25 de outubro de 2016

11. Heliópolis

O chão foi ficando distante lá embaixo e precisei acalmar Tia do melhor modo possível, ainda que a altitude também me alarmasse. Felizmente Nebu subiu devagar, nos mantendo o mais niveladas que podia. Quanto mais alto subíamos, mais frio ficava. Tia se encolheu dentro de mim, tremendo, ainda que meus braços é que estivessem arrepiados e meu nariz é que tivesse perdido a sensibilidade.
Quando perguntei a Nebu se iríamos congelar e morrer por falta de oxigênio, ele respondeu: Agora você é esfinge. Não pode perecer em razão de uma coisa tão simples quanto o frio. Além disso, logo vai estar aquecida novamente. Lembre-se: nosso destino é o lar do deus-sol.
Se estar na casa de Amon-Rá fosse como estar perto de Amon, eu não tinha com que me preocupar. Amon gerava calor como um aquecedor elétrico. Só de pensar nele eu experimentava a sensação de que tinha um cobertor grosso em torno dos ombros. Os pequenos tremores nos músculos foram passando. Talvez meus temores sejam mais mentais do que físicos, pensei.
E quanto à sua pergunta sobre o oxigênio, você não entendeu quando estamos.
— Você não quer dizer onde estamos?
Quis dizer quando. Para você isso deve parecer a atmosfera da sua Terra. As estrelas ao redor representam algo parecido com o espaço. Mas não estamos no lugar que sua mente supõe. Só porque você inspira e expira não significa que haja oxigênio, e não estamos no quando que deixamos para trás.
— Então o que estou respirando, exatamente? E, se não estamos num onde, que quando é este em que estamos?
Você está respirando a luz das estrelas, e não estou falando das estrelas do seu Universo. Aqui as estrelas têm um significado diferente. A resposta à segunda parte da sua pergunta é que estamos no Tempo Intermediário.
— Foi por isso que você chamou o lugar de Terra Intermediária. Você não quis dizer entre lugares, e sim entre tempos.
Sim. Isso mesmo.
Senti que Nebu ficou satisfeito com minha capacidade de entender o que ele dizia.
Tia não estava mais ouvindo. Seu cérebro não conseguia processar discussões metafísicas como essa. Ela era uma caçadora. Uma guerreira. Seus instintos diziam que algo estava muito errado e que seu lugar não era onde estávamos. Um felino tem que sentir o chão sob as patas. Ela precisava percorrer caminhos e territórios conhecidos. Não tinha vontade de descobrir nada sobre o lugar onde nos encontrávamos.
Curiosa, perguntei a ele:
— É assim que Anúbis viaja também? Entre tempos?
Sim. Todos os deuses viajam desse modo.
— Mas não os Filhos do Egito, certo?
Os Filhos do Egito têm a capacidade de manipular o tempo, mas a viagem pelo escuro Tempo Intermediário cobra um preço alto deles. Os deuses não são afetados do mesmo modo.
— Isso me lembra uma pergunta que eu queria fazer há um bom tempo. Por que os deuses não realizam seu próprio trabalho sujo? Quero dizer, por que dar a Amon e aos irmãos dele a responsabilidade de algo que os deuses fizeram acontecer, para começo de conversa? Foram eles que baniram Seth. Eles deveriam arrumar a própria bagunça.
As asas de Nebu estremeceram e ele balançou a cabeça como se estivesse incomodado.
Não ouso especular o porquê. Tenho minhas teorias, claro, mas não cabe a mim dizer nada.
— Bom, pode apostar que estou planejando dizer alguma coisa. O que eles esperam é injusto. Os supostos dons são apenas uma desculpa para fugir à própria responsabilidade.
Sentindo frio de novo, esfreguei as mãos e soprei nelas, a fim de esquentá-las.
Você sabe que o desconforto que está sentindo neste momento não é nada comparado com os desafios físicos que vai enfrentar no mundo dos mortos, disse Nebu.
— Só agora que você me diz? — murmurei.
Sem dúvida você não achava que esta jornada seria fácil.
— Não. Acho que meu lado humano está se manifestando, não é? No momento, estou me sentindo mais Lily Young que esfinge...
Talvez você devesse pedir ajuda à sua leoa.
— O quê? Como?
Ela pode ajudá-la a regular a temperatura do corpo.
— Verdade?
Tia ouviu a sugestão dele e sua presença cresceu, enchendo meu corpo. Um calor abençoado veio com essa sensação, como se ela tivesse me enrolado nos pelos de uma leoa. Eu ainda estava no comando do corpo, mas ela permaneceu comigo, logo abaixo da superfície, apesar do medo de voar. Obrigada, disse a ela em silêncio.
Peço desculpas por ter deixado que seu sofrimento continuasse. Eu não sabia que podia detê-lo.
Tudo bem. Estamos aprendendo à medida que avançamos.
— Obrigada — falei ao garanhão. — Agora estamos nos sentindo muito melhor.
De nada. Só se lembre de que, sempre que precisarem acessar o poder da esfinge, terão de fazer isso juntas. Usá-lo exige que vocês estejam unidas em seus desejos.
— É bom saber.
Está preparada, Senhora Esfinge?, perguntou Nebu.
— Preparada? Para quê?
Para entrar em Duat.
— Ah, isso. Ahhhh, claro!
O unicórnio fez uma curva e depois avançou lentamente. Parecia que estávamos entrando num poço negro e horizontal. As estrelas permaneciam fixas, mas o espaço entre elas reluzia como vinil líquido. A cabeça e o peito de Nebu desapareceram, envoltos por aquela gosma opaca. Isso me lembrou de quando fui absorvida pela montanha do verme gigante onde o Dr. Hassan havia guardado o sarcófago de Asten.
Enquanto o líquido cobria minhas pernas e subia pelo restante do corpo, não pude deixar de respirar fundo e fechar os olhos. Eu tinha sido absorvida e/ou esmagada por coisas demais desde que havia conhecido Amon. Entre areia movediça, uma leoa sufocante, montanhas, uma caixa de pedra e agora a passagem para Duat, estava surpresa por não ter um problema de claustrofobia pior. Cada experiência parecia uma pequena morte. E agora que eu era uma felina, pelo menos parcialmente, imaginei se a presente experiência consumiria uma das minhas sete vidas.
É um mito, disse a voz interior de Tia.
O quê?, respondi, desesperada por uma distração à medida que o negrume se fechava sobre minha cabeça.
Que os gatos têm sete vidas. Não têm. Têm uma, como todas as criaturas. A exceção é seu companheiro, claro.
Por fim a escuridão se dissipou e vimos um paraíso exposto em toda a sua glória. Tínhamos entrado num mundo novo – um mundo mais lindo e luxuriante do que eu jamais tinha visto. Um vasto oceano reluzia abaixo de nós com os raios dourados de um pôr do sol perfeito. Ele se refletia nas asas de Nebu, nas minhas pernas nuas sobre as costas dele e no verde do meu vestido.
Estranhas aves marinhas chamavam umas às outras ao mergulhar, tentando pegar o jantar num cardume de peixes com escamas que cintilavam sob a superfície da água. Outros animais maiores, que eu não podia ver, soltavam jatos densos de água, depois desapareciam rapidamente no oceano.
A brisa refrescante trazia os perfumes de um mar turquesa, de areias douradas, frutas cítricas e flores tropicais, tudo isso banhado por um sol de verão.
O unicórnio baixou ainda mais, arrastando as patas na água – que, de tão quente, poderia vir de uma fonte aquecida – e espirrando-a nos meus pés calçados com as sandálias. À nossa frente havia uma ilha cercada por nuvens baixas cor de tangerina e, projetando-se da massa volumosa de terra, via-se uma cidade dourada. Obeliscos esculpidos, pontes em arco, torres reluzentes, estátuas enormes e pirâmides impressionantes com cumes dourados que brilhavam ao sol poente pontilhavam a paisagem. Apesar de estarmos no pôr do sol, a luz gerada em cada construção bastava facilmente para rivalizar com uma lua cheia.
— Esta é Duat? — perguntei.
Nebu relinchou de leve.
Não. A cidade diante de nós é apenas uma parte de Duat. É o Coração do Sol, o lar de Amon-Rá, também conhecida como Heliópolis. Para entrar no além e no mundo dos mortos você terá de ir até o lado mais distante de Duat, o lugar onde o sol se põe à tarde.
— O sol está se pondo agora. Podemos chegar lá antes do anoitecer?
Não. Mesmo se eu pudesse levá-la a tempo, você não teria permissão de passar pelo Rio Cósmico sem primeiro invocar Amon-Rá. É ele quem dá permissão para viajar na barca celestial. Sem a permissão d’Aquele Que Veio a Ser Por Si Mesmo, o Protetor da Estrada Não Percorrida, você não poderia nem mesmo permanecer nos limites de Heliópolis.
Nebu bateu as asas e voou por cima de uma grande muralha que cercava a cidade, e pude ver o movimento de pessoas entre os prédios lá embaixo.
— Quem são elas? — perguntei.
Algumas são deuses inferiores. Outras são serviçais que prometeram dedicação eterna a Amon-Rá. E outras ainda são criações dele.
— Criações? Quer dizer, como filhos?
De certa forma, sim. Como os unicórnios, existe um grande número de criaturas formadas pelo Cosmo, e até mesmo umas poucas criadas por Amon-Rá e os outros membros do panteão. Muitas vivem em paz aqui em Heliópolis.
— Então não são humanas?
Algumas são. Algumas foram.
Não ousei pedir mais detalhes sobre isso. Pelo menos por enquanto. Aquilo era um pouquinho demais para mim.
— E para onde estamos indo? Para o prédio do governo?
Tentaremos obter entrada no portão do lar palaciano de Amon-Rá. Está vendo, ali no topo da colina?
A área da cidade para onde nos dirigíamos tinha as construções mais exóticas e deslumbrantes que eu já vira. Um templo colossal coroado por um obelisco, esculpido na forma de um grande pássaro, erguia-se na encosta de uma montanha, encimado por uma reluzente pirâmide em miniatura.
O pyramidion no topo do templo representa o ponto mais alto da cidade, explicou Nebu.
— Pyramidion? — perguntei.
Sim. É o cume do obelisco. No de Benben, a imagem de Amon-Rá foi esculpida no grande diamante que você está vendo lá, e todos que moram na cidade olham para ele no nascer e no pôr do sol para se lembrar de que Amon-Rá é o primeiro a ser recebido pelo sol a cada manhã e o último a honrá-lo antes do anoitecer.
— Humm. Eu me pergunto se ele não está tentando compensar alguma coisa.
Nebu relinchou e sacudiu a crina.
Eu tomaria cuidado com o que digo na Cidade Dourada, alertou. Amon-Rá não é um deus para ser levado na brincadeira.
Sorri e dei um tapinha no pescoço dele.
— Você se preocupa demais. Acredite, fui treinada no traquejo social desde que aprendi a falar. Vamos ficar bem.
É só que eu sofreria se soubesse que sua jornada terminou antes de começar. Talvez eu devesse permanecer ao seu lado quando for encontrá-lo.
Enroscando os dedos pela crina, segurei com força enquanto ele descia graciosamente até o calçamento lá embaixo. Seus cascos pousaram nos ladrilhos brilhantes e o ar que ele agitou ao equilibrar o peso soprou meu cabelo em todas as direções. Nebu apertou as asas nas laterais do corpo com tanta força que elas desapareceram, até mesmo aos meus olhos, e trotamos pela ponte comprida que levava ao portão, onde havia guardas com lanças compridas e de aparência perigosa cruzadas entre eles.
Talvez, se tudo correr bem, você possa levar uma mensagem para Anúbis transmitir à minha mulher. Não sei se ele vai fazer isso, mas não custa pedir.
— Posso dar o recado — ofereci, me perguntando quem seria essa mulher amada por um unicórnio. — Anúbis está me devendo mesmo. O que você quer que eu peça?
Que ele diga... que diga que meu coração ainda arde por ela.
Mais misterioso ainda.
— Se puder, darei sua mensagem. — Desci do dorso de Nebu e cambaleei por um momento, tentando me equilibrar. Ele encostou o focinho na minha mão e eu lhe dei uns tapinhas, agradecendo.
Venha. Deixe-me guiar você até a câmara interior, se não puder convencê-la a permitir que eu permaneça ao seu lado enquanto está aqui. O garanhão caminhou ao nosso lado até os guardas e se dirigiu a eles. Esta esfinge deseja uma audiência com Aquele Que Veio a Ser Por Si Mesmo. Pedimos permissão para entrar.
Um guarda de expressão pétrea respondeu:
— Esta noite ele tem negócios fora daqui, mas talvez Hórus queira alguma diversão.
Diversão?, sibilou Tia, eriçando-se diante da ideia. Eles querem nos usar para se divertir?
Tia foi interrompida quando um dos guardas abriu o portão e sinalizou para entrarmos. Recebemos instruções e fomos deixados a sós, algo que achei estranho numa fortificação grande como os templos de Amon-Rá. Acho que isso revelava o poder dos deuses. Não devia haver muita gente disposta a desafiá-los.
Como Nebu andava confiante ao nosso lado e parecia saber aonde ia, não fiquei muito preocupada.
Imaginei qual seria o melhor modo de abordar Hórus. Sem dúvida ele iria nos ajudar. Afinal de contas, Amon estava com seu Olho. O que iríamos fazer afetaria todo mundo, até aqueles que residiam na cidade dourada de Heliópolis. Caso Seth se libertasse, eles correriam tanto perigo quanto o reino mortal, certo?
Enquanto andávamos pelo templo, não pude evitar ficar boquiaberta com o esplendor e a opulência do lar de Amon-Rá. Serviçais passavam por nós carregando jarras de ouro e bandejas cheias de frutas maduras, doces e queijos. Depois que a quinta nos dirigiu um cumprimento de cabeça, recatada, sem nem ao menos nos olhar uma segunda vez, finalmente percebi uma coisa.
— São todas mulheres — observei.
A quem você está se referindo?, perguntou Nebu.
— Às serviçais. E todas são lindas.
Amon-Rá e Hórus gostam de se cercar da beleza e das riquezas que sua posição permite.
Pensei naquela informação por um momento antes de dizer:
— Ah, entendo.
O que foi?, perguntou Tia.
Já estive perto de caras assim, expliquei. Eles exibem o dinheiro ou o poder se associando com quem consideram digno.
E nós não somos... dignas?, perguntou ela.
No nosso estado atual? Na verdade, não. Passei a mão pelo cabelo embolado pelo vento. O vestido estava sujo de lama, rasgado e manchado de sangue no ponto em que Tia havia cravado as garras em mim. Passei a mão pelo escaravelho do coração em minha cintura, procurando algum conforto que me ajudasse a enfrentar aquela situação.
Ah, disse Tia em minha mente. Você quer se banhar e... – ela procurou as palavras – condicionar sua juba.
É.
E, se fizermos isso, ficaremos suficientemente dignas para obter uma audiência com Hórus?
Não tenho certeza, mas pelo menos não vamos passar vergonha.
Tem certeza de que mostrar as garras e os dentes, mesmo pouco afiados como os seus, não iria impressioná-lo mais?
Tenho.
Depois de uma breve hesitação, Tia disse: Muito bem. Posso falar com o unicórnio?
A presença de Tia subiu à superfície, e a mudança de controle pareceu tão natural como se eu tivesse meramente saído do caminho.
— Unicórnio — disse ela. — Sou eu, a leoa. Lily está com vergonha de encontrar um deus vestida desse jeito. Precisamos da sua ajuda.
Nebu inclinou a cabeça, examinando-nos sem piscar.
Leoa, disse ele, inclinando a cabeça com respeito. Você ficou quieta. Quase esqueci que estava aí.
— Fiz o que você pediu — respondeu Tia simplesmente, dando de ombros.
Sim. Agradeço sua paciência durante a viagem.
— E eu agradeço o fato de você não ter levado Lily como uma de suas virgens sacrificiais — disse ela com um risinho.
Nebu roçou o focinho no ombro dela suavemente e Tia se imobilizou, mas insisti para que relaxasse. Ela chegou até a dar tapinhas no focinho dele, meio rígida e desajeitada. Senti orgulho dela.
Não precisa ser tão veemente, observou o garanhão com um movimento brusco da cabeça.
Tia baixou a mão.
— Desculpe. Nunca fiz carinho num unicórnio, nem em qualquer outra criatura, aliás. Meu tipo de carinho geralmente termina em morte. Mas, pelas suas reações quando Lily fez isso, parece que você gostou. Talvez eu estivesse enganada.
Normalmente eu gosto, disse ele, chegando mais perto. Pode tentar de novo, leoa. Se quiser.
Estendendo os dedos outra vez, Tia segurou gentilmente a cara do unicórnio. Depois de um momento, disse:
— Acho estranho você suportar o toque humano.
Você gostaria também, respondeu ele, se estivesse em sua forma antiga.
— Talvez. Mas isso nunca mais acontecerá. — Havia uma leve tristeza em sua voz, e pela primeira vez notei que, quando ela falava, minha voz saía diferente. Era mais gutural, mais áspera, um pouco como se ela tivesse engolido um pedaço de lixa e estivesse tentando falar apesar disso. Pensei em tudo de que ela havia desistido para me tornar o que eu era. Pareceu que dividir o corpo com ela era um preço pequeno.
Depois de um momento, Tia perguntou de novo a Nebu:
— Você pode fazer alguma coisa para nos ajudar?
Não, respondeu ele. Eu não posso fazer nada. Mas você pode fazer uma coisa.
— Eu? O que eu posso fazer? — perguntou Tia, dando um passo para trás.
Vocês são esfinge, respondeu ele com simplicidade. Concentrem-se juntas no que desejam.
— Mas eu não sei exatamente do que Lily precisa.
Então deixe que ela tome a dianteira, mas se abra para permitir que o poder flua através de você.
Tia confirmou com a cabeça e, num piscar de olhos, trocamos de lugar.
Quer ele soubesse ou não que a troca havia acontecido, Nebu nos orientou com paciência: Feche os olhos e pense no que deseja.
Obedeci, visualizando uma roupa limpa e adequada para encontrar Amon-Rá e Hórus. A princípio não notei nada acontecendo. Achei que o calor nos braços era por estar dentro do templo reluzente, mas longo senti a ferroada da areia. Abri os olhos e descobri que estava no meio de uma leve tempestade de areia. Ela girava ao meu redor, raspando minha pele até brilhar.
Os trapos do vestido desapareceram na nuvem e os grãos se aderiram ao meu corpo, formando um vestido novo. Dessa vez, no lugar do verde-jade do escaravelho do coração, eu estava vestida em creme e dourado. Um corpete justo bordado com pedras reluzentes envolvia meu tronco. Tiras de ouro cingiam a cintura. Agora o escaravelho era um broche preso ao ombro direito no vestido, no ponto em que o corpete encontrava a manga, e raios feitos de minúsculas contas verdes se projetavam dele, afunilando-se aos poucos, até sumir totalmente ao chegarem ao cinto.
A saia longa era adornada com penas de pontas douradas presas no tecido, as pontas viradas de modo a fazer com que eu parecesse um pássaro. Quando toquei uma delas, percebi que eram idênticas às de Ísis. Chinelos confortáveis adornavam meus pés e braceletes de ouro tilintavam nos braços. Levando a mão às costas, senti-me reconfortada ao tocar as lanças e as extremidades das flechas emplumadas que se projetavam da aljava.
Meu cabelo era jogado de um lado para outro num ciclone de areia que golpeava os fios até eles ficarem macios e lisos. Os grãos faziam cócegas no couro cabeludo, e logo o cabelo foi enrolado em cachos meio frouxos. Toquei o topo da cabeça, que ainda pinicava, e olhei para um escudo polido que havia na parede. Os últimos traços de areia acima de mim se solidificaram e criaram um adereço de cabeça dourado e com asas, que coroou meu rosto de modo a lembrar uma juba de leão.
Tia ficou satisfeita com esse efeito e alardeou que a última parte havia sido feita por ela. Passei a mão pelo corpete bordado com contas, alisando o tecido sobre os quadris, os dedos se demorando nas penas sedosas.
— Bom, como estou? — perguntei a Nebu.
Igual a uma rainha, respondeu o garanhão. Podemos prosseguir?
Confirmei com a cabeça e fui em frente, confiante, sabendo que agora estava preparada para me encontrar com um deus em condições equivalentes. O barulho de pessoas rindo, de fontes murmurando e música suave nos guiou, e não demorou até encontrarmos a origem de tudo aquilo.
Era uma festa.
Colocando no rosto meu melhor sorriso de “Estou muito feliz em conhecê-lo”, entrei no grande átrio, a mão nas costas de Nebu em busca de apoio moral. A sala estava cheia de coisas lindas – fontes, estátuas, mesas compridas e lustrosas cheias de comidas maravilhosas – e mulheres. Havia mulheres por toda parte.
Ruivas, louras, morenas. Mulheres que pareciam vir da África, da Ásia, da América do Sul, do Alasca, da Rússia, da Polinésia e algumas que pareciam... de outro mundo. Era como um concurso de Miss Universo cheio de figuras altas, graciosas e lindas. Mas havia outra coisa que todas tinham em comum, além da beleza espantosa.
Todas davam atenção, total ou parcial, a uma coisa – um homem, para ser específica – um homem que se reclinava num divã branco e exalava poder. Estava luxuosamente vestido e parecia acostumado a obter o que desejasse. Era tão bonito quanto um ator de Hollywood e tinha plena noção de seus encantos. Era um homem cercado por mulheres solícitas e pelos objetos mais lindos do mundo. E era um homem que estava olhando diretamente... para mim.
— Olá — disse ele calorosamente enquanto me lançava um sorriso vitorioso, um sorriso que provavelmente havia encantado cada mulher que ele já encontrara em sua longa vida. Apesar de não ter se movido em sua posição reclinada, tive a sensação de que a aparência de relaxamento era uma máscara e que num piscar de olhos ele poderia encostar uma faca na minha garganta ou me jogar em cima do ombro e me carregar para longe. Eu não sabia qual das duas opções ele estava mais inclinado a escolher naquele momento, mas, de qualquer modo, soube que esse homem, esse... deus... era perigoso. A covinha no rosto e o brilho malicioso nos olhos eram desconcertantes.
Em vez de responder, apenas assenti com deferência e apertei com mais força a crina de Nebu, que falou: Permita-me apresentar Lily. Ela é uma esfinge recente que deseja uma audiência com Amon-Rá.
Hórus ouviu o que Nebu disse, mas seus olhos jamais se afastaram dos meus. Isso me deixou desconfortável, e a Tia também. O deus está nos encarando, murmurou ela. Ele nos desafia!
Não, respondi. Ele está nos avaliando. Seja paciente.
Hórus se levantou do divã sem dificuldade. Era alto, magro e musculoso, mas não demais, e, enquanto se aproximava, Tia observou que o deus se movia como um gato selvagem, lenta e deliberadamente, o olhar jamais abandonando a presa. Hórus está nos espreitando, sibilou.
Ignorei-a e estreitei os olhos, observando sua expressão libertina e o rosto bonito e anguloso. Meus dedos comichavam para pegar as armas que eu carregava nas costas, mas forcei um sorriso enquanto colocava as mãos nos quadris, mostrando que não sentia medo. Era perfeitamente capaz de me defender.
Quando ele parou a pouca distância e o ar ao nosso redor se tornou denso de expectativa, finalmente inclinei a cabeça e disse:
— É um prazer conhecê-lo.
Um risinho cruzou seus lábios enquanto ele inclinava a cabeça para nos estudar.
— Sim — murmurou ele, num tom de voz intenso dizendo que cada palavra transmitia mil possibilidades. — Muito prazer. — Sem olhar para nada além de mim, levantou os dedos, girou-os com um floreio e disse: — Podem nos deixar. Encontrei minha... distração para a noite. — Ele me lançou um sorriso com calor suficiente para derreter o sol.
Ante essas palavras, todas as mulheres que estavam na sala foram embora tão rapidamente quanto um cubo de gelo no deserto. Engoli em seco, subitamente nervosa, e passei os segundos seguintes dissuadindo Tia de invocar suas garras.
— Você também, Nebu — disse Hórus.
Acho que não, respondeu o garanhão, fazendo o deus finalmente olhar em sua direção. Ela não está aqui para saciar seus apetites, alertou Nebu.
Hórus riu e se virou de novo para mim, segurando ousadamente minha mão e beijando meus dedos.
— Quem sabe então eu não esteja aqui para saciar os dela... — Hórus levantou a cabeça e me deu uma piscadela. Com isso, perdi o controle de Tia. Num segundo minha mão estava sendo beijada por um deus, e no outro eu havia riscado minhas garras sobre sua palma, provocando cortes instantâneos e profundos. Em seguida retirei minha mão da dele. Em vez de sangue, uma luz brotou em cada ferimento, que se curou rapidamente.
O ataque não incomodou Hórus. Na verdade, o efeito pareceu ser o oposto. Aparentemente encantado, ele aproximou-se ainda mais, deslizou a mão pelas garras ainda estendidas, subindo até meu braço nu, e murmurou com ar de sedução:
— Que revigorante! Não há nada que eu goste mais do que uma mulher que oferece um desafio.
Tão rapidamente quanto havia emergido, Tia recuou e eu estava de novo no controle. Dei um passo para trás e o contornei, deixando Nebu às minhas costas, de modo que o deus precisasse se virar para nos encarar.
— O unicórnio está certo. Não viemos aqui para... — revirei a mente em busca de uma palavra que fosse suficientemente clara e ao mesmo tempo não insultuosa — ... nos aquecer em sua glória.
Ele ergueu uma sobrancelha, mas seus lábios se contraíram com humor.
— Então, por favor, me esclareça quanto ao motivo de ter decidido me dar o prazer de sua companhia.
— Estou aqui... nós estamos aqui — corrigi — para pedir permissão de viajar na barca celestial até o mundo dos mortos.
— Ah, sei. — Hórus foi até a mesa e encheu duas taças de ouro. Depois de me entregar uma, ergueu a outra na minha direção e a levou aos lábios carnudos. — Por que ainda está aqui, Nebu? — perguntou com uma leve irritação na voz. — Achei que tinha pedido para você ir embora.
Pediu. Simplesmente quero garantir primeiro a segurança da jovem.
— Você duvida da minha capacidade de ser um bom anfitrião? — perguntou Hórus com uma piscadela marota na minha direção.
Pelo contrário, não tenho dúvida de sua capacidade. Tenho dúvida de suas intenções.
— Entendo. Então o que posso fazer para convencê-lo de que minhas intenções são totalmente honradas?
Pode jurar pelo seu falcão dourado.
Hórus girou para encarar Nebu.
— Você deveria saber, Unicórnio, que não deve desafiar um deus a jurar pela parte dele que lhe foi arrancada. Será que devo fazê-lo jurar pelo seu alicórnio e pelos poderes que você perdeu? Você está indo longe demais, Nebu.
Será que ele está falando do falcão dourado de Amon?, pensei. Se for, ele não parece muito feliz que Amon esteja com ele.
Peço desculpas por tocar em um assunto delicado, disse Nebu a Hórus. Simplesmente sei como o falcão é precioso para você e que, se jurar em nome dele, não vai violar o juramento.
Os ombros largos de Hórus curvaram-se ligeiramente, mas o homem bonito assentiu por fim e agitou as mãos, como se aquilo não tivesse importância.
— Muito bem, juro pelas asas do meu falcão dourado que não vou fazer mal à jovem esfinge nem vou usar meus poderes para influenciá-la de nenhum modo.
Obrigado. Nebu deu alguns passos em minha direção e tocou meu braço com o focinho. Devo partir agora, Lily. Não tenho poder para negar um pedido de Hórus. Mas, caso precise de mim em qualquer momento ou lugar, use o encantamento do seu namorado para me invocar. Virei, se for possível.
— Obrigada, Nebu — falei baixinho.
De nada. Não se esqueça, jovem esfinge, algum dia voltarei para buscar meu presente. O unicórnio esfregou a cabeça em meu braço uma última vez, em seguida abriu as asas grandes e reluzentes e saltou no ar. Subiu até chegar ao teto abobadado do átrio e, com um estalo dos dedos de Hórus, o teto se abriu para o céu noturno e Nebu desapareceu.
Quando ele se foi, Hórus se aproximou de mim, dando a volta até o outro lado do divã onde eu tinha acabado de me sentar, e se estendeu nele outra vez. Segurou minha mão e beijou dos meus dedos agora humanos até meu ombro.
Nervosa, falei:
— Você prometeu a Nebu que não usaria seus poderes para me influenciar.
— Não estou usando meus poderes — disse ele, fazendo cócegas na minha pele com os lábios. — Estou seduzindo-a com meu magnetismo totalmente humano.
— Seja como for, já tenho namorado. Além disso, sua mãe, Ísis, disse que você iria me ajudar.
Hórus suspirou e levantou a cabeça.
— Você não sabe que não se deve falar da mãe de um homem quando ele está tentando deixar uma mulher louca de paixão?
— Não estou nem um pouco louca de paixão.
— É — disse ele, franzindo a testa. — Por que será? Em geral, não tenho tanta dificuldade para convencer uma mulher a sucumbir aos meus encantos.
— Talvez eu não seja tão suscetível quanto as mulheres com quem você costuma andar.
— Não. Não é isso.
— Tenho quase certeza que é.
Ele me olhou com atenção, o queixo cinzelado a centímetros do meu rosto. Se quisesse, poderia ter diminuído a distância entre nós com a facilidade de um pensamento, mas em vez disso seus olhos se estreitaram, como se procurasse alguma coisa embaixo da minha pele. Por um momento pensei que ele estivesse procurando Tia, que talvez a tivesse pressentido dentro de mim, mas que houvesse encontrado outra coisa.
Sacudindo a cabeça ligeiramente, como se estivesse confuso, ele encostou a ponta do dedo no meu queixo, inclinando minha cabeça para um lado e para outro. Apertou as pontas dos dedos contra meu coração e então seus olhos se arregalaram quando olhou para o meu broche.
— O que é isto? — perguntou com uma leve nota de alarme. — Como isto veio parar aqui?
Hórus afastou-se de mim e olhou o escaravelho do coração como se fosse um escorpião mortal.
Apontando o dedo para ele, perguntou:
— Você fez isso de propósito, para me enganar?
— Enganar você? — perguntei, com uma breve risada de preocupação. — Não. — Pus a mão sobre o escaravelho liso e senti o leve tique-taque do coração de Amon. Então, baixinho, sussurrei: — Anúbis me avisou que os imortais reagiriam a ele.
— Claro que reagimos! — disse Hórus rispidamente, a raiva colorindo suas feições bonitas enquanto se punha de pé num salto. — Você quase me prendeu sob o mesmo feitiço que jogou sobre esse pobre coitado sem que ele tivesse consciência. Ele não é uma conquista suficiente para você, esfinge? Precisava acrescentar um deus à sua lista de pretendentes?
— Ei, espere um minuto aí! — protestei, enfurecida por suas alegações e querendo me defender, ainda que o acusador fosse um deus todo-poderoso. Fiquei de pé, erguendo um dedo no ar. — Foi Amon quem teceu o encantamento, não eu. Se houve algum incauto nesta história, fui eu. Você não tem o direito de me culpar de nada. Principalmente quando foi a sua ação, ou devo dizer inação, e a de Amon-Rá que levaram Amon a fazer o que fez, para começo de conversa. Se alguém tem culpa disso, são você e seus amigos deuses!
Hórus se levantou do divã, o peito arfando, os punhos cerrados. Passou uma das mãos com força pelo cabelo castanho cheio, depois se imobilizou, com uma fagulha relampejando nos olhos escuros.
— Pelos poços mais escuros do mundo dos mortos! — murmurou rouco enquanto saltava por cima do divã e me tomava nos braços. Lutei contra ele, mas não conseguia me mexer. Ele roçou os lábios no meu pescoço e gemeu baixinho. — Mesmo agora, sabendo que não é real, descubro que não posso resistir a você. A curva do seu pescoço, a linha do seu rosto, o perfume da sua pele, tudo é inebriante, irresistível. Você não deve se negar a mim, Lily.
Hórus me arqueou sobre seu braço e me deu um beijo dramático, de fazer dobrar os joelhos. Foi passional, hipnótico e poderoso, e, apesar de eu empurrá-lo com força, ele não se deteve de modo algum. Na verdade, meus movimentos pareciam acrescentar mais lenha à fogueira que o alimentava.
Eu estava me debatendo, tentando descobrir como tirar as mãos do espaço entre nossos corpos e passá-las por cima da cabeça para pegar uma das armas, quando uma voz ressoou no átrio, esfriando efetivamente o ardor que dominava Hórus.
A voz autoritária trazia a força de mil sóis:
— O que acha que está fazendo, sobrinho?
E quando Hórus finalmente ergueu a cabeça, com os poços profundos de seus olhos vitrificados de paixão, um trovão ecoou no céu acima de nós.

Um comentário:

  1. horus e o jiraia do naruto todinho rachei de rirr,pq ele nao salva o mundo e pq ta ocupadissimo com orgias kkkkkkk

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