25 de outubro de 2016

12. As Águas do Caos

— Tio! Eu estava... — Hórus parecia um menininho apanhado com a mão no pote de biscoitos.
Enquanto hesitava, tentando encontrar uma resposta à pergunta de Amon-Rá, não havia absolutamente nenhuma dúvida na minha mente de que o homem diante de nós era mesmo o deus-sol.
Continuei tentando me soltar de Hórus.
— Sei muito bem o que você estava fazendo. Solte a donzela imediatamente.
Um rubor manchou as faces do deus que estava me beijando com ardor um instante atrás e ele me soltou. Deu um passo atrás, mas seu olhar continuou voltado para mim, como se doesse até mesmo manter-se a uma pequena distância. Endireitei os ombros, alisei a roupa desalinhada e fiz uma reverência para o deus dourado à minha frente.
Por que você deixou que ele nos beijasse?, perguntei a Tia na minha mente. Aquela seria uma boa hora para mostrar as garras! Ainda não sou boa em fazer isso sozinha.
Gostei do carinho, respondeu ela com simplicidade. Ele foi muito... ardoroso. Admiro um macho que vai atrás do que deseja. Talvez eu ame esse homem.
Está falando sério? Acredite quando digo que não ama. Você nem o conhece direito. E deixe-me lembrar: não estamos abertas à atenção de outros homens. Temos Amon.
Você tem Amon, lembrou ela. Eu não tenho ninguém.
Bom, você não pode tê-lo. Ele é um deus, e ainda por cima um deus muito devasso. Ele iria conquistar você e passar para o próximo rostinho bonito no máximo em uma semana, provavelmente em um dia.
Não tenho mais um rostinho bonito. Uso o seu emprestado, lembra? Por falar em rostos bonitos...
Vamos falar disso mais tarde, alertei-a.
Amon-Rá tinha facilmente mais de 1,90 metro de altura e era lindo, mas não do tipo garoto bonito, como Hórus. A beleza de Amon-Rá estava mais na força de sua forma e na confiança da postura. Seus olhos tinham o tom castanho mais claro que eu já vira – quase dourado, como âmbar – e a pele era ligeiramente mais morena que a de Hórus, mas havia uma luz emanando dele. Dava para sentir seu calor enchendo o espaço, o ar quase zumbindo enquanto se aproximava. O suor brotou nas minhas têmporas e começou a escorrer pelo rosto, e Amon-Rá notou enquanto eu o enxugava.
— Peço desculpas por deixá-la desconfortável — disse ele. Em seguida fechou os olhos e a luz foi visivelmente sugada de sua pele. Seus olhos mudaram da cor de areia muito pálida para um caramelo rico, chegando ao marrom chocolate. Percebi que eu estava franzindo os olhos e pisquei como se o visse pela primeira vez. A forma de seu rosto era angulosa. O queixo era pontudo. E tinha uma covinha no centro. Vinda de lugar nenhum, uma serviçal trouxe uma taça com um líquido gelado. Ele bebeu com gosto e depois olhou para o sobrinho, as sobrancelhas levantadas. — E então?
Hórus saltou, pondo-se em posição de sentido.
— Tio. Permita-me apresentar Lily, uma esfinge recente que pede uma audiência.
— Ah — disse Amon-Rá. — E quem é a outra?
— Outra? — murmurou Hórus com expressão confusa. — Não há mais ninguém aqui.
— Certamente que há. Talvez suas mãos estivessem ocupadas demais para notar que você tinha não só uma mulher nos braços, mas duas.
Ah, gosto dele ainda mais do que do primeiro. Ele me nota. Podemos beijá-lo depois? Eu gostaria de sentir os músculos dos braços dele. Vou escolhê-lo.
O quê? Não!, respondi a Tia em minha cabeça.
— Duas? Como é possível? — perguntou Hórus, perplexo.
Ignorando-o, Amon-Rá perguntou:
— E quem é você, minha cara?
Eu soube que ele não estava falando comigo e, relutante, cutuquei Tia para que se manifestasse.
— Sou a leoa de Lily — ronronou ela na versão mais grave e sensual da minha voz. — Meu nome é Tia.
— Bem-vinda, Tia — disse Amon-Rá, inclinando a cabeça. — Disseram que vocês duas fizeram uma longa viagem para me ver.
— Fizemos — respondi, rapidamente reassumindo o controle do corpo antes que Tia tentasse lamber os lóbulos das orelhas de Amon-Rá. Imagine se eu ficasse presa por uma leoa no cio!
Eu ouvi isso, disse ela. Não estou no cio. Só que o seu unicórnio estava certo. Descobri que gosto da sensação de ser acariciada por um humano. E, por falar em sensação, esse aí faz com que eu me sinta como se estivesse tomando sol na minha pedra predileta.
Silenciei-a quando o deus recém-chegado se dirigiu a nós.
— Por favor, vocês não querem se juntar a mim para uma refeição tardia? — perguntou, e eu soube que ele se referia a mim e a Tia, e não a mim e Hórus. — Estou faminto depois da ida a Duat.
Faz muito tempo que não comemos, lembrou Tia.
— Adoraríamos — respondi, e aceitei seu braço quando ele o estendeu, trincando os dentes num esforço extenuante de controle mental para impedir que Tia apertasse o bíceps dele. Hórus nos seguiu, mal-humorado, mas empenhado em me deixar ao alcance de seus olhos. Suas mãos continuavam acariciando meu braço e, quando as empurrei para longe, Tia aproveitou a oportunidade para chegar mais perto do deus-sol. Além disso, ficava me mandando impulsos para virar a cabeça e admirar a silhueta de Amon-Rá. Seu cabelo encaracolado a fazia lembrar-se de uma juba de leão, e ela gostava do cheiro dele. Pare com isso!, disse a ela, e passei a me concentrar na movimentação dos serviçais enquanto seguíamos pelos corredores enormes.
— Sua casa é linda — observei, tentando conversar amenidades.
— Obrigado.
Entramos na sala de jantar e, embora Hórus tenha feito uma tentativa desajeitada de se sentar ao meu lado, Amon-Rá lhe disse imediatamente que seu lugar era do lado oposto. Apesar de muitas mulheres circularem, trazendo um prato depois de outro para a mesa, nós três éramos os únicos comensais. Assim que as taças foram servidas com um líquido dourado que Amon-Rá chamou de ambrosia, as criadas levantaram as coberturas dos pratos, todas ao mesmo tempo.
Um vapor perfumado subiu das travessas de pato com laranja, purê de raízes, uma salada salpicada de flores comestíveis e uma espécie de pudim flambado para a sobremesa, e minha boca se encheu de água. Eu não tinha percebido como estava faminta. Amon teria apreciado o prazer de Tia com a comida. Tendo superado muito antes a necessidade de manter minha figura esbelta de Nova York, não foi muito difícil para Tia me convencer a desfrutar de uma segunda e até mesmo de uma terceira porção. Comi até ficar tão estufada que mal conseguia me mexer.
— Obrigada — falei ao terminar. Limpei cuidadosamente os cantos da boca com o guardanapo, ainda que Tia preferisse que eu passasse a língua estendida sobre os lábios. Ver Hórus gemer quase de dor enquanto me olhava fazer uma coisa simples como limpar de leve os lábios já era suficientemente ruim. Se eu tivesse feito o que Tia desejava, ele talvez sucumbisse ali mesmo.
Ameacei-a dizendo que nunca mais comeria carne se ela continuasse me impondo seus pensamentos descarados e ela recuou, amuada, para o fundo da minha mente e ali ficou ouvindo, de mau humor.
Como o assunto estava na minha mente graças a Tia, perguntei a Amon-Rá:
— Por que o senhor não fica tão afetado por mim quanto Hórus? Até Anúbis pareceu ter problemas com meu escaravelho do coração.
Amon-Rá se inclinou para trás, os olhos brilhando.
— Ele me afeta tanto quanto a qualquer outro, mas eu tenho mais controle do que meu sobrinho. Ele não praticou muito a disciplina da abnegação ao longo dos anos. Para falar com franqueza, ele é um fraco.
Hórus finalmente rompeu o contato visual comigo e olhou furioso para o tio.
— Você está me envergonhando.
— Você é que se envergonha — respondeu Amon-Rá com um suspiro, sacudindo a cabeça num gesto que indicava que não estava com raiva do sobrinho em absoluto, mas sim frustrado. — Se você exercitasse o autocontrole, acharia mais fácil suportar a tentação.
— Então ela é dolorosa? — perguntei.
— É o pior tipo de dor — exclamou Hórus. — Vejo você sentada aí, tão perto, no entanto sinto cada fração da distância entre nós como se fosse um abismo intransponível, interminável. Isso acaba comigo.
Amon-Rá revirou os olhos na direção de Hórus.
— Será que preciso expulsá-lo da sala?
Hórus arquejou como se alguém lhe tivesse dado um soco na barriga.
— Por favor, não brinque comigo desse jeito. Não posso deixá-la.
— Estou falando totalmente a sério. Se quer ficar, guarde para si mesmo seus comentários descarados. Lily e Tia não são obrigadas a tolerar seu fascínio insuportável.
Trincando os dentes, Hórus assentiu com atrevimento e voltou a me encarar em silêncio.
— Todos no mundo dos mortos vão reagir assim? — perguntei. — Ou isso só se aplica a imortais que são mais... humanos?
— Esse poder exerce influência sobre todos os imortais. A forma não importa. Até Nebu ficou fascinado, embora esteja apaixonado por outra, o que em geral nos protege da atração do escaravelho. Mas, por outro lado, talvez ele simplesmente goste de você. É sempre uma possibilidade. Nunca se sabe. Além disso, você está presumindo que vou deixá-la entrar no mundo dos mortos. E já aviso de antemão: não estou inclinado a fazer isso.
— O quê? Depois de tudo que eu... que nós fizemos? Eu vim até tão longe, e Tia... bom, Tia abriu mão de tudo!
Amon-Rá ergueu a mão.
— Por favor, não me entenda mal. Não deixo de ter simpatia pelo que vocês passaram; só não concordo com a teoria de que o Universo irá acabar caso Seth retorne.
— Tio! — exclamou Hórus.
— Como assim? — perguntei ao mesmo tempo que Hórus se manifestava.
Passando a mão pelos cachos escuros e curtos, Amon-Rá disse:
— Seth nem sempre foi a encarnação de todo o mal como Hórus o vê.
— Ele teve muitas chances de se redimir. Não há esperança para ele — declarou Hórus.
Lançando um olhar significativo para o sobrinho, Amon-Rá disse:
— Ninguém está além da esperança. Você, especialmente, deveria saber disso.
Hórus se deixou afundar na cadeira, com uma carranca maculando suas feições bonitas.
— Depois de tudo que ele fez comigo, eu gostaria de pensar que você ficaria do meu lado.
— Eu fiquei do seu lado. Fiquei do seu lado repetidamente. Mesmo quando o resultado fosse diferente se eu não ficasse. — Amon-Rá virou-se para mim. — Hórus acha que Seth é um demônio chifrudo com língua bifurcada e cascos fendidos, e talvez em algumas situações ele se apresente assim, mas esse não é o garoto que eu conheci.
— O senhor o conheceu quando ele era jovem? — perguntei.
— Ninguém lhe contou a história de Seth?
Fiz que não com a cabeça.
Amon-Rá franziu a testa.
— Talvez fique mais claro se eu começar do princípio.
Recostei-me na cadeira e desfrutei do calor da presença de Amon-Rá. Tia cochilava como um gato sonolento – metade ouvindo atenta e metade refestelando-se preguiçosamente, numa serenidade perfeita.
— Eu fui o primeiro deus que veio a ser — começou Amon-Rá. — Numa certa época havia um espaço no Cosmo onde as matérias colidiam, uma espécie de confusão primordial de energia pulsante. Nós chamávamos aquilo de Águas do Caos, já que ali a matéria fluía e refluía como um oceano multifacetado. Esse espaço permaneceu confinado, como se o material fluido que o compunha estivesse preso numa bola de vidro colossal. Quando uma de nossas estrelas, não um sol como você conhece, mas os globos mágicos que cercam nosso mundo, caiu, acabou colidindo com as Águas do Caos, e eu nasci.
Eu queria ouvir mais. Ele prosseguiu:
— Durante muito tempo vaguei de um lugar para outro, descobrindo as limitações da minha força, mas, à medida que as eras passavam, fui me sentindo solitário. Decidi ter companheiros e usei meu poder para lançar mais duas estrelas nas águas. Shu e Tefnut emergiram do Caos. Eles se casaram e Tefnut deu à luz Nut e Geb. Você sabe sobre eles?
— Amon me contou que Nut e Geb tiveram de se separar.
— Sim. Foi minha culpa. Quando Nut e Geb se casaram, percebemos... melhor dizendo, eu percebi o que tínhamos feito. Como resultado, eu os proibi de ter filhos.
— Como assim? O que o senhor fez? — perguntei.
— Veja bem, nós jamais deveríamos existir. Quando saí das Águas do Caos, tirei alguma coisa de lá. O calor e o dom da vida das estrelas vieram comigo. Na época eu não sabia, mas minha criação deixou o lugar mais fraco, e, quando Shu e Tefnut nasceram, vieram com o poder do vento e da água. Quando isso aconteceu, esses elementos desapareceram das Águas do Caos. Fiquei alarmado com minha descoberta, para dizer o mínimo. Os outros não acreditaram em mim, e Nut e Geb estavam apaixonados demais para ouvir meus avisos. Mesmo eu tendo mandado o pai deles, Shu, para mantê-los afastados, eles conseguiram um modo de se unir. Deram à luz Ísis, Osíris, Néftis e Seth, e, quando os filhos assumiram seus vários poderes, minha teoria se mostrou correta. Depois disso ficaram nas Águas apenas pequenos fragmentos de energia doadora de vida. Isso era inegável. O restante da família finalmente concordou com minha teoria.
— E o que vocês fizeram? — perguntei, fascinada com a história de sua origem, apesar da distração de ter de chutar o pé de Hórus repetidamente para longe. Por fim, empurrei a cadeira para fora do seu alcance, de modo que ele teria de se levantar para me tocar. Sem graça, Hórus me lançou um olhar atormentado, tão cheio de desejo que o calor subiu por meu pescoço.
— A princípio, nada. Não sabíamos direito o que podíamos fazer. Mas no fim decidimos terminar o que tínhamos começado. Durante eras de estudo, aprendemos que as Águas do Caos tinham sido, numa determinada época, o local de nascimento de toda a vida no Cosmo. As circunstâncias de nossa criação haviam deixado o local quase vazio, estéril. Nós, os nove, nos unimos num grande conselho chamado Ennead e, apesar de os filhos de Geb e Nut serem jovens demais para entender completamente, fizemos um pacto. Criamos deuses menores com os traços que restavam das Águas do Caos. Anúbis, Maat, Tot, Kons, Bastet e vários outros surgiram naquela época. Distribuímos cuidadosamente entre eles os poderes restantes das Águas do Caos, e então aquele mar que já fora vasto e fértil desapareceu. Cada deus novo foi obrigado a fazer um juramento inviolável de se unir a nós na tarefa de cuidar do Cosmo.
Ele fez uma pausa antes de continuar:
— Um conjunto de leis foi estabelecido e voltamos a atenção para criar os mortais. Mundos mais numerosos do que você pode conceber foram moldados e alimentados por nós. Sua Terra se tornou nosso feito mais valorizado. Quando ficamos satisfeitos com o trabalho, construí Heliópolis e me estabeleci aqui para vigiar os muitos mundos e os seres que os habitavam. Agora, entre nossos deveres está a defesa dos pobres e o fomento da verdade, da bondade e da justiça. Nosso objetivo é usar nossos poderes para obter a perfeição e a harmonia. Tomamos o ankh como nosso símbolo, porque ele representa a vida e nos lembra do que foi sacrificado para virmos a ser. Atravessamos o Universo como um vento forte atiçando o fogo do progresso. Apesar de não sermos vistos pelos mortais, nossa presença pode ser sentida em cada alvorecer, cada pôr do sol, cada sopro de ar perfumado no seu rosto e cada gota de chuva. Somos parte de tudo e tudo é parte de nós.
— Então Seth era um de vocês? — perguntei.
— Sim — respondeu. — Seth era uma criança feliz e curiosa. Amava a família, era fascinado pelo modo como os mundos eram feitos, mas no dia em que foi imbuído de seus poderes tudo mudou. Na época achei que estávamos sendo castigados. Que não restava nada para ele herdar. Não enxerguei a coisa como era.
— O que aconteceu? Que poderes ele recebeu?
— Ele recebeu o poder mais terrível e mais formidável de todos nós. Um poder com a capacidade de destruir tudo o que havíamos criado...
— Espere aí. Se vocês fizeram uma promessa inviolável de proteger a Terra e praticamente tudo o mais no Cosmo, por que Seth estava tentando destruir os antigos egípcios? Ele não tinha controle sobre o poder que recebeu? Por que vocês precisaram recrutar Amon e os irmãos para impedi-lo? Por que ele está preso numa cela cósmica, e por que Sebak foi tão inflexível quanto a querer que ele fosse solto?
Eu sabia que o estava apressando e fazendo perguntas demais. Era óbvio. Mas sentia o peso de ter de salvar Amon, e o modo direto de Tia havia me influenciado a pressionar em busca de respostas que não estávamos recebendo. Eu estava ficando impaciente com o processo de descobrir o que precisávamos saber.
— Tecnicamente, Seth não violou sua promessa — disse Amon-Rá. — Ele só enxerga as coisas de um modo um pouco diferente.
— Um pouco diferente? — exclamou Hórus. — Ele quer a nossa morte!
Amon-Rá suspirou.
— Seth tem uma ideia diferente do que é cuidar do Cosmo. Veja bem, ele recebeu seus poderes muito mais tarde que os irmãos. Ísis tinha um poderoso domínio dos encantamentos. Osíris governava coisas não vistas e podia invocar os elementos para fazer o que quisesse. O poder de Néftis era calmo, contido. Ela podia enxergar dentro do coração de uma pessoa e entendê-la completa e verdadeiramente de um modo que ninguém mais podia. Por isso ela se tornou esposa de Seth.
— Mas ele não a amava — objetei. — Ele queria Ísis.
— Sim. Ele a queria, mas não a amava. Pelo menos não como Osíris. Seth era obcecado por Ísis e seu poder. Queria usá-la para fazer seus encantamentos. Sua mulher, Néftis, ficou com muito ciúme, não porque não amasse a irmã, amava sim, mas porque ansiava por um amor como o que Osíris compartilhava com a esposa. Queria ter a mesma coisa com Seth. Infelizmente, ele não estava no estado de espírito propício para lhe oferecer isso.
— E nunca vai estar — exclamou Hórus.
— Acho que ainda não entendo — admiti.
— É porque me adiantei demais. A única razão para eu ter mencionado o relacionamento de Seth com os irmãos é o equilíbrio.
— Equilíbrio — ecoei.
— Sim. Cada deus recebeu um dom, cada um deles importante a seu modo. O dom de Seth talvez seja o mais importante de todos, porque é através dele que o Universo mantém o equilíbrio.
— Como assim? — perguntei.
— Ele é mau — explicou Hórus. — Ele contrabalança nossa bondade. — Amon-Rá franziu a testa, mas não contradisse o sobrinho, que, encorajado pela pausa do tio, continuou: — Seth foi criado para criar problemas. O Cosmo precisa dessa fagulha de dissonância, desse fio de incerteza para criar. Sem ele só há perfeição. Como você vai entender “acima” se não houver “abaixo”? Ou compreender o amor sem o ódio?
— Bem, deixe-me ver se estou entendendo. A função de Seth era criar discórdia, de propósito, para que... o quê? Os mortais não ficassem complacentes demais? Felizes demais? — perguntei.
— É um pouco mais complicado que isso — disse Amon-Rá. — Há um lugar para o Caos. Os humanos só entendem e apreciam a paz se conhecerem os horrores da guerra. Só podem crescer se houver um obstáculo a superar. O Cosmo só é equilibrado se houver um modo de experimentar o mal junto com o bem.
— Certo. — Cruzei os braços. — E o que deu errado? Por que ele está preso?
Dessa vez Hórus não pareceu disposto a responder e cedeu o lugar a Amon-Rá, que respirou fundo.
— Seth não está preso por provocar o Caos, mas porque quer desfazer tudo o que nós criamos.
— Inclusive nós — acrescentou Hórus.
— O quê? Por que ele quer isso?
— Inveja — disse Hórus, com mesquinhez. — Ele quer governar tudo.
Amon-Rá estreitou os olhos para o sobrinho.
— Parece que Seth decidiu que o único modo de trazer de fato o equilíbrio de volta ao Cosmo é tentando encher de novo as Águas do Caos.
Inclinei a cabeça.
— Mas achei que o senhor tinha dito que elas foram completamente drenadas.
— E foram.
— Então como ele iria enchê-las de novo?
— Ele destruiria todos nós na esperança de que, quando morrêssemos, nossas energias voltassem para o lugar de onde se originaram — respondeu Hórus. — A única exceção, na mente dele, seria ele próprio e a companheira que escolheria: Ísis. Tendo Ísis ao seu lado e as Águas do Caos preenchidas com a energia de nossas vidas, ele acredita que o equilíbrio seria restaurado, com um deus perfeito e uma deusa perfeita para governar tudo.
— É uma hipótese bem remota, não? — perguntei. — Quero dizer, não há nenhuma garantia de que a energia de vida de vocês viesse a encher de novo as Águas do Caos, há? — Hórus virou-se para
Amon-Rá e trocaram um olhar longo e significativo. — O que foi? — pressionei.
— Quando Seth agiu pela primeira vez, no atentado que tirou a vida de Osíris, parte do poder com o qual Osíris fora dotado retornou às Águas e outra parte, não sabemos direito de que tamanho, permaneceu com quem o assassinou.
— Seth — declarei, voltando a respirar.
Amon-Rá confirmou com a cabeça.
— Ísis interrompeu o processo antes que estivesse terminado e usou um encantamento poderoso para refazer o marido, mas ele não era o mesmo de antes. Era menor, de algum modo. Ísis deixou claro para todos nós que ela não queria fazer parte do plano de Seth e que o considerava inimigo.
— É, Osíris, o marido dela, foi a primeira múmia. Certo? — Eu me sentei mais na ponta da cadeira e tomei um gole da minha taça.
— Correto — disse Amon-Rá. — Quando Ísis engravidou, coisa que era proibida, havia muito pouca energia nas Águas do Caos para criar um deus. Eu precisei dar alguns dos meus poderes ao filho deles para que ele sobrevivesse. Por causa disso, ficamos sabendo que nossos poderes podiam ser oferecidos livremente a outro. Foi assim que você se tornou uma esfinge. Ísis deu aos leões dela parte de seu poder e agora essa energia reside em vocês duas.
Cruzei os braços.
— Estou surpresa porque o senhor não a castigou por ter criado o encantamento da esfinge como fez quando ela tentou salvar o marido. É cruel manter os dois separados.
— Ísis não entendeu minha intenção. O que você vê como cruel, eu vejo como necessário. Ísis violou a lei e era preciso haver uma consequência. Apesar da lei, sou misericordioso. Eles têm permissão de se ver. Sempre que os deveres dela permitem, eu a autorizo a visitar o além.
— Ainda assim, parece errado separar duas pessoas que se amam tanto assim.
Amon-Rá juntou os dedos das mãos e me avaliou.
— Às vezes são necessários sacrifícios e precisamos abrir mão da coisa que mais desejamos no mundo para que outros possam viver contentes e felizes. Não é mesmo, sobrinho?
— Na verdade, ele não seria seu bisneto em vez de sobrinho? — perguntei.
— A vida que instilei nele pedia uma reavaliação do nosso relacionamento — disse Amon-Rá, franzindo a testa. — Na realidade, para mim agora ele é mais um filho que qualquer outra coisa, mas Osíris se irrita com a mera sugestão disso, então assumi o papel de tio. Por mais voluntarioso que ele seja.
Hórus se empertigou na cadeira com o máximo de dignidade que pôde.
— Eu precisei crescer depressa e tentar me proteger. Seth veio atrás de mim quando eu ainda era muito jovem — disse, com um olhar de anseio na minha direção.
— Você lutou com ele. Amon me contou — observei.
— É. Seth me considerava o deus mais fraco, portanto o mais fácil de ser destruído. Sabia que Amon-Rá era poderoso demais para que o atacasse diretamente, por isso seu plano era sugar primeiro as energias dos deuses inferiores, começando por mim. Além disso, eu representava sua derrota, porque era produto da união que ele não tinha conseguido extinguir. Ele declarou que meu nascimento era um ato ilegal realizado por meus pais corruptos e que merecia o castigo definitivo. Eu era a corporificação da coisa que ele mais desprezava e estava decidido a me matar, até que Amon-Rá interveio.
— Naturalmente Ísis ficou perturbada depois de várias tentativas de Seth, de matar Hórus — acrescentou Amon-Rá. — Ela me envenenou num esforço de descobrir o verdadeiro nome de Seth, para que pudesse destruí-lo antes que ele matasse seu filho.
— Espere aí. Amon me contou que Ísis envenenou o senhor para descobrir o seu nome verdadeiro para que o senhor ajudasse Hórus. Disse que ela queria que Hórus fosse seu herdeiro.
— Qualquer das duas opções serviria ao propósito de Ísis — continuou Amon-Rá. — Se ela obtivesse o verdadeiro nome de Seth, poderia acabar com ele e, se descobrisse o meu, poderia me controlar e fazer com que eu o destruísse para ela. Sou o único que tem poder suficiente para isso, já que não tive nenhum filho. E ser o primeiro deus a ter saído das Águas do Caos me permitiu a oportunidade de conhecer os nomes verdadeiros de todos os membros da minha família. Ísis queria deter Seth de uma vez por todas. Se fosse para algum de nós sobreviver à destruição que Seth estava tentando provocar, ela queria que fosse Hórus. Quando me recusei a dar qualquer um dos nossos nomes, ela pediu que eu colocasse Hórus sob minha proteção, e foi o que fiz.
— Então você fez dele seu herdeiro?
— Não vejo desse modo o relacionamento com meus familiares. Na minha mente, somos todos iguais. Até os deuses com poderes mais limitados têm tarefas de importância vital na criação e manutenção do Universo.
— Discordo, tio.
— Sei que discorda. Mas não posso deixar de amar Seth tanto quanto amo você ou sua mãe. — Ele se virou para mim. — Para tranquilizar Ísis, eu disse a ela que Hórus teria a oportunidade de ganhar um dom especial, um dom que o tornaria suficientemente poderoso para garantir que Seth não pudesse destruí-lo. Mas, para isso, Hórus teria que passar por uma série de desafios. Não foi um presente que eu dei com leviandade.
— Está falando do Olho de Hórus, não é? — perguntei.
— Sim. Quando apresentei os três testes para avaliar o mérito de Hórus, Seth apareceu e exigiu ser incluído. Eu achei que uma competição supervisionada entre os dois deuses poderia ajudar Seth a retornar ao grupo, daria a ele a chance de provar seu valor e mostrar aos outros que não era o que eles pensavam. Mas Seth usou seus poderes para desfazer os olhos de Hórus. Ao perder a visão, Hórus viu com clareza pela primeira vez. Seu sofrimento o ajudou a entender as necessidades dos outros. E então eu soube que ele era realmente digno do prêmio.
— Encontrei Nebu — contou Hórus. — Mesmo cego, pude derrotar Seth graças ao falcão que me manteve vivo.
— Espere aí — interrompi. — Amon disse que você não encontrou Nebu, que quem encontrasse seria o herdeiro do deus-sol.
— Nebu e eu discordamos com relação a quem encontrou quem — respondeu Hórus com um sorriso presunçoso. — Mesmo assim, Seth não gostou do que aconteceu depois.
Amon-Rá resmungou e disse:
— Seth estava com raiva, mas nem ele pôde encontrar defeito na minha decisão. Hórus ganhou olhos novos, inclusive meu presente mais poderoso, atualmente sendo usado por seu namorado, Amon. Apesar de não parecer, Hórus faz sacrifícios pelo bem maior, de vez em quando.
— No momento Amon está de posse do meu falcão dourado e do Olho — queixou-se Hórus. — É por isso que estou confinado aqui por tanto tempo. Sem o Olho fico vulnerável. Talvez a companhia de uma mulher... de duas mulheres lindas — corrigiu ele, acenando a mão para indicar a mim e a Tia — me ajude a esquecer os problemas.
Ignorei-o por completo, enquanto Amon-Rá se contorcia, obviamente irritado com a paixonite de Hórus.
— Por mais que seus modos sejam insuportáveis, você ganhou o direito de viver sob minha proteção enquanto eu tiver o poder de manter Seth a distância. E quero lembrar que ele está preso. Seu exílio em Heliópolis é imposto por você mesmo.
— E quando isso aconteceu? — intervim. — Quero dizer, a prisão de Seth?
— Apesar de como eu via a questão — disse Amon-Rá —, os deuses se uniram contra Seth depois de ele quase matar Hórus e o expulsaram de nosso lar. Durante um tempo, ele nos deixou em paz. Até que percebeu que, se destruísse as coisas que tínhamos criado, as energias de nossos projetos, por mais frágeis e mortais que fossem, também retornariam às Águas do Caos. Essas energias seriam refeitas e uma parte, não importando quanto fosse minúscula, permaneceria com ele. Guerras irromperam. Assassinatos proliferaram. Homens sedentos de sangue tomaram o poder. Nós fizemos o possível para contrabalançar isso, mas a promessa que tínhamos feito de usar os poderes em benefício dos outros manteve nossas mãos atadas. Não podíamos contê-lo. Só tentar consertar o que ele destruía. Mas ele ficou tão hábil em provocar a devastação que frequentemente não restava nada para consertar.
— Nossa! — exclamei.
— Foi então que Néftis apresentou a ideia de imbuir seres humanos de nossos poderes. Ela buscou três jovens dignos que estavam dispostos a se sacrificar para proteger seus entes amados e demos a eles o poder de manter Seth preso. Como eles não estavam limitados pela nossa promessa, podiam fazer o que nós não podíamos.
— Quero lembrar que nem todos os dons foram concedidos de livre vontade — murmurou Hórus.
Amon-Rá arqueou uma sobrancelha e disse:
— Alguns relutaram, e vou admitir que fui um deles. Tinha certeza de que podíamos conversar com Seth e descobrir um modo de acalmar suas preocupações.
— Foi por isso que precisei entrar em cena — disse Hórus. — O Ennead nos procurou pedindo ajuda e, quando Amon-Rá não quis ceder, tive de oferecer meus poderes, assim como o falcão dourado, ao seu Amon.
Estendi a mão por cima da mesa e segurei a de Hórus, e sua expressão foi tão incredulamente feliz que mais parecia que eu tinha concordado em me casar com ele.
— Eu viajei no dorso do falcão — contei. — Ele é lindo. Entendo por que você sente falta dele.
Hórus envolveu meus dedos e os apertou de leve, me oferecendo pela primeira vez um sorriso genuíno, e não um olhar vitrificado de luxúria.
— Ele tem sido meu companheiro mais fiel desde que me salvou no deserto — disse, sério.
Retribuí com um meio sorriso e lentamente recolhi minha mão.
— Então Amon e os irmãos dele mantêm Seth trancado para vocês, realizando o rito a cada mil anos? — perguntei.
— Sim. Eles são os... Como posso dizer de modo que você entenda? São os carcereiros, os guardiões da prisão — respondeu Amon-Rá. — Mas não foram eles que criaram os muros. Foi necessário um sacrifício maior antes que pudéssemos contê-lo.
As pontas dos meus dedos pressionaram a borda da mesa.
— Um sacrifício maior do que os Filhos do Egito entregarem a vida repetidamente? Não poderem viver nem amar livremente? Não poderem buscar a própria felicidade nem ter uma família?
— Sim — respondeu Amon-Rá com franqueza.
— Que sacrifício é maior do que esse? — insisti.
— Nós perdemos nossos avós — murmurou Hórus.
— O quê?
— Nossos avós, Shu e Tefnut, abriram mão de suas formas corpóreas e criaram um lugar no Cosmo, uma prisão feita de vento e água, que confina Seth. A cada milênio, pedaços dos seres que eles já foram se soltam e retornam às Águas do Caos. Os Filhos do Egito fornecem um reforço, mas na verdade é apenas questão de tempo até que a prisão esteja enfraquecida a tal ponto que ele possa romper os muros — disse Hórus.
Estupefata, perguntei:
— Bem, o que vocês vão fazer então?
— Amon-Rá acha que deveríamos deixar acontecer. Deixar que Seth venha atrás de nós.
— Mas isso significa que ele vai matar todos vocês.
— Provavelmente — respondeu Hórus. — Mas o pior é que ele vai destruir tudo que criamos. Inclusive o seu mundo.
— Anúbis disse que ele iria nos escravizar, caso se libertasse — murmurei.
— É provável — replicou Hórus. — Ou isso, ou simplesmente vai refazer todo o planeta.
— Olhe, se há uma coisa no Universo pela qual valha a pena viver, e lutar, é o amor. Eu amo Amon. Ele está sofrendo e eu quero pôr fim ao sofrimento dele, pura e simplesmente. Se isso ajudar o mundo, melhor ainda. Se isso significa que Seth permanecerá encarcerado por mais alguns milhares de anos, tudo bem para mim. Do meu ponto de vista, ele é problema de vocês, não meu. Agora, vocês dois podem nos ajudar a encontrar Amon ou vamos descobrir um modo de fazer isso sozinhas.
Tomei fôlego antes de continuar:
— Não estou pedindo que vocês me vigiem, me deem poder, nem mesmo que me protejam do que nos espera. As chances são de que nem sobrevivamos, mas precisamos tentar. A única coisa que estou pedindo é permissão para viajar ao mundo dos mortos. Nada mais. Agradeço que tenham me contado a sua história. Entendo seu dilema. Mas estamos aqui sentados revivendo o passado por tempo demais. É hora de agir. Portanto acho que a verdadeira questão é: vocês dois, deuses, vão se posicionar e agir como os seres onipotentes e oniscientes que se espera que sejam? Ou vão ficar aqui sentados, chafurdando no passado, até que seja tarde demais para fazer alguma coisa importante e, como consequência, relegar o inocente que não fez nada para merecer seu desprezo a um destino pior do que a morte?

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