25 de outubro de 2016

13. Árvores turquesa

Amon-Rá ficou batendo com o dedo indicador no lábio, pensando no que ia fazer comigo, enquanto Hórus abria um largo sorriso.
— Ah, eu gosto dela, tio. Por favor, diga que posso ficar com ela.
O deus-sol ignorou o sobrinho e me observou. Por fim, sacudiu a cabeça.
— Não posso ajudar você. — Quando abri a boca para protestar, ele levantou o dedo. — Ajudar qualquer membro da minha família a derrubar outro vai contra tudo em que acredito. Se Seth escapar, escapou, e vou usar a oportunidade para guiá-lo pelo caminho certo, como fiz antes. Devo permanecer neutro, não importando as consequências, não importando o custo.
— Mas... — consegui dizer antes que ele me interrompesse.
— No entanto, não vou tentar impedi-la caso você decida viajar ao mundo dos mortos.
— Você sabe que ele nunca vai concordar em levá-la sem sua aprovação — protestou Hórus.
— Lily e Tia têm uma inequívoca capacidade de convencer os imortais a apoiar seus objetivos. Não tenho dúvida de que vão convencê-lo.
— Convencer quem? — perguntei, mas os dois deuses desconsideraram minha pergunta.
Amon-Rá se levantou da cadeira e uma serviçal apareceu imediatamente.
— Por favor, acompanhe esta jovem esfinge até um aposento para dormir — instruiu-a. — E não permita que Hórus saiba que aposento será.
A jovem assentiu e indicou que eu deveria segui-la. Hórus gritou, surpreso, fazendo uma tentativa desajeitada de passar ao redor de Amon-Rá para se juntar a mim.
— Relaxe, sobrinho, você irá vê-la de novo antes que ela parta, amanhã.
Depois de passarmos por vários salões e corredores ladrilhados, a garota parou.
— Este é o seu aposento — disse ela. — Vou retornar logo antes do amanhecer para ajudá-la com seu banho ritual.
— Banho ritual?
— Sim. Você deseja entrar no mundo dos mortos, correto?
— Correto. Só não sabia que existia um banho especial envolvido nisso.
— Para entrar no além como mortal, primeiro você precisa atravessar o rio do céu e se apresentar para o julgamento. Se for aceita, será concedido acesso ao mundo dos mortos.
— Julgamento? Quem vai nos julgar?
— Maat, claro. Seu coração deve ser pesado. É por isso que você precisa se preparar antes.
O objeto que agora era assunto da nossa conversa começou a bater feito louco. Eles vão arrancá-lo do meu peito? Eu teria de morrer antes de andar pelos caminhos do além e pelo mundo dos mortos?
Quando ela saiu, fiquei andando pelo quarto, até que Tia me lembrou que eu precisava descansar. Estava certa; se não repousasse, eu não teria energia suficiente para convencer o porteiro do além, quanto mais para salvar Amon. Obediente, lavei o rosto e vesti a camisola que a serviçal havia deixado.
Em seguida me acomodei na cama, fechando os olhos e tentando dormir, mas várias horas se passaram antes que o descanso me encontrasse. Mesmo então, meus sonhos me levaram ao mundo dos mortos.
Amon estava acordado e viajando por uma floresta diferente de todas que eu já tinha visto. As árvores azuis reluziam, movendo-se na brisa como sinos de vento, as folhas cobertas com o que pareciam ser minerais reluzentes ou açúcar.
Apesar de estar chovendo e Amon virar a boca aberta para o céu, ele não conseguia coletar nada. Seus lábios estavam ressecados e ele tentava molhá-los continuamente. Foi então que eu a vi. Uma fada minúscula, com asas translúcidas, sentada no ponto em que um galho se ligava a uma árvore, olhando-o.
Por fim, ele a viu.
— Não vou machucar você — disse ele com gentileza. — Por favor, não tenha medo.
— Não estou com medo — respondeu ela com um leve sotaque que não consegui identificar. — Há feras que vêm à Floresta Turquesa e são muito mais apavorantes do que você, que é uma estranha espécie de monstro. — Ela pôs as mãos na cintura minúscula.
— Sou? — perguntou ele com um sorriso cansado.
— Ah, é. Você vai tentar me espetar como o velho escorpião? Talvez não possa. Parece que está sem a sua cauda.
— Não tenho cauda.
— Que pena. A cauda dele é bem impressionante. Pelo que dá para ver, não há muita coisa impressionante em você. Então, você é um errante?
— Não sei o que você quer dizer com errante. E sou muito mais impressionante com minhas armas.
— Um errante é alguém que não faz nada de bom. Não estou vendo nenhuma arma.
— Não, então não sou um errante. Minhas armas são mágicas. Eu as invoco a partir da areia.
A fada franziu a testa.
— Nós não confiamos em gente mágica, mas, vendo como você está quase morto de exaustão, não parece ser uma ameaça muito grande. Andei observando você nos últimos dois dias.
— Ah. Isso é... bom?
— Depende. Vejo que sua sede é uma coisa terrível.
— É mesmo. Estou me sentindo como um cadáver dissecado, deixado para esturricar até virar uma casca sob o sol escaldante.
— Medonho para você, hein? — Ela fez um muxoxo e depois murmurou: — Ei, eu escutei! Pare de interferir, sua porcaria de árvore. Acho que podemos ajudar — disse, relutante, a Amon.
— Podem?
— Podemos. — Então um brilho malicioso surgiu nos olhos da fada. — Deve ser difícil sentir tanta sede quando está chovendo a cântaros assim. — Ela deu um sorriso misterioso e baixou a voz: — Sei como pedir à árvore que dê a água dela. Mas você não pode contar a ninguém que a gente ajudou — alertou. — Meu trabalho é proteger esta árvore. Se todas as criaturas do mundo dos mortos soubessem como tirar a água dela, bom, não iria restar nenhuma água para as árvores, não é?
— É, acho que não.
A fada da árvore curvou o dedo indicando a Amon que se aproximasse.
— O segredo — sussurrou — está no querer. Você não pode querer.
— Não posso querer? — questionou Amon com expressão perplexa.
— Isso. Se a árvore souber que você quer, não vai entregar. Ela não confia muito nos homens.
— Entendo. — Amon assentiu, sério, e deu um passo para trás, examinando a grande árvore que estendia os galhos amplos sobre sua cabeça. — Bom, árvore, eu não estou com sede. Nenhuma. Não preciso beber nada, apesar de ter acabado de atravessar o deserto de mil sóis ardentes, onde fazia calor suficiente para um demônio do inferno suar e implorar alívio.
Lentamente um galho se esgueirou para perto de Amon e uma larga folha azul se desenrolou, mostrando quase o equivalente a um copo d’água.
Amon bebeu com sofreguidão, lambeu as últimas gotas dos lábios e abriu um sorriso caloroso.
— Obrigado. Eu me pergunto como foi que você e sua árvore vieram parar aqui no mundo dos mortos.
— Fomos enganadas para vir até aqui — disse a fada com tristeza.
— Enganadas? Como assim?
— Esta é uma árvore das fadas e ficava no topo de uma linda colina na Irlanda.
Agora o sotaque fazia sentido. Ela falava em um ritmo adorável – um sotaque irlandês que eu poderia ouvir durante horas.
— E eu a amava antes mesmo de saber que era mágica. Ficava sentada embaixo dela e sonhava com lugares distantes. Subia nos galhos e espiava as estrelas. Era uma coisa grandiosa. Um dia um estranho me olhou numa feira. Cheio de más intenções, ele me perseguiu até que parei perto da árvore. Ela devia saber que eu estava correndo perigo, porque seu tronco se abriu e eu pulei lá dentro. Estava escuro, mas era melhor do que as coisas que o homem tinha planejado para mim.
— O que aconteceu então?
— O homem começou a entoar um encantamento e a árvore tremeu. O tronco rachou e gotas enormes de seiva escorreram pelas minhas mãos. Ouvi o estalo de um galho enorme, depois de outro. O homem disse que ela precisava entregar a mim ou ao coração dela. Veja só, quando uma árvore das fadas entrega o coração, libera um poder enorme. Mas ela me amava e se recusou. Em vez disso, fez uma coisa proibida. Furou o coração do homem e o matou. Foi derrubada por causa disso, morreu comigo dentro dela e foi mandada para cá, para o mundo dos mortos. Quando foi plantada na Floresta Turquesa, minha forma ficou assim. Agora meu trabalho é cuidar dela, como ela cuidou de mim.
— E você está fazendo um bom trabalho. Importa-se se eu descansar aqui um pouco? — perguntou Amon.
— Faça como quiser — respondeu a fada.
Amon apoiou as costas no tronco largo e se acomodou no solo da floresta, apoiando os braços nos joelhos e encostando a cabeça neles.
— Amon? — chamei. A fada não reagiu à minha voz, mas senti que havia mais alguém me vigiando enquanto eu sonhava. — Amon? — gritei de novo.
— Estou aqui — respondeu uma voz atrás de mim.
— Amon!
Dei meia-volta e menos de um segundo depois estava em seus braços. Tomei seu rosto nas mãos e beijei seus lábios, as faces, não querendo soltá-lo nunca mais.
Ele riu e depois gemeu.
— Lily, você está me esmagando.
— Ah! Desculpe. — Dei um passo para trás, desajeitada, mas ele me ofereceu um sorriso doce enquanto segurava meus ombros e me puxava para perto outra vez.
Inclinando a cabeça, ele me examinou, a expressão de felicidade misturada a curiosidade.
— Você está mais forte — disse ele. — Diferente.
— Eu sei, eu...
— Espere. — Amon passou a ponta do dedo pelo meu rosto. — Deixe-me olhar para você primeiro.
Enquanto Amon fitava meus olhos, tive a sensação de que ele procurava algo específico. Não era romance que eu via em seu olhar.
— Está usando o Olho de Hórus?
— Estou — murmurou ele, distraído.
— O que está vendo? — sussurrei, quase com medo da resposta.
Ele abriu a boca, mas se deteve, os olhos se arregalando.
— Há... há coisas demais. — Seus olhos vítreos me focalizaram de novo e os cantos de sua boca se curvaram para cima. — Deixe-me só aproveitar o fato de você estar aqui — disse ele por fim.
— Amon. — Segurando sua mão, olhei ao redor e o puxei de volta para a árvore, onde seu corpo adormecido descansava. Mordendo o lábio, segui para o outro lado do tronco e me sentei na grama densa ao pé da árvore, puxando-o para que se sentasse comigo. — Precisamos conversar.
Ele assentiu e estendeu a mão para prender uma mecha de cabelos atrás da minha orelha. Sua mão se demorou ali um pouquinho, depois ele segurou as minhas mãos, como se tivesse medo de eu desaparecer caso me soltasse.
— Primeiro, é bom que saiba que no momento estou em Heliópolis.
Amon levou um susto.
— Já chegou tão longe assim?
— Você não esteve me olhando enquanto sonha?
Ele balançou a cabeça.
— Não nos últimos dias. Não pude dormir tanto quanto queria. Além disso, não preciso de sono tanto quanto um mortal e aqui há muito poucos lugares seguros para descansar.
Suspirei, parcialmente aliviada porque ele não vira as investidas de Hórus.
— Certo. Bom, eu pedi ajuda a Amon-Rá, mas até agora ele não se interessou muito. Hórus, por outro lado...
— Hórus ficará de mãos atadas se Amon-Rá recusar ajuda.
— Ah.
— Ainda é um caminho muito longo até o mundo dos mortos. Você deveria voltar. Vai ficar em segurança. Nebu vai levá-la.
— Não posso. Principalmente quando estamos tão perto.
Amon segurou meu rosto com as duas mãos.
— Já chega, Nehabet — disse, fitando meus olhos. — O que você conseguiu é mais do que eu poderia desejar. Ser capaz de tocá-la, de abraçá-la nos meus sonhos, vai me sustentar através de tormentos sem fim.
Pegando suas mãos, levei-as a meus lábios e beijei as palmas com ternura.
— Para mim não basta — falei baixinho. — Estou indo salvar você, Amon, quer você queira, quer não.
Ele deu um leve suspiro e desabou de encontro ao tronco da árvore.
— Acho que não estou surpreso. Você sempre foi teimosa.
— Teimosa, não. Determinada.
Sua boca se contraiu.
— Uma esfinge determinada. Os deuses devem estar tremendo em seus tronos de ouro.
— Nem todos. — Suspirei, acompanhando com o dedo as linhas das palmas de suas mãos. Olhei seu rosto bonito por entre os cílios abaixados e o peguei me observando. — O que foi?
— Nós vamos conversar sobre isso? — murmurou ele.
— Sobre o quê? Temos tantas coisas para falar.
— Sim. Mas há uma coisa específica que você está evitando.
— Sim — sussurrei, e não pude evitar um jorro de emoções.
Uma leve agitação na minha mente me informou que Tia estava escutando. Ela estivera tão quieta que eu quase esquecera de sua presença. Era provável que ela estivesse me dando tempo para ficar com Amon.
Ele aguardou, paciente, esfregando minha mão com suavidade entre as suas.
Respirei fundo.
— Existe, digamos, mais alguém aqui comigo.
— A leoa? — perguntou ele.
Assentindo, tirei a mão da sua e arranquei um tufo de grama, fazendo uma pequena pilha ao meu lado.
— Não pude deixar que ela morresse. Ela sabia que eu não queria isso, e agora estamos as duas aqui e...
— E o que está incomodando você?
— Como assim? — perguntei, mantendo o olhar fixo nos olhos dele pela primeira vez desde que o assunto havia surgido.
— Você está em paz com ela. Pelo menos, até onde eu posso ver. O Olho de Hórus me mostrou que vocês virão a se amar, se é que já não se amam.
Pisquei e percebi que ele estava certo. Ter Tia comigo era desconcertante, mas eu gostava mesmo dela.
— Amo. Quero dizer, fico feliz porque ela está viva. Ela... ela é especial. — A consciência de Tia se espalhou um pouquinho mais e eu senti que sua mente, satisfeita, roçava a minha. Era quase como se ela se aninhasse ao meu lado, oferecendo apoio e companhia. Passando a língua pelos lábios, enxuguei as palmas das mãos suadas nas coxas e me levantei, andando nervosa de um lado para outro. — Acho que só estive me perguntando se... se nós... quero dizer, se você... ainda pode me amar, desse jeito.
Eu estava de costas para ele e passei as mãos pelos braços. Ele não respondeu. Por quê? Estaria pensando no que responder? Estaria inseguro? Então ouvi que se levantava; sua mão segurou a curva do meu cotovelo enquanto ele delicadamente me fazia virar.
A expressão de seu rosto mostrava tanta dor, tanta confusão, que lágrimas brotaram nos meus olhos.
— Você... então você não... — gaguejei. — Você não pode. Tudo... tudo bem. Eu entendo.
— Não, Lily. Não entende — disse ele, segurando meus braços.
Lágrimas profusas escorreram pelo meu rosto, turvando minha visão, mas o calor de Amon, ao tocá-las com os polegares, as fez secar instantaneamente.
— Não é uma coisa pequena dar o coração a outra pessoa — começou ele —, quanto mais um escaravelho do coração.
— Sim, mas...
— Por favor, deixe que eu termine. — Assenti debilmente e ele continuou: — Quando conheci você, havia certas coisas que o Olho de Hórus me permitia ver. Eu sabia que tipo de pessoa você era, o que a motivava, que coisas deixavam você feliz e que coisas lhe causavam tristeza. Suas qualidades foram o que me sustentou durante o tempo que passei na Terra. Nossa ligação ia além do físico. Éramos mais fortes juntos do que separados. Não sei o que o futuro nos reserva exatamente. Há perigos e lutas terríveis à frente, mas também tive pequenos vislumbres de uma felicidade tão incrível que não permite sentir outra coisa que não esperança. Eu faria qualquer coisa para que esses vislumbres se realizassem. Meu coração está fundido ao seu, e não há nada neste universo que possa nos separar. Nem Seth. Nem o mundo dos mortos. Nem a morte. E com certeza não uma leoa, especialmente uma leoa que beija tão bem.
Amon deu uma piscadela e eu ri em meio à tristeza.
— Você sabia que não era eu?
— Digamos apenas que, quando uma leoa beija a gente, isso é inesquecível.
— Ei! — Dei-lhe um tapa de leve no peito e ele me abraçou.
Amon suspirou, encostando o rosto no meu enquanto murmurava no meu ouvido:
— Eu te amo, minha doce Lily. Nada jamais vai mudar isso.
Abracei-o com força e provoquei:
— O que acha de um beijo inesquecível de Lily?
— Achei que você nunca iria pedir.
Amon desceu com os lábios pelo meu rosto até que sua boca encontrou a minha. O calor de mil sóis preencheu meu corpo. O beijo de Amon queimava, provocava e prometia coisas que eu nem sabia serem possíveis. Provar o beijo de verdade era muito, muito melhor do que revivê-lo na memória. Minhas doces lembranças não tinham dado a Amon o crédito que ele merecia.
Ele percorreu um caminho com as pontas dos dedos pela minha coluna até a base das minhas costas, segurando meus quadris e me puxando para mais perto. Em todos os lugares que tocava deixava arrepios de energia, lembretes de que havia me marcado como sua. Quando senti que ele estava sendo cuidadoso comigo, como se eu ainda fosse uma simples garota mortal, retribuí seu ardor com uma intensidade que o surpreendeu e deliciou. Eu tinha acabado de correr as mãos por seus braços poderosos, indo até os cabelos, quando, abruptamente, a visão de Amon me foi arrancada.
Gritei no instante em que Tia e eu nos vimos num lugar fechado e escuro.
— Onde estamos? — perguntei a ela. — Heliópolis?
Acho que ainda estamos no mundo dos sonhos.
Usando a visão aumentada, pude identificar a forma distante de estrelas acima e atrás de mim, mas pareciam fora do alcance; eu estava presa num vazio denso, como um buraco negro. De repente, percebi que não estava sozinha. A caçadora dentro de mim pressentia outra presença: um predador – e um predador perigoso.
Girei várias vezes, tentando localizar o inimigo, mas o cheiro ou os ruídos dele me escapavam. Ele me vigiava, e era uma sensação invasiva, como se pudesse enxergar as profundezas da minha alma e facilmente detectar cada ponto fraco. Meu coração disparou, enquanto eu tentava conter o grito que crescia dentro de mim.
Então uma voz falou na minha mente, e não era parecida com a de Tia nem a de Amon-Rá. Era uma voz cheia de poder, que me aterrorizou e deixou um arrepio reverberando em meus ossos. Então eu soube quem era.
Finalmente nos encontramos. Estive esperando por você durante muito tempo. Meu serviçal sentiu o gosto, e seu cheiro esteve fazendo cócegas nas minhas narinas desde então. Você não sabe como estou feliz porque você começou essa viagem. Você é muitíssimo mais... interessante agora do que antes.
Como não podia falar em voz alta, comuniquei-me com ele usando a mente. O que você quer? E por que estou aqui?, perguntei.
Você pretende nos desfazer?, perguntou Tia.
Ouvi uma gargalhada, e o som áspero fez meu corpo estremecer.
Desfazer vocês? Não. Bom, pelo menos não por enquanto. Antes que eu possa capitalizar o ato de desfazer alguém, o Triângulo Impossível deve estar totalmente formado. Vocês estão quase lá.
O que você está dizendo?, desafiei, não querendo entender, mas também sabendo que precisava entender.
Tudo será revelado no devido tempo, jovens. Talvez vocês devessem se concentrar nas prioridades atuais. Por falar nisso, espero que gostem da visita à Devoradora. Ela é uma anfitriã gananciosa, disse ele, quase com carinho, mas vou garantir que ela receba vocês do modo adequado quando entrarem na casa dela.
Um fiapo de brisa gelada roçou meu rosto e de repente tive a impressão de ter sido tocada. Minha pele se arrepiou.
Parece que meu... confinamento entorpecedor finalmente se mostrou interessante. Olhar seus sonhos vai me oferecer uma diversão muito agradável até o momento em que minha libertação esteja garantida.
O quê? Como isso é possível?, perguntei.
Felizmente para mim, seus novos poderes, junto com seu elo de amor com o portador do Olho de Hórus, tornaram realidade minha capacidade de espionar e, devo admitir, de me apropriar de seus sonhos. O destino nos aproximou mais, querida. Ele fez uma pausa e riu. Ora, não se aflija. Isso é bom... para mim. Estou ansioso para encontrá-la de novo. Da próxima vez, espero me apresentar mais... completamente.
Da próxima vez?, pensei.
Adeus, Esfinge.
Uma gargalhada ecoou ao meu redor. Mesmo sabendo que ela acontecia mais na minha cabeça do que no espaço em que eu estava, fiquei girando, apertando os ouvidos com as mãos, implorando para que aquilo parasse.



Uma batida à porta me acordou com um susto. Sentei-me de repente, apertando o coração disparado e em seguida as bochechas afogueadas.
— Só um momento! — gritei enquanto ia até a porta e abria uma fresta. A serviçal estava de volta. Será que tinham mesmo se passado horas? Esfreguei o rosto com a mão, tentando despertar do sonho terrível que eu esperava, desesperadamente, fosse apenas um pesadelo. — Que horas são?
— Está quase amanhecendo. Você precisa tomar o banho ritual e depois partir. Se não chegar ao cais antes do pôr do sol, vai perder a oportunidade.
— Certo. Então vamos fazer isso logo — concordei, nervosa.
As únicas coisas que levei para o banheiro foram as armas que havia ganhado e o arnês de couro. Enquanto andava, pensei de novo em como estava totalmente despreparada. Não tinha comida. Não tinha cantil para água. Nenhuma mochila com suprimentos. Meu celular havia ficado com o Dr. Hassan. Eu não sabia praticamente nada sobre o lugar aonde ia nem como chegaria lá. Se não tivesse Tia comigo, tenho certeza de que teria enlouquecido e voltado correndo para Nova York.
Eu estava me metendo numa coisa muito, muito acima da minha capacidade.
Tia tentou me tranquilizar: Às vezes a única saída é seguir em frente. O caminho nem sempre é claro, mas seu instinto vai guiar você.
Não tenho instinto. Pelo menos, não como você, respondi.
Nós temos instinto, corrigiu ela. Podemos caçar quando tivermos fome. Vamos encontrar água quando tivermos sede. Vamos salvar seu namorado. E vamos deter Aquele que Desfaz.
Gostaria de ter tanta confiança quanto você.
Uma leoa não pode ceder às dúvidas. Deve matar ou ser morta. Caçar ou ser caçada. A hesitação nos enfraquece. É uma característica humana.
E se cometermos um erro? E se morrermos?
Se morrermos, deixaremos este mundo sabendo que tentamos. É uma atitude honrada.
Fiquei em silêncio. Havia algo reconfortante em enxergar o mundo através dos olhos de Tia. Tudo era claro para ela. Preto e branco. Ela era corajosa de um jeito que eu não tinha certeza se conseguiria ser.
Era fácil ter coragem quando Amon estava comigo. Eu confiava nas habilidades dele, em seu conhecimento do mundo em que agia. Agora sabia que ele entendia muito pouco sobre a tarefa que havia recebido. Ele estava sendo usado pelos deuses. Eu também estava sendo usada, claro, mas pelo menos Amon-Rá e Hórus tinham resumido as coisas razoavelmente. Agora eu conhecia o objetivo de Seth e o motivo por que os irmãos tiveram que fazer o que fizeram.
Eu não tinha certeza se essa informação mudaria ou não a perspectiva dele. Mas, independentemente do que esse conhecimento trouxesse, pelo menos ele saberia. Ele e os irmãos. Poderiam tomar uma decisão bem informada. Reconhecer seu verdadeiro lugar no panteão egípcio. Veriam Seth como o que ele era. Eu precisava no mínimo garantir que eles soubessem de tudo que Amon-Rá e Hórus tinham me contado. Por um momento desejei ter tido mais tempo com Amon, para contar tudo que agora sabia, mas então ocorreu-me que talvez fosse melhor assim. Principalmente agora que eu sabia que Seth podia espionar nossos sonhos juntos.
Logo entramos num enorme quarto de banho com uma banheira embutida no chão. Já havia três mulheres no cômodo. Uma derramou óleo perfumado na água que estava quente, soltando vapor. Quando ela me olhou e sorriu, vi que seu olho piscou de lado, como o de um crocodilo.
Outra, cujo cabelo curto lembrava algo mais parecido com a pelagem de um animal, assentou velas nos cantos ladrilhados da banheira e as acendeu com um movimento da mão. A terceira, uma loura linda que poderia estar na capa de qualquer revista de moda de Nova York, espalhou pétalas de flores brancas na água. Nesse momento, a garota que entrou comigo começou a puxar os laços do meu roupão.
Segurei as bordas do tecido com força.
— Ah, não posso praticar esse ritual sozinha? Não me sinto totalmente confortável ficando nua na frente de pessoas estranhas.
— Não quer que estejamos presentes? — Ela franziu a testa.
— Será que vocês não podem simplesmente me ensinar o encantamento para que eu o diga sozinha?
Ela sacudiu a cabeça.
— É complicado demais e exige que nós quatro falemos. Que tal sairmos quando você entrar na água e depois voltarmos para começar o encantamento?
— Acho que seria bom.
As mulheres saíram e eu rapidamente tirei o roupão e entrei na água fumegante antes que elas voltassem. Quando afundei, me acomodando no assento, com o líquido perfumado batendo no meu queixo e nos ombros, percebi que Tia estava chocada.
O que foi?, perguntei.
Isso é... bom. Eu não imaginava que mergulhar na água seria assim. Vamos lavar a juba agora?
Quando eu ia responder, as mulheres voltaram. Eu me sentia nervosa com a presença delas, mas logo abandonei minhas inibições quando elas começaram um cântico, erguendo alguma coisa no ar.
Cada uma se posicionou num canto da banheira e levantou um pedaço de barro lamacento em forma de tijolo.
A primeira falou:

Terras do Sul, mantenham longe a areia que pinica.

Quando terminou de falar, deixei escapar um arquejo ao ver que ela jogara o tijolo amolecido na água. A terra se soltou e se espalhou pela água. Puxei os pés mais para perto do corpo e envolvi os joelhos com os braços.

Fogos do Leste, afastem as feras furiosas que marcam seu caminho.

A segunda serviçal concluiu a fala e também jogou seu torrão de lama. Isso foi repetido mais duas vezes, mas as outras garotas estavam mais perto ainda de mim, e a água espirrada com a queda dos tijolos encharcou meu rosto e meu cabelo. Uma delas disse:

Águas do Oeste, fluam sobre a escuridão e revelem os rostos escondidos.

E a última acrescentou:

Ventos do Norte, derrubem quem ficar no caminho dela!

Resíduos e terra cobriam a superfície da piscina, e senti a sujeira fluir entre os dedos dos meus pés flexionados.
Meu banho, antes relaxante e sedativo, estava agora cheio de sujeira e gosma. Quando levantei o braço, tirando-o da água, havia terra grudada em minha pele.
— Isso não está correndo exatamente como eu esperava — falei.
Enquanto eu permanecia ali sentada na água que ia esfriando, com o cabelo encharcado pingando no pescoço e nos ombros, as garotas desapareceram.
Eu não sabia se o banho havia terminado ou se elas estavam se preparando para colocar um pouco de carne podre e lixo na água também, e já estava me preparando para sair e procurar um chuveiro quando elas retornaram. As túnicas sujas de lama que tinham usado antes haviam sido trocadas. Dessa vez se vestiam de branco. O tecido era tão imaculado que quase reluzia.
Franzi a testa, olhei minhas mãos sujas e as comparei com os braços limpos e claros das garotas.
— E agora? — perguntei.
Minha guia levou o dedo aos lábios, indicando que eu deveria me calar. Simultaneamente, as garotas assumiram suas posições nos cantos da banheira agora imunda e ergueram os braços, entoando:

Amon-Rá, empreste seus poderes neste dia.
Deixe de lado o que é velho e inconveniente.
Renove esta mulher e a prepare para o julgamento.

Os ladrilhos das bordas da banheira ficaram quentes. Em seguida, ganharam um tom vermelho incandescente, depois passaram a laranja brilhante, amarelo e, por fim, branco luminoso. A água à minha volta também foi ficando mais quente e então começou a borbulhar. Gritei, não porque ela estivesse me queimando, apesar de estar na temperatura máxima que eu poderia suportar, mas porque todo o meu corpo formigava, e a água começou a reluzir.

Como Hórus, faça esta filha brilhar.
Leve-a em suas asas primevas
Enquanto ela parte, uma alma de Heliópolis,
Para caminhar com os deuses e vê-los em sua glória verdadeira.
Transforme-a hoje, no dia de sua morte.

Espere aí... como assim?, pensamos Tia e eu ao mesmo tempo.

Aceite a oferenda de sua invocação.
Deixe que ela veja o sol único e verdadeiro.
Defenda-a. Sustente-a.
Não permita que qualquer mal tenha poder sobre ela.
Pássaro Benu, que guia os abençoados para o além,
Proteja o coração dela no julgamento.
Ajude-a a encontrar o desejo de seu espírito
E leve-a ao seu lar celestial.

A sala ficou tão luminosa que eu não conseguia mais ver minha mão diante do rosto. Mas, quando elas pararam de entoar, a luz foi diminuindo aos poucos, até que pude começar a identificar formas e minha silhueta. Quando minha visão finalmente clareou, as garotas haviam sumido. Assim como toda a água da banheira.
Meu corpo estava aquecido. O cabelo, seco e limpo. Os ladrilhos da banheira estavam impecáveis. Não havia qualquer traço da lama. Nenhuma risca de sujeira nas bordas. Minha pele cheirava a flores e eu me sentia completamente relaxada e revigorada. Notei um símbolo no fundo da banheira. Parecia um pássaro dourado, e reluzia e pulsava como se fosse a fonte do calor.
Eu não tinha certeza se ele já estava ali antes e eu simplesmente não havia notado ou se tinha aparecido como resultado do ritual. Insegura, fiquei de pé e saí da banheira. Numa mesa ali perto havia uma pilha de tecido branco e um ornamentado espelho de corpo inteiro. Primeiro remexi nas roupas e encontrei um par de sandálias brancas ao lado do vestido. Minhas lanças curtas e o arco, além do arnês, estavam perto delas.
Peguei o vestido, segurei-o diante do corpo e olhei meu reflexo. Havia alguma coisa azul em volta dos meus olhos. Inclinei-me, me aproximando do espelho, e toquei o canto dos olhos. A coisa azul manchou a ponta do meu dedo. Pintura. Meu rosto tinha sido pintado para ficar parecido com o de uma deusa egípcia. Eu não sabia direito como nem quando isso tinha acontecido; estava pensando que podia ter apagado na banheira ou ter ficado congelada enquanto as garotas me maquiavam quando senti algo sedoso roçar meu pescoço.
Uma voz profunda e melosa, gotejando desejo, disse:
— Você é a criatura mais atraente e extraordinária em que já pus os olhos.
Um par de mãos, mãos masculinas e muito fortes, alisou o tecido sobre meus ombros.
Arquejei, o olhar disparando para o reflexo no espelho.
— Hórus! — gritei, e agarrei o roupão no qual ele havia me envolvido. Rapidamente enfiei os braços nas mangas, puxando a faixa para fechá-lo, e dei meia-volta. — Que direito você tem de entrar no meu quarto de banho? — gritei, enfiando o dedo em seu peito musculoso.
Uma bolha de fúria cresceu dentro de mim e ergui a mão, apertando os dedos em torno de seu pescoço. Fora um movimento instintivo, e Hórus segurou o pescoço brevemente, os olhos se arregalando. Mas então, de modo igualmente rápido, o poder se esvaiu.
Você não vai machucá-lo, disse Tia.
Eu não estava tentando isso conscientemente, expliquei. Só aconteceu. Deve ter sido o poder de estrangular os inimigos do qual o Dr. Hassan falou.
Em voz alta, eu disse:
— Desculpe, Hórus. Não pretendia machucar você.
— Sei que pelo menos uma parte de você não queria. Não de verdade. Por isso seu poder se esvaiu.
— Como assim?
— Quando você e sua leoa não pensam de modo igual sobre alguma coisa, o poder não funciona. Vocês só podem agir como um indivíduo quando a outra concorda ou dorme.
— Interessante. Mas isso não desculpa o seu comportamento. Por que está aqui?
Ele se encolheu, como se minhas palavras causassem dor.
— Perdoe minha audácia, mas continuo fascinado por você. Por favor, saiba que eu não poderia sequer conceber a ideia de lhe causar mal. Meu único desejo é ficar perto de você.
Percebi que minha reação instintiva de lhe dar um tapa na cara, um pisão no pé e uma joelhada onde doeria mais era anulada pelo meu alter ego. O que você está fazendo?, sibilei mentalmente para Tia.
Hórus seria um macho poderoso, explicou ela. Você tem Amon. O que resta para mim?
Percebi que os sentimentos de Tia por Amon podiam não ser iguais aos meus. Será que estávamos destinadas a fazer um cabo de guerra emocional pelo controle do meu coração?
— Imploro que você não vá — disse ele, interrompendo meus pensamentos. — O mundo dos mortos é perigoso. É improvável que sobreviva, muito menos que consiga resgatar seu... — ele franziu a testa — ... namorado. Fique aqui comigo. Com o tempo você vai aprender a gostar de mim como eu gosto de você. Eu posso lhe mostrar muitas coisas. Ensinar. Posso levá-la a um mundo onde podemos nadar num oceano púrpura e flutuar em nuvens cor-de-rosa. Posso manter você aquecida num planeta de gelo reluzente que lança prismas de luz tão alto no céu que faz o mundo ficar envolto em tons de arco-íris. Comigo você nunca vai experimentar dor, tristeza nem morte. — Hórus avançou um passo e encostou a testa na minha. — Fique comigo e seja meu amor. Ou, se isso não for possível... apenas fique.
Dessa vez Tia não foi a única afetada por suas palavras, e eu soube que isso era intrinsecamente perigoso. Suas promessas agitavam o ar, envolvendo-nos, roçando em nossas defesas. Os fiapos tênues pareciam tocar os pontos sensíveis da minha consciência. Era tentador. Como seria fácil simplesmente deixar tudo de lado e permanecer na cidade dourada de Heliópolis! Não me preocupar com as complicações de ser uma esfinge. Não sentir o peso do mundo nos ombros. Simplesmente ir para os pontos mais distantes do Universo e ver as maravilhas espantosas que aqueles deuses haviam criado.
Então foi Tia quem recuou. Ela quisera experimentar a paixão que ele oferecia, talvez encontrar um companheiro, mas não estava disposta a abrir mão de nossa missão. Lampejos do nosso sonho anterior me encheram a mente.
Precisamos impedir Aquele que Desfaz. Ele não é o que nós... o que eu... necessito neste momento.
Fechei os olhos e assenti. Grata pela concordância dela e dirigindo um sorriso tenso a Hórus, empurrei seu peito, decidida, e me afastei. Virei-me para o espelho e olhei para ele no reflexo.
— Precisamos cumprir nosso objetivo — falei. — Estamos lisonjeadas... ou melhor... somos privilegiadas — consertei — por alguém como você nos achar interessantes. Honestamente, não sabemos o que nos espera e estamos com medo, mas precisamos tentar. Você entende?
Hórus não respondeu de imediato e passou a mão na nuca. Seus olhos estavam loucos de medo e ele buscava desesperadamente alguma coisa, qualquer coisa, para nos dissuadir. Olhei-o com firmeza, confiante, e ele finalmente se empertigou e assentiu.
— Entendo. — Ele ergueu a mão para me tocar, mas se deteve, como se pensasse melhor. De cabeça baixa, disse: — Permite que eu a ajude a se preparar?
Virei-me, surpresa.
— Pensei que tudo já estivesse feito.
— Nem tudo.
Ele pegou um pequeno frasco e derramou um pouco do conteúdo na mão. O perfume me envolveu.
— O que é? — perguntei.
Indicando que eu deveria me virar, ele esfregou as palmas das mãos e passou os dedos no meu pescoço.
— É uma mistura de óleo e mirra, o óleo mais puro do Cosmo. É tirado de uma flor que cresce na neve, nas maiores altitudes de um planeta montanhoso a uma grande distância daqui. — Hórus postou-se ao meu lado e segurou minha mão, depois empurrou a manga do roupão para cima.
Lentamente, massageou desde o meu ombro, passando pelo cotovelo, até o pulso, e depois as mãos até as pontas dos dedos, certificando-se de passar o óleo entre cada dedo.
Enquanto passava ao outro braço, ele perguntou:
— Sabe como Anúbis prepara os corpos na hora da morte? — Eu confirmei com a cabeça. — Você deve ser adornada de modo semelhante.
— Terei de usar ataduras de múmia?
Ele sorriu.
— Não. Mas terá de usar branco. Deve se vestir com roupas limpas do tom mais puro. Se não puder permanecer descalça, usará sandálias da mesma cor, que serão enroladas em suas pernas.
Falando em pernas, Hórus havia se agachado e segurava meu pé. Enquanto passava a palma da mão cheia de óleo sob o arco sensível e depois subia pela parte de trás do tornozelo, eu recuei, tentando me afastar, nervosa.
Hórus me soltou e ergueu os olhos para mim.
— Não vou machucar você.
— Eu... eu sei. Só que não estou acostumada a ser massageada em pé — gaguejei, tentando falar algo menos embaraçoso do que Ninguém nunca me tocou assim antes. Tia também não estava ajudando. Estava gostando demais daquilo para protestar.
Franzindo a testa ligeiramente, ele perguntou:
— Você prefere se deitar?
— Não. Vamos só... — Torci as mãos e as sacudi. — Vamos só acabar com isso depressa, está bem?
— Como quiser — disse ele baixinho, e estendeu uma das mãos para me firmar.
Encostei-me na mesa, apertando o tecido macio do roupão quando a palma de sua mão encontrou novamente minha perna. Ele passou o óleo para cima, por trás do joelho, até a metade da coxa, demorando-se ali por uma fração de segundo antes de repetir o mesmo procedimento na outra. Dei vazão ao meu alívio com um suspiro trêmulo quando ele se levantou e me virou de frente para ele de novo.
Ignorando meu desconforto óbvio, Hórus mergulhou as pontas dos dedos outra vez no jarro e passou os polegares sobre minhas sobrancelhas. Pedindo que eu fechasse os olhos, tocou cada pálpebra, deixando uma levíssima marca de óleo pinicando. Em seguida foram os lóbulos das orelhas, e depois ele acompanhou a linha do meu maxilar de ambos os lados. A última coisa que fez foi levar o polegar ao meu lábio inferior.
Seu olhar se fixou nos meus lábios e sua expressão ficou faminta e ardente. Fitando os meus olhos, ele sussurrou:
— Você está pronta.
Engoli em seco, uma sensação me bloqueando e queimando a garganta.
— Obrigada — murmurei languidamente.
— De nada — respondeu ele com um calor que falava muito. Ficamos de pé, imóveis por mais alguns segundos, até que notei que ele estava sorrindo. — Lily — disse ele.
— Sim? — respondi, o olhar agora atraído para sua boca.
— Se continuar me olhando assim, não vou deixar você ir a lugar nenhum.
Respirei fundo e percebi que tinha prendido o fôlego por alguns segundos. Dar as costas para ele era uma tortura, mas de alguma forma consegui fazer isso e fui para a mesinha onde estavam minhas armas e o vestido. Foi então que notei o escaravelho do coração espiando por baixo das dobras de pano branco. Passei a mão nele e a névoa passional em que eu estivera envolta se dissipou, deixando minha mente clara.
Estreitei os olhos, virei-me e minhas suspeitas se confirmaram quando vi o riso confiante no rosto de Hórus.
— Você me enganou, não foi? — acusei.
Ele deu de ombros como o garoto popular da escola que podia se livrar do castigo pelo mau comportamento jogando charme para a professora.
— Você não teria prestado atenção em mim de jeito nenhum se estivesse com isso aí. O único modo de tentar roubar você dele seria pegando-a desprevenida durante o banho.
— Você é desprezível — falei, apesar de minha pele ainda estar tão quente de seu toque que minhas palavras não tinham o menor peso. — Eu sabia que deveríamos tê-lo estrangulado, Tia.
Hórus levantou as mãos, rendendo-se.
— Eu perdi. Admito. E legitimamente. — Ele suspirou. — Faz séculos desde que precisei me esforçar tanto para atrair o interesse de uma mulher. — Quando viu minha expressão irritada, acrescentou: — Anime-se. Você me rejeitou por vontade própria. — Inclinando-se para mais perto, Hórus estendeu a mão para pegar algo na mesa atrás de mim e trouxe sua boca muito tentadora a centímetros da minha. Sorriu ao encontrar o que havia procurado e acrescentou: — Quase totalmente.
Empertigando-se, segurou um colar com uma pedra azul-escura entre os dedos estendidos.
— Talvez, quando eu lhe der meu presente, você se digne a me dar aquele beijo que nós dois tanto desejamos.
Cruzei os braços.
— Acho que não. O que é isto?
— Um amuleto. A pedra é lápis-lazúli. Não é tão preciosa, para os padrões mortais. No entanto, seu valor está no que ela pode fazer.
— E o que ela faz? — perguntei, incapaz de resistir a me aproximar mais para tocar a pedra.
— Este lado — ele indicou o emblema gravado — tem uma planta de lótus, símbolo do Alto Egito, e o outro tem uma planta de papiro, que é a marca do Baixo Egito. Essas marcas — ele indicou o anel de prata em volta da pedra — são os três signos dos deuses: poder, resistência e vida. Uma parte do meu poder está contida aqui. É a Estela de Cura de Hórus.
— E você está me dando?
— Emprestando — corrigiu. — Ela vai curá-la durante a viagem, mas mesmo assim você deve ter cuidado. Se perder um membro, a estela não pode fazer com que ele cresça de novo. Se sua cabeça for decepada, você morre. Não quero recuperar minha estela de seu cadáver inchado — disse ele.
— Entendo. — Minha boca se retorceu num sorriso.
Hórus fez com que eu me virasse e pôs o colar no meu pescoço.
— Enquanto a estiver usando, nenhum caminho estará oculto de você. Um lado se volta para o céu e outro para a Terra. Se em algum momento você tiver dificuldade para saber qual é qual, use a pedra. Ela vai ajudá-la a se orientar.
Enquanto eu pensava em que tipo de lugar eu não conseguiria saber a diferença entre terra e céu, Hórus me virou de frente para ele e segurou meus ombros com suas mãos fortes.
— Estou falando sério sobre o perigo, Lily. Sua jornada é arriscada, cheia de ameaças antigas e caminhos escuros.
Assenti com a cabeça.
— Eu sei. Vamos ter cuidado. Prometo. — Toquei com a ponta do dedo a pedra azul pendurada na corrente de prata e disse: — Obrigada. — Olhando para o deus preocupado que ainda me segurava como se sua simples força de vontade bastasse para me manter em segurança, fiquei na ponta dos pés e beijei seu rosto.
Ele abriu um sorriso caloroso, mas sua expressão logo mudou para algo mais sombrio.
— Esta não era exatamente a recompensa que eu esperava, Lily. — Hórus me puxou contra seu corpo e me beijou de novo, e dessa vez foi algo além da paixão. Era um beijo ansioso e desesperado, faminto e sufocante. Era como se eu pudesse salvá-lo de se afogar. Quando ele começou a levantar a cabeça, puxei-o de volta, e não tenho certeza se era eu ou Tia, mas beijei-o mais profundamente, com apenas uma leve consciência de que o escaravelho do coração ainda estava na mesa. Nesse momento as batidas do coração de Amon eram tão longínquas para mim quanto um grão de areia na praia a um oceano de distância dali.
Hórus gemeu, correndo as mãos pelas minhas costas e enterrando-as em meu cabelo. Tia tremeu de prazer e sua empolgação encheu minha mente, até que eu não consegui mais lembrar de quem era nem do que estava fazendo. Hórus me segurava com ternura, porém com firmeza. Eu tinha a sensação de que eu era seu ar, sua vida, e que nada poderia fazê-lo me soltar... até que o cômodo explodiu.

Um comentário:

  1. eita, eita, eita....Gostei do beijo, mas o Amon tá sofrendo tadinho, vamo logo com isso Lilly kkkkk

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