25 de outubro de 2016

17. A Balança da Justiça

— Osíris! — A deusa Maat girou, a boca formando um O surpreso.
— Peço desculpas — disse Osíris. — Não pretendo ser desrespeitoso. Mas você sabe tanto quanto eu que precisamos dela.
— Essa é a sua opinião — respondeu Maat. — A lei é...
— A lei não significa nada neste caso — disse Anúbis, dando um passo ousado à frente, o olhar correndo brevemente até mim.
Maat olhou-o como se ele fosse uma colegial bagunceira pronta para ser castigada com uma régua.
— Como você ousa dizer uma coisa dessas? — perguntou ela rispidamente. — A lei é tudo. Sem ela não há equilíbrio nem ordem.
— Maat — contrapôs Anúbis enquanto fazia um gesto com as mãos —, não acha que está sendo um tanto exagerada?
— Eu? Você permitiu que sua mente fosse nublada pelos mortais a quem favorece. Tem esperança de redenção onde nenhuma redenção pode ser encontrada. Mesmo que isso fosse permitido, e não é, a probabilidade de sucesso é infinitesimal e, de maneira nenhuma, vale arriscar a alma imortal desta aí. Além disso, não seria aconselhável que eu endossasse essa aventura idiota quando Amon-Rá se recusa a oferecer apoio. E mais...
— Ah, mas ele endossou — intervim. — Ele me guiou até Cherty na forma do pássaro Benu.
Maat virou-se para mim.
— Cale-se imediatamente! — berrou. — Responda apenas às perguntas que eu fizer. Caso contrário, fique em silêncio.
— Não tenho o direito de me manifestar ao decidirem o meu destino?
Dizer que Maat não gostava de ser contrariada seria um eufemismo de proporções gigantescas. Ela virou as costas para mim, me ignorando completamente, enquanto se dirigia à outra mulher.
— Esta não é uma ocasião em que deveríamos permitir que a influência de uma mortal interferisse nas nossas decisões, Néftis. Sei que você os ama, mas precisa ceder à minha experiência nesta questão.
Néftis torceu as mãos com nervosismo e olhou na minha direção. Em seguida, assentiu e tornou a se recostar no trono. Encarei-a, imaginando como uma criatura tão delicada e linda poderia ter concordado em se casar com o sinistro deus Seth. Amon-Rá dissera que ela era capaz de enxergar o coração dele. Pessoalmente eu não ia querer nem chegar perto do sujeito para fazer uma coisa assim. Um arrepio percorreu minha espinha quando pensei nele.
Maat voltou a atenção para mim, provavelmente se preparando para me banir de novo, mas Anúbis interrompeu:
— Espere! Eu me ofereço para ser o patrono dela.
Maat fechou os olhos, beliscando a ponte do nariz com a ponta dos dedos.
— Você não pode, Anúbis. Já sabe disso. A lei diz que você só pode escolher um mortal, e você já fez isso. Este — ela fez um gesto vago na direção de Asten — ... jovem foi sua escolha. Você o imbuiu com seus poderes há quantos anos?
— Milênios — murmurou Anúbis, tenso, com um olhar rápido para Asten.
Maat sorriu.
— Exato. Você só pode advogar por um mortal enquanto ele ainda viver. E ele vive... de certa forma.
— Eu serei sua madrinha — ofereceu a deusa de fala mansa, Néftis.
— Ah, Néftis. — Maat estalou a língua. — Você não tem permissão de participar de algo assim. Sabe que seus direitos foram retirados, por causa dos atos de seu marido desgarrado.
— Eu sei — admitiu Néftis. — Só que eu gostaria de ajudar.
— Devo lembrar que foi sua ajuda que nos colocou nesta confusão, para começo de conversa. Se você não estivesse tão ansiosa para ganhar a atenção e a aprovação do seu marido, teria contado o que ele pretendia fazer muito antes de termos de pedir ajuda aos Filhos do Egito. Não que eu a culpe, querida. Não é incomum uma mulher comprometer os próprios valores para obter o afeto de um homem.
— Sim — disse Néftis humildemente. — Claro. Eu entendo.
Meus punhos se fecharam e precisei me esforçar para manter as garras retraídas. Tia se eriçou junto comigo. Até agora não estávamos gostando nada da deusa da justiça.
— Eu tenho o direito de patrocinar alguém — exclamou Osíris, levantando-se do trono e se aproximando do tablado. — Não é, Maat?
A deusa hesitou.
— Tecnicamente você tem esse direito, Osíris. Mas, ao fazer isso, vai se permitir sucumbir aos poderes do escaravelho do coração que está com ela.
— Isso é completamente falso — garantiu ele. — Você pode julgar meu coração, se quiser, mas sabe que estou ligado a Ísis. Amo minha esposa. Meu relacionamento me oferece proteção contra a influência do escaravelho. Anúbis — ele fez um gesto para o deus encostado na parede — pode estar sob a influência dele...
Um olhar para Anúbis provou que Osíris tinha chegado à conclusão correta. Anúbis tinha os olhos fixos em mim e não parecia disposto a afastá-los.
— ... mas eu garanto que não estou — continuou Osíris.
— Está tudo muito bem — disse Maat —, mas eu o alertaria a não desperdiçar um dom tão precioso com alguém como ela.
— Ei! — reagi bruscamente.
Ela me ignorou.
— Verdade? — perguntou Osíris. — E por quê? — inquiriu ao cruzar os braços e me avaliar, pensando nas palavras dela. Mas, quando Maat não estava olhando, ele piscou e eu tentei em vão reprimir um sorriso.
— Em primeiro lugar, ela ainda está viva. Nós não julgamos os vivos. — Maat segurou a barra da balança e levantou o queixo teimoso, esperando a resposta dele.
— Só isso? — perguntou Osíris com calma.
A deusa hesitou por um momento.
— Não. Há mais. Ela quer entrar no mundo dos mortos para salvar seu amado. Na última vez em que permitimos uma coisa assim, houve sérias consequências. E devo lembrar que o amor perdido dele estava residindo aqui, no além, o que é inerentemente menos perigoso. Foi por isso que decidimos proibir uma coisa dessas.
— Humm. — Osíris virou-se para mim. — Você está querendo salvar seu amado? Trazê-lo do mundo dos mortos para ficar com você? — Quando olhei para Maat e hesitei, ele acrescentou: — Pode falar.
— Eu nem pensei que seria possível trazê-lo de volta para o mundo dos vivos. Por mais que eu queira ficar com ele, nós dois sabemos que ele tem um dever a cumprir.
— Pronto. — Osíris sorriu para mim. — Ela não tem intenção de levá-lo.
Maat revirou os olhos ligeiramente para ele.
— Esse é um detalhe técnico.
— Assim como sua fixação pela lei — observou Osíris.
O rosto da deusa ficou roxo.
— Você não entende? Ela não vai sobreviver à viagem! Amon está perdido. Tudo está desequilibrado. Perdê-la também é... é impensável. Ela é importante demais!
Nós somos importantes?, perguntei a Tia. O que você acha que ela quer dizer?
Não tenho certeza. Talvez devêssemos tentar conseguir alguma informação com Anúbis. Ele nos
deixou lamentavelmente despreparadas para esse tribunal.
Ele nem se referiu ao julgamento, observei.
Sim. E isso me faz pensar no que mais ele pode ter esquecido de mencionar.
Osíris argumentou calmamente:
— Neste momento a importância dela é indeterminada, na melhor das hipóteses. Ela seguiu todas as regras para entrar no além e se apresentou adequadamente para o julgamento.
— Porque teve ajuda — declarou Maat, frustrada.
Osíris olhou para as formas imobilizadas de Asten e Ahmose. Com um movimento de sua mão, o encanto desapareceu e os dois olharam em volta, confusos.
— Vocês dois ofereceram ajuda a esta jovem enquanto a guiavam até aqui?
Ahmose sacudiu a cabeça.
— Ela passou pelos mesmos testes dos desincorporados. Não a ajudamos nem protegemos de nenhum modo.
— Não foi necessário — disse Asten. — Mas, se fosse, teríamos ajudado — acrescentou com honestidade.
— Está vendo? — Maat saltou ao ouvir a resposta dele. — Eles violariam a lei para ajudá-la. Como Amon fez ao escapar ao julgamento!
Osíris interveio:
— Você não pode ignorar o fato de que todos nós concordamos que ela é vital. Se ela fracassar, tudo desmorona. Mas se ela tiver sucesso...
— Se ela tiver sucesso, há uma chance de trazer o equilíbrio de volta — disse Néftis baixinho. — Isso pode reverter as coisas. Pode transformá-lo.
Maat suspirou.
— Há muito pouca chance de isso acontecer. Receio que você seja a única que ainda tem esperanças nele. Você deseja um resultado tão impossível que tem o fracasso como quase certeza.
— Vamos falar sobre o que está realmente incomodando você — disse Anúbis.
Enrijecendo-se, Maat respondeu:
— Não sei o que você quer dizer.
— Acho que sabe. Você não gostou de Amon não ter oferecido o coração quando você o exigiu.
— Ninguém nega meus pedidos — disse ela, carrancuda, olhando Anúbis com irritação. — É a minha vocação, meu direito de pesar os corações. Sou a grande juíza, sou a que encontra o equilíbrio. Como vocês esperam que eu realize alguma coisa quando vivem me atrapalhando? Até mesmo Amon-Rá...
— Talvez a senhora possa julgar o coração dele agora — sugeri.
A deusa levantou os olhos.
— Como assim?
— Pensei que a senhora poderia pesar o coração de Amon a partir do escaravelho do coração que ele me deu. Presumindo que isso seja possível, claro.
Os deuses arquejaram coletivamente e eu me perguntei se teria cometido uma tremenda gafe no além. Ninguém disse nada por um momento e, quando olhei para Asten e Ahmose, vi que tinham as costas empertigadas, nenhum dos dois ousando olhar na minha direção.
Maat disse finalmente:
— Ninguém jamais ofereceu uma coisa assim. Você precisa entender que um escaravelho do coração é um símbolo de afeto muito particular e pessoal. O que você propôs nunca foi feito. Não sei se ao menos posso pesá-lo, nem se o fato de pesá-lo provocará dano à conexão entre vocês dois. Além disso, devo alertar que, ainda que eu possa julgá-lo, você será responsabilizada por qualquer coisa que eu encontre.
— Sabe o que isso significa, Lily? — alertou Anúbis, a preocupação sombreando seus olhos. — Você pagará o preço pelos atos de Amon, e não somente durante o período mortal, mas durante toda a existência dele, até o tempo que passou no mundo dos mortos.
— Entendo. Mas não tenho medo do que vocês encontrarão no coração de Amon.
— Não é mais você somente, Lily — acrescentou Asten, franzindo a testa. — Tia também pagará o preço.
Tia?, sussurrei na mente enquanto punha a mão no peito, onde meu coração batia num ritmo firme.
Se você acredita que esse é o caminho certo, eu concordo, respondeu Tia.
Tem certeza?
Se você confia, então eu também. Eu não temo o resultado. Assim como estamos unidas no corpo, estaremos unidas diante do desconhecido. Estou com você.
Certo, eu disse, o coração inchando de emoção com o nível de confiança que Tia demonstrava.
Eu me sentia muito agradecida por não passar sozinha por isso.
— Vamos submeter o escaravelho a julgamento — declarei, soltando o broche do ombro e entregando-o.
— Bom, como todos estamos nos entendendo tão bem neste momento, será que podemos deixar de lado a atmosfera sinistra? — perguntou Néftis timidamente.
— Ah, acho que sim — respondeu Maat, obviamente num humor muito melhor, agora que tinha seu prêmio.
Enquanto ela se ocupava junto à Balança da Justiça, Néftis se levantou do trono e fez um arco amplo com a mão, da esquerda para a direita. Assim que terminou, a sala tremeluziu. A pedra escura se transformou num ladrilho de um branco reluzente com acabamento em ouro e as tochas se transformaram em candelabros resplandecentes iluminados pela luz suave de velas. Lustres pendiam no alto. Em cada canto do salão comprido havia uma impressionante estátua de um dos quatro deuses, com um oratório nas alcovas atrás delas. A música de antes continuava, mas os músicos desapareceram e altos vasos se encheram com plumas brancas de pontas douradas que fizeram com que eu me lembrasse de Ísis.
— Elas pertencem à sua esposa? — perguntei a Osíris, apontando para as penas.
Ele deu um sorriso triste.
— São minha única lembrança dela nos longos períodos que passamos separados.
— Ela não pode ficar aqui com o senhor?
— A lei... — ele começou a explicar, depois deu de ombros com um sorriso enquanto se virava para Maat.
— Às vezes a lei é um saco, não é? — comentei.
Osíris deu um sorriso breve.
— É. Ela... é um saco. — Sua boca se moveu ao dizer a palavra, como se nunca a tivesse ouvido com esse sentido. Em seguida olhou na minha direção. — É uma coisa muito corajosa o que você está fazendo. Todos achamos.
— Parece que nem todo mundo — sussurrei, e indiquei a deusa curvada sobre a balança.
— Em geral ela não é tão rabugenta — explicou ele. — Ela se culpa pelo que Seth fez.
— Por quê?
— Ela é responsável por separar o Caos da Ordem. Quando o Caos começou a tomar conta, ela achou que sua própria fraqueza era a causa. Depois de Seth ser aprisionado, ela decidiu se ater à lei com mais rigidez ainda, na esperança de que aquilo nunca mais acontecesse. Maat sofreu muito com a perda dos nossos avós. A forma que encontrou para enfrentar tudo que aconteceu foi tentar estabelecer a harmonia cósmica absoluta.
Osíris encolheu os ombros e continuou:
— Ela esqueceu que o objetivo da lei e a proteção e a justiça que ela oferece costumam ser mais importantes do que a lei em si. A misericórdia sempre deve equilibrar a justiça. Infelizmente parece que ela negligenciou esse aspecto no decorrer dos séculos. Por isso Maat gosta de manter Néftis por perto. Néftis é a voz da misericórdia que equilibra sua fixação inabalável pelas regras.
Ele sorriu e continuou, indicando o salão em que se encontravam:
— É por isso que este lugar costuma ser chamado de Salão das Duas Verdades.
— A verdade da justiça e a verdade da misericórdia? — perguntei, com minha capacidade de discernir a verdade aparecendo.
— Isso mesmo.
— Estamos prontos — disse Maat. — Osíris, tem certeza de que quer defendê-la?
— Tenho — respondeu ele.
— Muito bem. Então vamos começar.
Maat colocou o escaravelho do coração num suporte perto da grande balança e depois se aproximou de uma caixa dourada em cima de um pedestal que não estivera ali antes de Néftis transformar o salão. De dentro da caixa, com reverência, tirou um objeto.
— Esta é a Pena da Justiça — disse. — Seu peso é pequeno, quase insignificante. Quando um coração está livre do mal, não tem o peso da tristeza nem da culpa. Nesse caso, a balança fica equilibrada e a pessoa pode manter o coração e ser admitida no paraíso. Esse tipo de coração é muito incomum. Quando uma alma cometeu algum malfeito mas se arrependeu, fez algo para compensar o mal e aprendeu com a experiência, permitindo que o coração fosse moldado com mais generosidade e empatia, a balança se inclina apenas ligeiramente e essa pessoa também é admitida no paraíso. Esse é o tipo de coração mais comum.
— E quando a pessoa cometeu o mal? — perguntei, umedecendo os lábios.
— O coração de quem faz o mal é pesado. O peso depende da quantidade e da profundidade dos crimes cometidos. Em alguns casos, a pessoa pode ser reabilitada. — Confirmei com a cabeça, lembrando-me dos shabtis trabalhando no Campo dos Juncos. — Mas muitas vezes — prosseguiu ela — um coração desses não tem lugar aqui, e junto com o dono ele é mandado para o mundo dos mortos, um local de tormento e sofrimento, e eventualmente a pessoa sucumbe à sua segunda morte, definitiva. Então sua essência de vida, se não alimentar a Devoradora, retornará às Águas do Caos.
Maat brandiu a pena, erguendo-a bem alto antes de pousá-la suavemente na balança. A pena era bem diferente das de Ísis. Parecia feita de vidro.
— É diamante — disse Osíris, como se estivesse lendo minha mente.
A pena brilhante era mesmo cristalina, quase como se estivesse coberta por gotas d’água. Agora eu sabia que cada fiapo era de um fino diamante, com uma minúscula gota em cada ponta farpada.
Quando ela pegou o escaravelho do coração, por um segundo entrei em pânico e mentalmente cruzei os dedos, esperando que o que quer que acontecesse em seguida não ferisse Amon e que eu estivesse fazendo a coisa certa.
— Vamos começar — disse Maat. Olhando diretamente para mim, perguntou de novo: — Qual é sua condição?
Mordi o lábio, pensando na resposta certa, e já ia responder humana ou esfinge quando Osíris disse:
— O coração delas é sem culpa. Elas estão livres de todo pecado.
— Você cometeu violência?
Dessa vez Osíris recuou e assentiu, indicando que eu deveria responder.
— Só quando atacada.
— E para comer — acrescentou Tia.
— Eu matei feras inocentes que assassinaram meu professor — disse Osíris. — Castiguei os que feriram meus súditos, mas jamais gostei da violência.
Olhei para Osíris, franzindo a testa, perplexa. Ele parecia estar numa espécie de transe. Pensando em suas palavras, percebi que ele não estava falando por si mesmo. Osíris estava incorporando Amon.
Maat assentiu, satisfeita com nossas respostas, e notei que o coração descera quase imperceptivelmente na balança.
— Já pegou algo que não pertencesse a você?
— Não — respondeu Tia, confiante.
Osíris falou em seguida:
— Peguei o barquinho de brinquedo de Ahmose quando éramos pequenos. Fiquei com ciúme porque o dele era mais bem-feito e mais rápido do que o meu. Afundei-o no Nilo e jamais contei a ele, apesar de ele ter chorado.
Olhei para Ahmose. Sua expressão foi de surpresa e depois de perdão.
— E você, Lily? — perguntou Maat.
Dei de ombros.
— Nunca tive necessidade de pegar nada que não me pertencesse. Meus pais sempre deram o que eu pedi e nunca passei tempo demais com outras crianças para fazer amizade, quanto mais para pegar o que era delas.
A deusa se virou e olhou para a balança. Um leve franzido surgiu em sua testa, mas logo sumiu e ela fez a pergunta seguinte:
— Já cometeu perjúrio, ocultou a verdade ou enganou outra pessoa?
De novo Tia declarou com coragem:
— Sempre fui sincera.
Fiz uma careta, desejando ser mais parecida com Tia.
— Eu menti... com frequência, para ser honesta. Escondi o escaravelho de Anúbis. Meus pais nem sabem que estou aqui. Não fazem ideia de que sou uma esfinge. Acham que neste momento estou na casa da minha avó. Não sabem sobre Amon nem sobre o que aconteceu na primavera passada. Disse a eles que estava feliz com os planos que fizeram para mim, quando a verdade é que tenho pavor de cada segundo do meu futuro. Contei tantas mentiras aos amigos e conhecidos deles que nem me lembro de todas. Menti até sobre a tintura do meu cabelo!
Néftis pôs a mão sobre a boca e deu uma risadinha, mas parou imediatamente depois de um olhar penetrante de Maat.
— E por que você contou todas essas inverdades, Lily? — perguntou ela.
— Quase sempre para que eles não se preocupassem.
— Você estava tentando escapar do castigo?
— Na verdade, não. Minha vida em casa já é um castigo. Nenhuma atitude deles me faria sofrer mais do que o que eles já planejaram para mim. Eu só queria manter o segredo sobre Amon; não achei que eles fossem entender.
O escaravelho baixou enquanto Maat fazia o julgamento, e dessa vez o movimento foi claramente visível.
— Você não acha que está sendo um pouquinho dura com ela por causa disso? — perguntou Anúbis, e notei que agora ele estava muito mais perto de mim do que antes.
— Não é você quem decide isso — respondeu Maat rigidamente. — E Amon? — Ela gesticulou na direção de Osíris.
— Eu menti para Lily. Fiz com que ela achasse que eu não gostava dela quando estava me apaixonando. Disse aos meus irmãos que poderíamos concluir com sucesso a cerimônia para alinhar o sol, a lua e as estrelas sem ela, quando sabia que fracassaríamos. Coloquei o bem-estar dela à frente do meu dever — murmurou Osíris em seu transe. — Quando Asten e Ahmose perguntaram o que havia de errado, escondi meus sentimentos. Eles não sabiam como eu estava desesperado para sair daquilo. Escapar. Que eu sacrificaria qualquer coisa, inclusive meu relacionamento com eles, até o próprio Cosmo, para ficar com ela.
Osíris continuou no mesmo tom distanciado:
— Ela não sabe que, sem ela, não há esperança para mim. Não há vida. Só a morte e a escuridão. Ela achou que eu fui corajoso ao me sacrificar na pirâmide, mas, se Anúbis tivesse me dado somente mais uns poucos minutos a sós com ela, eu teria usado todo o poder à minha disposição, até mesmo o Olho de Hórus, para fugir com ela e nos esconder nos lugares mais remotos do Cosmo. Se eu soubesse que ela concordaria, passaria de bom grado a vida inteira tentando evitar os deuses, só para ficar com ela. Depois da minha morte, a única opção era escapar para o mundo dos mortos. Desde então usei todos os poderes à minha disposição para impedi-la de se sacrificar por mim, no entanto parte de mim está feliz porque continuamos ligados e ela ainda quer estar comigo, tanto quanto eu quero estar com ela. Eu faria qualquer coisa por ela. Qualquer coisa. Esse foi o motivo para ter me recusado a pesar meu coração.
Quando Osíris terminou de falar, o salão ficou em silêncio. Uma trilha de lágrimas escorria pelo meu rosto. Se Amon tivesse me pedido para fugir, acho que eu teria ido. Especialmente se isso significasse que ele não precisaria morrer. Eu não tinha certeza do que isso dizia sobre mim, o fato de ser capaz de colocar meu relacionamento, a vida de um único homem, do homem que eu amava, acima do bem-estar de todas as almas que viviam no Cosmo, mas era algo em que pensar. Foi Anúbis que finalmente rompeu o silêncio:
— Em geral um escaravelho do coração impede que o coração do dono testemunhe contra ele num julgamento.
Maat respondeu em voz baixa:
— Neste caso estamos ouvindo o eco dos pensamentos dele através de Lily e Tia. Os verdadeiros sentimentos de Amon são invocados através da conexão entre eles. Há mais alguma coisa que tenha a ver com esta questão?
Osíris franziu o rosto como se tivesse alguma coisa a dizer mas estivesse tentando se segurar.
Gotas de suor surgiram em sua testa. Então, finalmente, ele disse:
— Lily está de posse do meu ren. — O deus ofegou depois de pronunciar essas palavras e olhou para Maat, alarmado. A expressão dela ecoava a dele. Na verdade, todos os deuses, assim como Asten e Ahmose, pareciam perplexos, e não de uma forma positiva.
— O que isso significa? — perguntei, cautelosa. — O que é um ren?
Foi Asten quem explicou:
— Nem mesmo nós conhecemos o ren de Amon. É o verdadeiro nome dele. Pronunciar um nome verdadeiro é dar vida a alguma coisa.
— Ou a morte — completou Ahmose. — Esse conhecimento dá a quem o tem o poder absoluto sobre a pessoa.
Todos me fitavam como se um terceiro olho estivesse acabado de brotar na minha testa.
— Bom, eu não estou de posse dele — declarei, gesticulando loucamente com as mãos. — Acho que eu saberia, se estivesse.
— O escaravelho de Amon fala a verdade, Lilliana Young — disse Maat. — Na Balança da Justiça ele não pode evitar isso. Este é um sinal — acrescentou, gesticulando enfaticamente para os outros deuses.
— Ainda não sabemos — alertou Anúbis. — Pode ser que ele só quisesse compartilhá-lo com ela. Não significa necessariamente o que você acha.
— Se Amon está sob o poder da balança, eu também estou — observei. — Então a senhora sabe que estou dizendo a verdade quando afirmo que não tenho conhecimento do ren dele. Se tenho, então não sei disso.
— Vocês acham que isso poderia mesmo ter alguma coisa a ver com a profecia? — perguntou Anúbis.
— Não há como dizer — respondeu Néftis.
— Que profecia? — perguntei, olhando um deus de cada vez.
Todos pareciam relutantes em falar. Quando me virei para Asten, ele deu ligeiramente de ombros.
— Existe uma profecia antiga sobre o Caos — explicou Maat. — Diz que chegará um tempo em que o Caos reinará sobre o Cosmo. A harmonia será perdida. A Ordem vai se fragmentar. O poder dos deuses ficará preso numa teia de aranha. É quando a Libertadora aparecerá. Mas ela não poderá salvar tudo que foi perdido. Será necessário um grande sacrifício para trazer de volta o equilíbrio. Ela usará um nome verdadeiro para engolir o Sol, que vai desaparecer para sempre.
— E vocês estão dizendo que acham que eu sou essa tal Libertadora?
— Não sabemos — respondeu Néftis. — É uma profecia muito antiga. Mas Amon...
— Sim. Entendi. Ele é imbuído do poder do Sol. E supostamente eu tenho seu nome verdadeiro — comentei.
— Se ela soubesse mesmo o nome de Amon, isso tornaria tudo mais fácil — observou Anúbis.
— Como assim? — Cruzei os braços e franzi a testa.
— Você poderia usá-lo para invocá-lo. Ele não teria escolha a não ser obedecer ao seu chamado.
— Eu... eu poderia fazer isso? — gaguejei. — Parece um tremendo poder.
— E é — disse Osíris. — Por mais que eu seja devotado à minha esposa, não conto a ela meu nome verdadeiro. É uma coisa poderosa para outra pessoa saber; ficamos duplamente vulneráveis.
— Eu jamais faria alguma coisa para prejudicar Amon — protestei.
— Talvez não intencionalmente, querida — retrucou Néftis. — Mas há um poder em saber, e quem quiser explorá-lo pode vir atrás de você.
— Sim — disse Maat. — Esse conhecimento deve permanecer aqui, entre nós. O fato de Lily estar de posse do ren de Amon jamais será mencionado por nenhum de nós. De acordo?
— De acordo — disse cada um dos deuses. Ahmose e Asten também assentiram.
— Muito bem — continuou a deusa da justiça. — Vamos concluir isso, então?
Com base em sua atitude, eu quase podia dizer que as perguntas que restavam eram supérfluas.
Ela já havia tomado sua decisão.
Quando Maat perguntou se já havíamos feito alguém chorar ou partido corações, não fiquei surpresa com a resposta de Amon, e a minha foi fácil. Meus pais teriam mais probabilidade de ficar com o coração partido por causa de uma carteira de ações desvalorizada do que por mim, mas a resposta de Tia foi surpreendente. Ela disse:
— Infelizmente o coração de uma leoa é feito de material duro demais para amar e talvez forte demais para se partir. — Essa declaração me deixou triste, especialmente sabendo que era assim mesmo que ela se sentia.
Maat assentiu com a cabeça.
— Essa é a pergunta mais importante de todas. É fundamental ter um calibre moral forte o bastante para não pegar o que não nos pertence, assim como ser sincero ou não causar mal físico, mas é o coração que fala do caráter de uma alma.
Ela me encarou antes de continuar:
— Vocês três têm grande consideração e grande amor pelos que estão à sua volta. Até mesmo Amon, que admite ter fugido e que desejava se esconder de seu dever, fez isso por amor. Esse desejo é absolutamente humano. Não é algo ruim desejar o amor e a ligação com outra pessoa, e sim um dom pelo qual vale a pena lutar. Cada um de vocês falou não sobre o desejo de impor sua vontade aos outros, subjugar ou intimidar, e sim sobre a tristeza da perda.
A deusa suspirou e se virou para a balança. Pondo as mãos sob cada prato, fechou os olhos e entoou um canto em voz baixa. Quando os abriu, pegou a pena com uma das mãos e o escaravelho do coração com a outra e se aproximou do tablado.
— Um julgamento foi pedido e um julgamento foi feito — disse Maat. — Julguei o coração do falecido, Amon; do espírito viajante, Tia; e da que ainda está viva, Lily. Suas almas testemunham por eles. Com toda a sinceridade decreto que...
Respirei fundo e mordi o lábio inferior, nervosa. Asten me olhou com expressão preocupada, o que me fez duvidar ainda mais de mim mesma, e mudei de posição, desconfortável.
— ... seus feitos são justos na balança da vida. Os malfeitos descobertos foram absolvidos. Os corações são sinceros e terão concedida a passagem para o paraíso.
A deusa sorriu e eu senti o fluxo doce do alívio nas minhas veias, mas ao mesmo tempo me perguntei o que significava sua decisão. Eu não tinha de ir para o mundo dos mortos? Como isso seria? Amon não estava no paraíso. Fiquei imóvel, torcendo as mãos, imaginando o que aconteceria em seguida. Felizmente não precisei esperar muito.
— De fato é uma coisa boa — disse Anúbis. — Mas, mesmo assim, ela precisará que você abra o caminho para o mundo dos mortos.
— Não posso fazer isso — respondeu Maat.
— Como ela irá para o mundo dos mortos se você não a mandar? — perguntou Anúbis.
Maat suspirou.
— Não posso mandar uma alma boa para o mundo dos mortos, mesmo que ela esteja disposta a isso. Amon pôde dar o salto porque possui o Olho de Hórus.
— Então estamos sem opção? — perguntou Anúbis.
— Ela poderia agarrar-se a um condenado — sugeriu Maat.
— Isso poderia levar décadas! Os corações mais vis, merecedores da condenação, não aparecem todo dia — proclamou Asten.
— E será que você tem outra ideia? — respondeu Maat.
Asten cruzou os braços.
— Sim — disse ele. — Eu tenho uma ideia.
— E qual é, por favor? — perguntou Maat.
— Acho que você deve saber que meu coração é suficientemente mau. Ela pode ir com ele.

2 comentários:

  1. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
    TIPO QUE !?!?!?

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