10 de setembro de 2016

Capítulo onze


Talvez uma noite, quando você era muito pequeno, alguém o tenha posto na cama e lido uma história chamada “A pequena locomotiva que podia”, e, se assim ocorreu, sinto por você a mais profunda compaixão, pois se trata de uma das histórias mais chatas sobre a Terra. A história provavelmente o fazia dormir imediatamente – e é essa a razão por que é lida para crianças –, por isso vou lembrar que a história envolve a locomotiva de um trem que, por alguma razão, tem a capacidade de pensar e falar. Alguém pede à Pequena-Locomotiva-que-Podia para realizar uma tarefa difícil, que é maçante demais para eu descrever, e a locomotiva não tem certeza se pode fazê-la, mas começa a sussurrar para si mesma “Acho-que-posso, acho-que-posso, acho-que-posso”, e em pouco tempo ela sussurrou seu caminho para o sucesso. A moral da história é que se diz a si mesmo que pode fazer certa coisa, então pode realmente fazê-la – uma moral facilmente refutada se você disser a si mesmo que pode comer cinco quilos de sorvete de uma só vez, ou que pode naufragar em uma ilha distante se simplesmente navegar em uma canoa alugada com buracos serrados nela.
Só menciono a história da Pequena-Locomotiva-que-Podia para que você possa entender o que quero dizer, quando eu lhes contar que os órfãos Baudelaire, ao saírem do arboreto com Ishmael e retornarem à colônia na ilha, estavam a bordo da Pequena-Locomotiva-que-Podia. Para começar, as crianças estavam sendo arrastadas de volta à tenda de Ishmael no grande trenó de madeira, conduzido pelo facilitador em sua enorme cadeira de barro e arrastado pelos carneiros selvagens da ilha; e se você já se perguntou por que carruagens puxadas por cavalos e trenós puxados por cães são meios de transporte tão mais comuns do que trenós puxados por carneiros, é porque os carneiros não são muito apropriados para o trabalho na indústria de transportes.
Os carneiros meandravam e se desviavam, flanavam e deambulavam, e paravam ocasionalmente para mordiscar o capim selvagem ou para respirar o ar da manhã. Ishmael tentava convencê-los a ir mais depressa usando as suas habilidades de facilitação, em vez de utilizar os procedimentos padrão de pastoreio.
“Eu não vou forçá-los”, ele continuava dizendo, “mas quem sabe vocês, carneiros, pudessem ir um pouco mais depressa”. Os carneiros apenas olhavam inexpressivos para o velho e seguiam em frente preguiçosamente.
Mas os órfãos Baudelaire estavam a bordo da Pequena-Locomotiva-que-Podia não só por causa dos carneiros langorosos – uma palavra que aqui significa “inabilidade de puxar um grande trenó de madeira a um passo razoável” –, mas porque seus próprios pensamentos não os estimulavam à ação. Diferentemente da locomotiva na história chata, não importava o que Violet, Klaus e Sunny pensassem, não conseguiam imaginar uma solução de sucesso para as suas dificuldades. As crianças tentaram dizer a si mesmas que iriam fazer como Ishmael sugerira, e levar uma vida segura na colônia, porém não podiam imaginar-se abandonando Kit Snicket na plataforma costeira, ou a deixando retornar ao mundo para assegurar-se de que a justiça seria feita sem acompanhar a amiga nessa nobre missão. Os irmãos tentaram dizer a si mesmos que iriam obedecer à vontade dos pais e ficar protegidos da sua desventurada história, mas não acharam que poderiam manter-se afastados do arboreto, ou da leitura daquilo que seus pais tinham escrito no enorme livro. Os Baudelaire tentaram dizer a si mesmos que iriam juntar-se a Erewhon e a Finn no motim do desjejum, contudo não podiam se ver ameaçando o facilitador e seus seguidores com armas, especialmente porque não tinham trazido nenhuma do arboreto. Eles tentaram dizer a si mesmos que pelo menos podiam ficar contentes porque o conde Olaf não era uma ameaça, mas não podiam verdadeiramente aprovar o fato de ele ter sido trancafiado em uma gaiola de passarinho e estremeceram ao pensar no fungo escondido no vestido dele, além do esquema escondido na cabeça dele. E, durante toda a jornada escarpa acima e enquanto rumavam de volta à praia, as três crianças tentaram dizer a si mesmas que tudo estava certo, só que é claro que nada estava certo. Tudo estava totalmente errado, e Violet, Klaus e Sunny não sabiam muito bem como um lugar seguro, longe da perfídia do mundo, se tornara tão perigoso e complicado assim que eles chegaram. Os órfãos Baudelaire estavam sentados no trenó, olhando para os pés cobertos de barro de Ishmael, e não importa quantas vezes pensassem-que-podiam, pensassem-que-podiam, pensassem-que-podiam pensar em um fim para os seus problemas, eles sabiam que esse simplesmente não era o caso.
Afinal, contudo, os carneiros arrastaram o trenó pelas areias brancas da praia e através da abertura da tenda enorme. Mais uma vez, o lugar estava à cunha, mas os ilhéus reunidos estavam no meio de um bate-boca, uma palavra para “discussão” que é muito menos engraçadinha do que parece. A despeito da presença de um opiáceo em conchas penduradas nas cinturas de todos os colonos, os ilhéus estavam tudo, menos sonolentos e inativos. Alonso estava agarrando o braço de Willa, que gritava de irritação enquanto pisava no pé do dr. Kurtz. A cara de Sherman estava ainda mais vermelha que de costume quando ele jogou areia no rosto do sr. Pitcairn, que parecia estar tentando morder o dedo de Brewster. O professor Fletcher estava gritando com Ariel, a sra. Marlow estava batendo o pé para Calypso, e a madame Nordoff e o rabino Bligh pareciam prestes a começar a lutar na areia. Byam torceu o bigode para Ferdinand, enquanto Robinson puxava a barba dele para Larsen, e Weyden dava a impressão de arrancar os seus cabelos vermelhos sem razão nenhuma. Jonah e Sadie Bellamy discutiam cara a cara, enquanto Sexta-Feira e a sra. Caliban estavam costas contra costas como se nunca mais fossem falar uma com a outra, e o tempo todo Omeros permaneceu ao lado da cadeira de Ishmael com as mãos para trás de maneira suspeita. Enquanto Ishmael, boquiaberto, olhava perplexo para os ilhéus, as três crianças apearam do trenó e foram rapidamente para perto de Erewhon e Finn, que olhavam para elas na expectativa.
“Onde vocês estavam?”, disse Finn. “Aguardamos o máximo que pudemos pela sua volta, mas tivemos de deixar a sua amiga para trás e começar o motim.”
“Você deixou Kit lá fora sozinha?”, disse Violet. “Você prometeu que ficaria com ela.”
“E vocês nos prometeram armas”, disse Erewhon. “Onde estão elas, irmãos Baudelaire?”
“Não trouxemos nenhuma”, admitiu Klaus. “Ishmael estava no arboreto.”
“O conde Olaf tinha razão”, disse Erewhon. “Vocês nos decepcionaram, irmãos Baudelaire.”
“O que você quer dizer com ‘o conde Olaf tinha razão’?”, perguntou Violet.
“O que você quer dizer com ‘Ishmael estava no arboreto’?”, perguntou Finn.
“O que você quer dizer com o que eu quero dizer?”, perguntou Erewhon.
“O que você quer dizer com o que você quer dizer com o que eu quero dizer?”, perguntou Sunny.
“Por favor, todo mundo!”, gritou Ishmael da sua cadeira de barro. “Eu sugiro que todos nós tomemos alguns goles de cordial e discutamos isso cordialmente!”
“Eu estou cansado de beber cordial”, disse o professor Fletcher, “e estou cansado das suas sugestões, Ishmael!”
“Me chame de Ish”, disse o facilitador.
“Estou chamando você de mau facilitador!”, redarguiu Calypso.
“Por favor, todo mundo!”, gritou Ishmael de novo, com uma puxada nervosa na barba. “Por que todo esse bate-boca?”
“Eu vou lhe dizer por quê”, disse Alonso. “Fui arrastado para estas praias muitos anos atrás, depois de aguentar uma tempestade terrível e um assustador escândalo político.”
“E daí?”, perguntou o rabino Bligh. “Mais cedo ou mais tarde tudo acaba dando nestas praias.”
“Eu queria deixar a minha desventurada história para trás”, disse Alonso, “e viver uma vida pacífica e livre de problemas. Mas agora alguns colonos estão falando em motim. Se não tomarmos cuidado, esta ilha se tornará tão pérfida quanto o resto do mundo!”
“Motim?”, disse Ishmael, horrorizado. “Quem ousa falar em motim?”
“Eu ouso”, disse Erewhon. “Estou cansada da sua facilitação, Ishmael. Vim dar nesta ilha depois de viver em outra ilha ainda mais distante. Eu estava cansada de uma vida pacífica e pronta para me aventurar. Mas sempre que alguma coisa empolgante chega aqui, você imediatamente manda jogar no arboreto!”
“Depende de como você encara as coisas”, protestou Ishmael. “Eu não forço ninguém a jogar nada fora.”
“Ishmael está certo!”, gritou Ariel. “Alguns de nós já tiveram aventuras suficientes para toda uma vida! Eu vim parar nestas praias depois de finalmente escapar da prisão, onde fiquei disfarçada de rapaz durante anos! Fiquei aqui para minha própria segurança, e não para participar de mais esquemas perigosos!”
“Então você devia juntar-se ao nosso motim!”, gritou Sherman. “Ishmael não é digno de confiança! Nós abandonamos os Baudelaire na plataforma costeira, e agora ele os trouxe de volta!”
“Os Baudelaire jamais deveriam ter sido abandonados, em primeiro lugar!”, gritou a srta. Marlow. “Tudo o que eles queriam era ajudar a amiga deles!”
“A amiga deles é suspeita”, alegou o sr. Pitcairn. “Ela chegou em uma balsa de livros.”
“E daí?”, disse Weyden. “Eu mesma também cheguei em uma balsa de livros.”
“Mas você os abandonou”, salientou o professor Fletcher.
“Ela não fez nada disso!”, gritou Larsen. “Você a ajudou a escondê-los, para poder forçar aquelas crianças a ler!”
“Nós queríamos aprender a ler!”, insistiu Sexta-Feira.
“Você está lendo?”, engasgou de perplexidade a sra. Caliban.
“Você não devia estar lendo!”, gritou madame Nordoff.
“Bem, e você não devia estar solfejando!”, gritou o dr. Kurtz.
“Você está solfejando?”, perguntou o rabino Bligh, atônito. “Talvez estejamos precisando de um motim, afinal!”
“Solfejar é melhor do que carregar um farolete!”, gritou Jonah apontando um dedo acusador para Finn.
“Carregar um farolete é melhor do que esconder uma cesta de piquenique!”, gritou Sadie apontando para Erewhon.
“Esconder uma cesta de piquenique é melhor do que embolsar um batedor!”, disse Erewhon apontando para Sunny.
“Esses segredos vão nos destruir!”, disse Ariel. “A vida aqui deveria ser simples!”
“Não há nada de errado com uma vida complicada”, disse Byam. “Eu vivi uma vida simples como marinheiro por muitos anos e estava entediado a ponto de chorar, até que aconteceu o naufrágio.”
“Entediado a ponto de chorar?”, disse Sexta-Feira, atônita. “Tudo o que eu quero é a vida simples que minha mãe e meu pai tinham juntos, sem discutir nem guardar segredos.”
“Já basta”, disse Ishmael depressa. “Eu sugiro que paremos de discutir.”
“Eu sugiro que continuemos a discutir!”, gritou Erewhon.
“Eu sugiro que abandonemos Ishmael e seus seguidores!”, gritou o professor Fletcher.
“Eu sugiro que abandonemos os amotinados!”, gritou Calypso.
“Eu sugiro uma comida melhor!”, gritou outro ilhéu.
“Eu sugiro mais cordial!”, gritou outro.
“Eu sugiro uma túnica mais atraente!”
“Eu sugiro uma casa de verdade, em vez de uma tenda!”
“Eu sugiro água fresca!”
“Eu sugiro comer maçãs pungentes e amargas!”
“Eu sugiro derrubar a macieira!”
“Eu sugiro queimar o catamarã!”
“Eu sugiro um show de calouros!”
“Eu sugiro ler um livro!”
“Eu sugiro queimar todos os livros!”
“Eu sugiro solfejar!”
“Eu sugiro proibir solfejos!”
“Eu sugiro um lugar seguro!”
“Eu sugiro uma vida complicada!”
“Eu sugiro que depende de como você encara as coisas!”
“Eu sugiro justiça!”
“Eu sugiro desjejum!”
“Eu sugiro que a gente fica e você vai!”
“Eu sugiro que você fica e a gente vai!”
“Eu sugiro que voltemos a Winnipeg!”
Os Baudelaire se entreolharam em desespero, enquanto a cisão amotinada se estabelecia na colônia. Conchas abertas pendiam da cintura dos ilhéus, mas não havia evidência de cordialidade e uns se voltavam contra os outros enfurecidos, mesmo os que eram amigos, ou pertencentes à mesma família, ou cúmplices de uma história, ou de uma organização secreta. Os irmãos já tinham visto multidões enfurecidas antes, é claro, desde a psicologia das turbas dos cidadãos na cidade dos Cultores Solidários de Corvídeos até a justiça cega do julgamento no Hotel Desenlace, mas eles nunca tinham visto uma comunidade se dividir tão súbita e completamente. Violet, Klaus e Sunny ficaram vendo a cisão se desdobrar e se puseram a imaginar como deviam ter sido as outras cisões, desde a cisão que dividiu C.S.C. até a cisão que expulsou os seus pais daquela mesma ilha, e todas as outras cisões na triste história do mundo, com cada pessoa sugerindo alguma coisa diferente, cada história como a camada de uma cebola, e cada desventura como um capítulo em um livro enorme. Os Baudelaire assistiram ao terrível bate-boca e se perguntaram como puderam esperar que a ilha fosse um lugar seguro, longe da perfídia do mundo, quando por fim toda a perfídia acabou dando nas suas praias – como um náufrago atirado por uma borrasca – e dividiu as pessoas que ali viviam. As vozes das pessoas discutindo ficaram cada vez mais altas, todo mundo sugerindo alguma coisa mas ninguém ouvindo as sugestões dos outros, até a cisão se transformar num alarido ensurdecedor que foi finalmente quebrado pela voz mais alta de todas.
“SILÊNCIO!”, berrou a figura que entrou na tenda, e os ilhéus pararam de falar de imediato e olharam perplexos para a pessoa que olhava ferozmente para eles, usando um vestido longo com uma protuberância na barriga.
“O que você está fazendo aqui?”, bufou alguém no fundo da tenda. “Nós o abandonamos na plataforma costeira!”
A figura marchou para o meio da tenda, e lamento contar que não era Kit Snicket – que ainda estava usando um vestido longo com uma protuberância na barriga no topo da sua balsa-biblioteca –, e sim o conde Olaf, cuja barriga protuberante era constituída pelo capacete de mergulho contendo o Mycelium Medusoide, e cujo vestido laranja e amarelo os Baudelaire subitamente reconheceram como o vestido que Esmé Squalor usara no topo das Montanhas de Mão-Morta, uma coisa abominável confeccionada para parecer um enorme incêndio, e que de algum modo viera dar nas praias da ilha, como tudo o mais. Enquanto Olaf fazia uma pausa para dirigir aos irmãos um sorriso especialmente nefasto, as crianças tentaram imaginar a história secreta do vestido de Esmé e de que maneira, assim como o anel que Violet ainda segurava na mão, ele retornara à história dos Baudelaire depois de todo aquele tempo.
“Você não pode me abandonar”, o vilão rosnou para o ilhéu. “Eu sou o rei de Olaflândia.”
“Aqui não é Olaflândia”, disse Ishmael com uma severa puxada na barba, “e você não é nenhum rei, Olaf.”
O conde Olaf jogou a cabeça para trás e riu, com seu vestido esfarrapado fremindo de hilaridade, uma expressão que aqui significa “fazendo desagradáveis ruídos farfalhantes”. Com um trejeito de escárnio, ele apontou para Ishmael, que ainda estava sentado na sua cadeira.
“Oh, Ish”, disse ele, os olhos brilhando com força, “eu lhe disse muitos anos atrás que iria triunfar sobre você algum dia, e finalmente esse dia chegou. Certo associado com nome de dia da semana me contou que você ainda estava escondido nesta ilha, e...”
“Quinta-Feira”, disse a sra. Caliban.
Olaf fechou a cara e piscou para a mulher sardenta.
“Não”, disse ele. “Segunda-Feira. Ela estava tentando chantagear um velho que estava envolvido em um escândalo político.”
“Gonzalo”, disse Alonso.
Olaf fechou a cara de novo.
“Não”, disse ele. “Nós tínhamos saído para observar passarinhos, esse velho e eu, quando decidimos roubar uma escuna de propriedade de...”
“Humphrey”, disse Weyden.
“Não”, disse Olaf novamente com a cara fechada. “Houve alguma discussão a respeito do seu nome, na verdade, pois um bebê adotado pelos seus filhos órfãos também tinha o mesmo nome.”
“Bertrand”, disse Omeros.
“Não”, disse Olaf, e fechou a cara ainda mais uma vez. “Os papéis da adoção foram escondidos no chapéu de um banqueiro que foi promovido a Vice-Presidente Encarregado dos Assuntos de Órfãos.”
“Sr. Poe?”, perguntou Sadie.
“Sim”, disse Olaf com uma careta, “embora na época ele fosse mais conhecido pelo seu pseudônimo de ator. Mas não estou aqui para discutir o passado. Estou aqui para discutir o futuro. Os seus ilhéus amotinados me tiraram da gaiola, Ishmael, para forçá-lo a sair da ilha e para me coroar rei!”
“Rei?”, disse Erewhon. “Isso não estava no plano, Olaf.”
“Se você quer viver, velha”, disse Olaf rudemente, “sugiro que faça o que eu mandar.”
“Você já está fazendo sugestões?”, disse Brewster, incrédulo. “Você é exatamente como Ishmael, apesar de a sua roupa ser mais bonita.”
“Obrigado”, disse o conde Olaf com um sorriso perverso, “mas existe mais uma diferença importante entre mim e esse facilitador ridículo.”
“A sua tatuagem?”, tentou adivinhar Sexta-Feira.
“Não”, disse o conde Olaf com uma fechada de cara. “Se vocês lavarem o barro dos pés de Ishmael, verão que ele tem a mesma tatuagem que eu.”
“Delineador?”, adivinhou madame Nordoff.
“Não”, disse o conde Olaf bruscamente. “A diferença é que Ishmael está desarmado. Ele abandonou suas armas há muito tempo, durante a cisão de C.S.C. recusando-se a usar violência de qualquer tipo. Mas hoje todos vocês verão o quanto ele é ridículo.” Ele fez uma pausa e correu as mãos imundas pela barriga protuberante antes de voltar-se para o facilitador, que estava pegando alguma coisa das mãos de Omeros. “Eu tenho a única arma que pode ameaçar você e seus seguidores”, jactou-se ele. “Eu sou o rei de Olaflândia e não há nada que você e os seus carneiros possam fazer a respeito.”
“Não tenha tanta certeza disso”, disse Ishmael, e ergueu um objeto no ar para que todos pudessem ver. Era o lançador de arpões que tinha sido arrastado para a praia junto com Olaf e os Baudelaire, depois de ter sido usado para disparar contra corvos no Hotel Desenlace, contra uma casa móvel autossustentável a ar quente na cidade dos Cultores Solidários de Corvídeos, e contra uma máquina de algodão-doce em uma feira de gado quando os pais Baudelaire eram muito, muito jovens. Agora a arma estava acrescentando mais um capítulo à sua história secreta, e estava apontada diretamente para o conde Olaf. “Eu disse a Omeros para manter esta arma à mão”, disse Ishmael, “em vez de jogá-la no arboreto, porque achei que você poderia escapar daquela gaiola, conde Olaf, assim como eu escapei da gaiola onde você me pôs quando incendiou a minha casa.”
“Eu não provoquei aquele incêndio”, disse o conde Olaf, com os olhos brilhando forte.
“Já estou cheio de suas mentiras”, disse Ishmael, e levantou-se da sua cadeira. Percebendo que os pés do facilitador não estavam feridos de todo, os ilhéus inspiraram fundo de susto, o que requer a inalação de grande quantidade de ar, coisa perigosa para fazer quando há esporos de um fungo letal nesse ar. “Vou fazer o que devia ter feito anos atrás, Olaf: matá-lo. Vou disparar este arpão diretamente nessa sua barriga saliente!”
“Não!”, gritaram os Baudelaire em uníssono, mas nem as vozes combinadas dos três soaram tão alto quanto a gargalhada vilanesca do conde Olaf, e o facilitador nem chegou a ouvir o grito das crianças quando puxou o gatilho vermelho vivo daquela arma terrível. Os irmãos ouviram um clique! e depois um vuuuuush! quando o arpão foi disparado, e então, quando ele atingiu o conde Olaf diretamente onde Ishmael anunciara, elas ouviram um estilhaçar de vidro, e o Mycelium Medusoide, com a sua própria história secreta de perfídia e violência, estava livre afinal para circular pelo ar, mesmo naquele lugar seguro tão afastado do mundo. Todos na tenda inspiraram fundo de susto – ilhéus e colonos, homens e mulheres, crianças e órfãos, voluntários e vilões, e os de meio-termo. Todo mundo inalou os esporos do fungo letal enquanto o conde Olaf despencava para trás na areia, ainda rindo ao mesmo tempo que ele próprio os inspirava, e num instante a cisão da ilha acabou, pois todos naquele lugar – inclusive os órfãos Baudelaire – se tornaram, subitamente, parte da mesma desventura em série.

Um comentário:

  1. Sera q vai ter wasabi pra todo mundo ou eles vao morrer !

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!