6 de setembro de 2016

Capítulo doze


O homem com barba mas sem cabelo levantou-se do balcão dos concierges, batendo os joelhos nas sinetas que na véspera haviam mandado os órfãos Baudelaire para suas incumbências. A mulher com cabelo mas sem barba apontou para as três crianças um dedo tão tortuoso quanto ela própria. O dedo se quebrara muito tempo atrás, em uma briga por causa de um jogo de gamão, o que é uma outra história que levaria pelo menos treze livros para ser descrita, mas na história dos Baudelaire o dedo fez somente esta rápida aparição ao apontar para as crianças alarmadas.
“Os Baudelaire tiraram as vendas!”, gritou a vilanesca mulher com sua voz grave e profunda.
“Sim!”, concordou o homem vilanesco com sua voz rouca. “Eles são culpados de desacato ao tribunal!”
“Certamente somos”, concordou Violet ferozmente. “Este tribunal é desprezível e vergonhoso!”
“Dois dos juízes são vilões notórios”, anunciou Klaus por cima dos gritos sufocados da multidão.
“Espiem!”, gritou Sunny.
“Ninguém espia!”, ordenou o homem com barba mas sem cabelo. “Quem espiar será entregue às autoridades!”
“Tirem as suas vendas!”, Violet implorou à multidão. “O conde Olaf está raptando a juíza Strauss neste exato momento!”
“Humm!”, gritou a juíza Strauss atrás da fita adesiva, concordando.
“A juíza Strauss está saboreando um puxa-puxa!”, disse depressa a mulher com cabelo mas sem barba. “É por isso que ela só consegue falar humm!”
“Ela não está saboreando coisa nenhuma!”, gritou Klaus. “Se houver voluntários nesta multidão, tirem as suas vendas e nos ajudem!”
“As crianças estão tentando enganar vocês!”, disse o homem com barba mas sem cabelo. “Continuem com as vendas!”
“Sim!”, gritou a mulher com cabelo mas sem barba. “Elas estão tentando fazer com que todas as pessoas nobres sejam presas pelas autoridades!”
“Lidimidade!”, berrou Sunny.
“Eu acho que as crianças podem estar dizendo a verdade”, disse Jerome Squalor, hesitante.
“Aqueles pirralhos são mentirosos!”, retrucou Esmé bruscamente. “Eles são piores do que o meu ex-namorado!”
“Eu acredito neles!”, disse Charles, mexendo em sua venda. “Eles têm experiência prévia com vilanias!
“Eu não acredito!”, anunciou Senhor. As crianças não saberiam dizer se ele estava usando uma venda embaixo da nuvem de fumaça que ainda pairava por cima da sua cabeça. “Eles são sinônimo de encrenca!”
“Eles estão dizendo a verdade!”, gritou Frank, provavelmente, a não ser que tenha sido Ernest.
“Eles estão mentindo!”, gritou Ernest, muito possivelmente, embora eu imagine que poderia ter sido Frank.
“Eles são bons alunos!”, disse o sr. Remora.
“Eles são uma droga de assistentes administrativos!”, disse o vice-diretor Nero.
“Eles são assaltantes de bancos!”, disse a sra. Bass, cuja venda cobria a sua pequena máscara estreita.
“Assaltantes de bancos?”, perguntou o sr. Poe. “Cáspite! Quem disse isso?”
“Eles são culpados!”, gritou o homem com barba mas sem cabelo, muito embora a Corte Suprema não devesse chegar a um veredicto até que todas as evidências fossem analisadas.
“Eles são inocentes!”, gritou Hal.
“Eles são aberrações!”, berrou Hugo.
“Eles são deformados!”, guinchou Colette.
“Eles são destros!”, rugiu Kevin.
“Eles são manchetes!”, vociferou Geraldine Julienne.
“Eles estão fugindo!”, disse a mulher com cabelo mas sem barba, e essa, pelo menos, era uma afirmação verdadeira.
Violet, Klaus e Sunny se deram conta de que a multidão não iria fazer nada que impedisse o conde Olaf de arrastar a juíza Strauss para fora do tribunal e de que as pessoas no saguão iriam desapontá-los, como tantas pessoas nobres os desapontaram antes. Enquanto voluntários e vilões discutiam, as crianças abriram caminho rápida e sub-repticiamente em meio à multidão, afastando-se do banco na direção da juíza Strauss e do conde Olaf, que estava se apossando do lançador de arpões. Se você alguma vez já quis um biscoito além do que disseram que você podia pegar, então sabe como é difícil se mover rápida e sub-repticiamente ao mesmo tempo; mas, se você já teve tanta experiência quanto os Baudelaire em se esquivar das atividades de pessoas que estavam gritando com você, sabe que, com a prática, torna-se possível mover-se rápida e sub-repticiamente em qualquer lugar e situação, inclusive quando se deve atravessar um enorme saguão abobadado onde uma multidão clama pela sua captura.
“Temos de capturá-los!”, bradou uma voz na multidão.
“É preciso uma cidade para capturar os Baudelaire!”, guinchou a sra. Morrow. “Não podemos vê-los através das nossas vendas!”
“Não queremos ser culpados de desacato ao tribunal!”, berrou o sr. Lesko. “Vamos andar tateando até a entrada do hotel para que eles não possam escapar!”
“As autoridades estão guardando a entrada!”, lembrou o homem com barba mas sem cabelo à multidão. “Os Baudelaire estão correndo para os elevadores! Capturem-nos!”
“Mas não capturem mais ninguém que por acaso esteja perto dos elevadores!”, acrescentou a mulher com cabelo mas sem barba, olhando apressadamente para Olaf. As portas deslizantes de um elevador se abriram, e os Baudelaire se moveram o mais rápida e sub-repticiamente que puderam em meio à multidão que tateava às cegas em todas as direções.
“Procurem no hotel inteiro”, disse o homem vilanesco, “e tragam para nós qualquer um que acharem suspeito!”
“Nós diremos se eles são vilões ou não”, afirmou a mulher vilanesca. “Afinal, seria bom vocês evitarem fazer esse tipo de julgamento sozinhos, não seria?”
Nadabom!
O enorme e legendário relógio do Hotel Desenlace anunciou uma hora, reboando através do salão dos vendados liderando os vendados, bem quando os três irmãos chegaram aos elevadores. O condevOlaf já tinha arrastado a juíza Strauss para dentro e estava apertando apressadamente o botão que faz as portas se fecharem, mas Sunny enfiou um pé entre elas mantendo-as abertas, o que é uma coisa que só as pessoas destemidas ousam fazer. Olaf se inclinou para a frente a fim de sussurrar ameaçadoramente no ouvido dos Baudelaire.
“Deixem-me partir”, ele sussurrou ameaçadoramente, “ou então vou anunciar ao mundo todo onde vocês estão.”
Olaf, contudo, não era a única pessoa capaz de sussurrar ameaçadoramente.
“Deixe-nos entrar”, Violet sussurrou ameaçadoramente, “ou então vamos anunciar ao mundo todo onde você está.”
“Humm!”, disse a juíza Strauss.
O conde Olaf arrostou as crianças com um olhar furibundo e as crianças arrostaram de volta, até que por fim o vilão se afastou de lado e deixou os Baudelaire se juntarem a ele e a sua prisioneira no elevador.
“Vão descer?”, perguntou ele, e as crianças piscaram. Estavam tão determinadas a escapar da multidão e chegar até a juíza que nem cogitaram exatamente aonde poderiam ir depois.
“Vamos aonde você for”, disse Klaus.
“Tenho algumas incumbências a realizar”, disse Olaf. “Rá! Primeiro vou descer ao subsolo para resgatar o açucareiro. Rá! Depois vou subir à cobertura para resgatar o Mycelium Medusoide. Rá! Depois vou descer ali para expor ao fungo todo mundo que estiver ali. Rá! E depois, por fim, vou subir à cobertura para escapar sem ser visto pelas autoridades.”
“Vai malograr”, disse Sunny, e Olaf lançou um olhar furioso para a mais jovem dos Baudelaire.
“A sua mãe me disse a mesma coisa”, disse ele. “Rá! Mas um dia, quando eu tinha sete anos de idade...”
As portas se abriram deslizando quando o elevador chegou ao subsolo, e o vilão interrompeu-se e arrastou rapidamente a juíza Strauss para o corredor.
“Sigam-me!”, gritou para os Baudelaire. As crianças, é claro, não tinham vontade de seguir aquele homem horroroso, não mais do que tinham vontade de passar requeijão nos cabelos, mas elas se entreolharam e não conseguiram imaginar o que mais poderiam fazer.
“Você não pode resgatar o açucareiro”, disse Violet. “Jamais conseguirá abrir a porta de Cerramento Supravernacular Complexo.”
“É mesmo?”, perguntou Olaf, parando diante da Sala 025. A fechadura ainda estava trancando a porta, do mesmo jeito que Sunny a deixou. “Este hotel é como uma enorme biblioteca”, disse o vilão, “mas é possível encontrar qualquer item em uma biblioteca se você tiver uma coisa.”
“Catálogo?”, perguntou Sunny.
“Não”, respondeu o conde Olaf e apontou o lançador de arpões para a juíza. “Um refém.” Com isso, voltou-se para a juíza Strauss e arrancou a fita adesiva da sua boca bem devagarinho, que era para doer o máximo possível. “Você vai me ajudar a abrir essa fechadura”, informou a ela com um sorriso malevolente.
“Não vou fazer nada do gênero!”, retrucou a juíza Strauss. “Os Baudelaire me ajudarão a arrastá-lo de volta ao saguão, onde a justiça pode ser servida!”
“A justiça não está sendo servida no saguão”, rosnou Olaf, “nem em nenhum outro lugar do mundo!”
“Não tenha tanta certeza disso!”, disse a juíza Strauss, enfiando a mão atrás das costas. Os Baudelaire olharam esperançosos para o que ela estava segurando, mas suas esperanças desmoronaram quando viram o que era. “A odiosa avidez pelas finanças’, leu ela em voz alta, mostrando a história abrangente da injustiça, escrita por Jerome Squalor. “Aqui há evidências suficientes para mandá-lo para a cadeia pelo resto da sua vida!”
“Juíza Strauss”, disse Violet, “os seus colegas juízes da Corte Suprema são associados do conde Olaf. Aqueles vilões jamais mandariam Olaf para a cadeia.”
“Não pode ser!”, arquejou a juíza Strauss. “Eu os conheço há anos! Contei a eles tudo o que estava acontecendo com vocês, crianças, e eles sempre se mostraram muito interessados!”
“É claro que se mostraram interessados, sua palerma”, disse o conde Olaf. “Eles me passaram todas aquelas informações para eu ficar sabendo tudo sobre os órfãos! Você me ajudou o tempo todo, mesmo sem saber de nada! Rá!”
A juíza Strauss se encostou em um vaso ornamental e seus olhos se encheram de lágrimas.
“Desapontei vocês outra vez, órfãos Baudelaire”, disse ela. “Por mais que eu tenha tentado ajudá-los, só consegui metê-los em perigos. Eu pensava que a justiça seria servida se vocês contassem a sua história à Corte Suprema, mas...”
“Ninguém está interessado na história deles”, disse o conde Olaf, desdenhoso. “Mesmo se você escrevesse até o último detalhe, ninguém leria uma coisa tão horrível. Eu triunfei sobre os órfãos e sobre qualquer outra pessoa que tivesse sido tola ou nobre o bastante para atravessar o meu caminho. É o desenlace da minha história, ou, como dizem os franceses, o noblesse oblige.”
“Dénouement”, corrigiu Sunny, mas Olaf agiu como se não tivesse ouvido e voltou sua atenção para a fechadura na porta.
“Aquele idiota do sub-sub disse que a primeira frase é uma descrição da condição médica compartilhada por todas as três crianças Baudelaire”, resmungou ele, e voltou-se para a juíza Strauss. “Conte-me qual é, ou prepare-se para comer arpão.”
“Nunca”, disse a juíza Strauss. “Eu posso ter desapontado essas crianças, mas não vou desapontar C.S.C. Você nunca terá o açucareiro, não importa que ameaças terríveis possa fazer.”
“Eu vou lhe dizer qual é a primeira frase”, disse Klaus calmamente, e suas irmãs olharam para ele atônitas. A juíza Strauss olhou para ele perplexa. Até o conde Olaf pareceu um pouco intrigado.
“Você vai?”, perguntou.
“Certamente”, disse Klaus. “É bem como você disse, conde Olaf. Todas as pessoas nobres nos desapontaram. Por que haveríamos de proteger o açucareiro?’
“Klaus!”, exclamaram Violet e Sunny, em simultânea perplexidade.
“Não!”, exclamou a juíza Strauss, em solitária perplexidade.
O conde Olaf pareceu um pouco intrigado de novo, mas então encolheu os seus ombros poeirentos.
Oquei”, disse ele, “conte-me qual é a condição médica compartilhada por você e suas irmãs órfãs.”
“Nós temos alergia a balas de hortelã-pimenta”, disse Klaus, e rapidamente teclou A-L-E-R-G-I-A-A-B-A-L-A-S-D-E-H-O-R-T-E-L-Ã-P-I-M-E-N-T-A na fechadura. Imediatamente ouviu-se o som de cliques abafados vindos do teclado de máquina de escrever.
“Está aquecendo”, disse o conde Olaf, com um chiado de deleite. “Saia da frente, quatro-olhos! A segunda frase é a arma que me deixou órfão, e posso teclar eu mesmo. D-A-L-D...”
“Espere!”, disse Klaus antes que o conde Olaf tocasse no teclado. “Isso não pode estar certo. Essas letras não significam nada.”
“Significado não conta”, disse o conde.
“Conta, sim”, disse Klaus. “Conte-me qual é a arma que o deixou órfão, e eu escreverei para você.”
O conde Olaf deu a Klaus um sorriso vagaroso que fez os Baudelaire estremecerem.
“Vou contar, sim, é claro”, disse ele. “Foram ‘daldos’ envenenados.”
Klaus olhou para as irmãs e então, em silêncio soturno, teclou D-A-R-D-O-S-E-N-V-E-N-E-N-A-D-O-S no dispositivo, que começou a zumbir de mansinho. Os olhos do conde Olaf brilharam enquanto ele olhava fixamente para os fios da fechadura, que tremiam ao mesmo tempo que se estendiam em volta das dobradiças da porta da lavanderia.
“Está funcionando”, disse ele, e passou a língua pelos dentes imundos. “O açucareiro está tão perto que já posso sentir o gosto!”
Klaus tirou do bolso o seu livro de lugar-comum e leu suas anotações atentamente por um momento. Então se voltou para a juíza Strauss.
“Por favor, me passe aquele livro”, disse ele apontando para o livro de Jerome Squalor. “A terceira frase é a famosa pergunta insondável no romance mais conhecido de Richard Wright. Richard Wright foi um romancista americano da escola realista cujos escritos iluminaram as disparidades nas relações inter-raciais. É provável que a sua obra seja citada em uma história abrangente da injustiça.”
“Você não pode ler aquele livro inteiro!”, disse o conde Olaf. “A multidão nos encontrará antes que você termine o primeiro capítulo!”
“Vou procurar no índice”, disse Klaus, “exatamente como fiz na casa da tia Josephine quando decodificamos o seu bilhete e encontramos o seu esconderijo.”
“Eu sempre me perguntei como você fez aquilo”, disse o conde Olaf, soando quase como se admirasse as habilidades de pesquisador do Baudelaire do meio. Klaus folheou o livro até a parte final, onde o índice pode normalmente ser encontrado. Um índice, como tenho certeza de que você já sabe, é uma lista de tudo o que o livro contém, e onde cada item pode ser encontrado.
“Wright, Richard”, Klaus leu em voz alta. “Pergunta insondável em Native son [Filho nativo], página 581.”
“Trata-se da quingentésima octogésima primeira página”, explicou o conde Olaf para ninguém em particular, uma expressão que aqui significa “muito embora aquilo estivesse claro para todos os que estavam no corredor”.
Klaus folheou apressadamente até encontrar a página certa e deu uma lida rápida, os olhos piscando atrás dos óculos.
“Encontrei”, disse ele calmamente. “Na verdade, é uma pergunta bem interessante.”
“Ninguém está interessado em perguntas interessantes!”, disse Olaf. “Tecle aí, rápido!”
Klaus sorriu e começou a teclar furiosamente no teclado de máquina de escrever. Suas irmãs deram um passo à frente e cada uma delas pôs uma das mãos sobre o ombro do irmão.
“Por que faz isso?”, perguntou Sunny.
“Sunny tem razão”, disse Violet. “Por que você está ajudando Olaf a entrar na lavanderia?”
O Baudelaire do meio teclou a última palavra no teclado – e ela era “D-E-R-R-O-C-A-D-A” – e depois olhou para as irmãs. “Porque o açucareiro não está lá dentro”, disse ele e empurrou a porta, abrindo-a.
“O que você está dizendo?”, perguntou o conde Olaf. “É claro que o açucareiro está lá dentro!”
“Receio que Olaf esteja certo”, disse a juíza Strauss. “Você ouviu o que Dewey disse. Quando os corvos foram abatidos com o lançador de arpões, eles caíram no papel pega-pássaros e derrubaram o açucareiro no funil.”
“É o que aparentemente teria acontecido”, disse Klaus com ironia.
“Já basta de disparates!”, gritou o conde Olaf agitando no ar o lançador de arpões e marchando para dentro da lavanderia. Em apenas alguns momentos, no entanto, ficou claro que o Baudelaire do meio falara a verdade. A lavanderia do Hotel Desenlace era muito pequena, continha apenas umas poucas máquinas de lavar e secar, algumas pilhas de lençóis sujos e uns poucos potes de plástico, presumivelmente com produtos químicos extremamente inflamáveis, bem como Dewey tinha dito. Um tubo metálico pendia de um canto do teto, permitindo que o vapor das máquinas flutuasse pelo tubo acima e para o lado de fora, mas não havia indício de que um açucareiro tivesse despencado através do funil e caído para fora do tubo metálico sobre o piso de madeira da sala. Com um rugido rouco e furioso, o conde Olaf abriu e fechou as portas das máquinas de lavar e secar, batendo-as com fúria, depois ergueu as pilhas de lençóis sujos e jogou-as de trambolhada no chão.
“Onde está ele?”, rosnou, lançando perdigotos pela boca furibunda. “Onde está o açucareiro?”
“É segredo”, disse Klaus. “Um segredo que morreu com Dewey Dénouement.”
Olaf voltou-se para encarar os órfãos Baudelaire, que nunca haviam visto o conde com uma expressão tão assustadora. Seus olhos nunca brilharam tão forte, e seu sorriso nunca fora tão iníquo, uma palavra que aqui significa “tão faminto de ações malfazejas que chegava a ser mórbido”. Não era muito diferente da expressão de Dewey enquanto afundava na água, como se a própria malvadeza do vilão lhe causasse grandes dores.
“Ele não será o único voluntário a morrer hoje”, disse o conde num sussurro terrível. “Eu destruirei cada alma neste hotel, com ou sem açucareiro. Liberarei o Mycelium Medusoide e tanto voluntários como vilões morrerão em agonia. Meus camaradas me desapontaram tão frequentemente quanto os meus inimigos, e estou ansioso por me livrar deles. Então empurrarei aquele barco para fora da cobertura e sairei navegando com...”
“Você não pode empurrar aquele barco para fora da cobertura”, disse Violet. “Ele nunca sobreviveria à queda, devido à força da gravidade.”
“Presumo que vou ter de acrescentar a força da gravidade à minha lista de inimigos”, resmungou Olaf.
“Eu vou tirar aquele barco da cobertura”, disse Violet calmamente, e seus irmãos olharam para ela atônitos. A juíza Strauss olhou para ela perplexa. Até o conde Olaf pareceu um pouco intrigado.
“Você vai?”, perguntou.
“Certamente”, disse Violet. “É bem como você disse, conde Olaf. Todas as pessoas nobres nos desapontaram. Por que não haveríamos de ajudá-lo a escapar?”
“Violet!”, exclamaram Klaus e Sunny, em simultânea perplexidade.
“Não!”, exclamou a juíza Strauss, em solitária perplexidade.
O conde Olaf ainda parecia intrigado, mas encolheu os ombros para a mais velha dos Baudelaire. “Oquei”, disse ele. Você precisa do quê?”
“De alguns daqueles lençóis sujos”, disse Violet. “Vou amarrá-los uns nos outros e fazer um drag chute, exatamente como fiz nas Montanhas de Mão-Morta, quando impedi o carroção de despencar da montanha.”
“Eu sempre me perguntei como você fez aquilo”, disse o conde Olaf, olhando para a mais velha dos Baudelaire como se respeitasse as suas habilidades de inventora. Violet entrou na lavanderia e apanhou alguns lençóis, cuidando para escolher os menos sujos do monte.
“Vamos para a cobertura”, disse ela mansamente. Seus irmãos deram um passo à frente, e cada um deles pôs uma das mãos sobre o ombro da irmã.
“Por que faz isso?”, perguntou Sunny.
“Sunny tem razão”, disse Klaus. “Por que você está ajudando Olaf a escapar?”
A mais velha dos Baudelaire olhou para os lençóis em suas mãos, depois olhou para os irmãos.
“Porque ele vai nos levar com ele”, disse.
“Por que eu faria isso?”, perguntou Olaf.
“Porque você precisa de uma tripulação de mais de uma pessoa”, disse Violet ironicamente, “e nós precisamos sair deste hotel sem sermos vistos pelas autoridades.”
“Imagino que isso seja verdade”, disse Olaf. “Bem, vocês teriam acabado nas minhas garras de um jeito ou de outro. Venham comigo.”
“Ainda não”, disse Sunny. “Mais uma coisa.”
Todos olharam para a mais jovem dos Baudelaire, que ostentava uma expressão tão insondável que nem mesmo seus irmãos seriam capazes de dizer o que ela estava pensando.
“Mais uma coisa?”, repetiu o conde Olaf, baixando os olhos para Sunny. “E qual seria ela?”
Os dois Baudelaire mais velhos olharam para a irmã e sentiram ondulações no estômago, como se, de algum modo, uma pedra tivesse caído diretamente dentro deles. É muito difícil abrir caminho neste mundo sem ser perverso em uma ou outra ocasião, já que, para começar, os caminhos do mundo são tão perversos. Quando situações insondáveis surgiam na vida dos Baudelaire, e eles não sabiam o que fazer, com frequência se sentiam como se estivessem se equilibrando muito delicadamente em cima de alguma coisa muito frágil e muito perigosa e, caso não se cuidassem, poderiam cair muito fundo dentro de um mar de perversidade. Violet sentiu esse equilíbrio delicado quando se ofereceu para ajudar o conde Olaf a escapar, muito embora isso significasse que ela e seus irmãos também poderiam escapar, e Klaus sentiu esse equilíbrio delicado quando ajudou o conde Olaf a destrancar a porta da lavanderia, muito embora soubesse que o açucareiro não seria encontrado lá dentro. E, é claro, os três órfãos Baudelaire sentiram esse equilíbrio delicado quando pensaram em Dewey Dénouement e naquele instante terrível em que a arma nas mãos deles ocasionou a sua morte.
Mas, enquanto Sunny respondia à pergunta do conde Olaf, o relógio do Hotel Desenlace bateu dois Nadabons!, e seus irmãos se perguntaram se não teriam por fim perdido o equilíbrio, se não estariam se afastando aos trambolhões de todas as pessoas nobres do mundo.
“Incendiar hotel”, disse Sunny, e todos os três órfãos Baudelaire se sentiram como se estivessem caindo.

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