6 de setembro de 2016

Capítulo cinco


Quando o elevador atingiu o sexto andar, Klaus se despediu de Violet e entrou em um longo corredor vazio. Ele era ladeado por portas numeradas, números ímpares de um lado e pares do outro, e por grandes vasos ornamentais, grandes demais para conter flores e pequenos demais para esconder espiões. Sobre o piso havia um carpete macio e cinzento que abafava cada passo incerto do Baudelaire do meio. Embora Klaus nunca tivesse pisado no Hotel Desenlace até então, caminhar por aquele corredor provocou nele uma sensação familiar. Era a sensação que ele sempre tinha quando entrava numa biblioteca com um problema importante para resolver, suspeitando que em algum lugar no meio da coleção de livros estivesse a resposta perfeita para qualquer pergunta que se impusesse em sua mente. Tivera essa sensação quando ele e suas irmãs estavam morando bem perto do Mau Caminho, também chamado de Lousy Lane, e resolveram o caso do assassinato do tio Monty com informações cruciais descobertas em uma biblioteca herpetológica. Tivera essa sensação quando ele e suas irmãs estavam no fundo do oceano e ele conseguira diluir o veneno que infectava Sunny depois de encontrar um fato significativo numa biblioteca micológica pertencente a Fiona, uma jovem que conquistara o coração do garoto. E enquanto ele estava parado naquele corredor, olhando fixamente para todas aquelas portas numeradas que se estendiam até onde a vista podia alcançar, Klaus Baudelaire sentiu novamente a mesma sensação. Oculta em algum lugar naquele hotel, tinha certeza, havia alguma coisa ou alguém que poderia responder a todas as perguntas dos Baudelaire, resolver todos os mistérios dos Baudelaire, e pôr fim, afinal, a todos os sofrimentos dos Baudelaire. Era como se ele pudesse ouvir essa resposta lhe chamando, como um bebê a chorar no fundo de um poço encharcado, ou um despertador a tocar embaixo de uma pilha de cobertores encharcados.
Entretanto, sem um catálogo, Klaus não tinha ideia de onde poderia estar essa solução. Só lhe restava encaminhar-se para a incumbência de concierge no quarto 674, na esperança de que qualquer coisa que observasse como flâneur o pusesse mais perto de deslindar a lista de desventuras dos Baudelaire. Quando ele parou na frente da porta numerada, parecia que estava apenas somando mais uma desventura à sua lista deplorável. Saindo pela fresta entre a porta e o piso, uma fumaça se espalhava pelo corredor qual mancha sinistra.
“Olá?”, gritou Klaus, batendo à porta.
“Olá para você”, gritou de volta uma voz que soou ligeiramente familiar e absolutamente despreocupada. “Você é um daqueles concertinas?”
“Sou um concierge”, disse Klaus, sem se preocupar em explicar que concertina é uma espécie de sanfona. “Posso ajudar?”
“É claro que você pode ajudar!”, gritou a voz em resposta. “Foi por isso que eu toquei a sineta! Entre de uma vez!”
Klaus, naturalmente, não queria entrar em um quarto cheio de fumaça, porém trabalhar, mesmo com a finalidade de observar em segredo os mistérios de um hotel, em geral significa fazer coisas que você não quer fazer. Portanto, o Baudelaire do meio abriu a porta, liberando uma enorme quantidade de fumaça para o corredor, e deu alguns passos vacilantes para dentro do quarto. Através da fumaça, pôde ver um vulto baixo, vestindo um terno de pano verde lustroso, em pé no outro lado do cômodo, de frente para a janela. Atrás das costas, segurava um charuto que era claramente responsável por toda aquela fumaça que passava flutuando por Klaus e invadia o corredor. Mas Klaus não se importou com a fumaça. Mal chegou a notá-la. Ele apenas ficou olhando consternado para a pessoa em pé diante da janela, uma pessoa que ele esperara nunca mais encontrar de novo.
Provavelmente você já ouviu a aborrecida expressão “Que mundo pequeno”, que se usa para explicar uma coincidência. Por exemplo, se você entra em um restaurante italiano e encontra lá um garçom que já conhecia, o garçom poderia exclamar “Que mundo pequeno!”, como se fosse inevitável que vocês dois estivessem no mesmo restaurante ao mesmo tempo. Mas, se você já deu a mais breve das caminhadas, sabe qual é a verdade. Não é um mundo pequeno. É um mundo grande, e por ele estão disseminados restaurantes italianos, empregando garçons que têm mensagens cruciais para você e garçons que estão tentando garantir que você jamais as receba, e esses pares de garçons estão engajados em uma discussão que começou muitos anos atrás, quando você era tão jovem que não era seguro lhe oferecer nem mesmo o mais macio dos nhoques.
O mundo não é pequeno; ele é enorme, e Klaus tinha esperanças de que esse mundo enorme fosse grande o bastante para que um hóspede do Hotel Desenlace, empregado na indústria madeireira e ocupando o quarto 674, não fosse o homem horroroso que o empregara e a suas irmãs na Serraria Alto Astral. Durante a sua apavorante estada em Paltryville, os Baudelaire nunca viram a cara do homem, que estava sempre encoberta por uma nuvem de fumaça de charuto, e nunca ficaram sabendo qual era seu nome verdadeiro, o qual era tão difícil de pronunciar que todo mundo era obrigado a tratá-lo de “Senhor”; porém ficaram sabendo muita coisa sobre o seu comportamento ganancioso e cruel, e Klaus não ficou feliz em constatar que esse mundo enorme ia servir-lhe mais uma porção do egoísmo de Senhor.
“Bem, não fique aí parado!”, bradou Senhor. “Pergunte em que você pode me servir!”
“Em que posso servi-lo, senhor?”, perguntou Klaus.
Senhor girou o corpo bruscamente, e a fumaça em volta de sua cabeça girou com ele.
“Como você sabe o meu nome?”, perguntou ele, desconfiado.
“O concierge não sabia o seu nome”, disse outra voz pacientemente, e Klaus vislumbrou, através da fumaça, uma segunda pessoa cuja presença não tinha notado, sentada na cama, vestindo um roupão com as palavras HOTEL DESENLACE bordadas nas costas. Esse homem também era conhecido dos tempos dos Baudelaire na Alto Astral, embora Klaus não soubesse se deveria ficar contente ao vê-lo ou não. Por um lado, Charles sempre fora bom com os órfãos, e, apesar de sua bondade não ter sido suficiente para salvá-los do perigo, é sempre um alívio descobrir que no quarto há uma pessoa boa que não tinha sido previamente notada. Por outro lado, Klaus lamentava constatar que Charles ainda era sócio de Senhor, que gostava de ficar dando ordens e contraordens a Charles tanto quanto aos Baudelaire. “Tenho certeza de que o concierge chama todos os hóspedes do sexo masculino neste hotel de ‘senhor’.”
“É claro que chama!”, berrou Senhor. “Não sou nenhum idiota! Muito bem então, concertina, queremos ser levados à sauna imediatamente!”
“Sim, senhor”, disse Klaus, grato por Frank ou Ernest ter mencionado que a sauna ficava na Sala 613. Uma sauna é uma sala feita de madeira e mantida muito, muito quente, em que as pessoas podem sentar-se no meio do vapor, o que acreditam ser benéfico à saúde, e Klaus teria achado muito difícil encontrar um lugar assim no Hotel Desenlace sem um catálogo. “A sauna deve ficar do outro lado do corredor, logo abaixo”, disse Klaus. “Se os cavalheiros me seguirem, vou levá-los até lá.”
“Desculpe termos feito você vir até o nosso quarto só para nos levar logo abaixo no corredor”, disse Charles.
“É um prazer”, disse Klaus. Como tenho certeza que vocês sabem, quando as pessoas dizem “É um prazer”, elas usualmente querem dizer alguma coisa como “Não há coisa no mundo que eu menos quisesse fazer”, mas o Baudelaire do meio esperava poder descobrir por que o antigo tutor dos irmãos órfãos e seu sócio viajaram de Paltryville ao Hotel Desenlace.
“Vamos agora mesmo, neste instante!”, bradou Senhor, marchando para o corredor.
“Você não vai vestir um traje de banho?”, perguntou Charles. “Se estiver totalmente vestido, não vai tirar proveito dos benefícios do vapor para a saúde.”
“Pouco se me dão os benefícios do vapor para a saúde!”, bradou Senhor. “Não sou nenhum idiota! Apenas adoro o cheiro de madeira quente!”
Charles suspirou e seguiu Klaus, saindo do quarto 674 para o corredor.
“Eu tinha esperança de que o meu sócio relaxasse durante a nossa estada aqui”, disse ele, “mas temo que ele esteja tirando um feriado de motorista de ônibus.”
“Feriado de motorista de ônibus” é uma expressão que se refere ao descanso das pessoas que fazem nos feriados a mesma coisa que em suas vidas cotidianas, como encanadores que visitam o Museu das Pias, ou vilões que se disfarçam até nos seus dias de folga. Mas Klaus não podia acreditar que aqueles dois homens estivessem simplesmente de férias no Hotel Desenlace, apenas dois dias antes do encontro de C.S.C.
“Estão aqui a trabalho?”, perguntou ele, esperando que Charles continuasse falando enquanto se aproximavam da sauna.
“Não conte nada para aquele concertina!”, gritou Senhor, mais uma vez usando a palavra equivalente a “sanfona” no lugar da palavra que designava “empregado do hotel”. “Ele deveria estar ao nosso inteiro dispor, e não bisbilhotando os nossos negócios como um espião!”
“Minhas desculpas, senhor”, disse Klaus, o mais calmamente que pôde. “Chegamos à sauna.”
Sem dúvida, Klaus, Senhor e Charles tinham chegado à Sala 613, de onde uma massa de vapor se derramava pela fresta entre a porta e o piso, como uma imagem espelhada da fumaça do charuto de Senhor se espraiando para fora do quarto 674.
“Você pode esperar do lado de fora, concertina”, disse Senhor. “Gritaremos quando estivermos prontos para ser escoltados de volta ao nosso quarto.”
“Nós não precisamos ser escoltados”, disse Charles timidamente, abrindo a porta. Klaus não pôde ver nada do interior a não ser uma massa de vapor revoluteante. “É logo adiante, no corredor. Tenho certeza de que o concierge já está suficientemente ocupado para ficar nos aguardando.”
“Mas alguém precisa ficar segurando o meu charuto!”, bradou Senhor. “Não posso entrar em uma sala cheia de vapor com a cabeça cheia de fumaça! Não sou nenhum idiota!”
“É claro que não”, disse Charles com um suspiro, e entrou na sauna. Senhor entregou o charuto a Klaus e marchou para dentro da sala antes que a nuvem de fumaça em volta da sua cabeça pudesse se dissipar. Atrás dele, a porta começou a se fechar, mas Klaus pensou depressa e enfiou o pé, fazendo com que restasse uma fresta aberta; e então, o mais silenciosamente que pôde, abriu a porta de novo e deslizou para dentro, parando um instante para equilibrar o charuto de Senhor na beira de um dos vasos ornamentais. Como ele suspeitava, o vapor ali era tão espesso que não dava para distinguir Senhor nem seu sócio, o que significava que os cidadãos de Paltryville sentados conversando na sala aquecida também não podiam vê-lo. Era a oportunidade perfeita para um flâneur bisbilhotar uma conversa particular.
“Eu gostaria que você fosse mais educado”, disse Charles, a voz flutuando através do vapor. “Não há razão para acusar aquele concierge de ser um espião.”
“Eu estava só tentando ser cauteloso!”, disse Senhor de um jeito desabrido, uma palavra que aqui significa “em um tom que indicava que ele não tinha intenção de ser mais educado”. Klaus ouviu o estralejar do seu terno lustroso e imaginou que o dono da serraria estava encolhendo os ombros. “Foi você quem disse que os inimigos podem estar à espreita neste hotel!”
“Isso é o que me foi contado na carta que recebi”, disse Charles. “De acordo com J.S., precisamos ser muito cautelosos se quisermos encontrar os Baudelaire.”
Klaus sentiu-se grato por sua expressão de perplexidade estar oculta pelo vapor. O Baudelaire do meio não podia imaginar por que o misterioso impostor J.S. estaria ajudando Charles a encontrá-lo e às suas irmãs, e se não estivesse tão quente na sauna ele teria começado a suar frio, uma expressão que aqui significa “sentir-se muito nervoso com a conversa que estava observando”.
“Eu não quero encontrar os Baudelaire!”, disse Senhor. “Aqueles órfãos só causaram problemas para a serraria!”
“Eles não foram a causa dos problemas”, disse Charles. “Foi o conde Olaf. Não está lembrado?”
“É claro que estou lembrado!”, gritou Senhor. “Não sou nenhum idiota! O conde Olaf se disfarçou de uma jovem um tanto atraente, e trabalhou com aquele hipnotizador sinistro para causar acidentes na minha serraria! Se os Baudelaire não tivessem aquela fortuna aguardando por eles no banco, Olaf nunca teria causado tantos malefícios! A culpa é dos órfãos!”
“Presumo que você esteja certo”, disse Charles, “mas ainda assim gostaria de encontrá-los. De acordo com O Pundonor Diário, os Baudelaire estão metidos em problemas até as orelhas.”
“De acordo com O Pundonor Diário’, disse Senhor, “os Baudelaire são assassinos! Até onde sabemos, aquele traça-dos-livros de óculos pode chegar sorrateiramente até nós bem aqui no hotel e nos matar até a morte!”
“As crianças não vão nos assassinar”, disse Charles, “apesar de que, depois do que aconteceu com elas na Alto Astral, eu dificilmente pudesse culpá-las. De fato, se conseguir encontrá-las, a primeira coisa que farei será pedir as minhas sinceras desculpas. Talvez eu possa solicitar um binóculo a um dos concierges. J.S. disse que é provável que eles cheguem de submarino, e assim eu poderia ficar atento a um periscópio se erguendo do mar.”
“Eu preferiria que em vez disso o nosso quarto tivesse vista para a lagoa”, disse Senhor. “Quando acabo de fumar um charuto, gosto de deixar cair o toco em um corpo d’água tranquilo e ficar olhando as graciosas ondinhas.”
“Não estou tão certo de que isso seria bom para a lagoa”, disse Charles.
“Quem se importa com a lagoa?”, demandou Senhor. “Tenho coisas melhores para fazer do que me preocupar com o meio ambiente. As árvores da Floresta Finita estão acabando, portanto os negócios vão mal para a serraria. O último pedido grande que tivemos foi para a construção daquela fábrica de raiz-forte, e foi há muito tempo. Espero que o coquetel de quinta-feira seja uma excelente oportunidade para fechar alguns negócios. Afinal, se não fosse pela minha madeira, este hotel nem existiria!”
“Eu me lembro”, disse Charles. “Tivemos de entregar a madeira no meio da noite. Mas, Senhor, você me disse que nunca mais ouviu falar naquela organização.”
“Não ouvi”, disse Senhor, “até agora. Você não foi o único que recebeu bilhetes desse tal de J.S. Fui convidado para uma festa em que ele é o anfitrião na quinta-feira à noite, e ele me disse para levar todos os meus objetos de valor. Isso deve significar que uma grande quantidade de gente rica deverá estar lá – gente rica que pode querer comprar um pouco de madeira.”
“Talvez, se a serraria começar a ser mais bem-sucedida”, disse Charles, “possamos pagar os nossos empregados com dinheiro, em vez de apenas chicletes e cupons.”
“Não seja idiota!”, disse Senhor. “Chiclete e cupons são uma troca justa! Se você passa menos tempo lendo e mais tempo pensando em madeira, você se preocupa mais com dinheiro e menos com pessoas!”
“Não há nada de errado em se preocupar com pessoas”, disse Charles mansamente. “Eu me preocupo com você, Senhor. E me preocupo com os Baudelaire. Se o que J.S. escreveu é verdade, então os pais deles...”
“Com licença.” A porta da sauna se abriu e Klaus viu um vulto alto, indistinto, em meio ao vapor.
“É o meu concertina?”, latiu Senhor. “Eu disse para você esperar lá fora!”
“Não, sou um dos gerentes do hotel”, disse Frank ou Ernest. “Temos uma concertina disponível na Sala 786, caso estejam interessados em instrumentos musicais. Lamento interromper a sua tarde, mas receio que tenho de pedir a todos os hóspedes que liberem a sauna. Surgiu uma situação que requer o uso desta sala. Se os senhores estiverem interessados em vapor, há um bocado na Sala...”
“Quem se importa com vapor!”, gritou Senhor. “Eu apenas gosto de cheirar madeira quente! Onde mais posso cheirar madeira quente, a não ser na sauna?’
“A Sala 547 é dedicada à química orgânica”, retrucou o gerente. “Há toda sorte de coisas fedidas lá.”
Klaus abriu rapidamente a porta da sauna e fingiu entrar.
“Terei prazer em levar os nossos hóspedes à Sala 547”, disse ele, esperando poder ouvir o resto da conversa de Senhor e Charles.
“Não, não”, disse o gerente. “Você é necessário aqui, concierge. Por uma estranha coincidência, acontece que há uma química aguardando no corredor, a qual terá o prazer de escoltar estes dois cavalheiros.”
“Ora, está bem!”, disse Senhor, e saiu pisando duro da sauna para o corredor, onde os aguardava um vulto usando um jaleco branco comprido e uma máscara, como as que os cirurgiões e químicos usam por cima do nariz e da boca. Senhor esticou o braço para baixo e pegou o seu cigarro de cima do vaso ornamental, devolvendo a nuvem de fumaça à sua cara ao mesmo tempo que a nuvem de vapor se dissipava, e sem mais palavra ele e o sócio seguiram a química afastando-se da sauna e deixando Klaus sozinho com o voluntário ou o vilão.
“Tenha muito cuidado com isto”, disse Frank ou Ernest, entregando a Klaus um objeto grande e rígido. Era uma coisa chata e larga, com a forma de um cilindro grosso, como um saco de dormir. “Depois de desenrolado, a superfície é muito grudenta – tão grudenta que tudo o que encosta nela fica preso. Você sabe como se chama isto?”
“Papel pega-moscas”, disse Klaus, lembrando-se de um livro que lera sobre as aventuras de um exterminador. “O hotel está com algum problema de insetos?”
“Nosso problema não é com os insetos”, disse o gerente. “É com pássaros. Isto é papel pega-pássaros. Preciso que você prenda uma ponta no peitoril da janela desta sala e deixe o resto dependurado do lado de fora, sobre a lagoa. Você é capaz de adivinhar por quê?”
“Para pegar pássaros”, disse Klaus.
“Você obviamente é muito lido”, disse Ernest ou Frank, embora fosse impossível dizer se ele estava impressionado ou enojado com o fato. “Então você sabe que os pássaros podem causar toda sorte de problemas. Por exemplo, ouvi falar de um bando de águias que capturou recentemente um grupo grande de crianças. O que você acha disso?”
Klaus engoliu em seco. É claro que ele sabia exatamente o que achava do numeroso bando de águias que raptara uma tropa de Escoteiros da Neve enquanto os Baudelaire estavam vivendo no Monte Fraught, o Pico das Aflições. Ele achava horrível, mas o rosto do voluntário ou vilão era tão insondável que o Baudelaire do meio não era capaz de dizer se o gerente pensava o mesmo.
“Acho que é notável”, disse Klaus por fim, escolhendo cautelosamente uma palavra que aqui pode significar ou maravilhoso ou horrível.
“Uma resposta notável”, retrucou ou Frank ou Ernest, e então Klaus ouviu o gerente dar um suspiro pensativo. “Diga-me”, disse ele, “você é quem eu penso que é?”
Klaus piscou atrás dos próprios óculos e atrás dos óculos escuros que estavam em cima deles. Decidir-se por uma resposta segura a uma pergunta é como decidir-se por um ingrediente seguro em um sanduíche, porque, se você tomar a decisão errada, pode descobrir que algo horrível está saindo da sua boca. Ali parado na sauna, não havia nada que Klaus quisesse mais do que decidir-se por uma resposta segura tal como Sim, sou Klaus Baudelaire, caso estivesse falando com Frank, ou Me desculpe, não sei do que está falando, caso estivesse falando com Ernest. Mas ele sabia que não havia como dizer se alguma dessas respostas era segura, portanto abriu a boca e pronunciou a única resposta em que foi capaz de pensar.
“É claro que sou quem pensa que sou”, disse ele, sentindo-se como se estivesse falando em código, só que era um código que ele não conhecia. “Sou um concierge.”
“Entendo”, disse Frank ou Ernest, tão insondável como sempre. “Fico grato pela sua ajuda, concierge. Não são muitas as pessoas que têm a coragem de ajudar em um esquema como este.”
Sem mais palavra, o gerente se afastou e Klaus ficou sozinho na sauna. Cauteloso, ele caminhou através do vapor e, às apalpadelas, encontrou o caminho para a janela; destravou-a e abriu uma veneziana marcada com um O por cima da lagoa. Como acontece quando um lugar muito quente é exposto ao ar frio, o vapor precipitou-se pela janela e se dissipou. Com o fim do vapor, Klaus pôde ver as paredes e os bancos de madeira que compunham a sauna, e ele só queria que tudo estivesse tão claro na sua cabeça como estava na Sala 613. Em silêncio, prendeu uma das pontas do papel pega-pássaros no peitoril da janela, a cabeça girando com as suas misteriosas observações como flâneur e a sua misteriosa incumbência como concierge; e em silêncio dependurou o resto do lado de fora, onde aquilo se curvou rigidamente sobre a lagoa como um escorregador em um playground. Em silêncio, olhou para aquele estranho arranjo e se perguntou qual gerente solicitara uma tarefa tão insólita. Mas, antes que ele pudesse sair da sauna, seu silêncio foi quebrado por um ruído impactante.
O relógio do saguão do Hotel Desenlace é de fama legendária, uma expressão que aqui significa “muito conhecido por tocar muito alto”. Fica bem no centro do teto, bem no topo da abóbada, e quando ele bate as horas seus sinos ecoam pelo prédio inteiro, produzindo um ruído imenso e profundo que soa como uma estranha palavra dita uma vez a cada hora anunciada. Naquele momento em particular eram três horas, e todo mundo no hotel pôde ouvir o toque estrondoso dos enormes sinos do relógio, emitindo a palavra três vezes seguidas: Nadaboml Nadabom! Nadabom!
Quando virou as costas para a janela aberta da sauna e foi andando de volta pelo corredor na direção dos elevadores, Klaus Baudelaire sentiu como se o relógio o estivesse repreendendo por seus esforços para resolver os mistérios do Hotel Desenlace. Nadabom! Ele tentara dar o melhor de si como flâneur, mas não observara o suficiente para saber exatamente o que Senhor e Charles estavam fazendo no hotel. Nadabom! Ele tentara se comunicar com um dos gerentes do hotel, mas não fora capaz de descobrir se era Frank ou Ernest. E – o mais Nadabom! de tudo – ele realizara sua incumbência como concierge, e agora uma faixa de papel pega-pássaros estava dependurada para fora do Hotel Desenlace, onde serviria a algum propósito sinistro desconhecido. A cada batida do relógio, Klaus sentia que nada estava bom, e quando entrou no pequeno elevador franziu a testa, pensativo. Esperava de todo coração que suas duas irmãs tivessem obtido mais sucesso em suas incumbências, pois ao atravessar as portas deslizantes do elevador e apertar o botão para voltar ao saguão, tudo em que o Baudelaire do meio conseguiu pensar foi que aquilo tudo não era nada bom, nada bom, nada bom.

Um comentário:

  1. A conversa entre Charles e o senhor estava muito interessante bem na hora q eles ia falar dos pais dele o gerente entro a raiva kk

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