21 de outubro de 2016

13. Grão-vizir

Imagens tremeluziam nas fronteiras da minha consciência e, embora eu tenha tentado retê-las, dissiparam-se antes de eu conseguir entender o que significavam. Meu corpo flutuava entre o sonho e a realidade. Aos poucos, acordei com o barulho de vozes. As imagens difusas tomaram forma e o objeto azulado e esbranquiçado à minha frente se transformou na visão muito próxima e familiar da camisa de Amon.
Estava escuro. Eu me achava deitada em uma espécie de cama ou mesa e, à medida que fui tomando consciência do ambiente à minha volta, percebi que estava olhando para uma lona. Era noite, e eu estava dentro de uma barraca.
Para meu horror, descobri que não conseguia erguer os braços nem as pernas. Estava paralisada. Era como ser enterrada viva. Comecei a entrar em pânico; o medo se alastrou por minha mente e me prendeu com garras que pareciam navalhas.
Antes que começasse a hiperventilar, supondo que eu fosse capaz disso, concentrei-me no que podia fazer. Vozes vinham lá de fora, portanto eu conseguia escutar, e meus olhos também pareciam estar funcionando de novo. Tentei piscar e, depois de uma ou duas tentativas, deu certo, embora eu continuasse sem sentir nada. Era como se meu corpo inteiro estivesse adormecido, de modo que passei vários minutos me concentrando em pequenos progressos. Primeiro mexer o nariz, em seguida o mindinho de uma das mãos, depois o da outra.
Após o que pareceram horas, consegui mover a cabeça para a esquerda. Tentar obrigar os músculos inertes a obedecerem à minha mente era um processo doloroso, mas acabou dando certo. Pelo menos a visão que tive foi agradável. Amon estava sentado ao meu lado, dormindo, a cabeça pousada nos braços dobrados sobre a beirada do que eu agora percebia ser uma cama.
Eu não conseguia falar, mas pelo menos podia olhar o seu belo rosto enquanto recuperava aos poucos o uso dos braços e pernas. Ele estava usando as mesmas roupas de quando tínhamos entrado na tumba, e, embora houvesse lavado o rosto e os braços, ainda tinha terra nos cabelos.
Os longos cílios se estendiam sobre as bochechas queimadas de sol, e dei-me conta de que, embora não houvesse como negar que Amon era um lindo deus do sol, eu na verdade o preferia assim: com uma mancha de sujeira no pescoço, exausto depois de um árduo dia de trabalho e totalmente... humano.
Sequer percebi que estava esticando o braço antes de meus dedos tocarem seus cabelos. Na mesma hora, ele abriu os olhos.
— Lily? — perguntou, esfregando-os para espantar o sono e chegando mais perto. — Está me ouvindo?
Quando ele segurou minha mão, agora livre da poeira vermelha, aquiesci de modo quase imperceptível. Ele captou o movimento.
— Que bom. O doutor Hassan disse que você iria acordar logo. Vou buscá-lo.
Minha garganta se fechou na tentativa de chamá-lo de volta. Queria que ficássemos só os dois por enquanto – eu tinha tantas perguntas – mas tive que reconhecer que haveria tempo para fazê-las mais tarde e, para ser sincera, não havia muita chance de eu pronunciar tão cedo nem uma sílaba sequer, muito menos uma pergunta completa.
Ouvi o farfalhar do pano da barraca e dois homens entraram junto com Amon. O mais velho pousou uma lamparina sobre a mesa ao meu lado e puxou um banquinho até a minha cama, em seguida tirou o chapéu de feltro branco da cabeça e o pôs sobre a mesa.
— Boa menina — disse ele com um forte sotaque, erguendo minhas pálpebras para examinar melhor meus olhos. — Sabia que você logo voltaria para nós.
Gostei da sua voz tranquilizadora. Ele parecia estar próximo da idade da aposentadoria e tinha uma farta cabeleira branca. Seus olhos castanhos brilhavam como chocolate derretido e sua pele era bem queimada de sol. Quando sorriu, reparei que tinha não só uma, mas duas covinhas. Amon se ajoelhou ao lado dele e o crivou de perguntas, a preocupação evidente em seu rosto. O homem assentiu com a cabeça, compreensivo, e respondeu pacientemente antes de se virar na minha direção.
— Meu nome é doutor Osahar Hassan, mas a maioria dos meus amigos americanos me chama de Oscar — falou. Então pegou minha mão e deu alguns tapinhas, mostrando as covinhas do rosto. — Gosto especialmente desse apelido moderno quando ele é usado por moças bonitas como você. Agora vamos ver como foi nossa evolução, sim? Pode tentar apertar a minha mão?
Eu bem que tentei, mas mal conseguia sentir a mão, quanto mais apertá-la. Mesmo assim, ele sorriu e falou:
— Ótimo! Excelente! Ela progrediu bem mais do que imaginei que progrediria, com a quantidade de toxinas que inalou.
Enquanto a minha mente processava a palavra toxina, Amon meneou a cabeça preocupado e perguntou:
— Quanto tempo vai demorar para ela se recuperar totalmente?
O Dr. Hassan levou a mão ao queixo e o coçou como se tivesse barba, sinal de que em algum momento provavelmente já tivera, mas dessa vez o resultado foi o som áspero de uma palma grossa esfregando um queixo que precisava ser barbeado.
— Eu diria que pela manhã ela já deve estar suficientemente recuperada para ir embora. Fiquem à vontade para passar a noite aqui na barraca.
Amon segurou o braço do médico e disse:
— Sua hospitalidade não será esquecida, doutor.
Com uma expressão marota, mas bondosa, o Dr. Hassan sugeriu:
— Quem sabe, enquanto esperamos, não podemos conversar mais um pouco sobre a sua opinião em relação a algumas coisas?
— Seria uma honra para mim — respondeu Amon.
Sinetas de alarme soaram na minha cabeça, mas eu não tinha como dizer a Amon que ficasse calado. Pelas coisas que conseguira ver na barraca quando não estava distraída olhando para Amon, calculei que aquele lugar fosse o acampamento de uma escavação arqueológica.
O Dr. Hassan não devia ser médico, mas sim doutor em egiptologia. Se Amon lhe revelasse coisas demais ou dissesse o que não devia, o estudioso poderia concluir que ele não nascera neste século e, paralisada, não havia muita coisa que eu pudesse fazer para impedir que eles o levassem embora para estudá-lo melhor ou, que os deuses egípcios não permitissem, fazer uma autópsia.
Parecendo perceber minha preocupação, Amon se virou para mim, tocou meu ombro e sussurrou:
— Ainda estamos no Vale dos Reis, em uma barraca perto do templo de Hatshepsut. — Quando formulei um protesto mental, ele acrescentou: — Psiu, Nehabet, vai ficar tudo bem.
Tudo bem coisa nenhuma! Estava tudo errado, muito errado, e agora estávamos diante dos inimigos de tudo aquilo que era desconhecido e diferente: cientistas. Eu não sabia como, mas tínhamos chamado a atenção de alguém com potencial para ser a pessoa mais perigosa do planeta: um homem capaz de entender quem e o que Amon era.
Minha teoria em relação à natureza do campo de estudo de Hassan foi confirmada quando ele apresentou seu assistente, o Dr. Sebak Dagher. Mais jovem, com a barba benfeita e um turbante colorido na cabeça em vez de chapéu, ele parecia bastante simpático, mas havia alguma coisa ávida na sua expressão. Talvez fosse apenas o fato de ser jovem e ter que provar seu valor.
Ver os dois juntos confirmou tudo: eram mesmo arqueólogos. Eu já deveria ter adivinhado ao ver o chapéu de feltro branco. O de Indiana Jones era marrom, e provavelmente todo arqueólogo tinha pelo menos um chapéu daqueles.
Os dois começaram a conversar amigavelmente com Amon. Eles não tinham chamado a polícia egípcia encarregada de lidar com turistas para nos acompanhar até fora da escavação, mas isso me deixou ainda mais desconfiada. Por que não haviam convocado um médico de verdade para me examinar? Com certeza devia haver um posto de primeiros socorros em algum lugar no Vale dos Reis.
Mesmo que não houvesse, eles deviam ter acesso a um hospital, e no entanto ali estava eu, deitada feito uma rainha egípcia, com as mãos pousadas delicadamente sobre o peito enquanto “me recuperava”. Os homens começaram a conversar em inglês, mas logo mudaram para o idioma local, o que me obrigou a um esforço constante para entender o que diziam apenas pelo tom de sua voz.
Os dois pareciam fascinados por Amon, mas não consegui detectar nele nenhuma hesitação ou medo, de modo que depois de algum tempo parei de tentar entender e simplesmente me concentrei em recuperar a sensibilidade nas pernas e nos braços. De tempos em tempos, Amon estendia a mão e envolvia meu braço com os dedos, o que fazia pequenas ondas de energia pulsarem pelo meu corpo.
Nenhum dos dois prestava atenção nisso, a não ser para se espantar com meu rápido progresso. Em determinado momento, o Dr. Dagher veio até o meu lado e explicou o que havia acontecido. Disse-me que, por falta de sorte, eu fora vítima de uma antiga armadilha criada para impedir ladrões de tumba de roubar artefatos.
Eu queria descobrir que tipo de toxina havia inalado, e por que ela ainda não tinha sido retirada de uma tumba recém-escavada. E queria muito saber o seguinte: se Amon fora encontrado ali, por que fora transportado para os Estados Unidos tão depressa? Por que seus vasos canópicos continuavam no Vale dos Reis? Por que ele havia sido tirado de seu lugar de descanso original, e por quem? No entanto, sabia que essas perguntas não podiam ser feitas àqueles desconhecidos.
Pelo olhar esquivo do Dr. Dagher, pude ver que ele estava guardando algum segredo. A maneira como o jovem doutor espiava Amon e seu mentor me dava a sensação de que ele preferiria mil vezes estar escutando a conversa deles do que bancando a babá de uma americana muda.
Depois de nos deixar por uma ou duas horas, os doutores Hassan e Dagher voltaram à minha cabeceira para ver como eu estava. Felizmente, ao verem que eu estava acordada, passaram a falar a minha língua.
— Como vocês foram parar no trecho interditado do templo? — indagou Hassan a Amon. — E onde entraram em contato com a toxina?
Amon mentiu com desenvoltura, mas sua mão apertou a minha com tanta força que até eu pude sentir; os músculos de seu antebraço estavam tensos.
— Estávamos inspecionando as tumbas mais próximas do templo quando Lily passou a mão por uma parede e a mão dela ficou coberta de pó vermelho. Nenhum de nós achou que fosse perigoso. Quando ela começou a sentir os efeitos, carreguei-a por vários corredores na pressa de sair das tumbas e acabamos indo parar no templo.
— Entendi. — O Dr. Hassan ergueu o chapéu e passou a mão pelos fartos cabelos brancos antes de recolocá-lo. — Vocês devem ter saído da capela superior de Anúbis, então.
— O senhor provavelmente tem razão.
— Depois você desceu com a moça até o primeiro pátio. O das colunas — explicou ele.
— Isso — respondeu Amon sem dificuldade.
Cravados em Amon, os olhos do Dr. Hassan brilharam, e entendi na hora que ele sabia que Amon estava mentindo.
— O senhor não está acreditando na minha história — observou Amon.
— Não — respondeu o Dr. Hassan com um sorriso afável. — Eu estava trabalhando no terraço superior quando reparei em pegadas de pó vermelho que saíam da capela da família real. Como essa parte está atualmente fechada e não existe nenhuma passagem externa que leve até lá, devo admitir que continuo esperando você me contar o que realmente aconteceu.
— Já contei o que o senhor precisa saber.
Por dentro, encolhi-me toda, esperando o sorriso desaparecer do rosto do Dr. Hassan. Imaginei que a raiva dele diante de nossa falta de cooperação fosse fazê-lo chamar as autoridades e mandar nos jogar dentro de uma cela úmida reservada especialmente para quem roubasse importantes relíquias históricas. Em vez disso, porém, o egiptólogo, ao lado de seu protegido, se recostou e mudou de assunto.
— O templo no qual vocês entraram é provavelmente um dos mais famosos monumentos do Egito. Foi construído por uma faraó mulher chamada Hatshepsut. Já ouviram falar nela?
Amon fez que não com a cabeça.
— Não especificamente. Não sei de nenhum faraó mulher.
— Existiram alguns, mas poucos deles tiveram um reinado tão longo quanto o de Hatshepsut. Ela reinou por quase 22 anos, patrocinou as artes e mandou construir lindos edifícios, mas depois da sua morte outros faraós tentaram apagar os vestígios de seu reinado. Estátuas foram destruídas e monumentos, desfigurados. Muitos teorizam que isso foi feito para impedir as pessoas de lembrarem que Hatshepsut, uma mulher, havia liderado o Egito com sucesso, mas eu acredito que o responsável por corromper os feitos dela tenha sido o culto a Seth.
Pude ver que Amon ficou curioso na hora.
— Vocês têm alguma prova disso? — indagou.
— Sim e não. A maioria dos egiptólogos descarta a ideia de que exista ou tenha existido um culto de veneração a Seth, deus do caos, mas todos concordam que Hatshepsut tinha fascínio por leoas. Na realidade, a história do nascimento dela conta que ela nasceu na cama de uma leoa.
— O que uma afinidade com leões tem a ver com o deus do caos?
— Ah. — Os olhos do egiptólogo brilharam. — Aí está a questão, não é? — falou, enigmático, antes de prosseguir, ignorando por completo a pergunta de Amon: — Minha pesquisa indica que ela talvez tenha entrado para uma seita secreta depois de uma viagem ao nordeste da África para visitar o rei de Punt. Voltou trazendo muitos presentes, entre eles marfim, ouro, pés de mirra e olíbano, e ébano. Mas eu acho que a sua visita teve outro motivo, e não foi um motivo político. Quando ela estava se preparando para voltar para casa, foi presenteada com dois filhotes de leão, duas fêmeas, que criou como animais de estimação.
— Isso quer dizer que Hatshepsut foi uma mulher corajosa, mas acho que não estou entendendo por que isso o levaria a concluir qualquer coisa fora do normal — comentou Amon.
— E você tem razão. Em circunstâncias normais, eu concordaria. Hatshepsut com certeza não foi o primeiro nem o último membro da família real egípcia a desenvolver afinidade com uma criatura perigosa. Mas eu acho que talvez essa história tenha outro significado.
— Qual? — indagou Amon, serenamente.
— É polêmico, mas encontrei sinais que indicam que Hatshepsut tinha ligações especiais com a esfinge. Sabemos, por exemplo, que antigamente uma avenida de esfinges margeava o caminho que conduzia ao seu templo mortuário. Alguns registros encontrados na África mencionam as pequenas leoas dadas de presente a Hatshepsut, mas um deles afirma, sem margem para dúvida, que “A Leoa” vinha da África.
Ele fez uma pausa antes de continuar:
— Trata-se de uma referência à misteriosa líder de um grupo secreto chamado Ordem da Esfinge, uma seita muito controversa, sobre a qual quase nunca se fala e que muitos estudiosos descartam como um conto de fadas. Na minha opinião, a ordem não só existiu como Hatshepsut talvez tenha sido nomeada sua líder durante essa viagem para visitar o rei de Punt.
Amon esfregou o rosto.
— Interessante. Por que acha que ela era a líder, e não apenas uma integrante?
— Bom, o simples número de estátuas que enfeitavam a avenida das esfinges já era uma indicação de seu respeito por essa criatura. Além disso, o templo dela era cercado por pés de mirra e olíbano, indício da importância daquela viagem à África. — O Dr. Hassan olhou para mim. — Existe uma estátua dela na forma de esfinge no seu Metropolitan Museum, em Nova York.
Eu arfei. A necessidade de acertar um chute em Amon e lhe dizer que precisávamos dar o fora daquela barraca era urgente, mas tudo o que consegui fazer foi soltar um leve gemido. Amon apertou minha mão e perguntou se eu estava sentindo alguma dor. Fiz que não com a cabeça enquanto lhe gritava mentalmente que estávamos correndo perigo, mas, se ele entendeu meu recado, ignorou.
Minha mente racional me dizia que era improvável que o Dr. Hassan soubesse alguma coisa sobre o lugar de onde eu vinha. O fato de ele ter mencionado o Met devia ser mera coincidência, mas era difícil ignorar as minhas suspeitas. Ele parecia saber mais sobre nós do que nós sobre ele, e isso me deixava muito pouco à vontade.
— Por favor, doutor, continue — pediu Amon.
— A estátua do museu nova-iorquino retrata Hatshepsut como esfinge: seu lindo rosto está enfeitado com a barba postiça cerimonial e o arranjo de cabeça que simbolizam seu poder; seu corpo é o de uma leoa. Ela foi uma mulher poderosa e bela. Uma das inscrições do templo diz que “nada era tão lindo quanto olhar para ela; seu esplendor e sua forma eram divinos. Ela era uma donzela, bela e cheia de vida”.
— Ela agora está... — Amon hesitou — ... sob o vidro?
— Ah, está perguntando se seria possível vê-la?
Amon assentiu com a cabeça e engoliu em seco. Provavelmente nem tinha certeza se queria saber a resposta.
— Depende de para quem você pergunta — disse o Dr. Hassan. — O lugar do descanso final de Hatshepsut deveria ter sido junto do pai, Tutmósis I, mas é provável que ela tenha sido transferida. A maioria dos egiptólogos acredita que ela foi encontrada na tumba da ama de leite, mas eu não concordo. A múmia descoberta nessa tumba foi identificada como Hatshepsut, mas encontrei indicações de que seu último lugar de descanso talvez seja em uma tumba totalmente diferente.
— Que... indicações são essas? — quis saber Amon.
— Bem — o Dr. Hassan inclinou-se para a frente —, encontrei um anel de sinete, uma estatueta de shabti com o nome dela inscrito e um tabuleiro de senet com peças entalhadas na forma de cabeças de leoa. A peça mais importante é a que chamo de trono da leoa, um assento dourado com os braços esculpidos à semelhança desse animal. Esses objetos não foram encontrados na tumba da ama de leite, Sitre-Re, mas em outro ponto do Vale dos Reis. No entanto, mais do que esses badulaques, sei que o templo funerário de Hatshepsut era dedicado a Amon-Rá. Embora externamente ela venerasse outros deuses, seu templo era um forte símbolo de sua verdadeira crença, pois na entrada, pela qual acredito que vocês tenham passado apesar de não quererem confirmar isso, fica a mais reverenciada...
— A Capela da Família Real — interveio o Dr. Dagher.
— Sim. Mas esse não é o nome completo da capela. O nome completo, que antigamente era secreto, é Capela de Amon e da Família Real.
Amon se recostou na cadeira.
— Quer dizer que a capela era compartilhada. Dedicada à família real...
— E ao deus do sol Amon-Rá.
Enquanto o egiptólogo continuava a explicação, flagrei seu protegido revirando os olhos. Era óbvio que as crenças do Dr. Hassan não eram compartilhadas por seu colega mais jovem.
Ou Osahar Hassan não reparou na expressão do Dr. Dagher, ou então não se importava, tamanho seu fervor em relação às próprias teorias.
— Já compartilhei com vocês minha crença de que Hatshepsut era líder da Ordem da Esfinge, mas o que ainda não disse é que a ordem era um grupo de elite de adoradores do deus do sol que, com o passar dos anos, se dividiu em duas facções: a Ordem da Esfinge, formada por mulheres, e seu equivalente masculino, os sacerdotes de Amon-Rá, comandados por um grão-vizir. — Ele cruzou os braços diante do peito e continuou em tom apaixonado: — Então vocês devem entender que, se ela era líder da ordem, isso a tornaria uma inimiga muito perigosa...
— Do culto a Seth — concluiu Amon.
— Sim. E explicaria por que tentaram riscar o nome dela das páginas da história. — O Dr. Hassan deu um suspiro. — Se Hatshepsut foi líder da sua ordem enquanto governou o Egito, faria sentido sua ordem transferi-la para outro lugar após sua morte, para ela poder continuar a cumprir seu dever até mesmo no além.
— E qual era o seu dever? — quis saber Amon.
Sem pestanejar, o velho egiptólogo respondeu:
— Servir ao deus do sol nascente. Como matriarca-chefe, Hatshepsut deve ter ensinado à sua ordem que o deus do sol nasceria para cumprir um objetivo específico, e que precisaria da ajuda de uma mulher especial que incorporasse o poder da esfinge. A localização dos pertences de Hatshepsut era sempre próxima de hieróglifos que representam o símbolo do sol, o símbolo de Amon-Rá. Minha teoria é que ela mandou construir sua tumba em um lugar especial, um lugar onde fosse garantido que, quando o deus do sol nascesse, ela seria a primeira a lhe dar as boas-vindas. Passei a vida inteira estudando as ordens secretas e o vínculo entre Hatshepsut e Amon-Rá, e acredito que os dois estão mais intimamente ligados do que podemos imaginar.
Minha mente febril processou aquelas novas informações. Quer dizer então que o lugar do descanso final de Hatshepsut ficava perto da tumba original de Amon? Ou seria da tumba em que tínhamos encontrado seus vasos canópicos? Eu não vira nenhuma antecâmara, mas não estava procurando uma.
Talvez a rainha-faraó tivesse encontrado a tumba de Amon anos antes, mas, pensando bem, dependeria de quando ela tivesse vivido. Vasculhei meu cérebro para tentar me lembrar das datas de alguns faraós egípcios, mas o máximo que consegui recordar foi o período aproximado do reinado do rei Tut, no final do século XIV a.C. Não tinha certeza se Hatshepsut viera depois do rei Tut, mas, de toda forma, ela já devia estar morta havia muito tempo quando Amon despertara pela última vez. Seu despertar anterior devia ter acontecido na virada do milênio, por volta do ano 1000, ou seja, era provável que ele houvesse sido sepultado ali durante o reinado dela, de modo que era totalmente possível Hatshepsut conhecer seu lugar de descanso.
— Reconheço que poucos interpretam os achados da mesma forma que eu, mas, afinal, uma nova perspectiva pode conduzir a descobertas empolgantes — disse o Dr. Hassan. — Não concorda, Amun?
Meu coração gelou. Ele pronunciou o nome de Amon como uma das formas do nome do deus egípcio. Ele sabe! De alguma forma, o Dr. Hassan sabia sobre Amon! Admiti que devia ser minha paranoia que estava me fazendo tirar conclusões precipitadas, mas o modo como minhas entranhas se reviravam me informou que algo estava muito errado. E pior: o modo como o Dr. Hassan olhava para Amon me fazia pensar que ele estava tentando encurralá-lo e obrigá-lo a revelar alguma coisa.
— É Amon — corrigiu a encarnação viva do deus do sol.
— Perdão — desculpou-se o ardiloso arqueólogo com um sorriso de quem não lamentava nada.
Mais uma vez, desejei que Amon entendesse por que estar ali era perigoso. É óbvio que ele se considerava invencível. Por que os homens confiavam tanto em si mesmos a ponto de perderem o bom senso?
Amon brincou com meus dedos.
— É uma teoria interessante.
— Acredito que seja verdade. Hatshepsut foi uma mulher linda. A Ordem da Esfinge só aceitava mulheres de grande beleza.
O Dr. Hassan olhou para mim com um estranho ar de interrogação, como se de alguma forma eu pudesse corroborar sua teoria. O melhor que pude fazer foi dar de ombros levemente e torcer para que ele não detectasse o pânico nos meus olhos.
Como se estivesse desesperado para nos fazer compreender, ele continuou:
— A múmia descoberta na tumba da ama de leite tinha diabetes. Morreu de câncer nos ossos, tinha artrite e dentes ruins. Essa múmia não é Hatshepsut. Tenho certeza! — exclamou ele, arrebatado.
O Dr. Dagher deu um passo à frente.
— Osahar, você precisa se acalmar. De nada adianta se alterar por causa disso. Essa teoria fez você perder prestígio na comunidade arqueológica. Se quiser recuperar todos os seus direitos, precisa pelo menos tentar aceitar que as conclusões deles estejam corretas.
O Dr. Hassan respirou fundo e abriu um breve sorriso para seu discípulo.
— Sim, Sebak, obrigado. — Ele deu uns tapinhas na mão do rapaz e suspirou. — O que eu faria sem o seu apoio, hein?
Sebak sorriu.
— Estremeço só de pensar no que você faria sem mim.
Quando o cientista mais jovem se retirou, reparei que não havia nenhum calor no seu sorriso.
— Desculpe chatear vocês dois com as minhas ideias — murmurou o Dr. Hassan.
— Sem ideias, muitas descobertas permaneceriam escondidas — opinou Amon. — Acredito que talvez a sua teoria tenha um fundo de verdade.
A expressão de melancolia do Dr. Hassan se transformou de repente em um sorriso e ele meneou a cabeça, agradecido.
— Obrigado. Uma mulher como Hatshepsut possuiria uma tumba digna dela. Teria sido enterrada junto com suas amadas leoas, e teria uma sala do tesouro cheia de joias, móveis, tecidos, flores, livros. Continuarei a procurá-la. — Ele deu de ombros. — É essa a missão da minha vida. Ela me chama através dos séculos, e não vou abandonar minha busca.
Um silêncio caiu sobre a barraca quando ele pediu licença e saiu.
Agora que estávamos sozinhos, eu queria desesperadamente conversar com Amon, mas meu corpo me traiu. Consegui me mexer um pouquinho e grunhir, mas ele pôs a mão no meu ombro e sussurrou:
— Não acho que esse homem queira nos fazer mal.
Eu queria gritar que um homem desesperado por respostas seria capaz de qualquer coisa para tê-las. No mínimo, eu queria conversar com Amon sobre seus jarros da morte e o que significava o fato de eles terem se quebrado, mas ele se inclinou na minha direção e encostou os lábios na minha testa.
Como no caso do beijo refrescante que ele tinha me dado no túnel, uma espécie de magia se alastrou pelo meu corpo quando seus lábios tocaram minha pele. Em vez de um efeito refrescante, porém, meus olhos e membros tornaram a ficar pesados, e as preocupações que atormentavam minha mente pareceram menos importantes. Antes de eu me entregar ao toque sonífero de Amon, ele falou baixinho:
— Agora descanse. Amanhã de manhã você vai estar bem.



Quando acordei com a luz do sol brilhando forte através das minhas pálpebras, tive a impressão de que só uns poucos instantes haviam se passado. Devagar, pisquei os olhos até abri-los e reparei na lona da abertura da barraca tremulando ao vento e deixando entrar uma faixa de luz que caía sobre o meu rosto, aparecendo e tornando a desaparecer.
Senti o cheiro do ar gelado da manhã no deserto misturado ao aroma de carne na frigideira e fiquei com a boca cheia d’água. A fome revirou minha barriga e, quando fiz força para me levantar, testando cada articulação e cada músculo, perguntei-me se meu aparelho digestivo estaria preparado para o desafio de um café da manhã com uma carne desconhecida.
Amon deve ter escutado minhas tentativas de me levantar e entrou para me ajudar. Apoiada no braço dele, andei lentamente até a fogueira onde a comida estava sendo preparada e aceitei uma generosa porção do que parecia ser apresuntado com ovos.
Depois que comi e de Amon parecer convencido quanto à melhora da minha saúde, ele começou a justificar a nossa partida. Na mesma hora, o Dr. Hassan pediu a seu discípulo:
— Sebak, você se importaria em avisar ao grupo que vamos encontrar no templo que tivemos um ligeiro atraso hoje de manhã?
— Claro que não, Osahar.
O Dr. Dagher seguiu na direção de uma duna e logo desapareceu. Quando Amon pôs minha bolsa no ombro e me enlaçou pela cintura para partirmos, tive a leve desconfiança de que aquilo não iria acabar bem.
Eu havia percebido que a minha bolsa estava muito perto do Dr. Dagher quando estávamos sentados junto à fogueira, e me perguntei se ele a teria revistado. Ponderei quanto teríamos que nos afastar antes de Amon conseguir nos tirar dali com uma tempestade de areia, se é que lhe restava energia suficiente para tanto.
Eu tinha muitas perguntas que, sabia, precisaria aguardar para fazer, então comecei a catalogá-las mentalmente, torcendo para não esquecer nada importante. Despedimo-nos, e tínhamos começado a descer o caminho em direção às bilheterias de turistas quando o Dr. Hassan perguntou algo que nos fez estacar no lugar.
— Quantos dias faz que despertou, Magnífico?

3 comentários:

  1. hummm...não sei, mas gosto desse Dr. Hassan

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  2. OMG! Isto está demaaaaaaaaaaaaaaaais!
    Ass: Bina.

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  3. Acho q ele é um daqueles descendentes de sacerdotes q cuidavam de Amon quando ele despertava

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