21 de outubro de 2016

14. Tempestade de areia

Amon ficou imóvel. Eu, que tinha lhe dado o braço, cravei os dedos na carne de seu antebraço, apavorada com o que iria nos acontecer agora que tínhamos sido descobertos.
— Está supondo muita coisa... Grão-Vizir — respondeu Amon em voz baixa.
Arquejei, trêmula. Já desconfiava que Osahar Hassan fosse mais do que aparentava, e pela falta de resposta atrás de nós entendi que a afirmação de Amon estava correta. O doutor tinha um papel muito maior a desempenhar do que o de simples arqueólogo.
Ergui os olhos para Amon e reparei que seu maxilar estava contraído. Ele ainda não tinha se mexido, e eu não sabia como agir.
— Venha, então — ordenou Amon.
Um movimento desesperado de pés se seguiu, e instantes depois o homem mais velho se jogou aos pés de Amon. Quando o arqueólogo levantou a cabeça, sua expressão era de puro assombro.
— Eu sabia! — disse o Dr. Hassan, e logo tornou a baixar os olhos em uma postura submissa. — Nenhum dos outros acreditava nas histórias antigas. Mas eu jamais duvidei! Vê-lo despertar na minha geração é... é uma bênção maior do que jamais ousei esperar!
— Seu discípulo Sebak também é membro da ordem?
— Sim, mas entrou faz pouco tempo. Ele vai ficar muito feliz; todos vão ficar empolgadíssimos!
— Dividiu com ele seu conhecimento em relação à minha identidade?
— Não, Mestre. Não quis dizer nada antes de ter certeza.
Amon segurou a mão do Dr. Hassan e o ajudou a se levantar.
— Quero que guarde segredo por enquanto — falou. — Pode fazer isso?
— Sim, Magnífico.
— Em primeiro lugar, não deve me chamar assim. É óbvio demais. Por favor, continue a me chamar de Amon.
— Sim, Mes... Sim, Amon.
— Muito bem.
Amon recompensou o doutor com um sorriso, e não pude deixar de ficar maravilhada com a adoração que o Dr. Hassan estava demonstrando, como se ele fosse um herói. Olhei rapidamente para Amon; embora ele parecesse lidar com seu papel de deus que vive entre os homens como se fosse algo trivial, pude ver que estava pouco à vontade. Perguntei-me se ele sempre havia se sentido assim ou se de algum modo as coisas agora eram diferentes.
Antes que pudéssemos dizer qualquer outra coisa, Sebak apareceu no alto da duna, e Amon segurou o Dr. Hassan pelo braço.
— Onde podemos encontrar o senhor... a sós? — sussurrou.
O Dr. Hassan levou a mão a um dos bolsos do colete cáqui e sacou um cartão de visita, que virou para poder escrever no verso.
— Tome — disse, entregando a Amon o cartão e um molho de chaves. — Esse é o meu endereço na cidade. Irei assim que puder. Mas, por favor, vão para lá e descansem quanto quiserem. Moro sozinho, então ninguém vai incomodá-los. Podem usar tudo o que precisarem.
Amon aquiesceu, pôs o cartão e as chaves no bolso, acenou para Sebak como se nada estivesse acontecendo, segurou meu braço com decisão e me guiou rapidamente para longe dali. Depois de contornarmos uma colina de areia, perguntei baixinho:
— Como você sabia?
— Que ele era o grão-vizir? Soube desde a hora em que ele apareceu no templo.
— Mas como?
— Não consegui controlar a mente dele.
— Eu nem sabia que você estava tentando.
— Estava. No início fiquei grato pela sua ajuda, mas depois, quando já sabia que você estava se recuperando, tentei forçar nossa partida. Ele não quis nem ouvir falar no assunto, embora eu tenha insistido da maneira mais veemente de que fui capaz.
— Quer dizer que você sabia do que ele estava falando? Entendeu aquela conversa toda sobre Hatshepsut?
— Lembra que contei a você como antigamente éramos homenageados com banquetes e cantos no dia do nosso despertar?
— Claro. Espere, está dizendo que são esses caras que faziam isso? — Movi o polegar por cima do ombro na direção dos homens que havíamos deixado para trás.
Amon assentiu.
— Até onde eu sei, a Ordem da Esfinge é nova, mas os sacerdotes, entre os quais o grão-vizir se inclui, existem há muitos séculos. Quando eu era príncipe, nossa família real tinha um vizir. Seu trabalho era servir ao rei. Quando Anúbis levou a mim e a meus irmãos, meu pai encarregou o vizir de cuidar de nós, ou melhor, de nossas tumbas, e ao longo dos séculos um vizir sempre foi responsável por isso. Ele sempre foi imune ao controle da mente. É uma bênção concedida por Anúbis. Só não sei com que objetivo.
— Então, se você sabia quem eles eram, por que não queria que soubessem quem você era?
Enquanto ele refletia sobre a minha pergunta, chegamos ao setor turístico. Sem sequer usar seu poder de hipnose, Amon perguntou educadamente a um homem na rua:
— Onde podemos pegar um táxi? — Não falou carruagem dourada, mas sim táxi. Estava se adaptando bem depressa à vida no mundo moderno.
O homem apontou na direção de uma pequena praça.
— Aprendi a ser mais cuidadoso observando você — respondeu Amon, por fim. — Seja qual for o seu título, não é sensato simplesmente acreditar que uma pessoa vá ser sincera e franca. O shabti traidor foi um exemplo surpreendente de como precisamos ocultar nossa identidade. Temos que tomar o máximo de cuidado. Principalmente no que diz respeito a você.
— Como assim? Que história é essa? Aliás, pensando bem, por que vamos pegar um táxi?
— Embora eu pouco me importe com minha própria vida, não vou arriscar a sua. Você diz que está recuperada, mas ainda posso sentir o trauma que causei. Precisa de tempo para se curar. Além do mais, manipular um motorista é bem mais fácil do que viajar pela areia. Foi culpa minha você ter sido exposta à toxina, e não vou exigir mais nada de você por hoje.
— Culpa sua?
— Quando eu estava lutando com o shabti, ele soprou o pó vermelho para tentar me incapacitar, só que não deu certo. Meu corpo é imune a venenos.
— Mas o meu, não.
— É. Sinto muito, Nehabet. Eu me enganei quando parti do princípio de que o seu corpo também seria resistente por estarmos ligados, mas infelizmente não foi assim. Cometer um erro de juízo em relação ao shabti poderia ter sido uma lástima, mas cometer um segundo erro ao supor que você estava segura demonstra uma clara falta de raciocínio da minha parte. A sua companhia tem me deixado... distraído. Garanto a você que não vou cometer o mesmo erro outra vez.
— Dizem que errar é humano, Amon. Um erro ou dois só significam que você é igual a nós, mortais.
Ele olhou para o outro lado.
— Desejo de coração que isso seja verdade, mas infelizmente não é. Por mais que eu queira, Lily, não sou igual a um homem mortal. — Virando-se para mim, ele ergueu os dedos e acariciou meu rosto. — Por favor, acredite, eu não teria feito você correr perigo se soubesse.
— Tudo bem. Eu acredito.
Com um suspiro profundo, ele segurou minha mão. Ao sentir a culpa que o torturava, tentei distraí-lo:
— Falando nisso, obrigada por ter me salvado. Sei que foi você quem me fez seguir em frente. Eu adormeci mais depressa do que Dorothy no campo de papoulas.
— A toxina não era só uma poção sonífera — explicou Amon. — Basta uma dose mínima para fazer seu corpo parar de funcionar como se você estivesse mergulhada em um sono profundo, muito parecido com a morte. Se você inspirar muito fundo, ficar exposto por tempo demais, ou se a toxina penetrar por um corte na pele, pode matar.
— Tem certeza?
— Tenho. Tive que sugar o veneno do seu corpo para dentro do meu. Desconfio que esse tenha sido um dos motivos que levaram o Dr. Hassan a supor que eu fosse mais do que um simples mortal. Ele conhecia a toxina e tomou muito cuidado para não entrar em contato com ela. Usou luvas para removê-la da sua pele e em seguida jogou as luvas fora. Numa hora em que ele não estava olhando, eu consegui remover os vestígios residuais dos seus cabelos e das suas roupas.
— Ele conhecia? Mas ele falou que...
— Que você iria acordar.
— Ele tinha certeza de que eu não tinha inalado muito ou a confiança dele era por sua causa?
— Talvez uma combinação das duas coisas.
— Então ele correu o risco de não me encaminhar a um hospital para testar a teoria de que você salvaria a minha vida?
— Pelo visto, sim.
— É um fanático, mesmo — murmurei enquanto um táxi encostava. — Que sorte minha a teoria dele ter dado certo.
Amon entregou ao motorista o cartão do Dr. Hassan e lhe dirigiu algumas palavras antes de finalmente se acomodar ao meu lado.
— Que conversa foi essa?
— Eu só estava coletando umas informações úteis. — Ele se virou e me fitou fundo nos olhos. — Minha intenção é que você passe o resto do dia relaxando.
— Hum, tudo bem. O que você pensou em fazer exatamente? — perguntei.
Amon franziu o cenho.
— Acho que o melhor seria contratar umas mulheres para cuidar do seu banho.
Dando de ombros, peguei a mão dele e a acariciei no dorso.
— Que pena. Seria divertido ser atendida pelo meu próprio deus do sol particular.
Amon estreitou os olhos enquanto retirava delicadamente a mão.
— Eu não sou um deus do sol. Eu sou um...
— Eu sei, eu sei. Será que não dá para você fazer a minha vontade de vez em quando? — Suspirei. — Um banho de banheira parece uma ótima ideia, mas eu garanto a você que sou totalmente capaz de tomar banho sem criadas. Sinto muito por você ter que ficar tão perto da minha pessoa fedorenta.
Ele ficou alguns instantes em silêncio, e pensei que tivesse pegado no sono, mas então o ouvi dizer com voz suave:
— Na verdade, se eu pudesse engarrafar o seu cheiro de lótus e levá-lo comigo para percorrer o deserto, mesmo que estivesse com insolação, morrendo de sede e só quem pudesse me salvar fosse um xeique do deserto que quisesse ficar com o frasco para si, e mesmo que essa troca fosse me salvar a vida, eu não me separaria do seu cheiro nem por todas as joias, sedas e riquezas do Egito e de todas as terras ao redor. Dizer que o seu cheiro é agradável para mim é um eufemismo dos mais vis.
As emoções que eu sentia virem dele estavam confusas. Arrependimento e um desejo profundo estavam misturados à frustração. Eu nem sequer consegui formular uma resposta para aquela declaração tão tocante. Homem nenhum falava assim. Pelo menos, não homens de verdade, de carne e osso.
O que ele havia acabado de me dizer era do mesmo nível romântico do valentão que pega a mocinha e sai cavalgando em direção ao sol poente. Não achei possível que ele estivesse mesmo falando sério.
— De onde você tirou essa? De dentro de algum sarcófago?
Amon deu de ombros, mas não olhou para mim.
— São meus sentimentos verdadeiros — admitiu por fim.
Estudei o rosto dele, mas não havia um pingo sequer de humor na sua expressão.
— Ah — falei, sem graça. — Bom, obrigada.
Amon deu um grunhido, recostou-se no assento e fechou os olhos. Não demorou muito para o motorista parar e apontar para uma bonita casa de estuque. Saltamos, e Amon não soltou meus dedos enquanto se inclinava pela janela para falar com o taxista. Como ele pareceu estar se demorando na conversa, agitei os dedos para largar os seus e peguei as chaves na sua outra mão. Ele me lançou um olhar breve de quem diz não vá muito longe e voltou para sua conversa.
Subi o curto acesso de carros que conduzia à casa, grata pelas árvores que sombreavam o caminho. Os altos sicômoros proporcionavam uma trégua não só do calor mas também da luminosidade ofuscante do sol. A casa de Osahar Hassan era pequena, com dois andares, cada qual com um beiral de telhas vermelhas sobrepostas.
Encontrei a chave certa, destranquei a porta e entrei. Apesar das muitas janelas amplas, o sol não batia muito forte lá dentro, de modo que o calor não era tão intenso. Quando olhei mais de perto, vi que as janelas estavam cobertas por um filme escuro que devia refletir os raios.
Embora vista de fora a casa parecesse limpa e imaculada, toda feita de linhas retas e telhas banhadas de sol, o interior era outra história. Todas as superfícies se mostravam abarrotadas com tesouros egípcios, de pergaminhos esfarelados cobertos por pinceladas coloridas a esculturas de grande porte. As bugigangas e os objetos estavam espalhados a esmo, sem qualquer preocupação estética, e a maioria precisava de uma boa espanada. Não soube dizer se eram réplicas ou originais, mas desconfiei que um homem encarregado de ser o grão-vizir de um grupo de sacerdotes com muitos séculos de existência devia ter acesso a coisas que as outras pessoas não tinham.
Estava agachada examinando uma linda estátua de gato quando Amon surgiu atrás de mim. Não fez barulho nenhum, mas àquela altura eu estava tão sintonizada com ele que pude intuir sua presença. Senti seu calor como se o sol estivesse batendo nas minhas costas. Ele se ajoelhou ao meu lado e passou a mão na cabeça do gato.
— Os gatos são venerados no Egito — disse. — Alguns eram até treinados para caçar com seus donos, e capturavam pássaros ou peixes. Quando um felino muito amado morria, os donos em geral raspavam as sobrancelhas em sinal de luto.
— Que interessante — murmurei, agora mais concentrada no rapaz ao meu lado do que na estátua.
— É. Quando as sobrancelhas cresciam de novo, considerava-se que era o fim do luto.
— E você, agora que é um pássaro, ama ou odeia os gatos? — perguntei, levantando-me ao mesmo tempo que ele.
— Nenhum dos dois, acho.
Em um gesto ousado, estendi a mão e acompanhei o contorno de uma das suas sobrancelhas.
— Já amou alguma coisa o suficiente para raspar suas sobrancelhas em sinal de luto?
Ele segurou meu pulso, baixou meu braço com delicadeza e respondeu:
— Amar algo tanto assim seria um golpe cruel do destino para alguém que passa a maior parte da existência na Terra dos Mortos.
— Acho que seria mesmo. — Sem graça, levantei-me e percorri a estante como se estivesse examinando os artefatos, quando na verdade estava pensando sobre a vida muito estranha de Amon. — Para onde você vai? — indaguei baixinho. — Quero dizer, quando não está aqui na Terra?
Amon suspirou.
— Melhor não falar nisso, Lily.
— Mas eu preciso entender. Preciso saber por que você faz esses sacrifícios todos. Preciso saber se você é...
— Se eu sou o quê?
— Se você é feliz lá.
Amon passou a mão pelos cabelos e pousou-a na nuca antes de responder:
— Não sou... infeliz.
— Isso é bem vago.
— É difícil explicar.
— Por favor, tente.
Após pensar por alguns instantes, ele começou:
— Quando meu corpo eterno se transforma em... múmia, meu ka, ou minha alma, se separa dele e precisa trilhar os caminhos do além. Meu coração não é pesado na balança do juízo como o dos que vieram antes de mim, porque minha estadia no além não é permanente. Ainda não. Embora eu seja solitário, vago pelos séculos com relativo conforto.
— Como assim, “relativo”?
— Posso estar com meus irmãos, mas, como estamos comprometidos em servir ao Egito, não temos autorização para recuperar nossos corpos e nos reunir de novo com as pessoas que amamos. Não: temos que passar os anos como guardiões dos portões do além.
— Quer dizer que não existe uma versão egípcia de paraíso para a qual você vai?
— Não entendo o que você quer dizer com “paraíso”.
— Um lugar onde você pode pôr os pés para cima, relaxar e curtir sua morte.
— Não. Não para mim e meus irmãos. Talvez um dia, quando nosso trabalho estiver concluído, possamos descansar de nossa missão.
— Você com certeza não deu sorte na distribuição dos deveres para os pseudodeuses egípcios. Não existe lugar para o amor no paraíso egípcio?
— Eu amo meus irmãos.
— Não é desse tipo de amor que estou falando.
Amon permaneceu calado por alguns instantes, e me perguntei se ele iria me responder quando o vi pegar uma estatueta e começar a girá-la nas mãos.
— Você conhece a história de Geb e Nut? — indagou.
— Não.
— Geb era o deus da Terra, e Nut a deusa do céu. Rude e musculoso, Geb era irredutível e firme como a própria Terra. Nut, por sua vez, era linda e etérea. Estrelas e constelações enfeitavam sua pele e os cabelos flutuavam à sua volta. Quando eles se viram, apaixonaram-se profundamente, e Geb decidiu que os dois tinham que ficar juntos. Nut sussurrou seus votos e os mandou para Geb na cauda de cometas. Em resposta, Geb esticou os braços ao máximo até finalmente tocar os dedos dela. Usando sua forma poderosa, ele invocou a gravidade da Terra e aos poucos os dois se uniram, embora soubessem que seu amor era proibido.
— Proibido por quê?
— Essa parte vem depois. Sei que você tem tantas perguntas quantas são as estrelas no céu, mas tente se controlar e escutar até o fim.
Dei um sorrisinho irônico.
— Você me conhece tão bem.
— É. Conheço, sim.
— Vou tentar. Mas não prometo nada.
Amon aquiesceu com a cabeça; seus olhos cor de avelã cintilaram.
— Depois de conseguirem se tocar, os dois permaneceram tão próximos quanto era possível. Geb envolveu com os braços a forma esguia de sua esposa secreta e a puxou para si. Quando ele ergueu os joelhos, montanhas se formaram, e Nut as cercou com as nuvens de sua roupa. Geb se apoiou em um dos cotovelos e Nut pousou a cabeça em seu peito, dando origem a colinas e vales envoltos em brumas. Quando eles riram, a terra tremeu e o céu trovejou. Na verdade, eles se encaixavam tão bem que logo ficou claro que não haveria lugar para a humanidade. Com o intuito de abrir lugar para os humanos, o pai de Nut, Shu, deus do ar, foi despachado para separar o casal.
— E o que aconteceu?
— O caos. Os namorados se agarraram um ao outro, mas Shu era poderoso e foi separando os dois aos poucos. Mandou ciclones e redemoinhos para se interpor a eles. A Terra tremeu, o céu se agitou e por fim aconteceu. Nut foi arrancada dos braços pesados de Geb. Ele podia ver a esposa flutuar acima dele, mas não conseguia mais tocá-la.
— Poxa.
— Nut chorou amargamente, e suas lágrimas se transformaram em tempestades e fortes chuvas que caíram sobre a pele do marido. Acumuladas nos vãos do corpo dele, as lágrimas salgadas formaram os oceanos, rios e lagos. As ondas cobriram o homem que ela amava, mas ele gostou de ter até mesmo esse pedacinho dela e aceitou de bom grado que parte de si fosse coberta pelas águas para sempre. É por isso que a água no Egito é considerada fonte tanto de caos quanto de criação: de caos porque é sinal de um amor destruído, e de criação porque simbolizou o início do domínio da humanidade sobre a Terra. A água primeiro desfaz, depois torna a criar.
— Eles nunca mais puderam se tocar?
— Ao longo das eras, Shu acabou tendo pena do casal e eles conseguiram permissão para se tocar nos quatro pontos cardeais. No sul e no oeste, seus pés se encostam, e no norte e no leste eles entrelaçam os dedos. Tirando isso, porém, nunca mais ficarão juntos. Se ficassem, significaria a destruição da vida tal como a conhecemos.
— Não acredito nisso.
Amon deu de ombros.
— É uma história que meu povo conta.
— Não é isso. O que eu quis dizer foi que não acredito que cumprir seu dever, realizar um objetivo na vida, signifique abrir mão da felicidade. Ninguém poderia ser tão cruel, nenhum deus.
Amon pousou a estatueta, que então reconheci: era Geb, deus da Terra, debaixo da esposa Nut, que pairava acima dele. O espaço entre seus dois corpos era largo e vazio.
— É preciso se sacrificar para que outros possam encontrar a felicidade — respondeu Amon em voz baixa.
Dei um passo na direção dele e levantei a mão para tocar seu rosto.
— Mas você também merece ter esse tipo de alegria na vida.
Amon envolveu minha mão com os dedos, levou-a aos lábios e depositou um beijo cálido no meu pulso.
— Muitos homens não conseguem o que querem durante sua existência mortal; muitos não obtêm aquilo que merecem. Quem sou eu para me considerar mais merecedor do que eles? Se eu estendesse a mão para agarrar a felicidade à qual você se refere, quantos sofreriam como resultado disso? Quantos morreriam? Quantos minguariam de dor e sofrimento? Não posso ser tão egoísta assim, Lily, por mais que eu queira.
Seus olhos, agora mais dourados do que verdes, mergulharam nos meus como se estivessem me suplicando para entender. Ele queria que eu aceitasse aqueles conceitos antigos de dever e obrigação e desistisse, mas eu era uma garota moderna, e não iria ficar sentada feito uma princesa que precisava ser resgatada, sofrendo por algo que eu queria. Se sabia alguma coisa sobre o amor, era que valia a pena lutar por ele, mesmo que eu precisasse usar uma espada para protegê-lo. O milagre de encontrar o amor, o amor de verdade, era raro o suficiente para fazer o dever e a obrigação terem que se esforçar para enfrentar a concorrência.
Frustrada, arranquei a mão de dentro da de Amon.
— Eu não entendo. Sério. Geb e Nut, tudo bem. O fato de eles estarem juntos fisicamente esmagaria todo mundo, então imagino que isso não seja possível. Mas você? O que vai acontecer? Eles vão demiti-lo? Talvez seja até bom. Talvez esteja na hora de outra pessoa assumir essa coisa de salvar a humanidade. Você já serviu por tempo suficiente. Está na hora de saltar desse trem das múmias e viver um pouco, não acha?
— Lily, eu...
— Pense... pense um pouco. Vou tomar uma ducha rápida, e depois que tal a gente comer alguma coisa? Vamos fazer um banquete?
— Claro, Lily — respondeu ele.
Ao subir a escada, senti o cansaço dos dias anteriores me invadir. Eu precisava mesmo relaxar. Estava exaurida. O fato de estar me rendendo às emoções novamente era um sinal de que não me encontrava no meu estado normal, algo que vinha acontecendo desde que conhecera Amon, mas eu agora me sentia ainda pior.
Para meu deleite, encontrei um óleo aromático no banheiro. Quando o passei na pele, fui cercada pelo aroma suave de flores e almíscar adocicado. Era um perfume exótico, com um leve toque cítrico, delicado e sutil, mil vezes melhor do que o suor e a poeira com os quais eu havia me acostumado. Enquanto limpava o vapor do espelho depois do banho, fiquei pensando em Amon.
Ele agora era importante para mim. No início, o que me levara a segui-lo naquela aventura fora um misto de curiosidade e fascínio, mas, agora que eu tinha passado mais tempo com ele, percebia que não se tratava apenas disso. Eu não estava mais fazendo tudo aquilo em troca de aventura ou emoção. Estava gostando dele.
Por mais que fosse loucura, eu estava me apaixonando por um cara velho como o deserto. Um cara capaz de se transformar em falcão na hora em que quisesse. Um homem capaz de imprimir à areia qualquer formato que escolhesse. Um belo desconhecido que, pelo visto, tinha zero interesse no amor e punha as necessidades de todo mundo na frente das suas. Eu me identificava com isso. Quantas vezes havia aceitado o que meus pais queriam mesmo sem ter nenhum interesse no que eles estavam fazendo? Quantos relacionamentos vazios tinha formado com gente que não dava a mínima para mim? Por quanto tempo mais iria negar a mim mesma o que realmente queria?



Encontrei Amon sentado à mesa da cozinha, desanimado, diante de um prato vazio. Montanhas de embalagens de comida para viagem se espalhavam à sua volta. Um cheiro apimentado de carne e legumes flutuou em minha direção, mas eu só tinha olhos para o homem com os cotovelos apoiados na mesa, segurando a cabeça com as mãos.
Aproximei-me por trás dele e toquei seu ombro.
— O que houve? — perguntei. — Está sem fome?
Ele cobriu minha mão com a sua e me puxou para que eu me sentasse ao seu lado.
— Como está se sentindo? Renovada?
— Sim — menti, abrindo-lhe o meu melhor sorriso.
Amon segurou meu queixo e examinou meu rosto.
— Sua pele está pálida, quente demais, e você emagreceu.
— Quando eu voltar para casa, todas as garotas vão querer experimentar a nova dieta do deus egípcio. “Banquetes liberados, contanto que você aceite doar seus órgãos.”
Ri sem vontade da minha própria piada, mas Amon sequer esboçou um sorriso.
Ele soltou minha mão e tornou a segurar a cabeça.
— O que está acontecendo? — indaguei. — Foi a briga com o shabti? Ainda está se sentindo fraco?
— O falcão dourado me fortaleceu, jovem Lily. Não é com a minha saúde que você deveria se preocupar.
— Então é por causa dos outros jarros? Estavam todos quebrados, não é?
— Sim.
— Muito bem, então qual é o próximo passo?
— Não tem próximo passo.
— Bom, a gente ainda pode encontrar seus irmãos, certo? Vai ficar tudo bem, você vai ver. Mesmo sem todos os seus poderes, tenho certeza de que vai conseguir fazer o que precisa.
— Não, Lily, você não está entendendo. Sem os meus jarros, vou continuar a sugar sua energia.
— Então vamos agir mais depressa. Pelo menos um jarro você conseguiu recuperar. Já é alguma coisa. Vamos buscar seus irmãos o mais depressa possível. Você não pode perder a esperança.
— Esperança — zombou ele. — Esperança para quem? De quê?
— De um amanhã melhor, para nós dois. Esta história ainda não terminou. Não conclua que a situação não tem mais jeito. Vamos nos concentrar em uma coisa de cada vez. Agora sabemos que os seus jarros foram destruídos, então vamos nos preocupar com os seus irmãos.
— Meus irmãos. Pode ser — murmurou ele. — Talvez os meus irmãos possam mesmo ajudar. Um deles é curandeiro.
— Viu? Pronto. Já está pensando em outras possibilidades.
— A maior possibilidade de todas é que eu venha a causar sua morte, jovem Lily. Teria sido melhor para você nunca termos nos conhecido.
— Ei. — Arrastei a cadeira um pouco mais para perto dele. — É difícil matar uma nova-iorquina decidida. Ninguém nunca disse isso a você? Além do mais, se eu não o tivesse conhecido, minha vida teria sido de uma chatice inacreditável.
— Melhor levar uma vida chata do que sucumbir ao sono eterno.
— Você com certeza leva jeito com as palavras. Sono eterno, na verdade, até que soa bem neste momento.
— Sim. Você deveria descansar. Vá dormir, Lily. Eu a acordo quando o doutor Hassan voltar.
— Vou fazer um trato com você. Eu durmo, contanto que você coma. Aqui está cheio de comida, mas você nem tocou em nada, não é?
— Fico sem apetite quando você não está bem.
— Bom, até os semideuses precisam de alimento, então coma. Espero que pelo menos metade disso tenha sumido quando eu voltar.
— Está bem, Lily. Concordo com os seus termos. Se você descansar, eu como.
— Ótimo. A não ser, é claro, que você por acaso queira descansar comigo... — Amon arqueou uma sobrancelha, indicando que isso não era sequer uma possibilidade. — Ah, bom, não custa nada tentar. — Dei um suspiro.
— Durma bem, Nehabet.
— Bom apetite, Amon.



Acordei com a sensação dos dedos dele afastando os cabelos do meu rosto.
— Amon?
— Estou aqui, Lily. O doutor Hassan chegou.
O quarto estava escuro.
— Sério que dormi tanto assim?
— Seu corpo precisava descansar.
Sentei-me na cama e senti um cheiro de sabonete. Amon estava de cabelo molhado e tinha trocado de roupa. Mais do que qualquer outra coisa, eu queria abraçá-lo, encostar os lábios no seu pescoço e deixar seus cabelos molhados fazerem cócegas no meu rosto, mas sabia que ele queria manter distância. Embora eu entendesse perfeitamente o seu raciocínio, ele não me agradava nem um pouco. Afastei as cobertas e segurei sua mão.
— Vamos falar com ele.
Amon me conduziu até o terraço, onde encontramos o Dr. Hassan bebericando um líquido gelado à luz de uma lamparina. Ao me ver, ele pousou o copo sobre a mesa na mesma hora.
— Aí está você, minha querida. — Abriu os braços e indicou o amplo terraço. — O que acha do meu templo particular?
— Faltam as colunas — respondi, seca.
— Pelo contrário. Eu sou encarregado de cuidar da personificação celeste dos deuses. Existe forma de adoração melhor do que criar um santuário ao ar livre, sem telhado, para eu poder fazer minhas observações diretamente sob o sol, a lua e as estrelas? É lindo, não é?
Tive que reconhecer que o céu noturno era de tirar o fôlego. Era fácil entender por que os povos antigos buscavam orientação e inspiração nas constelações cintilando lá no alto.
O Dr. Hassan interrompeu meus pensamentos:
— Está totalmente recuperada, senhorita?
— Quase. Mas ouvi dizer que não devo isso ao senhor — falei, ainda desconfiada e querendo colocá-lo no seu devido lugar por ter permitido que o seu fervor superasse o bom senso.
O Dr. Hassan teve a decência de se mostrar envergonhado:
— Sim. Bem. Eu estava muito confiante.
— O senhor pôs minha vida em risco com base em uma teoria.
— Mas a minha teoria estava certa.
— Eu poderia ter morrido.
— Já estaria morta — afirmou ele, direto.
— O quê? Como assim?
Inclinando-se para a frente, uniu as mãos e apontou para uma cadeira.
— Por favor. Sente-se.
Depois de Amon e eu nos acomodarmos e de o doutor pousar na nossa frente uma bandeja de bebidas geladas, demorei-me um instante avaliando-o mais uma vez. Estava decidida a ter muita cautela antes de confiar nele. Embora Amon fosse capaz de fazer muitas coisas sozinho, sabia que ele também estava contando com a minha sagacidade moderna, e não queria decepcioná-lo.
O ar estava quente, mas a leve brisa que trazia um cheiro de chuva do deserto e flores noturnas me refrescava o suficiente para proporcionar algum conforto, mesmo com o calor do braço de Amon em torno dos meus ombros – eu não sabia se esse contato tinha conotação romântica, se era para me reconfortar ou apenas para acompanhar o meu estado de saúde, mas, qualquer que fosse o motivo, eu o aceitava de bom grado. Se o Dr. Hassan não estivesse ali e a nossa situação não fosse tão urgente, eu teria apreciado um jantar romântico no terraço. Nas atuais circunstâncias, porém, precisava me concentrar em outras questões.
— Por que não começa contando como nos encontrou? — sugeri ao Dr. Hassan.
— Quando o doutor Dagher e eu topamos com vocês, dizer que ficamos chocados seria pouco. O Magnífico... — Amon o encarou, e ele se corrigiu: — Amon... — dava para ver por sua expressão que dizer esse nome não era o certo para ele — Amon estava coberto com o pó, mas não tinha sido afetado. Estava com os lábios encostados no seu pescoço, o que significa uma sentença de morte, já que a toxina cobria seu corpo em vários lugares. Entendi na hora o que significava aquilo. Esse pó com o qual vocês entraram em contato não é usado há séculos, mas existem registros dele. O fato de o terem encontrado no Vale dos Reis era incrível, para não dizer outra coisa.
— Pelo visto o senhor estava mais interessado na descoberta do pó vermelho do que em providenciar o cuidado de que precisávamos — comentei.
— É claro que eu estava interessado no pó. Sou arqueólogo, afinal de contas. Quanto à ajuda de que vocês necessitavam, eu já sabia que era tarde demais. Concluí que, se já não estava morta, morreria em poucos segundos. No entanto, você continuou a respirar, e Amon finalmente demonstrou que estava ciente da nossa presença. Embora tenha percebido nossa chegada, estava completamente absorto cuidando de você.
— Hum.
— Eu me aproximei de vocês e, como eu não mais o segurava, o doutor Dagher saiu correndo e acusou Amon de desfigurar o templo e levar o pó até lá. Acho que ele pensou que vocês estivessem drogados. Mas eu tive acesso a coisas, histórias e informações a que ele não teve, então entendi na hora o problema com o qual vocês estavam lidando. Reconheço que fui egoísta ao mantê-los na minha barraca. Não podia deixar Amon ir embora. Não sabendo, com absoluta certeza, quem ele era.
O Dr. Hassan lançou um olhar rápido na direção de Amon.
— Os outros nunca acreditaram em mim, mas, quando eu era rapaz, tive a visão de que um dia iria testemunhar o seu despertar. Sou o homem mais sortudo que existe! — exclamou ele, e a chama do fanatismo tornou a se acender em seus olhos.
— Ok. Já entendemos — falei. — Mas vamos voltar ao que aconteceu depois e deixar a adoração para uma hora mais conveniente, pode ser? Então, se estou entendendo bem, o senhor depois manipulou Amon para fazê-lo pensar que o estava ajudando. É isso?
— Eu estava ajudando. Ou melhor, estou — insistiu o Dr. Hassan. — Ou melhor ainda, vou ajudar — acrescentou.
— Espero que sim. — Estreitei os olhos.
— Claro. Toda a minha existência, todo o meu trabalho, todos os meus estudos foram concentrados nesse único objetivo.
Passei alguns desconfortáveis minutos encarando o egiptólogo. Ele sustentou meu olhar com uma expressão franca e inocente.
— Muito bem — anunciei por fim. — Estou disposta a perdoar sua falsidade contanto que o senhor nos ajude.
— Podem me pedir o que quiserem.
— Entenda que de agora em diante esperamos sua total honestidade. Chega de manipulações para satisfazer aos próprios interesses. O objetivo de Amon deve ser prioritário.
— Sim. Sim, claro.
— Muito bem. Então conte tudo o que o senhor sabe, a começar por como Amon foi parar em Nova York.
— Muito bem. Mas vocês precisam entender que jurei não compartilhar essas informações com ninguém de fora da nossa ordem.
— Confie em mim, estou totalmente comprometida.
Fiquei irritada quando o Dr. Hassan olhou para Amon em busca de aprovação, mas Amon me tranquilizou alisando meu braço e garantindo ao estudioso:
— Lily abriu mão de mais coisas por minha causa do que qualquer sacerdote ou devoto jamais faria. Nosso vínculo é impossível de ser rompido. De mãos dadas, nós nos arriscamos juntos, vivemos juntos ou morremos juntos. Pode ter certeza de que qualquer conhecimento ou segredo que decidir compartilhar conosco estará seguro com ela.
Virei-me para ver seu rosto, mas o olhar de Amon estava cravado em seu servo, que, depois de tirar o chapéu, ajoelhou-se na mesma hora aos meus pés.
— Nesse caso, obedecerei também a qualquer palavra que sair da sua boca, minha senhora.
— Pode me chamar de Lily — falei, constrangida com aquele homem ajoelhado na minha frente. — Por favor, só... — Suspirei. — Só nos ajude.
— Farei tudo o que puder, lady Lily. — O Dr. Hassan voltou a se sentar e ajeitou a aba do chapéu antes de recolocá-lo na cabeça. Seu tom era totalmente profissional: — Não sei como Amon foi parar em Nova York. Quero dizer, sabia que ele tinha sido levado, mas não sabia para onde.
— Levado da tumba original dele, debaixo da sala do tesouro de Tutancâmon?
O Dr. Hassan piscou; era óbvio que estava surpreso.
— Vocês a encontraram?
— Sim. Foi lá que Amon despertou os shabtis.
— Que fascinante! Precisam me contar o que aconteceu.
— E vamos contar... depois. Mas antes o senhor estava dizendo que ele tinha sido levado...
— Sim. Eu conhecia a localização da múmia dele, e já fazia algum tempo que vinha cuidando de sua tumba. Um dia, entrei lá e senti falta do calor de sua presença.
— Que interessante. Quer dizer que mesmo morto ele irradia calor?
— Nem todas as pessoas são sensíveis a isso. Você parece ser uma das exceções.
— Assim como o senhor. Prossiga.
— Entrei na tumba um dia... isso deve fazer uns seis meses, e senti a mudança. Alguém havia mexido ali. Mesmo sendo proibido, levantei a tampa do sarcófago com um pé de cabra. Amon tinha sumido.
Amon inclinou-se para a frente.
— Por que não levaram o sarcófago?
— Certamente não queriam que ninguém percebesse. — Foi a mim que o Dr. Hassan dirigiu o comentário seguinte: — Você precisa entender. Só alguém usando a mais negra das magias poderia ter entrado na tumba. Ela estava protegida, e o sarcófago, lacrado. Eu tinha feito um encantamento para lacrar a entrada, assim seria o único capaz de acessar a tumba. Se algum outro arqueólogo a tivesse encontrado, eu teria sido alertado na hora. O encantamento tinha como finalidade afastar os curiosos e destruir pessoas com más intenções.
— Então o senhor amaldiçoou a tumba dele — esclareci.
— Em poucas palavras, sim.
— Mas como Amon e eu conseguimos entrar sem problemas?
— A maldição não se aplicaria mais caso o objeto a ser protegido tivesse sido retirado — explicou Amon.
— Não entendo como alguém poderia passar por ela — disse o Dr. Hassan. — Eu incluí todas as variações que costumam ser usadas em encantamentos: doença, morte, o nome do invasor riscado da história e, é claro, o fato de a maldição afetar sete vezes sete gerações de seus descendentes.
— Agora me ocorre que alguém que não se sentisse ameaçado pela morte física poderia ter passado pelo seu encantamento — disse Amon.
— É verdade — concordei. — E se a pessoa não tivesse filhos...
— Nem corpo para adoecer... — completou Amon.
— Poderia ter entrado na tumba sem muito risco — concluiu o Dr. Hassan.
— E me mandar para Nova York dificultaria, ou mesmo impossibilitaria, a cerimônia, mas o meu corpo não sofreria dano algum — disse Amon. — Mesmo que os meus restos mortais sejam destruídos, eu consigo recriar minha forma física, ainda que ela tenha retornado ao pó.
O Dr. Hassan se recostou na cadeira.
— Mas quem teria poder ou motivo para tentar impedi-lo?
— Só posso imaginar que seja o mesmo que estamos tentando frustrar.
— Não está se referindo a...
— Seth, o deus do caos.
— O mesmo que começou toda essa confusão? — perguntei.
— Sim. É possível que ele tenha conseguido se estabelecer no mundo outra vez — disse Amon. — Ele já usou sacerdotes antes. Talvez tenha feito isso de novo.
— Sacerdotes? — repetiu o Dr. Hassan, cético. — Duvido. A nossa seita está acima de qualquer suspeita. Escolhemos nossos noviços com cuidado.
— Como o senhor disse, hoje existe mais de um grupo. Talvez a Ordem da Esfinge?
O Dr. Hassan fez que não com a cabeça.
— Não. Essa ordem está extinta. Não existe matriarca desde a época de Hatshepsut.
— Entendi. — Amon esfregou o queixo. — Temos ainda a questão do shabti.
— Sim. — Virei-me para o Dr. Hassan para explicar. — Amon despertou dois shabtis que tinham sido postos acima da entrada da tumba. Nenhum dos dois voltou a nos procurar, e um deles decididamente tentou nos matar.
— Será possível? — indagou o Dr. Hassan, incrédulo.
— Foi assim que ficamos cobertos pela toxina vermelha — afirmei, de maneira casual.
— Em teoria, os shabtis devem obedecer a quem os desperta. Eles deveriam ter se sujeitado a mim — disse Amon.
— Isso só pode significar uma coisa — disse o Dr. Hassan.
— O quê? — indaguei.
— Não foi você quem os despertou.
Encarei-o.
— Os sacerdotes da sua seita conseguem despertar shabtis?
— Não. Isso está além do nosso poder.
— Então outra pessoa, alguém mais poderoso, está tentando deter Amon — falei.
— Parece que sim — respondeu o egiptólogo.
— Não entendo por que Anúbis nos conduziria pelo caminho errado dessa forma — disse Amon. — Se os shabtis eram impuros, por que nos deu o cone funerário?
Nenhum de nós tinha uma resposta para essa pergunta.
Enquanto eu bebericava a minha bebida, absorta em pensamentos, Amon se virou para o Dr. Hassan.
— Doutor, o senhor escondeu meus vasos canópicos?
— Escondi. Me perdoe, Amon, mas, quando descobri que você tinha desaparecido, não quis correr nenhum risco, então os escondi em uma tumba vazia. Vou levá-lo até eles assim que você estiver pronto.
— É tarde demais — disse Amon com tristeza. — Só conseguimos recuperar um. O shabti destruiu os outros.
— Mas ele não teria conseguido encontrá-los a menos que...
— A menos que seu mestre tivesse mandado — concluiu Amon.
— Ah, entendo. Que lástima.
— Não faz sentido. Por que eles mandariam Amon para os Estados Unidos e deixariam os jarros para trás? — perguntei. — E, se eles deixaram o sarcófago aqui, por que o caixão lá no museu tinha um desenho parecido com Amon?
— Ah, quanto a isso nós podemos especular — disse o Dr. Hassan. — Toda vez que Amon volta a dormir, um novo sarcófago é fabricado. Talvez eles o tenham escondido no lugar em que seria menos provável eu procurar. Eu não pensaria em olhar dentro de um dos sarcófagos antigos.
— Eles deviam saber que, sem meus jarros, meus poderes declinariam depressa — explicou Amon. — E estar a um oceano de distância do Egito tornaria bem difícil completar a cerimônia.
— Certo, mas nesse caso eles ainda poderiam pegar os vasos canópicos e escondê-los em algum outro lugar.
— Improvável, já que eu os escondi há muitos anos, antes de Amon ser levado — disse o Dr. Hassan. — Sempre pensei que isso fosse uma atitude prudente, mas talvez houvesse outras forças em atividade para me dar inspiração.
— Doutor? Onde estão meus irmãos? — perguntou Amon.
— Ah, sim. Depois que você sumiu, mandei transferir os dois. A encarnação do deus das estrelas está escondida em uma caverna subterrânea no Oásis das Pedras Sagradas. Sabe onde fica?
Amon assentiu.
— Ótimo. Quanto à encarnação do deus da lua, ele pode ser encontrado na...
Uma súbita rajada de vento arrancou o chapéu do Dr. Hassan de sua cabeça. Após pedir licença para ir buscá-lo, ele tornou a se virar para nós e estacou, fitando a distância, além de nossas cabeças. O assovio do vento ficou mais forte e mais agudo, e Amon me puxou, me abraçando de forma protetora.
— O que foi, doutor? — gritou ele, acima do barulho do vento.
Levantamo-nos e nos viramos para olhar na direção em que o Dr. Hassan tinha os olhos fixos. Ao longe, as estrelas iam desaparecendo uma por uma à medida que algo escuro e sinistro começava a preencher o horizonte.
Amon segurou meu braço com força enquanto as almofadas levantavam voo e saíam pelo terraço, algumas passando por cima do parapeito e indo parar na rua lá embaixo.
— Amon? — chamei, preocupada.
— É uma tempestade de areia! — gritou o Dr. Hassan. — Precisamos entrar agora mesmo!
Virei-me para segui-lo, mas Amon continuou parado, rígido.
— Isso não é uma tempestade de areia. O Obscuro nos encontrou.

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