3 de setembro de 2016

Capítulo oito


O ciclo das águas consiste em três fenômenos-chave: evaporação, precipitação e acumulação, três fenômenos conhecidos coletivamente como os três fenômenos daquilo que é chamado de “o ciclo das águas”. O segundo desses fenômenos – precipitação – é o processo pelo qual o vapor volta a se transformar em água para cair em forma de chuva, algo que você pode observar durante um aguaceiro ou ao sair de casa em uma chuvosa manhã, ou tarde, ou noite. Essa água caindo que você observa é conhecida como “chuva”, a qual é resultado do fenômeno da precipitação, um dos três fenômenos descritos pelo ciclo das águas. Um desses três fenômenos, a precipitação, é visto como o segundo, especialmente se uma lista dos três fenômenos coloca a precipitação no meio, ou no segundo lugar da lista. “Precipitação” é, muito simplesmente, um termo para designar a transformação do vapor em água, que então cai como chuva – algo que você poderia encontrar se saísse de casa durante uma tempestade. A chuva consiste em água, que outrora tinha sido vapor, porém passou por um processo conhecido como “precipitação”, um dos três fenômenos do ciclo das águas, e a esta altura essa tediosa descrição já deve ter feito você cair no sono outra vez, o que é muito bom, pois assim talvez você possa evitar os detalhes horripilantes de minha narrativa sobre a jornada de volta ao Queequeg que Violet, Klaus e Sunny Baudelaire empreenderam através da Gruta Gorgônea.
Os órfãos Baudelaire perceberam que alguma coisa estava errada no momento em que chegaram ao submarino, bateram na escotilha de metal e não ouviram nenhuma resposta do capitão. Tinha sido uma jornada escura e fria pela caverna, tornada ainda mais difícil pelo fato de que estavam contra a maré, e não a favor dela, como na ida, quando se deixaram arrastar pela corrente. Klaus, que seguia na frente, tateou com um braço estendido a escuridão, com medo de passar batido pelo Queequeg ou de dar um encontrão em algo sinistro na caverna. Fiona tremeu durante toda a jornada e seus dedos nervosos se contraíram na palma da mão de Violet. E Sunny tentou não entrar em pânico dentro de seu capacete de mergulho enquanto os movimentos dos irmãos ao nadar a faziam chacoalhar na escuridão. A mais jovem dos Baudelaire não podia ver uma única luz através da janelinha redonda do capacete, entretanto, como todos os Baudelaire, ela se concentrou em chegar em segurança, e o pensamento de retornar ao Queequeg era como uma luzinha brilhante nas trevas da gruta. Logo, pensaram os Baudelaire, iriam ouvir o retumbante “positivo!” do capitão Andarré, dando-lhes as boas-vindas ao retornarem da missão. Talvez Phil tivesse preparado uma boa refeição quente, mesmo sem a assessoria culinária de Sunny. E talvez o dispositivo telegráfico tivesse recebido outro boletim do Correio Sub-reptício Cooperativo, um que pudesse ajudá-los a encontrar o açucareiro, e assim toda a missão não acabaria dando com os burros n’água. Mas quando Klaus os levou até a escotilha, eles não viram nem sinal de que alguém a bordo do Queequeg estivesse lhes dando as boas-vindas.
Depois de bater por vários minutos, as crianças, preocupadas, tiveram de abrir sozinhas a escotilha, algo difícil de fazer no escuro, e entrar na passagem, fechando rapidamente a escotilha atrás de si. Ficaram ainda mais preocupadas quando descobriram que ninguém tinha ativado a escotilha, portanto um bocado de água jorrou pela passagem e começou a cair na sala em que os Baudelaire encontraram pela primeira vez o capitão Andarré. Ouviram o ruído da água caindo no chão do submarino enquanto começavam a descer a escada e apuraram o ouvido para escutar o capitão gritando: “Positivo! Que porcaria!”, ou “Positivo! A válvula está quebrada!”, ou até alguma coisa otimista de Phil, como: “Vejam pelo lado bom, é como ter uma piscina infantil em casa!”.
“Capitão Andarré?”, chamou Violet, a voz abafada pelo capacete.
“Padrasto?”, chamou Fiona, a voz abafada pelo dela.
“Phil?”, chamou Klaus.
“Tripulação?”, chamou Sunny.
Ninguém respondeu aos chamados, e ninguém fez comentários sobre a água na passagem, e quando os voluntários chegaram ao fim dela e desceram para dentro da pequena sala mal iluminada, não encontraram ninguém para recebê-los.
“Padrasto?”, Fiona chamou de novo, mas eles ouviram apenas o movimento da água formando uma grande poça no chão. Sem se preocupar em tirar os capacetes, as quatro crianças atravessaram a poça espirrando água e desceram o corredor apressadas, passaram pela placa gravada com a filosofia de vida do capitão e chegaram ao salão principal. A sala continuava enorme como sempre, é claro, com todas as desconcertantes tubulações, os painéis e os avisos de perigo, embora o lugar parecesse ter passado por uma pequena arrumação, com direito a decoração perto da mesa de madeira onde os Baudelaire tinham tomado o sopão de Sunny e planejado a jornada da Gruta Gorgônea. Amarrados em três cadeiras, pequenos balões azuis pairavam no ar, e na superfície de cada um havia uma letra impressa em tinta preta e espessa. No primeiro balão havia um C, no segundo, um S, e somente alguém tão débil quanto a luz de uma caverna subaquática ficaria surpreso ao ouvir que no terceiro havia outro C.
“C.S.C.”, disse Violet. “Vocês acham que é um código?”
“Não estou interessada em códigos no momento”, disse Fiona, a voz tensa ressoando dentro do capacete. “Quero encontrar meus companheiros tripulantes. Procurem por aí, todo mundo.”
Os Baudelaire procuraram pela sala, mas ela parecia tão vazia e solitária quanto a gruta. Sem a enorme presença do capitão Andarré – “enorme presença” é uma expressão que aqui significa “porte físico de grandes proporções, combinado com uma personalidade vibrante e uma voz forte” –, o salão principal parecia absolutamente deserto.
“É possível que estejam na cozinha”, disse Klaus, embora soasse incrédulo, “ou então cochilando no alojamento.”
“Eles não iriam cochilar”, disse Violet. “Disseram que estariam nos observando o tempo todo.”
Fiona deu um passo na direção da porta da cozinha, mas então parou e olhou para a mesa de madeira. “Os capacetes deles sumiram”, disse ela. “Tanto Phil como meu padrasto deixavam o capacete de mergulho em cima da mesa, para o caso de haver alguma emergência.” Ela passou a mão ao longo da mesa, como se pudesse fazer os capacetes reaparecerem. “Eles se foram”, disse ela. “Abandonaram o Queequeg.”
“Não posso acreditar nisso”, disse Klaus, sacudindo a cabeça. “Eles sabiam que estávamos na gruta. Não iriam abandonar seus companheiros voluntários.
“Talvez tenham achado que não iríamos mais voltar”, disse Fiona.
“Não”, disse Violet, apontando para um painel na parede. “Eles podiam nos ver. Éramos pontinhos verdes no detector por sonar.”
As crianças olharam para o painel do sonar, esperando ver pontos que pudessem representar os tripulantes desaparecidos.
“Eles devem ter tido uma boa razão para partir”, disse Fiona.
“Que razão poderia haver?”, disse Klaus. “Não importa o que tenha ocorrido, eles teriam aguardado por nós.”
“Não”, disse Fiona. Triste, ela removeu o capacete de mergulho, e o Baudelaire do meio viu que havia lágrimas em seus olhos. “Não importa o que tenha ocorrido”, disse ela, “meu padrasto não teria vacilado. Aquele ou aquela que vacila está...”
“Perdido”, Klaus terminou por ela, e pousou a mão em seu ombro.
“Talvez eles não tenham ido de moto próprio”, disse Violet, usando uma expressão que aqui significa “vontade própria”. “É possível que alguém os tenha levado.”
“Levado a tripulação”, disse Klaus, “e deixado três balões para trás?”
“É um mistério”, disse Violet, “mas tenho certeza de que poderemos resolvê-lo. Vamos tirar os capacetes e pôr mãos à obra.”
Klaus assentiu, tirou seu capacete de mergulho e colocou-o no chão, ao lado do de Fiona. Violet livrou-se do dela e depois foi abrir a portinhola do capacete de Sunny, para que a mais jovem dos Baudelaire pudesse se desenroscar, sair do pequeno espaço fechado e juntar-se aos irmãos. Mas Fiona agarrou a mão de Violet antes que ela tocasse o capacete, apontando para a janelinha redonda no capacete de Sunny.
Neste mundo há muitas coisas difíceis de se ver. Um cubo de gelo em um copo d’água, por exemplo, pode passar desapercebido, especialmente se o cubo de gelo é pequeno e o copo d’água tem dez quilômetros de diâmetro. Uma mulher baixa pode ser difícil de se ver em uma rua movimentada da cidade, ainda mais se ela se disfarçou de caixa de correio e deixa as pessoas depositarem cartas em sua boca. E um pequeno recipiente de louça, com tampa bem ajustada para guardar lá dentro alguma coisa importante, pode ser difícil de encontrar na lavanderia de um hotel enorme, especialmente se houver um terrível vilão por perto, fazendo você se sentir nervoso e distraído. Mas há também coisas que são difíceis de se ver, não por causa do tamanho de suas adjacências, nem porque estão bem disfarçadas, ou porque há por perto uma pessoa traiçoeira com uma caixa de fósforos no bolso e um plano diabólico na cabeça, mas porque as coisas são tão perturbadoras de se olhar, tão angustiantes de se acreditar, que é como se seus olhos se recusassem a ver o que está bem na frente deles. Você pode dar uma olhada no espelho e não ver como está cada vez mais velho, ou quão pouco atraente se tornou seu penteado, até que alguém gentilmente lhe aponte essas coisas. Você pode olhar para um lugar onde outrora morou e não ver como o prédio está tremendamente mudado, nem como a vizinhança se tornou sinistra, até caminhar alguns passos e perceber que a sorveteria não produz mais seu sabor favorito. E você pode olhar através da janelinha redonda de um capacete de mergulho, como fizeram Violet e Klaus naquele momento, e não ver os talos e píleos de um terrível fungo cinzento crescendo venenosamente no vidro, até que alguém pronuncie seu nome científico em um sussurro horrorizado.
“É o Mycelium Medusoide”, disse Fiona, e os dois Baudelaire mais velhos piscaram e viram que assim era.
“Oh, não”, murmurou Violet. “Oh, não!”
“Tirem-na de lá!”, gritou Klaus. “Tirem Sunny de lá agora, ou ela será envenenada!”
“Não!”, disse Fiona, e arrancou o capacete das mãos dos irmãos. Ela o colocou sobre a mesa como se fosse uma terrina, uma palavra que aqui significa “uma tigela grande e funda usada para servir cozidos ou sopas, em vez de uma menininha aterrorizada, enroscada dentro de um equipamento para se usar em mares profundos”. “O capacete de mergulho pode servir de local de quarentena. Se nós o abrirmos, o fungo se espalhará. O submarino inteiro se transformará em um campo de cogumelos.”
“Não podemos deixar nossa irmã lá dentro!”, gritou Violet. “Os esporos vão envenená-la!”
“Ela provavelmente já foi envenenada”, disse Fiona, com calma. “Em um espaço pequeno e fechado como esse capacete, não há como escapar.”
“Isso não pode ser verdade”, disse Klaus tirando os óculos, como se não quisesse encarar o horror da situação. Mas naquele momento, quando as crianças ouviram um som leve e sinistro que vinha do capacete, tiveram de encarar a situação. Violet e Klaus lembraram-se da luta dos peixes do Arroio Enamorado para respirar nas águas negras e cheias de cinzas. Sunny estava tossindo.
“Sunny!”, gritou Klaus para dentro do capacete.
“Moléstia”, disse Sunny, o que queria dizer: “Estou começando a não me sentir muito bem”.
“Não fale, Sunny!”, Fiona gritou para dentro da janelinha do capacete, e voltou-se para os Baudelaire mais velhos. “O micélio pode arruinar a capacidade respiratória”, explicou a micetologista, caminhando para o guarda-louça. “É o que estava escrito naquela carta. A irmã de vocês precisa economizar o fôlego. Os esporos tornarão cada vez mais difícil para Sunny falar, e ela provavelmente começará a tossir enquanto o fungo se desenvolve dentro dela. Em uma hora, não conseguirá mais respirar. Se não fosse tão horrível, seria fascinante.”
“Fascinante?”, Violet cobriu a boca com as mãos e fechou os olhos, tentando não imaginar o que sua aterrorizada irmã estava sentindo. “O que podemos fazer?”, perguntou ela.
“Um antídoto”, disse Fiona. “Deve haver alguma informação útil na minha biblioteca micetológica.”
“Vou ajudar”, disse Klaus. “Certamente vou achar os livros difíceis de ler, mas...”
“Não”, disse Fiona. “Preciso ficar sozinha para fazer a pesquisa. Você e Violet podiam subir por aquela escada de corda e dar partida nos motores para que abandonemos essa caverna.”
“Mas devíamos fazer a pesquisa todos nós!”, exclamou Violet. “Só temos uma hora, ou talvez até menos! Se os cogumelos cresceram enquanto estávamos nadando de volta ao Queequeg, então...”
“Então nós certamente não temos tempo para discutir”, completou Fiona, abrindo o armário e retirando uma grande pilha de livros. “Ordeno a vocês que me deixem em paz, para que eu possa fazer essa pesquisa e salvar sua irmã!”
Os Baudelaire mais velhos se entreolharam, depois olharam para o capacete de mergulho sobre a mesa.
“Você nos ordena?perguntou Klaus.
“Positivo!”, bradou Fiona, e as crianças se deram conta de que era a primeira vez que a micetologista pronunciava aquela palavra. “Sou eu quem manda aqui! Na ausência do meu padrasto, eu sou o capitão do Queequeg! Positivo!”
“Não importa quem é o capitão!”, disse Violet. “A única coisa importante é salvar minha irmã!”
“Subam aquela escada de corda!”, bradou Fiona. “Positivo! Deem partida nos motores! Positivo! Vamos salvar Sunny! Positivo! E achar meu padrasto! Positivo! E recuperar o açucareiro! Positivo! E não temos tempo para vacilar! Aquela que vacila está perdida! Essa é minha filosofia de vida!”
“Essa é a filosofia de vida do capitão”, disse Klaus, “e não a sua.”
“Eu sou o capitão!”, disse Fiona, agressiva. O Baudelaire do meio pôde ver que, atrás de seus óculos triangulares, a micetologista estava chorando. “Façam o que estou dizendo.”
Klaus abriu a boca para dizer mais alguma coisa, mas percebeu que também ele estava chorando, e sem mais palavra voltou as costas para a amiga e caminhou para a escada de corda, com Violet logo atrás.
“Ela está errada!”, sussurrou furiosa a mais velha dos Baudelaire. “Você sabe que ela está errada, Klaus. O que vamos fazer?”
“Vamos dar partida nos motores”, disse Klaus, “e manobrar o Queequeg para fora dessa caverna.”
“Mas isso não vai salvar Sunny”, disse Violet. “Você lembra da descrição do Mycelium Medusoide, não lembra?”
“De um único esporo é tão cruel o poder”, recitou Klaus, “que em menos de uma hora tu podes morrer. É claro que me lembro.”
“Hora?”, disse Sunny, assustada, de dentro do capacete.
“Shhh”, fez Violet. “Economize seu fôlego, Sunny. Vamos achar um jeito de curá-la, já já.”
“Não já já”, corrigiu Klaus com tristeza. “Fiona agora é o capitão, e ela nos ordenou que...”
“Não me importam as ordens de Fiona”, disse Violet. “Ela é volátil demais para nos tirar dessa situação – exatamente como o padrasto dela, e exatamente como o irmão dela!” A mais velha dos Baudelaire enfiou a mão no bolso do uniforme e tirou o recorte de jornal que pegara na gruta. Sua mão roçou contra a lata de wasabi, e ela estremeceu, esperando que a irmã se recuperasse e vivesse para usar o condimento japonês em suas receitas. “Escute isso, Klaus!”
“Não quero escutar!”, disse Klaus num sussurro zangado. “Talvez Fiona esteja certa! Talvez não devamos vacilar, especialmente em um momento como esse! Se não conseguirmos um antídoto para nossa irmã, ela pode morrer! Vacilar só vai deixar as coisas ainda piores!”
“Dar partida nos motores em vez de ajudar Fiona com sua pesquisa só vai deixar as coisas ainda piores!”, disse Violet.
Naquele momento, porém, tanto Violet como Klaus viram algo que deixou as coisas ainda piores, e eles se deram conta de que ambos estavam errados. Os dois Baudelaire não deveriam estar dando partida nos motores do Queequeg, e não deveriam estar ajudando Fiona com sua pesquisa, e não deveriam estar discutindo um com o outro. Os Baudelaire, e Fiona também, deveriam ter ficado muito quietos, evitado fazer o menor ruído, e, em vez de ficar olhando para o capacete de mergulho, onde sua irmã sofria os efeitos do veneno do Mycelium Medusoide, eles deveriam ter olhado para o detector por sonar do submarino ou para a vigia acima da mesa, que dava para as escuras profundezas da caverna. No painel verde brilhava o Q representando o Queequeg, mas isso era mais uma coisa no mundo que era difícil de se ver, porque um outro símbolo verde luminescente ocupava exatamente o mesmo espaço. E do lado de fora da vigia havia uma massa de pequenos tubos de metal que giravam na água tenebrosa, produzindo milhares e milhares de bolhas, e no meio de todos aqueles tubos havia um grande espaço aberto, qual uma boca gigante e famélica – a boca de um polvo prestes a devorar o Queequeg e todo o resto da tripulação. A imagem no detector por sonar era um olho, e o que se via da vigia era um submarino, mas de qualquer modo as crianças sabiam que era o conde Olaf, e isso deixava as coisas muito, muito piores de fato.

Um comentário:

  1. Sera q a SUNNY vai morrer??
    Acho q n quer dizer estou torcendo pra nao ela é o personagem q mais gostoo

    Sera q o cond olaf vai captura eles?

    Acho q vai.

    Pra onde o capitao e phil foi ?

    Nossa esse capitulo foi tenso

    ResponderExcluir

• Não dê SPOILER!
• Para comentar sem conta, escolha a opção Nome/URL. Escreva seu nome/apelido e deixe URL em branco

Os comentários estão demorando alguns dias para serem aprovados... a situação será normalizada assim que possível. Boa leitura!