3 de setembro de 2016

Capítulo nove


Se você pensa em levar uma vida de vilania – e eu espero que não –, saiba que há umas poucas coisas que parecem ser necessárias ao sucesso de todo vilão. A primeira é uma vilanesca falta de consideração pelos outros, para que o vilão possa falar com suas vítimas grosseiramente, ignorar suas súplicas de piedade e até se comportar de modo violento, caso esteja com vontade de fazer esse tipo de coisa. Outra habilidade necessária aos vilões é uma imaginação vilanesca, para que eles possam usar o tempo livre para engendrar planos traiçoeiros que façam suas carreiras vilanescas deslanchar. Os vilões também precisam de um pequeno grupo de asseclas vilanescos, que aceitem servi-los na qualidade de capangas. E os vilões precisam desenvolver uma risada vilanesca, para simultaneamente celebrar feitos vilanescos e assustar quaisquer pessoas não vilanescas que estejam por perto. Um vilão de sucesso deve ter todas essas coisas ao alcance de suas vilanescas mãos, ou então desistir totalmente da vilania e tentar levar uma vida de decência, integridade e bondade, o que é muito mais desafiador e nobre, se bem que nem sempre tão emocionante.
O conde Olaf, todos sabem, era um excelente vilão, uma expressão que aqui significa “alguém especialmente qualificado para a vilania” – e não “um vilão com muitas qualidades desejáveis” –, e os órfãos Baudelaire entenderam isso logo depois daquele dia terrível na Praia de Sal, quando ficaram sabendo do incêndio terrível que dera início à série de desventuras em suas vidas. Mas quando o Queequeg foi tragado pela boca do apavorante submarino-polvo do conde Olaf, pareceu aos órfãos que o vilão se tornara ainda mais vilanesco durante o breve período em que se ausentara da vida deles. Olaf provara sua falta de consideração pelos outros muitas e muitas vezes seguidas, por exemplo quando promoveu o bárbaro assassinato dos tutores das crianças ou quando demonstrou simpatia por conflagrações criminosas, uma expressão que aqui significa “mostrou-se disposto a incendiar edifícios, sem se importar com quantas pessoas estavam lá dentro”, mas as crianças perceberam que a falta de consideração de Olaf se tornara ainda mais assustadora quando o Queequeg passou através da bocarra faminta e foi brutalmente jogado de um lado para outro, como se fosse ser digerido, forçando Violet e Klaus – e Fiona também, é claro – a se agarrar onde podiam para continuar vivos, enquanto o salão principal, que rodopiava, fazia Sunny chacoalhar dentro de seu capacete como se fosse uma melancia dentro de uma máquina de lavar roupa. O conde demonstrara sua imaginação vilanesca em inúmeras ocasiões, por exemplo quando armou planos torpes para roubar a fortuna Baudelaire ou quando tramou execráveis estratégias para raptar Duncan e Isadora Quagmire, mas os irmãos olharam para fora pela vigia e viram que a imaginação infernal de Olaf se tornara delirante de vez ao decorar o terrível submarino, pois quando o Queequeg rolou por um túnel ribombante, quase tão escuro quanto a Gruta Gorgônea, os Baudelaire viram que cada palmo das paredes metálicas estava recoberto por fantasmagóricos olhos luminescentes. O conde sempre tivera um sortimento de capangas, desde sua trupe mambembe original – da qual muitos não estavam mais com ele –, até alguns ex-empregados do Parque Caligari, mas os órfãos perceberam que ele tinha atraído muitos outros mais quando o túnel fez uma curva e os Baudelaire mais velhos viram de relance uma enorme sala cheia de gente remando com longos remos de metal para acionar os terríveis tentáculos metálicos do polvo. Mas talvez o pior de tudo tenha sido quando o Queequeg finalmente parou de rolar e Violet e Klaus constataram, ao olhar pela vigia, que o vilão ensaiara sua risada vilanesca até deixá-la extraperversa e extrateatral. O conde Olaf estava em pé sobre uma pequena plataforma de metal, arreganhando os dentes num sorriso triunfante, vestindo um traje familiar, feito de um material escorregadio, mas com o retrato de outro escritor estampado, alguém que só um leitor muito devotado iria reconhecer, e quando ele espiou através da vigia e viu as crianças assustadas, abriu a boca e deu início à sua nova risada vilanesca, que incluía novos chiados, rosnados e um sortimento de sílabas estranhas que os Baudelaire nunca tinham ouvido.
“Ha ha ha haicai, hi hi hi potenusa!”, fez ele. “Qui qui qui pro quo! Siferrô rô rô! Ti ti ti hi hi! Mim me moi, modéstia à parte!” Com um gesto de bazófia, ele pulou da plataforma, desembainhou uma espada longa e afiada e rapidamente cortou um círculo no vidro da vigia. Violet e Klaus tamparam os ouvidos quando ela guinchou em torno da janela. Então, com uma pancadinha leve da espada, Olaf mandou o círculo de vidro rolando para dentro do salão principal, onde ficou caído no chão sem se quebrar, e pulou pela vigia para cima da grande mesa de madeira, onde começou a rir ainda mais das crianças. “Estou rachando o bico!”, gritou ele. “Sacudindo a pança! Rolando de rir! Morto de tanto gargalhar! Acho que vou escrever um livro de piadas com todas as coisas hilárias que passam na minha cabeça! Ca ca ca canastrão!”
Violet se atirou para a frente e agarrou o capacete onde Sunny ainda estava enroscada, para que Olaf não o chutasse enquanto se pavoneava triunfante em cima da mesa. Ela mal suportava pensar na irmã, que inalava o veneno do Mycelium Medusoide enquanto Olaf desperdiçava preciosos minutos exibindo sua nova e azucrinante risada. “Pare de rir, conde Olaf”, disse ela. “Não tem nada de engraçado na vilania.”
“Tem sim, claro que tem!”, exultou Olaf. “Quá quá ra quá quarto-e-sala! Imagine só! Eu vinha descendo a montanha e achei pedaços do tobogã de vocês espalhados por cima de umas pedras pontudas! He he hecatombe! Achei que vocês tinham se afogado no Arroio Enamorado e estavam flutuando no meio de todos aqueles peixes com tosse! Peixes ho ho holobrânquios! Fiquei de coração partido!”
“Você não ficou de coração partido”, disse Klaus. “Você tentou nos destruir uma porção de vezes.”
“É por isso que fiquei de coração partido!”, exclamou Olaf. “Uh uh uh riso de urubu! Planejei chacinar vocês Baudelaire pessoalmente, depois de ficar com a fortuna, é claro, e arrancar o açucareiro de seus dedos mortos, das mãos ou dos pés!”
Violet e Klaus se entreolharam rapidamente. Tinham quase esquecido de contar a Olaf que sabiam a localização do açucareiro, muito embora, é claro, não tivessem a menor ideia de seu paradeiro.
“Para dar uma animada”, continuou o vilão, “me encontrei com meus associados no Hotel Desenlace, onde eles tramavam seu próprio planinho, e convenci o pessoal a me emprestar alguns novos recrutas.” Os Baudelaire mais velhos sabiam que os associados eram o homem com barba mas sem cabelo e a mulher com cabelo mas sem barba, duas pessoas tão sinistras que até mesmo Olaf parecia assombrado com eles, e sabiam também que os novos recrutas eram um grupo de Escoteiros da Neve que os tais vilões tinham raptado havia pouco tempo. “Quaca quaca vira-casaca! Graças à generosidade deles, consegui pôr este submarino para funcionar outra vez! Riso à toa ho ho ho! Naturalmente, preciso estar de volta ao Hotel Desenlace antes de quinta-feira, mas nesse ínterim sobrou tempo para matar, então pensei em matar alguns dos meus velhos inimigos! Ha ha ha alabarda! Comecei a zanzar pelos mares à procura do capitão Andarré e seu submarino idiota! Qui qui qui Queequeg! Mas agora que capturei esse trambolho, encontro vocês Baudelaire a bordo! É hilário! É humorístico! É galhofada! É relativamente divertido!”
“Como você se atreve a capturar este submarino?”, exclamou Fiona. “Eu sou o capitão do Queequeg, e exijo que você nos devolva ao mar imediatamente! Positivo!”
O conde Olaf olhou com atenção para a micetologista. “Positivo?repetiu ele. “Você deve ser Fiona, aquela pequena micetomaníaca! Ora, mas como está crescida! Na última vez que a vi, eu estava tentando jogar tachinhas no seu berço! Ha ha vox populi! O que aconteceu com o Andarré? Por que não é ele o capitão?”
“Meu padrasto não está disponível no momento”, respondeu Fiona, piscando atrás de seus óculos triangulares.
“Fo fo fofoca quente!”, disse o conde Olaf. “Então seu padrasto a abandonou? Bem, imagino que era apenas uma questão de tempo. Sua família inteira nunca soube escolher de que lado da cisão estava. O seu irmão também era um santinho do pau oco, tentando prevenir incêndios em vez de encorajá-los, ainda bem que...”
“O meu padrasto não me abandonou”, disse Fiona, embora sua voz falseasse um pouco, uma expressão que aqui significa “soava como se ela não tivesse tanta certeza”. Ela não chegou nem a acrescentar um “positivo!” no fim da frase.
“Isso é o que vamos ver”, disse Olaf com um sorriso perverso. “Vou pô-los todos a ferros, que, para quem não sabe, é a expressão náutica oficial para ‘mandá-los pro calabouço’.”
“Nós sabemos o que é ‘pôr a ferros’“, disse Klaus.
“Então vocês sabem que o calabouço não é um lugar muito agradável”, disse o vilão. “O proprietário anterior o usava para prender traidores, e não vejo razão para quebrar a tradição.”
“Nós não somos traidores, e não vamos sair do Queequeg”, disse Violet, e ergueu o capacete de mergulho. Sunny tentou dizer alguma coisa, mas o fungo crescente a fez tossir, e Olaf fechou a cara para o capacete com tosse.
“O que é isso?”, perguntou.
“Sunny está lá dentro”, disse ela. “E está muito doente.”
“Eu bem que estava me perguntando onde estaria a pirralha bebê”, disse o conde Olaf. “Minha esperança era de que ela estivesse presa embaixo de meu sapato, mas pelo que vejo é apenas um livro ridículo.” Ele ergueu seu pé escorregadio para revelar Cogumelos e suas minúcias, o livro que Fiona estava usando para sua pesquisa, e chutou-o para fora da mesa, fazendo-o quicar pelo chão até o outro lado.
“Há um veneno extremamente letal dentro daquele capacete”, disse Fiona, olhando frustrada para o livro. “Positivo! Se Sunny não tomar um antídoto em menos de uma hora, ela vai morrer.”
“Que me importa?”, grunhiu Olaf, mais uma vez demonstrando sua falta de consideração pelos outros. “Eu só preciso de um Baudelaire para pôr as mãos na fortuna. Agora venham comigo! Rá rá rá rascunho!”
“Nós vamos ficar aqui mesmo”, disse Klaus. “A vida da nossa irmã depende disso.”
O conde Olaf puxou novamente sua espada e desenhou uma forma sinistra no ar. “Vou lhes contar do que dependem suas vidas”, disse ele. “Suas vidas dependem de mim! Se eu quisesse, poderia afogá-los no mar ou estrangulá-los com os tentáculos do meu polvo mecânico! É só graças à bondade do meu coração, e devido à minha própria cobiça, que em vez disso vou pô-los a ferros!”
Sunny tossiu dentro do capacete, e Violet pensou depressa. “Se você nos deixar ajudar a nossa irmã”, disse ela, “vamos contar onde está o açucareiro.”
Os olhos do conde Olaf se apertaram, e ele arreganhou para as crianças o largo sorriso cheio de dentes de que os dois Baudelaire se lembravam de tantas outras ocasiões desditosas. Seus olhos brilharam forte, como se ele estivesse contando uma piada tão nojenta quanto seus dentes nunca escovados. “Você não pode tentar esse truque de novo”, escarneceu ele. “Não vou barganhar com uma órfã, não importa quão bonita seja. Depois que você estiver no calabouço, vai revelar onde está o açucareiro, espere só até o meu capanga botar as mãos em você. Ou devo dizer gancho? Ta te ti tortura!”
O conde Olaf pulou de volta pela vigia, enquanto Violet e Klaus se entreolhavam apavorados. Sabiam que o conde Olaf se referira ao homem de mãos de gancho, que vinha trabalhando com o vilão desde que o conheceram, e era um dos camaradas de Olaf menos favoritos dos Baudelaire. “Eu poderia subir correndo pela escada de corda”, murmurou Violet para os outros, “e dar partida nos motores do Queequeg.”
“Não podemos submergir sem a vigia”, disse Fiona. “Morreríamos afogados.”
Klaus encostou a orelha no capacete de mergulho e ouviu sua irmã choramingar e depois tossir. “Mas como vamos salvar Sunny?”, perguntou ele. “O tempo está se esgotando.”
Fiona olhou para o canto do outro lado da sala. “Vou levar aquele livro comigo”, disse ela, “e...”
“Depressa!”, bradou o conde Olaf. “Não posso esperar o dia todo! Ainda tenho uma porção de gente para intimidar!”
“Positivo!”, disse Fiona, enquanto Violet, que ainda segurava Sunny, passou seguida de Klaus pela vigia para juntar-se ao conde Olaf na plataforma. “Já estou indo”, disse ela, e a micetologista deu um passo hesitante na direção do Cogumelos e suas minúcias.
“Você vem agora!”, rosnou Olaf, e brandiu a espada para ela. “Aquele que vacila está perdido! Ri ri ri risota!”
À menção da filosofia de vida do capitão, Fiona suspirou e interrompeu seu progresso furtivo – uma expressão que aqui significa “avanço sorrateiro” – na direção do livro micetológico. “Ou aquela”, disse ela pausadamente, e passou pela vigia para juntar-se aos Baudelaire.
“A caminho do calabouço, vou levá-los por uma excursão completa!”, anunciou Olaf, tomando a dianteira para sair da sala redonda e metálica que servia como calabouço para o Queequeg. Havia vários centímetros de água sobre o piso, para ajudar o submarino capturado a se movimentar pelo túnel, e as botas dos Baudelaire chapinhavam ruidosamente à medida que eles seguiam o vilão fanfarrão. Enquanto Sunny tossia de novo dentro do capacete, Olaf pressionou um olho que ficava na parede, e uma pequena porta se abriu com um sussurro sinistro, revelando um corredor. “Este submarino é uma das coisas mais sensacionais que já roubei”, gabou-se ele. “Era tudo o que eu precisava para derrotar C.S.C. de uma vez por todas. Tem um sistema de sonar, portanto posso livrar os mares dos submarinos C.S.C. Tem um enorme mata-moscas, portanto posso livrar os céus de aviões C.S.C. Tem estoque de fósforos para uma vida inteira, portanto posso livrar o mundo da base de operações de C.S.C. Tem muitas caixas de vinho que planejo beber e um armário cheio de roupas elegantes para minha namorada. Mas o melhor de tudo é que tem um monte de oportunidades para crianças que queiram fazer trabalho escravo! He he hedonismo!”
Agitando a espada, ele dobrou uma curva, levando as crianças até uma sala enorme – a sala que tinham visto de relance quando o Queequeg entrou aos trambolhões naquele espaço terrível. Estava muito escuro, com apenas umas poucas lanternas penduradas no topo de altos pilares espalhados pelo lugar, mas Violet e Klaus puderam ver duas grandes fileiras de bancos de madeira com aparência desconfortável, onde estava sentada uma multidão de crianças manejando apressadamente longos remos que se estendiam através da sala até além das paredes, onde passavam por dentro de buracos de metal para controlar os tentáculos do polvo. Os Baudelaire mais velhos reconheceram algumas das crianças, umas faziam parte de uma tropa de Escoteiros da Neve que tinham encontrado nas Montanhas de Mão-Morta, outras se pareciam bastante com estudantes da Escola Preparatória Prufrock, onde os irmãos conheceram Carmelita Spats, mas havia algumas a respeito das quais os Baudelaire não tinham nenhuma experiência prévia, uma expressão que aqui significa “que provavelmente tinham sido raptadas pelo conde Olaf ou seus associados em outra ocasião”. As crianças pareciam muito abatidas, famintas e mais que entediadas, enquanto manejavam os remos de metal para a frente e para trás. Bem no centro da sala havia mais um polvo – este feito de pano escorregadio. Seis de seus tentáculos pendiam flácidos para os lados, mas dois se agitavam alto no ar, um deles segurando algo que parecia ser um comprido e molhado fio de macarrão.
“Remem mais depressa, seus fedelhos idiotas!”, o polvo gritou com voz cruel e familiar. “Temos de voltar para o Hotel Desenlace antes de quinta-feira, e já é segunda-feira! Se não andarem logo, vou bater em vocês com esse tagliatelle grandel Estou avisando, apanhar de macarrãozão é uma experiência desagradável e pegajosa! Ri ri ri risoto!”
“Ri ri ri ricota!”, gritou Olaf em concordância, e o polvo se virou.
“Querido!”, exclamou o bicho, e os irmãos não se surpreenderam ao ver que era Esmé Squalor, a pérfida namorada do conde Olaf, mais uma vez trajando absurdas vestimentas estilosas. Usando o pano escorregadio dos uniformes submarinos, a vilanesca namorada confeccionara um vestido-polvo, com dois grandes olhos de plástico, seis mangas extras e ventosas espalhadas pelas botas, imitando as que os polvos de verdade têm em seus tentáculos para ajudá-los a se mover. Esmé deu alguns passos pegajosos na direção de Olaf e então examinou as crianças por baixo do capuz escorregadio do vestido. “Esses são os Baudelaire?”, perguntou, atônita. “Como é possível? Nós já comemoramos a morte deles!”
“Acontece que sobreviveram”, disse o conde Olaf, “mas a sorte deles está para chegar ao fim. Estou prestes a botá-los a ferros!”
“A bebê realmente cresceu”, disse Esmé, olhando para Fiona. “Mas continua tão feia como antes.”
“Não, não”, disse Olaf. “A bebê está trancada naquele capacete, cuspindo os pulmõezinhos. Essa é Fiona, a enteada do capitão Andarré. O capitão a abandonou!”
“Abandonou?”, repetiu Esmé. “Que coisa mais in! Que coisa elegante! Que coisa maravilhosa! Isso pede mais um pouco da nossa nova risada! Hou hou hou ouriço-do-mar!”
“Qui qui qui quiabada!”, cacarejou Olaf. “A vida está ficando cada vez melhor!”
“Ga ga ga galhofa!”, guinchou Esmé. “Nosso triunfo está bem à vista!”
“Ro ro ro rococó!”, grasnou Olaf. “C.S.C, será reduzido a pó!”
“Glu glu glu glândulas glicêmicas!”, gorgolejou Esmé. “Vamos ficar ricos de doer!”
“Hipa dipa hu hu ha!”, berrou Olaf. “O mundo nunca se esquecerá do nome deste maravilhoso submarino!”
“Qual é o nome deste submarino?”, perguntou Fiona e, para alívio das crianças, os vilões pararam com suas risadas irritantes. Olaf fulminou a micetologista com o olhar e depois baixou os olhos para o chão.
Carmelitaadmitiu ele baixinho. “Eu queria chamá-lo de Olaf, mas alguém me convenceu a mudar.”
“Olaf é um nome bisbórria!”, gritou uma voz malcriada que os irmãos esperavam nunca mais ter de ouvir, mas lamento dizer que Carmelita Spats pulou para dentro da sala, zombando dos Baudelaire. Carmelita sempre fora aquele tipo de pessoa desagradável, que acredita ser mais bonita e mais esperta que todo mundo, e Violet e Klaus viram na hora que ela ficara ainda mais mimada e incurável sob os cuidados de Olaf e Esmé. Estava usando uma roupa que era, talvez, mais absurda que a de Esmé Squalor, em vários tons de um rosa tão ofuscante que Violet e Klaus tiveram de apertar os olhos para conseguir olhar para ela. Em volta de sua cintura, largo e cheio de babados, havia um tutu, que é um saiote usado em espetáculos de balé, e na cabeça ela trazia uma enorme coroa cor-de-rosa, ornamentada com fitas róseas e flores carmesins. Tinha duas asas rosadas grudadas nas costas com fita adesiva, dois róseos corações desenhados nas bochechas e sapatos em vários tons de rosa, um para cada pé, que faziam um desagradável ruído chapinhante quando ela andava. Em volta do pescoço havia um estetoscópio, como os que usam os médicos, com pompons cor-de-rosa grudados por toda parte, e em uma das mãos ela trazia uma varinha de condão rosada com uma brilhante estrela cor-de-rosa na ponta.
“Parem de reparar na minha roupa!”, ordenou ela aos Baudelaire, escarnecedora. “Vocês estão é com inveja de mim porque eu sou uma princesa bailarina sapateadora e veterinária encantada!”
“Você está adorável, querida”, ronronou Esmé, fazendo-lhe um cafuné na coroa. “Ela não está adorável, Olaf?”
“Imagino que sim”, resmungou ele. “Eu gostaria que você me pedisse licença antes de pegar disfarces do meu baú.”
“Mas, condinho, eu preciso dos seus disfarces”, ganiu Carmelita, piscando os olhinhos cobertos de glitter cor-de-rosa. “Eu precisava de uma roupa especial para meu recital especial de princesa bailarina sapateadora e veterinária encantada!”
Diversas crianças que remavam gemeram. “Por favor, não!”, gritou um Escoteiro da Neve. “Esses recitais de dança duram horas!”
“Tenha piedade de nós!”, gritou outra criança.
“Carmelita Spats é a bailarina mais talentosa de todo o universo!”, rosnou Esmé, estalando o macarrão acima da cabeça dos remadores. “Vocês fedelhos deviam agradecer por ela dançar para vocês! Vai ajudá-los a remar!”
“Eca”, Sunny não pôde conter de dentro do capacete, como se a ideia do recital de dança de Carmelita a estivesse deixando ainda mais doente.
Os Baudelaire mais velhos se entreolharam e tentaram imaginar um jeito de ajudar sua jovem irmã.
“Acho que temos uma capa cor-de-rosa a bordo do Queequeg’, disse Klaus apressadamente. “Ficaria perfeita em você, Carmelita. Vou só dar uma corrida até o submarino e...”
“Eu não quero suas roupas velhas, seu bisbórria!”, disse Carmelita com desprezo. “Uma princesa bailarina sapateadora e veterinária encantada não usa roupa de brechó!”
“Ela não é preciosa?”, arrulhou Esmé. “É a criança adotada que eu nunca tive – a não ser por vocês Baudelaire, é claro. Mas eu nunca fui muito com a cara de vocês.”
“Você vai ficar para me assistir, condinho?”, perguntou Carmelita. “Esse vai ser o recital de dança mais especial de todo o grande, vasto mundo!”
“Tenho muito trabalho a fazer”, disse rápido o conde Olaf. “Tenho de pôr essas crianças a ferros, para que meu capanga possa forçá-las a revelar onde está o açucareiro.”
“Você gosta mais desse açucareiro do que de mim”, disse Carmelita, fazendo beicinho.
“É claro que não, meu bem”, disse Esmé. “Olaf, diga a ela que o açucareiro não significa nada para você! Diga que ela parece uma maravilhosa geleia de mocotó no meio de nossas vidas!”
“Você é uma geleia de mocotó, Carmelita”, disse Olaf, e empurrou as crianças para fora da sala enorme. “Vejo vocês depois.”
“Diga ao Ganchito para ser supercruel com esses fedelhos!”, berrou Esmé, estalando o tagliatelle grande por cima de sua falsa cabeça de polvo. “E agora sigam com o espetáculo!”
O conde Olaf conduziu as crianças para fora da sala enquanto Carmelita Spats começava a sapatear e rodopiar na frente dos remadores. Os Baudelaire mais velhos ficaram quase agradecidos por ir para o calabouço, em vez de serem forçados a assistir ao recital de dança de uma princesa bailarina sapateadora e veterinária encantada. Olaf arrastou-os por um outro corredor que se retorcia por todas as direções possíveis, curvando-se à direita e à esquerda como uma serpente que o polvo mecânico tivesse engolido, e por fim pararam diante de uma pequena porta, com um olho de metal no lugar da maçaneta.
“Esse é o calabouço!”, exclamou o conde Olaf. “Ha ha ha harpias harpejantes!”
Sunny tossiu mais uma vez de dentro do capacete – uma tosse áspera e forte que soava pior que a anterior. Claramente, o Mycelium Medusoide continuava com seu horripilante crescimento, e Violet tentou mais uma vez convencer o vilão a deixar que a ajudassem. “Por favor, deixe-nos voltar ao Queequeg’, disse ela. “Você não está ouvindo a tosse?”
“Sim”, disse o conde Olaf, “mas eu nem ligo.”
“Por favor!”, exclamou Klaus. “Essa é uma questão de vida ou morte!”
“Com certeza é”, escarneceu Olaf, girando a maçaneta. “Meu capanga fará vocês revelarem o local onde está o açucareiro, nem que para isso ele tenha de rasgá-los em pedaços!”
“Ouça os meus amigos!”, disse Fiona. “Positivo! Estamos em uma situação terrível!”
“Oh, eu não diria isso”, disse o conde Olaf com um sorriso malévolo, enquanto a porta se abria com um rangido para revelar uma sala pequena e vazia. Não havia nada lá, a não ser uma banqueta na qual estava sentado um homem que tentava com dificuldade embaralhar um maço de cartas. “Como uma reunião de família pode ser uma situação terrível?”, disse Olaf, e empurrou as crianças para dentro, batendo a porta em seguida.
Violet e Klaus encararam o capanga de Olaf e viraram na mesma direção o capacete de mergulho de Sunny, para que ela também pudesse vê-lo. Os irmãos não se surpreenderam, é claro, com o fato de que a pessoa que embaralhava cartas era o homem de mãos de gancho, tampouco se alegraram ao vê-lo, só ficaram muito apavorados com o fato de que o tempo que passariam naquele calabouço tornaria impossível salvar Sunny dos cogumelos que cresciam em seu capacete. No entanto, quando olharam para Fiona, viram que a micetologista estava muito surpresa com o que via e muito contente ao encontrar o homem que se levantou da banqueta e acenou seus ganchos, também surpreso.
“Fiona!”, exclamou o homem de mãos de gancho.
“Fernald!”, disse Fiona, e de repente os Baudelaire acharam que seria possível salvar Sunny.

Um comentário:

  1. Nossa ele é o irmao dela
    Mais como ele foi pro nada negro da cois

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