16 de outubro de 2016

Cinquenta e cinco - Margaridas em formato de elfo

ASSIM QUE SAÍMOS do escritório de Helgi, os corvos levaram Sam para outra escadaria. Ela olhou para nós com inquietação, mas Helgi tinha deixado bem claro que não havíamos sido convidados.
Alex deu meia-volta e saiu andando na direção oposta.
— Ei — chamei. — Aonde você...
Ela se virou, os olhos tão furiosos que não consegui terminar a pergunta.
— Mais tarde a gente conversa, Magnus — disse ela com a voz sombria. — Eu tenho que... — Ela fez um gesto de estrangulamento com as mãos. — Até mais tarde.
Fiquei apenas com Blitzen e Hearthstone, que oscilava, quase caindo de sono.
— Vocês querem...?
— Dormir — completou Blitzen. — Por favor. Imediatamente.
Eu os levei para o meu quarto. Nós três acampamos na grama do átrio, o que me lembrou de antigamente, quando dormíamos no Public Garden. Mas não vou dizer que sentia saudade de ser sem-teto. Não ter casa não é uma coisa da qual uma pessoa em sã consciência sentiria falta. Mesmo assim, como falei, era bem mais simples do que ser um guerreiro imortal e ter que perseguir deuses fugitivos pelos nove mundos e ter conversas sérias enquanto um esquilo monstruoso fazia careta na janela.
Hearthstone apagou primeiro. Ele se encolheu, suspirou e adormeceu na mesma hora. Quando estava imóvel, apesar das roupas pretas, ele parecia se misturar com as sombras da grama. Talvez fosse camuflagem élfica, um resquício da época em que eles eram mais ligados à natureza.
Blitz encostou-se a uma árvore e olhou para Hearth com preocupação.
— Nós vamos ao O melhor de Blitzen amanhã — disse ele. — Vamos reabrir a loja. Passar algumas semanas tentando nos recuperar e voltar ao... bem, ao que quer que possa ser entendido por normal. Antes de termos que procurar... — A perspectiva de ir atrás de Loki outra vez era tão assustadora que ele nem conseguiu terminar a frase.
Eu me senti culpado por não ter pensado na dor de Hearthstone nos últimos dias. Estava preocupado demais com o martelo-TV idiota de Thor.
— É uma boa ideia — falei. — Álfaheim foi difícil para ele.
Blitz uniu as mãos perto de onde a espada Skofnung o havia perfurado.
— É, estou preocupado com os assuntos pendentes de Hearth por lá.
— Eu queria ter ajudado mais — confessei. — Ajudado vocês dois, na verdade.
— Que nada, garoto. Algumas coisas têm que ser feitas por nós mesmos. Hearth... ele tem um buraco em formato de pai no coração. Você não pode fazer nada quanto a isso.
— O pai dele nunca vai ser um cara legal.
— Não mesmo. Mas Hearth precisa aceitar isso. Mais cedo ou mais tarde, ele vai ter que voltar e enfrentá-lo... pegar a runa de herança de volta, de uma forma ou de outra. Mas quando e como isso vai acontecer...
Ele deu de ombros, impotente.
Pensei no tio Randolph. Como é que se decidia que alguém era um caso perdido? Quando uma pessoa era tão má ou tóxica ou determinada a fazer as coisas do próprio jeito que tínhamos que simplesmente aceitar o fato de que nunca mudaria? Quanto tempo dava para insistir em salvar alguém, e em que momento desistíamos e sofríamos como se aquela pessoa tivesse morrido para nós?
Para mim, era fácil aconselhar Hearthstone sobre o pai dele. O cara era terrível. Mas meu tio, que me deixou morrer, enfiou uma espada no meu amigo e libertou o deus do mal... Mesmo assim não conseguia esquecê-lo.
Blitzen deu um tapinha na minha mão.
— O que quer que aconteça, garoto, estaremos prontos quando você precisar de nós. Vamos resolver isso e acorrentar Loki de novo, mesmo que eu tenha que fabricar essas correntes.
— As suas seriam bem mais estilosas.
O canto da boca de Blitz tremeu.
— É. Seriam mesmo. E não se sinta culpado, garoto. Você agiu bem.
Eu não tinha tanta certeza disso. O que eu havia feito? Sentia como se tivesse passado seis dias andando de um lado para outro, tentando manter meus amigos vivos e minimizar as consequências do plano de Loki.
Imaginei o que Samirah diria: Já chega, Magnus. Ela provavelmente apontaria que eu tinha ajudado Amir. Que conseguira curar Blitzen. Que tinha ajudado o esquadrão de Thor a entrar na fortaleza dos gigantes para recuperar o martelo. Que jogara boliche de um jeito irado com Alex, o elefante-africano.
Mesmo assim... Loki estava livre. Tinha machucado Sam. Destruíra a confiança dela. E tinha também aquele detalhe de os nove mundos estarem correndo perigo. Serem jogados no caos e tal.
— Eu me sinto péssimo, Blitz — admiti. — Quanto mais eu treino, quanto mais poderes aprendo... parece que os problemas só ficam dez vezes maiores do que consigo resolver. Algum dia isso vai parar?
Blitz não respondeu. O queixo estava apoiado no peito. Ele estava roncando baixinho.
Coloquei um cobertor sobre meu amigo. Fiquei sentado por muito tempo, vendo as estrelas por entre os galhos da árvore e pensando em corações partidos.
Pensei no que Loki estaria fazendo agora. Se eu fosse ele, estaria planejando a vingança mais cruel que os nove mundos já viram. Talvez fosse por isso que Vidar, o deus da vingança, parecia tão gentil e quieto. Ele sabia que não era preciso muita coisa para começar uma reação em cadeia de violência e morte. Um insulto. Um roubo. Uma corrente rompida. Thrym e Thrynga guardaram ressentimento por gerações. Foram usados por Loki não uma, mas duas vezes. E agora, estavam mortos.
Não me lembro de ter adormecido. Quando acordei na manhã seguinte, Blitz e Hearth já tinham partido. Um canteiro de margaridas floresceu onde Hearth havia dormido; talvez fosse o jeito dele de dizer tchau, obrigado, até breve. Eu ainda estava deprimido.
Tomei banho e me vesti. Escovar os dentes pareceu ridiculamente normal depois dos últimos dias. Eu estava quase saindo para o café da manhã quando reparei em um bilhete debaixo da minha porta, na caligrafia elegante de Samirah:

Precisamos conversar. Thinking Cup? Ficarei lá a manhã toda.

Saí para o corredor. Gostei da ideia de deixar Valhala um pouquinho. Eu queria conversar com Sam. Queria um bom café mortal. Queria me sentar ao sol e comer um bolinho de chocolate e fingir que não era um einherji com um deus fugitivo para capturar.
Aí, olhei para o outro lado do corredor.
Antes de sair, eu precisava fazer mais uma tarefa difícil e perigosa. Precisava ver como Alex Fierro estava.

* * *

Alex abriu a porta e me cumprimentou com um alegre:
— Some daqui.
O rosto e as mãos de Alex estavam sujos de argila úmida. Olhei lá dentro e vi o projeto no torno.
— E aí, cara...
Entrei no quarto. Por algum motivo, Alex permitiu.
Toda a cerâmica quebrada tinha sido removida. As prateleiras estavam cobertas de novos vasos e tigelas, secando e ainda sem brilho. No torno tinha um vaso enorme, com quase um metro, em formato de troféu.
Sorri.
— É para Sif?
Alex deu de ombros.
— É. Se ficar bom.
— É um presente irônico ou sério?
— Você vai me fazer escolher? Sei lá. É que... me pareceu certo dar algo a ela. Primeiro, eu a odiei. Ela me fazia lembrar minha madrasta, cheia de frescura e estressada. Mas... talvez eu devesse pegar leve com Sif.
O vestido de noiva dourado e branco estava em cima da cama, ainda manchado de sangue, a barra suja de lama e com manchas de ácido. Mesmo assim, Alex o esticou com cuidado, como se fosse uma coisa que valesse a pena ser guardada.
— Magnus, por que você veio aqui?
— Hum... — Achei difícil me concentrar. Olhei para as fileiras de vasos, todos perfeitos. — Você fez todos ontem?
Peguei um.
Alex o tirou das minhas mãos.
— Não, você não pode tocar neles. Valeu por perguntar, Magnus. Sim, a maioria foi feita na noite passada. Não consegui dormir. A cerâmica... faz eu me sentir melhor. Agora você ia dizer por que veio aqui e sair logo do meu pé, não é?
— Vou me encontrar com Sam em Boston. Pensei...
— Que eu podia querer ir com você? Não mesmo. Quando Sam estiver pronta para conversar, ela sabe onde me encontrar.
Alex voltou até o torno, pegou uma espátula e começou a alisar as laterais do troféu.
— Você está com raiva dela.
Alex continuou alisando o troféu.
— É um vaso bem impressionante — falei. — Não sei como você consegue fazer uma coisa tão grande sem que desmorone. Tentei usar um torno na aula de artes do quinto ano. O melhor que consegui foi um calombo torto.
— Um autorretrato, então?
— Ha-ha. Só estou dizendo que queria saber fazer uma coisa tão legal.
Não houve resposta imediata. Talvez porque eu não tivesse deixado muito espaço para um insulto inteligente.
Finalmente, Alex levantou o rosto, hesitante.
— Você cura as pessoas, Magnus. Seu pai é um deus prestativo. Você tem uma... coisa ensolarada, calorosa, simpática em você. Não é legal o suficiente?
— Eu nunca tinha sido chamado de ensolarado.
— Ah, por favor. Você finge ser todo durão e sarcástico, mas é um manteiga-derretida. E, respondendo sua pergunta, sim, estou com raiva de Sam. Se ela não mudar de atitude, não sei se vou conseguir ensinar a ela.
— A... resistir a Loki.
Alex pegou um pouco de argila e espremeu.
— O segredo é estar à vontade com a metamorfose. O tempo todo. Tem que transformar o poder de Loki em seu poder.
— Como a sua tatuagem.
Alex deu de ombros.
— A argila pode ser modelada e remodelada uma porção de vezes, mas, se ficar seca demais, se estiver acomodada... é impossível trabalhar com ela. Quando chega a esse ponto, é melhor ter certeza de que esteja no formato que você quer que fique para sempre.
— Você está dizendo que Sam não consegue mudar.
— Não sei se ela consegue, nem se ela quer. Mas sei do seguinte: se ela não me deixar ensinar como resistir a Loki, se não quiser ao menos tentar... na próxima vez que o enfrentarmos, estaremos perdidos.
Soltei um suspiro.
— Tá, boa conversa motivacional. Nos vemos no jantar.
Quando cheguei à porta, Alex disse:
— Como você soube?
Eu me virei.
— Soube o quê?
— Quando você entrou, disse cara. Como soube que eu era garoto?
Eu pensei a respeito. Primeiro, me perguntei se foi só um comentário habitual, um cara sem especificidade de gênero. Mas, analisando um pouco mais a fundo, percebi que captei mesmo o fato de Alex estar masculino. Ou melhor, de que Alex estava. Agora, depois de conversarmos alguns minutos, Alex definitivamente parecia feminina. Mas eu não fazia ideia de como tinha percebido isso.
— Foi só minha natureza perceptiva, eu acho.
Alex riu com deboche.
— Sei.
— Mas agora você é garota.
Ela hesitou.
— É.
— Interessante.
— Pode ir embora agora.
— Você vai fazer um troféu para minha perceptividade?
Ela pegou um pedaço de cerâmica e jogou em mim.
Fechei a porta bem na hora que o objeto a acertou por dentro.


13 comentários:

  1. Definitivamente, Alexnus! Ou Magnax?

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    1. Magnax não faz sentido acho que o melhor é Malex

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  2. A cara né possível que eles não fiquem juntos???!!! eu super shippo eles, mas que nome se da pra esse shippe Magnus x Alex??? Alguma ideia???

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  3. O shipp é tão grande <3

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  4. Sabe aquela coisa do(a) Alex de "tenho alguns dias femininos, outros muito masculinos..."?
    Então, só eu achei mt "😏😏😏" o fato de "ele" mudar para "ela" DURANTE A CONVERSA??? 💜💜💜
    E, principalmente, Magnus "percebendo" q Alex era garoto e depois virou garota? 😄😄😄

    🤗🤗🤗

    Ass.: Mutta Chase Hayes

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  5. Aquele momento que eu já quero fic Ashuashua
    Melhor casal (também me apaixonei pela/o Alex)

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  6. "reparei em um bilhete debaixo da minha porta, na caligrafia elegante de Samirah:

    Precisamos conversar. Thinking Cup? Ficarei lá a manhã toda.

    Saí para o corredor Gostei Da Ideia De Deixar Valhala Um Pouquinho "

    Eu acho q ele tinha acabado de chegar...

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  7. Shippo mt Malex😍💜💖

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  8. "Alex abriu a porta e me cumprimentou com um alegre:
    — Some daqui." KKKKKKKKKKKKK Parece eu quando eu to dormindo ou fazendo algo importante e alguém fica batendo na porta.
    Malex/FierroChase é tão maravilhoso 💚

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  9. Caçadora de sombras26 de novembro de 2016 19:29

    Ah cara! Ah cara! Malex tem que ser real!!!! Se n meu coração n aguenta!!

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