25 de outubro de 2016

1. Trégua

— Amon!
Acordei com um susto, o pulso disparado, até que aos poucos o pesadelo foi se dissipando. Eu passara a deixar o abajur aceso perto da cama porque os horrores que dominavam meus sonhos continuavam a assombrar o quarto escuro quando eu acordava. Alguma criatura terrível o havia encurralado, soltando um guincho de satisfação, o hálito pútrido ardendo no meu nariz quando sua língua se projetava para lamber o sangue de um corte no ombro de Amon. Tudo parecia real demais.
Tremendo, abracei meu corpo, deslizei para fora da cama e fui para meu local preferido na varanda que dava para o Central Park. Ali, passei a mão na cabeça da estátua do falcão empoleirada no parapeito.
A ave me lembrava Amon em sua forma de falcão dourado e, quando o sol a aquecia, o calor armazenado na escultura de metal parecia perdurar, mesmo tarde da noite enquanto eu andava pelo quarto, sem conseguir dormir. Ela me acalmava quando eu a tocava e me permitia visualizar Amon como o tinha deixado pela última vez, e não como o homem ferido e cheio de dores que aparecia nos meus sonhos.
Ele estava perdido para mim. Eu sabia. Tinha consciência de que deveria tentar ir em frente, talvez tentar namorar outra pessoa, mas a lembrança do meu príncipe do sol egípcio encarnado era difícil de superar. Amon não era perfeito, mas chegava bem perto disso. Agora mesmo eu podia facilmente visualizá-lo perto de mim – a pele dourada aquecida pelo sol, o brilho nos olhos cor de avelã e aquele sorriso secreto escondido atrás dos lábios bem desenhados e altamente sedutores.
Suspirando, me debrucei no parapeito e olhei o parque. Eu estava apaixonada por um cara que tinha séculos de idade e que, no momento, mofava num sarcófago decorado com desenhos complexos fabricado por Anúbis em pessoa. Sua metade espírito, a metade que deveria estar no paraíso enquanto ele aguardava a próxima vez que seus serviços seriam necessários, assombrava meus sonhos.
Das duas uma: ou ele estava com problemas sérios, ou havia algo profundamente errado comigo desde que voltara do Egito. Mas as criaturas que eu via nos sonhos eram muito mais horrendas do que as que eu poderia inventar. Eu não era tão criativa assim. Pior ainda do que minhas suspeitas de que Amon corria perigo era o fato de eu não poder contar isso a ninguém. Ninguém sabia de sua existência.
Bom, isso não era de todo verdade. O Dr. Hassan sabia, mas ele morava do outro lado do mundo. Eu tinha escrito para ele quando voltei para casa, e sua resposta empolgada me fez sorrir, mesmo tendo certeza de que ele devia ter deduzido o que acontecera quando não encontrou meu corpo na pirâmide depois de Amon e seus irmãos terem salvado o mundo. Eu me sentia mais do que honrada por ter participado daquilo tudo, embora enganar Amon para fazê-lo usar a minha energia tenha quase me matado.
Demorei um mês para receber uma resposta do Dr. Hassan, apesar de todo dia checar ansiosamente a caixa postal que tinha alugado para nossa correspondência secreta. Ele disse que eu não me preocupasse, que Amon gozava da proteção dos deuses, que ele, Hassan, havia escondido os irmãos muito bem e que eu deveria sentir orgulho dos sacrifícios que tinha feito para manter o mundo em segurança.
Suas cartas praticamente se resumiam a isso. E foram ficando cada vez mais sucintas à medida que o tempo passava. Era como se ele também quisesse que eu simplesmente esquecesse tudo que havia acontecido e seguisse com a minha vida. Mas como eu poderia? Amon assombrava meus sonhos. Não que eu não ficasse feliz em vê-lo. Eu ficava, sim. Mas os horrores que ele enfrentava eram suficientes para fazer qualquer garota, até mesmo uma que tinha visto tudo o que vi, sair correndo para o hospício mais próximo.
Meus pais estavam preocupados. Embora eu tentasse agir como se estivesse levando uma vida normal, minha insônia começava a ficar perceptível. Eles não tinham a menor ideia de que eu havia quase morrido, me apaixonado por uma múmia linda de morrer (sem trocadilho) que voltara à vida e passado umas férias no Egito. O fato de eu ter conseguido chegar ao fim do ano escolar sem que as notas caíssem foi um feito enorme.
Eles não sabiam da minha experiência com Amon no Egito e de quanto isso havia me transformado. Eu mesma não sabia quanto tinha mudado até voltar para casa. Pensei que estariam evidentes no meu rosto toda a emoção, todo o trauma, toda a... morte, mas meus pais só notaram o cabelo. Meu cabelo castanho, liso e comum agora estava cheio de mechas louras em diferentes tons.
Eles não gostaram.
A primeira coisa que minha mãe disse foi:
— Onde você estava com a cabeça?
Na mesma hora pegou o telefone e deu uma bronca no nosso cabeleireiro, que não tinha nada a ver com a história mas assim mesmo liberou a agenda imediatamente para reparar o “dano”. Eu expliquei a ela, em voz baixa porém firme, que gostava do meu cabelo como estava e que minha intenção era mantê-lo assim. Dizer que eles ficaram chocados com meu pequeno ato de rebeldia seria um eufemismo.
Assim como protestaram contra minha decisão de manter as mechas louras, recusaram com veemência quando pedi que me chamassem de Lily em vez de Lilliana. Como resultado, comecei a me sentir uma estranha em minha própria casa. Para manter a paz, disse que iria para a faculdade que eles quisessem, contanto que me permitissem passar o verão na fazenda da minha avó, em Spring Lake, no estado de Iowa. Achei que não tinha mais importância aonde eu iria estudar, e esse arranjo serviu para aplacar os temores incitados pelo novo tom do cabelo.
Assim que recebi a carta de aceitação eles me deixaram em paz, o que significou que eu podia lamentar a perda de Amon sem que ninguém notasse. Os meses foram passando e logo chegou a formatura do ensino médio.
Quando me olhei no espelho na manhã da colação de grau, fiquei arrasada ao ver que meus reflexos dourados, a última prova tangível do toque de Amon, estavam desbotando. Nesse ritmo, no Natal já teriam sumido. Assim, me permiti chorar um bocado antes de tomar banho e me vestir para a cerimônia.
Se minha mãe notou meus olhos muito brilhantes, provavelmente atribuiu ao fato de eu estar abalada por deixar a escola. A verdade era que eu não estava nem aí para a escola. Não estava nem aí para a faculdade nem para os outros garotos. Não estava nem aí para mais nada.
Logo chegou a hora de eu partir para as férias de verão, e fiquei surpresa com o fato de meus pais quererem me levar ao aeroporto. Talvez tenham notado mais do que eu pensava, ou talvez só estivessem nostálgicos porque eu estava crescendo e deixando o ninho. Qualquer que fosse o motivo, o clima no carro durante o trajeto foi meio esquisito.
Olhei meu reflexo na janela.
Meus olhos estavam grandes e sem brilho, o cabelo enrolado num coque perfeito apertado na nuca e os lábios esticados numa linha fina e dura, rígida feito uma régua. Na verdade, eu estava parecendo uma professora severa. Um sorrisinho levantou o canto da minha boca quando imaginei quanto Amon odiaria meu cabelo desse jeito. Ele o preferia solto e rebelde.
Depois das despedidas discretas e de alguns abraços tensos, meus pais me entregaram ao caos do aeroporto. Lá dentro, uma profusão de emoções me atingiu ao mesmo tempo. Lembrei-me de quando estive ali com Amon, poucos meses antes, e de como, com um aceno e um sorriso charmoso, ele conseguia que qualquer um fizesse o que ele queria.
Embarquei no avião e prendi o cinto, lembrando de como até mesmo as ações mais corriqueiras, como ajustar o cinto de segurança, eram completamente novas e estranhas para Amon. Embora eu tentasse não pensar nele, aparentemente essa era a única coisa que eu conseguia fazer, e quando fechei os olhos, acalentada pelo barulho do avião, fui parar de novo no mundo de Amon.
Ele não estava lutando contra um monstro, o que foi um alívio, mas tinha um ferimento feio na coxa, que fazia o sangue escorrer na calça justa. Respirando fundo, ele rasgou o tecido no local e enrolou o ferimento com as ataduras que havia criado a partir da areia. Uma espécie de armadura estava largada ao lado dele, e Amon tirou uma túnica antes de mergulhá-la numa pequena piscina natural e esfregá-la nos braços e no pescoço. Esperei que as preciosas gotas que escorriam pela lateral de uma pedra bastassem para aplacar sua sede e limpar o ferimento. O lugar era muito desolado e seco.
Ainda que a visão de seu peito nu me distraísse, a expressão de seu rosto chamou ainda mais a minha atenção. Ele estava exausto e com muita dor, e não somente física. Imaginei se Amon sentia tanto a minha falta quanto eu a dele.
— Amon? — sussurrei, involuntariamente.
No sonho ele se imobilizou e olhou em volta, os olhos brilhando na escuridão com uma luz verde iridescente. Apesar de ele nunca ter conseguido me ouvir antes, eu ainda tentava. Um dia talvez ele escutasse. Depois de um instante, Amon relaxou os ombros, acomodou-se com as costas apoiadas numa pedra e fechou os olhos. O peito nu subia e descia num ritmo que foi ficando mais lento à medida que os minutos passavam, e então algo mudou.
Enquanto seu corpo continuava a dormir, uma pressão suave me envolveu.
— Lily? — Ouvi a voz familiar e contive um soluço.
— Amon? Está me ouvindo? — perguntei à escuridão etérea.
— Sim. Estou ouvindo, Nehabet.
— Isto está acontecendo mesmo?
Ele não respondeu imediatamente, mas por fim disse:
— Queria que não estivesse.
— O que está acontecendo com você? — perguntei, desesperada. — Por que está sofrendo? Achei que você estivesse no além. Achei que estivesse em paz. Por que vive atormentado, noite após noite?
— Não estou mais sob a proteção dos deuses. Abri mão da minha condição.
— Não entendo. O que isso significa?
— Que prefiro sofrer a continuar fazendo o que eles mandam.
— Mas, se você não salvar o mundo, quem vai fazer isso?
— Eles vão encontrar outro para me substituir.
— Ainda não entendo. Eles estão castigando você?
Eu não só ouvi o seu suspiro como também o vi.
— Eles não escolheram isso para mim. Fui eu que decidi andar por este caminho.
— É um caminho muito difícil, Amon. Seus irmãos não podem ajudar?
— Estamos separados. Não há nada que possam fazer por mim agora.
— Detesto ver você desse jeito.
— Eu sei. Desculpe por lhe causar dor. Não achei que nosso vínculo seria tão forte. — Ele parou um momento antes de acrescentar: — Você também está sofrendo, Lily.
Com amargura, falei com a voz abalada:
— Não tanto quanto você.
— Não. Não tanto quanto eu. Mas mesmo assim está sofrendo. A culpa é minha. Foi a minha solidão que causou isso.
— Não foi o seu desejo por uma conexão humana que causou isso. Foram os deuses. Eles não entendem. Todo mundo precisa ser amado. É totalmente natural.
Ele deu uma risada irônica.
— Eu já fui humano um dia, Lily. Mas agora sou uma coisa totalmente diferente. Abri mão da minha humanidade em prol do bem maior.
Um trovão ressoou no céu acima da forma imóvel de Amon, nuvens pesadas movendo-se como um oceano agitado. Raios cruzaram o firmamento e seu corpo acordou com um sobressalto. Senti a perda de sua presença, como se um cobertor quente fosse arrancado de cima de mim. Com o chão tremendo, ele se levantou, cansado, e invocou a armadura feita de areia para que envolvesse seu corpo. Então ergueu o rosto para o vento enquanto fechava os olhos e dizia:
— Eu te amo, Lily. Mas está na hora de você acordar.
Ele correu para a escuridão, indo enfrentar alguma fera que o esperava, enquanto suas palavras ecoavam em minha mente.
— Eu também te amo — sussurrei, mesmo sabendo que ele não me escutava mais.
Senti um cutucão no ombro e alguém disse:
— Acorde, senhorita. O avião já pousou.

3 comentários:

  1. Não sei pq, mas quando falo em voz alta "Nehabet" me lembro do som da palavra "rabanete"...penso na Kells e no Ren kkkkkkk

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    1. Verdade kkkkkkk
      ASS: Letícia

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  2. Kkkkkkk vddd,kkkkk
    . Celinha

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