6 de setembro de 2016

Capítulo nove


“Rá!”, berrou o conde Olaf, apontando um dedo ossudo para os órfãos Baudelaire, e as crianças ficaram gratas por pequenas bênçãos. Uma pequena bênção é simplesmente uma coisinha pequena que deu certo em um mundo que deu errado, como um raminho de salsa deliciosa ao lado de um sanduíche de atum estragado, ou um adorável dente-de-leão em um jardim que está sendo devorado por bodes malvados.
Uma pequena bênção, como um pequeno mata-moscas, provavelmente não será de nenhuma serventia real; não obstante, os três irmãos, mesmo horrorizados e enojados por ver Olaf novamente, estavam gratos pela pequena bênção de o vilão ter aparentemente perdido o interesse em sua nova risada. Na última vez em que os Baudelaire o viram, ele estava a bordo de um estranho submarino em forma de polvo e tinha desenvolvido uma risada que era igualmente estranha, cheia de fungadelas e guinchos, e palavras que por acaso começavam com a letra H. Mas, enquanto o vilão marchava na direção das crianças e dos adultos que lhes seguravam a mão, ficou claro que ele adotara um estilo de riso sucinto, uma palavra que aqui significa “somente a palavra ‘rá’“.
“Rá!”, ele gritou. “Eu sabia que ia encontrar vocês, órfãos, de novo! Rá! E agora vocês estão nas minhas garras! Rá!”
“Nós não estamos nas suas garras”, disse Violet. “Apenas aconteceu de estarmos no mesmo recinto.”
“Isso é o que você pensa, órfã”, escarneceu ele. “Receio que o homem que está segurando a sua mão seja um dos meus associados. Entregue-a para mim, Ernest. Rá!”
“Rá para você também, Olaf”, disse Dewey Dénouement. Sua voz era firme e confiante, mas Violet sentiu a mão dele tremer na sua. “Não sou Ernest, e não vou entregá-la!”
“Bem, então entregue-a, Frank!”, disse Olaf. “Você devia pensar em pentear o seu cabelo de um jeito diferente, para que eu pudesse distingui-lo.”
“Também não sou Frank”, disse Dewey.
“Você não pode me enganar!”, rosnou o conde Olaf. “Não nasci ontem, você sabe! Você é um daqueles gêmeos idiotas! É claro que eu sei disso! Graças a mim, vocês dois são os únicos sobreviventes de toda a família!”
“Trigêmeos estão no sangue da minha família”, disse Dewey, “e não gêmeos. Sou Dewey Dénouement.”
Com isso, a sobrancelha única do conde Olaf ergueu-se de espanto.
“Dewey Dénouement”, murmurou ele. “Então você é uma pessoa real! Eu sempre achei que você fosse uma figura lendária, como unicórnios ou Giuseppe Verdi.”
“Giuseppe Verdi não é uma figura lendária”, disse Klaus, indignado. “É um compositor operístico!”
“Silêncio, traça-dos-livros!”, ordenou Olaf. “Crianças não devem falar quando adultos estão discutindo! Entreguem os órfãos, adultos!”
“Ninguém vai entregar os Baudelaire!”, disse a juíza Strauss, apertando a mão de Klaus. “Você não tem direitos legais sobre eles, nem sobre a fortuna deles!”
“Você não pode simplesmente agarrar crianças como se fossem frutas numa fruteira!”, exclamou Jerome Squalor. “É injustiça, e não vamos tolerar isso!”
“É melhor vocês se cuidarem”, disse o conde Olaf estreitando os olhos brilhantes. “Tenho associados à espreita por toda parte neste hotel.”
“Nós também”, disse Dewey. “Muitos voluntários chegaram cedo, e em poucas horas as ruas serão invadidas por táxis que trarão pessoas nobres aqui para este hotel.”
“Como você pode ter certeza de que são pessoas nobres?”, perguntou o conde Olaf. “Um táxi pode pegar qualquer um que lhe faça sinal.”
“Essas pessoas são nossas associadas”, disse Dewey com veemência. “Elas não vão nos desapontar.”
“Rá!”, disse o conde Olaf. “Não se pode confiar em associados. Meus camaradas me desapontaram mais vezes do que sou capaz de contar. Ora, Ganchinho e Fiona me traíram ainda ontem, e deixaram vocês pirralhos escapar! Então me traíram de novo e roubaram o meu submarino!”
“Nós podemos confiar em nossos amigos”, disse Violet mansamente, “mais do que você pode confiar nos seus.”
“É mesmo?”, perguntou Olaf e inclinou-se para as crianças com um sorriso voraz. “Vocês não aprenderam nada depois de todas as suas aventuras?”, insistiu ele. “Todas as pessoas nobres desapontaram vocês, órfãos Baudelaire. Ora, vejam só os idiotas ao seu lado! Uma juíza que permitiu que eu me casasse com você, um homem que desistiu de vocês por completo, e um sub-sub-bibliotecário que passa a vida se esgueirando por aí, preocupado em fazer anotações. Dificilmente poderíamos chamá-los de um bando de gente nobre.”
“Charles, da Serraria Alto Astral, está aqui”, disse Klaus. “Ele se preocupa conosco.”
“Senhor está aqui”, retorquiu Olaf. “Ele não se preocupa. Rá!”
“Hal”, disse Sunny.
“Vice-diretor Nero e sr. Remora”, replicou Olaf, contando cada pessoa detestável nos seus dedos imundos. “E aquela reporterzinha irritante d’O Pundonor Diário, que está aqui para escrever matérias bobas elogiando o meu coquetel. E o ridículo senhor Poe, que chegou horas atrás para investigar um assalto a banco. Rá!”
“Essas pessoas não contam”, disse Klaus. “Não são suas associadas.”
“Poderiam bem ser”, replicou o conde Olaf. “Foram de enorme ajuda. E, a cada segundo, mais associados meus vão chegando cada vez mais perto.”
“Nossos amigos também”, disse Violet. “Eles estão voando através do oceano enquanto falamos, e até amanhã a casa móvel autossustentável a ar quente deles irá pousar na cobertura.”
“Somente se eles conseguiram sobreviver às minhas águias”, disse o conde Olaf com um grunhido.
“Vão sobreviver”, disse Klaus. “Exatamente como nós sobrevivemos a você.”
“E como vocês sobreviveram a mim?”, perguntou Olaf. “O Pundonor Diário está repleto dos seus crimes. Vocês mentiram para as pessoas. Vocês roubaram. Vocês abandonaram pessoas em perigo. Vocês provocaram incêndios. Por vezes seguidas vocês dependeram de traições para sobreviver, exatamente como todo mundo. Não existem pessoas verdadeiramente nobres.”
“Nossos pais”, disse Sunny, enfática.
O conde Olaf pareceu surpreso por Sunny ter falado, e então lançou aos três Baudelaire um sorriso que os fez estremecer.
“Acho que o sub-sub-bibliotecário não contou a vocês a história de seus pais”, disse ele, “e uma caixa de dardos envenenados. Por que não perguntam a ele, órfãos? Por que não perguntam a esse bibliotecário legendário sobre aquela noite fatídica na ópera?”
Os Baudelaire viraram-se para Dewey, que começara a corar. Mas, antes que eles pudessem lhe perguntar qualquer coisa, foram interrompidos por uma voz vinda de um par de portas deslizantes que se abriram silenciosamente.
“Não lhe perguntem isso”, disse Esmé Squalor. “Tenho uma pergunta muito mais importante.”
Com uma risada zombeteira, a pérfida namorada emergiu do elevador, as sandálias prateadas batendo pesadamente no chão e as folhas de alface farfalhando contra sua pele. Atrás dela vinha Carmelita Spats, que vestia sua roupa de jogador de futebol caubói super-herói e soldado pirata e carregava o lançador de arpões que Violet lhe entregara; atrás dela mais três pessoas emergiram do elevador. Primeiro veio o atendente do salão de bronzeamento da cobertura, ainda usando óculos de sol verdes e um roupão comprido e largo demais. Logo depois, a química misteriosa que estava do lado de fora da sauna, usando um jaleco branco comprido e uma máscara cirúrgica; a última pessoa a sair do elevador foi a lavadeira da lavanderia, com longos cabelos loiros e roupas amarrotadas. Os Baudelaire reconheceram essas pessoas de suas observações como flâneurs, mas então o atendente tirou o roupão e revelou suas costas, e ele tinha uma pequena corcova no ombro; a química tirou a máscara cirúrgica, não com uma das mãos, mas com um dos pés; e a lavadeira se desfez da longa peruca loira com ambas as mãos exatamente ao mesmo tempo, e os três irmãos reconheceram os três asseclas mais uma vez.
“Hugo!”, exclamou Violet.
“Colette!”, exclamou Klaus.
“Kevin!”, exclamou Sunny.
“Esmé!”, exclamou Jerome.
“Por que ninguém exclama o meu nome?”, perguntou Carmelita, batendo contra o chão uma das suas brilhantes botas azuis. Ela avançou empertigada para Violet, que observou que na arma faltavam dois dos quatro longos e afiados arpões. Esse tipo de observação pode ser importante para um flâneur, mas é assustador para qualquer leitor deste livro, que provavelmente não quer saber onde irão parar os arpões remanescentes. “Eu sou um jogador de futebol caubói super-herói e soldado pirata”, tripudiou ela para a mais velha dos Baudelaire, “e você não passa de uma bisbórria. Exclame o meu nome, senão eu atiro em você com este lançador de arpões!
“Carmelita!”, disse Esmé, sua boca prateada se contorcendo numa expressão de choque. “Não aponte essa arma para Violet!”
“Esmé tem razão”, disse o conde Olaf. “Não desperdice os arpões. Podemos precisar deles.”
“Sim!”, exclamou Esmé. “Sempre há trabalho importante a fazer antes de um coquetel, especialmente se você quer que ele seja o mais in do mundo! Precisamos pôr capas nos sofás e esconder os nossos associados embaixo delas! Precisamos pôr vasos de flores sobre o piano e enguias elétricas na fonte! Precisamos pendurar no teto bandeirolas e voluntários! Precisamos pôr música para que as pessoas possam dançar, e bloquear as saídas para que elas não possam sair! E mais do que tudo, temos de cozinhar comida in e preparar coquetéis in! Comes e bebes são o aspecto mais importante de todas as ocasiões sociais, e nossas receitas in...”
“O aspecto mais importante de todas as ocasiões sociais não são os comes e bebes!”, interrompeu Dewey, indignado. “É a conversa!”
“Você é quem devia fugir!”, disse a juíza Strauss. “O seu coquetel será cancelado, devido ao fato de o anfitrião e a anfitriã estarem sendo levados à justiça na Corte Suprema!”
“Você continua tão tola como quando éramos vizinhos”, disse o conde Olaf. “A Corte Suprema não pode nos deter. C.S.C. não pode nos deter. Escondido em algum lugar neste hotel está um dos cogumelos mais mortíferos de todo o mundo. Quando chegar a quinta-feira, o cogumelo sairá do seu esconderijo e destruirá todos os que tocarem nele! Por fim estarei livre para roubar a fortuna dos Baudelaire e realizar qualquer outro ato pérfido que me venha à cabeça!”
“Você não se atreverá a liberar o Mycelium Medusoide”, disse Dewey. “Não enquanto eu estiver com o açucareiro.”
“Engraçado você mencionar o açucareiro”, disse Esmé Squalor, muito embora os Baudelaire pudessem ver que ela não achava aquilo nem um pouco engraçado. “É exatamente sobre ele que queríamos perguntar.”
“O açucareiro?”, perguntou o conde Olaf com os olhos brilhando muito. “Onde está ele?”
“As aberrações lhe dirão”, disse Esmé.
“É verdade, patrão”, disse Hugo. “Posso ser apenas um corcunda, mas vi Carmelita abater os corvos usando o lançador de arpões que Violet levou para ela.”
A juíza Strauss voltou-se para Violet, atônita.
“Você entregou o lançador de arpões a Carmelita?”, ela perguntou ofegante.
“Bem, sim”, disse Violet. “Eu tinha de desempenhar incumbências de concierge como parte do meu disfarce.”
“O lançador de arpões deveria ser mantido longe dos vilões”, disse a juíza, “e não entregue a eles. Por que Frank não a deteve?”
Violet lembrou-se de sua insondável conversa com Frank.
“Acho que ele tentou”, disse ela mansamente, “mas eu tinha de levar o lançador de arpões para a cobertura. O que mais poderia fazer?”
“Eu acertei dois corvos!”, bravateou Carmelita Spats. “Isso quer dizer que o condinho vai ter de me ensinar a cuspir como um verdadeiro jogador de futebol caubói super-herói e soldado pirata!”
“Não se preocupe, querida”, disse Esmé. “Ele vai ensinar. Não vai, Olaf?”
O conde Olaf suspirou, como se tivesse coisas melhores para fazer em vez de ensinar uma menininha a propelir saliva pela boca.
“Sim, Carmelita”, disse ele. “Eu vou ensiná-la a cuspir.”
Colette veio para o centro do palco, uma expressão que aqui significa “deu um passo à frente e contorceu o corpo de uma forma inusitada”. “Até mesmo uma contorcionista como eu”, disse ela, a boca se mexendo embaixo do cotovelo, “pôde ver o que aconteceu quando Carmelita atirou nos corvos. Eles caíram diretamente no papel pega-pássaros que Klaus dependurou do lado de fora da janela.”
Você dependurou o papel pega-pássaros do lado de fora da janela?”, Jerome perguntou ao Baudelaire do meio.
“Ernest mandou fazer isso”, disse Klaus, finalmente se dando conta de qual gerente falara com ele na sauna. “Tive de obedecer, como parte do meu disfarce.”
“Você não pode simplesmente fazer o que qualquer um lhe diz para fazer”, disse Jerome.
“O que mais poderia fazer?”, disse Klaus.
“Quando os corvos atingiram o papel pega-pássaros”, disse Kevin, gesticulando com uma das mãos e depois com a outra, “eles deixaram cair o açucareiro. Não vi onde ele foi parar, nem com o olho direito nem com o esquerdo, e me entristece dizer que ambos são igualmente fortes. Mas vi Sunny transformar a porta da lavanderia em uma porta de Cerramento Supravernacular Complexo.”
“A-rá!”, exclamou o conde Olaf. “O açucareiro deve ter caído dentro do respiro!”
“Ainda não vejo por que tive de me disfarçar de lavadeira”, disse Kevin timidamente. “Eu poderia ter sido simplesmente um lavadeiro, sem ter de usar esta peruca humilhante.”
“Ou poderia ter sido uma pessoa nobre”, Violet não pôde deixar de acrescentar, “em vez de espionar um valente voluntário.”
“O que mais poderia fazer?”, perguntou Kevin, encolhendo ambos os ombros de modo exatamente igual.
“Você poderia ser um voluntário”, disse Klaus, olhando para todos os seus antigos colegas do parque de diversões. “Todos vocês poderiam estar conosco agora, em vez de ajudar o conde Olaf.”
“Eu jamais poderia ser uma pessoa nobre”, disse Hugo tristemente. “Tenho uma corcunda nas costas.”
“E eu sou uma contorcionista”, disse Colette. “Alguém que pode vergar o corpo em formas inusitadas jamais poderia ser um voluntário.”
“C.S.C. jamais aceitaria uma pessoa ambidestra”, disse Kevin. “E meu destino ser uma pessoa pérfida.”
“Galimatias!”, exclamou Sunny.
“Bobagem!”, disse Dewey, que entendera imediatamente o que Sunny tinha dito. “Eu mesmo sou ambidestro e consegui fazer algo que preste na vida. Ser pérfido não é o seu destino! É a sua escolha!”
“Fico feliz por você sentir-se assim”, disse Esmé Squalor. “Você tem uma escolha neste exato momento, Frank. Diga-me onde está o açucareiro, senão...!”
“Isto não é uma escolha”, disse Dewey, “e eu não sou Frank.”
Esmé fechou uma carranca.
“Então você tem uma escolha neste exato momento, Ernest. Diga-me onde está o açucareiro, senão...!”
“Dewey”, disse Sunny.
Esmé piscou para a mais jovem dos Baudelaire, que notou que os cílios da vilanesca mulher também tinham sido pintados de prateado.
“O quê?”, perguntou ela.
“É verdade”, disse Olaf. “Ele é o verdadeiro sub-sub. Tudo indica que ele não é legendário, como Verdi.”
“É mesmo?”, disse Esmé Squalor. “Então alguém andou realmente catalogando tudo o que aconteceu conosco?”
“Foi a obra da minha vida”, disse Dewey. “Mais cedo ou mais tarde, todo segredo crucial acaba indo parar no meu catálogo.”
“Então você sabe tudo a respeito do açucareiro”, disse Esmé, “e do que está dentro dele. Você sabe como aquela coisa era importante, e quantas vidas foram perdidas na missão de achá-lo. Você sabe como foi difícil encontrar um recipiente que pudesse contê-lo de modo a protegê-lo e a mantê-lo seguro e atraente. Você sabe o que ele significa para os Baudelaire, e o que ele significa para os Snicket.” Ela deu um passo para mais perto de Dewey e esticou uma unha prateada – a que tinha forma de S – até quase cutucar seu olho. “E você sabe”, disse em uma voz terrível, “que ele é meu.”
“Não mais”, disse Dewey.
“Beatrice o roubou de mim!”, exclamou Esmé.
“Existem coisas piores”, disse Dewey, “do que roubar.”
Com isso, a namorada deu uma risadinha que gelou o sangue dos Baudelaire na veia.
“Certamente existem”, disse ela, e marchou na direção de Carmelita Spats. Com uma unha pontuda – a que tinha a forma de M –, ela desviou o lançador de arpões e o apontou para o trigêmeo. “Conte-me como se faz para abrir aquela porta”, disse ela, “senão esta menininha vai arpoá-lo.”
“Eu não sou uma menininha!”, Carmelita lembrou Esmé com um jeito antipático. “Sou um jogador de futebol caubói super-herói e soldado pirata! E não vou lançar mais arpões até o condinho me ensinar a cuspir.”
“Você vai fazer o que nós mandamos, Carmelita”, rosnou Olaf. “Eu já comprei aquele traje ridículo para você, e aquele barco para você ficar à espreita na piscina. Aponte essa arma para Dewey neste instante!”
“Me ensine a cuspir!”, disse Carmelita.
“Aponte a arma!”
“Me ensine a cuspir!”
“Aponte a arma!”
“Me ensine a cuspir!”
“Arma!”
“Cuspir!”
“Arma!”
“Cuspir!”
Com um rugido roufenho, o conde Olaf arrancou brutalmente o lançador de arpões das mãos de Carmelita, derrubando-a no chão.
“Nunca vou ensinar você a cuspir, enquanto for vivo!”, urrou ele. “Rá!”
“Querido!”, arfou Esmé. “Você não pode quebrar a sua promessa para a nossa querida menininha!”
“Eu não sou uma querida menininha!”, berrou Carmelita. “Eu sou um jogador de futebol caubói super-herói e soldado pirata! 
“Você é uma criancinha mimada!”, corrigiu Olaf. “De um jeito ou de outro, eu nunca quis uma pirralha como você por perto! Já é hora de você aprender um pouco de disciplina!”
“Mas disciplina é out!disse Esmé.
“Tanto se me dá o que é out e o que é in!”, gritou Olaf. “Estou cansado de ter uma namorada obcecada com modismos! Você só quer ficar sentada em salões de bronzeamento em coberturas enquanto eu corro de um lado para outro fazendo todo o trabalho!”
“Se eu não estivesse na cobertura”, retorquiu Esmé, “o açucareiro teria sido entregue a C.S.C.! Além disso, eu estava guardando...”
“Tanto se me dá o que você estava fazendo”, disse Olaf. “Você está demitida!”
“Você não pode me demitir!”, rugiu Esmé. “Eu peço demissão!”
“Bem, você pode sair por acordo mútuo”, resmungou Olaf, e então, com mais um sucinto “Rá!”, ele ergueu o lançador de arpões e o apontou para Dewey Dénouement. “Conte-nos quais são as três frases que precisamos digitar na fechadura a fim de abrir a porta de Cerramento Supravernacular Complexo e revistar a lavanderia!”
“Você não vai encontrar nada na lavanderia”, disse Dewey, “a não ser pilhas de lençóis sujos, algumas máquinas de lavar e secar e alguns produtos químicos extremamente inflamáveis.”
“Eu posso irradiar um belo ardor juvenil”, rosnou Olaf, “mas não nasci ontem! Rá! Se não há nada na lavanderia, então por que vocês puseram uma fechadura C.S.C. na porta?”
“Talvez seja apenas um engodo”, disse Dewey, sua mão ainda trêmula na de Violet.
“Engodo?”, disse Olaf.
“‘Engodo’ é uma palavra com diversos significados”, explicou o trigêmeo. “Pode se referir a um canto em uma lagoa onde patos podem ser capturados, ou à imitação de um pato ou outro animal com o intuito de atrair um espécime real. Ou pode significar alguma coisa usada para distrair pessoas, como uma fechadura em uma porta que não encerra um certo açucareiro.”
“Se a fechadura é um engodo, sub-sub”, escarneceu o conde Olaf, “então você não vai se importar de me contar como abri-la.”
“Muito bem”, disse Dewey, ainda lutando para parecer calmo. “A primeira frase é a descrição de uma condição médica que todos os três Baudelaire compartilham.”
Os Baudelaire compartilharam um sorriso.
“A segunda frase é a arma que o deixou órfão, Olaf”, disse Dewey.
Os Baudelaire compartilharam uma carranca.
“E a terceira”, disse Dewey, “é a famosa pergunta insondável no muito conhecido romance de Richard Wright.”
As irmãs Baudelaire compartilharam um olhar desnorteado e depois olharam esperançosas para Klaus, que balançou a cabeça lentamente.
“Não disponho de tempo para examinar os Baudelaire do ponto de vista médico”, disse Olaf, “ou para mergulhar em qualquer romance famoso!”
“As pessoas malignas nunca têm tempo para leituras”, disse Dewey. “É uma das razões para a sua malignidade.”
“Já me enchi dos seus joguinhos!”, rugiu o conde Olaf. “Rá! Se eu não ouvir as frases exatas usadas para abrir o dispositivo assim que Esmé contar até dez, vou disparar o lançador de arpões e picar vocês em pedacinhos! Esmé, conte até dez!”
“Não vou contar até dez”, disse Esmé, fazendo beicinho. “Não vou fazer nada para você nunca mais!”
“Eu sabia!”, disse Jerome. “Eu sabia que você voltaria a ser uma pessoa nobre, Esmé! Você não precisa desfilar em um biquíni indecente no meio da noite ameaçando sub-sub-bibliotecários! Você pode ficar conosco, em nome da justiça.”
“Não vamos exagerar”, disse Esmé. “Só porque estou descartando o meu namorado, não quer dizer que vou ser boazinha como você. Justiça é out. Injustiça é in. É por isso que se chama injustiça.”
“Você devia fazer o que é certo neste mundo”, disse a juíza Strauss, “e não o que está na moda. Entendo a sua situação, Esmé. Quando eu tinha a sua idade, passei anos como ladra de cavalos antes de me dar conta...”
“Não quero ouvir as suas histórias chatas”, rosnou o conde Olaf. “A única coisa que quero ouvir são três frases exatas da boca de Dewey, ou o seu destino será a morte por arpoação, assim que eu disser o número dez. Um?”
“Pare!”, exclamou a juíza Strauss. “Em nome da lei!”
“Dois.”
“Pare!”, implorou Jerome Squalor. “Em nome da injustiça!”
“Três!”
“Pare!”, ordenou Violet, e seus irmãos balançaram a cabeça concordando enfaticamente. Os Baudelaire perceberam, como tenho certeza que você percebeu, que os adultos que estavam com eles não iriam fazer nada para impedir que o conde Olaf chegasse a dez e puxasse o gatilho do lançador de arpões, e que a juíza Strauss e Jerome Squalor iriam desapontá-los, como tantas pessoas nobres já os tinham desapontado antes. Mas os irmãos também sabiam que esse desapontamento não iria feri-los – pelo menos não imediatamente. Iria ferir Dewey Dénouement, e sem mais palavra as três crianças soltaram as mãos dos adultos e se postaram na frente do sub-sub-bibliotecário, protegendo-o do mal.
“Você não pode arpoar este homem”, disse Klaus para o conde Olaf, mal acreditando no que estava dizendo. “Terá de nos arpoar primeiro.”
“Ou”, disse Sunny, “abaixar arma.”
Dewey Dénouement parecia perplexo demais para falar, mas o conde Olaf apenas desviou seu olhar desdenhoso do sub-sub-bibliotecário para as três crianças.
“Eu não me importaria de arpoar vocês também, órfãos”, disse ele, os olhos brilhando fortemente. “Quando o assunto é abater pessoas, sou muito flexível! Rá! Quatro!”
Violet deu um passo na direção do conde, que segurava o lançador de arpões e que assim passou a apontar para o peito dela. “Abaixe a arma, Olaf”, disse a mais velha dos Baudelaire. “Você não quer cometer essa perversidade.”
O conde Olaf piscou, mas não moveu a arma.
“É claro que eu quero”, disse ele. “Se o sub-sub não me contar como pegar o açucareiro, vou puxar o gatilho, não importa quem estiver na minha frente! Rá! Cinco!”
Klaus deu um passo à frente, juntando-se à irmã.
“Você tem uma escolha”, disse ele. “Você pode escolher não puxar esse gatilho!”
“E você pode escolher a morte por arpoação!”, exclamou o conde Olaf. “Seis!”
“Por favor”, disse Sunny, juntando-se aos irmãos. O vilão não se moveu, porém os três Baudelaire, sempre juntos, foram chegando cada vez mais perto do lançador de arpões, o tempo todo protegendo Dewey.
“Sete!”
“Por favor”, disse de novo a mais jovem dos Baudelaire. Os irmãos avançaram em passos lentos mas firmes na direção do lançador de arpões, e o som reverberado de suas passadas era a única coisa que se ouvia no saguão silencioso, além dos gritos de Olaf anunciando números cada vez mais altos.
“Oito!”
Eles chegaram mais perto.
“Nove!”
As crianças deram um último passo e, sem dizer uma palavra, puseram as mãos sobre o lançador de arpões, que parecia gelado mesmo através das luvas brancas. Tentaram puxar a arma das mãos de Olaf, mas o seu primeiro tutor não a soltou, e durante um longo momento os jovens e o adulto ficaram reunidos em silêncio em torno da arma terrível. Violet olhava para a afiada ponta em gancho do arpão pressionada contra o seu peito, Klaus olhava diretamente para o gatilho vermelho vivo que podia ser pressionado a qualquer momento, e Sunny olhava nos olhos muito, muito brilhantes de Olaf, procurando o menor sinal que fosse de nobreza.
“O que mais posso fazer?”, perguntou o vilão, tão mansamente que as crianças não puderam ter certeza se tinham ouvido direito.
“Dê-nos a arma”, disse Violet. “Cometer esse ato pérfido não é o seu destino.”
“Dê-nos a arma”, disse Klaus. “Ser uma pessoa maligna não é o seu destino.”
“La forza del destino”, disse Sunny, e então ninguém mais disse nada. O salão estava tão silencioso que os Baudelaire podiam ouvir Olaf inspirando antes de gritar a palavra “dez”.
Mas, num instante eles ouviram outro som, especificamente uma tossida muito forte, e num instante tudo mudou, pois esses são os caminhos perversos do mundo. Num instante, você pode acender um fósforo e começar um incêndio que pode destruir a vida de incontáveis pessoas. Num instante, você pode tirar um bolo do forno e prover sobremesa para incontáveis outras. Num instante, você pode mudar algumas palavras em um poema de Robert Frost e se comunicar com os seus associados através de um código conhecido como Clarificação de Sibilinos Cantares, e num instante você pode se dar conta de onde alguma coisa está escondida e decidir se vai buscá-la ou se vai mantê-la escondida em um lugar em que nunca mais poderá ser encontrada e então será esquecida por todos menos algumas figuras lidas e muito perturbadas, que por sua vez são esquecidas, e assim por diante, et cetera e tal, e mais alguns et cetera e tal de quebra. Tudo isso pode acontecer num instante, como se um único instante fosse um enorme recipiente capaz de conter incontáveis segredos protegidos e em segurança, e de modo atraente, tal como os incontáveis segredos contidos no Hotel Desenlace, ou no catálogo subaquático oculto, em seu ondulante reflexo.
Naquele instante, contudo, no enorme saguão do hotel, os órfãos Baudelaire ouviram uma tossida tão forte quanto familiar, e naquele instante o conde Olaf virou-se para ver quem vinha caminhando pelo saguão, e apressadamente empurrou o lançador de arpões para as mãos dos Baudelaire ao reconhecer a figura usando um pijama com desenhos de dinheiro por toda parte e com uma expressão desnorteada no rosto. Naquele instante, os três irmãos agarraram a arma, sentindo o seu peso pesado e escuro nas mãos, e naquele instante o lançador de arpões escorregou das mãos deles e caiu ruidosamente no piso de madeira verde, e naquele instante eles ouviram o gatilho vermelho fazer dic!, e naquele instante o penúltimo arpão foi disparado com um vupt! e saiu voando através do enorme recinto abobadado, atingindo alguém com um golpe letal, uma frase que aqui significa “matando uma das pessoas que estavam no recinto”.
“O que está acontecendo?”, perguntou o sr. Poe, pois não era o seu destino ser aniquilado por um arpão, pelo menos não naquela noite em particular. “Pude ouvir gente discutindo lá do quarto 174. Que diabo...”, e naquele instante ele parou e olhou horrorizado para os três irmãos. “Órfãos Baudelaire!”, ele arfou, mas não foi a única pessoa a arfar. Violet arfou, e Klaus arfou, e Sunny arfou, e a juíza Strauss e Jerome Squalor arfaram, e Hugo, Colette e Kevin – que estavam acostumados com a violência desde o seu tempo como empregados de um parque de diversões e como asseclas de um vilão – arfaram, e Carmelita Spats arfou, e Esmé Squalor arfou, e até o conde Olaf arfou, muito embora não seja usual um vilão arfar a não ser que esteja descobrindo um segredo crucial, ou sofrendo uma dor muito grande. Mas foi Dewey Dénouement quem arfou mais alto, mais alto até do que os Nadabons! que reboaram por todo o hotel quando o relógio bateu duas horas. Nadabom! Nadabom!, soou o relógio, porém tudo o que os Baudelaire ouviram foi a arfada doída e sufocada de Dewey quando ele recuou tropicando pelo saguão, uma das mãos no peito e a outra agarrando a extremidade do arpão que se projetava do seu corpo em um ângulo bizarro, como um canudinho de refresco, ou um reflexo de um dos braços magrelos de Dewey.
“Dewey!”, gritou Violet.
“Dewey!”, gritou Klaus.
“Dénouement!, gritou Sunny, mas o sub-sub-bibliotecário não respondeu e saiu cambaleando em silêncio do hotel. Por um momento as crianças ficaram chocadas demais para se mexer enquanto o observavam desaparecer na nuvem de vapor que se erguia do respiro da lavanderia, mas então saíram correndo atrás dele, disparando escada abaixo, quando ouviram um tchibum! vindo da beira da lagoa. No momento em que os Baudelaire alcançaram Dewey, ele já estava afundando, seu corpo trêmulo causando pequenas ondulações na água. Já disseram que o mundo é uma lagoa calma, e que toda vez que alguém faz uma coisa, por mais ínfima que seja, é como se uma pedra caísse nessa lagoa e espalhasse círculos de ondulações cada vez mais distantes, até que o mundo inteiro ficasse alterado por uma minúscula ação, no entanto os Baudelaire não aguentaram pensar na ínfima ação do gatilho do lançador de arpões, ou em como o mundo mudara em apenas um instante. Em vez disso, correram freneticamente para a beira da lagoa, enquanto o sub-sub-bibliotecário afundava. Klaus agarrou uma das mãos, Sunny agarrou a outra, e Violet estendeu a mão para o rosto dele, como se estivasse consolando alguém que começara a chorar.
“Você vai ficar bem”, exclamou Violet. “Vamos tirá-lo da água.”
Dewey sacudiu a cabeça e fez uma carranca terrível para as crianças, como se estivesse tentando falar mas não conseguisse encontrar as palavras.
“Você vai sobreviver”, disse Klaus, muito embora soubesse, tanto por suas leituras sobre eventos pavorosos como por eventos pavorosos em sua própria vida, que isso simplesmente não era verdade.
Dewey sacudiu a cabeça de novo. Aquela altura, estavam acima da superfície da água somente a sua cabeça e as duas mãos trêmulas. As crianças não podiam ver o corpo, nem o arpão, o que era uma pequena bênção.
“Nós desapontamos você”, disse Sunny.
Dewey sacudiu a cabeça uma vez mais, agora muito forte, em violento desacordo. Ele abriu a boca e estendeu a mão para fora da água, apontando para além dos Baudelaire, para o céu muito, muito escuro enquanto lutava para pronunciar a palavra que mais queria dizer. “Kit”, sussurrou ele afinal, e então, escorregando das mãos das crianças, desapareceu na água escura. E os órfãos Baudelaire choraram sozinhos pelas bênçãos que lhes foram negadas e pelos perversos, perversos caminhos do mundo.

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