21 de outubro de 2016

16. Deus das estrelas

Um silêncio absoluto se fez. Pedras espessas e sólidas feito uma lápide me rodeavam por todos os lados. Acima de mim, um teto rochoso parecia mais baixo a cada passo que eu dava. Mas o horror de estar enterrada viva nem era a pior parte. O que realmente me deixava apavorada era que eu não estava em uma caverna secreta escondida no interior de uma montanha: estava atravessando pedra sólida.
Formações minerais se moviam lentamente acima de mim, como se meu corpo estivesse se infiltrando na própria rocha, e senti um peso igual ao que se sente ao avançar contra uma correnteza forte. A única explicação que consegui encontrar foi que havia adentrado uma fase ou dimensão diferente daquela em que a pedra existia. Os dedos que seguravam o ovo de serpente junto ao meu olho tremiam, e fechei o outro olho para não ter que ver a montanha enquanto a atravessava. Minha pulsação parecia lenta, enquanto meu coração batia bem alto.
Senti no fundo da garganta um gosto de cobre e sal, e, embora tentasse manter a boca fechada, cedia repetidamente à tentação de umedecer os lábios. Infelizmente, isso não trazia nenhum alívio; minha língua terminava sempre coberta por uma fina camada de poeira e minerais.
Em qualquer direção que olhasse, eu não conseguia ver nem Amon nem o Dr. Hassan, então seguia em frente, sempre acompanhando o estranho clarão de luz que parecia emanar da pedra de vez em quando para iluminar o espaço à minha volta. Diferente de um farol, que ajuda a guiar embarcações e avisa sobre pedras escondidas, a iluminação me pareceu atrair uma atenção indesejada, e imaginei que uma criatura monstruosa com uma bocarra aberta fosse me encontrar a qualquer momento por causa dela.
A cada vez que o meu entorno se iluminava, eu prendia a respiração até ter certeza de que não havia nenhum perigo iminente. Comecei a sentir pequenas vibrações por perto, que ficavam mais pronunciadas toda vez que o clarão sumia.
Segui em frente até a luz piscante desaparecer e me vi no interior escuro da montanha, sem ninguém para me guiar. Às cegas, dei um passo à frente, depois outro. Comecei a ofegar e a me perguntar se a montanha algum dia terminaria, quando de repente emergi da rocha.
Embora ainda estivesse escuro, a diferença na atmosfera foi imediata e inconfundível. O peso que chumbava meus braços e pernas tinha desaparecido; senti uma levíssima brisa roçar meu rosto e os ouvidos estalaram. Minha mão encontrou a pedra sólida atrás de mim e me virei, sem tocar nada a não ser um espaço vazio até meus dedos encontrarem a parede outra vez. Ruídos de pés se arrastando ecoaram pela escuridão. Então ouvi a voz do Dr. Hassan.
— Lily! — gritou ele. — Aqui.
Estiquei a mão que estava livre e dei alguns passos cautelosos adiante.
— Onde o senhor está? — perguntei.
Um barulho de movimento se fez ouvir ali perto, e apurei os ouvidos para tentar distingui-lo. Alguém ou alguma coisa tinha emergido da pedra atrás de mim. Quando me virei nessa direção, vi duas órbitas verdes brilharem no escuro.
— Lily — disse Amon enquanto cobria a distância que nos separava —, você está bem?
— Estou... estou sim. Eu acho.
Amon passou a mão pelo meu braço, e uma poeira leve e fina como talco deslizou e em seguida assentou em minha pele, fazendo-me tossir. Apalpei as roupas, tentando eliminar um pouco do pó. Pelo visto, minha breve passagem pelo mundo da limpeza havia acabado. Amon não pareceu se importar com o fato de eu estar coberta de pó. Segurou minha mão e acendeu o corpo o suficiente para eu poder ver onde estávamos: no interior de uma grande caverna.
— Doutor Hassan? — chamei ao ver a forma do egiptólogo.
Ele estava agachado, apalpando o piso de terra batida.
— Mais uns 30 centímetros e teria sido o meu fim — anunciou, levantando-se.
— O que o senhor estava procurando? — perguntei enquanto Amon e eu íamos até lá.
— Isto aqui. — Ele ergueu um bastão grosso e enegrecido e começou a mexer em uma das pontas.
— Uma tocha?
— Isso. — Ele olhou para Amon e por um instante ficou assombrado com a luz natural que emanava dele. — Infelizmente, nós mortais não nascemos com lanternas embutidas. — Ele ergueu a tocha. — Posso usar? — perguntou para Amon.
— Se quiser.
— Claro.
— Onde estamos? — sussurrei, nervosa.
— Ainda no Oásis das Pedras Sagradas, só que no coração da montanha — respondeu o Dr. Hassan. — Se escutarem com atenção, vão conseguir ouvir a cachoeira. Escondi o irmão de Amon atrás dela.
Ele acendeu a ponta da tocha e na mesma hora Amon apagou sua luz, o que, eu supunha, o ajudava a conservar energia.
— O que era aquela luz estranha dentro da montanha? — perguntei enquanto Amon me guiava a fim de me desviar de um grande feixe de estalagmites.
— A luz só pode ser vista com um ovo de serpente de verdade — respondeu o Dr. Hassan. — É ele que permite a passagem pela montanha. O clarão que você viu foi ativado pelo sol brilhando através da rocha.
— Um caminho criado pelo deus do sol — refletiu Amon.
— Sim, de certa forma. É um pequeno truque transmitido aos grão-vizires ao longo dos séculos. Para direcionar a luz, precisamos estar no lugar certo, na hora certa.
— Funciona como o truque do espelho egípcio nos filmes? — perguntei, curiosa para saber se havia alguma ciência por trás da magia.
— Não exatamente. Não foi só o reflexo da luz que criou o caminho. Os cientistas acreditam que o ovo de serpente é qualquer pedra que tenha sido escavada pela água. Já os supersticiosos creem que essas pedras foram criadas pela saliva de uma cobra e que ter uma delas protege a pessoa em várias situações. Mas eu conheço a sua verdadeira natureza. Você conhece, Magnífico? — Um olhar de Amon fez o doutor gaguejar. — P-perdão. Eu quis dizer Amon.
— Confesso que não.
— Ah, nesse caso, quem sabe me conceda a honra de me ouvir enquanto seguimos até seu irmão?
— Por favor, vizir, continue — incentivou Amon com educação.
— Bem, sim, a deusa Ísis...
— Que era casada com Osíris — completei.
— Isso mesmo. Ela sentia saudade do marido depois que ele recebeu a atribuição de governar o mundo dos mortos.
— Espere, essa história eu conheço. Ela enganou Amon-Rá para fazê-lo lhe dizer seu nome verdadeiro depois de envenená-lo.
— E você se lembra de como ele foi envenenado? — indagou o egiptólogo de cabelos brancos.
Após pensar por alguns instantes, estalei os dedos.
— Uma picada de cobra! — Quando o grão-vizir arqueou as sobrancelhas, evidentemente impressionado, acenei com a mão e expliquei: — Amon tem me ensinado algumas coisas.
— Pelo visto, tem mesmo.
— Lembro que Ísis conseguiu visitar o marido, mas o que isso tem a ver com o ovo de serpente?
— Bem, a cobra que mordeu Amon-Rá fugiu e sem querer absorveu pelas presas um pouco do poder do deus. Consequentemente, os descendentes dessa cobra desenvolveram a habilidade de iluminar lugares escuros. Para não provocar de novo a ira do deus do sol, essas cobras vivem escondidas em lugares secretos. Um verdadeiro ovo de serpente são os resquícios calcificados da cabeça de uma dessas cobras, e quando você espia pelo olho dela, além de conseguir ver no escuro, também consegue se esconder em um lugar que nem mesmo o deus do sol seria capaz de encontrar.
De repente, a pedra que eu segurava ficou fria. Engoli em seco e soltei um arquejo débil quando ela escorregou da minha mão. Ficou ali, aninhada na areia, parecendo me exibir um sorriso e uma piscadela de serpente. Sem conseguir me conter, limpei a mão na camiseta, apavorada ao pensar que minha boia salva-vidas na travessia da montanha tinha sido um crânio de cobra.
Iluminada pela tocha, a pedra se mexeu como um pequeno esqueleto de dinossauro que ganha vida. Após alguns instantes, dei-me conta de que era apenas a luz se movendo pelo osso antigo, mas mesmo assim o efeito era perturbador.
Amon estendeu a mão para recolher meu ovo de serpente do chão, mas a areia se deslocou, escorregando por uma pequena fresta até então escondida. Minha pedra despencou junto com a areia, e a fenda era profunda demais para que conseguíssemos pescá-la com os dedos. Amon cogitou usar seu poder para recuperar a pedra, mas então desistiu e me abriu um sorriso reconfortante.
— Se não acharmos outra saída, voltamos para buscá-la. Não se preocupe — falou.
— Hã, supondo que consigamos despertar o seu irmão, não me ocorreu que deveríamos arrumar uma quarta pedra para ele — disse o Dr. Hassan, encabulado.
— Vai dar tudo certo — retrucou Amon.
Eu na verdade nem estava muito preocupada, mas o sorriso tranquilizador de Amon desapareceu depressa, e isso sim me deixou preocupada. Enquanto seguíamos o grão-vizir pelo corredor escuro, fiquei pensando no que estaria causando aflição na minha múmia ressuscitada. Ele não parecia mesmo alarmado pela perda da minha pedra, e com certeza uma cabeça de cobra não era capaz de assustar um semideus. Alguma outra coisa estava acontecendo, mas eu não conseguia saber o quê.
A cada poucos passos, Amon olhava para trás na minha direção, preocupado, e percebi que estava mais ansioso em relação a mim do que a qualquer outra coisa. Intrigada, perguntei-me se as coisas estariam de fato tão ruins quanto ele acreditava que estivessem.
Sim, eu me sentia exausta, e minha perna e meu braço latejavam nos lugares em que foram mordidos, mas eu não estava doente o bastante para ter que ficar acamada, pelo menos por enquanto. Apertei a mão de Amon, e estava prestes a tranquilizá-lo quando viramos uma esquina e topamos com um sarcófago.
Enquanto o Dr. Hassan avançava depressa e acendia outras tochas presas à parede, eu me aproximei alguns passos e examinei com atenção a representação do irmão de Amon. Arredondado, o caixão de madeira tinha um formato semelhante ao do rei Tut, mas, enquanto o do faraó menino era decorado com ouro reluzente, o lugar do derradeiro descanso daquele que de fato era um semideus chegava a ser humilde. A decoração do sarcófago, porém, era digna de nota.
Assim como as paredes dos túneis, as laterais do caixão eram decoradas com símbolos dos três irmãos – o sol, a lua e as estrelas – mas dessa vez as estrelas tinham mais destaque. Dei a volta no caixão e observei as imagens de três rapazes em pé junto a um homem com cara de cão.
— Quem é? — indaguei.
Amon se agachou ao meu lado.
— Anúbis. Este relevo mostra Anúbis nos concedendo as dádivas dos deuses enquanto instila vida em nossos corpos novamente. É a ocasião do nosso primeiro despertar.
— E aqui? — Dei a volta até o pé do sarcófago.
— Isto mostra a derrota de nosso inimigo Seth.
— Então Seth é o deus com cara de cavalo?
— Não é um cavalo. É um monstro.
— Que monstro?
— Todos, e nenhum.
— Não estou entendendo.
O Dr. Hassan foi até o outro lado do sarcófago.
— Set, ou Seth, como Amon o chama, tem o dom de mudar de forma.
— Sério?
Amon aquiesceu.
— Ele pode adotar a forma que quiser, o que o torna ainda mais perigoso.
— Pode virar um hipopótamo ou um crocodilo — disse o Dr. Hassan. — Um porco preto ou uma naja.
— Seth sempre quis a destruição do Egito? — perguntei.
— Desde que estava no útero ele já era o deus do caos — explicou Amon. — Sua mãe era a deusa Nut. Impaciente, ele não quis esperar a hora de nascer, então usou os dentes já afiados e rasgou uma passagem para fugir pelo flanco da mãe.
— Seus únicos objetivos são o poder e a realização de seus desejos obscuros — continuou o Dr. Hassan. — Aqueles que o seguem não ligam para as vidas alheias. Sua luxúria, sua sede de sangue, seus desejos insaciáveis, tudo isso são reminiscências do monstro a quem obedecem. Seth é monstruoso, e assim é retratado. Seria uma insensibilidade lhe atribuir um símbolo animal, pois todas as criaturas só fazem seguir seus instintos naturais. Nem mesmo os mais temidos animais – crocodilos, cobras e escorpiões – ferem por motivos maus. Por isso os antigos criaram um não animal, um monstro, para mostrar ao mundo o que Seth realmente é, e para servir de alerta caso ele algum dia tornasse a assumir o poder.
— Ok. Qual é o próximo passo, então? — indaguei.
— Temo não ter trazido tudo o que queria para preparar o despertar do irmão de Amon — disse o Dr. Hassan. — Só tenho um pouquinho de comida e água para revigorá-lo.
— Ele não precisa dessas coisas para despertar — disse Amon com voz branda. — O meu encantamento vai bastar.
— Mas o tradicional banquete, com a música e as festividades...
— O fato de que o senhor teria providenciado essas coisas se tivesse podido já é prova suficiente da sua lealdade. As oferendas que trouxe irão sustentá-lo por enquanto — concluiu Amon.
O Dr. Hassan pegou a bolsa de viagem, remexeu o conteúdo e retirou uma garrafa d’água e um bolinho embrulhado. Com gestos reverentes, abriu um espaço na base do sarcófago, desdobrou um lenço vermelho e dispôs sobre este suas modestas oferendas. Vendo sua aflição ao rearrumar os objetos algumas vezes, abri minha própria bolsa e propus compartilhar as frutas que Amon havia posto lá dentro antes de sairmos do hotel. As frutas estavam murchas e um pouco machucadas, mas a oferenda pareceu agradar ao devoto de cabelos brancos.
Antes de se acomodar ao meu lado, o Dr. Hassan usou o ovo de serpente e passou a mão pela parede até esta de repente sumir. Então arrastou um caixote de madeira até nós e de lá tirou um jarro grande.
— São os vasos canópicos dele, não são? — perguntei, maravilhada, tocando um deles, cuja parte superior tinha a forma de um pássaro de bico longo.
O Dr. Hassan assentiu.
— Eu os trouxe para cá quando Amon foi levado e os escondi usando a pedra — explicou.
Ele então dispôs os jarros na nossa frente, e não pude deixar de me espantar por conseguir tocar os antigos artefatos.
Além do jarro com o pássaro, havia outros com cabeça de cachorro, cabeça humana e cabeça de carneiro. Eu quis perguntar ao Dr. Hassan o que simbolizavam, mas Amon me interrompeu.
— Está pronto, doutor? — indagou ele.
— Sim, acho que estou.
— Destampe os vasos assim que sentir no rosto o hálito da vida — instruiu Amon.
— Sim, Mestre.
Amon se posicionou a algumas dezenas de centímetros do caixão e eu me agachei junto ao Dr. Hassan, que observava Amon com um ar de solícito enlevo.
A personificação do deus do sol levantou os braços e começou a entoar um cântico. Com isso, a pesada tampa do sarcófago estremeceu e se ergueu vários centímetros.
Amon iniciou o encantamento:

Estrelas surgem. Estrelas caem. Estrelas morrem.
O mesmo acontece com você, irmão,
Asten, a encarnação das estrelas.
Está na hora do renascimento. Da renovação. Da recriação.
Sem você, o céu é escuro. O firmamento estremece de tão vazio.
O reino celeste precisa da sua glória resplandecente.
Venha, irmão. Pegue suas flechas e seu arco.
Junte-se a mim outra vez em nosso destino comum.
Chegou a hora de cumprir nosso objetivo.
Meus inimigos serão os seus inimigos.
Meus aliados serão os seus aliados.
Juntos poremos ordem no caos
E fortaleceremos os laços que sustentam o universo.
Quando eu vivo, você também vive, pois com você compartilho minha existência.
Quando eu respiro, você também respira, pois com você compartilho o ar.
Sou Amon, guardião do sol.
Com o Olho de Hórus eu o procuro.
Você vaga pela escuridão, desorientado e perdido,
Mas eu iluminarei o seu caminho.

Os olhos de Amon brilharam com um verde vivo e uma luz esverdeada e mortiça iluminou o espaço à sua frente. Ele moveu a cabeça, à procura de alguma coisa, e os raios de luz que seus olhos emitiam também se moveram. Ao encontrar o que estava procurando, embora eu nada conseguisse ver depois do facho de luz a não ser escuridão, ele retomou o encantamento:

Seu corpo é pó, desintegrado pelo vento,
Mas o vento me obedece, e o pó escuta.
Eu o chamo da Terra dos Mortos.
Venha, Asten! Atenda ao meu chamado.
Volte à forma do homem que foi outrora.
Eu invoco os quatro ventos para me dar poder,
E por meio deles lhe instilo o hálito da vida...

Amon ergueu uma das mãos e um barulho assustador preencheu a caverna, como se um monstro estivesse inspirando. Cada rajada de ar corria sobre a minha pele numa direção e depois na outra. Meus braços e pescoço se arrepiaram, e eu examinava a escuridão, nervosa, em busca da origem daquele ruído. O Dr. Hassan abriu os vasos canópicos, e feixes de luz branca surgiram lá de dentro e começaram a circular logo acima do sarcófago. Não pude evitar compará-los a aves necrófagas em busca dos mortos.
De repente, uma forte rajada de vento soprou meus cabelos para trás. Amon ergueu a outra mão e uma segunda rajada soprou em sentido contrário à primeira. Fez isso mais duas vezes, e foi como se estivéssemos cercados por um redemoinho.
O vento ficou tão forte que o Dr. Hassan e eu tivemos que nos agarrar à base do sarcófago para nos mantermos no lugar, mas com a mesma rapidez o vento se afastou de nós e começou a rodopiar em volta de Amon.
Com os braços esticados na altura do peito e as palmas viradas para cima, Amon tremia. Seus braços e pernas se sacudiam como se ele estivesse tentando levantar um peso descomunal apenas com as pontas dos dedos. Então, quando pensei que ele não estava mais conseguindo suportar, o vento mudou de direção, mergulhou no sarcófago e uma forma envolta em ataduras se ergueu na nossa frente.
O tecido amarelado se sacudia de um lado para outro, estalando no ar e se destacando parcialmente até revelar pedaços do corpo, apodrecidos, putrefatos. Todos os filmes de múmia que eu já vira na vida me passaram pela cabeça e não pude evitar recuar várias dezenas de metros e deixar o Dr. Hassan sozinho em seu estado de adoração.
Aos poucos, as ataduras se soltaram e começaram a girar em volta do corpo decomposto, feito um redemoinho. Fragmentos de tecido pareciam grudados ao crânio. Quando uma explosão de partículas de poeira finalmente libertou os braços e pernas, arquejei e caí para trás com os cotovelos no chão. Tomada por um violento acesso de tosse, pensei se estaria inalando pedaços do irmão de Amon e me encolhi toda.
O poder que Amon canalizava de repente arrefeceu e a múmia voltou devagar para dentro do caixão ao mesmo tempo que o forte vento enfraquecia. Virando a cabeça, vi que Amon tinha os olhos cravados em mim. Ele estava preocupado, isso era fácil constatar, mas havia alguma outra coisa, algo mais na sua expressão – uma espécie de tristeza. Entendi então que o seu poder devia ter diminuído porque eu o distraíra.
Tornei a olhar para a frente e decidi controlar minhas reações. Precisava deixar aquele assustador processo de ressurreição de um homem que estava morto havia muitos séculos se desenrolar como se estivesse apenas assistindo a um filme. Não havia nada a temer. Aquilo tudo não passava de um espetáculo de magia – um truque de espelhos e luzes. Amon virou a cabeça. Seu maxilar se retesou com uma determinação renovada e o vento tornou a ganhar força, com mais vigor do que antes.
Órbitas vazias e uma boca escancarada cheia de dentes surgiram por entre as ataduras quando estas começaram a cair. O corpo estava ressequido, encarquilhado – uma casca seca do que um dia tinha sido uma pessoa. A pele que restava estava muito esticada e lembrava pedaços de couro velho. Em alguns lugares tinha sido totalmente arrancada, revelando ossos acinzentados dos quais pendiam pedaços de carne. Em uma tentativa desesperada para não vomitar, virei as costas e tapei a boca com a mão.
Amon já tinha sido assim. Como era possível eu ter tido vontade de beijá-lo? Por outro lado, ele era praticamente o cara mais gato do planeta. Que garota não iria querer um quase namorado imortal, com poderes mágicos e capaz de fazer massagens quentinhas? Só que eu não era uma garota qualquer. Eu era realista. E o que estava vendo agora diante de mim era uma versão bem realista de um cara morto embolorado e em decomposição cuja expressão era a de um homem gritando ao ser sepultado.
Como eu poderia ignorar os pedaços de carne se desfazendo, as ataduras apodrecidas ou os ossos amarelados que despontavam por baixo delas? Engoli em seco, virei-me e surpreendi Amon me observando outra vez. Percebi que ele estava usando o poder especial de seus olhos para ler meus pensamentos. Pensar que ele sabia o que me passava pela cabeça me fez sentir ao mesmo tempo vergonha e irritação. Vergonha porque eu deveria ser mais forte. Como podia me imaginar namorando uma múmia/deus do sol na vida real se não conseguia suportar um pouco de putrefação e decomposição? E fiquei irritada pelo fato de ele conseguir me decifrar com tanta facilidade. Uma garota tinha direito a seus pensamentos privados. De modo geral, eu estava lidando com aquilo tudo bastante bem. Só precisava de um pouco de tempo para aceitar a ideia de que, na entressafra, o cara de quem eu gostava se parecia com aquele cadáver flutuando no ar.
Amon ainda tremia, o que me fez temer que não tivesse poder suficiente para concluir o processo. Por um breve instante, imaginei qual seria o aspecto de seu irmão se ele terminasse inacabado por causa do poder enfraquecido de Amon e estremeci. Pensando que poderia ajudar de alguma forma, levantei-me e toquei seu braço trêmulo.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele gritou:
— Lily, para trás!
— Eu só pensei que você talvez precisasse...
— Pensou errado — sibilou ele, zangado. — Eu não preciso de você. Por favor, para sua própria segurança, fique perto do Dr. Hassan.
— Amon... — comecei, mas então vi seu maxilar contraído e senti a rigidez nos músculos do seu braço.
Ele se recusava a olhar para mim.
Resignada, tornei a assumir meu lugar junto ao Dr. Hassan e me perguntei o que tinha feito para deixar Amon tão bravo. Depois que me acomodei, ele recomeçou o cântico:

Íbis, faça o espírito dele voar
E facilite sua passagem.

Quando Amon mencionou o íbis, um pontinho de luz branca se formou na escuridão e percorreu o recinto devagar até encontrar a trilha de luz verde criada pelos seus olhos. Banhada pelo olhar dele, a luz foi aumentando e se espalhou até que a forma de um pássaro, semelhante ao falcão de Amon, ficou visível. Essa ave, porém, tinha o bico curvo apontando para baixo um pouco mais comprido do que o pescoço afunilado e fino. Ele bateu as asas e pairou no ar perto de Amon, que assentiu com a cabeça e disse:
— Bem-vindo, irmão.
Uma a uma, as quatro luzinhas brancas saídas dos vasos canópicos se fundiram com a criatura voadora. O pássaro soltou um grito e começou a voar em círculos acima das nossas cabeças, então fechou as asas e mergulhou no redemoinho, onde explodiu em fragmentos de luz que foram sugados pelas órbitas vazias dos olhos da múmia. As ataduras ainda flutuaram por alguns instantes, como se buscassem uma forma de permanecer no ar sem o vento, e em seguida despencaram lentamente até o chão da caverna, como pipas com a linha partida. Por alguns instantes, o silêncio reinou.
Então um brilho branco se acendeu dentro da múmia e começou a sair por seus orifícios e ossos. O corpo estremeceu e se moveu. Ossos se alinharam e se retorceram, estalando ao se mover. O crânio se virou para Amon e então encarou a mim e o Dr. Hassan. Fechando o maxilar com um estalo, abriu os braços e se ergueu no ar. A múmia parecia um homem vitruviano feito de luz das estrelas. Lutei para conter um grito. Amon retomou o cântico:

Quando você atravessar esse último portal da morte,
Gritos de alegria irão recebê-lo,
Banquetes lhe darão as boas-vindas,
Seu coração tornará a bater,
Seus membros tornarão a saltar,
Sua voz será ouvida outra vez.
Tudo o que foi perdido retornará.
Venha, Asten, e cumpra o seu destino!

A luz que saía da múmia se intensificou, irradiando calor feito uma supernova enquanto as ataduras soltas se erguiam no ar e começavam a girar em torno da luz mais depressa do que antes. A claridade se solidificou até formar veias e um coração que batia com força, então envolveu os ossos e se adensou até formar músculos reluzentes.
A luminosidade ficou tão intensa que precisei proteger os olhos, enquanto meu coração esmurrava o peito em resposta às batidas audíveis do coração da múmia. Quando a dor varou meu corpo, eu gritei e desmaiei.



Quando abri os olhos, a claridade ofuscante finalmente havia sumido. Com a cabeça dolorida, pressionei os olhos com as mãos e inspirei fundo várias vezes para aliviar o enjoo. Ouvi o Dr. Hassan se mover. Ele se jogou no chão de pedra batida e exclamou:
— É uma honra estar na sua presença, Magnífico!
Totalmente consciente dos ruídos à minha volta, pois todos eles soavam como marteladas no meu cérebro, ouvi os estalos da areia, algumas palavras murmuradas suavemente em egípcio que em seguida passaram para o inglês e por fim passos vindo na minha direção. Pelas frestas entre os dedos, vi um par de pés descalços pararem na minha frente. Amon estava calçado, então, a menos que houvesse perdido os sapatos, não havia como aqueles serem os seus pés. Dois dedões carnudos tamborilaram na areia e ouvi uma risada.
— Não precisa ter medo de mim, sacerdotisa. Eu juro que não mordo. A menos, é claro, que você assim deseje.
Minha dor de cabeça finalmente diminuiu até virar um latejamento difuso e deixei meus olhos subirem dos tornozelos conectados aos pés na minha frente, incrivelmente bronzeados, até as pernas musculosas daquele homem. O irmão de Amon usava um saiote branco plissado quase idêntico ao dele no dia em que eu o conhecera. Olhei em volta e vi Amon abaixado, apoiado em um dos joelhos, junto ao sarcófago. Ele tinha a respiração pesada e seus braços tremiam.
Uni as pernas debaixo do corpo para me levantar e o homem que ria me estendeu a mão, me puxando para cima dele.
Quando tentei me afastar para ir até Amon, ele disse:
— Deixe-o recobrar as forças. O esforço de nos despertar mina sua energia, e a dele já estava esgotada antes mesmo de ele começar. — Olhando por cima do ombro, acrescentou: — Eu quase corri o risco de despertar feio.
Ele sorriu para Amon, então se inclinou mais para perto de mim. Fiquei sem ar quando passou um braço à minha volta, atrevido. Estava fraca demais para empurrá-lo.
— Cá entre nós, eu sou bonito demais para ele estragar tanto assim minha aparência — disse ele com uma piscadela.
Como meu nariz estava praticamente imprensado contra seu peito nu, não pude fazer nada senão concordar. A criatura que eu temera no começo estava agora muito bem formada. Onde antes se via uma caixa torácica vazia, ele agora exibia um peitoral forte. Os braços finos cruzados diante do tronco tinham se tornado musculosos e potentes, e me seguravam de modo ao mesmo tempo firme e delicado. O maxilar que antes estalava tinha virado um sorriso sedutor, e as órbitas vazias haviam se tornado dois olhos cor de chocolate, que reluziam alegremente provocantes.
Assim como Amon, ele veio ao mundo de cabeça raspada, vestido apenas com um saiote branco, e era igualmente bonito. Embora fosse evidente pela pele dourada que os dois vinham de um lugar com clima ensolarado, a semelhança terminava aí.
Ambos estavam em excelente forma física, tanto que, se aparecessem em um encontro de fisiculturistas, não estariam nada fora do lugar, mas Amon era mais alto, mais sólido do que o irmão. Sua cor era diferente, e a estrutura óssea também. Enquanto Amon tinha um rosto franco, dava para ver que seu irmão escondia coisas atrás dos olhos e do jeito afável.
Eu estava ali em pé, olhando de testa franzida para a covinha em seu queixo, que decididamente não existia no de Amon, quando o homem falou com o Dr. Hassan.
— Que presente delicioso você me trouxe, ancião — disse ele, sem tirar os olhos de mim. — Quase compensa esse banquete inacreditavelmente pobre.
— Sim. — O Dr. Hassan se aproximou depressa. — Imploro seu perdão. As circunstâncias eram extenuantes, sabe...
Embora não estivesse de modo algum recuperado, Amon o interrompeu. As fundas olheiras sob os olhos e sua palidez me diziam que ele precisava da minha energia, mas em vez de se reabastecer ele segurou minha mão e me puxou para longe do irmão.
— Lily não é uma sacerdotisa nem está aqui para ser seu brinquedinho, Asten — avisou.
O deus das estrelas estreitou os olhos e, sem deixar de sorrir, olhou para o irmão. Então baixou o olhar para nossas mãos entrelaçadas.
— Ah, entendi. Ela é sua.
Amon franziu o cenho.
— Ela não é nem minha nem sua. Não está comprometida com ninguém. Ela pertence apenas a si mesma.
— Será? — Asten cruzou os braços diante do peito. — Bom, nesse caso, uma moça que pertence apenas a si mesma tem liberdade para escolher quem desejar. — Ele pegou minha mão e depositou um beijo no dorso dela. — Anseio pelo desafio de convencê-la a gastar seus desejos comigo — falou, com uma piscadela travessa.
— Asten, essa é Lily, e esse é o nosso vizir, doutor Hassan — disse Amon com um suspiro.
— Prazer em conhecê-lo.
O Dr. Hassan se adiantou e inclinou a cabeça.
— Sim, sim — respondeu Asten. — Talvez você possa me venerar mais tarde. Meu irmão me disse que temos pouco tempo.
— É verdade — confirmou Amon, grave.
— Muito bem. — Asten se agachou ao lado da oferenda que o Dr. Hassan tinha disposto no chão. — Então... — a personificação do deus das estrelas estendeu a mão e pegou uma maçã na pequena pilha de comida — ... quanto tempo temos até a cerimônia?
Depois de limpar a maçã no saiote branco, que ergueu a uma altura escandalosa, Asten deu uma mordida na fruta crocante e limpou cuidadosamente com o polegar o sumo que escorreu de seus lábios enquanto sorria para mim. Estendeu-me a fruta e disse:
— Bem, eu lhe prometi uma mordida.
Aquela era uma cantada tão escancarada que me fez dar uma risadinha, algo que não era do meu feitio. Pensar que eu tivera tanto medo dele agora me parecia uma bobagem.
— Não, obrigada — respondi, sorrindo.
— Tem bastante para dois, e não estou vendo nada de errado. Não quer reconsiderar?
— Não, estou bem. Pode comer.
— Está bem. Mas a maçã teria ficado ainda mais doce se os seus lábios a tivessem tocado.
— Chega — interrompeu Amon. — Quer parar com essas provocações sem graça?
Asten deu um tapa no ombro do irmão.
— Ah, o que é isso... Com certeza temos tempo para um pouco de celebração.
Amon se remexeu, pouco à vontade, e disse:
— Não, irmão, não temos. O Obscuro mandou seus asseclas, e está se fortalecendo.
Asten terminou de comer a maçã e lançou o miolo na direção do Dr. Hassan, que se apressou em catá-lo.
— Como assim? — perguntou Asten enquanto observava as roupas de Amon e em seguida tornava a olhar para mim. Astuto, insistiu: — Quando você despertou, irmão?
Em vez de responder, Amon se dirigiu ao Dr. Hassan:
— Osahar, pegue nossas coisas para podermos ir embora quanto antes.
— Agora mesmo, Magnífico... digo, Amon.
— Obrigado.
Asten observava o irmão com atenção.
— O que aconteceu, Amon? Por favor, me diga.
— Eu despertei há vários dias. Sinto muito que o seu período desperto seja tão curto, mas só temos poucos dias para localizar Ahmose e subjugar o Obscuro antes que ele acumule poder suficiente para nos deter.
— Localizar Ahmose? Você não sabe onde ele está? Por onde você andou, então?
Amon levantou a mão e Asten parou de fazer perguntas.
— Há muito a contar, mas o tempo é curto. Conversaremos no caminho. — Amon olhou para mim e passou o polegar de leve pelo meu rosto. — Precisamos despertar Ahmose, e rápido — acrescentou.
Parecendo ganhar sensatez diante da evidente preocupação do irmão, Asten segurou seu braço.
— Farei o que for preciso, irmão. Nós vamos encontrá-lo. Estamos na morte como fomos na vida.
— Na morte e na vida, Asten.
Eu havia acabado de me abaixar para pegar minha bolsa quando a caverna de repente estremeceu. Tropecei, indo de encontro a Amon, que me segurou com facilidade. O tremor cessou de forma abrupta, e eu estava prestes a perguntar ao Dr. Hassan se havia terremotos naquela região quando a montanha tornou a roncar.
Um vento quente soprou pela caverna, rastejando pela minha pele, e então recuou.
— É você quem está fazendo isso? — sibilei para Amon.
O som de uma respiração pesada tornou a trazer a mesma brisa fétida.
Ele fez que não com a cabeça, e com um som lancinante, como se um gigantes inspirasse, o ar foi sugado para fora da caverna. Meus pulmões se contraíram e me agarrei ao braço de Amon no momento em que as tochas bruxulearam e então se apagaram, deixando-nos imersos em total escuridão. Amon e Asten acenderam seus corpos e, quando o fizeram, pude sentir a rajada fresca de oxigênio penetrar meus pulmões. A luz branca de Asten era bem mais forte que a da pele dourada de Amon, e nessa hora ficou claro quanto Amon estava esgotado. Seus olhos reluziam no escuro, verdes, enquanto os de Asten eram cor de âmbar.
Uma poeira choveu sobre nós. Algo se moveu logo abaixo da pedra. Bem devagar, a coisa oculta se contorceu e ondulou, feito uma cobra gigante coleando sob a areia do deserto, traçando um círculo até um dos lados da caverna, depois até outro, enquanto as paredes se abaulavam.
— O que é isso? — sussurrei.
— Não sei — respondeu Amon.
Nesse exato instante, milhares de fissuras se abriram na parede, deixando escapar finos filamentos de luz e acendendo a caverna inteira.
— Que lindo! — sussurrei.
— Eu não acho que descreveria da mesma forma — comentou Amon enquanto o brilho ficava mais forte e começava a se agitar.
Fios finos e reluzentes se contorciam, passando pelos buracos, e caíam às centenas no chão da caverna.
— Essas coisas não são...
— São, sim — respondeu Amon. — Vermes.
— Que horror. — Esfreguei os braços, deslizando as mãos para cima e para baixo. — É isso que normalmente acontece quando você o desperta? — Indiquei Asten com o polegar.
O deus das estrelas se pronunciou:
— Milhares de lindas mulheres? Sim. Milhares de insetos cujo único objetivo é atrair peixes? Não.
— Rapazes — falei, dando alguns passos para trás —, eles continuam se aproximando. — Vermes compridos e luminosos de todos os tipos se revolviam em pilhas cada vez maiores, e não demoraria muito para sermos soterrados por eles. — Podemos sair daqui? — indaguei. — Quero dizer, antes de nossos ossos ficarem descarnados como os de Asten.
— Você não é uma devota muito dedicada falando de mim desse jeito, hein? — comentou Asten.
— Eu nunca disse que era.
— Não acho que seja com esses vermes que devemos nos preocupar — interveio o Dr. Hassan.
— Ah, não? — retrucou Amon. — Qual é a sua preocupação então, doutor?
Um novo ronco tornou a sacudir a montanha, e dessa vez uma rachadura gigante surgiu no teto. Pedras e detritos despencaram lá de cima, destruindo o sarcófago de Asten e estilhaçando os vasos canópicos. Da fenda emergiu uma criatura que parecia saída de um filme de ficção científica – um verme do tamanho do Godzilla.
Sua pele cinza exsudava. A metade da frente era uma boca, com dentes afiados e circulares que desciam bem fundo, até onde meus olhos alcançavam. Como se pressentisse que havia carne fresca por perto, o verme dobrou o corpo na nossa direção e se contorceu mais para dentro da caverna; a boca escancarada se abria e fechava, e os dentes afiados se chocavam com um barulho que parecia uma tesoura.
O Dr. Hassan engoliu em seco.
— Era com isso que eu estava preocupado.

Um comentário:

  1. E eis que chega a hora do triângulo amoroso se iniciar kkkk

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