6 de setembro de 2016

Capítulo dez


“O que foi aquilo?”, gritou uma voz.
“Soou como um lançador de arpões sendo disparado!”, gritou outra voz.
“Um lançador de arpões?”, perguntou uma terceira voz. “Isto aqui deveria ser um hotel, e não uma galeria de tiro!”
“Eu ouvi alguma coisa caindo na água!”, gritou alguém.
“Eu também!”, concordou um outro. “Soou como se alguém tivesse caído na lagoa!”
Os órfãos Baudelaire olharam para a superfície da lagoa que se acalmava e viram o reflexo de venezianas e janelas se abrindo em todos os andares do Hotel Desenlace. Luzes se acenderam e silhuetas debruçaram na janela e apontaram para as crianças que choravam lá embaixo, as quais estavam perturbadas demais para prestar atenção na gritaria.
“Que gritaria é essa?”, perguntou outra voz. “Eu estava no sétimo sono!”
“Estamos no meio da noite!”, queixou-se uma outra. “Por que todo mundo está berrando?”
“Eu vou lhe dizer por que estão berrando!”, gritou alguém. “Uma pessoa foi alvejada por um lançador de arpões e depois caiu na lagoa!”
“Volte para a cama, Bruce”, disse outro alguém.
“Não posso dormir com assassinos à solta!”, gritou mais um hóspede.
“Amém, irmão!”, disse outro. “Se um crime foi cometido, então é nosso dever ficar por aí de pijama em nome da justiça!”
“Não consigo dormir de um jeito ou de outro!”, reclamou alguém. “Aquela comida indiana nojenta me manteve acordado a noite toda!”
“Alguém me diga o que está acontecendo!”, exclamou uma voz. “Os leitores d’O Pundonor Diário vão querer saber o que se passou.”
O som da voz de Geraldine Julienne e a menção à sua negligente publicação forçaram as crianças a parar de chorar, mesmo que só por um momento. Elas sabiam que seria sensato protelar o seu luto – uma frase que aqui significa “chorar a morte de Dewey Dénouement em uma ocasião futura” – e se certificar de que o jornal publicaria a verdade.
“Houve um acidente”, exclamou Violet, sem desviar os olhos da superfície da lagoa. “Um acidente horrível.”
“Um dos gerentes do hotel morreu”, disse Klaus.
“Qual deles?”, perguntou uma voz vinda de uma das janelas de cima. “Frank ou Ernest?”
“Dewey”, disse Sunny.
“Dewey não existe”, disse outra voz. “É uma figura lendária.”
“Ele não é uma figura lendária!”, disse Violet indignada. “Ele é um sub...”
Klaus pousou a mão sobre a da irmã, e a mais velha dos Baudelaire parou de falar.
“O catálogo de Dewey é um segredo”, sussurrou ele. “Não podemos permitir que seja anunciado n’O Pundonor Diário.”
“Mas verdade”, murmurou Sunny.
“Klaus tem razão”, disse Violet. “Dewey nos pediu para guardar o seu segredo, e não podemos desapontá-lo.” Ela olhou tristemente para a lagoa e enxugou as lágrimas dos olhos. “É o mínimo que podemos fazer.”
“Não percebi que era uma ocasião triste”, disse outro hóspede do hotel. “Temos de observar tudo com cuidado e nos intrometer só se for absolutamente necessário.”
“Eu discordo!”, disse alguém com um grito roufenho. “Temos de nos intrometer agora mesmo, e observar só se for absolutamente necessário!”
“Temos de chamar as autoridades!”, disse alguém.
“Temos de chamar o gerente!”
“Temos de chamar a concierge!”
“Temos de chamar a minha mãe!”
“Temos de procurar pistas!”
“Temos de procurar armas!”
“Temos de procurar a minha mãe!”
“Temos de procurar suspeitos!”
“Suspeitos?”, repetiu outra voz. “Mas supostamente este é um hotel distinto!”
“Hotéis distintos estão pululando de gente suspeita”, alguém comentou. “Eu vi uma lavadeira que estava usando uma peruca suspeita!”
“Eu vi uma concierge carregando um item suspeito!”
“Eu vi um táxi carregando um passageiro suspeito!”
“Eu vi um cozinheiro preparando uma comida suspeita!”
“Eu vi um atendente segurando uma espátula suspeita!”
“Eu vi um homem com uma nuvem de fumaça suspeita!”
“Eu vi um bebê com uma fechadura suspeita!”
“Eu vi um gerente usando um uniforme suspeito!”
“Eu vi uma mulher usando alfaces suspeitas!”
“Eu vi a minha mãe!”
“Eu não vi nada!”, berrou alguém. “Está tão tenebroso quanto um corvo voando em noite escura como breu!”
“Eu estou vendo uma coisa bem agora!”, gritou uma voz. “Há três pessoas suspeitas em pé à beira da lagoa!”
“São as pessoas que estavam falando com a repórter!”, gritou outra pessoa. “Estão se recusando a mostrar a cara!”
“Devem ser os assassinos!”, gritou ainda outra pessoa. “Ninguém mais agiria de modo tão suspeito!”
“É melhor corrermos para lá”, disse mais um hóspede, “antes que eles escapem!”
“Uau!”, guinchou outra voz. “Aguardem só até os leitores d’O Pundonor Diário lerem a manchete: ‘assassinato mórbido no hotel desenlace!’. Isso é muito mais empolgante que um acidente!”
“Psicologia das multidões”, disse Sunny, lembrando-se de um termo que Klaus lhe ensinara logo antes de ela dar os primeiros passos.
“Sunny tem razão”, disse Klaus, enxugando os olhos. “Essa multidão está ficando cada vez mais enfurecida. Num momento todos vão acreditar que nós somos assassinos.”
“Talvez sejamos”, disse Violet pensativamente.
“Lereia!”, disse Sunny enfática, o que queria dizer alguma coisa como “Bobagem”. “Acidente!”
“Foi um acidente”, disse Klaus, “mas foi culpa nossa.”
“Parcialmente”, disse Sunny.
“Não cabe a nós decidir”, disse Violet. “Devíamos entrar e conversar com a juíza Strauss e os outros. Eles saberão o que fazer.”
“Talvez”, disse Klaus. “Ou, quem sabe, devíamos correr.”
“Correr?”, perguntou Sunny.
“Não podemos correr”, disse Violet. “Se corrermos, todo mundo vai pensar que somos assassinos.”
“Talvez sejamos”, ressaltou Klaus. “Todas as pessoas nobres naquele saguão nos desapontaram. Não podemos ter certeza de que nos ajudarão agora.”
Violet suspirou fundo, arquejante, a respiração ainda irregular por causa das lágrimas.
“Para onde iríamos?”, sussurrou ela.
“Para qualquer lugar”, disse Klaus. “Poderíamos ir para algum lugar onde ninguém jamais ouviu falar do conde Olaf, ou de C.S.C. Devem existir outras pessoas nobres no mundo. Poderíamos encontrá-las.”
“Existem outras pessoas nobres”, disse Violet. “Estão a caminho daqui. Dewey nos disse para esperar até amanhã. Acho que devemos ficar.”
“Amanhã poderá ser tarde demais”, disse Klaus. “Acho que devemos correr.”
“Indefinita”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa do gênero de “Posso ver as vantagens e as desvantagens de ambos os planos de ação”, mas, antes que Violet e Klaus pudessem responder, as crianças sentiram uma sombra sobre elas e ergueram os olhos para ver uma figura alta e magra que surgia. Na escuridão, não foi possível ver nada de suas feições, apenas a ponta incandescente de um cigarro magro em sua boca.
“Vocês três precisam de um táxi?”, perguntou ele, fazendo um sinal para o automóvel que trouxera a juíza Strauss e Jerome Squalor à entrada do hotel.
Os irmãos se entreolharam e depois olharam de soslaio para o homem. As crianças acharam que a voz talvez fosse familiar, mas tal familiaridade podia ser decorrente do tom insondável que já tinham ouvido tantas vezes desde que chegaram ao hotel, de tal modo que tudo ficava parecendo familiar e misterioso ao mesmo tempo.
“Não temos certeza”, disse Violet depois de um momento.
“Vocês não têm certeza?”, perguntou o homem. “Sempre que vocês veem alguém em um táxi, ele provavelmente está sendo levado para desempenhar alguma incumbência. Com certeza deve haver alguma coisa que vocês precisam fazer, ou algum lugar aonde precisam ir. Uma grande romancista americana escreveu que as pessoas viajam mais depressa agora, embora não pudesse afirmar que elas fazem coisas melhores. Talvez vocês fizessem coisas melhores se viajassem neste exato momento.”
“Nós não temos dinheiro”, disse Klaus.
“Vocês não precisam se preocupar com dinheiro”, disse o homem, “não se forem quem eu penso que são.” Ele se inclinou para os Baudelaire. “Vocês são?”, perguntou ele. “São quem eu penso que são?”
As crianças se entreolharam novamente. Não tinham como saber se aquele homem era um voluntário ou um inimigo, um homem nobre ou uma pessoa pérfida. Falando genericamente, um estranho que tenta fazer você entrar em um automóvel é tudo menos nobre, e falando genericamente, uma pessoa que cita grandes romancistas americanas é tudo menos pérfida, e falando genericamente, um homem que diz que você não precisa se preocupar com dinheiro, ou um homem que fuma cigarros, está em algum lugar entre as duas coisas. Mas os órfãos Baudelaire não estavam falando genericamente. Eles estavam falando do lado de fora do Hotel Desenlace, na beira de uma lagoa onde um grande segredo estava escondido, enquanto uma multidão de hóspedes ficava cada vez mais desconfiada a respeito da coisa terrível que acabara de acontecer. As crianças pensaram em Dewey e se lembraram da terrível, terrível visão dele afundando na lagoa, e se deram conta de que não tinham como saber se elas mesmas eram boas ou más, que dizer o homem misterioso que se postara acima delas.
“Nós não sabemos”, disse Sunny por fim.
“Órfãos Baudelaire!”, ouviu-se uma voz cortante do topo das escadas, seguida por um acesso de tosse, e os irmãos se viraram para ver o sr. Poe, que olhava para as crianças cobrindo a boca com um lenço branco. “O que aconteceu?”, perguntou ele. “Onde está o homem que vocês atingiram com o arpão?”
Os Baudelaire estavam exaustos demais e infelizes demais para contestar a descrição do sr. Poe do que havia acontecido.
“Ele está morto”, disse Violet e descobriu que, mais uma vez, havia lágrimas em seus olhos.
Mais uma vez, o sr. Poe tossiu de perplexidade; então ele desceu as escadas e postou-se diante das crianças cujo bem-estar tinha sido de sua responsabilidade.
“Morto!”, disse ele. “Como isso foi acontecer?”
“É difícil dizer”, disse Klaus.
“Difícil dizer?”, o sr. Poe fechou a cara. “Mas eu vi vocês. Estavam segurando a arma. Vocês com certeza podem me contar o que aconteceu.”
“Henribergson”, disse Sunny, o que queria dizer “É mais complicado que isso”, mas o sr. Poe só sacudiu a cabeça, como se já tivesse ouvido o suficiente.
“É melhor vocês entrarem”, disse ele com um suspiro cansado. “Devo dizer que estou muito desapontado com vocês, crianças. Quando eu estava encarregado dos seus assuntos, não importava quantos lares eu encontrasse, coisas terríveis aconteciam. Então, quando vocês decidiram cuidar dos seus próprios assuntos, a cada dia que passava O Pundonor Diário trazia mais notícias sobre a sua perfídia. E, agora que os encontrei de novo, vejo que ocorreu mais uma desventura em série, e mais um tutor está morto. Vocês deviam se envergonhar.”
Os Baudelaire não responderam. Dewey Dénouement não era seu tutor oficial no Hotel Desenlace, mas tinha cuidado deles, mesmo quando não sabiam disso, e fizera o melhor possível para protegê-los das pessoas vilanescas que circulavam furtivamente pelo seu lar. Muito embora não fosse um tutor adequado, era um bom tutor, e as crianças estavam envergonhadas da sua participação na desafortunada morte de Dewey. Em silêncio, elas aguardaram enquanto o sr. Poe tinha outro acesso de tosse. Na sequência o banqueiro pôs as mãos sobre os ombros dos Baudelaire e os empurrou em direção à entrada do hotel.
“Há quem diga que um comportamento criminoso é o destino de crianças oriundas de um lar desfeito”, disse ele. “Talvez essas pessoas estejam certas.”
“Esse não é o nosso destino”, disse Klaus, mas sua voz não soou muito segura, e o sr. Poe meramente lançou-lhe um olhar triste e severo, e continuou empurrando. Se alguém mais alto que você já se abaixou para empurrá-lo pelo ombro, então você sabe que esse não é um jeito agradável de andar, entretanto os Baudelaire estavam perturbados e confusos demais para se importar com isso. Escadas acima eles seguiram, o banqueiro se arrastando atrás deles em seu feio pijama, e foi somente quando chegaram à nuvem de vapor que ainda flutuava através da entrada é que pensaram em olhar para trás, para o homem misterioso que lhes oferecera uma corrida de táxi. Aquela altura o homem já tinha voltado para dentro do veículo e se afastava lentamente do Hotel Desenlace. Assim como as crianças não tinham como saber se ele era ou não uma boa pessoa, também não tinham como saber se estavam tristes ou aliviadas por vê-lo partir, e mesmo depois de meses de pesquisa e muitas noites sem dormir, e muitas tardes enfadonhas passadas na frente de uma enorme lagoa, jogando pedras na esperança de que alguém reparasse nas ondulações que eu estava provocando, tampouco tenho como saber se os Baudelaire deviam ter ficado tristes ou aliviados ao vê-lo partir. Sei quem era o homem, e sei aonde ele foi depois, e sei o nome da mulher que estava escondida no porta-malas, e que tipo de instrumento musical fora colocado cuidadosamente no banco de trás, e os ingredientes do sanduíche enfiado no porta-luvas, e até mesmo o que era o pequeno item que jazia sobre o banco do passageiro, ainda molhado por causa do local onde estava escondido, mas não sou capaz de dizer a vocês se os Baudelaire teriam ficado mais felizes na companhia daquele homem, nem se foi melhor ele ter se afastado dos três irmãos, olhando para eles através do espelho retrovisor e apertando um guardanapo com monograma na mão trêmula. Sei que, se as crianças tivessem entrado no táxi, seus infortúnios no Hotel Desenlace não teriam sido o seu penúltimo perigo, e elas teriam de enfrentar mais um bocado de eventos lastimáveis em suas vidas, os quais provavelmente exigiriam mais treze livros para descrever; porém, não tenho como saber se isso teria sido melhor para os órfãos, não mais do que sei se teria sido melhor para mim se eu tivesse decidido continuar a obra da minha vida em vez de pesquisar a história dos Baudelaire, ou se teria sido melhor para a minha irmã se ela tivesse decidido juntar-se às crianças no Hotel Desenlace em vez de ir de esqui aquático ao encontro do capitão Andarré e, mais tarde, ir de esqui aquático para longe dele, ou se teria sido melhor para você entrar naquele táxi que você viu não faz tanto tempo e embarcar na sua nova série de eventos em vez de continuar com a vida que você tem. Não há como saber. Quando não há como saber, pode-se apenas imaginar, e eu imagino que os órfãos Baudelaire ficaram realmente muito assustados quando atravessaram a entrada do hotel e viram a multidão que os aguardava no saguão.
“Aí estão eles!”, rugiu alguém no fundo do recinto. As crianças não puderam ver quem era porque o saguão estava lotado como na primeira vez em que puseram os pés no desconcertante hotel. Fora estranho caminhar através do enorme salão abobadado naquela manhã, passando despercebidas em seus uniformes de concierge, mas desta vez todos no saguão olhavam diretamente para elas. Os irmãos ficaram espantados em ver incontáveis caras familiares de cada capítulo de suas vidas, e viram muitas, muitas pessoas que não tinham certeza se reconheciam ou não. Todas estavam de pijama, camisola ou qualquer outro traje de dormir, e fulminavam os Baudelaire com olhos semicerrados de sono por terem sido acordadas no meio da noite. É sempre interessante observar o que as pessoas estão vestindo no meio da noite, muito embora haja meios mais agradáveis de fazer tais observações sem ser acusado de assassinato. “Aqueles são os assassinos!”
“Eles não são assassinos comuns!”, gritou Geraldine Julienne, que estava usando uma camisola amarelo-clara e uma touca de banho sobre os cabelos. “São os órfãos Baudelaire!”
Uma onda de perplexidade tomou conta da multidão de pijama, e as crianças desejaram ter pensado em pôr de volta os óculos escuros.
“Os órfãos Baudelaire?”, exclamou Senhor, cujo pijama ostentava sobre o bolso as iniciais A.A., presumivelmente de “Alto Astral”. “Eu me lembro deles! Causaram acidentes na minha serraria!”
“Os acidentes não foram culpa deles!”, disse Charles, cujo pijama combinava com o do seu sócio. “A culpa foi do conde Olaf!”
“O conde Olaf é mais uma de suas vítimas!”, gritou uma mulher vestindo um roupão de banho rosa-claro. Os Baudelaire a reconheceram como a sra. Morrow, uma das moradoras da cidade dos Cultores Solidários de Corvídeos. “Ele foi assassinado bem na minha cidade!”
“Aquele era o conde Omar”, disse outro morador da cidade, um homem chamado sr. Lesko, que aparentemente dormia com as mesmas calças xadrezes que usava durante o dia.
“Tenho certeza de que os Baudelaire não são assassinos”, disse Jerome Squalor. “Eu fui tutor deles, e sempre achei que eram educados e gentis.”
“Eles eram estudantes muito bons, se estou corretamente lembrado”, disse o sr. Remora, que estava usando uma touca de dormir em forma de banana.
“Eles eram estudantes muito bons, se estou corretamente lembrado”, arremedou o vice-diretor Nero. “Eles não eram nada disso. Violet e Klaus levaram bomba em todos os tipos de prova, e Sunny foi a pior assistente administrativa que já vi!”
“Eu digo que são criminosos”, completou a sra. Bass ajeitando a peruca, “e os criminosos precisam ser punidos.”
“Sim!”, disse Hugo. “Os criminosos são aberrantes demais para ficarem soltos por aí!”
“Eles não são criminosos”, disse Hal com firmeza, “e eu sei o que estou dizendo.”
“Eu também”, retorquiu Esmé Squalor, “e digo que eles são culpados como o pecado.” Suas unhas compridas e prateadas repousavam sobre o ombro de Carmelita Spats, que fulminava os três órfãos com o olhar enquanto o sr. Poe os empurrava para dentro.
“Eu acho que eles são mais culpados que isso!”, disse um dos mensageiros do hotel.
“Eu acho que eles são ainda mais culpados do que você pensa!”, gritou um outro.
“Eu acho que eles parecem ser boas crianças!”, disse alguém que as crianças não reconheceram.
“Eu acho que eles parecem criminosos cruéis!”, disse outra pessoa.
“Eu acho que eles parecem nobres voluntários!”, disse outra.
“Eu acho que eles parecem vilões traiçoeiros!”
“Eu acho que eles parecem concierges!”
“Uma deles se parece um pouquinho com a minha mãe!”
Nadabom! Nadabom! Nadabom! O saguão pareceu tremer quando o relógio bateu três horas da manhã. Aquela altura, o sr. Poe tinha escoltado os Baudelaire para um canto distante do saguão, onde Frank ou Ernest aguardava junto à porta identificada como 121, com uma expressão severa no rosto, enquanto o último Nadabom! reverberava no enorme salão.
“Senhoras e senhores!” As crianças se voltaram para a juíza Strauss, que para ser vista estava em pé sobre um dos bancos de madeira e batia palmas chamando a atenção. “Por favor, acalmem-se! Não cabe a vocês decidir a questão da culpa ou inocência dos Baudelaire.”
“Isso não me parece justo”, observou um homem que vestia um pijama estampado com um padrão de salmões nadando contra a corrente. “Afinal, eles nos acordaram no meio da noite.”
“O quesito é de competência da Corte Suprema”, disse a juíza Strauss. “As autoridades já foram notificadas, e os demais juízes estão a caminho. Poderemos começar o julgamento em questão de horas.”
“Pensei que o julgamento fosse na quinta-feira”, disse uma mulher que vestia uma camisola adornada com palhaços dançarinos.
“Chegar cedo é um dos sinais de uma pessoa nobre”, disse a juíza Strauss. “Assim que os demais nobres juízes chegarem, tomaremos as decisões relativas a este assunto – e a outros assuntos igualmente importantes – de uma vez por todas.”
Houve um murmúrio de debate na multidão.
“Acho que tudo bem”, resmungou alguém.
“Tudo bem?”, disse Geraldine Julienne. “É maravilhoso! Já posso ver a manchete: ‘CORTE SUPREMA CONSIDERA OS BAUDELAIRE CULPADOS’!”
“Ninguém é culpado até o julgamento acabar”, disse a juíza Strauss, e pela primeira vez ela olhou para as crianças e sorriu gentilmente. Era uma pequena bênção aquele sorriso, e os assustados Baudelaire sorriram de volta. A juíza Strauss desceu do banco e atravessou a multidão murmurante, seguida por Jerome Squalor.
“Não se preocupem, crianças”, disse Jerome. “Parece que vocês não terão de esperar até amanhã para que a justiça seja feita.”
“Assim espero”, disse Violet.
“Pensei que os juízes não tivessem permissão de proferir veredictos sobre pessoas que conhecem”, disse Klaus.
“Isso em geral é verdade”, disse a juíza Strauss. “A lei deve ser imparcial e justa. Mas eu acho que posso ser justa no que concerne ao conde Olaf.”
“Além disso”, disse Jerome, “há mais dois juízes na Corte Suprema. A opinião da juíza Strauss não é a única que importa.”
“Confio nos meus colegas juízes”, disse a juíza Strauss. “Eu os conheço há anos, e eles demonstravam interesse sempre que eu fazia relatos sobre o caso de vocês. Enquanto aguardamos a chegada deles, no entanto, pedi aos gerentes do hotel que os pusessem no quarto 121, para mantê-los longe da multidão irada.”
Sem dizer uma palavra, Frank ou Ernest destrancou a porta e revelou o pequeno armário vazio onde Violet encontrara o lançador de arpões.
“Nós vamos ficar trancados?”, disse Klaus, nervoso.
“Só para mantê-los em segurança”, disse a juíza Strauss, “até começar o julgamento.”
“Sim!”, gritou uma voz que as crianças jamais esqueceriam. A multidão se dissociou para revelar o conde Olaf, que caminhou até os Baudelaire com um brilho de triunfo nos olhos. “Podem trancafiá-los!”, disse ele. “Não podemos permitir que pessoas traiçoeiras fiquem circulando pelo hotel! Há pessoas nobres e decentes aqui.”
“Há mesmo?”, perguntou Colette.
“Rá!”, disse o conde Olaf. “Quero dizer, é claro! A Corte Suprema decidirá quem é nobre e quem é maligno. Nesse meio-tempo, os órfãos devem ficar trancados em um armário.”
“Ouçam! Ouçam!”, disse Kevin, erguendo um braço e depois o outro em uma saudação ambidestra.
“Eles não são os únicos. O senhor foi igualmente acusado de altas perfídias, e a Corte Suprema também está muito interessada no seu caso. Será trancado no quarto 165 até começar o julgamento”, disse o homem que não era Frank, mas Ernest, ou vice-versa, destacando-se implacável da multidão e segurando o braço de Olaf.
“Muito justo”, disse Olaf. “Ficarei feliz em aguardar o veredicto da Corte Suprema. Rá!”
Os três irmãos se entreolharam, depois olharam em torno do saguão, onde a multidão os encarou de volta ferozmente. Eles não queriam ser trancados em um quartinho, não importa qual a razão, e não conseguiam entender por que a ideia de a Corte Suprema pronunciar um veredicto sobre o conde Olaf o fez rir. Entretanto, sabiam que discutir com a multidão seria improdutivo, uma expressão que aqui significa “provavelmente iria envolver os irmãos em ainda mais problemas”, e assim, sem mais palavra, os três Baudelaire entraram no armário. Jerome e a juíza Strauss fizeram um pequeno aceno para eles, o sr. Poe deu uma pequena tossida, e Frank ou Ernest deu um passo à frente para fechar a porta. Ao ver o gerente, as crianças de repente pensaram não em Dewey, mas na família que ele deixara para trás, assim como Violet, Klaus e Sunny foram todos deixados para trás depois daquele primeiro dia na Praia de Sal e das assustadoras notícias que ali receberam.
“Sentimos muito”, disse Sunny, e o gerente baixou os olhos para os Baudelaire e piscou. Talvez ele fosse Frank e achasse que os Baudelaire fizeram algo de maligno, ou talvez ele fosse Ernest, e achasse que os Baudelaire fizeram algo de nobre, mas, qualquer que fosse o caso, o gerente pareceu surpreso com o fato de as crianças sentirem muito. Por um momento, hesitou e lançou-lhes um pequenino aceno de cabeça, porém em seguida fechou a porta e os irmãos ficaram sozinhos. A porta do quarto 121 era surpreendentemente compacta, e apesar de a luz do saguão brilhar claramente através da fresta embaixo dela, o barulho da multidão se transformara num ligeiro zumbido, como um enxame de abelhas ou o mecanismo de algum aparelho. Os órfãos jogaram-se no chão, exaustos depois de um dia atarefado e de uma noite terrível, terrível. Eles tiraram os sapatos e encostaram uns nos outros naquele espaço apertado, tentando achar uma posição confortável e ouvindo o zumbido da multidão que discutia no saguão.
“O que vai acontecer conosco?”, perguntou Violet.
“Não sei”, disse Klaus.
“Talvez devêssemos ter corrido”, disse Violet, “como você sugeriu, Klaus.”
“Talvez em um julgamento”, disse o Baudelaire do meio, “os vilões sejam finalmente levados à justiça.”
“Olaf”, perguntou Sunny, “ou nós?”
O que Sunny perguntou, é claro, foi se o conde Olaf era o vilão que seria levado à justiça ou os três Baudelaire, mas seus irmãos não tinham resposta para ela. Em vez disso, a mais velha dos Baudelaire inclinou-se para baixo e beijou o alto da cabeça da irmã, e Klaus inclinou-se para cima para beijar a de Violet, e Sunny virou a cabeça primeiro para a direita e depois para a esquerda, para beijar os dois. Se você tivesse estado no saguão do Hotel Desenlace, não teria ouvido nada atrás da compacta porta do quarto 121 quando os Baudelaire encerraram sua conversa com um grande e trêmulo suspiro e se aninharam bem juntinhos no pequeno espaço. Teria sido preciso que você estivesse do outro lado da porta, se apoiando nas crianças, para ouvir o som baixinho e contido dos Baudelaire chorando até adormecer, incapazes de responder à pergunta de Sunny.

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