25 de outubro de 2016

15. O Rio Estige

O vento ganhou força e o barco se sacudia nas ondas, mais violentas a cada segundo. Virando-o na direção do sol poente, avançamos cada vez mais rápido, perseguindo o astro agonizante que afundava no mar. Dentro de instantes a única coisa que eu conseguia identificar era o homem grande no leme, logo atrás de mim. Meu estômago se revirava enquanto a gravidade mudava. Eu tinha a sensação de que estava em uma montanha-russa aterrorizante cujo carrinho tivesse acabado de descarrilar.
Ver através da escuridão era uma coisa que eu tinha começado a considerar como algo natural depois de herdar os poderes de Tia. Mas agora eu não conseguia enxergar o branco das minhas roupas, e isso perturbava nós duas.
— O que está acontecendo? — gritei quando uma onda grande estourou sobre a borda do barco.
— Esta área é turbulenta, mocinha — berrou meu estranho companheiro. — É melhor se segurar firme para a transição!
— Que transição? Como assim?
Ele não respondeu e, quando o barco deu um solavanco à frente e depois desabou com um estrondo no mar, decidi que precisava me agarrar a alguma coisa mais substancial do que uma corda. Levantando-me com dificuldade, cheguei mais perto do capitão do barco e agarrei a amurada, envolvendo-a com os braços e segurando com força meus pulsos. Foi uma coisa boa, porque, quando chegamos à crista da onda seguinte, a embarcação decolou momentaneamente e minhas pernas saíram de baixo do corpo enquanto caíamos de novo. Desabei no convés com um baque doloroso.
— Mais uma onda deve bastar! — gritou ele, e eu me preparei enquanto o barco subia na próxima ondulação. Uma parede de água escura se ergueu à nossa frente e a gravidade mudou de novo.
Subimos mais e mais e eu soube que, assim que passássemos pela crista, despencaríamos para a morte. Não havia a menor possibilidade de não afundarmos. Não seria possível. Ou viraríamos uma cambalhota para trás, ou nos partiríamos em um milhão de pedaços do outro lado.
— Segure firme! — gritou ele. — Aí vem ela!
O barco subiu e subiu, até ficar quase vertical na coluna de água. Eu não sabia direito como meu companheiro conseguia se manter de pé. Sem dúvida ele não era forte o bastante para sustentar o próprio corpo. Água gelada espirrava de todos os lados. Até mesmo com o poder da esfinge eu sabia que meus braços não conseguiriam segurar por muito mais tempo.
Tia estava aterrorizada. Morte por afogamento não deveria ser o fim de um felino. Naturalmente, uma humana transformada em esfinge numa missão para salvar seu namorado múmia também não deveria morrer assim. O medo de Tia ecoava o meu, reverberando pelo corpo enquanto nos agarrávamos desesperadamente à amurada.
Justo quando eu estava a ponto de desistir, me soltar e permitir que meu corpo fosse levado para longe, ouvi um grito de triunfo e os solavancos do barco diminuíram, enquanto uma luz pálida caía sobre nós. Lentamente a embarcação se realinhou e, quando finalmente pude soltar meus braços trêmulos da borda do barco, olhei cautelosa procurando a fonte da luz.
Estávamos cercados de estrelas. Corpos celestiais tão brilhantes e próximos que eu tinha a impressão de que podia pegá-los com as mãos. Nunca tinha visto tantas. Quando olhei por cima da amurada, fiquei em choque ao ver que o oceano agitado tinha desaparecido e que havia estrelas embaixo de nós também. Elas se moviam num padrão que parecia quase fluido.
Maravilhada, perguntei:
— Onde estamos? — Estendi a mão para baixo e senti o toque daquela substância reluzente. Era fria, mas não gelada, e quando levantei a mão um padrão de luzes escorreu pelas pontas dos meus dedos antes de pingar e se juntar de novo à corrente estrelada embaixo de nós.
— No Rio Cósmico — respondeu o homem grandalhão. — No seu mundo ele é chamado de Via do Leite ou alguma bobagem assim.
— Via do Leite? Refere-se à Via Láctea? — Olhei a vastidão ao redor, maravilhada com as cores que faziam redemoinhos entre as estrelas e o negrume do céu.
— É. Deve ser isso. Temos sorte de conseguir, já que partimos tão tarde. Eu não tinha certeza se uma alma viva como você sobreviveria à transição. Claro, ainda temos um bom caminho pela frente. Você pode morrer a qualquer minuto. — Ele quase parecia feliz com a perspectiva.
— Bom, não morremos. Sorte sua, acho. Vai ficar com o pagamento.
— Vou ficar com o pagamento quer eu transporte você viva ou morta. Para mim não faz diferença.
Algo que ele disse fez com que um pensamento me ocorresse.
— Você é Caronte, o barqueiro, não é? E este é o Rio Estige! — acrescentei, empolgada.
Ele bufou, depois lançou uma bola de catarro por cima da amurada.
— Você não sabe muita coisa, não é?
Franzi a testa e cruzei os braços.
— Bom, se você não é o barqueiro, então quem é?
— Não tenho motivo para lhe contar nada. Conversar com os passageiros não faz parte das atribuições do meu cargo.
— Bom, você poderia ao menos fazer a gentileza de me dizer seu nome? Por favor? Eu gostaria de saber a quem agradecerei por me levar em segurança até o além.
— Meu nome é Cherty, e esse aqui é o meu barco, Mesektet. E, para deixar claro, eu não decidi levar você porque ele queria. Não preciso que ele me diga como fazer meu trabalho. Acho que posso escolher sozinho quem viaja comigo e quem não viaja. Mesmo que ele seja meu chefe.
— Quem diz a você como fazer seu trabalho? Hórus?
— Hórus, não. Seu amigo pássaro. Amon-Rá.
— Amon-Rá? Você deve estar enganado.
— Não há engano. Só uma pessoa assume a forma daquele pássaro específico, e essa pessoa é Amon-Rá.
— Então Amon-Rá é o pássaro Benu? — murmurei.
— Não o vejo nessa forma há um bom tempo.
— Hórus disse que fazia um tempo que ele não aparecia. Acho que faz sentido. Mas por que ele me guiaria na forma do pássaro Benu, e não na própria forma? E por que me ajudaria quando disse explicitamente que não faria isso?
Cherty deu de ombros.
— Não vou fingir que entendo as motivações dos deuses. Eles vivem ocupados discutindo, cortejando e geralmente fazendo besteira. Quase sempre isso significa trabalho extra para mim.
— Então eu sou a primeira alma viva que você carrega?
— A primeira, não. — O barco balançou um pouco quando alcançamos uma parte turbulenta do Rio Cósmico, mas Cherty ajustou habilmente o leme e passamos por essa área. — Uma vez levei um rapaz. O coração dele quase tinha sido arrancado. Havia perdido a amada e estava decidido a tê-la de volta. Eu avisei que era bobagem. Mas ele pagou bem e eu achei que a vida era dele e ele podia optar por perdê-la, se quisesse. Ainda me lembro da música maravilhosa que ele tocou enquanto navegávamos pelo céu noturno. E ele quase conseguiu voltar com ela. Redes a pegaram e Apep o pegou logo depois. Uma verdadeira pena. O nome dele era Oredes, Oreptos ou Orfeas, algo assim.
— Orfeu. Eu conheço essa história.
— Conhece? Não me surpreende muito. Seu mundo humano adora histórias para dormir.
Sua boca se franziu enquanto as mãos apertavam o leme.
— Não importa o que as pessoas dizem. Eu sei da verdade.
— A princípio fiquei com medo de você, sabe? Agora não estou. Deve ser solitário e triste fazer o que você faz.
— Não se esqueça de “perigoso” — acrescentou ele.
— Bom, isso nem precisa ser dito.
Ele deu de ombros.
— Precisa ser dito, sim. Principalmente com a probabilidade de você morrer. Acho que não vai encontrar seu namorado. Pelo menos com sua joia de escaravelho você sabe como ele se sente a seu respeito. — Ele meneou a cabeça para a joia à vista. — A maioria das pessoas que levo através do rio não tem nem mesmo isso. Fico escutando enquanto elas resmungam e se lamentam durante toda a viagem. Na maior parte do tempo estou mais para psiquiatra do que colhedor de almas. Elas fazem parecer que sou eu que provoco a morte, quando na maioria dos casos são elas mesmas que a provocam.
Seguimos em silêncio durante um tempo, e eu estava desfrutando da fantástica visão noturna quando a brisa morreu de repente, as velas enfunadas murchando gradualmente contra o mastro.
— Qual é o problema? — perguntei.
— Estamos entrando no território de Apep. Melhor ficar em silêncio, mocinha. Vou me esforçar ao máximo para levá-la viva ao outro lado destas águas, mas não prometo nada.
Rapidamente ele baixou a vela e a amarrou no mastro com destreza. Em seguida, posicionou-se num banco entre os dois remos compridos, mergulhou-os no Rio Cósmico e continuamos a avançar. De vez em quando ele parava, levantava os remos e prestava atenção. Alguns minutos depois ouvi um gemido fantasmagórico, como se fosse o canto de uma baleia, e Cherty se imobilizou, sussurrando:
— Me entregue os espetos do rio.
— O quê?
Ele revirou os olhos e direcionou minha atenção para os dois espetos com pontas afiadas. Assenti e lhe entreguei as armas. Depois de enfiá-las num espaço junto ao banco, ele indicou o martelo. Entreguei-o também, e ele o colocou aos pés. Pegou os espetos e prestou atenção, espiando as estrelas ao redor.
Achei ter visto um breve movimento ao lado e bati no braço dele, mostrando o ponto. Ele fixou os olhos penetrantes na parte do rio que eu tinha indicado, mas depois de um momento sacudiu a cabeça. Passou-se um longo tempo antes que ele pusesse os remos na água outra vez, e logo avançávamos sem incidentes, uma brisa começando a soprar algumas horas depois.
Quando ele se acomodou junto ao leme de novo, eu disse:
— Imagino que você seja muito ocupado. Não morrem milhares de pessoas todos os dias? E, se demora tanto para chegar ao além, como você faz tudo isso?
— Por sorte os desincorporados ocupam muito pouco espaço; desde que um pedacinho toque o barco, eles podem ir. Se ficar apinhado, os mortos se penduram nas laterais pelas pontas dos dedos. O triste é que assim fica muito fácil para Apep engoli-los.
— E quem, ou o quê, é Apep? Será que eu quero mesmo saber?
— Nem Amon-Rá brinca quando está perto de Apep. Ele foi feito por Seth. Claro, isso foi quando ele fazia coisas. Naquela época ele não passava de uma criança, pelo menos como você veria. Apep é... bom, acho que a coisa mais próxima com que você poderia compará-lo seria uma serpente. Ou um dragão, talvez. Não. Serpente é melhor. Serpente gigante. Como uma jiboia monstruosa. Ele mora num certo lugar do Cosmo, bem naquela parte do rio por onde passamos. Seu petisco predileto é... você adivinhou... os mortos. Suponho que não haja muito mais para comer por aqui.
— Ele já tentou comer você?
— Comeria, se me pegasse. Acho que você poderia chamá-lo de minha arquinêmese. A coisa que ele mais gostaria no mundo seria de afundar o Mesektet e desfrutar da sensação de me ter dentro da sua barriguinha quente.
— Ele... hã... come gente viva?
— Ah, imagino que ele adoraria engolir um petisquinho como você. Acho que seria muito nutritiva e deliciosa. Talvez ele pudesse se alimentar da sua carne durante uma ou duas décadas. Ele pegou um bom número de mortos na minha última viagem. Provavelmente ainda está com um bocado de gases por causa disso. Caso contrário, teria vindo para cima de nós feito uma mosca que encontrou um cocô de capissauro.
Meu nariz se franziu quando pensei nisso.
— É a primeira vez que transporto uma esfinge. Já levei centauros, unicórnios, até um dragão raivoso, mas nunca uma esfinge.
— Você não levou a outra esfinge? A que Ísis fez?
— Nunca a vi. Isso acontece às vezes. Especialmente se o morto estiver infeliz ao passar. Eles ficam vagueando. Tentando encontrar alguma coisa para dar sentido à morte. Provavelmente foi o que aconteceu com ela. Eles nunca chegam ao meu litoral. Os rituais de embalsamamento que Anúbis criou ajudam a guiar as almas para cá, mas mesmo assim algumas se perdem. Os mortais, especialmente os modernos, não sabem muito sobre navegar no Rio Cósmico. Eles estragam tudo. Alguns queimam os mortos e jogam as cinzas no rio. Alguns jogam os corpos no mar ou no Nilo. Eles confundem seus rios mortais com o meu, mas o único modo de chegar ao além é atravessando por aqui. — Cherty estendeu a mão indicando a vastidão ao redor.
Um redemoinho de estrelas no rio atraiu minha atenção e eu estremeci.
— Apep vai nos perseguir?
O barqueiro deu de ombros.
— Tudo é possível. Mas, como eu disse, tivemos sorte. Não sei bem se isso vai acontecer na viagem de volta, presumindo, claro, que eu esteja disposto a fazer uma exceção à minha regra de ida sem volta e que você sobreviva...
— Então você luta com ele?
— Não posso matá-lo. Só posso repeli-lo e esperar que ele não pegue muitos passageiros.
— Mas Apep se mantém no território dele?
— Quase sempre. De vez em quando o diabo me surpreende. Se bem que a esta altura ele já esgotou todos os truques. Este é o problema em relação à imortalidade: o trabalho fica monótono. Apep o mantém interessante.
— É — resmunguei. — Acho que isso seria um problema.
Falar na imortalidade me fez pensar na minha. Será que eu era mesmo imortal agora, como a outra esfinge, Baniti? Será que eu queria ser? Havia muita coisa que eu poderia fazer e aprender como imortal. Poderia ficar para sempre com Amon. Essa era uma ideia inebriante. Mas, se eu só pudesse vê-lo por duas semanas a cada mil anos, seria extremamente solitário. Um relacionamento assim funcionaria? Talvez eu pudesse ficar com ele nos sonhos.
A verdade era que a esfinge em que eu havia me transformado me amedrontava. Eu não sabia como entender aquilo. Talvez o Dr. Hassan pudesse descobrir alguma coisa. Claro, buscar um modo de recuperar minha mortalidade poderia significar algo ruim para Tia. E ela representava mais para mim a cada dia que passávamos juntas. Sem dúvida a leoa era como uma irmã. Eu sempre quisera ter uma irmã.
Mas, por outro lado, será que eu poderia voltar a uma vida normal? Fazer faculdade? Ou conversar futilidades nos vários eventos sociais dos meus pais tendo uma leoa como companheira de quarto mental? Pior ainda, como poderia mudar meu estado sabendo que isso poderia matá-la ou que ela desapareceria para sempre?
O balanço do barco era tranquilizador; encostei a cabeça na amurada, deixando que ele me acalentasse. O tilintar das estrelas foi desaparecendo, substituído pelos estalos de uma fogueira.
— Lily! — ouvi a exclamação suave.
— Amon?
Tateei na escuridão, incapaz de identificar sua forma. Por fim minha mão roçou em seu braço.
O som de um choro baixo encheu minha mente.
— Ah, Lily. Por que você veio?
— Amon? O que há de errado? Você está ferido? — Imediatamente me ajoelhei ao lado dele e envolvi seu pescoço com os braços. Ele me puxou para si, mas eu me afastei um pouco, mantendo a mão em seu ombro enquanto tentava usar a visão de esfinge para encontrar sua forma verdadeira. — Diga — pedi, sem conseguir ver nada. — Seu corpo está ferido?
— Estou além da dor. Sou um homem atormentado. Especialmente sabendo como você está perto. Você precisa voltar. Peça... não: implore a Cherty que a leve de volta a Heliópolis.
— Não posso. Você sabe disso. Por outro lado, estou perto demais.
— Ainda há tempo. Volte. Me esqueça. Eu imploro.
Seus soluços baixinhos fizeram meu coração estremecer e lágrimas brotaram nos meus olhos.
— Preciso encontrar você. Não vou desistir. Não me peça isso. — Amon não respondeu. — Por favor, diga o que há de errado com você.
— Tudo — murmurou ele. — E nada. Estou no Campo dos Medos. Aqui estou a salvo de tudo e de todos, menos de mim.
— Ah, Amon, sinto tanto! Espere por mim. Vou encontrar você. Eu prometo.
Foi como se ele não tivesse escutado.
— É quase mais fácil enfrentar um monstro — disse ele. — Aqui não há nada contra o que lutar. Meus desesperos mais profundos vieram à superfície, me torturando. E você está no âmago deles. Ao lhe oferecer meu coração, destruí a única coisa no Universo que eu queria proteger. Eu é que sinto muito, Lily.
Respirei fundo e tentei falar com calma, racionalmente:
— Seu coração é tudo que eu sempre quis. É a única coisa que me mantém viva. Tente se lembrar disso e de quanto quero estar com você.
— Você deveria ter aceitado a oferta de Hórus — disse ele, tristonho. — Ele seria uma escolha muito melhor.
— Eu não quero Hórus.
— Uma parte de você queria. Eu... eu o ouvi dizer isso.
Mordi o lábio.
— Peço desculpas se ter visto isso fez aumentar sua dor. Mas não amo Hórus. Amo você. Além disso, não acredito em tudo que Hórus diz, e você também não deveria acreditar.
Ele ignorou minha lamentável tentativa de explicação:
— Você precisa de alguém forte, como Hórus. Não a culpo por escolhê-lo.
— Eu não o escolhi. Na realidade...
— Dê meia-volta, Lily — interrompeu ele. — Volte para casa. Leve a vida mais normal que puder. Não há mais nada aqui para você.
— Não vou abandonar você.
— Não importa. Mesmo se você for teimosa e tentar me encontrar, eu não estarei aqui. Você nunca vai me achar.
— Você vai estar aí, Amon! Se fizer alguma besteira, eu...
Diga que você vai cravar as garras nas costas dele.
— É, vou cravar minhas... Tia!
Está ficando difícil ter paciência com esse humano. Me dê licença, Lily.
Tia! De repente me vi trancada atrás de uma porta mental, onde podia ouvir, mas não falar.
— Meu rapaz, pare de se lamentar imediatamente — disse Tia. — Lily está apaixonada por você. Ela escolheu você como pretendente e companheiro. Até agora não protestei contra essa decisão, mas, se você continuar se lamuriando contra seu destino desse modo, vou encorajá-la a encontrar alguém mais digno. Aconselho você a ter a mesma coragem que ela vem demonstrando. Essa jornada tem sido árdua para ela, e não fica mais fácil com você colocando-a de lado. Das solas dos seus pés até o cocuruto da sua cabeça e às profundezas da sua alma, você é tudo que ela deseja. Agradeça por eu não a influenciar a mudar isso. Bom, você prometeu que iria nos aconselhar. Sugiro que faça isso e aproveite ao máximo os poucos momentos que tem para se comunicar.
De repente me vi de novo no controle e Tia recuou, me dando as costas e nos permitindo o máximo de privacidade que pôde.
— Amon? Desculpe — falei.
Ele ficou quieto por um minuto e em seguida respondeu:
— Não. Não precisa se desculpar. Ela está certa. Isso não muda nada, mas você abriu mão de tudo para me salvar. Pelo menos posso reconhecer isso e amá-la o suficiente para fazer o que sei que precisa ser feito antes que eu me veja sem opções.
— O que isso quer dizer? — perguntei nervosa. — Amon?
— Ela pediu meu conselho, e aqui está. Quando encontrar os guardiões, fique perto deles. Eles vão protegê-la. Se, de algum modo, você conseguir chegar ao mundo dos mortos, evite a todo custo o Pântano do Desespero.
— O Pântano do Desespero. Entendi.
— Se você puder chegar lá, há um abrigo no meio das árvores.
— O que você vai fazer? — perguntei, quase com medo da resposta.
— Vou usar o Olho. Tenho usado o poder dele apenas quando estou absolutamente desesperado. A Devoradora poderá me encontrar quando eu o acessar completamente, mas, se eu puder usá-lo para descobrir um modo de sair daqui, farei isso. Espero estar de volta no além quando você chegar. Você vai saber que tive sucesso se eu a estiver esperando no cais. Não importa o que aconteça, Lily, saiba que eu te amo e não trocaria por nada um segundo do tempo que passamos juntos.
— Eu também te amo. Tenha cuidado.
— Terei. Vou tentar...
Meu corpo deu uma guinada para o lado e fui acordada por um solavanco.
— Tentar o quê? — gritei. — Amon?
Mas ele havia sumido.
Cherty golpeou alguma coisa por cima da amurada do navio, depois puxou o braço. Girou os espetos do rio antes de acertá-los em alguma coisa outra vez. Olhando por cima do ombro, ele berrou:
— Mocinha! Pegue minha sacola e tire a moeda de dentro. Depressa!
Corri até a pilha de entulho solto que ele tinha a bordo e peguei uma sacola, depois fui até ele. Rapidamente remexi no conteúdo, mas não pude encontrar a moeda de ouro com a estampa do pássaro Benu.
— Não estou vendo! — gritei.
— Está na aba secreta. Procure com os dedos!
Arquejei quando um braço coberto de gosma, com mãos membranosas e garras afiadas, agarrou-se ao barco. A pele era preta e cheia de um líquido escuro logo abaixo da superfície. Parecia nanquim preso num balão fino. Com um uivo, Cherty empalou o braço contra a lateral do barco; o líquido preto-azulado irrompeu da pele e escorreu pela amurada. Um berro inumano encheu o ar e, quando ele puxou o espeto afiado, o braço escorregou para fora do barco.
— Não estou encontrando! — gritei.
— Aqui! Me passe!
Joguei a sacola para ele e levei a mão às costas, pegando as lanças curtas. Girei, depois cravei-as nos corpos macios de duas criaturas que se esgueiravam por trás dele. Ele jogou-as por cima da amurada e depois remexeu na bolsa.
— Achei! — gritou, com um sorriso, mas, antes que pudesse pegar a moeda, um braço serpenteou pelo ar, envolveu a alça da bolsa e puxou-a por cima da amurada.
— Gatuna! — gritou Cherty enquanto sacudia o punho no ar. — Recebeu mais do que merecia desta vez!
Outras daquelas criaturas abomináveis tentaram subir a bordo.
— E agora? — gritei.
— Faça com que elas fiquem longe enquanto eu pego as redes!
— Redes?
— Mantenha essas donas briguentas longe, do melhor modo que puder, mocinha!
— Certo — murmurei e girei, partindo para a ação.
Enquanto Cherty manobrava o leme, fazendo o barco balançar de um lado para outro e soltando as velas até que estivessem quase a ponto de se rasgar, fiz o máximo para manter as criaturas a distância. Com precisão mortal cortei gargantas, apunhalei troncos e decepei braços. Tia era capaz de pressentir quando uma das criaturas intrusas se esgueirava por trás de nós, e eu me senti grata por seus instintos.
Logo descobrimos que, quando usávamos o poder da esfinge, podíamos estrangular as vítimas, mas era um processo lento e exigia concentração. Além disso, só funcionava com um inimigo de cada vez. Lutar com armas ficava uma coisa atrapalhada quando tentávamos usá-las enquanto cravávamos as lanças nas feras, mas o estrangulamento era um poder eficaz para ser usado a distância.
Logo Cherty se juntou a nós e trabalhamos unidos, derrotando o inimigo. Fiquei surpresa quando uma criatura escura desmoronou aos nossos pés. Era linda. Seu cabelo preto caía até a cintura e ela levantou a mão num gesto de súplica. Em vez de pernas, a metade inferior de seu corpo me fazia lembrar uma enguia. Escamas brilhantes cobriam sua forma alongada, que terminava numa barbatana parecida com a de um tubarão.
Hesitei apenas por um momento e, quando isso aconteceu, ela saltou à frente, usando a cauda poderosa para impelir o corpo para cima, e cravou os dentes afiados da boca enorme escancarada no meu ombro. Uma dor lancinante explodiu e uma ardência espalhou-se pelo corpo. Gritei ao ver que ela havia arrancado um naco de carne do meu ombro. Pingos cor de cereja escorreram de seu queixo enquanto ela cuspia e sorria em triunfo.
— Víbora maldita! — gritou Cherty ao baixar o martelo sobre a cabeça dela, que desabou no convés. O barqueiro chutou violentamente seu corpo flácido pela borda do barco.
— O que elas são? — perguntei enquanto saltava de novo para a briga, me esforçando para esquecer do ombro que ardia.
— Sirenas cruéis e vorazes. E nós penetramos num maldito cardume delas.
— Sirenas?
— Em geral não são tão ativas. Carpas gananciosas!
— São sereias? — perguntei enquanto despachava um trio em rápida sucessão. — Porque parecem sereias malignas.
— São parentes distantes. Se a sereia é um lindo pássaro azul, a sirena é um abutre.
— Elas são imortais? — perguntei, esperando que pudessem ser seduzidas pelo meu escaravelho.
— Não. Mas se reproduzem depressa. Eu informo sobre as infestações de modo que Amon-Rá possa manter a população sob controle. Em geral, consigo distraí-las com uma moeda bonita, especialmente uma que venha de Amon-Rá. Lanço-a por cima da amurada e elas me deixam em paz, brigando para pegá-la. Às vezes as megeras vorazes matam umas às outras nesse processo. Agora que sentiram um gostinho seu, é improvável que desistam de nós.
— Fantástico!
Guardei as lanças curtas no arnês das costas, invoquei minhas garras e saltei nas costas de uma sirena. Dez minutos depois as criaturas desapareceram misteriosamente.
Apertando a mão no ombro sangrento, sibilei, mas instantes depois senti uma coisa quente de encontro ao peito – era o colar que Hórus havia me dado, que agora reluzia. Ele aqueceu minha pele e uma sensação de formigamento espalhou-se da garganta até o ombro. Observei, chocada, o ferimento começar a se curar. Logo não havia nenhuma indicação de que eu tinha sido ferida além do rasgo na túnica branca e as manchas de sangue que a escureciam.
Cherty estava tão concentrado no Rio Cósmico que não notou a cura milagrosa. Aproximei-me dele e, agradecida, peguei o odre de água que ofereceu e bebi um bocado.
Ele apontou à frente.
— Ali. Está vendo aquela ondulação? Como juncos num rio? — perguntou enquanto eu olhava por cima da amurada.
— Estou. O que é?
— Quando um animal grande, como, por exemplo, um crocodilo, se move através deles, espalha os juncos e levanta lama.
Olhei com intensidade para o rio e finalmente notei que nem todas as luzes fluíam. Alguns agrupamentos ficavam num mesmo lugar, como plantas reluzentes.
— O que está nos perseguindo? — perguntei.
— Pescadores de homens. Feras horríveis que fedem a podridão. Se furar um, vai ficar encharcada com a água imunda. A carne deles é podre e os ossos são moles. Eles tecem redes de tendões para pegar os desprevenidos.
— Então são como aranhas-de-água?
— Sim, mas se parecem mais com bichos-da-seda gigantescos. As redes deles são como álamos. Crescem a partir de um único desgraçado. A rainha cria a rede e seus pequenos lacaios se empoleiram na teia em diferentes lugares, esperando para atacar quem for apanhado nela. Uma vez preso, eles devoram sua carne, então nadam até a rainha para regurgitar seus pedacinhos nutritivos, que são divididos entre as larvas da colônia. Eles comem praticamente qualquer coisa – os mortos, as sirenas, crocorréis e qualquer outra coisa que viva nestas águas.
— Encantador.
De algum modo Cherty conseguiu navegar sem muitos problemas até que chegamos perto do fim daquele trecho e o barco subitamente adernou.
— Fomos agarrados! — gritou ele. — Depressa! Meu martelo!
Braços reluzentes, parecendo cordas, tinham se prendido à proa do barco. Nas pontas dos longos tubos dos bichos havia bulbos pegajosos que sugavam ruidosamente, criando rastros de muco em todas as partes em que se grudavam. Pareciam os tentáculos de um polvo albino e esguio. Quando Cherty golpeou uma das pontas, a coisa afundou de volta na água preta. Logo outro e mais outro saltaram e bateram no casco, e os impactos sacudiram a embarcação como se ela fosse um barquinho de brinquedo.
— Pegue o leme — gritou Cherty. — Precisamos ser rápidos ou vamos virar comida de larva, com certeza! Quando eu baixar o martelo, empurre o remo com toda a força para a direita!
— Entendi!
— Agora! — gritou ele enquanto golpeava com o martelo um membro bulboso. Das profundezas, uma gigantesca lesma branca levantou a cabeça e começou a subir ao longo de uma linha escorregadia de sua própria teia. Agora a linha não estava mais presa ao barco, e a criatura, junto com sua armadilha pegajosa, escorregou de novo para baixo da superfície do rio estrelado.
— Isso vai ensinar a vocês, suas coisas abomináveis! — gritou Cherty, brandindo a arma no ar antes de voltar até onde eu estava. — Formamos uma boa equipe — disse ele. Havia um brilho de admiração em seu olhar que não estava ali quando embarquei.
— É. Não invejo seu trabalho.
Cherty deu uma gargalhada.
— Não. Imagino que não. Mas até o amanhecer tudo deve correr bem — acrescentou. — Agora descanse.



Depois de horas, que para mim pareceram minutos, o barqueiro cutucou meu ombro.
— Chegamos.
— Ao além? — perguntei.
— Não exatamente. Estamos na Ilha dos Mortos. Passamos pelas colunas há pouco. Quando atracarmos, seremos recebidos pelos guardiões dos portões e eles vão levá-la ao Pórtico do Julgamento.
— Sei. — Levantei-me para esticar o pescoço e procurar algum sinal de Amon. Se ele houvesse tido sucesso, iria me encontrar no cais. Talvez não fosse esse cais. Talvez não tivesse tido tempo suficiente. Meu coração murchou, mas tentei manter viva a chama da esperança. Amon tinha de conseguir.
A Ilha dos Mortos era um lugar escuro. Havia uma imobilidade quase tangível ali. Árvores seculares salpicavam as montanhas e vi ruínas de antigas construções de pedra. Atracamos e dois homens de armadura com elmos e espadas se aproximaram. A armadura de um deles era de bronze escurecido e o outro usava prata. Depois de amarrar o barco, Cherty se virou para me ajudar a desembarcar.
— Obrigada — eu disse, segurando as mãos dele.
Ele apertou as minhas com um brilho aquoso nos olhos cinzentos, depois soltou-as rapidamente e me olhou com irritação, como se eu o tivesse enganado para fazer aquele gesto.
— É o meu trabalho — reagiu ele, carrancudo.
Em seguida pegou um saco de comida no barco e me entregou, depois se virou para falar com os guardiões.
— Esta é uma alma viva, uma esfinge. Foi Amon-Rá quem a mandou. Vocês precisam aceitá-la.
— Uma alma viva? — perguntou o guardião mais alto por trás do elmo.
— Uma esfinge? — perguntou o outro.
Peguei o arco e a aljava no lugar seguro onde eu os tinha deixado no barco enquanto os guardiões continuavam:
— Esfinges não existem há...
O maior segurou o braço do outro.
— Lily? — ouvi sua voz abafada dizer.
Os guardiões deram um passo à frente e os dois tiraram os elmos. Meu coração saltou na garganta, as lágrimas enchendo meus olhos. Eles vieram até mim e, quando Cherty tentou impedi-los, empurraram-no facilmente para o lado e se ajoelharam aos meus pés.
— É mesmo você — disse o maior.
— Como chegou aqui? — perguntou o outro.
Envolvi os dois em um abraço, dando um beijo no rosto de cada um.
— Asten. Ahmose. Estou tão feliz em ver vocês!

Um comentário:

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!