabeça como se estivesse escutando alguma coisa ao longe. Amon quer que eu pergunte como você está se sentindo, disse ele por fim.
— Diga a ele que estou bem. — Olhei para Amon, que voava ao nosso lado, e acenei para tranquilizá-lo. — Mas para onde estamos indo exatamente?
O grão-vizir está nos dizendo como chegar a Ahmose. Amon me avisou que eu me preparasse para uma enxurrada de perguntas, por conta de sua natureza inquisitiva. Ele também me lembrou que você não é uma devota do tipo com o qual estou acostumado, e que não vai cair facilmente nos meus braços.
— As duas afirmações estão corretas.
Nesse caso, sugiro que comece logo as perguntas, pois não consigo conceber uma mulher que não busque desesperadamente a minha atenção.
Uma risadinha me escapuliu da garganta e tapei a boca com a mão. Rir feito uma boba não era nem um pouco do meu feitio, mas a firme convicção de Asten em relação ao seu poder masculino de atração tinha um certo charme. Não se podia dizer que lhe faltasse confiança.
Qual é a sua primeira pergunta?
— Como Amon era quando pequeno?
Ah. E eu pensando que iria deliciar você com histórias a meu respeito. Fico magoado por estar sendo preterido assim, mas, como Amon e eu vivemos a infância juntos, vou fazer sua vontade, e qualquer história que eu contar sobre ele com certeza também vai me apresentar sob um viés favorável.
As asas de Asten passaram a se mover em um ritmo suave, e posicionei-me do modo mais confortável que consegui enquanto ele começava a falar.
Como Ahmose e eu, Amon era confiante, valente e muito bonito, embora talvez não tão bonito quanto eu. A diferença era que ele tinha grande compaixão pelos desvalidos. Observava as coisas. Via um velho pedinte adormecido junto a um descampado e entregava o cesto de peixes que acabáramos de pescar. Em uma multidão, encontrava a menininha que quisesse lhe entregar um mato qualquer fazendo-o passar por flor. Certa vez, nós três fugimos de nosso professor. Éramos meninos, e não achamos nada de mais em tirar o dia para nos divertir um pouco. Em vez de ficar presos dentro de casa estudando, decidimos explorar o campo. Perseguimos cavalos do deserto, jogamos senet, observamos os barcos coloridos subirem e descerem o Nilo, procuramos tesouros enterrados e roubamos guloseimas quando os vendedores do mercado não estavam prestando atenção. Nessa tarde fomos caçar: eu com meu arco, Amon com suas espadas e Ahmose com seu machado e sua maça. Percorremos colinas baixas atrás de nossa presa, um cabrito montês, até vermos que ele estava cercado por uma matilha de chacais. Eram mais de vinte animais no bando. Tomados por um excesso de coragem infantil, atacamos. Os chacais recuaram, mas, quando o fizeram, o cabrito já tinha sido estraçalhado. Para comemorar o sucesso de espantar os chacais, acampamos em um fértil arvoredo e assamos lebres do deserto na fogueira para saciar nossa fome. Na manhã seguinte, de volta a casa, declaramos que a véspera tinha sido uma vitória triunfal. Embora soubéssemos que nosso pai iria preparar algum tipo de punição por nossa escapada, decidimos que a liberdade valia qualquer pequeno preço que tivéssemos que pagar. Mas o nosso professor, que amava a nós três e principalmente Amon, não queria que tivéssemos problemas com o rei. Logo descobrimos que, após saber que tínhamos ido passar o dia em outro lugar, ele tentou nos encontrar sozinho em vez de incomodar nossos pais. Ao seguir nossa trilha, ele encontrou os restos do cabrito montês e parou para investigar. Com medo de termos sido feridos, seguiu em frente, e não estava muito longe do arvoredo quando foi atacado pelos chacais que ainda estavam por perto. Ele não sobreviveu. Os ossos roídos de nosso amado instrutor foram dispostos diante de nós três, e nossos pais prestaram homenagem a seu heroico sacrifício. Depois disso, Amon mudou. Fez uma promessa pública de nunca mais se esquivar de suas responsabilidades. Desse dia em diante, passou a treinar com aplicação e a exibir um comportamento irrepreensível.
— Entendi. Na verdade isso explica muita coisa. Mas e você?
O que tem eu?
— Seu comportamento também se tornou irrepreensível?
Asten riu.
Não gosto de me conformar nem de corresponder às expectativas alheias. Fiquei triste com a morte do nosso professor, mas não me culpei como fez Amon.
— Então por que ainda serve ao Egito? Você parece amar demais a vida para se contentar com milhares de anos vagando pelo mundo dos mortos. Por que não desiste?
Não houve resposta por alguns instantes, e eu estava prestes a repetir a pergunta quando Asten finalmente falou: Já pensei nisso. Na verdade, é a coisa em que mais penso durante minhas temporadas de mil anos. Bom, nisso e em todas as mulheres dispostas a me proporcionar uma acolhida de herói quando eu despertar. No entanto, mesmo sendo capaz de listar centenas de motivos para abandonar meu chamado, existe uma razão muito importante para eu continuar fazendo o que faço, milênio após milênio.
— Qual?
A grande ave moveu a cabeça para olhar o falcão dourado que voava logo atrás de nós. Levantou as asas e planou devagar até o falcão nos alcançar.
Eu amo meus irmãos.
Apesar de silenciosa, a declaração de Asten trazia a sugestão de uma dedicação arrebatada que me fez entender melhor o homem que ele era.
É simples assim. Eu não seria capaz de abandoná-los nem por todas as donzelas do mundo. Excluindo a que está aqui comigo agora, claro. Se você concordasse em voar comigo na direção do sol poente, eu os abandonaria sem pestanejar.
Afaguei seu pescoço macio e me perguntei, não pela primeira vez, que tipo de pássaro ele era; nunca tinha visto nenhum igual. Sorrindo, falei:
— Abandonaria nada.
Para seu governo, eu sou um íbis estrelado, uma criatura muito linda e rara. Quanto ao seu comentário, é só me dar oportunidade, princesa.
— Você não precisa de oportunidade. Falando nisso, havia alguma? Alguma princesa, quero dizer...
Está querendo saber se estou disponível para ser cortejado?
Revirei os olhos.
— Só estou curiosa para saber o que teria acontecido se vocês não tivessem virado semideuses. Imagino que Amon seja o mais velho, então ele teria sido o primeiro a se casar, certo?
O que faz você pensar que ele é o mais velho?
— Não sei. Deve ser porque ele despertou primeiro.
Ele não é o mais velho. Ahmose chegou alguns minutos na frente, e eu, uma ou duas horas depois.
— Espere aí. Está me dizendo que vocês são trigêmeos?
O que é trigêmeo?
— É quando três bebês nascem ao mesmo tempo da mesma mãe.
Ah. Entendi sua confusão. Nós não temos a mesma mãe.
— Quer dizer que o seu pai tinha... amantes? Concubinas? — perguntei, para esclarecer.
Não. Meu pai amava minha mãe, e somente ela.
— Então não estou entendendo mesmo. Como vocês podem ser irmãos se têm mães diferentes?
Nossos pais nos conceberam quando começaram a adorar Seth. Nós nascemos no mesmo dia, cada um no seu reino. Como fomos considerados presentes dos deuses, fomos criados como irmãos na esperança de que poderíamos unir o Egito sob um só líder. Nós nos revezávamos em cada um dos três reinos. Nem se o sangue nos houvesse unido como irmãos de verdade poderíamos ter sido mais próximos. Como cada um no fundo era herdeiro do próprio reino, não havia inveja nem animosidade entre nós.
— Parece um jeito bom de ser criado.
Não poderíamos ter tido uma infância mais encantadora nem mais feliz. Pronto, já contei um pouco sobre a minha infância. Agora, quem sabe, você possa me entreter com algumas histórias sobre a sua.
— Ah, não creio que você vá achar minha infância muito interessante.
Pelo contrário, acho você muito interessante.
— Como pessoa ou como mulher?
Não posso estar interessado nas duas?
— Acho que sim. O que você quer saber?
Por que não começa me dizendo qual é o seu maior desejo?
Eu ri.
— Por quê? Você por acaso é um gênio que vai me conceder três desejos?
Você está zombando de mim, princesa. Eu tenho capacidade para acessar a magia que flui entre as estrelas, o que não é pouca coisa. Vamos. Diga-me o que o seu coração deseja, e eu voarei até a estrela mais distante para tornar isso realidade.
Ainda que acreditasse que ele podia mesmo fazer o que estava dizendo, o que eu poderia desejar? Amor. A ideia despontou na minha cabeça como o sol que nasce no horizonte. Antes de Asten conseguir interceptar o pensamento, tentei distraí-lo dizendo alguma outra coisa:
— Queria que Amon ficasse bom outra vez. Você consegue realizar esse desejo?
Asten permaneceu alguns segundos calado antes de responder:
De nós três, quem tem o poder da cura é Ahmose. Ele fará o que puder quando despertar.
— Mas será que Amon vai ter poder suficiente para despertá-lo?
Se não tiver, eu o ajudarei.
— Obrigada.
Você se preocupa com Amon.
— Sim.
Mesmo conhecendo o dever dele?
— Sim.
Então ele tem sorte por ter encontrado alguém como você.
Umedeci os lábios ressecados pelo vento e perguntei:
— E o seu desejo, Asten, qual seria? Com certeza você deve ter pensado em alguma coisa durante todos esses anos preso no além.
Após um instante, ele falou:
Não ouso revelar o desejo do meu coração. Se eu o expressar, mesmo para alguém tão compreensivo quanto você, estarei depositando meu destino nas mãos de um universo frio. Enquanto eu o guardar só para mim, transbordarei de possibilidades, mas, se ele me escapar, ficarei perdido e vazio.
— Sinto muito pelo destino que vocês três compartilham. Parece muito solitário.
Nós temos um ao outro. Por isso, ao menos, eu sou grato.
Ele soou melancólico, e, para alguém cheio de vida como Asten, esse era um sentimento triste demais. Mudei de assunto e perguntei:
— O que você mais gosta de fazer quando desperta? Tirando as mulheres, quero dizer. Amon disse que o que mais lhe agrada são os banquetes.
Asten riu.
Sim, a comida sempre esteve entre as maiores preocupações de Amon. O que eu acho mais fascinante é ver como o mundo muda enquanto dormimos em nossas tumbas. Eu sou aquele que gostava de sair rumo a lugares desconhecidos em busca de aventura.
— Bem, muita coisa mudou nos últimos mil anos.
Me conte.
— Não sei nem por onde começar.
Por que não começa pela sua própria cidade? De onde você é? Sua pele é clara, mas você não parece ter ascendência grega nem romana.
— Não, eu não venho da Grécia nem da Itália. Moro em Nova York, que fica nos Estados Unidos. Foi lá que Amon despertou.
Fica perto daqui?
— Do outro lado do oceano.
Mudando de posição, aninhei-me entre as penas macias das costas de Asten e comecei a lhe falar sobre Nova York e sobre como havia conhecido Amon. As horas passaram depressa enquanto ele escutava, interrompendo-me apenas para esclarecer palavras que não conhecia. Assim, fiquei surpresa quando começamos a descer e a sobrevoar em círculos um pequeno grupo de colinas.
Amon disse que chegamos. Segure firme.
Asten recolheu as asas e despencamos em direção ao vale no deserto lá embaixo.

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