25 de outubro de 2016

16. Guardiões dos portões

— Mocinha! — sibilou Cherty, agarrando meu braço e me puxando para longe. — Ninguém toca nos guardiões: nem no Sonhador nem no Desbravador. Você não faz ideia das coisas terríveis que podem lhe acontecer. — O barqueiro passou o braço pelo meu ombro. — O Sonhador atormenta os malignos com as visões mais horrendas enquanto os guia para o Pórtico do Julgamento, e o Desbravador... bom, digamos apenas que ele gosta tanto de afastar as pessoas do caminho quanto de mantê-las nele — sussurrou.
— Tudo bem — eu disse, sorrindo. — São os irmãos do meu namorado.
— Do seu namorado? Está me dizendo que seu namorado é o Revelador?
— Acho que sim — respondi franzindo a testa. — O nome dele é Amon.
Cherty bateu com a palma da mão carnuda na testa.
— Pelas pústulas pulsantes de Apep, mocinha! Você quer morrer? O que eu estou perguntando? Claro que você quer morrer. Você está aqui, não é?
Ele deu um soco na lateral do barco, o que me mostrou como estava chateado, e continuou com seu sermão:
— Já é suficientemente ruim você ter chegado aqui, sendo uma alma viva e coisa e tal. Agora descubro que é apaixonada por um dos três andarilhos, os sem alma. E pelo pior deles, ainda por cima. O Revelador mostra aos mortos exatamente o que eles não querem ver. E na maior parte do tempo não é uma imagem bonita. Nada de bom vem de ajudar um homem assim.
— Eles não são sem alma. Só receberam um trabalho muito difícil, que exige que sirvam aos deuses. Tenho certeza de que, qualquer que seja a tarefa, eles não sentem prazer com ela. Aliás, você mesmo deve saber um bocado sobre isso, devo acrescentar.
Ele segurou meu braço e me sacudiu ligeiramente.
— Acredite em mim: vai se meter num monte de encrencas se andar com gente como esses dois aí.
Ahmose deu um passo à frente.
— Tenha cuidado com ela. Ela é frágil.
Fungando, Cherty respondeu:
— Isso mostra que vocês não sabem de nada. Essa aí é tão frágil quanto o traseiro de um dragão.
Estreitando os olhos, Ahmose disse:
— Ela vai estar segura nas nossas mãos, barqueiro. Eu garanto.
— É melhor você partir agora — acrescentou Asten com um olhar ameaçador que eu nunca tinha visto nele antes.
O barqueiro olhou nos olhos de Ahmose e pareceu encontrar alguma coisa ali, porque seus ombros curvaram-se e ele se virou. Carrancudo, me disse:
— A escolha é sua, então. Ainda quer ir com eles?
— Quero. Preciso encontrar Amon.
Ele continuou de costas para mim, sua respiração profunda e entrecortada.
— Como quiser, então. — Em seguida pigarreou e cuspiu uma última bola de catarro esverdeado na água. Pegando uma sacola e um frasco em seu estoque, empurrou-os para os meus braços.
— O que é isto? — perguntei.
— Algumas provisões. Sem comida, uma alma viva como você não vai durar muito, especialmente no mundo dos mortos. Coloquei aí um punhado de passas, cada uma delas vai encher sua barriga durante horas; uns bolos de figo que se duplicam quando você os parte; e esse frasco de sidra que nunca seca.
— É muita gentileza — agradeci, pegando os objetos e colocando-os na minha sacola.
— E aqui. Pegue isto também.
Ele me jogou uma moeda de ouro com a estampa de um homem encurvado sobre uma vara em cima de um barco.
— É você — observei.
— Quando quiser voltar, jogue isso na água. Eu virei buscá-la.
Com todo o cuidado pus a moeda no fundo da aljava, depois envolvi com os braços a cintura grossa de Cherty.
— Obrigada — murmurei de encontro ao seu peito.
Em seguida me estiquei na ponta dos pés e beijei seu rosto, que ganhou uma tonalidade vermelha brilhante que se expandiu até o pescoço.
— De nada. — Cherty se afastou um passo e parou para soltar a corda do cais. Depois de jogá-la de qualquer jeito a bordo, pôs a mão pesada no meu ombro. — Só prometa que vai ter cuidado, mocinha. Não confie nos sem alma. Eles não são os poderosos homens de valor que você acredita serem.
— Vou ter cuidado — prometi.
Ele grunhiu, subindo a bordo da linda embarcação e dando início ao retorno pelas águas traiçoeiras de onde mal havíamos escapado horas antes.
Virei-me e dei um sorrisinho para Ahmose e Asten enquanto apertava o arco com força.
— Oi — disse.
Seus olhares se cravaram em mim. Asten foi o primeiro a falar:
— Lily! O que foi que você fez?
— O que vocês querem saber primeiro? — perguntei com uma expressão acanhada.
— Como chegou aqui? — perguntou Ahmose com insistência.
— De barco — respondi, e apontei com o polegar por cima do ombro, sorrindo, atrevida. — Mas acho que isso é bem óbvio.
— Não tem graça, Lily — retrucou ele.
— É — suspirei. — Não tem. Para resumir uma longa história, Anúbis me recrutou. Ele precisa que eu encontre Amon.
— Amon? — repetiu Ahmose, nervoso, desviando o olhar para Asten. — Por que ele quereria que você fizesse isso?
— Acho que é porque eu sou a única que pode.
Reposicionei a sacola no braço de modo que eles vissem o escaravelho verde e reluzente preso no ombro.
Os dois irmãos arregalaram os olhos, Ahmose recuando um passo enquanto Asten se aproximava. Ele tirou a luva de malha de bronze e empurrou meu cabelo para trás antes de esticar as pontas dos dedos na direção do escaravelho. Num impulso, encostei meus dedos nos dele.
— Eu posso tocar você — falei. — Fiquei imaginando se seria possível.
— Claro — respondeu Asten, o olhar caloroso conectando-se ao meu. — O que você esperava?
Dei de ombros.
— Não sei. Pensei que vocês seriam espíritos, acho. A princípio não pude tocar em Amon, mas agora que sou uma esfinge... — Deixei o resto no ar e vi os dois irmãos se encarando. Asten examinou o escaravelho e anunciou num tom definitivo: — É dele.
— Por que ele faria isso? — perguntou Ahmose.
— Não é óbvio? — respondeu Asten. — Ele a ama.
Asten me olhou como se procurasse a esquiva emoção no meu rosto. Pareceu perplexo, mas ao mesmo tempo fascinado com a ideia.
— Sim — murmurou Ahmose. — Mas arriscar uma coisa assim...
— Percebemos que ele estava diferente no último despertar. Isto explica.
Asten bateu de leve na pedra preciosa.
— Mas quando? — perguntou Ahmose.
— Pouco antes de Anúbis matá-lo — respondi, e deixei a alça da aljava cobrir o escaravelho, ligeiramente desconfortável com a atenção que os dois me dedicavam. — Amon achou que eu estava morta. Estava quase. Mas Anúbis disse a Amon o que fazer para me curar.
— Ele se ligou a você — murmurou Asten, pensativo.
Confirmei com a cabeça.
— Sim, mas em seguida ele ouviu que precisava quebrar o elo. Eu deveria matá-lo. Mas não pude, e Anúbis se ofereceu gentilmente para... ajudar — falei com sarcasmo. — Mais tarde descobrimos que o elo continuava ativo, o que acabou sendo uma coisa boa, porque agora tenho a capacidade de encontrá-lo.
— Encontrá-lo? Então você está dizendo que ele se perdeu? — Ahmose deu um passo à frente, o rosto sombrio com a preocupação.
— Parece que ele saltou para o mundo dos mortos.
— O mundo dos mortos! — Os homens se entreolharam. Depois, como se fossem um só, agarraram meus braços e me puxaram pelo cais.
— Precisamos correr! — disse Ahmose.
Meus pés mal faziam contato com as tábuas do cais.
— Esperem um momento — pedi. Como nenhum deles parou, gritei: — Esperem aí!
Um interruptor foi acionado dentro da minha mente com um rosnado profundo. Tia estava no comando. Ela soltou nossos braços do aperto firme dos dois e girou. Agachando-se, com as garras estendidas, olhou furiosa para os irmãos.
— Vocês não vão tocar em Lily desse modo — sibilou ameaçadora, inclinando a cabeça enquanto os encarava.
Ahmose pareceu horrorizado, mas a expressão de Asten mostrou curiosidade. Um sorriso maroto levantou os cantos de sua boca e uma covinha apareceu na bochecha. Seus olhos brilharam, como se estivesse interessado em desafiar Tia.
— Ah — disse ele. — Quase esqueci. Você não é só Lily agora.
— Isso mesmo — zombou Tia. — Vocês dois não são os únicos... protetores dela.
Asten fez uma reverência, mas foi quase como se zombasse.
— Dá para ver, Senhora Leoa. Pedimos desculpas por... tê-la tratado de forma rude.
Tia moveu nossas pernas ainda agachada.
— Vocês dois vão andar à nossa frente. Nós vamos atrás. Mas primeiro vocês vão dizer para onde nos levam.
— Claro — disse Ahmose, afável. — Vamos escoltar vocês até o Pórtico do Julgamento. Como Amon está no mundo dos mortos, o tempo é fundamental.
— Anúbis tem muita coisa a responder — acrescentou Ahmose. — Não sabíamos que Amon tinha dado a Lily seu escaravelho do coração. Disseram simplesmente que ele estava numa tarefa diferente no momento. O desaparecimento dele foi escondido de nós, e saber que fomos deixados no escuro de propósito é muito perturbador.
— Mas sabíamos que alguma coisa não estava certa — disse Asten a Ahmose.
Asten se virou para nós outra vez.
— Vocês vão nos acompanhar?
Tia fez uma pausa e olhou nos olhos dos dois.
— Muito bem — disse finalmente. — Vamos prosseguir.
Você sabe que eles não iriam me machucar, disse a Tia enquanto ela liberava o controle.
Eles não têm o direito de nos forçar a nada. Somos esfinge!, disse ela. Somos dignas de respeito.
Somos sim. Mas eles não pretendiam nos fazer mal. Tenho certeza. Você está levando muito a sério as palavras de Cherty.
E você não as está levando suficientemente a sério, Lily.
Humm. Fiquei pensando nas palavras dela enquanto andávamos, deixando o cais e entrando numa selva densa, com os irmãos nos guiando por um caminho muito batido. Olhei fascinada enquanto as armaduras deles caíam no chão, desintegrando-se em areia. Logo só usavam túnicas, botas e as espadas. Coloquei-os a par do que havia acontecido desde que nos separamos, o que Anúbis tinha me dito e que eu compartilhara sonhos com Amon, descrevendo rapidamente a conexão. Quando contei o sonho com Seth, eles trocaram olhares desconfiados.
Perguntei por que não estávamos viajando na tempestade de areia e eles explicaram que essa capacidade específica só funcionava para eles no reino mortal, embora ainda pudessem invocar armas. Isso explicava por que Amon precisava lutar no mundo dos mortos e não podia simplesmente desaparecer. Então continuei a fazer perguntas sobre o que esperar no julgamento, como eles acreditavam que era o mundo dos mortos e por que eles não sabiam sobre Amon.
Ahmose manteve a concentração no terreno e permitiu que Asten assumisse a comunicação.
— Só sabemos o que os deuses se dignam revelar — explicou Asten. — Estamos tão à mercê deles quanto você. Na verdade você parece ter conseguido muito mais atenção da parte deles nas últimas semanas do que nós em séculos.
— Foi porque Hórus nos desejou — disse Tia antes que eu pudesse impedi-la.
— Foi? — perguntou Asten, o sorrisinho maroto surgindo novamente. — Não sei se posso culpá-lo.
— Pare com isso — alertei Asten. — Não preciso de você flertando comigo também. Com Hórus já foi bastante ruim.
Ele coçou o queixo.
— Talvez você simplesmente não tenha sido seduzida pelo rosto bonito dele. O barqueiro pareceu gostar um bocado de você. Talvez ele seja um companheiro bem melhor do que Hórus.
— Eu gostei de Hórus — disse Tia em voz alta. — Seu poder e sua confiança fazem dele uma opção atraente como macho. Mas eu não o amo. Pelo menos, por enquanto.
Asten gargalhou.
— Confesso que estou curioso em saber que qualidades uma leoa pode procurar em um macho.
Fiquei surpresa ao ver que Asten podia nos identificar com tanta facilidade. Nem mesmo Hórus fora capaz disso.
— Como, na verdade, não sou mais uma leoa, eu mesma ainda estou descobrindo isso. Ser uma leoa era... mais fácil em muitos sentidos.
Asten ficou sério.
— E quanto a Amon? O que vai fazer se não sentir por ele o mesmo que Lily sente? — perguntou ele.
— Então vou tentar alterar meus sentimentos, pelo bem dela. Ou isso, ou vou encorajar Hassan a me ajudar na busca do desaparecimento.
Desaparecimento?, perguntei, alarmada. Não vou permitir que você cause mal a si mesma, Tia, sussurrei na mente.
— Não vou fazer com que você duvide dos seus sentimentos por seu companheiro — murmurou ela de volta.
— Que coisa absolutamente fascinante! — disse Asten, sério, mas um instante depois sua expressão tornou-se mais leve e ele nos dirigiu uma piscada, um gesto do qual Tia gostou bastante. — Se antes eu sentia ciúme de Amon, agora tenho inveja dupla — provocou.
Assumi o controle do meu corpo no instante em que Asten segurou meu cotovelo, ajudando-me a contornar uma pedra grande.
Ele me vê, disse Tia na minha mente. E gosto daquela covinha no queixo dele. São boas qualidades, eu acho.
Suspirando, revirei os olhos e ignorei a avaliação de Tia sobre o irmão de Amon.
Logo Asten gritou para Ahmose dizendo que estávamos chegando perto do rio.
— Que rio? — perguntei.
— Na verdade é um canal — respondeu Ahmose, falando pela primeira vez em uma hora, apesar de ainda não fazer contato visual comigo. — Chama-se Canal do Hipopótamo Branco.
— É perigoso?
Asten parou e esperou até que eu o olhasse.
— Tudo no além pode ser perigoso, Lily. E tudo no mundo dos mortos é definitivamente perigoso. Não se esqueça disso.
Sua expressão dava mais peso a cada palavra, e de novo achei que poderia haver mais de Ahmose e Asten que eu não sabia. Assenti e fomos até a beira de um rio onde havia uma pequena embarcação amarrada. Asten me ajudou a entrar e me fez sentar enquanto Ahmose pegava uma vara comprida e nos empurrava para a água.
Asten foi o nosso guia enquanto percorríamos o curso de água. Deixamos as árvores para trás e chegamos a uma grande planície cheia de plantas escuras que ondulavam ao vento.
— Este é o Campo dos Juncos — explicou. — Há numerosas plantações que fornecem comida para os mortos.
— Os desincorporados são os trabalhadores que estou vendo lá adiante? — perguntei depois de ver várias figuras sombrias curvadas sobre as plantas, colhendo-as e colocando-as em grande pilhas.
— Aqueles são shabtis — respondeu ele.
— Verdade? Como os que Amon invocou?
— Presumo que sim. Eles são ligados a certos deuses ou emprestados a chefes. Ocasionalmente, quando um coração é considerado indigno, um senhor que se disponha pode permitir que a alma morta sirva até ser decidido que o coração mudou e que agora ela é humilde. Infelizmente nem sempre há um modo de determinar quem é o senhor, já que essa é considerada uma questão particular entre o deus e seu serviçal.
— Então aqui pode haver shabtis que servem a Seth — observei.
— É uma possibilidade — respondeu Ahmose.
— É mais do que uma possibilidade, é um fato — contradisse Asten. Em seguida explicou: — Qualquer shabti que seja trazido dos mortos para servir no reino mortal deve vir do além. Isso significa que o shabti que tentou matar você e Amon saiu daqui.
— Então Seth tem olhos e ouvidos aqui, também.
— Tem — respondeu Asten.
Seguimos em silêncio por um tempo e depois perguntei:
— Então o que Cherty disse sobre vocês dois é verdade? Vocês atormentam os passageiros que chegam?
A princípio nenhum dos dois respondeu.
— O barqueiro não estava... equivocado — admitiu Ahmose por fim, em voz baixa.
— Mas por quê? Atormentar quem perdeu tudo não parece do feitio de vocês.
— Não é nossa culpa — disse Asten. — Ainda que o lugar aonde vamos se chame Pórtico do Julgamento, na verdade os mortos são julgados desde o momento em que põem os pés na Ilha dos Mortos. Por isso a viagem é tão importante.
Ahmose explicou:
— Quando uma pessoa está na nossa presença, nossos poderes a deixam consciente de todos os erros que cometeu. Quando seu coração é pesado na balança, elas já sabem qual é o resultado. Algumas tentam escapar do destino. Correm ou se jogam nas garras de monstros pelo caminho, sucumbindo a uma segunda morte antes que o castigo seja dado. Muitas preferem enfrentar uma morte incerta a terminar na horta da Devoradora. Eu não as levo de propósito pelo caminho errado, mas estar perto de mim as deixa conscientes de todos os caminhos falhos que elas escolheram na mortalidade.
— E ficar perto de mim — acrescentou Asten — faz com que elas vejam todas as coisas más que fizeram, numa visão interminável. Se foram mesmo más, isso pode fazer com que algumas enlouqueçam.
— E Amon? — perguntei. — O que acontece quando elas ficam perto do Revelador?
— Como Amon tem o Olho de Hórus, ele sabe de todas as coisas — respondeu Ahmose. — Quando os mortos estão perto dele, têm a oportunidade de ver como suas vidas poderiam ter sido caso houvessem exercido todo o potencial que tinham.
— Isso não parece muito ruim — observei. — Por que Cherty disse que ele era o pior?
Asten respondeu, pensativo:
— O poder de Amon é o mais difícil de portar porque revela o desconhecido. Os mortos já sabem dos erros que cometeram. Eles se lembram das escolhas e dos caminhos que percorreram, mas ver a felicidade, a maravilha do que poderiam ter tido é a coisa mais dura para eles absorverem. Ver aquilo e saber que jamais o terão... bem, digamos apenas que leva um número maior deles para a boca das trevas, procurando a segunda morte, a última, do que os poderes de nós dois combinados. Vislumbrar o que poderia ser é... ao mesmo tempo perturbador e inebriante...
As palavras de Asten ficaram no ar e, quando me virei para ele, encontrei-o me observando com atenção. Ao ver minha expressão perplexa, ele voltou o olhar para as árvores.
— Então, se tudo isso é verdade — perguntei —, por que não estou experimentando esses efeitos?
— Porque ainda está viva, Lily — respondeu Ahmose.
— Mas eu não estou — acrescentou Tia, assumindo o controle. — Estou... como é mesmo a palavra... desincorporada.
Asten sorriu, mas o sorriso não chegou aos seus olhos.
— Você é uma linda exceção à regra. Apesar de seu corpo não existir mais, você compartilha o corpo vivo de Lily. Isso significa que seu julgamento está suspenso até o momento em que não tiver mais para onde ir.
— O que não vai acontecer — prometi.
— Enquanto isso — continuou ele —, nossos poderes não vão afetá-la.
Nesse momento o barco balançou violentamente e escutei o chamado gutural de um animal grande. Um jorro de água se derramou por cima da amurada e um jato denso disparou no ar.
— O que foi isso? — gritei.
— Este aqui não é chamado de Canal do Hipopótamo Branco à toa — disse Asten em tom irônico.
Ahmose levantou a vara e cutucou a forma cor de marfim que pairava sob a água. Vi outras formas nos cercando enquanto um hipopótamo grande levantava a cabeça acima da superfície. Sua boca se escancarou e, furioso, ele mordeu a lateral do barco, quase nos fazendo virar.
Imediatamente duvidei da vara usada por Ahmose como arma e ergui o arco acima do ombro, preparada para nos defender.
— Pare — disse Asten, cobrindo minha mão com a dele. — Não se pode matar nada. Aqui, não. Esses animais são considerados sagrados.
— Mas como vamos fazer a travessia se não pudermos nos defender?
— Isso faz parte do julgamento, Lily. Se eles a considerarem digna de passar, você passará. Caso contrário, irão sacudir o barco até que você caia.
— E aí? Eles me devoram e cospem minha pobre carcaça, transformando o leito do rio em meu túmulo?
— Eles jamais consumiram alguém vivo — respondeu Ahmose.
— Bom, isso faz com que eu me sinta muito melhor...
— Provavelmente eles não podem julgá-la neste momento, independentemente de qualquer coisa — acrescentou Asten.
— Esperemos que seja verdade, pelo bem deles — disse Tia. — Já matei um hipopótamo antes, mas não foi fácil.
Sacudi a cabeça, preocupada com a facilidade com que Tia chegava à superfície agora, e olhei para Asten, sentindo o jorro do constrangimento subir pelo meu pescoço, mas o olhar que ele me dirigiu não era o que eu esperava. Não foi nojo nem pena que vi no seu rosto. Na verdade, ele estava impressionado.
— Você deve ser uma excelente caçadora para derrubar uma fera assim — disse Asten.
Tia deu de ombros, ou talvez eu é que tenha feito isso. Os limites entre nós duas pareciam estar se desfazendo, especialmente desde que tínhamos nos encontrado com Asten e Ahmose. Mas nenhuma de nós disse nada enquanto olhávamos cautelosas por cima da borda, vendo as enormes formas brancas passando embaixo d’água.
Cabeças de hipopótamos subiam das profundezas para nos olhar. Às vezes só víamos os topos arredondados, os olhos pretos piscando ao nos olhar com curiosidade. Em outras ocasiões eles erguiam metade do corpo para fora d’água, o que me fez pensar que o canal não era muito profundo. Não conseguia imaginar animais daquele tamanho flutuando. Tia me garantiu rapidamente que eles não eram capazes disso, pelo menos no reino dos mortais.
— Ah — disse Ahmose. — Até o macho alfa quer dar uma olhadinha em você.
Ao lado deles, um enorme hipopótamo macho soprou água pelas narinas, abrindo a boca e soltando um urro. Seus caninos e incisivos eram incrivelmente grossos.
— Os outros são o harém e os filhotes — informou Ahmose.
O grande hipopótamo que ele indicou sugou um bocado de água e a cuspiu sobre nós, depois submergiu no rio.
— Se ele está deixando vocês passarem, os outros também vão deixar — disse Ahmose.
— Então por que eles estão com a cabeça de fora? — perguntei.
— Provavelmente não veem um ser vivo aqui faz um bom tempo — respondeu ele.
— Está certo. Esqueci que vocês dois não contam.
— Não contamos mesmo — disse Asten com uma leve tristeza na voz. — Neste momento nossos corpos estão mofando em algum lugar da Terra, nos elaborados sarcófagos que Anúbis fez para nós.
Estendi a mão e a encostei no braço dele.
— Mas ainda posso tocar em você. Isso já é alguma coisa.
— É. Mas não podemos sentir.
— Não? — perguntei, chocada.
Asten sacudiu a cabeça.
— Pelo menos não como quando assumimos a forma física. Tenho consciência da pressão e do calor, mas o toque não provoca muito sentimento, muita sensação, como aconteceria normalmente.
— Mas Amon pode sentir meu toque no mundo dos mortos. Por que seria diferente aqui?
— Talvez isso se deva à ligação de vocês — sugeriu Asten.
— De repente pode funcionar com vocês também. Vocês três também são ligados, não é? Posso tentar?
— Se quiser... — respondeu Asten, curioso.
Ele estendeu a mão e eu a segurei. Quando ele apertou minha mão levemente e começou a esfregar o polegar em pequenos círculos, abri a mente para vivenciar o toque. Senti o calor de sua palma, os pelos finos das costas da mão, as linhas e redemoinhos na almofada do polegar e até a minúscula pulsação de seus batimentos cardíacos através das pontas dos dedos.
Usei o poder da esfinge para incrementar o toque ainda mais. Logo senti uma corrente passando embaixo da pele. Era quente e viva, e eu tive consciência de cada inspiração que preenchia os pulmões dele, o modo como ele mordia o lábio, a sensação do vento no seu rosto e seu coração disparado. O atrito de sua pele contra a minha era um prazer mais delicioso ainda do que o beijo de Hórus. Era como alguém massageando a nuca ou a parte inferior do queixo no lugar exato, de modo que a tensão nos músculos se dissolvia. Gostei daquilo. Um pouquinho demais.
Tirei a mão da dele e lhe dirigi um sorriso sem graça, de desculpas. Ainda podia sentir arrepios no ponto em que seu polegar havia me acariciado. Erguendo a cabeça, me vi momentaneamente presa em seus olhos cor de chocolate derretido. Em vez de seu risinho característico e malicioso, ele me ofereceu um sorriso breve e genuíno.
— Você sentiu? — perguntei baixinho.
A boca de Asten estava ligeiramente aberta, e não era necessário ter a visão aumentada para ver a veia latejando em seu pescoço.
— Ah, senti — respondeu ele, engolindo em seco. — A sensação foi... impressionante. Eu nunca havia experimentado uma coisa assim no além. — Ele fez uma pausa e acrescentou rapidamente: — Ou em qualquer vida, por sinal. Obrigado. — Em seguida virou-se de costas para mim.
Meu coração batia descompassado, os pensamentos turvos e confusos.
— Para nós foi um prazer tocar em você — admitiu Tia sem rodeios.
O sorriso de Asten cresceu, seu olhar rapidamente fixando-se no meu.
— Fico feliz — disse ele, sem ao menos uma gota de alegria nas palavras. — Fique à vontade para treinar comigo quando quiser.
Afastando-me ligeiramente, perguntei:
— Quanto tempo falta para chegarmos?
— Primeiro precisamos passar pela árvore em chamas — respondeu Ahmose.
Não demorou muito para que eu deixasse de ver as formas brancas no rio raso e, quando chegamos a um cais de madeira, outro em que Amon não nos esperava, meu coração ficou apertado. Ahmose nos guiou até lá e amarrou o barco. Quando Asten desembarcou, virou-se para mim e estendeu a mão.
— Você me permite? — ofereceu.
Alguma coisa no modo como ele me olhou e envolveu minha cintura com o braço para me firmar quando pisei no cais fez com que eu me sentisse ao mesmo tempo extasiada e triste. Ele continuou segurando minha mão enquanto andávamos pelo caminho, e eu não a retirei. Sabia que ele não podia sentir meu toque a não ser que eu canalizasse o poder da esfinge, mas eu podia sentir o dele, e aquela não me parecia a maneira como um irmão seguraria minha mão.
Uma parte de mim pensava que ele poderia ser algo mais, se quisesse, e a culpa tomou conta de mim. Eu sentia as batidas do coração de Amon contra meu ombro e me perguntei se ele estaria sonhando naquele exato momento, me vendo de mãos dadas com Asten, e se isso o perturbaria a ponto de se entregar a uma segunda morte.
Dirigindo um breve sorriso a Asten, retirei a mão e, embora ele parecesse entender, deu para ver que ficou desapontado. E não era o único. O descontentamento de Tia preencheu minha mente também, apesar de ela não dizer nada. Meus sentimentos estavam tão confusos que me surpreendia o fato de continuar andando.
Ahmose nos conduziu por um caminho até que chegamos a uma árvore gigantesca cercada de fogo cujo calor nos envolveu.
— E agora? — perguntei.
— Você precisa encontrar um caminho para o outro lado — respondeu.
— Como?
— Não podemos dizer. Cada alma que viaja pela Ilha dos Mortos precisa encontrar o próprio caminho.
Soltei um suspiro, assenti e segui para a direita, mas não havia um fim para as chamas. Ir para a esquerda também não me levou a lugar nenhum, e quanto mais tempo permanecíamos perto do fogo, mais preocupada Tia ficava.
Não vamos conseguir, gritou ela na minha mente. Você precisa pedir ajuda aos guardiões.
Mas eles não podem nos ajudar. Foi o que disseram. Estiquei o pescoço para tentar ver por cima da parede de fogo. A árvore alta me acenava com troncos grossos e folhas muito verdes, apesar do fogo ao redor. Talvez possamos passar por cima, sugeri.
Tia hesitou diante da ideia, mas me ajudou a concentrar o olhar e descobrir galhos que passassem por cima das chamas que estalavam. Não havia nenhum.
Será que não deveríamos passar através do fogo?, sugeri. Talvez isso seja um teste.
De jeito nenhum!, insistiu Tia.
Então qual é a sua grande ideia? Não estou ouvindo você dizer muita coisa. E achei que ouviria, levando-se em conta quanto você anda falando ultimamente.
Não sabia que meus pensamentos eram tão repulsivos para você.
Não são repulsivos. E não é com seus pensamentos que estou tendo problema – é com você assumir o controle de surpresa. Suspirei. É só que... está ficando difícil manter nós duas separadas.
Eu também estou tendo dificuldade para me lembrar de mim mesma. Estamos... nos fundindo uma na outra.
Talvez isso seja bom.
Talvez.
Então vamos usar isso a nosso favor, propus.
Como assim, Lily?
Vamos invocar nosso poder.
Não precisei ouvir suas palavras para saber que ela concordava. Fechando os olhos, invocamos o poder da esfinge e eu senti os pensamentos de Tia se entrelaçando com os meus, e nosso propósito se tornou um só. Queríamos passar pela parede de fogo.
Chamamos o vento, que abriu entre as chamas um espaço suficiente para atravessarmos. Recuando alguns metros, corremos, saltamos e demos uma cambalhota no ar antes de pousarmos em segurança do outro lado. No momento em que nossos pés tocaram o chão, as chamas desapareceram e Asten e Ahmose se aproximaram.
— Nunca vi uma travessia ser feita desse jeito — disse Asten, com um brilho de admiração nos olhos.
— A maioria dos mortos simplesmente atravessa as chamas — acrescentou Ahmose, cruzando os braços diante do corpo. — Eles sabem que não podem ser queimados.
— Bom, nós não sabíamos — respondi. — Além disso, é bem provável que fôssemos queimadas, sim. Nossa carne ainda é viva.
— E não íamos querer cicatrizes em algo tão lindo — observou Asten.
— Venha — disse Ahmose. — Agora não falta muito para o Pórtico do Julgamento.
A terra e os seixos do caminho por onde andávamos foram substituídos por pedras quando surgiu a escura e imensa forma de um templo pétreo.
— É isso? — perguntei.
— É. Agora não saia andando por aí — alertou Ahmose, como se de repente eu fosse decidir deixá-los.
O Pórtico do Julgamento parecia um antigo palácio em ruínas. Havia grandes blocos de pedra rachados e despedaçados em vários trechos. Não havia janelas, apenas grandes recessos escavados com áreas lacradas onde elas deveriam ter existido. As colunas que se erguiam dos dois lados da imponente porta de pedra estavam esburacadas e um fogo ardia dentro delas, dando uma vida assombrosa às imagens gravadas do lado de fora. Pareciam apavorantes lanternas do tipo que se faz com abóbora no Halloween, com bocarras escancaradas esperando para engolir os mortos.
Braseiros ardiam no topo, lançando cinzas incandescentes e fumaça ao céu.
— Meio apavorante, não é? — perguntei.
— É para ser intimidante — respondeu Ahmose.
— Bom, está conseguindo — admiti.
Ahmose segurou uma aldrava de ferro na porta e puxou, enquanto Asten pegava a outra. Com um estalo significativo, a porta dupla se abriu. Sem pensar, segurei a mão de Asten. Ainda que ele parecesse surpreso, não hesitou e envolveu meus dedos com os seus.
Assim que entramos, a porta se fechou sozinha. Tochas se enfileiravam no corredor, os anéis de fumaça por elas expelidos se grudando às paredes de pedra como as sombras escuras de almas torturadas. Apertei a mão de Asten, e, apesar de eu ter consciência de que ele não podia sentir o gesto do mesmo modo, senti um aperto de volta. Isso me reconfortou e ajudou a aliviar o nervosismo de Tia.
— O que vem agora? — sussurrei.
— Vamos encontrar os deuses e seu coração será pesado — respondeu Asten.
— Eu preciso fazer isso? Quero dizer, se não estou morta...
— Honestamente, não sei. Se o que você disse é verdade, eles a estão esperando. Deve ser mais fácil para você do que para a maioria das almas que chegam até aqui.
Engoli em seco.
— É o que estou esperando.
Entramos numa sala enorme, com três tronos vazios. No centro do espaço havia uma grande balança de ouro, com tochas lançando uma luz fraca pela vasta câmara. Eu me sentia numa masmorra esperando ouvir minha sentença. Depois de me guiar até um tablado, me oferecendo um sorriso tranquilizador, Asten fez com que eu ficasse parada ali enquanto Ahmose avançava e começava a entoar um encantamento:

Esta Alma veio ao além,
Viajou pelo canal do céu e da terra,
Caminhou com os guardiões,
Percorreu o caminho dos hipopótamos brancos,
Passou pela árvore de fogo
E chegou incólume ao outro lado.
Está preparada para o julgamento,
Quer ter o coração pesado
E está pronta para seguir o caminho que escolherem.

Ficamos os três lá, esperando que algo acontecesse. Como nada aconteceu, Ahmose acrescentou:

Ela é nobre e amada.
Por favor, deem-lhe audiência.

Dessa vez a sala estremeceu. Quando enfim se aquietou, uma nuvem de areia entrou pelas passagens abertas e criou um ciclone do tamanho de um homem. A areia se solidificou e uma forma familiar surgiu.
Levantei a mão ligeiramente, acenando para Anúbis, que se aproximava com um leve sorriso transformando sua carranca perpétua.
— Você conseguiu — disse ele.
— Não graças a você. Suas orientações foram bem enigmáticas.
— Eu lhe disse o que pude. Passou por Heliópolis?
Confirmei com a cabeça.
— E como chegou lá?
— Nebu. Ele me pediu que lhe transmitisse uma mensagem.
Anúbis deu um passo à frente.
— Já sei o que ele pediu.
— E então? Vai dizer a ela? — pressionei.
Ele suspirou.
— Ela já sabe.
Asten deu um passo à frente e pôs a mão no meu braço, num gesto de proteção. Uma expressão carrancuda e familiar surgiu no rosto de Anúbis. Nesse momento mais três ciclones apareceram e Anúbis recuou um passo, posicionando-se junto à parede de pedras.
Três seres se materializaram nos tronos. Inspirando nervosa, endireitei os ombros e olhei os três deuses sentados à minha frente. Dois eram mulheres; o outro era um homem. A pele do homem tinha um tom esverdeado. Era bonito, com cabelo escuro e olhos penetrantes, e eu me lembrei da história que Amon contou sobre Seth e Ísis. Deduzi que o homem sentado diante de mim devia ser o marido da deusa alada, Osíris.
Eu não fazia ideia de quem seriam as duas mulheres. A da esquerda tinha pele morena impecável e lábios brilhantes. Seu cabelo estava enrolado e preso no topo da cabeça com um adereço complexo, as costas, rígidas, e a postura era régia. Fez com que eu pensasse numa diretora de escola severa, ainda que linda. Seu olhos pousaram em mim com expressão avaliadora, e tive a impressão de que ela tinha um controle extremo das coisas; sem dúvida era quem estava no comando. Apesar de Anúbis e do homem que eu supunha ser Osíris serem quase tão intimidadores quanto Hórus e Amon-Rá.
Tudo na outra mulher era suave, sua postura, sagaz e gentil. O cabelo louro e comprido ia até a cintura e as joias que usava eram finas e simples – um bracelete de prata, um cinto fino feito de diversos metais preciosos e uma corrente minúscula que pendia em sua testa, caindo pelo cabelo que descia em cascata. Usava sandálias de prata e as dobras de seu vestido iam até o chão. Ela me dirigiu um sorriso que era parte encorajamento e parte curiosidade quando olhei em sua direção.
Vindo do nada, um grupo de shabtis se materializou num canto e começou a tocar uma música suave. Reconheci uma flauta, uma harpa e um sistro, um instrumento dourado que parecia uma raquete de badminton, só que em vez da rede tinha discos minúsculos que deslizavam para um lado e para outro ao serem sacudidos. O único motivo para eu saber disso era porque o Dr. Hassan havia desenterrado um recentemente e o descrevera com os detalhes meticulosos de sempre em uma carta.
Talvez os deuses invocassem os músicos como um modo de acalmar os mortos antes de arrancarem seu coração para o julgamento, pensei.
É agradável, observou Tia.
Você não entendeu o ponto fundamental, eu disse.
E qual é?
Arrancar o coração.
Outros serviçais postaram-se perto dos deuses, agitando leques de plumas de avestruz, segurando pratos com uvas e taças reluzindo com um líquido gelado. Nenhum dos shabtis fez contato visual comigo. Na verdade, eles pareciam empenhados em evitar olhar para a área de julgamento.
A beldade austera falou primeiro:
— Qual é sua condição?
— Minha... condição? Não entendo.
— Por favor, responda à pergunta. Qual é sua condição?
— Hã... viva, eu acho...
— Isso não vai dar certo. Ela não está preparada — queixou-se a mulher, impaciente. — Tirem-na da minha frente imediatamente.
No mesmo instante Ahmose e Asten começaram a protestar e uma explosão de poder saltando da ponta dos dedos da mulher imobilizou os dois. Então Anúbis deu um passo na minha direção, mas um olhar da mulher o fez reconsiderar e ele voltou para seu lugar, encolhendo-se.
A mulher de aparência gentil torceu as mãos e disse:
— Por favor, não quer reconsiderar?
A primeira, porém, a encarou com irritação até que ela virou a cabeça de lado. Por fim, minha interrogadora aproximou-se um passo, ergueu a mão e disse:
— Ela será banida e mandada de volta ao lugar de onde veio para só retornar quando tiver descartado as correntes da mortalidade.
Então agitou a mão num floreio para ir embora, mas não antes que o homem no trono se levantasse.
— Não, Maat — disse ele. — Ela não vai.

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