6 de setembro de 2016

Capítulo um


Já disseram que o mundo é uma lagoa calma, e que toda vez que alguém faz uma coisa, por mais ínfima que seja, é como se uma pedra caísse nessa lagoa e espalhasse círculos de ondulações cada vez mais distantes, até que o mundo inteiro ficasse alterado por uma minúscula ação. Se isso for verdade, então o livro que você está lendo agora poderia perfeitamente cair numa lagoa. As ondulações se espalhariam pela superfície da lagoa e o mundo mudaria para melhor, com uma história assustadora a menos para as pessoas lerem, e um segredo escondido a mais no fundo das águas, onde a maioria das pessoas jamais pensaria em procurar. A narrativa desventurada dos órfãos Baudelaire estaria segura nas profundezas das águas tenebrosas, e você seria mais feliz por não ler a história assustadora que escrevi, e em vez disso poderia olhar para a espuma ondulante que se ergue até o topo do mundo.
Os próprios Baudelaire, viajando por entre as ruas tortuosas da cidade onde os órfãos outrora viveram, no assento traseiro de um táxi dirigido por uma mulher que mal conheciam, teriam ficado felizes em pular dentro de uma lagoa se soubessem que tipo de história teriam pela frente. Violet, Klaus e Sunny olhavam pelas janelas do carro, admirados ao ver quão pouco a cidade havia mudado desde que um incêndio destruíra seu lar, tirara a vida de seus pais, e criara ondulações na vida dos Baudelaire que provavelmente jamais se acalmariam.
Quando o táxi dobrou uma esquina, Violet avistou o mercado onde ela e os irmãos compravam os ingredientes para preparar o jantar do conde Olaf, o notório vilão que se tornara tutor deles depois do sinistro. Mesmo tendo passado todo esse tempo – e Olaf sempre tentando, de um modo ou de outro, pôr as mãos na enorme fortuna que os pais dos Baudelaire haviam deixado –, o estabelecimento parecia igual ao que era quando a juíza Strauss, uma bondosa vizinha, magistrada da Corte Suprema, os levara lá.
Elevando-se acima do mercado havia um enorme e lustroso edifício que Klaus reconheceu como o da Avenida Sombria 667, onde os Baudelaire passaram algum tempo sob os cuidados de Jerome e Esmé Squalor, em um enorme apartamento de cobertura. Ao Baudelaire do meio parecia que o edifício não mudara nem um pouquinho desde que os irmãos descobriram pela primeira vez a pérfida e romântica ligação de Esmé com o conde Olaf.
E Sunny Baudelaire, que ainda era pequena o bastante para que a sua visão através da janela ficasse algo restrita, ouviu o estrépito de uma tampa de bueiro quando o táxi passou por cima dela, e lembrou-se de quando havia descoberto com os irmãos uma passagem subterrânea que, partindo do porão da Avenida Sombria 667, levava até os remanescentes cinéreos de sua própria casa. Tal como o mercado e a cobertura, o mistério dessa passagem permanecia, muito embora os Baudelaire tivessem descoberto uma organização secreta conhecida como C.S.C. que acreditavam ser a responsável pela construção de muitos túneis como aquele.
Cada mistério que os Baudelaire desvendavam apenas revelava outro mistério, e outro, e outro, e muitos mais, e outro, e mais outro, como se os três irmãos estivessem mergulhando cada vez mais fundo em uma lagoa, e o tempo todo a cidade permanecesse calma na superfície, inconsciente de todos os eventos desafortunados na vida dos órfãos. Mesmo agora, retornando à cidade que outrora fora o seu lar, os Baudelaire haviam resolvido poucos dos mistérios que os assombravam. Eles não sabiam para onde rumavam, por exemplo, tampouco tinham alguma informação sobre a mulher que dirigia o automóvel, afora o nome.
“Vocês devem ter milhares de perguntas a fazer, irmãos Baudelaire”, disse Kit Snicket, girando o volante com as mãos enluvadas de branco. Violet, que possuía faculdades técnicas de grande destreza – uma frase que aqui significa “tinha muito jeito para inventar dispositivos mecânicos” –, admirou a máquina ronronante quando esta fez uma curva fechada ao passar por um grande portão de metal e prosseguiu por uma rua estreita e sinuosa ladeada de arbustos. “Eu gostaria que tivéssemos mais tempo para conversar, mas já é terça-feira. Do jeito que as coisas vão, vocês mal terão tempo de comer o seu importante brunch antes de vestir os disfarces de concierges dar início às observações como flâneurs.”
“Concierge?”, perguntou Violet.
“Flâneurs?”, perguntou Klaus.
“Brunch?”, perguntou Sunny.
Kit sorriu e esterçou o volante do táxi em outra curva fechada. Dois livros de poesia escorregaram do assento do passageiro e caíram no chão do automóvel – A Morsa e o Carpinteiro e outros poemas, de Lewis Carroll, e A terra desolada, de T. S. Eliot. Há pouco tempo os Baudelaire tinham recebido uma mensagem em código, e se valeram da poesia do sr. Carroll e do sr. Eliot para decodificar a mensagem e se encontrar com Kit Snicket na Praia de Sal. Talvez agora Kit ainda estivesse falando por meio de charadas.
“Um grande homem”, disse ela, “afirmou certa vez que o bem temporariamente derrotado é mais forte que o mal triunfante. Vocês entendem o que isso significa?”
Violet e Sunny voltaram-se para o irmão, que era versado em literatura. Klaus Baudelaire tinha lido tantos livros que era praticamente uma biblioteca ambulante, e recentemente desenvolvera o hábito de escrever fatos importantes e interessantes em um livro de lugar-comum azul-escuro.
“Eu acho que entendo”, disse o Baudelaire do meio. “Esse homem acha que as pessoas boas são mais poderosas que as pessoas más, mesmo que o mal pareça estar vencendo. Ele é um membro de C.S.C.?”
“Pode-se dizer que sim”, disse Kit. “Sua mensagem certamente se aplica à nossa presente situação. Como vocês sabem, nossa organização se dividiu faz algum tempo, e ambos os lados guardaram muito rancor.”
“A cisão”, disse Violet.
“Sim, a cisão”, concordou Kit com um suspiro. “C.S.C. foi outrora um grupo unido de voluntários que tentavam apagar incêndios – tanto literal como figurativamente. Mas agora há dois grupos de inimigos hostis. Alguns de nós continuam a apagar incêndios, mas outros se voltaram para esquemas muito menos nobres.”
“Olaf”, disse Sunny. A habilidade linguística da mais jovem dos Baudelaire ainda estava em desenvolvimento, mas todos no táxi entenderam o que Sunny queria dizer quando pronunciou o nome do notório vilão.
“O conde Olaf é um dos nossos inimigos”, concordou Kit, olhando para o espelho retrovisor e franzindo o cenho, “mas existem muitos, muitos outros que são igualmente perversos, ou talvez ainda mais. Se não estou enganada, vocês conheceram dois deles nas montanhas – um homem com barba mas sem cabelo, e uma mulher com cabelo mas sem barba. Há uma profusão de outros indivíduos, com todos os tipos de penteados e ornamentos faciais. Muito tempo atrás, é claro, os membros de C.S.C. podiam ser reconhecidos pelas tatuagens nos tornozelos. Mas agora há tantas pessoas perversas que ficou impossível nos mantermos informados sobre todos os nossos inimigos – enquanto eles se mantêm informados sobre nós o tempo todo. De fato, podemos ter alguns inimigos atrás de nós neste exato momento.”
Os Baudelaire se viraram para olhar pelo vidro traseiro e vislumbraram outro táxi atrás deles, a uma boa distância. Tal qual no carro de Kit Snicket, os vidros daquele táxi eram escuros, portanto as crianças não puderam ver nada através deles.
“Por que você acha que há inimigos naquele táxi?”, perguntou Violet.
“Um motorista pega qualquer um que lhe faça sinal”, disse Kit. “Há incontáveis pessoas perversas no mundo, logo, segue-se que mais cedo ou mais tarde um táxi vai pegar uma pessoa perversa.”
“Ou uma pessoa nobre”, salientou Klaus. “Nossos pais foram de táxi para a ópera numa noite em que o carro não quis pegar.”
“É verdade, me lembro bem dessa noite”, replicou Kit com um leve sorriso. “Era uma apresentação de La forza del destino. A mãe de vocês portava um xale vermelho, com penas compridas nas pontas. Durante o intervalo, eu os segui até o bar e passei-lhes furtivamente uma caixa de dardos envenenados antes que Esmé pudesse me pegar. Foi difícil, mas como um dos meus camaradas gosta de dizer: ‘Não desanimar diante de nenhuma dificuldade; manter a fortitude quando todos a perderem; passar imaculado pelas intrigas; renunciar até à ambição quando o fim é alcançado – quem poderia dizer que isto não é grandeza?’. E, falando em grandeza, por favor segurem-se. Não podemos permitir que um inimigo em potencial nos siga até nosso importante brunch.”
Quando alguém diz que a cabeça está girando, geralmente está usando uma expressão que significa que ele está muito confuso. Com certeza os Baudelaire tiveram ocasião de usar a expressão desse modo, como, por exemplo, ao ouvir uma pessoa sumarizar às pressas os problemas de uma organização secreta rachada e citar diversas figuras históricas a propósito do tema “perversidade” enquanto dirigia um táxi apressadamente rumo a certas incumbências misteriosas e sem explicação.
Porém há raros casos em que a expressão “Minha cabeça está girando” diz respeito a um momento em que a cabeça da pessoa está realmente girando; quando Kit pronunciou a palavra “brunch”, um desses momentos chegou. Com o volante firmemente seguro em suas luvas, Kit virou o carro de maneira tão brusca que ele rodopiou e saiu da estrada. A cabeça das crianças – bem como o restante de seus corpos – girou junto com o automóvel enquanto ele se desviava para cima da sebe espessa e verdejante que ladeava a estrada. Quando atingiram a sebe, o táxi continuou girando e rodopiando por entre os arbustos, e por alguns segundos os irmãos não viram mais nada além de um borrão verde, e não ouviram nada além do crepitar dos ramos que arranhavam as laterais do carro, e não sentiram nada além de alívio por terem se lembrado de colocar os cintos de segurança, e então, não mais que de repente, as cabeças dos Baudelaire pararam de girar, e eles se viram, abalados porém seguros, em um gramado em declive do outro lado da sebe, onde o táxi por fim se detivera. Kit desligou o motor e suspirou fundo, apoiando a cabeça no volante.
“Eu provavelmente não deveria fazer isso”, disse ela, “na minha condição.”
“Condição?”, perguntou Sunny.
Kit levantou a cabeça e voltou-se para encarar os Baudelaire de frente pela primeira vez desde que eles entraram no carro. Tinha um rosto bondoso, mas havia rugas de preocupação na sua testa, e ela parecia não estar dormindo direito há um bom tempo. Seus cabelos eram compridos e embaraçados, e havia dois lápis espetados no meio deles em ângulos bizarros. Kit usava um casaco preto muito elegante, abotoado até o queixo, mas na lapela havia uma flor que já vira dias melhores, uma frase que aqui significa “que tinha perdido a maior parte das suas pétalas e murchado consideravelmente”. Se alguém tivesse perguntado aos Baudelaire sobre a condição de Kit, eles teriam dito que ela parecia uma mulher que passara por muitos sofrimentos. Eles se perguntaram se os seus próprios sofrimentos estariam assim evidentes em seu rosto e em sua roupa.
“Estou transtornada”, disse Kit, usando uma palavra que aqui significa “triste e perturbada”. Ela abriu a porta do táxi e suspirou mais uma vez. “Esta é a minha condição. Estou transtornada, e estou grávida.”
Kit soltou o cinto de segurança e saiu do carro, e os Baudelaire constataram que ela falara a verdade. Por baixo do casaco, sua barriga tinha uma curvatura leve porém definida, como acontece quando as mulheres estão esperando filhos. Quando a mulher está nessa condição, é melhor que evite esforços violentos, uma expressão que aqui significa “atividade física que possa pôr em risco a mulher ou sua futura descendência”. Violet e Klaus podiam lembrar-se de quando sua mãe estava grávida de Sunny e passava o tempo livre reclinada no maior sofá da biblioteca dos Baudelaire, com o marido indo buscar limonada e torradas de pumpernickel, ou acomodando os travesseiros embaixo dela para que se sentisse confortável. Ocasionalmente, ele punha uma das peças musicais favoritas da mãe no fonógrafo, e ela se levantava do sofá e dançava, desajeitada, segurando a barriga cada vez maior e fazendo caretas engraçadas para Violet e Klaus, que assistiam da porta. A maior parte da terceira gravidez dos Baudelaire passou em sereno relaxamento. Os irmãos tinham certeza de que, enquanto estivera grávida, a mãe nunca fizera um carro rodopiar por entre os arbustos, e lamentavam que a condição de Kit Snicket não fosse real impedimento para esforços violentos.
“Juntem todas as suas coisas, irmãos Baudelaire”, disse Kit Snicket, “e, se não se importam, vou pedir-lhes que carreguem também as minhas coisas – apenas alguns livros e papéis que estão no banco da frente. Não devemos jamais deixar pertences num táxi, porque nunca se sabe com certeza se os encontraremos um dia. Por favor, andem depressa com isso. É provável que os nossos inimigos deem meia-volta com o táxi deles e nos encontrem.”
Kit voltou as costas para os Baudelaire e pôs-se a caminhar rapidamente pelo gramado em declive, enquanto os Baudelaire se entreolhavam, perplexos.
“Quando chegamos na Praia de Sal”, disse Violet, “e vimos o táxi aguardando por nós, exatamente como dizia a mensagem, pensei que íamos por fim encontrar respostas para todas as nossas questões, porém agora tenho mais perguntas do que nunca.”
“Eu também”, disse Klaus. “O que Kit Snicket quer de nós?”
“O que ela quis dizer com disfarces de concierge?”, disse Violet.
“O que ela quis dizer com observações como flâneurs?”, perguntou Klaus.
“Onde está Quigley Quagmire?”, perguntou Violet, referindo-se a um rapaz que era especialmente caro à mais velha dos Baudelaire, e que mandara a mensagem em código para as três crianças.
“Confiar?”, disse Sunny mansamente, e essa era a pergunta mais importante de todas. Por “confiar?”, a mais jovem dos Baudelaire queria dizer algo na linha de “Kit Snicket dá a impressão de ser uma pessoa confiável? Podemos confiar nela?”, e a resposta a essa questão é muitas vezes bastante complicada.
A decisão de confiar ou não em uma pessoa é como decidir se você vai subir numa árvore ou não, porque você poderá talvez ter uma vista maravilhosa do último galho, ou então acabará simplesmente todo coberto de seiva, e por essa razão muitas pessoas preferem ficar o tempo todo sozinhas dentro de casa, onde é mais difícil se machucar com farpas de madeira. Os Baudelaire não sabiam muita coisa de Kit Snicket, portanto era difícil prever qual seria o futuro deles se a seguissem pelo gramado em declive rumo às misteriosas incumbências que ela mencionara.
“Nos poucos minutos em que a conhecemos”, disse Violet, “Kit Snicket entrou com o táxi no meio dos arbustos de uma sebe. Normalmente eu relutaria em confiar numa pessoa assim, mas...”
“O pôster”, disse Klaus, quando a voz da irmã silenciou. “Eu me lembro bem dele. Mamãe contou que o adquiriu no intervalo, como suvenir. Ela disse que aquela foi a noitada mais interessante que jamais tivera na ópera, e não queria esquecê-la nunca.”
“O pôster trazia a figura de uma arma”, lembrou-se Violet, “com a fumaça formando as palavras do título.”
Sunny balançou a cabeça afirmativamente.
“La forza del destino”, disse ela.
As três crianças olharam para o gramado em declive. Kit Snicket já avançara uma boa distância, sem olhar para trás para ver se as crianças a seguiam. Sem mais palavra, os irmãos estenderam as mãos para o assento do passageiro e recolheram as coisas de Kit – os dois livros de poesia que já tinham reconhecido antes, e uma pasta acartonada transbordando de papéis. Eles então começaram a caminhar pelo gramado. Do outro lado dos arbustos chegava um som indistinto, mas as crianças não sabiam dizer se era um táxi fazendo a volta ou apenas o vento fazendo farfalhar os arbustos.
“La forza del destino” é uma frase em italiano que significa “a força do destino”, e “destino” é uma palavra que tende a causar discussões entre as pessoas que a empregam. Alguns pensam que destino é algo do que não se pode escapar, como a morte, ou uma torta de ricota que azedou, duas coisas que, mais cedo ou mais tarde, sempre acontecem. Outros pensam que destino é um momento na vida de uma pessoa, como aquele em que alguém se torna adulto, ou o instante em que se faz necessário construir um esconderijo com assentos de sofá. E outros acreditam, ainda, que destino é uma força invisível – como a gravidade, ou o medo de se cortar com papel – que orienta as pessoas durante toda a vida, estejam elas embarcando em uma incumbência misteriosa, cometendo um ato traiçoeiro ou decidindo se o livro que começaram a ler é assustador demais para terminar. Na ópera La forza del destino, diversas personagens discutem, se apaixonam, se casam em segredo, fogem para monastérios, vão à guerra, anunciam que se vingarão, travam duelos e deixam cair uma arma no chão, e ela dispara acidentalmente e mata alguém em um incidente estranhamente similar ao que acontecerá no capítulo nove deste livro que você tem em mãos – e elas ficam o tempo todo tentando descobrir se algum desses problemas é resultado do destino. Elas se questionam e se questionam a respeito de todos os perigos em suas vidas, e, quando desce o pano no final, nem mesmo o público pode ter certeza do que poderiam significar todas aquelas desventuras em série.
Os órfãos Baudelaire não sabiam que perigos os aguardavam ao seguir Kit Snicket pelo gramado, mas eles se perguntaram – assim como eu me perguntei, naquela noite fatídica muito tempo atrás, enquanto saía às pressas da ópera antes que uma certa mulher me avistasse – se era a força do destino que estava orientando sua história, ou algo ainda mais misterioso, ainda mais perigoso, e ainda mais desventurado.

Um comentário:

  1. Se eles n fossem atras dela oq eles iam fazer fica no meio do matooo

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