21 de outubro de 2016

10. Vale dos Reis

Na manhã seguinte, Amon bateu de leve na porta do quarto. Quando a abri, tentando afastar o sono dos olhos inchados, encontrei-o não apenas vestido e pronto para o dia, mas também com a aparência tão boa quanto a da véspera. Fechei o roupão bem apertado por cima do pijama novo e tentei ajeitar meus cabelos emaranhados.
Depois de me lançar um olhar frio e neutro, ele perguntou:
— Em quanto tempo você consegue ficar pronta?
— Quinze minutos — respondi, e com as sobrancelhas arqueadas ele assentiu, virou as costas e fechou a porta.
Dez minutos mais tarde, eu estava limpando o vapor do espelho e desembaraçando meus cabelos, aos quais eu havia aplicado bastante condicionador. Dessa vez, a visão das mechas louras não me deu a sensação de impulsividade nem de ousadia; eu as vi, isso sim, como um símbolo do que acontece quando você se joga na vida e as coisas dão errado. Sentia as pernas e os braços pesados, letárgicos, muito provavelmente por conta de uma combinação de privação de sono com a gigantesca refeição que havia devorado no dia anterior.
Escovei os cabelos, afastando-os do rosto com gestos bruscos, e os prendi em um coque apertado na nuca. Ao enfiar no coque alguns grampos que encontrara no meio das compras, fiquei grata pelas espetadelas, considerando-as uma punição por ter me afastado demais da minha zona de conforto. Havia um motivo para minha mãe viver dizendo “É preciso ter moderação em tudo”.
Consumir comidas pesadas demais faz a pessoa se sentir inchada e empanzinada. Não dormir direito esgota a energia.
Apaixonar-se pelo cara errado? Bom, é a receita certa para a desilusão.
Infelizmente, eu iria passar a manhã inteira amargando uma ressaca da comida pesada, da noite mal dormida e da rejeição de um cara lindo. Mas com certeza havia aprendido a lição, e nunca mais iria me entregar a nada disso. Rapidinho eu estaria de volta aos eixos da minha vida prática, chata e perfeita. Meu passeio pelo lado louco da vida tinha terminado em desastre, mas isso não significava que eu não podia pegar uma carona de volta no conhecido vagão da sensatez.
Exatos quinze minutos depois, abri a porta.
— A gente vai voltar para o hotel?
Amon me examinou de cima a baixo, fitando com intensidade os meus cabelos, e torceu o nariz como se considerasse de mau gosto aquele penteado severo.
— Não. Não vamos precisar voltar ao Cairo — respondeu.
— Entendi. Então me dê mais um minuto. — Virei-lhe as costas e pus rapidamente na bolsa as roupas que achei que caberiam em mim, além de umas outras coisinhas do hotel: sabonete, xampu, escova e pasta de dentes, o pequeno kit de costura e, claro, garrafas de água mineral.
Com os braços cruzados diante do peito, Amon me observava.
— Você está brava. Dá para sentir.
— Não é da sua conta — retruquei. Pus a bolsa abarrotada no ombro e abri um sorriso tenso. — Vamos indo.
Ele segurou meu braço quando eu passava por ele.
— Lily, desculpe se magoei você. Mas não posso dar o que você...
Levantei a mão.
— Por favor, não termine essa frase. Não quero ficar ouvindo clichês, e não tenho o menor interesse em escutar a sua interpretação do que eu quero. Já superei isso. Então não vamos mais falar no assunto. Pode ser?
Avaliando minha reação com seus olhos cor de avelã, ele concordou:
— Se você prefere assim.
— Prefiro. Agora podemos ir?
Fui até um espaço mais aberto na saleta e estendi os braços para podermos desaparecer em uma nuvem de areia, mas ele me ignorou e em vez disso foi até uma bandeja e ergueu uma redoma. O prato exalou vapor.
— Não quer comer primeiro, Lily?
— Não. Mas obrigada por perguntar com educação em vez de me dar uma ordem.
— Lily, quer você admita ou não, o seu corpo está tendo que se esforçar para sustentar nós dois. Você está esgotada.
— Não é nada. Eu não dormi bem, só isso.
— É mais do que isso.
Ele chegou mais perto. Perto demais. Minha respiração se acelerou e tentei recuar, mas ele me segurou pelo braço.
— Fique parada — instruiu em voz baixa.
Com as duas mãos, segurou-me as faces, e as pontas de seus dedos roçaram os cabelos nas minhas têmporas. Um calor desceu pelo meu pescoço e escorreu pelos ombros até os braços e pernas, derramando-se feito uma lava viscosa. Um rubor quente permaneceu quando ele escorregou as mãos até meu pescoço, e tive quase certeza de que isso não se devia apenas a seus poderes mágicos de cura.
Enquanto ele me fitava nos olhos, comecei a chorar.
— O que você fez comigo? — perguntei, incerta sobre a natureza exata da minha pergunta.
Amon enxugou uma lágrima com o polegar e passou os outros dedos pelo meu rosto. Então suspirou profundamente e se afastou.
— Mais do que eu deveria — respondeu, misterioso. Pegou vários pedaços de fruta e levou uma maçã ao meu nariz. — Você vai comer isto aqui mais tarde. Embora eu vá me conter para não “forçá-la” a comer, considere meu incentivo como sendo de natureza firme.
— Ok, que seja — murmurei, sem me comprometer, guardando a fruta na bolsa já abarrotada.
Enquanto eu lutava com o zíper, Amon pegou a bolsa e passou a alça transversalmente pelo peito largo antes de abrir os braços. De cabeça baixa, entrei no seu abraço. Ele sussurrou algumas palavras em egípcio antigo e a areia começou a rodopiar em volta de nossos corpos.



A luz do sol logo nos cercou e pôs-se a brilhar com força através das minhas pálpebras fechadas. Esperei a areia se dissipar.
Isso pareceu levar mais tempo do que o normal, mas, quando entreabri ligeiramente os olhos, percebi que se tratava de uma brisa natural que agitava a areia da duna sobre a qual tínhamos nos materializado.
— Chegamos, jovem Lily — anunciou Amon.
Acho que eu estivera esperando um templo no estilo Indiana Jones ou algo assim, mas aquilo com que deparamos parecia mais uma mina da indústria de exportação de poeira ou uma jazida de pedras em ruínas. Minhas botas de cano curto já estavam cheias da areia fina.
Amon me conduziu duna abaixo, com meus pés, em alguns pontos, afundando na areia até os tornozelos. O vale surgiu.
Entre as colinas baixas havia um bem cuidado sítio arqueológico. Pilhas de pedra bruta e cascalho solto haviam sido feitas, grandes o suficiente para ficarem parecidas com montes funerários.
O dia já estava muito quente, e afastei a camiseta do corpo para me abanar e fazer o ar circular um pouco. Já com sede, peguei na bolsa uma garrafa d’água, tomei praticamente a metade e ofereci a outra a Amon. Ele recusou e alegou que eu precisava mais do que ele, de modo que esvaziei a garrafa mais ou menos ao mesmo tempo em que chegamos ao fundo do vale. Juntamo-nos a um grupo de turistas que se dirigia ao que parecia ser um pequeno mercado. Vendedores haviam montado mesas e barracas para vender suvenires variados. Amon se afastou para avaliar os arredores enquanto eu entreouvia um guia turístico explicar como comprar ingressos.
Peguei um dos mapas que ele começou a distribuir, sorri e cumprimentei com a cabeça uma mulher de meia-idade ao meu lado, que comentou:
— Não é emocionante? Eu sempre quis vir ao Egito. Meu marido finalmente comprou as passagens para o nosso trigésimo aniversário de casamento.
— Parabéns — balbuciei enquanto examinava o seu perfil.
Ela e o marido seriam uma dupla interessante de se desenhar. A mulher tinha cabelos ruivos encaracolados que começavam a ficar grisalhos nas raízes. Usava-os presos em um rabo de cavalo frouxo, e uma viseira de plástico barata protegia seus olhos. O marido tinha uma careca queimada de sol, usava uma bermuda cargo que pendia abaixo da barriga saliente e exibia uma barba típica de quem está de férias. Mas não foi a aparência deles que me deixou fascinada, e sim a forma como interagiam um com o outro.
Enquanto a mulher conversava facilmente com desconhecidos, o homem permanecia calado ao seu lado, rindo das piadas dela apesar de eu ter certeza de que já as tinha escutado várias vezes. E, quando ele esqueceu onde tinha posto os óculos e começou a apalpar os bolsos, ela lhe disse sem sequer olhar na sua direção:
— Na sua cabeça, querido. — A mulher estalou a língua. — O que você faria sem mim?
— Eu nunca vou querer descobrir — respondeu o homem sorrindo. — Vamos?
Com isso, o casal partiu rumo à sua aventura na tumba egípcia, depois de pagar um preço que considerei excessivo por uma lanterna e um punhado de cartões-postais.
Amon finalmente voltou e me tirou da fila.
— Arrumei um mapa — declarei, levantando o papel.
— O mapa de que eu preciso vai estar dentro das tumbas.
— Sério? Como funciona isso?
— As tumbas são todas interligadas, e em cada uma há instruções sobre como chegar à seguinte.
— Tem certeza? Porque todos dão a entender que só existem pequenos grupos de tumbas. Ninguém falou em autoestrada nenhuma lá embaixo.
— Tenho certeza. Descobri uma entrada que não é tão frequentada. Vamos começar por lá.
— Ok, você vai na frente.
Amon tomou o rumo de uma das entradas e eu fui atrás, tentando entender o mapa.
— Aqui está dizendo que todas as câmaras funerárias que foram descobertas estão identificadas por números conforme a data em que foram encontradas. Por exemplo, a tumba do rei Tut é chamada de VR62, ou seja, Vale dos Reis 62. Houve boatos de que a mais recente de todas, VR63, poderia ser a câmara funerária da mulher que se acreditava ser a mãe do rei Tut, Kiya, mas no fim das contas essa câmara era apenas uma caverna de armazenagem, cheia de aparatos para mumificação. Você conheceu o rei Tut? Pessoalmente, quero dizer?
— Esse nome não me soa familiar.
— Ah, o nome completo dele era Tutancâmon. Ele foi um faraó-menino.
— A pronúncia correta é Tut-ank-a-MUN. Tut significa “imagem ou semelhança de”. Ankh significa “vida”. E Amun representa o deus do sol Amon. Portanto, Tutancâmon significa “a imagem viva do deus do sol Amon”, e, respondendo à sua pergunta, não. O reinado dele deve ter acontecido enquanto eu estava dormindo.
— Não estou entendendo. A imagem viva do deus do sol não é você?
— Eu fui imbuído, presenteado com uma parte do poder de Amon-Rá para poder cumprir meus deveres, mas não sou o deus do sol personificado. Era comum os líderes do Egito se alinharem com um ou outro deus. Os faraós faziam isso por dois motivos. Em primeiro lugar, eles acreditavam que, se pegassem para si os nomes dos deuses, receberiam ajuda divina, mas, talvez ainda mais importante, isso também consolidava a lealdade do seu povo. Eles faziam com que rejeitar um faraó significasse rejeitar a divindade. Isso ajudava a impedir discórdias e rebeliões.
— Mas ele não sabia sobre você?
— Quem?
— O rei Tut.
— Com o decorrer dos séculos, passou-se a considerar mais seguro que os líderes da época não soubessem da nossa presença. Não queríamos ser vistos como uma ameaça ou uma forma de incitar revoltas caso as pessoas ficassem insatisfeitas com a política em vigor. Nosso objetivo era apenas proteger o país da escuridão, não governar.
— Então por que você é recebido com banquetes e música?
— Sempre existiu um grupo de sacerdotes que transmitia de geração em geração o conhecimento em relação a nós. Eles se certificavam de que fôssemos bem cuidados quando despertássemos, de que nossas tumbas ficassem protegidas e de que os rituais fossem cumpridos. As pessoas que comemoravam nossa volta eram as mais humildes, os pobres. Eram elas que guardavam nosso segredo, não quem estava no poder. Embora cada despertar seja diferente, esses sempre foram os nossos protetores.
— Então, como o seu sarcófago foi levado embora, você está dizendo que alguém parou de vigiar.
Amon deu de ombros como se aquilo nada significasse, mas pude ver que minhas palavras atingiram o alvo.
— Esta agora é uma outra época — disse ele após alguns instantes. — Talvez neste mundo eles tenham esquecido.
Paramos diante da entrada de uma caverna quase totalmente coberta. Consultei o mapa.
— Essa daí se chama VR29. Segundo o guia, é provável que seja só um duto de ventilação que ainda não foi escavado e está cheio de entulho.
— Exatamente o que estou procurando.
Amon começou a arrancar as tábuas da entrada com uma força digna de um deus.
— Hã... talvez eu seja meio claustrofóbica — falei, nervosa. — Só para você saber. Além disso, estou sem lanterna. E sem corda. E sem equipamento de escalada. E ainda não fiz meu último desejo! — gritei enquanto ele desaparecia dentro do buraco escuro.
Esticando a cabeça para fora outra vez, Amon estendeu a mão.
— Você não vai morrer, jovem Lily. Vou estar ao seu lado.
Cautelosa, cheguei mais perto, esquivando-me das tábuas podres que talvez escondessem pregos enferrujados. Deveria ter tomado um reforço de antitetânica, e certamente uma dezena de outras vacinas, antes de embarcar naquela viagem doida. E se as meninas do meu colégio me vissem agora? Minhas colegas tremeriam com seus sapatos de grife diante da ideia de caminhar pelo deserto e entrar em uma tumba ainda não escavada. Eu podia ver que minha pele estava ficando queimada, e havia grãos de areia entre meus cabelos. Se acabasse o dia apenas com esses fatores irritantes, me consideraria uma pessoa de sorte.
Percorremos somente uns cinco metros no interior da tumba, a luz da entrada ainda iluminando o caminho, quando deparamos com um muro de pedras soltas.
— Como pretende passar por aí, exatamente? — perguntei. — Por um túnel?
A poeira grossa que tínhamos levantado me fez tossir, e tomei um gole d’água para limpar a garganta.
— Vou ter que usar meu poder. Prepare-se.
— Me preparar? Para quê?
Ele não respondeu, mas ergueu as mãos no ar e fechou os olhos. Um ronco sacudiu a caverna e quase me derrubou.
— Segure-se em mim, Lily! — gritou.
Não hesitei, e na mesma hora o abracei pela cintura e enterrei o rosto no seu peito. No entanto, não pude resistir a virar só um pouquinho a cabeça, o suficiente para ver a magia que ele havia provocado.
Pedras e entulho se moviam e se erguiam no ar. No início foi só uma fina camada, mas depois o cascalho solto começou a subir e até as pedras mais pesadas se moveram em seus leitos. Amon seguiu murmurando coisas em egípcio antigo, e o entulho subiu mais ainda e passou por nós na forma de uma nuvem de poeira que espetava a pele. Em seguida vieram os seixos: disparados pelo ar feito balas, eles irromperam pela entrada da caverna, arrancando as tábuas remanescentes que a tapavam e derramando-se em cascata do lado de fora da tumba, onde logo formaram uma grande pilha.
Amon mudou o foco para as pedras maiores e fez um esforço. Elas não se moviam tão depressa quanto o entulho mais leve, e ele teve que removê-las uma a uma. As duas últimas eram enormes rochedos, e Amon nos imprensou contra a parede áspera e me apertou com força de encontro ao seu corpo enquanto as pedras passavam. Pude senti-lo tremer ao guiá-las.
Com um baque forte, os rochedos bateram na entrada e bloquearam toda a luz do sol.
— Acho que não vamos sair pelo mesmo lugar por onde entramos — murmurei, enquanto Amon se curvava, ofegante.
A respiração dele ecoava pelo espaço escuro, e senti sua mão agarrando a minha.
— Desculpe, Lily, mas eu preciso de você.
— Tudo bem, estou aqui. O que você... — Interrompi a frase com um grito quando Amon começou a drenar energia de mim. Dessa vez foi muito diferente. Antes a sensação era de uma drenagem gradual, mas aquela sucção foi abrupta, dolorosa, como se alguém estivesse passando um aspirador de pó nas minhas entranhas.
Após alguns instantes de agonia, Amon parou de me drenar, mas continuou ofegante.
— Lily? — chamou ele. — Como está se sentindo?
Leves tremores ondulavam sob a minha pele. Estar praticamente cega não ajudava em nada, e, para completar, comecei a sentir uma forte claustrofobia.
— Nada bem — arquejei, com a sensação de que ia vomitar. — Da próxima vez seria legal me avisar.
— Mas eu avi...
— Deixe para lá. Ai, que dor. — Meu corpo inteiro doía. — É normal isso?
— Quanto mais tempo permanecermos conectados, pior vai ser a dor quando eu pegar emprestada a sua energia.
— Nossa, que fantástico.
Minha nuca começou a latejar.
— Vou tentar poupar você o máximo possível.
— Obrigada — murmurei secamente. Tateei às cegas dentro da bolsa, achei um frasquinho de analgésico e engoli alguns comprimidos com água. Amon grunhiu. — Você também está com dor? — perguntei.
Ele expirou com força enquanto se recostava na parede.
— Estou. Sinto dor quando gasto uma grande quantidade de energia sem ter absorvido o poder contido nos meus vasos canópicos. A natureza da nossa conexão faz com que eu sinta a sua dor também.
— Golpe duplo é isso aí. Me dê sua mão.
Estendi a minha e a bati em seu peito. Subi até o ombro, desci pelo braço e segurei sua mão, que abri na minha.
Depositei alguns comprimidos na palma, contei-os, recolhi os três excedentes e lhe entreguei a garrafa d’água na outra mão.
— O que é isso? — quis saber ele.
— Um remédio do meu mundo. Vai ajudar com a dor de cabeça.
Com um grunhido, Amon pôs os comprimidos na boca e mastigou.
— Que gosto horrível — falou, cuspindo.
— Não é para mastigar. É para engolir inteiro. — Guardei o frasco de volta na bolsa e tateei até encontrar seu braço. — Mas como exatamente vamos nos virar sem luz?
— Vamos descer pelo duto.
— Como? Não estou vendo nada.
— Eu consigo ver no escuro. — Ele se virou para mim, e duas luzes bruxuleantes se materializaram no breu, bem no lugar onde deviam estar seus olhos. Aquilo me fez pensar nos olhos dos animais à noite, quando ficavam parecidos com refletores.
— Isso é meio sinistro. Quer dizer que você tem visão noturna?
— Eu chamo de brilho no olhar.
— Certo. Então a ideia é eu seguir você? Como uma cega?
Os olhos brilhantes de Amon se viraram para o outro lado, em seguida de volta para mim. O efeito foi fantasmagórico. Tive a sensação de estar em um lugar assombrado.
— Talvez esse não seja o jeito mais eficaz — admitiu ele, relutante.
— Vai ser íngreme? — perguntei.
— Talvez. Depende de qual era a finalidade do duto.
Ele se virou devagar e passou o braço pelo meu.
— Pensei que fosse um duto de ventilação — falei, e comecei a caminhar ao seu lado com passos hesitantes, testando como me mover na escuridão fechada em um lugar desconhecido.
Agarrei-me ao seu braço musculoso como se fosse uma boia salva-vidas.
— Alguns são. Muitas vezes havia dutos secretos abertos para os sacerdotes que cuidavam de nossos lugares de descanso. Eles mantinham acesas as lamparinas funerárias e traziam comida e outras coisas de que achavam que talvez fôssemos precisar caso despertássemos.
O salto da minha bota escorregou em uma pedra redonda e cambaleei. Amon me equilibrou passando um braço em volta dos meus ombros. Seu outro braço estava agora na minha frente, para eu poder me agarrar a ele como à barra de segurança de uma montanha-russa.
— Os sacerdotes não sabiam que vocês só despertavam uma vez a cada mil anos? — perguntei quando recomeçamos a andar.
— Às vezes havia registros, e eles sabiam exatamente quando iríamos despertar, mas outras vezes erravam por várias centenas de anos. — Depois de avançar apenas uns quatro metros, ele se virou e esfregou as palmas das mãos de leve nos meus braços. — Como está se sentindo, Lily? Ainda com dor?
— Já passou, praticamente. Estou só cansada.
— Sinto que não vamos avançar depressa o bastante se você não conseguir ver.
— Certo. E como a gente vai resolver isso?
Em vez de responder, ele começou a entoar um cântico, e o forte sotaque de sua voz ecoou nas paredes. Aos poucos, comecei a distinguir o ambiente à minha volta. Dei um arquejo ao ver que a luz não provinha de uma tocha, lanterna ou varinha mágica, mas diretamente da pele de Amon. Todo o seu corpo reluzia com uma leve claridade amarela que iluminava a câmara à nossa volta, mas que não era tão ofuscante a ponto de eu não conseguir olhar para ele.
— Caramba — murmurei, admirada.
Amon estava lindo. Glorioso. Parecia um anjo resplandecente. Seus olhos brilhavam como se pedras de âmbar verde ardessem lá dentro. Ele tinha dito que era apenas a personificação de Hórus e Amon-Rá, e que antes disso era apenas um simples mortal igual a mim, mas não poderia haver nada nem ninguém mais magnífico ou digno de adoração. Em sua forma normal, ele já era suficientemente atraente, mas, se tivesse aparecido desse jeito no Egito antigo, a civilização inteira teria se prostrado a seus pés.
Sem parecer reparar no meu assombro, ele apenas inclinou a cabeça e me estendeu a mão. Segurei-a e pensei que era assim que Lois Lane devia se sentir quando o Super-Homem propunha levá-la para voar. Nesse instante, senti que toda a dor, todo o risco e todo o transtorno com certeza valiam a pena se a contrapartida fosse estar nos braços de um homem como Amon.
Mesmo que ele não estivesse interessado em mim. Mesmo que eu fosse uma reles garota mortal tentando acompanhar um homem dotado de poderes divinos. Mesmo que o tempo passado com ele fosse apenas porque ele precisava de mim.
Prometi a mim mesma que iria aproveitar cada minuto enquanto durasse. Estava vivendo um sonho e tendo a melhor experiência da minha vida. Jamais esqueceria aquilo enquanto vivesse.
Deixei que ele tomasse a dianteira, e avançamos um bom pedaço. O ar estava opressivo, quente, e, apesar da maravilhosa distração representada por Amon, estar no meio de um deserto no Egito começou a me oprimir. O suor se acumulava no meu pescoço e na base das costas. Com a mão livre, abanei a camiseta para agitar o ar junto ao rosto. Pedi a Amon que parasse; precisava beber mais água.
— Você não está suando nada? — perguntei, em tom de acusação, enquanto bebia com sofreguidão.
— Estou acostumado com o calor do Egito. Comparado com a vida do outro lado, o sol do deserto é tão confortável quanto a primavera.
— Essa vida do outro lado está parecendo mais o inferno.
— Ela tem seus... desafios — respondeu ele, misterioso. Passou alguns instantes estudando meu rosto. — Eu posso ajudar — falou, desviando os olhos —, se você quiser.
— Vai doer?
— Não. Talvez deixe você um pouco esgotada, mas não vai haver dor.
— Então pode fazer.
Amon deslizou um braço pela minha cintura, me puxando para perto, e encostou a cabeça no meu pescoço.
— O que... o que você está fazendo, Drácula? — gaguejei, nervosa, totalmente consciente das gotas de suor que escorriam devagar pelo meu pescoço exatamente para onde estavam os seus lábios. — Pensei que você fosse uma múmia, não um vampiro.
Amon soprou meu pescoço de leve, e a sensação fez meu corpo praticamente inteiro se arrepiar.
— Você tem que ficar imóvel, Lily — sussurrou ele, e seu hálito fez cócegas no meu ouvido.
— Hã, ok.
Ele sussurrou mais alguma coisa e encostou os lábios no meu pescoço quente. Embora eu tenha soltado um gritinho, permaneci rígida e imóvel, e tentei lembrar a mim mesma que a deliciosa sensação daqueles lábios prontos para serem beijados roçando o meu pescoço não tinha nada a ver com romance. Percebi que, embora o calor da caverna tivesse começado a diminuir, o calor que Amon estava criando entre nós, por menos intencional que fosse, já tinha estourado o termômetro.
O suor do meu rosto e dos braços esfriou, e o ar à minha volta se tornou úmido como uma floresta no Oregon, uma bem-vinda mudança em relação ao deserto seco no qual de fato nos encontrávamos.
— Você tem gosto de mel do deserto derretido — murmurou Amon junto ao meu pescoço.
Sem conseguir mais ficar parada, deslizei as mãos pelos braços dele até os ombros, mas ele na mesma hora se empertigou e levantou a cabeça. A ânsia de puxá-lo para mais perto outra vez foi muito forte. Mas, em vez disso, perguntei:
— O que você fez?
— Suguei o excesso de calor do seu corpo e o absorvi no meu. Tenho uma grande tolerância ao calor.
— Isso é o eufemismo do ano — balbuciei enquanto ele se afastava.
Sem ele ao meu lado, na verdade eu agora sentia frio, e não tive certeza se a sensação se devia ao fato de ele ter removido calor demais do meu corpo ou se eu simplesmente ansiava pelo seu calor.
— Obrigada — falei e, apesar de desapontada com sua reação abrupta ao meu toque, não pude conter o sorriso de satisfação que se estampou no meu rosto. — Estou me sentindo bem melhor.
Ele avaliou minha expressão e respondeu friamente:
— De nada. Vamos, Lily.
Chegamos a uma bifurcação no duto e ele parou para consultar alguns hieróglifos. Apontou para os vários símbolos.
— Este é o mapa. Para quem faz apenas uma leitura literal, ele conta histórias sobre faraós e batalhas, mas para os poucos que sabem da nossa existência existe um código oculto. Está vendo a meia-lua?
— Estou.
— É um sinal do meu irmão. Significa que a tumba dele está escondida em uma antecâmara perto do líder egípcio mencionado aqui.
— Qual é o nome dele?
— Do meu irmão ou do líder?
— Do líder.
— Não sei. Ele é reconhecido pela imagem. Preciso encontrar a câmara funerária desse homem, e o fato de a lua estar à sua direita significa que a antecâmara do meu irmão pode ser encontrada do lado direito desse homem.
— Mas, se essa múmia tiver sido descoberta, ele vai ter mudado de lugar. Como vamos saber em que posição estava?
— Haverá uma porta escondida marcada com o sinal do meu irmão, a meia-lua. Se não conseguirmos distinguir qual porta fica do lado direito, procuraremos o sinal, mas é provável que haja mais indicações na tumba desse líder.
— Então vamos para a direita ou para a esquerda? Anúbis mandou o cone funerário da sua tumba, certo? Nesse caso, a gente não deveria procurar a sua tumba primeiro?
Amon mordeu o lábio.
— Vamos começar explorando a velha tumba do meu irmão. Se ele estiver lá, podemos despertá-lo depressa e ele pode me ajudar a encontrar nosso outro irmão. Além do mais, nada neste mapa indica onde eu posso ter sido encontrado.
Amon nos conduziu para a direita, e em pouco tempo o duto iniciou uma descida acentuada.
— Como vamos chegar lá embaixo? — indaguei. — Descer de skate? De escorrega? Num vagão de mina?
— O que são essas coisas? — perguntou Amon.
— Skate é uma prancha de madeira com rodinhas sobre a qual as pessoas andam. Vagões são pequenas carruagens que correm sobre trilhos, e escorrega é um brinquedo de criança. Em geral, é feito de metal ou plástico liso e tem areia na base para que os pequenos não se machuquem ao aterrissar.
— Vou escolher o escorrega.
— Espere um instante. Lá embaixo está cheio de calombos, buracos e pedras. Não vai ser propriamente uma viagem tranquila.
— Pode me passar uma garrafa d’água, Lily?
Entreguei-lhe uma das garrafas e, para minha consternação, em vez de beber, ele despejou o conteúdo inteiro no duto.
— Que desperdício. Essa água estava ótima — resmunguei.
— Preciso usar um pouco de poder de novo, Lily, mas desta vez estou avisando.
— Ok, tudo bem. Pelo menos eu sei o que esperar.
— Sim — disse ele, e desviou o olhar.
Senti uma emoção brotar dentro dele. Era uma emoção amarga, como arrependimento misturado a uma determinação ferrenha. Em pé diante do duto inclinado, ele começou a entoar um cântico, e ouvi o silvo da areia se movendo dentro do túnel. O silvo foi ficando mais alto e mais agitado à medida que pedrinhas e entulho começavam a se sacudir. Curiosa, cheguei mais perto e espiei lá dentro. Um redemoinho parecia se formar dentro do duto. Tudo girava, cada grãozinho de areia e cada pedra, mais e mais depressa. As pedras e os seixos se moveram a uma velocidade progressivamente maior, até eu conseguir distinguir apenas listras pretas, cinzentas e marrons.
Um barulho que no início soou seco, feito sapatos rodando dentro de uma secadora, começou a ficar mais regular e, depois de vários minutos, Amon segurou meu braço e me fez ficar atrás dele. Com um gesto de sua mão, o que ainda havia dentro do túnel passou voando por nós e foi explodir na parede mais distante. Enquanto Amon apoiava a mão no duto inclinado, de olhos fechados, cheguei perto e encostei a palma da mão na sua bochecha.
Ele fez a mão deslizar pelo meu braço acima até segurar a minha e abriu os olhos brilhantes.
— Pegue o que precisar — ofereci.
— Vou tentar não machucá-la — prometeu ele.
A drenagem da minha energia dessa vez foi menos invasiva, mas mesmo assim me senti oca. Aquilo deixou em mim um profundo vazio, uma fome que eu não tinha certeza se podia ser saciada. Não era de espantar que Amon gostasse de um banquete. Se alguém houvesse posto uma mesa de banquete na minha frente naquela hora, eu teria me jogado sobre a comida feito um animal faminto.
Graças ao funil de vento gerado por Amon, o duto antes quadrado agora havia se tornado quase circular. Eu não sabia muito bem o que a água tinha feito. A quantidade me parecia insignificante demais para ter auxiliado o processo, mas mesmo assim ele conseguira o que queria. Agachei-me na borda e passei a mão pelo lado de dentro do duto: estava lisinho; as pedras que o revestiam eram regulares, planas e polidas.
Amon se agachou ao meu lado.
— Não sei se o duto inteiro é liso como o seu escorrega, então você vai descer em cima das minhas pernas.
Senti-me pouco à vontade de repente.
— Acho que prefiro me arriscar atrás de você.
— Não vou permitir que você se machuque mais, Lily.
— Não, sério. Está tudo bem. Eu vou ficar bem.
— Lily, não me obrigue a forçá-la. — Amon se posicionou no alto do duto e estendeu as mãos. — Venha — chamou.
— Para um deus, você sabe ser bem mandão, não é? — resmunguei.
— Eu não sou um deus. Sou um...
— Ok, ok. Eu já sei. Você só é dotado de poderes, blá-blá-blá. Vamos acabar com isso logo de uma vez.
Sem jeito, sentei-me nas pernas dele, e sem hesitar ele puxou meu corpo contra o seu, ajeitando minhas pernas para que ficassem por cima das suas. Cruzou meus braços sobre o peito e passou um braço por cima dos meus, deixando a outra mão livre para dar impulso.
— Pronta? — murmurou no meu ouvido.
— Na medida do possível — grunhi.
A sensação esquisita se transformou em um medo frio misturado com empolgação. Com os dois braços agora em volta do meu corpo para me proteger, Amon deu um grito bem alto. O ar nos chicoteava à medida que descíamos, e tive a sensação nauseante de estar em queda livre. Sem conseguir me conter, gritei, enquanto a risada de Amon ecoava em meus ouvidos. Ocorreu-me que, se sobrevivêssemos àquela experiência toda, seria divertido levá-lo a um parque de diversões.
O duto ficou mais íngreme e o pé-direito mais baixo, então Amon inclinou o corpo para trás e pude sentir sua musculatura abdominal se retesar contra as minhas costas. Como a minha bochecha estava encostada na dele, tive uma boa visão do teto vindo na nossa direção. Fiquei com medo de que, se o pé-direito se tornasse baixo demais, ficássemos entalados em um túnel que certamente nos rasgaria ao meio na velocidade em que estávamos.
Quando tive certeza de que o teto iria arrancar meu nariz, o pé-direito aumentou de novo e o declive começou a diminuir. De repente, o escorrega debaixo de nós sumiu, e meu grito ecoou em um espaço que devia ser muito maior.
Amon, que não estava mais rindo, me apertou com mais força ainda junto ao peito e aterrissamos com força sobre uma pilha de areia. Embora ele tenha suportado a maior parte do impacto, manteve-me segura em seus braços enquanto rolávamos pela areia até finalmente pararmos com o corpo dele por cima do meu, me pressionando contra o chão pedregoso.

3 comentários:

  1. Isto está ficando quente quente !
    Ass: Bina.

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  2. Gente.... não é que tudo ficou quente de repente?

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