10 de setembro de 2016

Capítulo sete


O apuro dos órfãos Baudelaire ali sentados, abandonados na plataforma costeira, com Kit Snicket acima deles inconsciente, no topo de um cubo de livros, o conde Olaf trancafiado numa gaiola e a Víbora Incrivelmente Mortífera aos seus pés, é uma excelente oportunidade para usar a expressão “sob uma nuvem negra”. As três crianças estavam certamente sob uma nuvem negra naquela tarde, e não só pelo fato de uma solitária aglomeração de vapor d’água condensado – identificado por Klaus como pertencente à variedade cúmulo – estar pairando acima delas no céu como mais um náufrago da tempestade da noite anterior. A expressão “sob uma nuvem negra” refere-se a pessoas desfavorecidas em uma determinada comunidade, do mesmo modo como a maioria das salas de aula tem pelo menos uma criança muito impopular, ou a maioria das organizações secretas tem sob suspeita pelo menos um analista de discurso. A única comunidade da ilha certamente pusera Violet, Klaus e Sunny sob uma nuvem negra, e mesmo debaixo do sol ardente da tarde os órfãos sentiram o calafrio da suspeita e da desaprovação da colônia.
”Eu não posso acreditar”, disse Violet. “Eu não posso acreditar que fomos abandonados.”
“Pensamos que poderíamos jogar fora tudo o que aconteceu conosco antes de chegarmos aqui”, disse Klaus, “mas este lugar não é mais seguro que qualquer outro onde já estivemos.”
“Mas que fazer?”, perguntou Sunny.
Violet correu os olhos por toda a plataforma costeira.
“Imagino que podemos pescar peixes e colher algas para comer”, disse ela. “Nossas refeições não serão muito diferentes das da ilha.”
“Com fogo”, disse Sunny, pensativa, “carpassada”.
“Não podemos viver aqui”, observou Klaus. “O Dia da Decisão está chegando, e a plataforma costeira vai ficar debaixo d’água. Ou teremos de viver na ilha, ou achar um jeito de voltar para o lugar de onde viemos.”
“Nunca conseguiríamos sobreviver a uma viagem por mar sem barco”, disse Violet, desejando ter a sua fita de volta para poder prender o cabelo.
“Kit conseguiu”, ressaltou Sunny.
“A biblioteca deve ter servido como uma espécie de balsa”, disse Klaus, passando a mão pelos livros, “mas ela não poderia ter ido longe em um barco de papel.”
“Espero que ela tenha se encontrado com os Quagmire”, disse Violet.
“Espero que ela acorde e nos conte o que aconteceu”, disse Klaus.
“Você acha que ela está seriamente ferida?”, perguntou Violet.
“Não há como dizer sem um exame médico completo”, disse Klaus, “mas, a não ser pelo tornozelo, ela parece estar bem. Provavelmente está apenas exausta por causa da tempestade.”
“Preocupada”, disse Sunny tristemente, desejando que houvesse um cobertor quente e seco na plataforma costeira que os Baudelaire pudessem usar para cobrir a amiga inconsciente.
“Não podemos nos preocupar só com Kit”, disse Klaus. “Precisamos nos preocupar com nós mesmos.”
“Temos de pensar em um plano”, disse Violet com a voz cansada, e os três Baudelaire suspiraram. Até mesmo a Víbora Incrivelmente Mortífera pareceu suspirar e pousou a cabeça no pé de Sunny, solidária. Os irmãos ficaram parados no meio da plataforma costeira, pensando em seus apuros anteriores, e em todos os planos que engendraram a fim de encontrar segurança, apenas para acabar envolvidos em mais uma desventura em série. A nuvem sob a qual estavam parecia aumentar e escurecer cada vez mais, e as crianças poderiam ter ficado lá sentadas por um longo tempo se o silêncio não tivesse sido quebrado pela voz do homem que estava trancafiado na gaiola.
“Eu tenho um plano”, disse o conde Olaf. “Deixem-me sair, e contarei o que é.”
Embora não estivesse mais usando a sua voz esganiçada, Olaf ainda soava abafado dentro da gaiola, e quando os Baudelaire se voltaram para olhar, foi como se ele estivesse lançando mão de um de seus disfarces. O vestido amarelo e laranja que estava trajando cobria a maior parte do corpo, e as crianças não podiam ver a curva da sua falsa gravidez nem o olho tatuado em seu tornozelo. Somente alguns dedos dos pés e das mãos se projetavam por entre as grades da gaiola, e, se os irmãos olhassem de perto, poderiam ver a curva molhada da boca dele e um olho piscante espiando para fora do cativeiro.
“Não vamos deixá-lo sair”, disse Violet. “Já temos problemas suficientes sem você vagando solto por ai”.
“Como queira”, disse Olaf, e o seu vestido farfalhou quando ele tentou encolher os ombros. “Mas vocês vão se afogar tão certamente quanto eu quando a plataforma costeira inundar. Não podem construir um barco, porque os ilhéus coletaram tudo o que sobrou da tempestade. E não podem viver na ilha, porque os colonos os abandonaram. Muito embora tenhamos naufragado, ainda estamos no mesmo barco.”
“Não precisamos da sua ajuda, Olaf”, disse Klaus. “Se não fosse por você, não estaríamos aqui, para começo de conversa.”
“Não tenha tanta certeza disso”, disse o conde, e sua boca se retorceu num sorriso. “Mais cedo ou mais tarde tudo acaba dando nestas praias, só para ser julgado por aquele idiota de túnica. Vocês acham que são os primeiros Baudelaire a vir parar aqui?”
“Que quer dizer?”, perguntou Sunny.
“Deixem-me sair”, disse Olaf com uma risadinha abafada, “e eu lhes direi.”
Os Baudelaire se entreolharam em dúvida.
“Você está tentando nos enganar”, disse Violet.
“É claro que estou tentando enganá-los!”, exclamou Olaf. “Assim é o mundo, jovens Baudelaire. Todos correm de um lado para outro, cada qual com seus segredos e esquemas, um tentando ser mais esperto que o outro. Ishmael foi mais esperto que eu e me pôs nesta gaiola. Mas eu sei como ser mais esperto que ele e todos os seus amigos ilhéus. Se vocês me soltarem, eu poderei ser o rei de Olaflândia, e vocês três poderão ser os meus novos comparsas.”
“Nós não queremos ser seus comparsas”, disse Klaus. “Só queremos estar seguros.”
“Nenhum lugar do mundo é seguro”, disse Olaf.
“Não com você por perto”, concordou Violet.
“Eu não sou pior que qualquer outro”, disse o conde Olaf. “Ishmael é tão pérfido quanto eu.”
“Grandíloquo”, disse Sunny.
“É verdade!”, insistiu Olaf, embora provavelmente não tenha entendido o que Sunny disse. “Olhem para mim! Estou enfiado numa gaiola sem nenhuma boa razão! Soa familiar, seu bebê estúpido?”
“Minha irmã não é um bebê”, disse Violet com firmeza, “e Ishmael não é pérfido. Ele pode estar mal orientado, mas só está tentando fazer da ilha um lugar seguro.”
“É mesmo?”, disse Olaf, e a gaiola chacoalhou quando ele riu. “Por que vocês não vão até aquela poça para ver o que Ishmael deixou cairia?”
Os Baudelaire se entreolharam. Tinham quase esquecido do objeto que rolara para fora da manga do facilitador. As três crianças olharam para a poça, mas foi a Víbora Incrivelmente Mortífera que coleou para o fundo daquelas águas turvas e voltou com um pequeno objeto na boca, que ela depositou na mão estendida de Sunny.
“Brigui”, disse Sunny, agradecendo à serpente e coçando-lhe a cabeça.
“O que é?”, disse Violet, inclinando-se para olhar o que a víbora tinha recuperado.
“E um miolo de maçã”, Klaus respondeu, e suas irmãs viram que era isso mesmo. Sunny estava segurando o miolo de uma maçã, que tinha sido tão meticulosamente mordido que não restara quase nada.
“Estão vendo?”, perguntou Olaf. “Enquanto os outros ilhéus têm de fazer todo o trabalho, Ishmael sai furtivamente para o arboreto com seus pés perfeitamente saudáveis e come todas as maçãs sozinho! O seu bem-amado facilitador não só tem barro nos pés como tem os pés de barro!”
A gaiola de passarinho se sacudiu de tanto rir, e os órfãos Baudelaire olharam primeiro para o miolo de maçã e depois um para o outro. “Pés de barro” é uma expressão que se refere a uma pessoa que parece ser honesta e leal, mas que mostra ter uma fraqueza oculta ou um segredo pérfido. Se uma pessoa mostra ter pés de barro, a sua opinião sobre ela pode vir abaixo, assim como uma estátua virá abaixo se a sua base mostrar ter sido mal construída. Os Baudelaire acharam que Ishmael estava errado em abandoná-los na plataforma costeira, é claro, mas acreditaram que ele tinha feito isso para resguardar os outros ilhéus do mal, assim como a sra. Caliban não queria que Sexta-Feira se aborrecesse aprendendo a ler, e, embora não concordassem com grande parte da filosofia do facilitador, ao menos respeitavam o fato de que ele estava procurando fazer a mesma coisa que os Baudelaire vinham tentando desde aquele dia terrível na praia em que ficaram órfãos: encontrar ou construir um lugar seguro para chamar de lar. Agora, porém, olhando para o miolo de maçã, as crianças se deram conta de que o que Olaf dissera era verdade. Ishmael tinha pés de barro. Estava mentindo quanto aos seus ferimentos, fora egoísta quanto às maçãs do arboreto, e pérfido em pressionar os outros na ilha a fazer todo o trabalho. Olhando para as pérfidas marcas de mordidas que o facilitador deixara para trás, os irmãos se lembraram da sua alegação de prever o tempo por mágica, além do brilho estranho nos seus olhos quando insistiu que não havia biblioteca na ilha, e os Baudelaire se perguntaram que outros segredos estaria escondendo o facilitador barbudo. Violet, Klaus e Sunny deixaram-se afundar em um monte de areia molhada, como se eles mesmos tivessem pés de barro, e se encostaram no cubo de livros, perguntando-se como podiam ter viajado para tão longe do mundo somente para encontrar a mesma desonestidade e perfídia de sempre.
“Qual é o seu plano?”, Violet perguntou ao conde Olaf depois de um longo silêncio.
“Deixem-me sair desta gaiola”, disse Olaf, “e lhes direi.”
“Conte-nos primeiro”, disse Klaus, “e talvez o deixemos sair.”
“Deixem-me sair primeiro”, insistiu Olaf.
“Conte-nos primeiro”, insistiu Sunny, com a mesma firmeza.
“Posso ficar discutindo com vocês o dia inteiro”, resmungou o vilão. “Deixem-me sair, estou dizendo, ou levarei o plano comigo para o túmulo!”
“Podemos pensar em um plano sem você”, disse Violet, esperando soar mais confiante do que se sentia. “Já conseguimos escapar de uma extensa lista de situações difíceis sem a sua ajuda.”
“Eu tenho a única arma que pode ameaçar Ishmael e seus seguidores”, disse o conde Olaf.
“O lançador de arpões?”, disse Klaus. “Omeros levou aquilo embora.”
“Não o lançador de arpões, seu intelectual retardado”, disse o conde Olaf com desdém, uma expressão que aqui significa “enquanto tentava coçar o nariz dentro dos confins da gaiola de passarinho”. “Eu estou falando do Mycelium Medusoide!”
“Fungo!”, gritou Sunny. Seus irmãos engasgaram, e até a Víbora Incrivelmente Mortífera pareceu perplexa do seu jeito reptiliano quando o vilão lhes contou o que você já deve ter adivinhado.
“Eu não estou realmente grávido”, ele confessou com um sorriso amarelo engaiolado. “O capacete de mergulho contendo os esporos do Mycelium Medusoide está escondido neste vestido que estou usando. Se vocês me deixarem sair, poderei ameaçar a colônia inteira com estes cogumelos letais. Todos aqueles idiotas de túnica serão meus escravos!”
“E se eles se recusarem?”, perguntou Violet.
“Então arrebentarei o capacete”, exultou Olaf, “e esta ilha inteira será destruída.”
“Mas nós seremos destruídos junto”, disse Klaus. “Os esporos nos infectarão, como a todos os outros.”
“Yomhashoah”, disse Sunny, o que queria dizer “Nunca mais”. A mais jovem dos Baudelaire já tinha sido infectada pelo Mycelium Medusoide não fazia muito tempo, e as crianças não gostavam de pensar no que teria acontecido se não tivessem encontrado um pouco de wasabi para diluir o veneno.
“Escaparemos no catamarã, seu bobo”, disse Olaf. “Os imbecis da ilha estiveram construindo aquilo o ano inteiro. É perfeito para deixar este lugar e voltar para onde está a ação.”
“Talvez eles simplesmente nos deixem ir”, disse Violet. “Sexta-Feira nos contou que qualquer um que deseje abandonar a colônia pode embarcar no catamarã no Dia da Decisão.”
“Aquela menininha não está aqui há muito tempo”, ironizou o conde Olaf, “por isso ainda acredita que Ishmael permite que as pessoas façam o que quiserem. Não sejam tão palermas quanto ela, órfãos.”
Klaus desejou desesperadamente que seu livro de lugar-comum estivesse aberto em seu colo, para que ele pudesse fazer anotações, e não no outro lado da ilha, com os demais itens proibidos.
“Como você sabe tanta coisa sobre este lugar, Olaf?”, o menino perguntou. “Você está aqui há apenas alguns dias, exatamente como nós!”
“Exatamente como vocês”, repetiu o vilão, zombeteiro, e a gaiola sacudiu-se de novo de tanto rir. “Vocês acham que a sua história patética é a única história do mundo? Vocês acham que esta ilha estava aqui, no meio do mar, aguardando que vocês fossem arrastados para as suas praias? Vocês acham que eu fiquei em minha casa na cidade, aguardando sentado que vocês, órfãos miseráveis, atravessassem o meu caminho?”
“Boswell”, disse Sunny. Ela queria dizer alguma coisa do gênero “A sua vida não me interessa”, e a Víbora Incrivelmente Mortífera pareceu silvar concordando.
“Eu poderia lhes contar histórias, órfãos Baudelaire”, disse o conde Olaf com uma voz rouca e abafada. “Eu poderia lhes contar segredos sobre pessoas e lugares que vocês nunca sonharam. Eu poderia lhes contar sobre brigas e cisões que começaram antes de vocês nascerem. Eu poderia lhes contar sobre vocês mesmos coisas que não poderiam nem imaginar. Apenas abram a porta da minha gaiola, órfãos, e lhes contarei coisas que vocês jamais descobririam sozinhos.”
Os Baudelaire se entreolharam e estremeceram. Mesmo em plena luz do dia, preso em uma gaiola, o conde Olaf ainda era assustador. Havia no conde algo de vilanesco, capaz de ameaçá-los mesmo se ele estivesse bem trancafiado, muito longe do resto do mundo. Os três irmãos sempre foram crianças curiosas. Violet era ávida por descobrir os segredos do mundo mecânico com a sua mente inventiva, desde quando o primeiro alicate foi colocado no berço dela. Klaus era sôfrego por ler tudo o que lhe caía nas mãos desde que o alfabeto fora desenhado pela primeira vez na parede do seu quarto por alguém que estava de visita à casa dos Baudelaire. E Sunny estava sempre explorando o universo com a boca, primeiro mordendo qualquer coisa que lhe interessasse e mais tarde provando comida cuidadosamente, a fim de aprimorar suas habilidades de cozinheira. A curiosidade era um dos costumes mais importantes dos Baudelaire, e pode-se pensar que eles ficariam realmente muito curiosos em ouvir mais sobre os mistérios mencionados pelo vilão. Mas havia algo de muito, muito sinistro nas palavras de Olaf. Ouvi-lo falar dava a impressão de estar em pé à beira de um poço fundo, ou caminhando no alto de um penhasco na calada da noite, ou ouvindo um estranho som farfalhante do lado de fora da janela do quarto, sabendo que a qualquer momento algo perigoso e enorme poderia acontecer. Aquilo fez os Baudelaire pensarem naquele terrível ponto de interrogação na tela do radar do Queequeg – um segredo tão gigantesco e importante que não poderia caber em seus corações ou em suas mentes, algo que estivera escondido durante a vida inteira e que poderia destruí-los, uma vez revelado. Não era um segredo que os órfãos Baudelaire quisessem ouvir, do conde Olaf nem de ninguém, e apesar da sensação de ser um segredo que não podia ser evitado, as crianças queriam evitá-lo de todo modo; assim, sem mais uma palavra para o homem na gaiola, os irmãos se puseram de pé e contornaram o cubo de livros até chegar ao lado oposto, de onde Olaf e sua gaiola de passarinho não podiam ser vistos. Então, em silêncio, os três sentaram-se de novo, recostaram-se contra a estranha balsa, e ficaram olhando para o horizonte plano do mar, tentando não pensar no que Olaf dissera. Ocasionalmente, tomavam pequenos goles de cordial de coco das conchas penduradas em suas cinturas, esperando que a forte e estranha bebida os distraísse dos fortes e estranhos pensamentos em suas cabeças. Durante toda a tarde, até o sol se pôr sobre o horizonte ondulante do mar, os órfãos Baudelaire ficaram sentados bebendo e se perguntando se ousariam tomar conhecimento do que jazia no âmago das suas tristes vidas, depois que todos os segredos, todos os mistérios e todas as desventuras fossem removidos como as camadas de uma cebola.

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