10 de setembro de 2016

Capítulo seis


A esta altura, você pode estar reconhecendo a melancólica marca registrada da melancólica história dos órfãos Baudelaire. A expressão “marca registrada” refere-se às características distintivas de alguma coisa, como o colarinho espumante e o chiado forte que são a marca registrada de um ice-cream soda, ou as fotografias manchadas de lágrimas e o chiado forte que são a marca registrada de um coração partido. Certamente os próprios Baudelaire – que até onde eu sei não leram a sua própria história melancólica, mas são, é claro, seus participantes principais – tiveram uma sensação de enjoo no estômago quando os ilhéus se aproximaram deles, segurando vários itens que tinham achado durante a coleta de despojos pós-borrasca. Parecia que mais uma vez, depois de chegar a um estranho novo lar, o conde Olaf iria enganar todo mundo com o seu mais recente disfarce, e os Baudelaire, mais uma vez, estariam em grave perigo. De fato, o disfarce talar do conde Olaf não chegava sequer a cobrir o olho tatuado no tornozelo, pois os ilhéus, vivendo tão longe do mundo, nada saberiam sobre aquela marca notória e, portanto, poderiam ser enganados ainda mais facilmente. Mas quando os colonos chegaram perto do cubo de livros sobre o qual Kit Snicket jazia inconsciente, a história dos Baudelaire de repente contrariou as suas expectativas, uma frase que aqui significa “a menininha que os encontrara pela primeira vez na plataforma costeira reconheceu o conde Olaf imediatamente”.
“É Olaf!”, gritou Sexta-Feira apontando um dedo acusador para o vilão. “Por que está vestido de mulher grávida?”
“Estou vestida de mulher grávida porque sou uma mulher grávida”, retrucou o conde Olaf com uma voz esganiçada disfarçada. “Meu nome é Kit Snicket, e estive procurando essas crianças por toda parte.”
“Você não é Kit Snicket!”, bradou a sra. Caliban.
“Kit Snicket está em cima dessa pilha de livros”, disse Violet indignada, ajudando Sunny a descer de cima do cubo. “E nossa amiga e pode estar ferida ou doente. Mas este é o conde Olaf, que não é nosso amigo.”
“Ele também não é nosso amigo”, disse Sexta-Feira, e houve um murmúrio de assentimento entre os ilhéus. “Só porque você pôs alguma coisa dentro do vestido para parecer grávido e jogou um punhado de algas em cima do cabelo para fazer de conta que é uma peruca, não quer dizer que não pode ser reconhecido.” A menina virou-se de frente para as três crianças, e elas repararam pela primeira vez que a ilhotazinha tinha uma protuberância suspeita embaixo da túnica, como se ela também tivesse escondido alguma coisa sob as vestes. “Espero que Olaf não os esteja incomodando. Eu disse a ele que fosse embora.”
O conde Olaf deu uma olhada furiosa para Sexta-Feira, mas depois voltou-se para tentar lançar a sua perfídia para cima dos outros ilhéus.
“Vocês, pessoas primitivas, não vão dizer para uma mulher grávida ir embora, vão?”, perguntou ele. “Minha condição é muito delicada.”
“Você não está em uma condição muito delicada”, disse Larsen com firmeza. “Você está é em um disfarce muito transparente. Se Sexta-Feira diz que você é esse tal de Olaf, então eu tenho certeza de que é, e você não é bem-vindo aqui por causa da sua indelicadeza.”
“Eu nunca fui indelicada na minha vida”, disse Olaf, passando a mão ossuda por suas algas. “Nada mais sou que uma donzela razoavelmente inocente com uma barriga cheia de bebê. Os Baudelaire é que foram indelicados, juntamente com aquela impostora que está dormindo em cima dessa biblioteca encharcada.”
“Biblioteca?”, disse Fletcher com uma engasgada. “Nós nunca tivemos uma biblioteca na colônia.”
“Ishmael nos disse que uma biblioteca forçosamente levaria a problemas”, disse Brewster, “portanto tivemos sorte por livro nenhum jamais ter vindo parar nas nossas praias.”
“Estão vendo?”, disse Olaf, o vestido laranja e amarelo farfalhando na brisa da manhã. “Aquela mulher pérfida lá em cima arrastou estes livros para a sua colônia, só para ser indelicada com vocês, pobre gente primitiva. E os Baudelaire são amigos dela! São eles que vocês deviam abandonar aqui, e eu devia ser bem recebida em Olaflândia e ganhar presentes.”
“Esta ilha não se chama Olaflândia!”, gritou Sexta-Feira. “E foi você que nós abandonamos!”
“Isto está confuso!”, gritou Omeros. “Precisamos de um facilitador para esclarecer as coisas!”
“Omeros tem razão”, disse Calypso. “Não devíamos decidir nada até falar com Ishmael. Venham, vamos levar todos esses detritos para a tenda de Ishmael.”
Os colonos assentiram, e uns poucos aldeões caminharam juntos até o cubo e começaram a empurrá-lo pela plataforma. Era um trabalho difícil, e o cubo trepidava ao ser arrastado sobre a superfície irregular. Os Baudelaire viram o pé de Kit ser sacudido violentamente para cima e para baixo, e ficaram com medo de que sua amiga pudesse cair.
“Parem”, disse Klaus. “Não é seguro mover uma pessoa que pode estar seriamente ferida, sobretudo se ela estiver grávida.”
“Klaus está certo”, disse o dr. Kurtz. “Eu me lembro disso dos tempos da escola de veterinária.”
“Se Maomé não vai à montanha”, disse o rabino Bligh, usando uma expressão que os ilhéus entenderam de cara, “a montanha vai a Maomé.”
“Mas como Ishmael poderia vir até aqui?”, disse Erewhon. “Ele não poderia andar por toda essa distância com os pés feridos.”
“Os carneiros podem arrastá-lo para cá”, disse Sherman. “Podemos pôr a cadeira dele no trenó. Sexta-Feira, você fica guardando Olaf e os Baudelaire, enquanto o resto de nós vai buscar o nosso facilitador.”
“E mais um pouco de cordial de coco”, disse madame Nordoff. “Estou com sede e a minha concha está quase vazia.”
Houve um murmúrio de aprovação entre os ilhéus, e eles começaram a caminhar de volta para a ilha, carregando todos os itens que acharam na coleta de despojos pós-borrasca. Em poucos minutos, os colonos eram apenas formas vagas no horizonte nevoento e os Baudelaire estavam sozinhos com o conde Olaf e Sexta-Feira, que tomou um grande gole da sua concha e depois sorriu para as crianças.
“Não se preocupem, irmãos Baudelaire”, disse a menina, colocando a mão sobre a protuberância na sua túnica. “Vamos esclarecer isso. Eu prometo que esse homem horrível será abandonado de uma vez por todas.”
“Eu não sou um homem”, insistiu Olaf com sua voz disfarçada. “Sou uma dama com um bebê dentro dela.”
“Pelúcida histrionice”, disse Sunny.
“Minha irmã está certa”, disse Violet. “O seu disfarce não está funcionando.”
“Oh, eu não acho que vocês queiram que eu pare de fingir”, disse o vilão, ainda falando com sua ridícula voz esganiçada, mas os olhos brilhavam muito atrás dos cachos de algas. Ele estendeu o braço para trás e revelou o lançador de arpões, com seu gatilho vermelho vivo e um último arpão pronto para ser disparado. “Se eu dissesse que sou o conde Olaf, em vez de Kit Snicket, poderia começar a me comportar como um vilão, e não como uma pessoa nobre.”
“Você nunca se comportou como uma pessoa nobre”, disse Klaus, “não importa o nome que estivesse usando. E essa arma não nos assusta. Você só tem um arpão, e esta ilha está cheia de pessoas que sabem o quanto você é mau e indelicado.”
“Klaus tem razão”, disse Sexta-Feira. “Você pode muito bem pôr a sua arma de lado. Ela é inútil em um lugar como este.”
O conde Olaf olhou primeiro para Sexta-Feira, depois para os três Baudelaire, e abriu a boca como se fosse dizer alguma outra coisa pérfida com sua voz disfarçada. Mas então ele fechou a boca de novo e olhou furibundo para as poças da plataforma costeira.
“Estou cansado de ficar vagando por aqui”, resmungou ele. “Não há nada para comer além de algas e peixe cru, e tudo o que tinha valor foi levado por todos esses idiotas de túnica.”
“Se você não se comportasse de um modo tão horrível”, disse Sexta-Feira, “poderia viver na ilha.”
Os Baudelaire se entreolharam, nervosos. Embora parecesse um pouco cruel abandonar Olaf na plataforma, eles não gostaram da ideia de que ele pudesse ser bem recebido na colônia. Sexta-Feira, é claro, não sabia da história inteira do conde Olaf e só experimentara na pele a sua indelicadeza uma vez, no primeiro dia em que o encontrara, mas os Baudelaire não podiam contar a Sexta-Feira a história inteira de Olaf sem mencionar tudo sobre eles mesmos, e não sabiam o que Sexta-Feira iria pensar da indelicadeza e da perfídia deles próprios.
O conde Olaf olhou para Sexta-Feira como se estivesse pensando melhor em alguma coisa. Então, com um sorriso ambíguo, voltou-se para os Baudelaire e ofereceu o lançador de arpões.
“Suponho que vocês estejam certos”, disse ele. “O lançador de arpões é inútil em um lugar como este.” Ele ainda estava falando com uma voz disfarçada, e sua mão acariciou a falsa gravidez como se realmente houvesse um bebê crescendo dentro dele.
Os Baudelaire olharam para Olaf, depois para a arma. Na última vez que as crianças tinham tocado no lançador de arpões, o penúltimo arpão fora disparado e um homem nobre de nome Dewey fora morto. Violet, Klaus e Sunny jamais esqueceriam a visão de Dewey afundando nas águas da lagoa enquanto morria, e olhar para o vilão que lhes oferecia a arma apenas os lembrou de que arma perigosa e terrível era aquela.
“Nós não queremos isso”, disse Violet.
“Obviamente, é algum truque seu”, disse Klaus.
“Não é truque”, disse Olaf com sua voz esganiçada. “Estou desistindo dos meus hábitos vilanescos e quero viver com vocês na ilha. Lamento ouvir que não acreditam em mim.”
Seu rosto estava muito sério, como se ele lamentasse muito ouvir aquilo, mas seus olhos estavam brilhantes e perspicazes, do jeito que ficam os olhos de alguém que está contando uma piada.
“Loroteiro”, disse Sunny.
“Assim a madame me insulta”, disse Olaf. “Sou tão honesto quanto o dia é longo.”
O vilão estava usando uma expressão que é utilizada por muita gente a despeito do fato de não querer dizer absolutamente nada. Alguns dias são longos – como no auge do verão, quando o sol brilha por um tempo muito longo, ou no dia de Halloween, que sempre parece durar eternamente até que chegue a hora de vestir a fantasia e exigir doces de estranhos – e alguns dias são curtos – sobretudo durante o inverno ou quando a pessoa está fazendo alguma coisa agradável, como ler um bom livro ou seguir pessoas aleatoriamente na rua para ver aonde vão –; e, portanto, se alguém diz que é tão honesto quanto o dia é longo, pode ser que esse alguém não seja totalmente honesto. As crianças ficaram aliviadas ao ver que Sexta-Feira não fora enganada pelo uso de uma expressão vaga de Olaf, e ela franziu o cenho com severidade para o vilão.
“Os Baudelaire me disseram que você não é digno de confiança”, disse a menininha, “e posso ver que eles falaram a verdade. Você fica exatamente aqui, Olaf, até os outros chegarem e decidirmos o que fazer com você.”
“Eu não sou o conde Olaf”, disse ele, “mas, enquanto isso, posso tomar um gole desse cordial de coco de que ouvi falar?”
“Não”, disse Sexta-Feira, virando as costas para o vilão e olhando pensativa para o cubo de livros. “Eu nunca tinha visto um livro antes”, confessou ela aos Baudelaire. “Espero que Ishmael concorde com que fiquemos com eles.”
“Você nunca viu um livro?”, disse Violet, perplexa. “Você sabe ler?”
Sexta-Feira deu uma rápida olhada pela plataforma costeira e depois assentiu com a cabeça rapidamente.
“Sim”, disse ela. “Ishmael não achava que fosse uma boa ideia nos ensinar, mas o professor Fletcher discordou e começou a dar aulas em segredo na plataforma costeira para aqueles dentre nós que nasceram na ilha. De tempos em tempos, eu pratico desenhando o alfabeto na areia com um graveto, mas sem uma biblioteca não há muito que eu possa fazer. Espero que Ishmael não sugira que deixemos os carneiros arrastarem todos esses livros para o arboreto.”
“Mesmo que ele faça isso, você não precisa jogá-los fora”, lembrou Klaus. “Ele não vai forçá-la.”
“Eu sei”, disse Sexta-Feira com um suspiro. “Mas quando Ishmael sugere alguma coisa, todo mundo concorda, e é difícil não sucumbir a esse tipo de pressão dos pares.”
“Batedor”, lembrou Sunny, e tirou o utensílio de cozinha do bolso.
Sexta-Feira sorriu para a mais jovem dos Baudelaire, mas rapidamente pôs o item de volta no bolso de Sunny.
“Eu dei esse batedor a você porque disse que se interessava por cozinha”, a menina falou. “Pensei que seria uma pena negar os seus interesses só porque Ishmael poderia não achar que um utensílio de cozinha fosse algo apropriado. Vocês vão guardar o meu segredo, não vão?”
“É claro”, disse Violet, “mas também é uma pena negar o seu interesse pela leitura.”
“Talvez Ishmael não tenha objeções”, disse Sexta-Feira.
“Talvez”, disse Klaus, “ou talvez possamos tentar um pouco da nossa própria pressão dos pares.”
“Eu não quero balançar o barco”, disse Sexta-Feira com uma carranca. “Desde a morte do meu pai, minha mãe quer me ver segura, por isso deixamos o mundo bem longe para trás e decidimos ficar aqui na ilha. Mas, quanto mais velha fico, mais segredos parece que tenho. Em segredo, o professor Fletcher me ensinou a ler. Em segredo, Omeros me ensinou a pular nas pedras, apesar de Ishmael dizer que isso é perigoso. Em segredo, eu dei um batedor para Sunny.” Ela enfiou a mão dentro da túnica e sorriu. “E agora eu tenho mais um segredo, só para mim. Olhem o que eu achei, enroscada em um caixote quebrado de madeira.”
O conde Olaf estava olhando em furioso silêncio para as crianças, mas quando Sexta-Feira revelou o seu segredo ele deixou escapar um guincho ainda mais esganiçado que a sua falsa voz. Os órfãos Baudelaire não guincharam, apesar de Sexta-Feira estar segurando uma coisa de aparência assustadora, escura tal qual uma mina de carvão e grossa como um cano de esgoto, que se desenroscou e disparou célere em direção às crianças. Mesmo quando a criatura abriu a boca, o sol matinal lampejando em seus dentes aguçados, os Baudelaire não guincharam; na verdade eles se maravilharam com o fato de que, mais uma vez, sua história estava contrariando as expectativas.
“Incrí!”, exclamou Sunny, e era verdade, pois a enorme serpente que estava se enrolando em torno dos Baudelaire era, por incrível que pareça, uma criatura que eles não viam há um bocado de tempo e que nunca pensaram que voltariam a ver na vida.
“É a Víbora Incrivelmente Mortífera!”, disse Klaus, assombrado. “Como será que ela veio parar aqui?”
“Ishmael disse que mais cedo ou mais tarde tudo acaba dando nas praias desta ilha”, disse Violet, “mas eu achava que nunca mais veria este réptil de novo.”
“Mortífera?”, perguntou Sexta-Feira, nervosa. “Ela é venenosa? A mim, pareceu amigável.”
“Ela é amigável, sim”, assegurou Klaus. “E uma das criaturas menos mortíferas e mais amigáveis do reino animal. Seu nome é inapropriado.”
“Como você pode ter certeza?”, perguntou Sexta-Feira.
“Nós conhecemos o homem que a descobriu”, disse Violet. “Seu nome era doutor Montgomery Montgomery, e ele era um herpetologista brilhante.”
“Era um homem maravilhoso”, disse Klaus. “Sentimos muita falta dele.”
Os Baudelaire abraçaram a serpente, especialmente Sunny, que tinha uma ligação especial com o réptil brincalhão, e pensaram por um momento no bondoso tio Monty e nos tempos que passaram com ele. Então, lentamente, lembraram-se de como aqueles tempos tinham terminado e voltaram-se para olhar o conde Olaf, que assassinara Monty como parte de um plano pérfido. O conde fechou a cara e encarou-os de volta. Era estranho ver o vilão ali sentado, tremendo de medo de uma serpente, depois de todo o esquema infernal que armou para ter os órfãos em suas garras. Agora, tão longe do mundo, era como se Olaf não tivesse mais garras, e seus esquemas infernais fossem tão inúteis quanto o lançador de arpões que estava em suas mãos.
“Eu sempre quis conhecer um herpetologista”, disse Sexta-Feira, que, é claro, não sabia a história inteira de Monty e seu assassinato. “Não há um especialista em serpentes na ilha. Há tanta coisa no mundo que estou perdendo por viver aqui.”
“O mundo é um lugar perverso”, disse o conde Olaf mansamente, e foi a vez de os Baudelaire tremerem. Mesmo com o sol quente batendo forte sobre eles, e com o peso da Víbora Incrivelmente Mortífera no colo, as crianças sentiram um calafrio com as palavras do vilão, e todos ficaram em silêncio, olhando para os ilhéus que se aproximavam com os carneiros, os quais traziam Ishmael a reboque, uma expressão que aqui significa “arrastado atrás deles em cima do trenó, sentado em sua cadeira branca como se fosse um rei, com os pés ainda cobertos por pedaços de barro e a barba lanuda esvoaçando ao vento”. À medida que os colonos e os carneiros chegavam cada vez mais perto, as crianças puderam ver que os carneiros carregavam mais alguma coisa a reboque, que também estava no trenó, atrás da cadeira do facilitador. Era a grande gaiola de passarinho ornamentada que fora encontrada depois da última tempestade, rebrilhando ao sol como um pequeno incêndio.
“Conde Olaf”, disse Ishmael com uma voz retumbante assim que a sua cadeira chegou. Ele baixou os olhos para o vilão com desdém, mas também com atenção, como se estivesse memorizando a sua cara.
“Ishmael”, disse o conde Olaf em seu tom disfarçado.
“Me chame de Ish”, disse Ishmael.
“Me chame de Kit Snicket”, disse Olaf.
“Não vou chamá-lo de coisa nenhuma”, rosnou Ishmael. “O seu reinado de perfídia acabou, Olaf.” Com um movimento rápido, o facilitador inclinou-se para baixo e arrancou a peruca de algas da cabeça de Olaf. “Fui informado dos seus esquemas e disfarces, e nós não vamos tolerar isso. Você será trancafiado imediatamente.”
Jonah e Sadie ergueram a gaiola de passarinho do trenó, depositaram-na no chão e abriram a porta, olhando ameaçadoramente para o conde Olaf. A um aceno de cabeça de Ishmael, Weyden e a srta. Marlow se aproximaram do vilão, tomaram o lançador de arpões das suas mãos e o arrastaram para a gaiola de passarinho, enquanto os Baudelaire se entreolhavam, sem muita certeza de como se sentiam. Por um lado, parecia que as crianças estiveram esperando a vida inteira por alguém que pronunciasse as palavras que Ishmael pronunciara, e estavam ansiosas para ver o conde Olaf ser finalmente punido por seus atos hediondos, desde o recente rapto da juíza Strauss até a vez em que ele jogara Sunny em uma gaiola de passarinho e a pendurara em uma janela na torre. Mas elas não estavam convencidas de que o conde devia ser trancafiado numa gaiola, mesmo sendo uma gaiola tão grande quanto aquela que fora arrastada para a praia. Não estava claro para os órfãos se o que estava acontecendo agora, na plataforma costeira, era por fim o advento da justiça, ou apenas mais uma das suas desventuras em série. Durante toda a sua história, os Baudelaire esperaram que o conde Olaf fosse acabar nas mãos das autoridades, e que ele fosse punido pela Corte Suprema após um julgamento. Mas os membros da Corte Suprema provaram ser tão corruptos e sinistros quanto o próprio Olaf, e as autoridades estavam muito, muito longe da ilha, e à procura dos Baudelaire, a fim de acusá-los de incêndio criminoso e assassinato. Era difícil dizer, tão distantes que estavam do mundo, como as três crianças se sentiam ao ver o conde sendo arrastado para uma gaiola, entretanto, como ocorria frequentemente, não importava como os três se sentiam a respeito, porque acontecia assim mesmo.
Weyden e a srta. Marlow arrastaram o esperneante vilão para a porta da gaiola de passarinho e o forçaram a se abaixar e entrar. Ele rosnou, envolveu com os braços a falsa gravidez, encostou a cabeça nos joelhos e encurvou as costas, e os irmãos Bellamy fecharam a porta da gaiola e aferrolharam firmemente. O vilão mal cabia na gaiola – era preciso olhar de perto para ver que aquela massa de membros, cabelo e tecido laranja e amarelo era uma pessoa.
“Não é justo”, disse Olaf. Sua voz estava abafada dentro da gaiola, mas as crianças notaram que ele ainda falava com uma voz esganiçada, como se não pudesse parar de fingir que era Kit Snicket. “Sou uma mulher inocente e grávida, e essas crianças são os verdadeiros vilões. Vocês não ouviram a história inteira.”
“Depende de como você encara as coisas”, disse Ishmael com firmeza. “Sexta-Feira me contou que você foi indelicado, e isso é tudo o que precisamos ouvir. E essa peruca de algas é tudo o que precisamos ver!’
“Ishmael está certo”, disse a sra. Caliban com firmeza. “Você só foi o que há de pérfido, Olaf, e os Baudelaire só foram o que há de bom.”


“Só foram o que há de bom”, repetiu Olaf. “Há! Por que vocês não procuram nos bolsos da bebê, já que acham que ela é tão boa? A menina está escondendo um utensílio de cozinha que um dos seus preciosos ilhéus deu a ela!”
Ishmael baixou os olhos para a mais jovem dos Baudelaire de cima do seu ponto de vantagem, uma expressão que aqui significa “cadeira empoleirada em um trenó arrastado por carneiros”.
“É verdade, Sunny?”, perguntou ele. “Você está escondendo um segredo de nós?”
Sunny ergueu os olhos para o facilitador, e então olhou para a gaiola de passarinho, lembrando-se de como era desconfortável estar trancafiada.
“Sim”, ela admitiu, e tirou o batedor do bolso enquanto os ilhéus reprimiam um grito de surpresa.
“Quem deu isso para você?”, perguntou Ishmael.
“Ninguém deu isso para ela”, disse Klaus depressa, não se atrevendo a olhar para Sexta-Feira. “É apenas algo que sobreviveu à tempestade conosco.” Ele enfiou a mão no bolso e tirou de lá o seu livro de lugar-comum. “Cada um de nós tem alguma coisa, Ishmael. Eu tenho este caderno, e minha irmã tem uma fita que ela gosta de usar para prender o cabelo.”
Houve outro grito reprimido da assembleia de colonos, e Violet tirou a fita do bolso.
“Não queríamos fazer nenhum mal”, disse ela.
“Vocês foram informados dos costumes da ilha”, disse severamente o facilitador, “e escolheram ignorá-los. Fomos muito delicados com vocês, lhes demos comida, roupas e abrigo, e até deixamos você ficar com os seus óculos. E, em retribuição, vocês foram indelicados conosco.”
“Eles cometeram um erro”, disse Sexta-Feira, recolhendo rapidamente os itens proibidos dos Baudelaire e dando a Sunny uma olhadela breve e agradecida. “Vamos deixar que os carneiros levem essas coisas embora, e esquecer tudo isso.”
“Parece justo”, disse Sherman.
“Eu concordo”, disse o professor Fletcher.
“Eu também”, disse Omeros, que segurava o lançador de arpões.
Ishmael franziu o cenho, porém como mais e mais ilhéus expressavam a sua anuência, ele sucumbiu à pressão dos pares e deu um sorrisinho para os órfãos.
“Suponho que eles possam ficar”, disse o facilitador, “caso não balancem mais o barco.” Ele suspirou e então, de repente, fechou a cara para uma poça. Durante a conversa, a Víbora Incrivelmente Mortífera decidira dar uma rápida nadada, e agora olhava para o facilitador de dentro de uma poça de água do mar.
“O que é isso?”, perguntou o sr. Pitcairn, com um gritinho assustado.
“É uma serpente amigável que encontramos”, disse Sexta-Feira.
“Quem disse que ela é amigável?”, indagou Ferdinand.
Sexta-Feira trocou um rápido olhar desalentado com os Baudelaire. Depois de tudo o que acontecera, eles sabiam que não havia esperança de convencer Ishmael de que ficar com a serpente era uma boa ideia.
“Ninguém me falou”, disse Sexta-Feira mansamente. “Ela simplesmente parece amigável.”
“Ela parece incrivelmente mortífera”, disse Erewhon com uma carranca. “Eu digo que devemos jogá-la no arboreto.”
“Nós não queremos uma serpente se arrastando pelo arboreto”, disse Ishmael cofiando sua barba. “Ela poderia machucar os carneiros. Não vou forçá-los, mas acho que devemos abandoná-la aqui com o conde Olaf. Vamos, já é quase hora do almoço. Irmãos Baudelaire, por favor, empurrem aquele cubo de livros para o arboreto, e...”
“Nossa amiga não pode ser removida”, interrompeu Violet, com um gesto para a figura inconsciente de Kit. “Precisamos ajudá-la.”
“Eu não me dei conta de que havia uma náufraga lá em cima”, disse o sr. Pitcairn, olhando para o pé descalço que ainda pendia sobre um lado do cubo. “Olhem, ela tem a mesma tatuagem que o vilão!”
“Ela é minha namorada”, disse Olaf de dentro da gaiola. “Vocês devem castigar os dois, ou então libertar os dois.”
“Ela não é sua namorada!”, gritou Klaus. “Ela é nossa amiga e está em dificuldades!”
“Parece que a partir do momento em que vocês se juntaram a nós, a ilha está sendo ameaçada por segredos e perfídia”, disse Ishmael com um suspiro cansado. “Jamais tivemos de punir ninguém aqui antes de vocês chegarem, e agora temos outra pessoa suspeita movendo-se furtivamente pela ilha.”
“Dreyfuss?”, disse Sunny – o que queria dizer “Do que, precisamente, você está nos acusando?” –, mas o facilitador continuou falando como se ela não tivesse pronunciado nenhuma palavra.
“Não vou forçá-los”, disse Ishmael, “mas se vocês querem ser parte do lugar seguro que construímos, acho que devem abandonar essa tal de Kit Snicket também, muito embora eu nunca tenha ouvido falar dela.”
“Nós não vamos abandoná-la”, disse Violet. “Ela precisa da nossa ajuda.”
“Como eu falei, não vou forçá-los”, disse Ishmael, com uma última puxada na barba. “Adeus, irmãos Baudelaire. Vocês podem ficar aqui na plataforma costeira, com a sua amiga e os seus livros, se essas coisas são tão importantes para vocês.”
“Mas o que vai acontecer com eles?”, perguntou Willa. “O Dia da Decisão está chegando, e a plataforma costeira vai ficar inundada.”
“Isso é problema deles”, disse Ishmael, e deu para os ilhéus uma imperiosa – a palavra “imperiosa”, como você provavelmente sabe, significa “poderosa e um pouco esnobe” – encolhida de ombros. Quando os ombros dele subiram, um pequeno objeto rolou para fora da manga da sua túnica e caiu com um pequeno plop! em uma poça, por pouco não acertando a gaiola de passarinho onde Olaf fora feito prisioneiro. Os Baudelaire não conseguiram identificar o objeto, mas o que quer que fosse, foi o bastante para Ishmael bater palmas apressadamente, a fim de distrair a atenção de quem quer tivesse ficado intrigado com aquilo.
“Vamos!”, gritou ele, e os carneiros começaram a arrastá-lo de volta para a sua tenda. Alguns ilhéus lançaram aos Baudelaire olhares de quem pede desculpas, como se discordassem das sugestões de Ishmael, mas não ousassem resistir à pressão dos pares de seus colegas colonos. O professor Fletcher e Omeros, que tinham os seus próprios segredos, se mostraram especialmente pesarosos, e Sexta-Feira parecia que ia chorar. Ela até começou a dizer alguma coisa aos Baudelaire, mas a sra. Caliban deu um passo à frente e envolveu firmemente com o braço os ombros da menina, que pôde dar aos irmãos apenas um aceno triste, indo embora com a mãe. Por um momento, os Baudelaire ficaram atordoados demais para dizer alguma coisa. Contrariando as expectativas, o conde Olaf não enganara os habitantes daquele lugar tão distante do mundo; em vez disso, fora capturado e punido. Mas ainda assim os Baudelaire não estavam em segurança e certamente não estavam felizes em se ver abandonados na plataforma costeira como qualquer detrito.
“Isto não é justo”, disse Klaus afinal, mas o fez tão baixinho que os ilhéus de partida provavelmente não ouviram. Apenas suas irmãs o ouviram, e a serpente que os Baudelaire pensaram que jamais veriam de novo e, é claro, o conde Olaf, que, comprimido na grande gaiola de passarinho ornamentada como uma fera enjaulada, foi a única pessoa que reagiu a Klaus.
“A vida não é justa”, disse ele com sua voz não disfarçada e, desta vez, os órfãos Baudelaire concordaram com cada palavra dita pelo homem.

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