6 de setembro de 2016

Capítulo sete


Um bocado de coisas aconteceu naquele dia depois que o relógio bateu três horas e cada Nadabom! ecoou por todo o imenso e desconcertante mundo do Hotel Desenlace. No nono andar, uma mulher foi subitamente reconhecida por uma química, e as duas tiveram um ataque de riso. No subsolo, uma estranha visão foi relatada por um homem ambidestro que falava em um walkie-talkie.
No sexto andar, uma das governantas tirou o disfarce e abriu um buraco atrás de um vaso ornamental a fim de examinar os cabos que mantinham um dos elevadores no lugar, enquanto ouvia o som longínquo de uma canção muito irritante vindo de um quarto logo acima. No quarto 296, um voluntário subitamente se deu conta de que a língua hebraica deve ser lida da direita para a esquerda e não da esquerda para a direita, o que significa que ela deve ser lida da esquerda para a direita e não da direita para a esquerda no espelho, e no café localizado na Sala 178 um vilão pediu açúcar no seu café e foi imediatamente atirado ao chão para que uma garçonete pudesse verificar se ele tinha uma tatuagem no tornozelo; então, em troca de todo aquele incômodo, recebeu um pedido de desculpas e uma fatia grátis de torta de ruibarbo. No quarto 174, um banqueiro atendeu o telefone apenas para descobrir que não havia ninguém na linha, e no quarto 594, uma família passava despercebida, sentada entre aquários de peixes tropicais tendo por companhia apenas uma mala cheia de roupa suja, sem se dar conta de que embaixo de uma almofada do sofá se encontrava uma toalhinha ornamental que eles procuravam havia mais de nove anos. Do lado de fora do hotel, um motorista de táxi olhava para o respiro que despejava vapor no céu e se perguntava se um certo homem com as costas com formato incomum iria voltar para reclamar as malas que ainda estavam no porta-malas; do outro lado do hotel, uma mulher de capacete de mergulho e maio lustroso tentava enxergar o fundo escuro do mar iluminando-o com uma lanterna através da água. No lado oposto da cidade, um longo automóvel preto conduzia uma mulher para longe do homem que ela amava, e em uma outra cidade, a quilômetros e quilômetros dos Baudelaire, quatro crianças brincavam na praia, sem se dar conta de que estavam prestes a receber notícias muito assustadoras; ainda em outra cidade, que não era nem aquela onde viveram os Baudelaire nem a que acabo de mencionar, alguma outra pessoa ficou sabendo de alguma coisa e houve algum tipo de confusão, ou pelo menos é o que fui levado a acreditar. A cada Nadabom! do relógio, enquanto de mansinho a tarde se transformava em noite, um sem-número de coisas acontecia, não apenas no imenso e desconcertante universo do Hotel Desenlace, mas também no imenso e desconcertante universo que jazia para além das suas paredes de tijolos.
No entanto, os órfãos Baudelaire não pensaram em nada disso. Curiosamente, suas incumbências como concierges os mantiveram no saguão pelo resto da tarde, e por essa razão eles não tiveram mais oportunidade de se aventurar nos pequenos elevadores e observar o que quer que fosse como flâneurs, pois passaram horas levando coisas de um lado para outro no saguão, sem nem pensar nos objetos que carregavam, nem nos hóspedes que aguardavam por eles, tampouco na figura alta e esguia de Frank ou Ernest, que ocasionalmente passava apressada por eles concentrado em suas próprias incumbências. À medida que a noite se aproximava, e as sinetas atrás do balcão tocavam cada vez menos frequentemente, Violet, Klaus e Sunny pensavam apenas no que tinha acontecido com eles. Pensavam somente no que cada um deles observara, e se perguntavam que diabo aquilo tudo poderia significar. Por fim, exatamente como Frank ou Ernest tinha previsto, a noite chegou e o hotel ficou muito silencioso. Os três irmãos se reuniram atrás do grande balcão de madeira para conversar, com as costas contra a parede e esticando as pernas até quase tocar nas sinetas. Violet contou a história de Esmé Squalor, Carmelita Spats e Geraldine Julienne no salão de bronzeamento da cobertura, e Frank ou Ernest no saguão. Klaus contou a história de Senhor e Charles no quarto 674, e Frank ou Ernest na sauna. E Sunny contou a história do vice-diretor Nero, do sr. Remora e da sra. Bass no quarto 371, e Frank ou Ernest e Hal no restaurante indiano da Sala 954. Klaus registrava tudo cuidadosamente no seu livro de lugar-comum; quando chegou a sua vez de falar, ele entregou o livro a Violet, e os três Baudelaire interrompiam-se com perguntas e palpites. Depois que todas as histórias já tinham sido contadas, e examinados os incontáveis detalhes anotados a tinta no papel, tudo o que lhes acontecera continuava tão misterioso quanto era pela manha.
“Isso simplesmente não faz nenhum sentido”, disse Violet. “Por que Esmé está planejando uma festa? Por que Carmelita Spats pediu um lançador de arpões?”
“Por que Senhor e Charles estão aqui?”, perguntou Klaus. “Por que há um papel pega-pássaros pendurado do lado de fora da janela da sauna?”
“Por que Nero?”, perguntou Sunny. “Por que Remora? Por que Bass? Por que Hal?”
“Quem é J.S.?”, perguntou Violet. “É um homem à espreita no subsolo, ou é uma mulher observando o céu?”
“Onde está o conde Olaf?”, perguntou Klaus. “Por que ele convidou tantos dos nossos antigos tutores aqui para o hotel?”
“Frankernest”, disse Sunny, e essa talvez fosse a pergunta mais misteriosa de todas. Violet, Klaus e Sunny tinham, cada um deles, encontrado um dos gerentes momentos antes de o relógio bater as três horas. Kit Snicket lhes dissera que se observassem todas as pessoas que vissem poderiam distinguir os vilões dos voluntários, mas os Baudelaire não sabiam qual irmão se encontrara com qual gerente, e eles simplesmente não podiam imaginar como duas pessoas podiam estar em três lugares ao mesmo tempo. Os Baudelaire ponderaram sobre a situação em um silêncio quebrado apenas por um som estranho, repetitivo, que parecia vir de fora. Por um momento, esse som foi mais um mistério, mas os irmãos logo perceberam que era o coaxar de rãs. Devia haver milhares delas vivendo nas profundezas da lagoa, e agora, com a noite, teriam vindo para a superfície e se comunicavam umas com as outras com o som gutural de sua espécie. Era um som insondável, como se até o mundo natural fosse um código que os Baudelaire não pudessem decifrar.
“Kit disse que nem tudo iria bem”, disse Violet. “Ela disse que as nossas incumbências poderiam ser nobres, mas que não teríamos sucesso.”
“É verdade”, concordou Klaus. “Ela disse que todas as nossas esperanças se transformariam em fumaça, e talvez ela estivesse certa. Cada um de nós observou uma história diferente, mas nenhuma das histórias faz sentido.”
“Elefante”, disse Sunny.
Violet e Klaus olharam para a irmã, curiosos.
“Poema”, disse ela. “Pai.”
Violet e Klaus se entreolharam, intrigados.
“Elefante”, insistiu Sunny, mas essa foi uma das raras ocasiões em que Violet e Klaus não entenderam o que a irmã estava dizendo. Na pequena testa de Sunny podia-se ver um sulco enquanto ela se esforçava em se lembrar de algo que poderia ajudá-la a se comunicar com os irmãos. Por fim, ela ergueu os olhos para Violet e Klaus. “John Godfrey Saxe”, disse ela, e os três Baudelaire sorriram.
O nome John Godfrey Saxe provavelmente não significa nada para você, a não ser que seja um fã de poetas humoristas americanos do século dezenove. Não existem muitas pessoas assim no mundo, mas o pai dos Baudelaire era uma delas, e sabia de cor diversos poemas. De tempos em tempos ele entrava em um estado de ânimo esdrúxulo – a palavra “esdrúxulo”, como você provavelmente sabe, significa “esquisito e impulsivo” –, agarrava no colo a criança Baudelaire mais próxima e a jogava para cima e para baixo enquanto recitava um poema de John Godfrey Saxe sobre um elefante. No poema, seis homens cegos encontraram um elefante pela primeira vez e foram incapazes de entrar num acordo sobre com o que o animal se parecia. O primeiro homem apalpou o alto e macio flanco do elefante e concluiu que um elefante se parecia com uma parede. O segundo homem apalpou a presa do elefante e decidiu que um elefante se parecia com uma lança. O terceiro homem apalpou a tromba do elefante e o quarto apalpou uma de suas pernas, e assim por diante, com todos os cegos discutindo sobre com o que se parecia um elefante. Como acontece com muitas crianças, Violet e Klaus já eram suficientemente crescidos para achar os estados de ânimo esdrúxulos do pai um pouco embaraçosos, e assim, como se tornou o público principal dos recitais de poesia do sr. Baudelaire, Sunny lembrava-se melhor do poema.
“Aquele poema poderia se aplicar a nós”, disse Violet. “Cada um de nós observou uma pequenina parte do quebra-cabeça, mas nenhum de nós viu a coisa inteira.”
“Ninguém poderia ver a coisa inteira”, disse Klaus. “Existe um mistério atrás de cada porta do Hotel Desenlace, e ninguém pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, observando todos os voluntários e todos os vilões.”
“Ainda assim temos de tentar”, disse Violet. “Kit disse que o açucareiro estava a caminho deste hotel. Temos de impedir que ele caia nas mãos do impostor.”
“Mas o açucareiro pode ser escondido em qualquer lugar”, disse Klaus, “e o impostor poderia ser qualquer um. Todos aqueles que observamos falavam sobre J.S., mas ainda não sabemos quem é ele ou ela.”
“‘Cada qual estava em parte certo’“, Sunny recitou o penúltimo verso do poema do elefante.
Seus irmãos sorriram e terminaram o verso em coro:
‘“E todos estavam errados’“, disseram juntos, mas a última palavra foi abafada por outro som, ou talvez fosse mais apropriado dizer que a palavra “errados” foi abafada por outra palavra. Nadabom! anunciou o relógio do Hotel Desenlace. Nadabom! Nadabom! Nadabom! Nadabom! Nadabom! Nadabom! Nadabom! Nadabom! Nadabom! Nadabom! Nadabom!
“É tarde”, disse Klaus quando o décimo segundo Nadabom! silenciou. “Nem percebi que ficamos conversando tanto tempo.” Ele e suas irmãs se levantaram, se espreguiçaram e viram que o saguão estava vazio e silencioso. A tampa do piano de cauda estava fechada. A fonte em cascata tinha sido desligada. Até mesmo o balcão de recepção estava vazio, como se o Hotel Desenlace não esperasse mais hóspedes até de manhã. A luz da luminária em forma de rã e, é claro, os próprios Baudelaire eram os únicos sinais de vida sob a enorme abóbada do teto.
“Acho que os hóspedes estão dormindo”, disse Violet, “ou então estão passando a noite inteira lendo, como disse Frank.”
“Ou Ernest”, lembrou Sunny.
“Talvez devêssemos tentar dormir também”, disse Klaus. “Temos mais um dia para resolver esses mistérios, e devemos estar bem descansados para quando esse dia chegar.”
“Imagino que não deva haver muita coisa para observar depois que escurece”, disse Violet.
“Sono”, bocejou Sunny.
Os irmãos assentiram, todos os três porém ficaram lá parados. Não parecia certo dormir quando tantos inimigos estavam à espreita no hotel, engendrando planos sinistros. Tais eventos acontecem todas as noites, e não só no Hotel Desenlace, mas em todo o mundo, e até mesmo o mais nobre dos voluntários precisa de uma soneca rápida, uma expressão que aqui significa “deitar atrás de um grande balcão de madeira e esperar que ninguém toque as sinetas dos concierges até de manhã”. As crianças teriam preferido circunstâncias mais confortáveis para dormir, é claro, mas um tempo muito longo se passara desde a última vez em que essas circunstâncias estiveram disponíveis; assim, sem mais discussões, eles deram boa-noite um ao outro, e Klaus estendeu a mão para apagar a luminária em forma de rã. Por um momento, as três crianças ficaram deitadas ouvindo o coaxar que vinha da lagoa lá fora.
“Está escuro”, disse Sunny. A mais jovem dos Baudelaire não tinha nenhum medo especial do escuro, apenas sentiu vontade de mencionar isso, para o caso de os seus irmãos estarem nervosos.
“Está mesmo escuro”, concordou Violet com um bocejo. “Com os meus óculos escuros, está escuro como... O que foi mesmo que disse Kit Snicket? Tenebroso como um corvo voando em noite escura como breu.”
“É isso”, disse Klaus de repente. Suas irmãs ouviram-no levantar-se no escuro, e então ele tornou a acender a luminária de rã, fazendo ambas piscarem atrás dos óculos escuros.
“O que foi?”, disse Violet. “Pensei que fôssemos dormir.”
“Como podemos dormir”, perguntou Klaus, “quando o açucareiro está sendo trazido ao hotel exatamente nesta noite?”
“O quê?”, perguntou Sunny. “Como?”
Klaus tirou do bolso o seu livro de lugar-comum e folheou as anotações que fizera sobre o que os Baudelaire tinham observado.
“Por corvos”, disse ele.
“Corvos?”, disse Violet.
“Não seria a primeira vez que os corvos carregam algo de importante”, disse Klaus, lembrando as irmãs dos corvos na cidade dos Cultores Solidários de Corvídeos, que tinham trazido mensagens dos Quagmire aos Baudelaire. “Era isso que Esmé Squalor estava observando com os seus Colimadores Simplificados de Clarificação.”
“J.S. também”, disse Sunny, lembrando o que ou Frank ou Ernest comentava sobre observar o céu.
“E é por isso que Carmelita Spats me fez ir buscar um lançador de arpões”, disse Violet, pensativa. “A fim de abater os corvos, para que C.S.C. jamais possa chegar ao açucareiro.”
“E é por isso que Frank ou Ernest me fez pendurar papel pega-pássaros do lado de fora da janela da sauna”, disse Klaus. “Se os corvos forem atingidos pelo lançador de arpões, eles cairão no papel pega-pássaros, e ele saberá que a entrega não foi bem-sucedida.”
“Mas foi Frank ou Ernest que fez você pendurar o papel pega-pássaros?”, perguntou Violet. “Se foi Frank, então o papel pega-pássaros serviria como sinal aos voluntários de que eles foram derrotados. Se foi Ernest, então o papel pega-pássaros serviria como sinal aos vilões de que eles triunfaram.”
“E o açucareiro?”, perguntou Klaus. “Os corvos vão largar o açucareiro se forem atingidos pelo arpão.” Ele franziu a testa ao olhar para uma página do seu livro de lugar-comum. “Se os corvos deixarem cair um objeto pesado como esse”, disse, “ele vai cair diretamente na lagoa.”
“Talvez não”, disse Sunny.
“Onde mais poderia cair?”, perguntou Violet.
“Giracíclico”, disse Sunny, que era o seu jeito de dizer “lavanderia”.
“Como ele iria parar na lavanderia?”, perguntou Klaus.
“Respiro”, disse Sunny. “Frank disse. Ou Ernest.”
“Então eles mandaram você colocar uma fechadura na porta da lavanderia”, disse Violet, “para que ninguém pudesse pegar o açucareiro.”
“Mas foi Frank ou Ernest que fez Sunny ativar a fechadura?”, perguntou Klaus. “Se foi Frank, então o açucareiro estaria trancado, a salvo das mãos de algum vilão que quisesse se apoderar dele. Se foi Ernest, então o açucareiro estaria trancado, a salvo das mãos de algum voluntário que precisasse se apoderar dele.”
“J.S.”, disse Sunny.
“J.S. é a chave de todo o mistério”, concordou Violet. “Esmé Squalor acha que J.S. está estragando a festa. Senhor acha que J.S. está recebendo os convidados da festa. Hal acha que J.S. pode estar aqui para ajudar. Kit acha que J.S. pode estar entre os inimigos. E nós ainda nem sequer sabemos se J.S. é homem ou mulher!”
“Que nem cegos”, disse Sunny, “com elefante.”
“Temos de encontrar J.S.”, concordou Klaus, “mas como? Tentar localizar um hóspede num hotel enorme é como tentar encontrar um livro numa biblioteca.”
“Uma biblioteca sem catálogo”, disse Violet, e os três Baudelaire trocaram olhares tristonhos à luz da luminária em forma de rã. As crianças tinham descoberto incontáveis segredos em bibliotecas sob as mais desesperadas circunstâncias. Elas decodificaram uma mensagem numa biblioteca enquanto um furacão arrasava tudo do lado de fora, e encontraram informações importantes enquanto uma pessoa sinistra as perseguia por uma biblioteca usando calçados malignos. Elas tinham descoberto fatos cruciais em uma biblioteca que só continha três livros, e obtiveram um mapa vital em uma biblioteca que era apenas uma pilha de papéis escondidos debaixo de uma mesa. Os Baudelaire até mesmo encontraram as respostas que estavam procurando em uma biblioteca que havia sido incendiada, deixando apenas uns poucos fragmentos de papel e um mote gravado em um arco de ferro. Violet, Klaus e Sunny ficaram por alguns momentos em pé atrás do balcão dos concierges pensando em todas as bibliotecas que tinham visto, e se perguntaram se algum dos segredos por eles descobertos iria ajudá-los a encontrar o que estavam procurando na desconcertante biblioteca do Hotel Desenlace.
“Aqui o mundo é sereno”, disse Sunny, recitando o mote que seus irmãos encontraram, e quando as palavras dela ecoaram no saguão, os três ouviram um barulho acima deles, um silencioso arrastar de pés vindo da enorme abóbada, quase imperceptível em meio ao coaxar das rãs. O arrastar de pés ficou mais alto, mas os Baudelaire não conseguiram ver nada no negrume acima de suas cabeças, que era tão tenebroso quanto um corvo voando em noite escura como breu. Violet ergueu a luminária em forma de rã o mais alto que o fio permitia, e as três crianças tiraram os óculos escuros. Vagamente, puderam distinguir um vulto sombrio baixando do mecanismo do relógio por meio do que parecia ser uma corda grossa. Era uma visão fantasmagórica, como a de uma aranha descendo para o centro de uma teia, mas os Baudelaire não puderam deixar de admirar a perícia com que aquilo era feito. Com apenas um ligeiro roçar, o vulto foi chegando cada vez mais perto até que, finalmente, as crianças conseguiram ver que se tratava de um homem alto e muito magro, com pernas e braços se projetando em ângulos estranhos, como se fosse feito de canudinhos de refresco em vez de carne e osso. O homem descia por uma corda que ele ia desenrolando, o que é uma atividade que não recomendo – a não ser que você tenha um treinamento adequado, e infelizmente o melhor treinador fora forçado a se esconder desde que uma certa sede de operações nas montanhas fora destruída em um incêndio criminoso; agora ele ganha a vida fazendo imitações de aranhas em um espetáculo itinerante. Por fim o homem chegou bem perto do chão e, com um floreado elegante, soltou a corda e aterrissou silenciosamente no piso. Então caminhou decidido na direção dos Baudelaire, parando apenas para limpar um grão de poeira da palavra GERENTE, que estava impressa em letras elegantes em cima de um dos bolsos do casaco.
“Boa noite, irmãos Baudelaire”, disse o homem. “Perdoem-me por não ter me revelado antes, mas eu precisava ter certeza de que vocês eram quem eu pensava que fossem. Deve ter sido muito desconcertante perambular por este hotel sem um catálogo para ajudá-los.”
“Então existe um catálogo?”, perguntou Klaus.
“É claro que existe um catálogo”, disse o homem. “Vocês não pensaram que eu iria organizar este edifício inteiro de acordo com o Sistema Decimal Dewey e então esquecer de acrescentar um catálogo, pensaram?”
“Mas onde está o catálogo?”, perguntou Violet.
O homem sorriu.
“Vamos lá fora”, disse ele, “e mostrarei a vocês.”
“Arapuca”, murmurou Sunny para os irmãos, que assentiram, concordando.

“Não vamos segui-lo”, disse Violet, “enquanto não soubermos se você é alguém em quem podemos confiar.”
O homem sorriu.
“Não os culpo por suspeitar”, disse ele. “Quando eu me encontrava com o pai de vocês, irmãos Baudelaire, nós recitávamos a obra de um poeta humorista americano do século dezenove, para que pudéssemos reconhecer um ao outro em nossos disfarces.” Ele se deteve no meio do saguão e, com um gesto de um dos estranhos braços magrelos, começou a recitar um poema em inglês antigo:

So oft in theologic wars,
The disputants, I ween,
Rail on in utter ignorance
Of what each other mean,
And prate about an Elephant
Not one of them has seen!*

*Frequentemente em guerras teológicas/ Os disputantes, eu penso,/ Altercam em total ignorância/ Sobre o que cada qual quer dizer,/ E conversam sobre um elefante/ Que nenhum deles viu! (N. T. – tradução livre)

As palavras dos poetas humoristas americanos do século dezenove são muitas vezes desconcertantes, pois eles são propensos a usar termos como oft que é uma abreviatura do século dezenove para often (frequentemente); disputants, que se refere a pessoas que estão discutindo; ween, que significa “pensar”; e rail on, que significa “discutir durante horas a fio”, do modo como você poderia fazer com um membro da família que é especialmente mandão. Esses poetas podem usar a palavra prate, que significa “conversar”, e eles podem passar uma estrofe inteira discutindo theologic wars, um termo que se refere à discussão sobre coisas em que diferentes pessoas acreditam, do modo como você poderia fazer com um membro da família que é especialmente mandão. Mesmo os Baudelaire, que ouviram obras de poetas humoristas americanos do século dezenove sendo recitadas para eles muitas vezes durante a infância, tinham dificuldade em entender tudo na estrofe, que simplesmente salientava o fato de que todos os homens cegos do poema estavam discutindo à toa. Mas Violet, Klaus e Sunny não precisavam saber exatamente o que significava a estrofe. Só precisavam saber quem a escrevera.
“John Godfrey Saxe”, disse Sunny com um sorriso.
“Muito bom”, disse o homem, e caminhou através do piso lustroso e silencioso do saguão, puxando a corda do teto e enfiando-a no cinto.
“E quem é você?”, perguntou Violet.
“Você não consegue adivinhar?”, perguntou o homem, dando uma parada na grande entrada curva. Os Baudelaire se apressaram para alcançá-lo enquanto ele se virava para sair do hotel.
“Frank?”, disse Klaus.
“Não”, disse o homem, e começou a descer as escadas. Os Baudelaire deram um passo para fora, onde o coaxar das rãs na lagoa era consideravelmente mais alto, embora as crianças não pudessem ver a lagoa através da nuvem de vapor proveniente do respiro. Violet, Klaus e Sunny se entreolharam com cautela e então se puseram a segui-lo.
“Ernest?”, perguntou Sunny.
O homem sorriu e continuou descendo as escadas, desaparecendo no vapor.
“Não”, disse ele, e os órfãos Baudelaire saíram do hotel e desapareceram em sua companhia.

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