21 de outubro de 2016

15. Oásis das Pedras Sagradas

Grãos de areia pontiagudos começaram a espetar minha pele à medida que a tempestade se aproximava.
— Entre na casa com o doutor Hassan! — gritou Amon. — Vou tentar conter a tempestade.
Balancei a cabeça com veemência.
— É perigoso demais!
— Eu volto para você. Vai ficar segura lá, Lily!
Os olhos dele exibiam um brilho intenso. Ele uniu as mãos e esticou os braços, e uma explosão de luz se irradiou de seu corpo. O imenso falcão dourado se materializou no lugar em que Amon estava pouco antes e baixou a cabeça na minha direção. Quando a ave alçou voo, tentei ver em que direção seguia, mas ela foi logo tragada pelo turbilhão de areia escura.
Apesar do aviso de Amon, fiquei no terraço observando-o, torcendo para que ele voltasse logo, ou no mínimo que o nosso vínculo me garantisse que ele estava seguro. Em poucos segundos, porém, a casa inteira foi engolida pela escuridão, e a areia que fustigava minha pele tornou-se ainda mais brutal. Protegi os olhos, e tinha acabado de desistir, já que não conseguia ver sequer uns míseros centímetros à minha frente, quando algo agarrou meu braço.
Dei um grito de dor e baixei os olhos. Uma força tremenda esmagava meu antebraço, ferindo os músculos, tentando triturar o osso, rasgando minha carne, mas não havia nada ali. De repente a pressão sumiu e uma marca em forma de meia-lua apareceu de ambos os lados do meu braço esquerdo. Era como se uma criatura grande tivesse cravado os dentes em mim. Meus olhos se encheram de lágrimas quando o sangue começou a brotar da ferida e escorrer pelo braço em pequenos filetes, descendo até o cotovelo, de onde começou a pingar no terraço. Eu estava imóvel, em choque, com o braço latejando, quando a criatura invisível tornou a me morder, dessa vez na perna.
O tecido fino da calça que eu estava usando rasgou no joelho, as pontas agitando-se ao vento enquanto marcas irregulares de garras e arranhões surgiam na minha panturrilha. Quando cambaleei, o Dr. Hassan me agarrou e me puxou para dentro de casa. Desabei sobre uma cadeira enquanto ele apagava todas as luzes e corria de porta em porta e de janela em janela trancando tudo e fechando as cortinas, como se fazer isso pudesse manter do lado de fora a tempestade e o que quer que estivesse me atacando.
Ele voltou com uma pomada e vários panos de prato. Ajoelhou ao meu lado e aplicou o remédio nas feridas. Não sei o que ele usou, mas ardeu, e cerrei os dentes.
— O que era aquilo? O senhor viu o que me mordeu? — perguntei.
— É um presságio — sussurrou o Dr. Hassan, grave. — Um sinal muito ruim.
— Presságio? Presságio de quê?
— Do despertar do Obscuro.
— Do deus do mal? Seth?
— Não. Se o deus do caos tivesse despertado, o mundo já estaria sob o seu jugo. Isso foi só um sinal da sua vinda.
Arquejando de dor, enrolei cuidadosamente um pano de prato limpo em volta do braço ferido.
— Isto aqui não me parece “só”.
— Não, não parece mesmo.
Arquejei ao ouvir garras se precipitando e vários objetos grandes caírem pesadamente no chão do terraço. Silvos monstruosos e o barulho de alguma coisa tentando arrombar a porta me fizeram espiar por entre as cortinas. Embora eu pudesse ouvir as pesadas criaturas se moverem no terraço, não consegui ver nada. As mãos do Dr. Hassan tremiam quando ele foi buscar um kit de primeiros socorros e me pediu que tornasse a me sentar.
— Esse tipo de coisa acontece toda vez que Amon desperta?
— Não. Este despertar é... único, sob vários aspectos.
Uma cadeira do terraço bateu contra a porta com um estrondo e eu gritei, mas o Dr. Hassan permaneceu parado onde estava.
— E se essa coisa entrar, seja lá o que for? — indaguei. — O senhor não está com medo?
— Eles não podem entrar na minha casa. Ela foi abençoada — afirmou ele, soando como se tentasse convencer tanto a si mesmo quanto a mim.
— Abençoada, amaldiçoada, não parece fazer muita diferença para os caras do mal. Vocês grão-vizires confiam um pouco demais nos seus encantamentos, o senhor não acha? O bom senso me diz que a gente deveria dar o fora daqui. De preferência em um carro bem veloz.
— Não! — O Dr. Hassan empalideceu. — Você seria estraçalhada se fosse lá fora agora. Estamos seguros dentro de casa.
— Bom, que ótimo, mas e as pessoas inocentes por aí? Não está preocupado com seus vizinhos?
— A tempestade está direcionada a nós. Os que estiverem por perto talvez sintam o clima estranho, mas o ataque tinha por alvo você e Amon.
— Certo. — Cética, mudei de posição na cadeira enquanto ouvia o barulho de madeira rachando. As criaturas pelo visto tinham se irritado por não terem podido dar mais uma mordida na minha apetitosa pessoa e estavam descontando a agressividade nos móveis do terraço. Com cuidado, o Dr. Hassan fez um curativo na minha perna, então começou a cuidar do meu braço. — Quer dizer então que o Obscuro gosta de morder garotas? — perguntei, espiando a ferida. — Não pude deixar de notar que o senhor não foi mordido.
— Se as criaturas me mordessem, eu poderia ver quem as está guiando. Elas me evitam de propósito.
— Alguém está controlando essas criaturas? — perguntei, sem entender.
— Sim.
— Pensei que fosse Seth.
— Não. Se fosse ele, estaríamos enfrentando coisa bem pior. Os poderes dele estão limitados até o advento da lua cheia. Até agora eu não acreditava que fosse possível, embora deva admitir que venho sentindo o mal crescer. Descartei minhas desconfianças como fantasias de um velho, mas as criaturas lá fora não deixam margem para dúvidas. Quem as está dirigindo é o assecla de Seth. Seu criado. Meu equivalente do mal.
— Outro sacerdote?
— Acho que sim. O poder dele é... sem precedentes.
— Mas o senhor não sabe quem ele é.
— Sei o que ele é, mas até agora não conheço sua identidade.
— Quer dizer que ele é humano?
— Já foi.
— Como assim? — indaguei, hesitante.
O egiptólogo de cabelos brancos deu um suspiro.
— Em uma cidade chamada Shedyet existia um culto de sacerdotes dedicado a Seth. O líder desse grupo era um necromante chamado Apófis. Os egiptólogos modernos o consideram um deus, inimigo de Amon-Rá, mas os registros transmitidos pelos vizires contam outra história.
— O senhor acredita que ele não era deus, e sim humano, é isso?
— Correto. Apófis era um homem vil e libidinoso, que abusava de tudo e todos que considerava fracos e frágeis. Identificava-se com o crocodilo do Nilo e chegava a manter várias dessas criaturas como animais de estimação, divertindo-se em jogar seres vivos para os répteis devorarem. Apófis se julgava um grande sedutor de mulheres; procurava as meninas mais bonitas, puras e inocentes de várias origens e lhes oferecia riquezas, luxo ou a ilusão do poder. Dava-lhes qualquer coisa que achasse que elas pudessem necessitar: abrigo, dinheiro.
— Nossa!
— Tudo fazia parte do seu jogo. Ele ficava esperando, mais ou menos como faz o crocodilo quando está atrás de uma presa. Quando a menina mordia a isca... crac! Era capturada entre as suas presas, e não havia outra escapatória para ela senão a morte.
A história dele foi interrompida quando um ruído violento de algo se rasgando junto à janela nos distraiu. Garras invisíveis atingiram o vidro e foram descendo por ele devagar, deixando compridos arranhões. O vidro não quebrou. O Dr. Hassan deu um grunhido.
— O encantamento de proteção parece estar funcionando.
— Vamos torcer para continuar assim — observei. — O senhor estava me contando sobre Apófis...
— Ele atraía mulheres e, quando elas estavam mais vulneráveis, atacava. No templo, exibia orgulhosamente suas conquistas e, quando estava pronto para passar à próxima vítima, sacrificava a jovem a um crocodilo gigante que enfeitava com pulseiras de ouro e uma coleira cravejada de pedras preciosas. Todos o temiam. Muitos o idolatravam. Seth o amava. A cidade foi rebatizada de Crocodilópolis em homenagem a Apófis e ao tempo do crocodilo, e como recompensa por sua devoção a Seth ele recebeu um poder novo.
— Qual?
— Uma espécie de controle hipnótico. As pessoas para quem ele olhava ficavam enfeitiçadas. Não tinham outra alternativa senão fazer o que ele mandava. Apófis recebeu um novo apelido, Devorador de Almas, não só porque jogava as vítimas para os crocodilos, mas também por causa de sua habilidade em controlar os mortos.
— Que sinistro.
— É. Apófis ficou encantado com esse novo poder, mas logo descobriu que não estava satisfeito em conduzir apenas meros mortais, então fez um pacto com Seth, que lhe prometeu a imortalidade se ele conseguisse encontrar um jeito de eliminar Amon-Rá e Hórus, inimigos de longa data de Seth. Basta dizer que Apófis foi derrotado.
— O que houve com ele?
— Seth nunca teve a intenção de cumprir a promessa, então Apófis tentou estender seu tempo de vida de outras formas horrendas. No entanto, essas tentativas de tapear a morte acabaram por transformá-lo em monstro.
— Um monstro igual àqueles que estão lá fora?
O Dr. Hassan levantou a cabeça, atento aos ruídos lá fora, enquanto pensava na resposta que daria.
— Digamos apenas que as criaturas lá fora seriam consideradas alegres e inofensivos cachorrinhos em comparação com o que ele se tornou.
— O senhor acha então que Apófis voltou — afirmei, sem querer realmente escutar a resposta.
A ideia de que existia um poderoso feiticeiro ainda mais monstruoso do que aquelas coisas lá fora querendo me devorar me deixou mais assustada do que eu queria admitir. Torci as mãos, me perguntando onde estaria Amon.
— Não ele exatamente, mas outro igual a ele, que assumiu seu lugar e serve a Seth de modo semelhante — continuou o Dr. Hassan. — Um necromante do mal, com capacidade para invocar as criaturas que atacaram você.
— Mas como o senhor sabe?
— Que estamos lidando com outro necromante?
Assenti.
— O fato de ele ter despertado shabtis do mal foi a primeira pista. Somente alguém com poderes divinos ou habilidade para ressuscitar os mortos pode dar vida a um shabti.
— E a segunda pista?
— A presença dos demônios biloko lá fora.
Biloko?
— Demônios invisíveis com bocas de crocodilo que, como Apófis, gostam de seres do sexo feminino, embora de sua parte prefiram iguarias como olhos, intestinos, fígado e coração.
Estremeci.
— Que bom que eles não tentaram abocanhar essas partes primeiro. — Meu braço latejou e toquei a atadura do curativo que o Dr. Hassan tinha feito. — Eu não vou... — Olhei para ele no escuro. — Não vou me transformar em um desses demônios crocodilescos, vou?
— Acho que não. Segundo as lendas, não existem mulheres biloko. Nas histórias, essas criaturas não se reproduzem como um vampiro ou um lobisomem. Elas só desejam...
— Devorar minha carne.
— Sim. Eu sinto muito.
— Eu também.
O barulho da mesa do terraço sendo derrubada fez com que eu me levantasse de um pulo e me encolhesse atrás do Dr. Hassan, agarrando o braço dele. O vento forçou mais ainda as janelas, a areia áspera fustigando a casa como uma chuva de granizo decidida a despedaçá-la, até que, subitamente, o vento parou. Fez-se silêncio, e a falta de barulho me pareceu ainda mais sinistra do que os fortes baques das criaturas movendo-se pelo terraço. O som de nossa respiração parecia mais alto do que os uivos do vento.
Com cautela, o Dr. Hassan ergueu a cortina e espiou a escuridão. O terraço estava destruído. Os móveis pareciam ter passado por um triturador de madeira. As almofadas que restavam tinham sido rasgadas, e seu enchimento branco e macio flutuava pelo terraço feito neve. A tempestade, porém, se afastava de nós, voltando na direção de onde viera, e as estrelas estavam visíveis outra vez.
— O senhor acha que já é seguro? — perguntei.
— Parece que sim. Por favor, fique aqui enquanto vou verificar.
Continuei olhando pela janela enquanto o Dr. Hassan andava pelo terraço. Quando ele pousou as mãos no parapeito, este se partiu. Ele ficou observando a tempestade recuar e depois de alguns instantes fui me juntar a ele.
A porta estava amassada por causa dos impactos repetidos, e pedaços de revestimento haviam sido arrancados a toda sua volta. Profundos talhos e arranhões de garras cobriam cada centímetro do telhado. Abaixei-me para recolher uma almofada em frangalhos. O enchimento estava para fora, e não pude deixar de pensar que era assim que meus intestinos ficariam, saindo da minha barriga aberta. Perguntei-me o que aconteceria se as minhas entranhas fossem devoradas por demônios.
Será que Amon ainda conseguiria usar meus órgãos, ou será que precisaria de outro doador?
— O senhor acha que Amon está seguro? — perguntei.
— Se ele tivesse sido derrotado, o mundo estaria um caos.
— O mundo já está me parecendo bastante caótico.
O Dr. Hassan suspirou.
— Não acredito que o Obscuro tenha acumulado poder suficiente para derrotar Amon, pelo menos não ainda. Mas você precisa saber que, mesmo que Amon esteja seguro, ainda existe a possibilidade de que venhamos a perder essa luta.
— O senhor não acha meio irônico o grão-vizir que serve ao deus do sol estar adotando uma atitude de nuvem escura de tempestade? Eu, pessoalmente, prefiro não pensar assim. Nós vamos encontrar os irmãos dele, e vamos realizar a cerimônia. Não vou me permitir pensar outra coisa.
O Dr. Hassan me estudou por um breve momento, então correu a mão por cima do parapeito quebrado.
— Sinto muito se essa notícia a deixa deprimida, Lily, mas creio que você e Amon precisam estar cientes de todas as possibilidades. Há histórias transmitidas ao longo dos séculos segundo as quais chegará um dia em que a cerimônia de alinhamento dos corpos celestes não bastará mais para conter o Obscuro, e ao que tudo indica esse ciclo já começou.
— Deixe-me ver se estou entendendo: está me dizendo que, mesmo Amon se sacrificando nessa cerimônia cósmica, existe uma chance de ela não dar certo?
O Dr. Hassan fez que sim com a cabeça.
— Isso foi previsto.
— Mas não sabemos com certeza se esta é a hora.
— Nada neste mundo é certo.
— Ok. Então esse presságio, esses demônios crocodilos...
— São sinais de que o Obscuro já reuniu poder suficiente, já recrutou aliados suficientes e já conseguiu se firmar o suficiente aqui na Terra...
— Para dificultar a tarefa de Amon e seus irmãos.
— Assim acredito.
Com as mãos nos quadris, falei:
— Fantástico. Realmente fantástico.
Estava ajudando o Dr. Hassan a formar uma pilha com os pedaços quebrados dos móveis do terraço quando reparei em um cometa brilhante no céu noturno. Ele avançava depressa na nossa direção, então diminuiu a velocidade e mudou de rumo quando chegou mais perto. Logo foi possível distinguir duas asas douradas.
— Os vizinhos conseguem vê-lo? — indaguei.
O Dr. Hassan fez que não com a cabeça.
— O grande pássaro só é visível para quem acredita nele.
O falcão pairou no céu acima da casa, seu corpo tremeluziu com a magia e começou a se transformar na forma conhecida de Amon. A sombra das asas agitava o ar enquanto o corpo dele descia devagar até o terraço. Quando seus pés tocaram a madeira, o brilho dourado das plumas das asas explodiu em um milhão de partículas de luz.
Em vez de baixar os braços, ele os manteve abertos para mim.
— Lily.
Corri até ele.
Amon me beijou na têmpora, em seguida perguntou ao Dr. Hassan:
— O que aconteceu?
— Ela foi atacada por demônios biloko.
Senti a pressão das mãos de Amon aumentar na cintura e na nuca.
— Eles vieram com a tempestade — explicou o Dr. Hassan.
— Então eles sabem.
Ele massageou de leve o meu pescoço, e o calor da ponta de seus dedos aliviou minha musculatura tensa.
O egiptólogo deu um suspiro.
— É esse o meu medo.
— Quem sabe o quê? — murmurei.
— O Obscuro sabe que Amon está enfraquecido e depende de você — explicou o doutor.
— Eles vão voltar? — perguntei junto ao peito de Amon.
— Vou garantir que não façam mal nenhum a você — respondeu Amon.
— Isso não quer dizer não.
Levantei a cabeça e vi que ele tinha o cenho franzido, a preocupação em seu rosto inequívoca.
Fechando os olhos, ele segurou meu pescoço. Cálidas pulsações penetraram minhas veias e então se dissiparam, a sensação se perdendo poucos centímetros abaixo da superfície.
— Lily, o que eu fui fazer com você? — sussurrou ele, a testa na minha.
— Eu estou aqui. Estou bem — falei, dando uns tapinhas no seu peito para chamar sua atenção.
— Você não está bem.
Seus olhos se estreitaram quando ele tocou de leve o curativo no meu braço.
— Foi só uma mordidinha. Nada de mais.
— Não é verdade. Os seus tecidos foram gravemente danificados, e o seu osso está fraturado em vários pontos.
— Quem te deu permissão para tirar um raio X à la deus do sol do meu corpo? Além do mais, Amon, isso não tem importância. O importante é...
Ele me sacudiu.
— Você é importante! — Ignorando os protestos que eu continuava a fazer, ele se dirigiu ao Dr. Hassan: — Precisamos sair imediatamente à procura dos meus irmãos.
Hassan pôs o chapéu na cabeça.
— O deus das estrelas está mais perto. Venham comigo.
— Ela precisa de um curandeiro. Eu preferiria despertar Ahmose primeiro.
O egiptólogo balançou a cabeça numa negativa e gesticulou para que o seguíssemos. Dentro de casa, pegou uma bolsa de viagem embaixo da cama e a encheu de objetos estranhos: ferramentas de arqueólogo, fósforos, pedaços de tecido e objetos diversos cuja utilidade não consegui entender.
— A personificação da luz está dormindo longe demais — disse o Dr. Hassan. — E chegar ao seu lugar de descanso vai levar tempo. Se formos buscá-lo primeiro, teremos que voltar para pegar a personificação das estrelas, o que nos faria desperdiçar um dia. Se houver outro ataque aqui, seu irmão pode ajudar a defender Lily.
Amon refletiu sobre isso por alguns instantes. Estava claro que as alternativas não lhe agradavam. Por fim, falou:
— Muito bem. Acordaremos Asten primeiro, mas vamos depressa, doutor.
— Sim.
Instantes depois, já seguíamos em disparada pela autoestrada no pequeno carro do Dr. Hassan, que era quase tão empoeirado quanto os objetos em sua sala. Estávamos a caminho do misterioso Oásis das Pedras Sagradas, que, segundo ele, só era acessível àqueles corajosos o bastante para passar pelas sentinelas e que entendiam como acessá-lo.
Abaixei a janela do carro e deixei o ar da noite acariciar meu rosto, que eu sentia superaquecido desde o ataque dos demônios. Embora o Dr. Hassan tivesse me garantido que não havia peçonha na mordida, a dor latejante não tinha passado e, apesar dos analgésicos que eu tinha tomado, podia sentir claramente uma sensação de dor generalizada pelo corpo.
Amon se alternava entre culpar a si mesmo, amaldiçoar o shabti e, por fim, xingar o sujeito que havia invocado os demônios, fosse ele quem fosse. Para ser sincera, a preocupação dele estava começando a me afetar. Sentia constantemente seus olhos pregados em mim, e não do modo como eu teria preferido.
Por fim, falei:
— Pare de olhar para mim como se eu estivesse à beira da morte.
— Não posso evitar me preocupar com você.
— Você está me deixando pirada.
— Não entendo “pirada”.
— Nervosa. E será que daria para você baixar seu termômetro interno? Ele está me assando por dentro.
— O calor que meu corpo irradia aumenta à medida que a hora da cerimônia vai se aproximando. Sinto muito se isso lhe causa desconforto.
Amon retirou o braço do meu ombro e uniu as mãos no colo, inclinando o corpo o máximo possível para longe de mim e para perto da porta. O espaço ao meu redor esfriou depressa, mas minha cabeça e meus ombros continuaram quentes.
Estendi a mão para segurar a dele.
— Desculpe. Normalmente gosto do seu abraço, mas é que...
— Não se preocupe, jovem Lily. Quando estou com você, às vezes esqueço o que sou, e por isso me descuidei.
— Você não é descuidado. Pelo contrário: é uma das pessoas mais cuidadosas que eu conheço.
Parecendo tranquilizado pelo meu comentário, ele apertou minha mão. Então recostou a cabeça no banco do carro e fechou os olhos. Achei isso bom, pois ele devia estar exausto.
Seguimos na direção oeste por várias horas, e enquanto Amon dormia interroguei o Dr. Hassan em voz baixa para tentar descobrir o que ele sabia sobre a cerimônia e sobre o que iria acontecer com Amon. Ele afirmou não saber muito mais do que eu, mas tive a impressão de que estava omitindo informações.
Em algum momento antes de o dia raiar, o Dr. Hassan conduziu o carro para fora da estrada e parou atrás de uns arbustos.
— Daqui temos que seguir a pé — anunciou.
— Fica longe? — perguntei.
— Alguns quilômetros pelo deserto.
— Acho que ela não vai conseguir andar alguns quilômetros — contrapôs Amon.
— Quem sabe ela pode ficar esperando no carro? — sugeriu o doutor.
— Não, ela vai ficar ao meu lado.
— Não podemos ir de tempestade de areia? — indaguei.
— Não. Seria preciso energia demais para transportar nós três. — Amon passou alguns instantes encarando uma duna próxima antes de dizer: — Tive uma ideia.
Ele estendeu a mão, murmurou algo baixinho e as dunas na nossa frente começaram a mudar de forma. Grãos de areia rodopiaram e se contorceram, e de repente três cavalos irromperam das dunas com uma explosão de poeira cintilante. Inclinando a cabeça e soltando vapor pelas ventas, eles vieram até nós.
— Nossa... que lindos! — exclamei enquanto Amon gesticulava para que eu me aproximasse. Os cavalos eram do mesmo tom da areia e cintilavam como se pequenas partículas minerais estivessem misturadas à sua pelagem. Os rabos e crinas tinham uma cor creme amarelada vários tons mais claros do que a pelagem. Os grandes olhos reluziam como pedras de âmbar polidas e os cascos pareciam ter sido mergulhados em purpurina dourada. — De onde eles saíram?
Amon acariciou o pescoço da égua e disse:
— Lembra a história que contei sobre Nebu, o garanhão dourado do deserto?
— Lembro.
— Estes cavalos são da manada dele.
— Então Hórus acabou encontrando o garanhão?
— Não exatamente. Foi Nebu quem encontrou Hórus, para ser mais exato. Eles criaram um vínculo, e sempre que Hórus, ou neste caso um filho do Egito, precisa, Nebu manda seus filhos e filhas para ajudar. — Amon deu um passo para trás. — Você vai na égua. Deixe-me ajudá-la a montar.
Ele me segurou pela cintura e me ergueu alto o suficiente para que eu pudesse passar a perna machucada por cima do lombo da égua. Uma vez montada, comecei a entrar em pânico.
— Só montei uma ou duas vezes na vida, e nunca em pelo. E se eu cair?
— Segure firme na crina — instruiu Amon. — Ela não vai deixar você cair.
Entrelacei os dedos nos fios sedosos e me inclinei para sussurrar no ouvido da égua:
— Vou tentar não atrapalhar demais. Quem manda é você. Eu estou só de carona.
A égua reagiu balançando a cabeça e soltando um relincho melodioso enquanto se aproximava alguns passos do cavalo de Amon, um belo garanhão uns 20 centímetros mais alto do que ela.
— Preparada? — perguntou Amon.
Quando aquiesci, ele se virou para o doutor.
— Preparado, doutor Hassan?
— Sim, sim. — O egiptólogo acenou enquanto se acomodava no lombo do seu cavalo.
— Então vá na frente, por favor, doutor — incentivou Amon.
Com um “Rá!” vigoroso do Dr. Hassan, seu cavalo disparou à frente, e os nossos o seguiram. Embora estivessem marchando, era uma marcha acelerada que às vezes se transformava em trote, o que exigia um pouco demais das minhas costas, mas no geral era relativamente confortável.
Reparei que algo despontava das dunas ao longe e projetava sombras escuras no céu noturno.
— É para lá que estamos indo? — perguntei ao Dr. Hassan quando minha égua trotou mais para perto do seu cavalo.
— Sim. Aquilo na base daquelas montanhas é o oásis. Precisamos chegar lá antes de o sol nascer.
— O que vai acontecer quando o sol nascer?
— As pedras vão nos mostrar o caminho, mas somente em um horário preciso.
Incentivados pelo Dr. Hassan, os cavalos apressaram o passo. O céu já estava começando a clarear e, pelo jeito como o Dr. Hassan olhava para o horizonte, pude ver que estava preocupado. Palmeiras altas ondulavam na escuridão que precedia a aurora, e suas folhas pesadas farfalhavam à brisa. De repente, um animal grande deu um grito, seu chamado ecoado por outros, e logo o deserto se encheu de sons.
— O que é isso? — perguntei em voz alta.
— Babuínos! — gritou Amon acima do barulho. — Eles saúdam a aurora com gritos.
Fiz uma careta.
— Acho que prefiro o canto matinal dos pássaros. Eles são perigosos?
— Para os malfeitores, sim — respondeu o Dr. Hassan.
— Hã, e como eles sabem se sou malfeitora ou não?
— Babuínos normais não saberiam — respondeu ele. — Mas esses são guardiões que servem a Babi, o macho alfa de todos os babuínos. Ele é uma sentinela do além. Sabe, todos os babuínos são agressivos, onívoros e territoriais, mas esses daí são duas vezes mais. Eles foram chamados para proteger o lugar de descanso onde escondi o irmão de Amon. Não permitem a passagem de ninguém mal-intencionado. Decidi tomar essa precaução depois que o corpo de Amon foi roubado. Dizem que Babi devora as entranhas dos malvados, e esses babuínos são igualmente perigosos. Vamos prosseguir com cautela, mas nós todos teremos que nos apresentar para sermos julgados.
— E eu pensando que o processo seletivo para entrar na universidade fosse difícil... — resmunguei.
Nossos cavalos pararam na beira do oásis, e a cacofonia dos babuínos subitamente cessou. Os troncos das árvores se agitaram e formas escuras se moveram pelo chão e pelo meio da vegetação até as criaturas se materializarem na nossa frente. Seus dentes brilhantes e pontiagudos estavam à mostra, e os olhos úmidos reluziam no escuro como pequenas lanternas.
— Precisamos nos apressar — disse o Dr. Hassan. — Vou primeiro.
Amon me ajudou a desmontar e dispensou os cavalos com uma mesura agradecida. Com um grande salto para dentro do deserto, os animais foram tragados pela areia, e a única prova de que haviam estado ali eram as pegadas que deixaram para trás.
O Dr. Hassan tinha chegado ao limite do oásis, onde o bando de macacos o aguardava. Um macho grande se ergueu nas patas traseiras e emitiu um ruído baixo. Outros responderam ao seu chamado e, quando o Dr. Hassan pisou na grama debaixo de uma palmeira, várias das criaturas se puseram a correr de um lado para outro e o rodearam. Os macacos começaram a esbarrar em seus sapatos e pernas e a puxar sua calça. Um bebê subiu no seu braço para examinar seus cabelos, depois desceu e trepou nas costas da mãe.
Uma vez terminado esse estranho tribunal animal, o barulho cessou e o doutor passou pelo bando até o outro lado.
— Venha, lady Lily — chamou ele acima dos babuínos, que, parados, agora me observavam em silêncio.
Amon segurou meu braço e sussurrou:
— Não vou deixar nada acontecer com você. Não tenha medo.
Avancei até o meio do bando me sentindo uma covarde e fechei os olhos quando os gritos começaram. Corpos pesados movimentavam-se à minha volta, e fiz uma careta quando um deles tocou minha perna machucada, mas dedos delicados roçaram as ataduras e, quando um dos babuínos estendeu a mão, eu a segurei. O barulho dos animais silenciou abruptamente, e um deles me deu um levíssimo empurrão na direção do Dr. Hassan.
Quando Amon entrou no oásis, os babuínos ficaram imóveis, fascinados, e então, quase como se fossem uma única criatura, adiantaram-se e começaram a tocar seus braços e pernas. Depois de todos os macacos o terem tocado, o maior deles soltou um grito grave e todos tornaram a se esconder entre as árvores, desaparecendo como se jamais houvessem existido.
Uma vez recebida a permissão dos guardiões babuínos, adentramos o oásis e seguimos na direção do barulho de água. O Dr. Hassan tinha começado a correr assim que o bando de macacos liberara Amon, que me ajudava a avançar para que eu não ficasse muito para trás, e, bem na hora em que eu estava prestes a protestar que minha perna precisava de um descanso, o Dr. Hassan parou diante de um poço fundo alimentado por uma cascata.
O poço estava rodeado por pedras de formatos e tamanhos variados, o que não teria sido nada incomum não fosse o fato de todas terem um furo no meio. Fiquei ainda mais perplexa quando o Dr. Hassan começou a recolher punhados de pedras e jogá-las na água.
— Rápido! Me ajudem! — gritou ele.
Amon se abaixou, catou várias pedras, reuniu-as todas na mão e começou a jogá-las.
— O que estamos fazendo? — perguntei enquanto jogava também o meu punhado.
— Prestem atenção para ver qual delas boia — disse o Dr. Hassan sem parar de lançar as pedras. — Uma verdadeira pedra ovo de serpente flutua na água.
— Ovo de serpente?
— Um ovo de serpente é usado para proteger uma pessoa de feitiços do mal ou de pesadelos. Como ele é formado com veneno de víbora, também pode evitar a morte por picada de cobra — explicou Amon.
— Olhem uma ali! — exclamou o Dr. Hassan. — Precisamos de uma para cada um, então continuem procurando — acrescentou, enquanto Amon recolhia do poço a pedra flutuante.
Vários punhados de pedras depois, encontramos uma segunda, que o Dr. Hassan me mandou guardar no bolso. O sol iria nascer a qualquer momento, e o egiptólogo atirava freneticamente punhados de pedras na água. Por fim, uma terceira pedra boiou, e o Dr. Hassan pulou dentro do poço feito um gato que recolhe um peixe gordo para o jantar.
Ele saiu da água cambaleando e nos conduziu até uma clareira, onde ergueu a pedra para o sol nascente. No momento em que a aurora surgiu no horizonte, a luz brilhou atravessando o buraco na pedra. Um pontinho de luz branca atingiu a água e foi subindo devagar à medida que o sol se erguia no céu. Quando o raio de luz bateu na montanha, olhei para o Dr. Hassan.
Toda sua atenção estava concentrada na montanha.
— Agora venham — sussurrou ele. — Temos que achar a abertura. — Alguns segundos depois, ele deu um grito de triunfo. — Aqui! Achei!
Vi um clarão na colina rochosa do outro lado do poço, como se um espelho estivesse refletindo a luz lançada pelo buraco no ovo de serpente do Dr. Hassan. A montanha roncou, e esperei que algo estranho acontecesse – que surgisse um exército de esqueletos, um batalhão de escaravelhos velozes à procura de alguém para devorar, alguma espécie de sinal do apocalipse egípcio – mas logo ela se aquietou e nada aconteceu. Espiei além da água, mas a luz tremeluzente tinha sumido. O doutor guardou o ovo de serpente no bolso, cambaleou até o poço e começou a dar a volta.
— Por que cada um de nós precisava de uma pedra se a sua deu conta do recado? — perguntei-lhe enquanto avançávamos cuidadosamente pelas pedras escorregadias.
— Você vai ver — respondeu ele, misterioso.
Em pouco tempo, chegamos ao pé da montanha. Uma cachoeira descia pelas rochas íngremes e a água respingava e molhava nossa pele. O Dr. Hassan parou e ergueu sua pedra até a altura do olho.
— Pronto, finalmente chegamos — declarou.
— Hã... chegamos aonde? — perguntei.
— Use a sua pedra — foi a resposta dele. — Olhe pelo buraco e você vai ver nosso caminho.
Tirei minha pedra do bolso, olhei pelo pequeno buraco e arquejei ao ver uma abertura na montanha. Quando olhava sem a pedra, não via nada. Dei um passo à frente, toquei a superfície da montanha e constatei que era tão dura e impenetrável quanto parecia, mas então o Dr. Hassan, ainda com a pedra junto ao olho, avançou, passando por mim, e nos chamou para que o seguíssemos.
Respirei fundo, posicionando o ovo de serpente de modo a ver pelo seu buraco, e murmurei, com sarcasmo, enquanto penetrava a montanha:
— O que poderia dar errado, afinal?

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