3 de setembro de 2016

Capítulo doze


Os Baudelaire nunca tiveram muita oportunidade de usar a expressão “a sorte virou”, pois ela se refere a uma situação que foi subitamente revertida, portanto os que antes estavam em uma situação de fraqueza se viram de repente em uma situação de força, ou vice-versa. Para os Baudelaire, a sorte tinha virado na Praia de Sal, onde receberam a notícia do terrível incêndio, e o conde Olaf subitamente se tornou uma poderosa e terrível figura em suas vidas. Com o passar do tempo, os irmãos aguardaram e aguardaram que a sorte virasse de novo, para que Olaf fosse derrotado de uma vez por todas e eles pudessem se ver livres das forças sinistras e misteriosas que ameaçavam engolfá-los, mas a sorte das vidas dos Baudelaire parecia estar emperrada, deixando as crianças sempre em uma posição de miséria e desespero enquanto o mal parecia triunfar à sua volta. Mas quando Violet abriu apressadamente a lata de wasabi que tinha guardada no bolso e, com uma colher, enfiou a mistura verde e picante na boca ofegante de Sunny, pareceu que a sorte finalmente iria virar. Sunny engasgou quando o wasabi tocou sua língua, e os talos e píleos do Mycelium Medusoide estremeceram e pareceram encolher de medo do poderoso condimento japonês. Em pouco tempo, o fungo murchou e diminuiu, e o arquejar de Sunny foi se transformando em tosse, e a tosse em respirações profundas, e assim a mais jovem dos Baudelaire começou a recobrar o alento, uma expressão que aqui significa “recuperar as forças e a capacidade de respirar”. A mais jovem dos Baudelaire segurou-se com firmeza nas mãos dos irmãos, seus olhos se encheram de lágrimas, mas Violet e Klaus puderam ver que o Mycelium Medusoide não iria triunfar.
“Está funcionando”, disse Violet. “A respiração de Sunny está voltando ao normal.”
“Sim”, disse Klaus. “A sorte virou contra o fungo horroroso.”
“Água”, disse Sunny, e seu irmão ergueu-se do chão da cozinha e se apressou em buscar um copo d’água. Enfraquecida, a mais jovem dos Baudelaire endireitou o corpo, bebeu sofregamente, e depois abraçou os dois irmãos o mais apertado que pôde.
“Obrigada”, disse ela. “Salvação.”
“Você mesma se salvou”, ressaltou Violet. “Estávamos com o wasabi o tempo todo, mas nem pensamos em usá-lo, até que você nos contou.”
Sunny tossiu de novo e deitou no chão. “Exaurida”, murmurou ela.
“Não fico surpresa por você estar exausta”, disse Violet. “Passou por uma provação e tanto. Quer que a carreguemos até o alojamento para descansar?”
“Descansar aqui”, disse Sunny, enroscando-se ao pé do fogão.
“Você vai mesmo se sentir confortável no chão da cozinha?”, perguntou Klaus.
Sunny abriu um olho exausto e sorriu para os irmãos. “Perto de vocês”, disse ela.
“Tudo bem, Sunny”, disse Violet, pegando um pano de prato no balcão da cozinha e dobrando-o para servir de travesseiro para a irmã. “Estaremos no salão principal, se você precisar de nós.”
“E agora?”, murmurou ela.
“Shhh...”, fez Klaus, cobrindo-a com mais um pano de prato. “Não se preocupe, Sunny. Vamos pensar no que fazer.”
Os Baudelaire saíram pé ante pé da cozinha, levando a lata de wasabi. “Você acha que ela vai ficar bem?”, perguntou Violet.
“Tenho certeza que sim”, disse Klaus. “Depois de uma soneca, ela vai ficar nova. Mas nós também precisamos comer um pouco de wasabi. Quando abrimos o capacete de mergulho, ficamos expostos ao Mycelium Medusoide, e precisamos de todas as nossas forças para escapar do conde Olaf.”
Violet assentiu e enfiou uma colher de wasabi na boca, estremecendo violentamente quando o condimento tocou sua língua. “Sobrou uma última colherada”, disse ela, passando a lata para o irmão. “Até que arranjemos mais um pouco de raiz-forte para acabar de vez com aquele fungo, é melhor mantermos o capacete fechado.”
Klaus concordou com a cabeça, fechou os olhos e comeu o que restou do condimento japonês. “Se algum dia inventarmos aquele código alimentar de que falamos com Fiona”, disse ele, “a palavra ‘wasabi’ vai significar ‘poderoso’. Não é à toa que isso curou nossa irmã.”
“Agora que a curamos”, disse Violet, lembrando-se da pergunta que Sunny tinha feito antes de cair no sono, “e agora?”
“Agora vem o Olaf”, disse Klaus com firmeza. “Ele disse que tinha tudo o que precisava para derrotar C.S.C, para sempre – com exceção do açucareiro.”
“Você tem razão”, disse Violet. “A sorte tem que virar contra ele e nos fazer achar o açucareiro antes.”
“Mas não sabemos onde está o açucareiro”, disse Klaus. “Alguém deve tê-lo tirado da Gruta Gorgônea”.
“Eu fico pensando...”, começou Violet, mas ela nunca chegou a dizer o que ficava pensando, porque um barulho estranho a interrompeu. Era um zumbido, seguido por uma espécie de “bip” e outros ruídos que pareciam vir bem do fundo das máquinas do Queequeg. Por fim, uma luz verde se acendeu no painel e um objeto branco e fino começou a ser cuspido para fora de uma pequena fenda no painel.
“É um papel”, disse Klaus.
“É mais que isso”, disse Violet, e avançou na direção do painel. A tira de papel se enrolou na mão dela logo que emergiu da fenda, como se a máquina estivesse impaciente para que a mais velha dos Baudelaire lesse a mensagem. “Esse é o dispositivo telegráfico. E esse papel deve ser um...”
“Boletim do Correio Sub-reptício Cooperativo”, completou Klaus.
Violet assentiu e deu uma olhada rápida no papel. De fato, as palavras “Correio Sub-reptício Cooperativo” estavam impressas no topo e, assim que a máquina cuspiu mais papel, a mais velha dos Baudelaire pôde ler a quem a mensagem era endereçada: “Ao Queequeg’. Logo abaixo, estavam impressos o nome da pessoa que enviara o telegrama, alguém em terra seca, a quilômetros de distância dali, e a data. Era um nome que Violet quase não se atrevia a pronunciar em voz alta, apesar de sentir que vinha sussurrando-o para si mesma havia dias, desde que as águas geladas do Arroio Enamorado arrastaram para longe o jovem que significava tanto para ela.
“É de Quigley Quagmire”, disse ela baixinho.
Os olhos de Klaus se arregalaram de perplexidade. “O que está escrito?”, perguntou.
Violet sorriu enquanto o telegrama acabava de ser impresso, e seu dedo tocou o Q do nome do amigo. Era como se saber que Quigley estava vivo já fosse o suficiente. ‘“´É de meu conhecimento que vocês têm três voluntários adicionais a bordo do Queequeg PONTO’“, leu ela, lembrando-se de que “PONTO” indicava o fim de uma sentença em um telegrama. ‘“Estamos desesperadamente necessitados dos serviços deles para uma questão da mais absoluta urgência PONTO. Favor levá-los na terça-feira ao local indicado nos versos abaixo PONTO.’“ Ela correu os olhos pelo papel e franziu o cenho, pensativa. “Depois vêm dois poemas”, disse ela. “Um de Lewis Carroll e o outro de T. S. Eliot.”
Klaus tirou seu livro de lugar-comum do bolso e folheou até encontrar o que estava procurando. “Comunicação por Semiflutuações em Cânticos”, disse ele. “Esse é o código que aprendemos na gruta. Quigley deve ter mudado algumas palavras dos poemas para que mais ninguém soubesse onde devemos encontrá-lo. Vamos ver se reconhecemos as mudanças.”
Violet assentiu e leu o primeiro poema em voz alta:

Ó, Ostras, venham, passeiem conosco!
Seu Morsa pediu e implorou.
Um passeio gostoso, um papo legal,
Ao longo do cinema.

“A última parte me parece errada”, disse Violet.
“Não existiam cinemas quando Lewis Carroll estava vivo”, disse Klaus. “Mas quais são as verdadeiras palavras do poema?”
“Não sei”, disse Violet. “Sempre achei Lewis Carroll esdrúxulo demais para o meu gosto.”
“Eu gosto dele”, disse Klaus, “mas não sei seus poemas de cor. Leia o outro. Talvez ajude.”
Violet assentiu e leu em voz alta:

A hora rosada, quando os olhos e as costas
Da mesa voltam-se para cima, quando fã máquina humana aguarda
Qual festa pulsante de pônei...

A voz da mais velha dos Baudelaire foi sumindo enquanto ela olhava confusa para o irmão. “Isso é tudo”, disse ela. “O poema para aqui.”
Klaus franziu o cenho. “O telegrama não diz mais nada?”
“Só algumas letras bem no fim”, disse ela. “‘CC: J.S.’. O que significa isso?”
“‘CC’ significa que Quigley mandou uma cópia da mensagem para mais alguém”, disse Klaus, “e ‘J.S.’ são as iniciais do nome da tal pessoa.”
“Aquelas misteriosas iniciais outra vez”, disse Violet. “Não pode ser Jacques Snicket, porque ele está morto. Mas quem mais poderia ser?”
“Não podemos nos preocupar com isso agora”, disse Klaus. “Temos de descobrir quais foram as palavras substituídas nesses poemas.”
“Como vamos fazer isso?”, perguntou Violet.
“Não sei”, disse Klaus. “Por que Quigley haveria de achar que nós memorizamos esses poemas?”
“Ele não acharia isso”, disse Violet. “Ele nos conhece. Mas o telegrama foi endereçado ao Queequeg. Ele sabia que alguém a bordo poderia decodificar a poesia.”
“Mas quem?”, perguntou Klaus. “Não é Fiona – ela é uma micetologista. Um otimista como Phil provavelmente não está familiarizado com T. S. Eliot. E é difícil imaginar o capitão Andarré muito interessado em poesia.”
“Hoje em dia não”, disse Violet pensativa. “Mas o irmão de Fiona disse que costumava estudar poesia com o capitão.”
“É verdade”, disse Klaus. “Ele disse que costumavam ler um para o outro no salão principal.” Klaus caminhou até o guarda-louça e abriu o armário, examinando os livros que Fiona guardava lá dentro. “Mas não há poesia aqui – apenas a biblioteca micetológica de Fiona.”
“O capitão Andarré não iria expor seus livros de poesia assim”, disse Violet. “Com certeza ele os manteria em segredo.”
“Exatamente como ele mantinha em segredo o que aconteceu com o irmão de Fiona”, disse Klaus.
“Ele achava que certos segredos são terríveis demais para que gente jovem os conheça”, disse Violet, “mas agora precisamos conhecê-los.”
Klaus ficou um momento em silêncio e depois se voltou para a irmã. “Há uma coisa que nunca contei”, disse ele. “Lembra-se de quando nossos pais ficaram muito zangados por causa do atlas estragado?”
“Nós falamos sobre isso na gruta”, disse Violet. “A chuva o estragou quando deixamos a janela da biblioteca aberta.”
“Não acho que essa tenha sido a única razão por que eles ficaram zangados”, disse Klaus. “Peguei aquele atlas na estante do alto – que só dava para alcançar pondo a escadinha em cima da cadeira. Eles não achavam que eu conseguiria chegar até lá.”
“Por que isso os deixaria zangados?”, perguntou Violet.
Klaus baixou os olhos. “É lá que eles deixavam os livros que não queriam que encontrássemos”, disse ele. “Eu estava interessado no atlas, mas quando o tirei da estante, havia lá toda uma fileira de outros livros.”
“Que espécie de livros?”, perguntou Violet.
“Não cheguei a dar uma boa olhada neles”, disse Klaus. “Havia uns poucos livros sobre guerra e acho que alguns romances. Eu também estava interessado no atlas para pesquisar mais um pouco, mas lembro-me de ter pensado que era estranho nossos pais terem escondido aqueles livros. É por isso que ficaram tão zangados, penso eu, quando viram o atlas na poltrona perto da janela. Naquele momento eu soube que tinha descoberto o segredo deles.”
“Você chegou a examiná-los de novo?” perguntou Violet.
“Não tive oportunidade”, disse Klaus. “Eles mudaram os livros para outro esconderijo, e nunca mais os vi.”
“Talvez nossos pais pretendessem nos contar o que havia naqueles livros quando fôssemos mais velhos”, disse Violet.
“Talvez”, concordou Klaus. “Mas jamais saberemos. Nós os perdemos no incêndio.”
Os dois Baudelaire ficaram sentados em silêncio por um momento, olhando para o guarda-louça, e então, sem mais palavra, os dois irmãos subiram na mesa de madeira para abrir o armário do alto. Dentro havia uma pequena pilha de livros sobre assuntos enfadonhos, como educação de crianças, alimentação adequada e inadequada, e o ciclo das águas, mas quando as crianças empurraram aqueles livros para o lado, deram com o que estavam procurando.
“Elizabeth Bishop”, disse Violet. “Charles Simic, Samuel Taylor Coleridge, Franz Wright, Daphne Gottlieb – aqui há todos os tipos de poesia.”
“Por que você não lê T. S. Eliot”, sugeriu Klaus, estendendo para ela um volume grosso e empoeirado, “enquanto eu dou uma olhada no Lewis Carroll? Se lermos depressa, talvez possamos encontrar os poemas como realmente são e decodificar a mensagem.”
“Eu encontrei mais uma coisa”, disse Violet, entregando ao irmão um pedaço quadrado de papel todo amarrotado. “Veja.”
Klaus olhou para o que a irmã lhe dera. Era uma fotografia, fora de foco e apagada com o tempo, de quatro pessoas agrupadas como uma família. No centro da imagem estava um homem grande, com um bigode muito comprido e de pontas viradas, que lembrava dois parênteses – era o capitão Andarré, muito embora parecesse bem mais jovem e um bocado mais feliz do que aquele sujeito que as crianças tinham conhecido. Estava rindo, e seu braço estava em volta de alguém que os dois Baudelaire reconheceram como o homem de mãos de gancho, muito embora na foto ele não tivesse ganchos – ambas as mãos estavam perfeitamente intactas, uma pousada no ombro do capitão e a outra apontando para quem estava tirando a fotografia – e ele era suficientemente jovem para ser ainda chamado de adolescente. Do outro lado do capitão estava uma mulher, que também sorria, e em seus braços havia um bebê usando um pequenino par de óculos triangulares.
“Essa deve ser a mãe de Fiona”, disse Klaus, indicando a mulher sorridente.
“Olhe”, disse Violet, apontando para a parede atrás da família. “A foto foi tirada a bordo do Queequeg. Ali está a ponta da placa com a filosofia de vida do capitão – ‘Aquele que vacila está perdido’.”
“A família inteira está perdida, quase”, disse Klaus mansamente. “A mãe de Fiona está morta. O irmão juntou-se à trupe do conde Olaf. E quem sabe quem é o seu padrasto realmente?”
Ele pôs a fotografia de lado, abriu seu livro de lugar-comum e o folheou até o começo, onde tinha colado outra fotografia. Essa fotografia, tirada havia muito tempo, também tinha quatro pessoas, embora uma delas estivesse virada de costas para a câmera, sendo portanto impossível dizer quem era. Klaus guardava a foto desde que as crianças a encontraram no Hospital Heimlich, e olhava para ela todos os dias, contemplava os rostos de seus pais e lia e relia a única frase, escrita a máquina acima da imagem. “Devido às evidências discutidas na página nove”, dizia a frase, “os peritos agora suspeitam que possa haver de fato um sobrevivente do incêndio, mas seu paradeiro é desconhecido.” Por um bom tempo, os Baudelaire acharam que isso significava que um de seus pais ainda estava vivo, afinal; mas agora tinham quase certeza de que não era isso. Violet e Klaus olharam de uma foto para a outra, imaginando uma época em que ninguém que aparecia nas fotos estava perdido, e todos eram felizes.
Klaus suspirou e olhou para a irmã. “Talvez não devêssemos ficar vacilando aqui”, disse Klaus. “Talvez devêssemos salvar o nosso capitão, em vez de ficar lendo livros de poesia e olhando velhas fotografias. Não quero perder Fiona.”
“Fiona está segura com o irmão dela”, disse Violet, “e tenho certeza de que vai juntar-se a nós assim que puder. Precisamos decodificar essa mensagem, ou então perderemos tudo. Nesse caso, aquele ou aquela que vacila está perdido.”
“E se decodificarmos a mensagem antes de Fiona chegar?”, perguntou Klaus. “Devemos esperar que ela se junte a nós?”
“Não vai ser preciso”, disse Violet. “Nós três podemos perfeitamente operar este submarino sem ela. Se consertarmos a vigia, provavelmente poderemos manobrar o Queequeg para fora do Carmelita.”
“Não podemos abandoná-la aqui”, disse Klaus. “Ela não nos abandonaria.”
“Você tem certeza?”, perguntou Violet.
Klaus suspirou e olhou de novo para a foto. “Não”, disse ele. “Vamos pôr mãos à obra.”
Violet balançou a cabeça concordando, e os dois Baudelaire arquivaram a discussão – uma expressão que aqui significa “interromperam temporariamente a conversa” – e desarquivaram os livros de poesia, a fim de pôr mãos à obra na decodificação da Comunicação por Semiflutuações em Cânticos de Quigley. Já se passara algum tempo desde a época em que os Baudelaire conseguiam ler em um lugar confortável, e as crianças ficaram contentes por estar folheando livros em silêncio, procurando certas palavras e até fazendo algumas anotações. Ler poesia, mesmo quando seu objetivo é encontrar uma mensagem secreta escondida nele, pode muitas vezes dar uma sensação de poder, assim como você se sente poderoso quando é o único que trouxe um guarda-chuva em um dia de chuva ou o único que sabe como desatar nós quando é feito refém. A cada poema, as crianças se sentiam mais e mais poderosas – ou, como elas poderiam ter dito no seu código alimentar, mais e mais wasabi–, e até o momento em que os dois voluntários foram interrompidos, a sensação era de que a sorte estava prestes, apenas prestes a virar a seu favor.
“Lanche!”, anunciou uma voz alegre abaixo deles, e Violet e Klaus ficaram contentes ao ver a irmã emergindo da cozinha com um pequeno prato na mão.
“Sunny!”, exclamou Violet. “Pensamos que você estivesse dormindo.”
“Recobrei”, disse a mais jovem dos Baudelaire, o que queria dizer qualquer coisa na linha de: “Tirei uma soneca rápida e, quando acordei, me senti disposta para preparar algo de comer”.
“Estou com um pouco de fome”, admitiu Klaus. “O que você fez para nós?”
Amuse bouche”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como: “Pequenos sanduíches de castanhas, com patê de queijo e sementes de gergelim”.
“São muito gostosos”, disse Violet, e as três crianças dividiram o prato de amuse bouche, enquanto os Baudelaire mais velhos puseram Sunny ao corrente da situação, uma expressão que aqui significa “contaram à irmã tudo o que aconteceu enquanto ela sofria dentro do capacete de mergulho”. Contaram a ela sobre o terrível submarino que engolira o Queequeg, e o terrível vilão que encontraram lá dentro. Descreveram as circunstâncias hediondas em que se encontravam os Escoteiros da Neve, e sobre as roupas hediondas usadas por Esmé Squalor e Carmelita Spats. Contaram a ela sobre o Correio Sub-reptício Cooperativo e a Comunicação por Semi-flutuações em Cânticos, que estavam tentando decodificar. E, finalmente, contaram a ela sobre o homem de mãos de gancho, o irmão perdido havia muito tempo de Fiona, que possivelmente se juntaria a eles a bordo do Queequeg.
“Perifido”, disse Sunny, o que queria dizer: “Seria insensato confiar em um dos asseclas de Olaf”.
“Nós não confiamos nele”, disse Klaus. “Não de verdade. Mas Fiona confia, e nós confiamos em Fiona.”
“Volátil”, disse Sunny.
“Sim”, admitiu Violet, “mas não temos muita escolha. Estamos no meio do oceano...”
“E precisamos chegar até a praia”, disse Klaus, e ergueu o livro de poesias de Lewis Carroll. “Acho que resolvemos uma parte de Comunicação por Semiflutuações em Cânticos. Lewis Carroll tem um poema chamado ‘A morsa e o carpinteiro’.”
“Havia alguma coisa sobre uma morsa no telegrama”, disse Violet.
“Sim”, disse Klaus. “Levei algum tempo para encontrar a estrofe específica, mas aqui está. Quigley escreveu:

Ó, Ostras, venham, passeiem conosco!
Seu Morsa pediu e implorou.
Um passeio gostoso, um papo legal,
Ao longo do cinema.

“Sim”, disse Violet. “Mas o que diz o verdadeiro Klaus leu: poema?”
Ó, Ostras, venham, passeiem conosco! Seu Morsa pediu e implorou. Um passeio gostoso, um papo legal, Ao longo da Praia de Sal.”
Klaus fechou o livro e ergueu os olhos para as irmãs. “Quigley quer que nos encontremos com ele”, disse, “amanhã, na Praia de Sal.”
“Praia de Sal”, repetiu Violet baixinho. A mais velha dos Baudelaire, é claro, não precisava nem lembrar aos irmãos a última vez em que estiveram na Praia de Sal, ouvindo da boca do sr. Poe que a sorte de suas vidas tinha virado. Os três irmãos sentaram-se e pensaram naquele dia terrível, que dava a sensação de estar fora de foco e apagado, como a fotografia da família de Fiona – ou a fotografia de seus próprios pais, colada no livro de lugar-comum de Klaus. Voltar à Praia de Sal, depois de todo esse tempo, era para os Baudelaire como um enorme passo atrás, como se fossem perder os pais e o lar mais uma vez, e mais uma vez ser levados pelo sr. Poe para a casa do conde Olaf, era como se todas as desventuras fossem desabar em série sobre eles mais uma vez, como as ondas do oceano desabavam sobre as minúsculas e passivas criaturas que viviam dentro das poças d’água na Praia de Sal.
“Como vamos chegar lá?”, perguntou Klaus.
“No Queequegdisse Violet. “Este submarino deve ter algum dispositivo de localização, e quando soubermos onde estamos, acho que poderemos traçar um curso para a Praia de Sal.”
“Distância?”, perguntou Sunny.
“Não deve estar longe”, disse Klaus. “Vou ter de conferir nas cartas náuticas. Mas o que faremos quando chegarmos lá?”
“Acho que tenho a resposta para isso”, disse Violet, voltando-se para o livro de poemas de T. S. Eliot. “Quigley usou versos de um poema muito longo desse livro, chamado ‘A terra desolada’.”
“Tentei ler”, disse Klaus, “mas achei T. S. Eliot muito obscuro. Não entendi quase nada.”
“Talvez esteja em código”, disse Violet. “Ouça isso que Quigley escreveu”:

“A hora rosada, quando os olhos e as costas
Da mesa voltam-se para cima, quando a máquina humana aguarda
Qual festa pulsante de pônei..?

“Mas o verdadeiro poema diz:”

“A hora violeta, quando os olhos e as costas
a mesa voltam-se para cima, quando a máquina humana aguarda
Qual...

“Blá blá blá ha ha ha!”, interrompeu uma voz cruel e zombeteira. “Ha blá ha blá ha blá! Qui qui quac ri ti hi hi! Oba oba gui gui di di desenlace!”
Os Baudelaire ergueram os olhos de seus livros para encarar o conde Olaf, que já avançava pela vigia para cima da mesa de madeira. Atrás dele estava Esmé Squalor, com um sorriso escarninho por trás do capuz de polvo, e as crianças ouviram os desagradáveis passos chapinhantes dos horrorosos sapatos cor-de-rosa de Carmelita Spats, que enfiou a cara ornamentada de corações no submarino e deu uma risadinha asquerosa.
“Estou mais feliz que um porco comendo toucinho!”, exclamou o conde Olaf. “Estou me coçando que nem um caucasiano queimado de sol! Estou me sentindo mais alegre que uma cova recém-aberta! Estou tão despreocupado que as pessoas preocupadas vão me bater com cacetetes da mais pura e desenfreada inveja! Rá rá rá rabanete! Quando passei pelo calabouço para ver como ia o meu capanga e descobri que vocês órfãos tinham fugido da raia, fiquei com medo de que tivessem escapulido, ou que estivessem sabotando o meu submarino, ou até enviando um telegrama de socorro! Mas eu devia saber que vocês são bobocas demais para fazer algo de útil! Olhem para vocês, órfãos, lanchando e lendo poesias, enquanto as pessoas poderosas e bonitas do mundo gargalham em triunfo! Garga garga garganta na faca!”
“Em apenas alguns minutos”, jactou-se Esmé, “vamos chegar ao Hotel Desenlace, graças à nossa fedelhíssima tripulação. Re re re regozijo triunfal! O santuário de C.S.C, logo se transformará em cinzas – assim como a sua casa, órfãos Baudelaire!”
“Vou apresentar um recital especial da princesa bailarina sapateadora e veterinária encantada”, bravateou Carmelita, “em cima dos túmulos de todos aqueles voluntários!” Carmelita pulou pela vigia, seu tutu rosado esvoaçando como se tentasse fugir, e juntou-se a Olaf em cima da mesa para dar início a uma dança triunfal.
“C é de ‘coisinha fofa’“, cantou Carmelita, “A é de ‘adorável’! R é de ‘resplandecente’! M é de ‘belís...’!”
“Vamos, vamos, Carmelita”, disse o conde Olaf, com um sorriso tenso para a princesa bailarina sapateadora e veterinária encantada. “Que tal deixar o recital de dança para mais tarde? Vou comprar para você todas as fantasias de dança do mundo. Com C.S.C. fora do caminho, todas as fortunas do mundo serão minhas – a fortuna Baudelaire, a fortuna Quagmire, a fortuna Andarré, a...”
“Onde está Fiona?”, perguntou Klaus, interrompendo o vilão. “O que você fez com ela? Se você a machucou...”
“Se eu a machuquei?”, perguntou o conde Olaf, os olhos brilhando muito forte embaixo da única sobrancelha arrepiada. “Se machuquei a Olhos de Triângulo? Por que eu haveria de machucar uma menina esperta como aquela? Qui qui qui membro da equipe!”
Com um de seus exaustivos gestos dramáticos, o conde Olaf apontou para trás, e Esmé bateu os tentáculos em aplauso quando duas pessoas apareceram na vigia. Uma era o homem de mãos de gancho, que parecia tão malvado como sempre. E a outra era Fiona, que parecia ligeiramente diferente. Uma diferença era a expressão no seu rosto, que parecia resignada, uma palavra que aqui significa “como se a micetologista tivesse desistido de derrotar o conde Olaf”. Mas outra diferença estava impressa bem no meio do uniforme escorregadio que ela usava.
“Não”, disse Klaus, manso, olhando para a amiga.
“Não”, disse Violet com firmeza, e olhou para Klaus.
“Não!”, disse Sunny, furiosa, e arreganhou os dentes quando Fiona passou pela vigia e se postou ao lado do conde Olaf sobre a mesa de madeira. Sua bota esbarrou nos livros de poesia que Violet e Klaus tinham tirado do armário, inclusive os livros de Lewis Carroll e T. S. Eliot. Alguns diriam que a poesia de Lewis Carroll era esdrúxula demais, uma palavra que aqui significa “cheia de absurdos engraçados”, e outros se queixariam de que a poesia de T. S. Eliot é obscura demais, que é o mesmo que dizer que “complica as coisas sem necessidade”. Mas se por um lado não há consenso sobre os poetas cujos livros repousavam sobre a mesa de madeira, por outro lado todos os leitores nobres do mundo concordam que o poeta representado no uniforme de Fiona era um escritor de talento limitado, que escreveu poesias canhestras e tediosas sobre assuntos irremediavelmente sentimentais.
“Sim”, disse Fiona mansamente, e os órfãos Baudelaire ergueram os olhos para o retrato de Edgar Guest, sorrindo no uniforme dela, e sentiram que a sorte estava virando mais uma vez.

Um comentário:

  1. Como pode sera q fiona mudou de lado mesmo
    Nao posso acreditar

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