25 de outubro de 2016

10. O Lugar Onde os Sonhos Nascem

Estendi a mão e Nebu aproximou-se, encostando o focinho nela. Assim que o ar úmido expelido por seu focinho fez cócegas na palma sensível da minha mão, Tia tomou posse completa do meu corpo, retirou a mão bruscamente e buscou as lâminas nas minhas costas. Num piscar de olhos, levou o gume afiado de uma minilança até o grande pescoço do garanhão dourado, encostando a ponta de uma segunda no peito dele.
— Fique longe de nós, Despojado — disse ela rispidamente para o cavalo reluzente.
Tia! O que está fazendo?, sussurrei, tentando recuperar o controle do meu corpo. Ele está aqui para nos ajudar.
— Ele não está aqui para nos ajudar! — gritou ela. — Este... unicórnio — ela sibilou a palavra, como se fosse uma coisa feia e odiosa — está aqui para raptá-la. Você obviamente não entende o que ele é capaz de fazer.
Do que você está falando? Ele não é um unicórnio. É um cavalo. Ok, ele é um cavalo egípcio mágico praticamente indestrutível e possivelmente feito de areia, mas é um cavalo. Você nunca viu um cavalo antes?
— Claro que já vi cavalos. Não sou um filhote, Lily. E ele é tanto um cavalo quanto eu sou um gatinho doméstico. Você não consegue ver?
Ver o quê?
— O lugar onde ficava o alicórnio dele?
Olhei mais atentamente para Nebu, e havia uma espécie de brilho apagado saindo de um ponto no centro da sua cabeça, mas, como todo o seu corpo reluzia, eu havia presumido que aquela fosse uma parte especialmente lustrosa de seu pelo.
O que é um alicórnio?, perguntei.
— O corno, o símbolo de seu poder. Isso foi tirado dele, como foi de todos da sua espécie. É por isso que o chamei de Despojado. É um insulto a todos os unicórnios. Eles não gostam de ser lembrados de sua vergonha.
Vergonha?
O garanhão balançou a cabeça e bateu as patas no chão.
O que é isso? Quem é você?, gritou mentalmente, agitando a cauda, irritado.
Tia ignorou a pergunta dele e gritou:
— Lily não é a virgem frágil que você está procurando!
O que eu estou procurando? Não estou procurando nada!, zombou ele. Poderia esperar enigmas da sua parte, Senhora Esfinge, mas suas palavras cortam fundo, e não fiz nada para merecer os abusos que você lança sobre mim. Vim aqui apenas como um favor para o rapaz que detém o Olho de Hórus. Seria muito mais fácil mandar um dos meus filhos, mas ele implorou com tanta eloquência e expôs as virtudes de sua amada com tanta emoção que decidi que queria conhecê-la pessoalmente. Basta dizer que estou desapontado. E Zahra, minha filha que carregou você até o oásis, também falou muito bem a seu respeito.
— Não precisamos de você nem do seu tipo de ajuda especial. Procure uma inocente em outro lugar, porque não vai colocar a cabeça no colo desta virgem!
Nebu nos encarou como se fôssemos uma criatura que ele nunca tinha visto antes e afastou-se, trotando até uma certa distância.
Tia! Primeiro, não gosto do modo hostil como você dominou meu corpo, principalmente sem que houvesse um mínimo aviso. Segundo, você não tem nada que falar com ninguém sobre minha virgindade ou a falta dela, especialmente com um cara, quero dizer, um cavalo. Eu preferiria não ver o fato de que ainda sou virgem – já que meu namorado múmia praticamente não encostou a mão em mim até sua morte precoce – ser anunciado aos quatro ventos. Não que eu tenha vergonha nem nada. Mas precisamos estabelecer algumas regras sobre o que cada uma de nós vai e o que não vai revelar em público sobre a outra. Terceiro, o que aconteceu com você? Por que está agindo assim? Qual é o seu problema com os cavalos ou unicórnios?
— Não vou falar disso aqui. Especialmente na frente dele. Ele é perigoso, Lily. Você não sabe como a espécie dele pode ser monstruosa.
Agora Nebu circulava à nossa volta, sacudindo a cabeça para cima e para baixo. Suspeitei de que o único motivo para ele ainda não ter ido embora era Amon, e eu sabia, nas profundezas da alma, que precisávamos dele. Ver que Tia estava feliz em afastá-lo, e que brandir as facas só dava mais motivos a ele, só piorava as coisas. Eu precisava dar um jeito na situação.
Tia, implorei. Nós precisamos da ajuda dele. Se ele não nos levar aonde precisamos ir, Amon vai morrer. O mundo vai acabar. O Caos vai reinar. Você não quer isso. Sei que não quer. Você precisa confiar em mim. Prometo que não vou fazer nada sem consultar você primeiro.
— Eu confio em você — murmurou ela baixinho, muito mais calma agora que o garanhão havia se afastado.
Ótimo. Então me devolva o controle.
Ela hesitou apenas por um momento, mas, assim que tomou a decisão de ceder, eu percebi.
Sentindo-se ligeiramente culpada, Tia recuou para o fundo da minha mente e se escondeu feito um gatinho embaixo da cama.
— Espere! — gritei, novamente no controle da minha voz.
Apressei-me a guardar as lanças nas costas e estendi a mão para o cavalo, que se afastava.
Ele se aproximou com cautela, desconfiado, como um potro relutante querendo uma guloseima, então recuou depressa, quase sentando-se nas patas traseiras. Relinchando, sacudiu a cabeça, como se algo o incomodasse.
Não sei qual é o seu jogo, jovem esfinge, mas não tenho o hábito de oferecer meus serviços a qualquer um.
— Eu sei. Desculpe.
Dando alguns passos lentos em sua direção, estendi os dedos, e ele diminuiu a distância.
Quando pareceu suficientemente confortável, dei tapinhas em sua cara e ele pressionou a cabeça contra meu ombro, em resposta.
Seu hálito era quente no meu cabelo.
Pode falar, disse ele em minha mente.
— Eu tenho uma passageira comigo — expliquei. — E ela parece preocupada e um tanto temerosa com relação às suas intenções.
Tia sibilou, mal-humorada e infeliz com o fato de eu dizer que ela estava com medo.
Passageira? O que quer dizer com isso?
Pigarreei, desconfortável, e, torcendo as mãos, disse:
— O encantamento para me transformar em esfinge deu certo, mas a consciência da leoa que se fundiu comigo para alcançarmos esse poder ainda é parte de mim.
O garanhão saltou e eu recuei depressa enquanto ele empinava nas patas traseiras, pisoteando o ar e relinchando alto. Seus cascos escavaram a areia, levantando-a até ela estar tão agitada quanto ele. Você trouxe uma leoa para cá? Isso é inaceitável. Remova-a do seu corpo imediatamente.
— Removê-la? — Ri, desconfortável. — Mesmo se eu pudesse, e não posso, não faria isso.
O cavalo virou a cabeça para me olhar.
Agora entendo por que você disse as coisas que disse. Ele soltou um suspiro profundo. Me desculpe então, Inocente, mas, por mais que goste do seu amigo, não posso levá-la nessa viagem. Ele se virou para ir embora, balançando a cauda.
— Não vá! — gritei, e pus a mão em suas costas. — Por favor — implorei. — Nós duas sabemos que não podemos alcançar o objetivo sem a sua ajuda.
Senti que ele não estava tão ansioso para nos deixar quanto estivera um momento atrás.
Não gosto de leões, disse o garanhão por fim, sem dúvida agoniado com a ideia de nos largar ali. Mas, se ela permanecer quieta durante a viagem, concordo em levar você até Duat.
Dei-lhe alguns tapinhas, feliz, e beijei seu focinho morno.
Se você concordar em me dar um presente, acrescentou ele, ajoelhando-se diante de mim.
No mesmo instante em que murmurei “Claro”, Tia gritou na minha mente: Não!
Mas era tarde demais. O trato estava feito. Ela soube disso e irrompeu em soluços torrenciais.
Rezei para que meus instintos estivessem certos.
Quando montei no unicórnio, pensei em quanto tinha sido tola por achar que estava preparada. Não havia como prever uma coisa assim. Agora minha vida era uma loucura linda, maravilhosa, imprevista, não profetizada. Essa era uma das coisas que me atraíam para Amon. Existia uma beleza no inesperado, e quanto mais eu fazia parte disso, mais ansiava por ela. Jamais seria a mesma garota de novo, o que não me incomodava tanto quanto eu achava que deveria incomodar.
Nebu se levantou e eu agarrei sua crina com força enquanto ele ia até o túmulo descoberto.
Apesar da incerteza e do perigo que havia adiante, eu estava disposta a enfrentá-los. Não olhei para trás. Nem para o Dr. Hassan. Nem para a paisagem africana. Nem para o mundo que eu conhecia. Nem para a garota que eu tinha sido. Lilliana Young não existia mais. Eu era uma pessoa, uma coisa totalmente nova.
Ele vai trair sua confiança, disse Tia, interrompendo meus pensamentos.
Mas Amon prometeu mandar ajuda, respondi. Ele não mandaria alguém que nos fizesse mal.
Os unicórnios apenas se servem dos vulneráveis e inocentes, murmurou ela, mal-humorada.
Tem certeza de que ele é mesmo um unicórnio?, perguntei ainda em dúvida.
Ela deu um suspiro impaciente.
Vou contar a história deles quando estivermos sozinhas. Não quero que ele ouça meus pensamentos.
Certo, falei secretamente a ela. Vamos tomar cuidado.
Segure-se com força para não cair e não se perder na Terra Intermediária, disse Nebu.
— Terra Intermediária? — perguntei, mas não houve tempo para ele responder porque nesse momento empinou e saltou na bolha escura que tínhamos aberto no túmulo. E o mundo que conhecíamos ficou para trás. Com um estalo, a bolha se fechou à nossa volta e eu não consegui ver nada nem ouvir nada além da respiração poderosa do garanhão em disparada.
Apertei os olhos com força, enroscando os dedos na crina sedosa ao mesmo tempo que apertava as coxas contra os flancos dele, rezando para não cair. A última coisa que eu queria que acontecesse era terminar perdida no abismo onde estávamos.
Depois do que me pareceu uma hora, vi luz à frente e aceleramos na direção dela. A claridade cresceu e um solo rochoso se materializou adiante. Seguimos rápidos como um relâmpago e, com um estalo dos cascos trovejantes de Nebu que ecoou no céu, tocamos o solo. Fachos cor-de-rosa e roxos, laranja e amarelos se filtravam na paisagem pedregosa, iluminando-a suave e serenamente, com um levíssimo toque de cor.
O terreno me fez lembrar dos grandes cânions rochosos do Velho Oeste. Cumes rosados se erguiam sobre platôs em forma de ferradura feitos de arenito e xisto, provavelmente formados por rios antigos e sedimentos coloridos de lagos. Pálidas listras de minerais de diferentes cores enfeitavam cada pico e cada monte de pedra. Passamos por arcos amplos e formações rochosas impossíveis, tão erodidas que era um espanto que ainda continuassem de pé.
Não vi sinais de vida selvagem nem de pessoas, mas havia plantas e árvores que brotavam de fendas e por trás de arcos. O cheiro fresco de um deserto logo depois de uma tempestade me alcançou. Ainda que a paisagem estivesse banhada por uma luz suave, o céu era escuro, iluminado apenas pelos milhares de estrelas no alto, e percebi que a qualidade onírica da luz em tons pastel no terreno sépia havia sido criada por elas.
— É lindo. Você vive aqui? — perguntei.
Não. Isto faz parte da Terra Intermediária. Passamos pela primeira barreira e entramos na segunda. Este é o Lugar Onde os Sonhos Nascem.
— Interessante. Então nós vamos dormir?
Não! Dormir no Lugar Onde os Sonhos Nascem é abrir mão da vida e virar sonho. Você deixará de existir, a não ser que um mortal a evoque no sono.
Isso não pareceu muito ruim quando parei para pensar. Era um bom modo de morrer, se fosse preciso. Além disso, eu podia esperar que Amon sonharia comigo pelo menos de vez em quando.
É imperativo que você permaneça acordada enquanto estivermos neste lugar, avisou Nebu.
— Então talvez você devesse nos contar uma história — sugeri, dando-lhe tapinhas.
Certo, vou contar uma das minhas prediletas: a história de Geb e Nut.
Enquanto ele me regalava contando a história que eu já conhecia, eu escutava a voz de Amon, e não a de Nebu. Fechei os olhos e visualizei seu rosto bonito, os lábios perto do meu ouvido, enquanto Nebu narrava a história de um deus e uma deusa e de um amor tão forte que foi necessário um poder imenso para separar os dois seres. Mesmo assim, com os vastos céus entre os dois, eles se agarraram um ao outro pelas pontas dos dedos e seus olhares permaneceram sempre fixos na pessoa amada. Enxuguei uma lágrima que escorria do canto do olho e, antes que percebesse, Nebu esticou as pernas, alongando o passo.
— O que está acontecendo? — gritei.
Chegamos à outra extremidade do Lugar Onde os Sonhos Nascem. Passamos pela segunda barreira e vamos atravessar a terceira e última. Estamos na queda.
— Na queda? Como assim, “na queda”?
Antes que ele pudesse explicar mais, vi exatamente o que queria dizer. O duro terreno sépia empoeirado terminava abruptamente e além dele não existia nada, exceto a noite cravejada de estrelas, como se tivéssemos chegado ao fim do mundo. Um lugar onde os navios despencariam da borda da Terra para o desconhecido.
— Nebu! — gritei.
Tia berrou dentro da minha cabeça e, se tivesse garras, ela as teria cravado na minha coluna.
Vai ficar tudo bem, Senhora Esfinge. Segure firme, disse o unicórnio.
Com isso, os músculos das costas do garanhão se moveram embaixo de mim e grandes asas douradas brotaram atrás das minhas pernas. Com um imenso impulso, os cascos de Nebu deixaram o chão assim que chegamos à beira do penhasco. Ele saltou para o céu, as pernas se movendo e as asas pesadas batendo contra o vento, levando-nos para o alto.
Eu estava nas costas de um unicórnio, um garanhão imortal do deserto. Não me sentia diferente de Belerofonte, que ousou montar seu amado cavalo, Pégaso, para subir até o monte Olimpo e confrontar os deuses. Ele fracassou e foi derrubado na jornada, mas eu não deixaria que isso nos acontecesse. Com os olhos arregalados, examinei o céu. Nosso destino estava em algum lugar adiante, logo depois das estrelas.

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