21 de outubro de 2016

12. Vasos canópicos

Os dois shabtis se levantaram de onde estavam prostrados. O mais alto manteve o olhar fixo no chão, porém o mais baixo ergueu os olhos duros e me encarou, sua boca se contorcendo lentamente em um esgar de lascívia que me deixou muito pouco à vontade. Dei um passo para mais perto de Amon e envolvi seu braço com a mão. Isso fez o mais baixo dos homens abrir ainda mais o sorriso.
— Qual é sua ordem, Mestre? — indagou o mais alto.
Dirigindo-se a ele, Amon instruiu:
— Você, procure o lugar de descanso do meu irmão, aquele que personifica o espírito do deus da lua. E você... — Amon se virou para o outro criado, cuja expressão estava agora tão cheia de humildade que duvidei do meu primeiro juízo a seu respeito — ... encontre meus vasos canópicos. E não se esqueçam de deixar uma trilha que eu possa seguir.
Os dois se curvaram antes de cruzar os braços sobre o peito.
— Nós vivemos para servi-lo — entoaram em coro, e então rodopiaram até formar redemoinhos de fumaça escura que deixaram as catacumbas em direções opostas.
Depois que eles se foram, Amon sorriu.
— Está vendo? É exatamente a ajuda de que precisamos.
— Não confio no mais baixo — retruquei. — Ele parece traiçoeiro, como se estivesse planejando nos atacar ou algo assim.
— Fique tranquila. Os shabtis não podem ignorar as ordens daqueles que lhes dão vida. Contrariar a vontade de quem os invocou é o mais grave dos crimes. Se o fizerem, serão condenados a vagar sozinhos pelos Pântanos do Desespero. Sem ninguém para guiá-los, ficarão perdidos nas Cavernas dos Mortos e nunca mais conhecerão um só instante de felicidade, seu ka nunca mais reencontrará seu corpo e eles nunca mais verão as pessoas que amam. É uma punição pior do que a morte.
— Mesmo assim, não confio nele.
Uma leve luz vermelha surgiu e ficou flutuando no ar como uma bruma etérea. Quando passei a mão por ela, a luz se dissipou, mas as partículas logo tornaram a se unir e formaram um feixe que seguiu flutuando por um dos corredores.
Amon sorriu.
— Pronto. Eu disse que ele merecia confiança. Ele nos deixou uma trilha. Venha, Lily.
Segurei a mão estendida de Amon e ele me conduziu por vários corredores. Em pouco tempo, ficou claro para nós dois que estávamos andando em círculos. Amon começou a fechar a cara e tentou invocar o shabti errante para fazê-lo voltar, mas sem sucesso. Apesar dos alarmes que disparavam na minha mente, ele tentou minimizar o fato de o shabti ter sumido e me garantiu que o criado devia ter tido algum contratempo para não aparecer. Eu, porém, discordava.
— Amon?
— Sim, Lily? — respondeu ele, segurando minha mão para me ajudar a descer um lance de degraus de pedra.
— Por que os shabtis conseguem sumir em uma nuvem de fumaça e ir procurar seus vasos canópicos, mas você não?
Ele me olhou de esguelha.
— Isso esgotaria o meu poder, e depois eu teria que me reabastecer com a sua energia. Já a usei demais.
— Os shabtis não usam a sua energia?
Ele fez que não com a cabeça.
— Eles têm as próprias reservas, e quando elas acabarem voltarão para o lugar de onde vieram.
— Quer dizer que eles são movidos a pilha?
— Não sei o que é “pilha”.
— Deixe para lá. É que me parece meio cruel invocar os shabtis, esgotar sua energia e depois jogá-los fora. Mesmo que eu não goste muito deles.
— Eu não os jogo fora. Eles simplesmente voltam para seu estado anterior. É assim que as coisas funcionam.
— Às vezes não faz mal questionar o jeito como as coisas funcionam, sabia?
Amon deu um grunhido vago, em seguida levantou a cabeça e respirou fundo.
— Tem alguma coisa errada — murmurou, abrindo os olhos de repente. — Corra, Lily.
— O quê?
— Corra! — gritou ele enquanto se virava para olhar o alto da escada.
Embora não desse para ver o pé da escada, Amon desceu desabalado por ela, empurrando-me na sua frente mais depressa do que eu pensava ser possível. Eu não ouvia nada, mas ele parecia ter certeza de que algo estava a caminho, e eu sabia que devia confiar nele. Desci correndo pela escada o mais depressa que pude, mas tropecei várias vezes, escorregando na pedra coberta de areia.
Sem parar de me empurrar para a frente, Amon olhou para trás outra vez. Ele me seguia de perto, e foi então que ouvi: um gorgolejar suave, como água corrente.
Arrisquei uma olhada para trás e vi um líquido viscoso escorrendo pela escada. Estalos e silvos encheram a caverna, e reparei que a cor do líquido não era natural. Fosse o que fosse, aquilo não era água. Era bem mais espesso, e a cor tinha uma semelhança suspeita com a trilha de luz do shabti mais baixo. Quando o líquido chegou perto o suficiente para encostar nos calcanhares de Amon, ele soltou um uivo e me pegou no colo.
Por instinto, passei os braços em volta do seu pescoço, apertando meu corpo contra o seu, enquanto ele pulava dos degraus para uma plataforma distante demais para qualquer humano alcançar. No entanto, bem na hora em que temi que fôssemos despencar e morrer, ele invocou um vento que nos soprou pelo restante do caminho.
Amon aterrissou, mas o vento, que ainda soprava com força, nos projetou na direção de uma obstrução rochosa. Girando o corpo no último minuto, ele se chocou com a parede da caverna, absorvendo a maior parte do impacto no flanco e nas costas e me protegendo.
Ainda abraçado comigo, escorregou lentamente pela parede, gemendo de dor. Passei a mão por seu ombro machucado.
— Está doendo muito?
Ele fez que não com a cabeça.
— Vou aguentar.
Embora eu não tenha perguntado se ele precisava de energia para se curar, ele pareceu ler meus pensamentos e levou os dedos acesos a uma mecha de cabelos junto à minha bochecha. Com a visão periférica, pude ver a cor dos fios mudar. Por alguns instantes, meus cabelos brilharam como a sua pele. Quando ele soltou, a mecha caiu sobre meu ombro e seu tom louro cintilante se abrandou até virar um dourado solar.
Amon perguntou se eu estava bem e assenti, mas ele continuou com os olhos cor de avelã fixos em mim, tentando ver se eu estava dizendo a verdade. O calor palpável que sempre existira entre nós estava se intensificando, e eu estava muito consciente de que me encontrava sentada no seu colo, com os braços em volta do seu pescoço e o corpo encostado no dele.
Não tinha a menor intenção de sair dali.
Nada do que eu estava fazendo nem de longe se aproximava do comportamento típico de Lilliana. Lilliana não ficava bajulando rapazes, principalmente não aqueles que só pareciam interessados em partes do seu corpo, e nem eram as mesmas partes que os caras normais preferiam. Lilliana não era de jeito nenhum alguém que corria atrás de aventura. E Lilliana com certeza não pulava antes de olhar. Parecia que outra garota – vamos chamá-la de Lily – tinha se apoderado do meu corpo, e a sua vida era bem mais emocionante do que a minha. Eu gostava de ver o mundo pelos olhos dela, mas ao mesmo tempo isso me assustava. Lily sobrevivia a armadilhas antigas. Lily simplesmente dava de ombros quando coisas impossíveis aconteciam. Lily queria se relacionar com um rapaz que não apenas era inaceitável, mas que além disso vinha embalado em suas próprias ataduras de múmia.
Sério, eu precisava ser realista: o que estava esperando? Um sarcófago de casal?
No entanto, uma coisa naquela versão nova de mim mesma realmente me agradava. Lily era corajosa – muito, muito mais corajosa do que Lilliana jamais fora. Lily nunca deixaria outra pessoa decidir o seu destino. Lily assumia as rédeas da própria vida.
Amon me segurava frouxamente e inclinou a cabeça ao me observar, provavelmente procurando entender o que se passava na minha cabeça. Meus pensamentos eram confusos para mim, o que significava que seria quase impossível para ele destrinchá-los. Ocorreu-me então que se eu, Lilliana Young – não, risque isso, Lily Young – era corajosa o bastante para arriscar a vida ajudando um deus do sol, então era corajosa o bastante para dar o primeiro passo, apesar de todas as perguntas sem resposta e de todas as incertezas futuras que isso envolvia.
Deslizei as mãos até seus cabelos cintilantes, tomando cuidado para não apertar nenhuma parte machucada, e me estiquei para beijá-lo. Mas os meus lábios não alcançaram os seus. Quando abri os olhos, vi que ele se inclinava para longe de mim com um ar horrorizado.
— O que você está fazendo, Lily? — perguntou ele, embora parecesse bem óbvio.
— D-dando o primeiro passo — gaguejei. — Achei que você poderia estar com medo.
Amon me segurou pelos ombros e me manteve imobilizada enquanto se debatia, afastando-se. Foi tão rápido que eu não teria me espantado se tivesse usado o vento para ajudá-lo na fuga.
Virando as costas para mim, inspirou fundo e disse:
— Você não deve continuar a tentar criar esse... tipo de envolvimento.
— Não entendo. Você queria me beijar, eu senti.
Amon se retesou.
— Você se enganou — disse ele, e fez uma careta como se estivesse morrendo de dor no ombro.
— Acho que não.
— Eu não tenho interesse nenhum em ter um relacionamento com você. Essa simples ideia é... — ele havia se virado para me encarar com um olhar duro, mas nessa hora desviou os olhos — ... que fedor.
— Espere aí. Está dizendo que o problema é o meu cheiro? Que estou fedendo?
Ele suspirou.
— Não é a isso que estou me referindo. Está sentindo esse odor?
Levantei-me, dei um passo mais para perto da borda da plataforma na pedra e ergui o nariz para farejar o ar. Fui tomada por um violento acesso de tosse.
— O que é isso? — perguntei.
— Um efeito colateral da substância cáustica nos degraus, eu acho.
Logo fomos cercados por nuvens de fumaça tóxica que fizeram nossos olhos lacrimejarem. Tive quase certeza de que aquele gás que preenchia a caverna estava também esgotando o oxigênio do espaço, pois comecei a ter dificuldade para respirar. Ou isso, ou eu tinha alergia à rejeição tóxica que acabara de sofrer. Talvez uma combinação das duas coisas.
Felizmente, Amon conseguiu invocar um vento para afastar os vapores nocivos de nossa pequena plataforma. Quando conseguimos respirar outra vez, ele reparou que seus sapatos estavam fumegando. Tentou descalçar um deles, mas retirou a mão depressa. O resíduo tinha um suave brilho avermelhado. Agachei-me ao seu lado e segurei sua mão para examinar a queimadura no dedo.
Peguei uma garrafa d’água, despejei uma boa quantidade sobre a queimadura, depois usei a camiseta para secá-la. Um constrangimento havia surgido entre nós, e eu não conseguia encarar Amon nos olhos.
Ele deu um suspiro.
— Hakenew — falou, e esticou a outra mão para segurar meu queixo. Então o ergueu e esperou meus olhos se fixarem nos seus. — Por ter cuidado do meu machucado.
— De nada — sussurrei.
— Desculpe decepcionar você, Nehabet — prosseguiu. — Não é que eu... — Ele se deteve, em seguida tentou outra vez: — Se eu pudesse explicar... — Por fim, acabou concluindo: — Não é que você seja... indesejável.
O fato de ele estar admitindo alguma coisa me agradou mais do que eu imaginava. Antes que ele pudesse fazer qualquer coisa para me impedir, encostei os lábios na queimadura em seu dedo.
— Pronto. Já passou.
Os olhos cor de avelã de Amon se cravaram nos meus lábios. Cheguei mais perto, e dessa vez ele não se afastou.
Parei a milímetros de sua boca.
— Então você não quer me beijar, não é? Uma explicação — murmurei.
Ele piscou, virou a cabeça e balbuciou:
— Hehsy wehnsesh ef sah.
— Isso quer dizer o quê? — perguntei.
— “Filho de um chacal raquítico” seria a tradução mais próxima.
— Ah. Um dia você precisa me dar uma aula de palavrões em egípcio antigo. Se eu continuar andando com você, acho que isso pode vir a ser bem útil.
Ele agitou os dedos para limpar com areia a substância que cobria seus sapatos até o vapor se dissipar e ele conseguir tocá-los sem se queimar.
— Não vamos falar sobre esse assunto agora — disse Amon.
Levantei-me e apoiei as mãos nos quadris.
— Tudo bem. Contanto que você admita que sabe o que eu sei: que você também quer.
Ele se levantou rápido.
— Só uma feiticeira seria capaz de falar tanto e mesmo assim não dizer nada.
— Por enquanto vou ignorar isso, vendo que você está com um machucado no dedo de tal magnitude que deve ser uma imensa distração.
Amon estreitou os olhos.
— Você é mesmo uma bruxa.
Dirigi-lhe um sorriso do gato de Alice.
— Falando em magia, o que a gente vai fazer em relação a... você sabe... nosso pequeno algoz de pedra?
— Vou mandá-lo de volta para o lugar de onde veio — declarou Amon.
— Primeiro vamos ter que pegá-lo.
— Sim.
Ele ficou em pé na borda de nossa pequena plataforma e olhou para o mar de lodo vermelho que cobria praticamente tudo lá embaixo. Deu um suspiro e pareceu tomar uma decisão.
— Lily, é perigoso demais seguir em frente quando nosso caminho foi sabotado.
— Concordo.
— A única coisa que posso fazer é nos levar diretamente até ele.
Limpei as mãos e pus a bolsa no ombro.
— Então vamos lá.
— Mas, para isso, preciso usar sua energia de novo. Vou enfraquecer você.
— Bom, depois vou me recuperar, certo?
— Não completamente. Eu já peguei sua energia emprestada várias vezes hoje. Você só percebe isso quando uso muito poder, mas já esvaziei suas reservas de modo significativo.
— Quando você diz “não completamente”, imagino que esteja querendo dizer não hoje, é isso?
Amon fez uma careta.
— Quanto mais tempo passarmos conectados...
— Eu sei. Eu sei. Meus órgãos estão correndo perigo, blá-blá-blá — interrompi. — Então vamos fazer o que for preciso para conseguir uma boa refeição e depois eu poder dormir para me recuperar. Amanhã vou estar novinha em folha.
Amon franziu o cenho e não pareceu gostar da minha abordagem blasée da situação, mas ambos sabíamos que ele não tinha escolha. Estreitando os olhos, ele me puxou para perto, em seguida pôs as mãos nas minhas bochechas. Seus olhos brilhantes irradiaram convicção quando ele disse:
— Prometo que vou resolver isso tudo, Lily.
— Isso tudo o quê? — indaguei, torcendo o nariz e saboreando o calor de suas mãos que invadia o meu rosto.
Ele ergueu a cabeça, gritou algo em egípcio e eu soltei um berro de dor quando a areia começou a rodopiar à nossa volta.
Mil agulhas me espetaram. Dessa vez, quando a tempestade de areia rasgou meu corpo, tive quase certeza de que nada seria capaz de me deixar inteira outra vez.
Como antes, porém, fui refeita. Costurada a faca. Tive certeza de que não havia sequer um pedacinho de mim que não latejasse. Tínhamos nos materializado dentro de uma caverna escura. Amon havia diminuído sua luz, e eu não conseguia distinguir nada a não ser o brilho sinistro de seus olhos.
— Você consegue ficar em pé? — sussurrou ele.
Sem ter certeza de que conseguiria falar sem gemer, fiz que sim com a cabeça e dei um passo, afastando-me dele. Seu braço tremeu quando me segurou, e lembrei que ele estava sofrendo junto comigo. Quando se certificou de que eu conseguia me sustentar sozinha, ele disse:
— Descanse aqui. O shabti errante está na próxima caverna. — Ele segurou minha mão e apontou para a direita. — Está vendo?
Meus olhos se adaptaram e vi uma luz débil e trêmula contornando as bordas escuras da abertura.
— Estou.
— Fique escondida atrás desta pedra. Eu volto para buscá-la quando tiver concluído o encantamento e o mandado de volta para o além.
— Ok. — Ele começou a se afastar, mas segurei sua mão. — Amon?
— Sim, Lily?
Ergui-me na ponta dos pés e o enlacei pelo pescoço.
— Tome cuidado.
Ele me abraçou pela cintura e apertou. Nessa hora, um pouco da sua energia tornou a penetrar em mim, deixando-me mais firme e afastando o enjoo. Ele então se foi. Mal pude discernir sua forma enquanto ele desaparecia pela entrada da antecâmara. Meu corpo tremeu, sentindo a ausência de seus braços para me firmar.
Enquanto eu estava ali, escondida, o suor começou a escorrer por minhas têmporas, e me perguntei se o efeito do beijo refrescante de Amon no meu pescoço havia passado. Pensar que eu logo precisaria de outro não foi desagradável, e eu me distraí da dor imaginando a maneira como iria lhe pedir isso. No mesmo instante, ouvi um barulho de cerâmica se quebrando e o grito de Amon.
Não sabia como ajudá-lo, mas sabia que precisava tentar. Com as pernas bambas, fui até a entrada da câmara sem fazer barulho e espiei lá dentro. Embora os dois estivessem lutando no escuro, os ruídos da briga eram bem óbvios. De repente, o ar foi tomado pelo som de espadas se chocando. Consegui distinguir um risco de luz vermelha ao redor de uma forma escura e, quando o brilho verde dos olhos me confirmou que era Amon, esgueirei-me mais para perto.
Graças à sua visão noturna, ele me viu e gritou, sem interromper o embate:
— Lily, salve os jarros!
— Onde? — exclamei. — Onde estão?
— Na parede da direita!
Às cegas, estendi as mãos e avancei com cuidado para a direita até encostar em uma parede arenosa. Uma lufada de ar fresco me atingiu, e senti que estávamos em um espaço muito maior do que inicialmente pensara. Se era ali que os jarros de Amon estavam, então era provável que seu corpo também houvesse sido encontrado ali. O que significava que em algum lugar existia uma abertura que conduzia à superfície, embora estivesse escuro demais para distinguir qualquer coisa.
Fui tateando pela parede. Conforme avançava, ouvia Amon entoar encantamentos que não pareciam estar surtindo nenhum efeito no shabti. Aparentemente, o criado era mais forte do que Amon, o que não fazia sentido. Mesmo sem os atributos de deus do sol, Amon tinha uma constituição forte, ao passo que o shabti era baixinho e roliço; com certeza não era páreo para ele.
Alguma coisa estava muito errada.
Avancei mais um pouco e enfim encontrei uma reentrância na parede, um retângulo parcialmente exposto com cerca de 30 centímetros de largura e 60 de altura. Tropecei em um montinho de terra e ouvi um estalido quando minha bota esmagou algo minúsculo e frágil.
— Espero que não tenha sido um artefato de valor incalculável — murmurei enquanto tateava no escuro.
Afastando desesperadamente a ideia de aranhas peludas e escorpiões venenosos, estendi a mão com cuidado para o interior da reentrância e recolhi punhados de terra solta até meus dedos roçarem uma peça lisa de cerâmica. Feito uma louca, removi a terra em volta do objeto e fui desencavando-o de seu lugar de descanso como um desleixado estudante de paleontologia faria com um osso. Apesar da pressa, eu procurava tomar cuidado. Por fim, o objeto se soltou nas minhas mãos.
Apalpando-o, consegui visualizar a peça. A base cheia e redonda como um pino de boliche se estreitava até um pescoço fino o bastante para eu envolver com as duas mãos, mas grande o suficiente para acomodar algo substancial, como – torci o nariz – órgãos, por exemplo. No alto, tampando o objeto, havia um pedaço de madeira esculpido de modo grosseiro, redondo, mas encimado por uma ponta.
— Achei um! — gritei para Amon. — O que eu faço?
Ouvi um grunhido; Amon continuava a lutar com o shabti.
— Abra!
Com o jarro nos braços, segurei a tampa e puxei, mas ela não se mexeu.
— Não posso quebrar numa pedra?
— Não! Você não pode quebrar o vaso! — gritou Amon, as palavras lhe escapando com o ar quando ele foi arremessado contra uma parede.
A briga levantou terra do chão, e eu espirrei várias vezes. A última, no mesmo momento em que girava a tampa do vaso, foi tão violenta que ela finalmente se soltou.
Com um brado de triunfo, arranquei a tampa. Ouviu-se um estalo como quando alguém tira a rolha de uma garrafa. O vaso estava cheio de luz e, apesar de eu com certeza não querer ver os órgãos milenares de Amon, dei uma olhadela.
Partículas diminutas como grãos de areia flutuavam lá dentro e se uniram até formar uma luz intensa o bastante para me obrigar a desviar os olhos. Aos poucos, a luz dourada se ergueu, começou a sair do vaso e se esticou até duas asas se tornarem visíveis.
A luz começou a parecer uma espécie de pássaro e, quando a cabeça e o bico se materializaram, o animal gritou, o mesmo grito que eu tinha ouvido no sonho. Era um falcão – uma linda criatura dourada que reluzia como se controlasse os próprios raios do sol.
Batendo as asas, o falcão feito de luz começou a circular minha cabeça, voando cada vez mais alto. Ficou claro que o recinto era bem maior do que eu havia imaginado. Quando ele passou pelos dois homens em combate, pude ver Amon e o shabti.
Amon havia criado uma arma de areia – uma espada – e a usava para tentar atingir o criado, mas, embora o shabti tenha cambaleado para trás com o antebraço ferido e sangrando, o corte brilhou com uma luz avermelhada e então sumiu.
Aparentemente o criado estava usando a luz vermelha para ferir Amon, e percebi então que ele havia feito com ela duas espadas, que não paravam de se chocar contra a arma menor que seu adversário empunhava. Amon parecia enfraquecer a cada golpe, e eu não conseguia entender por quê.
O pássaro dourado passou por cima de mim na hora em que Amon começou a entoar um cântico e a invocar um encantamento ao qual o falcão respondeu. Sua voz forte ecoou nas paredes da caverna:

Invoco aqui o falcão, nascido nas fogueiras douradas do sol.
Aquele que estava dormindo hoje irá renascer.
Empresta tua alma viva e inteira àquela que foi despedaçada.
Oferece tuas resistentes asas, tuas garras afiadas, teu olhar arguto.
A tua casa se estendeu até o limite do céu,
Mas hoje encontrarás abrigo no meu coração pulsante.
Juntos renascemos, nos renovamos e rejuvenescemos.
Tua oferta será registrada nos anais do tempo, e teu serviço, recompensado.
Vem! Vem a mim e sê refeito!

A ave gritou e voou na direção de Amon bem na hora em que o shabti lhe arrancou a espada. Amon jogou a cabeça para trás, ergueu os braços e seu corpo inteiro se acendeu por dentro. Pude ver então tudo o que havia na antecâmara, e várias coisas imediatamente se tornaram óbvias.
Em primeiro lugar, havia mais três retângulos nas paredes, todos alinhados proporcionalmente ao que eu havia encontrado, e os outros vasos canópicos estavam destruídos. Tinham sido despedaçados; seus cacos coalhavam o chão. Em segundo lugar, o fino pó que tinha me feito espirrar várias vezes não era areia, mas sim uma poeira vermelha cintilante. Em terceiro lugar, o shabti agora tinha uma visão desimpedida de Amon, que, sem a espada, com os braços erguidos no ar e a cabeça virada para o alto, estava indefeso.
No momento em que eu gritava, o criado se lançou para a frente e cravou em Amon suas duas espadas vermelhas – uma na barriga, outra no peito. Amon cambaleou para trás.
No mesmo instante, o falcão dourado explodiu em um bilhão de fragmentos de luz. As partículas reluzentes da ave foram sugadas através dos olhos para dentro do corpo e sumiram. Amon desabou no chão, com as duas espadas vermelhas brilhantes enfiadas no corpo.
shabti deu um brado triunfal no exato instante em que soltei um grito horrorizado. Ele então se virou para mim com aquele sorriso nauseante estampado no rosto. Mas não viu o que estava acontecendo logo atrás dele.
Levantando-se do chão como se uma mão invisível o tivesse erguido, Amon arrancou as espadas cravadas em seu corpo e as lançou para o lado. Abriu os olhos, e na caverna escura suas órbitas cor de avelã pareciam iluminadas por um fogo dourado. Quando ele respirou fundo, seu corpo se transformou. Onde ele antes estava, um grande falcão agora dançava sobre a areia vermelha. A criatura dourada e gigantesca bateu as asas e soltou um guincho que fez a pele dos meus braços e pernas se arrepiar.
O falcão era a criatura mais linda e de aspecto mais letal que eu já tinha visto. Fiquei fascinada por ele. Subindo cada vez mais alto, começou a voar em círculos, sempre de olho no shabti e em mim, e então, antes de eu conseguir entender o que estava fazendo, recolheu as asas e mergulhou na nossa direção.
shabti deu um grito e se virou para correr, mas o falcão caiu sobre ele. Abrindo as asas no último segundo, com os esporões dourados agarrou o homem e esmagou seu tronco sem dó enquanto descia até o chão. A ave estalou o bico, pronta para esquartejar o criado em um instante, mas, antes de conseguir acabar com ele, o homem deu um grito e desapareceu em meio a uma nuvem de fumaça vermelha.
Eu me mantinha encolhida em um canto da catacumba, enjoada, fraca e tonta, e o falcão gigante guinchou baixinho enquanto recolhia as asas e olhava para mim. Não consegui me conter: gritei também e recuei vários passos, embora soubesse instintivamente que o bicho não pretendia me machucar.
A ave levantou a cabeça e então seu corpo inteiro explodiu em uma luz dourada que se materializou até tomar novamente a forma do príncipe egípcio que eu conhecia tão bem. Embora o seu corpo tenha iluminado outra vez o recinto, uma escuridão se alastrou pela periferia do meu campo de visão. Caí de quatro no chão, e a poeira vermelha se ergueu em pequenas nuvens em torno do meu rosto. Tinha um gosto de fogo brando, só que sem cheiro nenhum.
Consegui me levantar e ergui as mãos para examiná-las. Estavam cobertas até os pulsos de pó vermelho. Embora eu sentisse uma ardência no fundo da garganta, não tive energia para tossir.
— Amon? — sussurrei. — Não estou me sentindo muito...
Tombei para a frente bem na hora em que ele me segurou em seus braços.
Não conseguia sentir mais nada.
Não conseguia ouvir mais nada.
Instantes depois, não conseguia ver mais nada.

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