25 de outubro de 2016

14. A barca celestial

Cambaleei e, se Hórus não estivesse me segurando com tanta firmeza, eu teria caído. Ondas de energia passaram sobre nós enquanto o cômodo se enchia de luz. A luz ondulava num ritmo constante, muito familiar. Eram asas batendo.
Meu coração se empolgou por um momento; pensei que Amon havia, de algum modo, se libertado e estava ali. Que havia me encontrado. Mas, mesmo enquanto esperava que os olhos se acostumassem à luz, reconheci que não poderia ser ele. O pássaro laranja e vermelho reluzente que pairava acima de nós era pequeno demais para ser o falcão dourado de Amon.
Ainda assim, a criatura era magnífica, majestosa. E, enquanto ela me olhava, Hórus inclinou a cabeça com respeito, ainda que sua expressão parecesse carrancuda.
— Parece que sua causa influenciou o grande pássaro Benu, levando-o a sair do esconderijo — disse Hórus.
— Pássaro Benu? — perguntei pelo canto da boca enquanto o enorme animal alado ia até uma trave e se acomodava ali. Ele dançou com as pernas vermelhas, batendo as asas e ajeitando as penas que tremeluziam como fogo. Duas compridas penas da cauda se estenderam até o chão e, ao roçar nos ladrilhos, fizeram subir pequenas fagulhas.
— É. Muitos o confundem com uma fênix. No entanto, diferentemente da fênix, que renasce a cada quinhentos anos, o pássaro Benu é imortal. Provavelmente estava observando a nossa... — Hórus fez uma pausa e estreitou os olhos para a ave — ... conversa, e escolheu o momento perfeito para se revelar.
— Revelar? Quer dizer que ele já estava aqui?
— Ele pode ficar invisível. Provavelmente estava aqui o tempo todo. É uma raridade vê-lo, e faz séculos que ele não se deixa ver. — Hórus franziu a testa. — É interessante que ele faça isso agora.
— Então ele pretende me ajudar?
— É o que parece.
— Ele é muito bonito.
Hórus deu uma risadinha.
— Tenho certeza de que ele aprecia sua opinião.
Lentamente me aproximei do pássaro e estendi a mão.
— Eu sou Lily. Obrigada por vir nos ajudar.
Abrindo o bico, o pássaro Benu virou a cabeça de modo que um dos olhos me espiasse, e em seguida cantou notas assombrosas e comoventes, diferentes de tudo que eu tinha escutado na vida.
— Que lindo! — exclamei quando a música terminou.
Hórus pôs a mão na nuca e olhou longamente para a ave.
— Ele é especial, mesmo.
— Você o criou? — perguntei.
Rindo quase desconfortavelmente, Hórus respondeu:
— O pássaro Benu passou a existir por conta própria. Se Amon-Rá é o sol, o Benu é o alvorecer.
Olhei-o, perplexa, mas então o pássaro Benu bateu as asas, subindo, e se transformou num raio de luz que desapareceu pela janela alta. Rematerializando-se do outro lado, bateu no vidro com o bico e circulou.
— Ele quer que você o siga — disse Hórus.
— Certo. — Virei-me para a pilha de roupas e peguei o vestido branco. Hórus ficou atrás de mim com os braços cruzados, uma sobrancelha erguida, o canto da boca inclinado para cima. — Importa-se de sair enquanto eu me visto? — perguntei.
Erguendo brevemente os olhos para a janela por onde o pássaro havia desaparecido, ele disse:
— Acho que é melhor assim.
— Obrigada.
— Vou esperar você lá fora e acompanhá-la até a muralha da cidade. A partir de lá o pássaro Benu vai conduzi-la.
Assenti com a cabeça e, quando a porta se fechou atrás dele, tirei rapidamente o roupão e pus o vestido branco. O tecido reluzente franzia-se na cintura alta e descia pelo corpo, terminando logo acima dos pés calçados com as sandálias brancas. O corpete bordado com contas cobria toda a parte de cima como uma pala e envolvia meus ombros. Torci o cabelo num nó e o prendi com a faixa branca do roupão, coloquei o arnês de ombro, ajustando-o por cima do vestido, pus a alça da aljava atravessando o corpo e peguei o arco.
Enquanto me examinava uma última vez, senti o desconforto de Tia.
— O que foi? — perguntei. Ela não respondeu, por isso inclinei a cabeça e tentei acessar seus pensamentos. — Ah — entendi finalmente. — É o vestido.
É que não sei como vamos correr e lutar com todo esse pano envolvendo nosso corpo. Seria melhor se fôssemos nuas.
Dei uma risada.
— Talvez. Mas aí iríamos congelar. Não tenho pelos como você. — Mordi o lábio. — Que tal um meio-termo?
Tia captou meus pensamentos e senti quando cedeu. Invocando o poder da esfinge, encurtamos o vestido até o tamanho de uma túnica e cobrimos as pernas com uma calça legging branca.
Hórus me encontrou no corredor e, depois de uma breve avaliação, me lançou um olhar de aprovação, incluindo nele minhas pernas. Depois me conduziu por um labirinto de corredores até chegarmos a uma porta.
Assim que saímos da casa de Amon-Rá, o deus dourado provocou uma tremenda agitação. Os cidadãos de Heliópolis paravam o que faziam para olhá-lo me levando por uma rua movimentada até a periferia da cidade. Ainda que eu procurasse o pássaro Benu no céu, não havia sinal dele.
— Tem certeza de que ele vai me encontrar?
— Tenho — respondeu Hórus em tom categórico enquanto um grupo de comerciantes o via e parava no meio de uma transação.
— O que há de errado com eles? — perguntei.
Ele se encolheu.
— Normalmente não andamos no meio das nossas criações.
— Verdade? Por quê?
— Isso os deixa... desconfortáveis.
— Como assim?
Dando de ombros, pouco à vontade, ele se permitiu ser distraído quando uma mulher deixou cair uma tigela de frutas púrpura ao vê-lo. Uma fruta rolou até os pés dele. Hórus a pegou, limpou a poeira e me entregou.
— Eles não querem olhar o rosto de quem os fez. Isso os lembra de que são mortais. A maioria prefere nos cultuar de longe.
— Mas você não quer conhecê-los?
— Não.
— Por quê? Pensei que você ficaria orgulhoso. Como um pai.
Virando-se, Hórus segurou meus ombros e me fez parar.
— Porque conhecê-los, Lily, é amá-los. Se eu os amar, vou sentir dor ao perdê-los. É a maldição que acompanha a imortalidade. Entende?
— Eu... acho que entendo — respondi baixinho.
Ele pareceu querer dizer mais alguma coisa.
— O que foi? — perguntei.
— Por que você se aventura nesse caminho quando o resultado inevitável, mesmo que tenha sucesso, é se separar mais uma vez do rapaz que você afirma amar?
— Porque ele merece — respondi simplesmente. — A distância física não importa, porque a verdade do nosso vínculo está gravada no meu coração. Eu não poderia negar meus sentimentos por ele, assim como não poderia negar a claridade do sol.
Hórus franziu a testa.
— Você sabe que houve uma parte sua que correspondeu ao meu beijo.
— Não. — Sacudi a cabeça. — Isso não é verdade.
— O encantamento que lancei não teria funcionado se você não estivesse disposta. Sua leoa pode ter sido influenciada por ele, mas, se você estivesse realmente se opondo, ele não teria acontecido.
— Eu deveria saber que você iria jogar sujo com um encantamento — repliquei, irritada.
Tia tentou me aplacar: Não é culpa sua, Lily. Eu é que fui fraca. Hórus... me tenta. Isso não deveria prejudicar seu relacionamento com Amon.
Não quero falar nisso, eu disse, mal-humorada.
Talvez algum dia eu possa amar Hórus, ela ponderou.
Não é amor, respondi secamente em pensamento.
Eu desejo que ele me segure nos braços e encha de beijos meus lábios e meu rosto. Gosto quando ele me acaricia. É isso que você deseja de Amon também. Isso não é amor?
Não. Sim, gemi. Como iria explicar o conceito de amor a uma leoa? Essas coisas são ótimas, eu disse mentalmente. Trazem sensações maravilhosas. Mas são apenas expressões do amor. São apenas símbolos da emoção que está por trás delas.
Então Hórus me ama. Se ele expressa isso com tanta habilidade, deve me amar.
Mesmo um homem que não a ama pode enganá-la com... distrações físicas. O verdadeiro amor precisa de tempo. Não é instantâneo. Você precisa conhecer a outra pessoa. Admirá-la. Descobrir o que ela sonha, o que ela espera, e ver se essas coisas ecoam em seu coração. Só então o amor vai começar. E você vai saber que é verdade quando lhe pedirem que abra mão de alguma coisa para proteger quem você ama. Diga: se Hórus encontrasse um fim precoce, você ficaria de luto por ele? Seu coração iria se partir com a ausência dele?
Ela ficou quieta por um longo instante.
Eu sentiria falta dos beijos dele, mas não sentiria um pedaço da minha alma se rasgar caso ele se afastasse da nossa companhia.
Sorri. Então você sabe o que o amor significa de verdade.
Minha alma se rasgar quando sou separada dessa pessoa?
Exatamente.
Hórus parou diante de uma muralha tão alta que eu não conseguia ver seu topo. Com um movimento de sua mão, pedras se moveram, raspando contra o leito de rochas e umas contra as outras com o som de mil moinhos que fez meus ossos tremerem, como se fossem ser esmagados até virar pó. Segurando meu braço para me manter de pé, Hórus finalmente me soltou quando uma abertura surgiu na parede.
— É aqui que nos separamos, jovem esfinge.
A dor cruzou seu rosto e ele se aproximou de mim como se fosse me beijar de novo. Parecia quase incapaz de se conter, mas eu recuei um passo, dessa vez decidida a mantê-lo a distância.
Felizmente o impasse nem chegou a acontecer, já que um guincho alto o deteve. Irritado, ele olhou para o pássaro Benu que voava em círculos acima e se resignou a pressionar os lábios na palma da minha mão.
— Adeus — disse quando eu passava pela abertura. — Siga o pássaro. Ele não vai deixar que você se perca.
— Adeus, Hórus. Talvez nos encontremos de novo.
— Talvez. — Ele agitou a mão e a muralha de pedras começou a se fechar atrás de mim. — Mas seria melhor para mim se não nos encontrássemos. — Seus olhos brilhantes, famintos mas preocupados, me assombravam quando me virei e comecei a me afastar de Heliópolis.
Acima de mim o pássaro Benu ficou visível. Mesmo sendo difícil enxergá-lo por entre as árvores, ele sempre circulava de volta para me encontrar. Se eu fosse na direção errada, ouvia seu canto ecoar na floresta. Às vezes eu passava por um pinheiro alto e o encontrava empoleirado num galho, me vigiando.
Quando eu chegava suficientemente perto, tentava fazer perguntas, mas, assim que eu começava, ele alçava voo, a cauda comprida pendendo mais de um metro abaixo do corpo. Justo quando comecei a sentir sede chegamos a uma linda cachoeira que lançava um arco-íris no ar. A água era fresca e límpida, e o poço abaixo estava cheio de peixes multicoloridos. Fiquei boquiaberta quando eles saíram da água, com as barbatanas se agitando rapidamente como asas de beija-flor, entrelaçando-se brincalhões na cachoeira antes de mergulhar de novo no poço. Claro, Tia se perguntou qual seria o gosto deles, enquanto eu soltava exclamações sobre sua beleza única.



Continuamos durante toda a tarde, guiadas pelo pássaro Benu. Quando ele acelerava, fazíamos o mesmo. Enquanto corríamos, percebi outra mudança no corpo. Fiquei maravilhada com meu novo nível de resistência, a respiração profunda seguindo o ritmo constante, ao mesmo tempo estranho e natural, de minhas pernas e meus braços. Comecei a tentar adivinhar do que eu era capaz. Cada coisa que eu fazia e que estava fora da norma para mim, ou que eu sabia ser impossível para um ser humano, me obrigava a encarar o fato de que eu não era mais humana, e esse pensamento era suficientemente incômodo para fazer com que eu empurrasse o medo para o fundo da mente, o que era muito mais fácil enquanto eu corria.
Tia parecia aceitar muito melhor nosso novo status. Ela era uma leoa, e ao mesmo tempo não era. Abraçava as novas descobertas, como beijar um homem lindo ou desfrutar de um banho quente, com abandono e paixão. As diferenças em sua nova forma não lhe causavam alarme, mas curiosidade, e quando fiz um comentário sobre isso ela achou irracional minha preocupação com o que já estava feito.
Enquanto corríamos, meus pensamentos foram se aquietando. Saltando por cima de troncos caídos e pedras grandes com a facilidade de uma guerreira amazona, atravessamos a floresta e uma grande planície coberta de capim, depois subimos uma trilha montanhosa onde se viam animais que pareciam um cruzamento entre uma cabra e um urso. Eles simplesmente levantaram a cabeça quando passamos e depois voltaram a pastar.
Fiquei boquiaberta quando chegamos ao outro lado de um morro. O que se estendia diante de nós era um mar índigo. Com minha nova e poderosa visão, olhei a vastidão das águas e me perguntei se seria o mesmo oceano que havíamos sobrevoado montadas em Nebu. As cores sem dúvida eram diferentes.
A cidade de Heliópolis era cheia de luz dourada e prédios que cintilavam, mas esse lado de Duat era o oposto. As montanhas eram cinzentas. A paisagem, opaca e sem graça. As árvores e arbustos eram sombras escuras contra o terreno tristonho. Ainda que o sol estivesse sobre a água, não havia calor nem ondas reluzindo.
— Que lugar é este? — perguntei a Tia.
Não sei. Mas sinto cheiro de morte.
Tremendo, esfreguei os braços, e uma brisa que dava calafrios eriçou os pelos finos da minha nuca. Uma sensação de inverno me envolveu e tive a impressão de que estava cercada por coisas apodrecidas e petrificadas, escondidas logo abaixo de uma camada de gelo que impedia a visão do outro lado.
Seguimos o pássaro Benu até a beira da água, onde um cais precário estendia um braço leproso para dentro do mar. Ao lado havia um casebre coberto de palha, feito de madeira podre trazida pelo mar, que devia ter sido pintada um dia. Pelo menos eu esperava que as manchas vermelhas e secas, que pareciam flores mortas e espinhosas descascando-se das laterais, fossem tinta. Mas, se haviam sido, agora estavam tão desgastadas que mal eram perceptíveis.
Havia um ar de abandono naquela construção, como se a única coisa que pudesse decidir habitar um lugar assim fosse um marinheiro fantasma que assombrava a praia em busca de vítimas para afogar nas águas escuras. Em nítido contraste, havia um barco lindo, parecendo tão deslocado quanto uma socialite de Nova York numa festa caipira.
Como um esguio cão de competição amarrado à carrocinha de um sem-teto, a embarcação estava imóvel, o mastro estendendo-se para o alto como se olhasse para o céu em busca de salvação. Estava atracada ao cais, o que não garantia sua segurança nem a do cais, e eu torcia para que sua presença significasse que alguém provavelmente morava ali, ou pelo menos visitava o lugar de vez em quando.
A reluzente pintura cor de ébano do barco brilhava à luz fraca do sol poente. Um par de remos com relevos elaborados repousava contra o casco e o mastro robusto com uma vela grossa estava amarrado com cordas bem apertadas. Na frente do barco havia uma figura de proa, um pássaro esculpido, que tinha uma semelhança suspeita com o pássaro Benu, agora empoleirado no poste quebrado do cais.
O pássaro me olhava em expectativa, como se estivesse esperando que eu fizesse alguma coisa. Dançou no topo do poste, agitando as penas enquanto cantava baixinho para mim. Uma das penas roçou em meu braço e o calor penetrou na minha pele por um instante, antes de desaparecer novamente.
Quando o canto do pássaro acabou, a porta remendada da cabana se abriu, revelando um interior tão escuro que não pude identificar nada lá dentro, nem mesmo com a visão apurada. A porta tornou a se fechar com um estrondo que reverberou.
— Você... você quer que eu entre? — perguntei ao pássaro.
Ele respondeu voando até a cabana arruinada e se empoleirando no telhado.
— Acho que sim — respondi. — Certo, então. Lá vamos nós.
Bati à porta presa à lateral da casa com dobradiças quebradas. Ela pendia num ângulo tal que a impedia de se fechar direito. Enquanto os nós dos meus dedos batiam pela segunda vez, a porta se moveu bêbada, permitindo um vislumbre do espaço escuro lá dentro. Como ninguém atendesse, dei de ombros e puxei a porta. O ruído das dobradiças mais pareceu um gemido de dor excruciante e isso me fez parar de puxá-la.
— Olá? — chamei, a voz ecoando naquele espaço. A luz do sol poente lançava linhas de luz compridas e pálidas pelas frestas nas tábuas da casa, e as faixas escuras faziam com que ela mais parecesse uma cela de prisão do que um lar. — Meu nome é Lily — anunciei enquanto dava um passo minúsculo e hesitante para dentro. — Tem alguém aí?
Houve um ruído à minha direita. Parecia papel sendo manuseado, ou talvez movimento num ninho de ratos. Uma forma escura se soltou de um canto ainda mais escuro da casa esquálida e uma voz profunda ribombou.
— O que você quer? — perguntou a voz, e a pergunta foi seguida por um acesso de tosse encatarrada e um grunhido.
— Hórus me mandou — respondi em voz baixa, o tom subindo no fim como se eu estivesse fazendo uma pergunta em vez de uma afirmação.
A tosse ficou mais intensa e a pessoa escondida nas sombras finalmente parou e cuspiu. Um pus amarelo brilhante pousou nas tábuas empenadas e cobertas de areia junto aos meus pés. Recuei um passo, retornando ao portal, pronta para sair correndo.
Um som áspero indicou que a figura estava chegando mais perto.
— Hórus? — perguntou a voz, cheia de suspeitas. — O que me importa ele?
— Ele não é seu senhor?
— Meu senhor? — A pessoa começou a dar uma risadinha, que logo se transformou novamente em tosse. Mais sons de pés se arrastando, e então o tilintar de uma caixa. Uma chama minúscula surgiu, ficando mais forte enquanto o lampião era aceso. A pessoa na cabana levantou o lampião a gás e se virou para mim.
Ver que era um homem, e não um monstro, deveria ter me acalmado pelo menos um pouco, mas, ao contrário, fiquei mais nervosa. Ele era corcunda e, apesar de ser corpulento, as faces eram encovadas, macilentas, e os olhos cinza e febris tão desprovidos de cor quanto as tábuas da casa. Grossas veias azuis se destacavam nos braços fortes. Lábios grandes sobressaíam em meio a uma barba preta tão desgrenhada e comprida que eu me perguntei que criaturas se aninhariam ali dentro.
— Você me acordou — acusou o homem enquanto me olhava com as sobrancelhas grossas tão baixas que pareciam impedir sua visão. Em seguida, tirou do bolso um lenço tão imundo que a única coisa boa a fazer com ele seria queimá-lo. Fiquei olhando, sem fala, enquanto ele o levava ao nariz adunco e assoava tão alto que sacudiu as tábuas do assoalho. Ele deve ter notado minha careta, porque imediatamente ordenou: — Saia!
Meus punhos se fecharam.
— Não — respondi, e ergui o queixo em desafio. — Preciso ir para o além, e pelo jeito você tem alguma coisa a ver com isso.
O homem aproximou-se mais alguns passos e me olhou de sua altura imponente. Era muito maior do que parecera inicialmente.
— Não transporto gente viva, mocinha. — Seu hálito forte envolveu meu rosto, mas, apesar de me sentir ligeiramente nauseada, eu não iria recuar.
— Desta vez, vai — respondi com o máximo de confiança que me era possível.
Ele inclinou a cabeça, me avaliando, depois girou e ocupou-se junto à mesa. Ouvi o som de líquido caindo numa xícara e o homem tomou um grande gole. Ainda de costas, ele disse:
— A viagem na barca do sol é só de ida, e não é segura, nem para os que não têm nada a perder.
— Não me importa. Vim até aqui e preciso ir em frente.
Ele encheu de novo a xícara e me olhou com o canto do olho.
— Você trouxe um óbolo?
— Um óbolo? — ecoei.
— Um óbolo. — Ele suspirou. — Uma oferenda? — E me olhou cheio de expectativa, as sobrancelhas grossas se unindo, mas em seguida seus ombros se curvaram e ele voltou para a escuridão. — Não vou levar você a lugar nenhum sem meu óbolo.
Um objeto caiu no chão junto aos meus pés, rolando em círculos antes de parar. O reflexo do ouro cintilou na escuridão. O homem se imobilizou quando me inclinei para pegar o objeto. Era uma moeda de ouro gravada com a mesma imagem do pássaro Benu que eu tinha visto esculpida no barco e nos ladrilhos da banheira da casa de Amon-Rá.
— Isto serve? — perguntei, e a joguei na direção dele, ainda não querendo sair da luz do portal e entrar no espaço escuro da casa.
Apesar de não parecer suficientemente ágil, o homem estendeu a mão bulbosa e cheia de veias e pegou a moeda no ar. Olhou para ela, virando-a com cuidado, e em seguida seu olhar disparou para mim.
— Quem é você? — perguntou, desconfiado.
— Já falei. Sou Lily.
Ele franziu a testa.
— Não estou falando do seu nome. Você precisa me dizer quem você é.
— Bom, sou uma mortal, uma humana, ou pelo menos já fui. Agora sou uma esfinge. Hórus tomou as providências para que eu viesse encontrar você, para que eu pudesse viajar ao além. Meu namorado, Amon, é um dos Filhos do Egito e está preso no mundo dos mortos. Preciso salvá-lo para que Seth não se liberte de suas amarras e não lance o caos sobre a Terra. Isso basta?
O homem piscou. Uma vez. Duas. Depois cuspiu outra bola de catarro junto aos pés.
— Uma esfinge, é? — Ele esfregou a moeda entre os dedos, me examinando, como se tentasse deduzir se eu estava falando a verdade. — E quando, exatamente, você quer partir, mocinha?
— Agora mesmo.
Ele se remexeu, grunhindo, e acariciou a barba.
— Tem certeza de que deseja ir?
— Tenho.
O homem aproximou-se ainda mais, arrastando os pés, e olhou o céu que escurecia.
— Então acho melhor irmos logo. Embarque no Mesektet imediatamente. Vou em seguida. Vai ser uma noite longa, mocinha. Você não faz ideia da coisa em que está se metendo, mas aceito o pagamento. — Suas sobrancelhas baixaram. — E é tarde demais para recuar, agora que aceitei o serviço — alertou. — Você tem sorte porque este óbolo é muito valioso. Caso contrário, eu nem pensaria em carregar vivalma, ainda mais tão tarde.
— Vivalma?
— Uma alma viva. Uma garota/leoa como você, ainda viva. Agora pare de me distrair e vá andando, senão vamos perder o portão e tornar essa conversa tão inútil quanto um morto implorando para viver.
— Certo.
Dando meia-volta, saí e olhei para o telhado, vendo o pássaro Benu cantar uma última canção tristonha antes de bater as asas e voltar para Heliópolis. O sol já quase havia se posto. Apenas uma lasca ainda permanecia sobre a água. Eu tinha acabado de subir a bordo e encontrado um lugar perto da popa, que parecia suficientemente segura para que eu não caísse na água, quando o homem grandalhão veio descendo o cais com passos firmes.
O barqueiro soltou o nó que prendia o barco e, quando começávamos a nos afastar do cais, notei uma imagem gravada no poste de madeira.


— É o nascer do sol — murmurei. — O Dr. Hassan disse para ficar atenta a ele, que leva à vida.
— Chegou perto — disse o homem enquanto tirava um remo do suporte e o passava pelo tolete. — Essa imagem tem um significado duplo. Neste caso é o pôr do sol, e não o nascer.
Para onde leva o pôr do sol?, perguntou Tia.
O pavor encheu meu corpo enquanto eu me agarrava impotente às cordas do navio.
— O pôr do sol leva à morte — respondi.
— Agora — alertou ele enquanto desenrolava a vela, que pegou imediatamente o vento e se enfunou —, segure-se como se sua vida dependesse disso! — Ele parou o que estava fazendo e soltou uma risadinha seca. — Não é sempre que tenho a chance de dizer isso.

2 comentários:

  1. Poxa, nem um mísero "obrigado" ao pássaro Benu ( que, por acaso, não aparecia a centenas de anos e veio a aparecer pra ajudar ela) ????

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