6 de setembro de 2016

Capítulo treze


“Rá!”, exultou o conde Olaf. “Essa levou a palma!” Ele estava usando uma expressão que aqui significa “Achei isso especialmente divertido e chocante!”, muito em­bora o catálogo subaquático de Dewey Dénouement contivesse uma lista de vinte e sete palmas de ouro roubadas por Olaf. Com um olhar de pérfida alegria, ele esticou o braço para baixo e fez um agrado na cabeça de Sunny Baudelaire, usando a mão que não estava agarrando o lançador de arpões. “Depois de todo esse tempo, a órfã menorzinha quer seguir o meu exemplo!”, exclamou ele. “Eu sabia que tinha sido um bom tutor, afinal!”
“Você não é um bom tutor”, disse Violet, “e Sunny não é incendiaria. Minha irmã não sabe o que está dizendo.”
“Incendiar hotel”, insistiu Sunny.
“Você está se sentindo bem, Sunny?”, perguntou Klaus, examinando de perto os olhos da irmã. Estava preocupado com a possibilidade de que o Mycelium Medusoide, que ameaçara a vida da mais jovem dos Baudelaire havia poucos dias, estivesse afetando a pobrezinha de alguma maneira sinistra. Klaus pesquisara um meio de diluir o fungo traiçoeiro, mas agora se perguntava se a diluição fora insuficiente.
“Sinto ótima”, disse Sunny. “Incendiar hotel.”
“Essa é a minha garota!”, gritou o conde Olaf. “Eu só queria que Carmelita tivesse a sua garra! Com todas as incumbências que eu tinha, incendiar este hotel nem chegou a me ocorrer. Mas, mesmo quando a gente está muito ocupado, deve sempre encontrar tempo para o lazer.”
“O seu lazer”, disse a juíza Strauss, “não passa de vilania, conde Olaf. Os Baudelaire podem querer aliar-se a você na perversidade, mas eu farei tudo o que estiver ao meu alcance para detê-lo.”
“Não há nada ao seu alcance”, escarneceu Olaf. “Os seus colegas juízes são meus camaradas, os seus colegas voluntários estão correndo vendados de um lado para o outro no saguão deste hotel, e eu estou com o lançador de arpões.”
“E eu tenho uma história abrangente da injustiça!”, exclamou a juíza Strauss. “Este livro deve servir para alguma coisa!”
O vilão não prosseguiu com seus argumentos: ele simplesmente apontou a arma para a juíza.
“Vocês, órfãos, vão começar o fogo aqui na lavanderia”, disse ele, “enquanto eu me asseguro de que a juíza Strauss não vai nos impedir.”
“Sim, senhor”, disse Sunny e segurou as mãos dos irmãos.
“Não!”, gritou a juíza Strauss.
“Por que está fazendo isso, Sunny?”, perguntou Violet à irmã. “Você vai ferir pessoas inocentes!”
“Por que você está ajudando o conde Olaf a incendiar este prédio?”, perguntou Klaus.
Sunny olhou para a lavanderia e depois ergueu os olhos para os irmãos. Em silêncio, sacudiu a cabeça como se aquele não fosse o momento apropriado para discutir tais assuntos.
“Me ajudem”, disse ela, e não precisou dizer mais nada. Embora Violet e Klaus achassem insondável a atitude da irmã, eles a seguiram para dentro da lavanderia enquanto Olaf emitia uma sucinta risada de triunfo.
“Rá!”, gritou o conde. “Prestem atenção, órfãos, que vou ensinar-lhes alguns dos meus melhores truques. Primeiro, espalhem esses lençóis sujos pelo chão em toda parte. Então peguem aqueles potes de produtos químicos extremamente inflamáveis e despejem por cima de todos os lençóis.”
Em silêncio, Violet espalhou o resto dos lençóis pelo piso de madeira da lavanderia, enquanto Klaus e Sunny abriam os potes de plástico e despejavam o conteúdo por cima dos lençóis. Um odor forte e mordente evolou-se da lavanderia, enquanto as crianças se voltavam para o conde Olaf e perguntavam o que viria a seguir.
“O que vem a seguir?”, perguntou Sunny.
“A seguir vêm um fósforo e um pouco de papel velho para atear o fogo”, respondeu Olaf e enfiou no bolso a mão que não estava segurando a arma. “Eu sempre trago fósforos comigo”, disse ele, “assim como os meus inimigos sempre trazem o papel velho.” Ele se inclinou para a frente e arrancou A odiosa avidez pelas finanças das mãos da juíza Strauss. “Este livro serve, sim, para alguma coisa”, disse Olaf, e jogou-o no centro dos lençóis sujos, por pouco não acertando os irmãos que caminhavam em direção ao corredor. O livro de Jerome Squalor se abriu ao cair, e as crianças viram o que parecia ser um diagrama cuidadosamente desenhado, com setas e linhas pontilhadas, com uma legenda de um parágrafo embaixo.
Os Baudelaire se inclinaram para a frente para ver se conseguiam ler o que o especialista em injustiça escrevera e pegaram apenas a palavra “corredor” antes que Olaf acendesse um fósforo e o jogasse com destreza profissional sobre a página. O papel pegou fogo imediatamente e o livro começou a arder.
“Oh”, Sunny disse baixinho e encostou-se em seus irmãos. Todos os três Baudelaire, e os adultos que estavam com eles, olharam fixamente para a lavanderia em silêncio.
Um livro sendo queimado é uma visão triste, muito triste, pois muito embora um livro nada mais seja senão tinta e papel, a sensação é de que as ideias contidas nele estão desaparecendo à medida que as páginas se transformam em cinzas, e a capa e a encadernação – que é o termo usado para a costura e a cola que mantêm juntas as páginas – vão ficando pretas e engrouvinhadas enquanto as chamas fazem seu trabalho maligno. Quando alguém está queimando um livro, demonstra total desprezo por todos os pensamentos que produziram as suas ideias, todo o trabalho aplicado nas suas palavras e sentenças, e todos os contratempos que recaíram sobre o autor, desde a invasão dos cupins que tentaram destruir suas anotações até a enorme pedra que alguém fez rolar para cima do ilustrador enquanto ele estava sentado à beira do espelho d’água aguardando a entrega do original.
A juíza Strauss olhou para o livro com uma carranca chocada, talvez pensando na pesquisa de Jerome Squalor e em todos os vilões que ela poderia ter levado à justiça. O conde Olaf olhou para o livro com um sorriso presunçoso, talvez pensando em todas as outras bibliotecas que ele tinha destruído. Mas você e eu sabemos que não existe “talvez” a respeito do que os órfãos Baudelaire estavam pensando enquanto olhavam para as chamas que devoravam a história abrangente da injustiça. Violet, Klaus e Sunny estavam pensando no incêndio que levara seus pais e seu lar, e que os largara no mundo para esgrimir por si mesmos contra as adversidades, uma frase que aqui significa “ir primeiro de tutor em tutor e depois de situação desesperada em situação desesperada, tentando sobreviver e resolver os mistérios que pairavam como fumaça sobre as suas cabeças”. Os órfãos Baudelaire estavam pensando no primeiro incêndio que entrara em suas vidas e se perguntavam se este seria o último.
“É melhor darmos o fora daqui”, disse o conde Olaf quebrando o silêncio. “Pela minha experiência, uma vez que as chamas atingem os produtos químicos, o fogo se alastra muito depressa. Receio que o coquetel tenha de ser cancelado, mas se nos apressarmos ainda há tempo para infectar os hóspedes deste hotel com o Mycelium Medusoide antes de escapar. Rá! Aos elevadores!”
Girando o lançador de arpões nas mãos, o vilão marchou arrastando a juíza pelo corredor abaixo, e os Baudelaire se apressaram em segui-lo. Quando chegaram ao elevador, as crianças olharam para um aviso afixado perto de um dos vasos ornamentais. O aviso era idêntico ao que estava afixado no saguão, e era um aviso que você mesmo provavelmente já viu. “EM CASO DE INCÊNDIO”, lia-se em letras elegantes, “use as escadas, não use o elevador.”
“Escadas”, disse Sunny apontando para o aviso.
“Ignore isso”, disse Olaf desdenhosamente, apertando o botão para chamar o elevador.
“Perigoso”, alertou Sunny. “Use as escadas.”
“Você pode ter tido a ideia de incendiar o hotel”, disse o conde Olaf, “mas ainda sou eu quem manda aqui, neném! Não conseguiremos chegar até o fungo a tempo se formos pelas escadas! Vamos pegar o elevador!”
“Droga”, disse Sunny baixinho e franziu a testa, pensativa. Violet e Klaus olharam para a irmã curiosos, se perguntando por que uma criança que não se importava em incendiar um hotel haveria de se incomodar com uma coisa como um elevador. Então Sunny olhou para os irmãos e pronunciou uma palavra que deixou tudo claro.
“Prelúdio”, disse ela, e um momento depois seus irmãos sorriram.
“O quê?”, Olaf perguntou bruscamente e socou o botão várias vezes seguidas, o que nunca adianta nada.
“O que a minha irmã quer dizer”, disse Violet, “é que ela gostou muito da aula sobre como provocar incêndios”, mas não é nada disso que a mais jovem dos Baudelaire queria dizer. Com “Prelúdio”, seus irmãos sabiam, Sunny se referia ao Hotel Prelúdio, e ao fim de semana que a família Baudelaire inteira passara lá. Como Kit Snicket mencionara, o Hotel Prelúdio era um lugar encantador, e fico feliz em contar que ele ainda está em pé, como uma pequena bênção, e que o seu salão de baile ainda tem os famosos candelabros em forma de enormes medusas que se movem para cima e para baixo no ritmo da música tocada pela orquestra, e que a livraria do saguão ainda privilegia as obras de novelistas americanos da escola realista, e a piscina ao ar livre ainda é bonita como sempre, com o seu reflexo das janelas do hotel tremulando quando alguém mergulha para nadar.
Os órfãos Baudelaire, porém, não estavam se lembrando dos candelabros, nem da livraria, nem mesmo da piscina, onde Sunny aprendera pela primeira vez a soltar bolhas. Eles estavam se lembrando de uma diabrura que seu pai lhes ensinara quando se encontrava em um de seus estados de ânimo esdrúxulos, a qual pode ser feita em qualquer elevador. A diabrura, uma palavra que aqui significa “brincadeira que se faz com alguém com quem você divide o espaço de um elevador”, funciona melhor no momento em que você está para sair do elevador e os seus colegas passageiros vão continuar subindo para um andar mais alto. A mãe dos Baudelaire fizera objeções quanto ao pai ensinar esse tipo de diabrura a eles, pois a considerava inconveniente, mas o pai ressaltou que não era mais inconveniente do que fazer truques de magia com os pãezinhos servidos às refeições, coisa que a mãe fizera naquela mesma manhã no restaurante do hotel, e ela concordou com relutância em participar da diabrura. É claro que este momento em particular na vida dos Baudelaire não era o melhor para uma diabrura, porém Violet e Klaus compreenderam de imediato o que a irmã tinha em mente, e quando as portas deslizantes se abriram e o conde Olaf marchou para dentro do elevador, os três Baudelaire o seguiram e apertaram todos os botões, sem exceção. Quando o pai dos Baudelaire aplicara essa diabrura, saindo em seguida do elevador, o resultado fora que a passageira remanescente, uma mulher desagradável chamada Eleanora, vira-se forçada a visitar cada um dos andares a caminho do seu quarto, mas ali no Hotel Desenlace a diabrura serviu a uma dupla finalidade, uma expressão que aqui significa “capacitou os Baudelaire a fazer duas coisas ao mesmo tempo”.
“O que estão aprontando?”, berrou Olaf. “Nunca vou conseguir chegar ao Mycelium Medusoide a tempo de envenenar todo mundo!”
“Vamos conseguir avisar o maior número possível de pessoas que o prédio está em chamas!”, exclamou a juíza Strauss.
“Dupla finalidade”, disse Sunny e compartilhou um sorrisinho com os irmãos no momento em que o elevador chegou ao saguão e abriu as portas. O enorme salão abobadado estava quase vazio, e os Baudelaire puderam ver que todos haviam seguido o conselho dos dois juízes malfazejos da Corte Suprema, ou seja, continuavam a perambular pelo hotel com os olhos vendados.
“Fogo!”, gritou Violet, sabendo que as portas se fechariam em um instante. “Atenção todo mundo! Há um incêndio no hotel! Por favor, saiam imediatamente!”
O homem com barba mas sem cabelo estava em pé ali perto, com uma das mãos sobre o ombro de Jerome Squalor para poder empurrar o especialista em injustiça de um lado para outro.
“Fogo?”, disse ele com sua estranha voz rouca. “Bom trabalho, Olaf!”
“O que você quer dizer com bom trabalho?”, perguntou Jerome, o cenho franzido aparecendo embaixo da venda.
“Eu quero dizer ‘Lá vai, Olaf!’, respondeu o homem apressadamente, empurrando Jerome na direção do elevador. “Capturem-no! Ele precisa ser levado às autoridades!”
“Olaf está aqui?”, perguntou provavelmente Frank, que estava tateando ao longo da parede, junto com seu irmão. “Eu vou capturá-lo!”
“Onde estão os Baudelaire?”, perguntou provavelmente Ernest. “Eu vou capturá-los!”
“No elevador!”, berrou a mulher com cabelo mas sem barba do outro lado do saguão, no entanto as portas deslizantes já estavam se fechando.
“Chamem o corpo de bombeiros!”, gritou Violet desesperada.
“Qual deles?”, foi a resposta, mas as crianças não souberam dizer se viera de Frank ou de Ernest, e as portas se fecharam sobre aquele último vislumbre dos vilões e voluntários antes de o elevador começar a sua ascensão ao segundo andar.
“Aqueles juízes prometeram que se eu aguardasse até amanha veria todos os meus inimigos destruídos”, resmungou o conde Olaf, “e agora estão tentando me capturar. Eu sabia que eles iriam me desapontar algum dia.”
Os Baudelaire não tiveram tempo para salientar que Olaf também desapontara os juízes ao planejar envenená-los com o Mycelium Medusoide, assim como todos no saguão, porque imediatamente o elevador parou no segundo andar e abriu as portas.
“Há um incêndio no hotel!”, gritou Klaus para o corredor. “Saiam todos imediatamente!”
“Um incêndio?”, disse Esmé Squalor. Os Baudelaire ficaram surpresos ao ver que aquela pérfida mulher ainda estava usando a sua venda, mas talvez ela tivesse decidido que pedaços de pano preto eram in. “Quem disse isso?”
“Foi Klaus Baudelaire”, disse Klaus Baudelaire. “Vocês precisam sair do hotel!”
“Não deem ouvidos àquele bisbórria!”, gritou Carmelita Spats, que estava passando a mão em cima de um vaso ornamental. “Ele está só tentando escapar de nós! Vamos tirar as nossas vendas e espiar!”
“Não tirem as suas vendas!”, gritou o conde Olaf. “Esses Baudelaire são acusados de desacato ao tribunal, e estão tentando enganar vocês para se juntar a eles! Não há nenhum incêndio! Não saiam do hotel em hipótese alguma!”
“Nós não estamos enganando vocês!”, disse Klaus. “É Olaf quem está enganando vocês! Por favor, acreditem em nós!”
“Eu não sei em quem acreditar”, disse Esmé, sarcástica. “Vocês, órfãos, são tão desonestos quanto o meu ex-namorado.”
“Deixem-nos em paz!”, ordenou Carmelita dando um esbarrão na parede. “Podemos encontrar o nosso próprio caminho!”
As portas se fecharam antes que os Baudelaire pudessem discutir mais, e de fato as crianças nunca mais discutiram com nenhuma daquelas duas fêmeas desagradáveis. Um momento depois o elevador chegou ao terceiro andar, e Sunny levantou a voz para ser ouvida por todos os que estavam no corredor, fossem eles pérfidos ou nobres.
“Fogo!”, gritou ela. “Use as escadas. Não use o elevador!”
“Sunny Baudelaire?”, chamou o sr. Poe, reconhecendo a voz da criança. O banqueiro, voltado para uma direção inteiramente errada, segurava um lenço branco na frente da sua venda preta. “Não acrescente falso alarme de incêndio à sua lista de crimes! Você já é culpada de desacato ao tribunal, e talvez de assassinato!”
“Não é falso!”, exclamou a juíza Strauss. “Há realmente um incêndio, senhor Poe! Saia deste hotel!”
“Não posso sair”, retrucou o sr. Poe, tossindo no seu lenço. “Ainda sou encarregado dos assuntos dos Baudelaire, de seus pais e da fort...”
As portas do elevador se fecharam antes que o sr. Poe pudesse terminar, e os Baudelaire foram afastados do banqueiro uma última vez, e a cada parada do elevador, lamento dizer, ocorreu mais ou menos a mesma coisa. Os Baudelaire viram a sra. Bass no terceiro andar, ainda usando a sua pequena peruca loira como um gorro de neve em cima do pico de uma montanha, e a venda esticada por cima da sua pequena máscara estreita, e viram o sr. Remora, que perambulava pelo sétimo andar com o vice-diretor Nero. Viram Geraldine Julienne, que usava o seu microfone como alguns cegos usam uma bengala, e viram Charles e Senhor, que estavam de mãos dadas para não se perder um do outro, e viram Hugo, e Colette, e Kevin, que seguravam o papel pega-pássaros que Klaus dependurara do lado de fora da janela da sauna, e viram o sr. Lesko discutindo com a sra. Morrow, e viram um homem com um violão fazendo amizade com uma mulher de chapéu em forma de corvo, e viram muitas pessoas que não reconheceram, fossem voluntários ou vilões, que vagavam pelos corredores do hotel capturando qualquer um que achassem suspeito.
Algumas daquelas pessoas acreditaram nos Baudelaire quando eles falaram do incêndio, e algumas daquelas pessoas acreditaram no conde Olaf quando ele falou que os Baudelaire estavam mentindo, e algumas daquelas pessoas acreditaram na juíza Strauss quando ela falou que o conde Olaf estava mentindo quando disse que os Baudelaire estavam mentindo quando falaram do incêndio. Mas a parada do elevador em cada andar do hotel era muito breve, e as crianças só viram de relance cada uma dessas pessoas. Elas ouviram a sra. Bass resmungar alguma coisa sobre um carro para fuga, e ouviram o sr. Remora perguntando a si mesmo alguma coisa sobre bananas fritas. Ouviram Nero se preocupando com o estojo do seu violino, e Geraldine guinchando sobre manchetes, e ouviram Charles e Senhor altercando sobre os incêndios, se eram bons ou não para a indústria madeireira. Ouviram Hugo perguntando se o planejamento do hors d’oeuvre ainda estava valendo, e ouviram Colette perguntando a respeito de depenar corvos, e ouviram Kevin se queixando de que não sabia se devia segurar o papel pega-pássaros na mão direita ou na mão esquerda, e ouviram o sr. Lesko insultando a sra. Morrow, e o homem barbado cantando uma canção para a mulher de chapéu de corvo, e ouviram um homem chamando Bruce e uma mulher chamando a mãe, e dúzias de pessoas cochichando para e gritando com, discutindo sobre e concordando a respeito de, iradamente acusando e humildemente defendendo, furiosamente elogiando e gentilmente insultando dúzias de outras pessoas, tanto dentro como fora do Hotel Desenlace, cujos nomes os Baudelaire reconheciam, tinham esquecido e nunca tinham ouvido antes.
Cada história tinha a sua história, e cada história de história era insondável na curta jornada dos órfãos Baudelaire, e muitas das histórias de histórias são insondáveis para mim, mesmo depois de todos esses anos solitários e toda essa pesquisa solitária. Talvez algumas dessas histórias sejam mais claras para você, porque você espiou as pessoas envolvidas. Talvez a sra. Bass tenha mudado de nome e more perto de você, ou talvez o nome do sr. Remora seja o mesmo, e ele more longe. Talvez Nero trabalhe agora como funcionário de uma mercearia, ou Geraldine Julienne lecione artes e ofícios. Talvez Charles e Senhor não sejam mais sócios, e você tenha tido a oportunidade de estudar a fisionomia de um deles quando se sentou na sua frente em um ônibus, ou talvez Hugo, Colette e Kevin ainda sejam camaradas, e você tenha seguido essas pessoas insondáveis depois de notar que uma delas usava igualmente as duas mãos. Talvez o sr. Lesko agora seja seu vizinho, ou a sra. Morrow agora seja sua irmã, ou sua mãe, ou sua tia, ou esposa, ou até seu marido. Talvez o barulho que você ouve do lado de fora da sua porta seja um homem barbado tentando entrar pela janela, ou talvez seja uma mulher com um chapéu em forma de corvo chamando um táxi. Talvez você tenha avistado os gerentes do Hotel Desenlace, ou os juízes da Corte Suprema, ou os garçons do Café Salmonela, ou do Palhaço Ansioso, ou talvez você tenha conhecido um especialista em injustiça, ou tenha se tornado um você mesmo.
Talvez as pessoas da sua insondável vida, e suas insondáveis histórias, sejam claras para você enquanto você abre o seu caminho no mundo, mas quando o elevador parou pela última vez, e as portas deslizantes se abriram para revelar a cobertura inclinada do Hotel Desenlace, os Baudelaire sentiram como se estivessem em delicado equilíbrio sobre uma misteriosa e desconcertante pilha de mistérios insondáveis. Eles não sabiam quem iria sobreviver ao incêndio que ajudaram a provocar, e quem iria perecer. Não sabiam quem achava que eles eram voluntários e quem achava que eles eram vilões, ou quem acreditava que eles eram inocentes e quem acreditava que eles eram culpados. E não sabiam se as suas próprias observações, incumbências e ações significavam que eles eram nobres, ou perversos, ou alguma coisa no meio. Quando saíram do elevador e caminharam através do salão de bronzeamento da cobertura, os órfãos Baudelaire sentiram como se a sua vida inteira fosse como um livro repleto de informações cruciais que fora queimado, como a história abrangente da injustiça reduzida a cinzas em um incêndio que a cada segundo assumia maiores proporções.
“Olhem!”, gritou o conde Olaf, inclinando-se por cima da beirada do hotel e apontando para baixo. Os Baudelaire olharam, esperando ver a enorme, calma superfície da lagoa refletindo o Hotel Desenlace de volta para eles como um espelho gigantesco. Porém, o ar estava maculado pelas manchas de fumaça espessa e negra que se derramavam das janelas do subsolo quando o fogo começou a se alastrar, e a superfície da lagoa parecia uma série de espelhos diminutos, todos quebrados em formatos estranhos e insondáveis. Aqui e ali, entre a fumaça e os espelhos, as crianças podiam ver os vultos pequeninos correndo para cá e para lá, mas não sabiam dizer se eram as autoridades que viam no chão, ou pessoas que estavam no hotel e que agora corriam para escapar das chamas.
Olaf continuava a olhar para baixo, e os Baudelaire não sabiam dizer se ele parecia satisfeito ou desapontado.
“Graças a vocês, órfãos”, disse ele, “é tarde demais para destruir todo mundo com o Mycelium Medusoide, mas pelo menos conseguimos começar um incêndio.”
A juíza Strauss ainda olhava para a fumaça que jorrava das janelas e subia para o céu, e sua expressão era igualmente insondável.
“Graças a vocês, órfãos”, disse ela mansamente para os Baudelaire, “este hotel será destruído pelo fogo, mas pelo menos impedimos Olaf de liberar o fungo.”
“O fogo não está ardendo muito depressa”, disse Olaf. “Muitas pessoas vão escapar.”
“O fogo também não está ardendo devagar”, disse a juíza Strauss. “Algumas pessoas não vão conseguir.”
Os órfãos Baudelaire se entreolharam, mas antes que alguém pudesse dizer mais alguma coisa, o prédio inteiro tremeu, e as crianças tiveram de lutar para manter o equilíbrio sobre a cobertura inclinada. As reluzentes esteiras de bronzeamento rolaram através do salão, e a água da piscina fustigou o costado do grande barco de madeira, encharcando a figura de proa – um polvo atacando um homem em traje de mergulho.
“O fogo está enfraquecendo as fundações estruturais do edifício”, disse Violet.
“Temos de sair daqui”, disse Klaus.
“De pronto”, disse Sunny.
Sem mais palavra, os Baudelaire desviaram-se dos adultos e marcharam rapidamente para o barco. Passando a pilha de lençóis para uma só mão, Violet tirou o seu chapéu de concierge, enfiou a outra mão no bolso e encontrou a fita que Kit Snicket lhe dera, com a qual prendeu o cabelo. Klaus enfiou a mão no bolso e encontrou o seu livro de lugar-comum, o qual começou a folhear. Sunny não enfiou a mão no bolso; pensativa, raspou os dentes afiados uns nos outros, como se suspeitasse que eles poderiam ser necessários.
Violet examinou criticamente o barco.
“Vou prender o drag chute à figura de proa”, disse ela. “Acho que vou conseguir dar um nó Língua do Diabo em volta do capacete do mergulhador.” Ela fez uma pequena pausa. “E onde o Mycelium Medusoide está escondido”, disse ela. “O conde Olaf o guardou lá, onde ninguém pensaria em procurar.”
Klaus examinou criticamente as suas anotações.
“Vou mudar o ângulo da vela de modo a captar o vento”, disse ele. “Se não for assim, um objeto pesado como este cairia direto dentro da água.” Ele também fez uma pequena pausa. “Foi o que aconteceu com o açucareiro”, disse ele. “Dewey Dénouement deixou todo mundo pensar que ele tinha caído dentro da lavanderia, para que ninguém o encontrasse na lagoa.”
“Espátulas como remos”, disse Sunny, apontando para os implementos que Hugo usara para virar os hóspedes.
“Boa ideia”, Violet concordou e fixou o olhar nas águas cinzentas e revoltas do mar. “Talvez os nossos amigos nos encontrem. Hector deve estar voando para cá, com Kit Snicket e os Quagmire.”
“E Fiona”, acrescentou Klaus.
“Não”, disse Sunny.
“O que você quer dizer?”, perguntou Violet, passando cautelosamente da beira da piscina para o costado do barco, onde começou a escalar uma escada de corda em direção à figura de proa.
“Eles disseram que chegariam na quinta-feira”, disse Klaus, ajudando Sunny a içar-se a bordo e depois embarcando ele mesmo. O convés era mais ou menos do tamanho de um cobertor grande, grande o suficiente para conter os Baudelaire e talvez mais um ou dois passageiros. “Agora é quarta-feira à tarde.”
“O incêndio”, disse Sunny e apontou para a fumaça que subia para o céu.
Os dois Baudelaire mais velhos engasgaram. Tinham quase esquecido que Kit lhes contara que estaria observando o céu, procurando um sinal que cancelaria o encontro de quinta-feira.
“Foi por isso que você pensou em atear o fogo”, disse Violet amarrando apressadamente os lençóis em volta da figura de proa. “É um sinal.”
“C.S.C. o verá”, disse Klaus, “e saberá que todas as suas esperanças se transformaram em fumaça.”
Sunny assentiu com a cabeça.
“O último lugar seguro”, disse ela, “não é mais seguro.”
Foi uma frase impressionante para a mais jovem dos Baudelaire, porém uma frase triste.
“Talvez os nossos amigos nos encontrem assim mesmo”, disse Violet. “Eles podem ser as últimas pessoas nobres que conhecemos.”
“Se eles são realmente nobres”, disse Klaus, “podem não querer ser nossos amigos.”
Violet assentiu, e seus olhos se encheram de lágrimas.
“Você tem razão”, admitiu ela. “Nós matamos um homem.”
“Acidente”, disse Sunny com firmeza.
“E incendiamos um hotel”, disse Klaus.
“Sinal”, disse Sunny.
“Tínhamos boas razões”, disse Violet, “mas ainda assim fizemos coisas más.”
“Queremos ser nobres”, disse Klaus, “mas tivemos de ser pérfidos.”
“Nobres suficiente”, disse Sunny, mas o prédio tremeu de novo, como que sacudindo a cabeça em desacordo. Violet se agarrou à figura de proa, e Klaus e Sunny se agarraram um ao outro enquanto o barco colidia com as laterais da piscina.
“Ajudem-nos!”, gritou Violet para os adultos, que ainda estavam olhando para a fumaça ascendente. “Agarrem aquelas espátulas e empurrem o barco para a beira da cobertura!”
“Não fique me dando ordens!”, rosnou Olaf, que de toda maneira seguiu a juíza até o canto da cobertura onde estavam as espátulas, seus espelhos refletindo o sol da tarde e o céu que escurecia de tanta fumaça. Cada adulto agarrou uma espátula e começou a cutucar o barco da mesma forma que você poderia cutucar uma aranha que quer tirar de dentro da sua banheira. Bum! Bum! O veleiro bateu contra a beirada da piscina e depois forçou passagem para fora dela, de onde deslizou lentamente, com um ruído forte de atrito, até a beirada oposta da cobertura. Os Baudelaire se seguraram firme enquanto a metade dianteira do barco continuou a deslizar para além dos espelhos do salão, até que ele ficasse suspenso acima de nada a não ser o ar fumacento. O barco oscilou para a frente e para trás em um equilíbrio delicado entre a cobertura do hotel e o mar lá embaixo.
“Subam a bordo!”, gritou Violet, dando um último puxão nos seus nós.
“É claro que vou subir a bordo!”, anunciou Olaf, estreitando os olhos para o capacete da figura de proa. “Sou o capitão deste barco!” Ele atirou a sua espátula para o convés, por pouco não atingindo Klaus e Sunny, e então pulou para dentro da embarcação, fazendo-a balançar violentamente na beira do edifício.
“Você também, juíza Strauss!”, chamou Klaus, mas a juíza apenas pôs de lado a sua espátula e olhou tristemente para as crianças.
“Não”, disse ela, e as crianças viram que ela estava chorando. “Eu não vou. Não está certo.”
“O que mais podemos fazer?”, disse Sunny, mas a juíza Strauss apenas sacudiu a cabeça.
“Eu não vou fugir da cena do crime”, disse ela. “Vocês, crianças, devem vir comigo, e explicaremos tudo às autoridades.”
“Elas podem não acreditar em nós”, disse Violet, preparando o drag chute, “ou poderá haver inimigos à espreita em suas fileiras, como os vilões na Corte Suprema.”
“Talvez”, disse a juíza, “mas isso não é desculpa para fugir.”
O conde Olaf deu uma olhada desdenhosa para a sua antiga vizinha, depois voltou-se para os Baudelaire.
“Ela que queime até ficar crocante, se é isso que deseja”, disse ele, “mas está na hora de partirmos.”
A juíza Strauss respirou fundo, então deu um passo à frente e pôs a mão em cima da revoltante escultura de madeira, como se pretendesse arrastar o barco inteiro de volta ao hotel.
“Há pessoas que afirmam que o comportamento criminoso é o destino das crianças que vêm de um lar desfeito”, disse ela entre lágrimas. “Não façam com que este seja o seu destino, irmãos Baudelaire.”
Klaus estava encostado no mastro, ajustando os controles da vela.
“Este barco”, disse ele, “é o único lar que nós temos.”
“Estive acompanhando vocês esse tempo todo”, disse ela, segurando a figura de proa com ainda mais força. “Sempre estiveram fora do meu alcance por muito pouco, desde o momento em que o senhor Poe os levou embora do teatro no carro dele, até o momento em que Kit Snicket os levou através das sebes no táxi dela. Não vou deixá-los ir, irmãos Baudelaire!”
Sunny deu um passo na direção da juíza, e por um momento seus irmãos pensaram que ela ia sair do barco. Entretanto, ela simplesmente olhou a juíza nos olhos lacrimosos e deu-lhe um sorriso muito triste.
“Adeus”, disse ela, depois abriu a boca e mordeu a mão da juíza. Com um grito de dor e frustração, a juíza Strauss soltou a figura de proa, e o prédio tremeu de novo, fazendo-a despencar no chão e o barco despencar da cobertura, bem no momento em que o relógio do Hotel Desenlace anunciava a hora pela última e derradeira vez.
Nadabom! Nadabom! Nadabom! O relógio bateu três vezes, e os três Baudelaire gritaram quando foram arremessados em direção ao mar – até o conde Olaf gritou “Mamãe!” quando pareceu, por um terrível instante, que a sorte deles se acabara afinal, e que o barco não iria sobreviver à queda, devido à força da gravidade. Então Violet soltou os lençóis sujos, e o drag chute ondeou no ar, quase parecendo mais uma mancha de fumaça contra o céu; Klaus manobrou a vela de modo a captar o vento, e o barco interrompeu sua queda e começou a deslizar, assim como um pássaro capta o vento e descansa as asas por alguns momentos, especialmente quando está cansado de tanto carregar uma coisa pesada e importante.
Por um instante, o barco desceu flutuando pelo ar, como em uma história mágica. E, mesmo com todo o pânico e medo que sentiam, os Baudelaire não puderam deixar de maravilhar-se com o modo como estavam escapando. Finalmente, com um portentoso tchibum! o barco pousou no oceano, a uma boa distância do hotel em chamas. Por outro instante terrível, a sensação foi de que o barco iria afundar na água, exatamente como Dewey Dénouement afundara na lagoa, guardando o seu catálogo subaquático e todos os seus segredos, e deixando a mulher que ele amava grávida e transtornada. Mas a vela captou o vento, a figura de proa se aprumou, e Olaf pegou a sua espátula e a entregou a Sunny.
“Comece a remar”, ordenou ele, e em seguida se pôs a tagarelar, os olhos brilhando muito. “Por fim vocês estão nas minhas garras, órfãos”, disse ele. “Estamos todos no mesmo barco.”
Os Baudelaire olharam para o vilão e depois para a praia. Por um segundo se sentiram tentados a pular borda afora e nadar de volta para a cidade e para longe de Olaf. Porém, quando olharam para a fumaça que jorrava das janelas do hotel, e para as chamas que voluteavam em torno dos lírios e dos musgos que alguém cultivara sobre as paredes com tanto cuidado, deram-se conta de que em terra seria igualmente perigoso. Eles viram as figuras diminutas das pessoas em pé do lado de fora do hotel, apontando agressivamente para o mar, e viram o edifício tremer. Parecia que logo o Hotel Desenlace iria desmoronar, e as crianças queriam estar bem longe dali. Dewey lhes prometera que não precisariam mais estar no mar, no entanto, naquele momento, o mar era o último lugar seguro para os Baudelaire.
Richard Wright, um romancista americano da escola realista, formula uma famosa pergunta insondável em seu conhecido romance Filho nativo. “Quem sabe quando algum ligeiro choque”, pergunta ele, “perturbando o delicado equilíbrio entre ordem social e aspiração sequiosa, fará com que desmoronem os arranha-céus de nossas cidades?” É uma pergunta difícil de ler, quase como se estivesse em algum tipo de código, mas depois de muita pesquisa fui capaz de ver um sentido em suas misteriosas palavras. “Ordem social”, por exemplo, é uma expressão que pode se referir aos sistemas que as pessoas usam para organizar suas vidas, como o Sistema Decimal Dewey, ou os procedimentos vendados da Corte Suprema. E “aspiração sequiosa” é uma expressão que pode se referir àquilo que as pessoas querem, como a fortuna dos Baudelaire, ou o açucareiro, ou um lugar seguro que órfãos solitários e exaustos possam chamar de lar. Portanto, quando o sr. Wright formula a sua pergunta, ele pode estar se perguntando se um pequeno evento, como uma pedra caindo em uma lagoa, pode causar ondulações nos sistemas do mundo, fazendo tremer as coisas que as pessoas querem, até que todos esses tremores e ondulações derrubem algo enorme, como um edifício.
Os Baudelaire, é claro, não tinham um exemplar do Filho nativo no barco de madeira que lhes servia de novo lar, mas, enquanto olhavam através da água para o Hotel Desenlace, fizeram a si mesmos uma pergunta não muito diferente da que foi feita pelo sr. Wright. Violet, Klaus e Sunny pensaram em todas as coisas, grandes e pequenas, que fizeram. Eles pensaram em suas observações como flâneurs, que deixaram tantos mistérios sem solução. Eles pensaram em todas as suas incumbências como concierges, que tantos problemas provocaram. E eles se perguntaram se ainda eram os nobres voluntários que queriam ser, ou se, enquanto o incêndio abria seu caminho maligno através do hotel e o edifício ameaçava desmoronar, era seu destino se tornar algo diferente. Os órfãos Baudelaire estavam no mesmo barco que o conde Olaf, o notório vilão, e perscrutavam o mar, onde esperavam poder encontrar seus nobres amigos, e se perguntavam o que mais poderiam fazer, e quem poderiam vir a ser.

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