10 de setembro de 2016

Capítulo cinco


A não ser que você seja extraordinariamente impassível – o que é apenas um jeito elegante de dizer “o oposto de curioso” –, ou seja um dos órfãos Baudelaire, é provável que você esteja se perguntando se as três crianças beberam ou não o cordial de coco que lhes foi oferecido um tanto forçadamente por Ishmael. Talvez você mesmo tenha estado em situações em que lhe foi oferecida uma bebida ou comida que você preferiria não consumir, por alguém a quem você preferiria não recusar, ou talvez você tenha sido prevenido a respeito de pessoas que oferecem esse tipo de coisa e o aconselharam a não se deixar sucumbir, uma palavra que aqui significa “aceitar, e não recusar, o que lhe é oferecido”. Tais situações são frequentemente citadas como incidentes de “pressão dos pares”, pois “par” é uma palavra para alguém com quem você está associado e “pressão” é uma palavra para a influência que essa pessoa costuma exercer. Se você é um eremita – um termo para alguém que vive sozinho em uma colina –, então a pressão dos pares é razoavelmente fácil de evitar, pois você não tem par, a não ser que algum carneiro ocasional resolva vagar pelos lados da sua caverna e tente pressioná-lo a deixar crescer um manto lanoso. Mas se você vive entre pessoas, sejam elas da sua família, da sua escola ou da sua organização secreta, cada momento da sua vida é um incidente de pressão dos pares, e não é possível evitar isso, assim como um barco não pode evitar uma tempestade que o circunda. Se você acorda em um momento em que preferiria esconder a cabeça embaixo do travesseiro até ficar faminto demais para aguentar, então está sucumbindo à pressão dos pares de seu diretor ou mordomo matinal. Se você toma um desjejum preparado por outra pessoa, ou prepara você mesmo o seu desjejum com comida que comprou, quando preferiria bater o pé e exigir guloseimas de terras distantes, então está sucumbindo à pressão dos pares de seu merceeiro ou daquele que cozinhou seu desjejum. Durante o dia todo, qualquer pessoa do mundo sucumbe à pressão dos pares, tanto a pressão dos pares na quarta série para jogar queimada na hora do recreio como a pressão dos colegas circenses para equilibrar bolas de borracha na ponta do nariz; e, se tentar evitar cada instância de pressão dos pares, acabará ficando sem par nenhum – assim, o truque é sucumbir à pressão o suficiente para não afastar os seus pares, mas não a ponto de o deixar em uma situação na qual você se encontre morto, ou desconfortável de algum outro modo. Este é um truque difícil, e a maior parte das pessoas nunca chega a dominá-lo: acaba morta ou desconfortável pelo menos uma vez na vida.
Os órfãos Baudelaire estiveram em situações desconfortáveis um número de vezes mais do que suficiente no decurso de suas desventuras, e, como foram parar numa ilha distante com apenas um grupo de pares para escolher, eles sucumbiram à pressão de Ishmael, de Sexta-Feira, da sra. Caliban e de todos os outros ilhéus que viviam com as crianças em seu novo lar. Eles sentaram-se na tenda de Ishmael e beberam um pouco de cordial de coco enquanto comiam o seu almoço de ceviche sem tempero, apesar de a bebida os deixar um pouquinho tontos e a comida os deixar um pouquinho viscosos, em vez de sair da colônia e procurar sua própria comida e bebida. Eles vestiam as túnicas brancas, apesar de elas serem um pouquinho pesadas para o clima quente, em vez de tentar confeccionar suas próprias roupas. E eles ficaram calados quanto aos itens desaconselhados que mantinham nos bolsos – a fita de cabelo de Violet, o livro de lugar-comum de Klaus e o batedor de Sunny –, em vez de balançar o barco, como o facilitador da colônia advertira, não se atrevendo nem mesmo a perguntar a Sexta-Feira por que ela dera a Sunny aquele utensílio de cozinha.
Mas a despeito do gosto forte do cordial, do gosto insosso da comida, das túnicas deselegantes e dos itens secretos, os Baudelaire ainda se sentiam mais em casa agora do que há um bocado de tempo. Embora sempre tivessem conseguido encontrar um companheiro ou dois, não importa por onde andassem, os Baudelaire não foram realmente aceitos por nenhum tipo de comunidade desde que Olaf as enquadrara por assassinato, forçando-as a se esconder incontáveis vezes. Os Baudelaire sentiam-se seguros vivendo com a colônia, sabendo que não era permitido ao conde se aproximar deles e que os seus associados, caso também acabassem como náufragos, seriam bem-vindos à tenda desde que sucumbissem à pressão dos pares da ilha. Comidas sem tempero, roupas deselegantes e beberagens suspeitas pareciam ser um preço justo a pagar por um lugar seguro para chamar de lar, e por um grupo de pessoas que, se não eram exatamente amigas, eram pelo menos companhia pelo tempo que desejassem ficar.
Os dias passaram e a ilha continuou sendo um lugar seguro, se bem que insosso, para os irmãos. Violet teria gostado de ajudar os ilhéus na construção do enorme catamarã, mas por sugestão de Ishmael ela ajudou Sexta-Feira, Robinson e o professor Fletcher a lavar as roupas da colônia, e a maior parte do seu tempo era gasta nas cascatas de água salgada, lavando as túnicas de todo mundo e estendendo-as sobre pedras para secar ao sol. Klaus teria apreciado caminhar para além da escarpa, a fim de catalogar todos os detritos que os colonos tinham recolhido enquanto faziam a coleta de despojos pós-borrasca, mas todo mundo concordara com a ideia do facilitador, de que o Baudelaire do meio deveria ficar ao lado de Ishmael o tempo todo, e assim ele passava os dias empilhando barro nos pés do velho e correndo para reabastecer a concha dele de cordial.
Somente Sunny foi autorizada a fazer alguma coisa na sua área de especialidade, mas ajudar a sra. Caliban na cozinha não era muito interessante, pois as três refeições da colônia eram fáceis de preparar. Todas as manhãs, a mais jovem dos Baudelaire pegava as algas que Alonso e Ariel tinham colhido no mar – depois de lavadas por Sherman e Robinson, e estendidas para secar por Erewhon e Weyden – e simplesmente as jogava em uma gamela para o desjejum. A tarde, Ferdinand e Larsen traziam uma enorme pilha de peixes que tinham capturado com as redes da colônia, para que Sunny e a sra. Caliban pudessem macerá-los com suas Colheres multiuso até virarem ceviche, à noite as duas chefes acendiam uma fogueira e ferviam lentamente um caldeirão de cebolas silvestres apanhadas por Omeros e Finn com o capim selvagem ceifado por Brewster e Calypso, que era o único tempero do jantar. A sopa era servida junto com conchas cheias de cordial de coco fermentado por Byam e Willa a partir dos cocos recolhidos pelo sr. Pitcairn e a srta. Marlow nos coqueiros da ilha. O preparo de nenhuma dessas receitas era muito desafiador, e Sunny acabou passando grande parte do dia na ociosidade, uma expressão que aqui significa “preguiçando com a sra. Caliban, bebericando cordial de coco e olhando para o mar”. Depois de tantos encontros frenéticos e experiências trágicas, os órfãos não estavam acostumados a uma vida tão calma, e durante os primeiros dias sentiram-se um pouco inquietos sem a perfídia do conde Olaf com seus mistérios sinistros e sem a integridade de C.S.C. com seus feitos nobres; mas graças a cada boa noite de sono no conforto arejado de uma tenda, ao trabalho cotidiano em tarefas que não lhes impunham dificuldade e a cada gole do doce cordial de coco, a rivalidade e a perfídia na vida das crianças pareciam cada vez mais distantes. Depois de uns poucos dias, outra tempestade chegou – bem como Ishmael havia previsto – e, quando o céu escureceu e a ilha foi coberta por vento e chuva, os Baudelaire se amontoaram com os outros ilhéus na tenda do facilitador e deram graças pela vida plácida na colônia, que substituiu a existência tempestuosa que suportaram desde a morte de seus pais.
“Janicípite”, disse Sunny aos seus irmãos na manhã seguinte, enquanto os Baudelaire caminhavam ao longo da plataforma costeira. De acordo com o costume, os ilhéus estavam todos fazendo a coleta de despojos pós-borrasca, aqui e ali no horizonte plano, cutucando os detritos da tempestade. Com “janicípite”, a mais jovem dos Baudelaire queria dizer “Me sinto com duas cabeças, uma quer viver aqui e a outra não”, uma frase que aqui significa que ela não conseguia decidir se gostava ou não da colônia na ilha.
“Sei o que você quer dizer”, disse Klaus, que estava carregando Sunny nos ombros. “A vida não é muito empolgante aqui, mas pelo menos não estamos correndo nenhum perigo.”
“Suponho que deveríamos ser gratos por isso”, disse Violet, “embora a vida na colônia pareça ser muito austera.”
“Ishmael vive dizendo que não vai nos forçar a fazer nada”, disse Klaus, “mas, de um jeito ou de outro, tudo parece ser meio forçado.”
“Pelo menos eles forçaram Olaf a ir embora”, salientou Violet, “o que é mais do que C.S.C. conseguiu fazer.”
“Diáspora”, disse Sunny, o que queria dizer alguma coisa como “Nós vivemos em um lugar tão afastado que a batalha entre C.S.C. e seus inimigos parece algo muito distante”.
“O único C.S.C. aqui”, disse Klaus, inclinando-se para espiar dentro de uma poça d’água, “é a nossa Comida Sem Condimento.”
Violet sorriu.
“Não faz muito tempo”, disse ela, “estávamos desesperados para chegar ao último lugar seguro até quinta-feira. Agora, onde quer que olhemos é seguro, e não temos nem ideia de que dia é hoje.”
“Saudades de casa ainda”, disse Sunny.
“Eu também”, disse Klaus. “Por alguma razão continuo sentindo saudades da biblioteca da Serraria Alto-Astral.”
“A biblioteca de Charles?”, perguntou Violet, com um sorriso surpreso. “Era uma sala bonita, mas só tinha três livros. Por que você haveria de ter saudades daquele lugar?”
“Três livros é melhor do que nenhum”, disse Klaus. “A única coisa que li desde que chegamos aqui foi o meu próprio livro de lugar-comum. Sugeri a Ishmael que ditasse a história da colônia para mim, e eu a escreveria para que os ilhéus soubessem como surgiu este lugar. Outros colonos poderiam escrever as suas histórias, e no fim esta ilha teria a sua própria biblioteca. Ishmael disse que não ia me forçar, mas não achava que seria uma boa ideia escrever um livro que poderia perturbar as pessoas com as suas descrições de tempestades e naufrágios. Eu não quero balançar o barco, mas sinto falta da minha pesquisa.”
“Sei o que quer dizer”, disse Violet. “Eu continuo sentindo saudades da Barraca do Destino da madame Lulu.”
“Com todos aqueles truques de mágica falsificados?”, disse Klaus.
“As invenções dela eram bem ridículas”, admitiu Violet, “mas, se eu tivesse aqueles materiais mecânicos simples, acho que poderia fazer um sistema de filtragem de água simples. Se pudéssemos produzir água fresca, os ilhéus não teriam de beber cordial de coco o dia inteiro. Mas Sexta-Feira disse que o hábito de beber cordial está inveterado.”
“Semcoluna?” perguntou Sunny.
“Ela quis dizer que as pessoas estão bebendo isso há tanto tempo que não vão querer parar”, disse Violet. “Eu não quero balançar o barco, mas sinto falta de trabalhar em invenções. E você, Sunny? Do que sente falta?”
“Fonte”, disse Sunny.
“O Chafariz Corvídeo, da cidade dos Cultores Solidários de Corvídeos?”, perguntou Klaus.
“Não”, disse Sunny sacudindo a cabeça. “Na cidade.”
“A Fonte das Finanças Vitoriosas?”, perguntou Violet. “Por que você haveria de ter saudades daquilo?”
“Primeira nadada”, disse Sunny, e seus irmãos engasgaram.
“Você não pode se lembrar disso”, disse Klaus.
“Você só tinha algumas semanas de idade”, disse Violet.
“Eu me lembro”, disse Sunny com firmeza, e os Baudelaire mais velhos fizeram um movimento de assombro com a cabeça. Sunny estava falando de uma tarde, muito tempo atrás, durante um outono inusitadamente quente na cidade. Os pais Baudelaire tinham alguns assuntos para tratar e levaram as crianças com eles, prometendo passar por uma sorveteria a caminho de casa. Após chegar ao distrito financeiro, a família havia parado para descansar na Fonte das Finanças Vitoriosas, e a mãe dos Baudelaire entrara apressadamente em um edifício com torres altas e curvas projetando-se em todas as direções, enquanto o pai aguardava do lado de fora com os filhos. O tempo quente deixou Sunny muito irritada, e ela começou a ficar irrequieta. Para acalmá-la, o pai dos Baudelaire mergulhou os pés descalços da menina na água, e Sunny sorriu com tanto entusiasmo que ele mergulhou o corpo dela de roupa e tudo na fonte, até deixar a mais jovem dos Baudelaire gritando de alegria. Como você deve saber, o riso dos bebês frequentemente é muito contagioso, e pouco depois não só Violet e Klaus estavam pulando na fonte, como o pai dos Baudelaire também, todos eles rindo e rindo enquanto Sunny se mostrava cada vez mais deliciada. Logo a mãe dos Baudelaire saiu do edifício, olhou atônita para a sua família encharcada e, rindo à toa por um momento, antes de pôr a bolsa no chão, chutou fora os sapatos e se juntou a eles na água refrescante. Eles riram durante todo o caminho de volta para casa, cada passo um squish molhado, e sentaram-se nos degraus da entrada para secar ao sol. Foi um dia maravilhoso, porém muito tempo atrás – tanto tempo que os próprios Violet e Klaus já tinham quase esquecido. Mas quando Sunny os lembrou, quase puderam ouvir o seu riso de recém-nascida e ver os olhares incrédulos dos banqueiros que passavam.
“É difícil acreditar”, disse Violet, “que os nossos pais eram capazes de rir daquele jeito, quando já estavam envolvidos com C.S.C. e todos os seus problemas.”
“A cisão deve ter parecido estar a um mundo de distância naquele dia”, disse Klaus.
“E agora...”, disse Sunny, e seus irmãos balançaram a cabeça concordando. Com o sol da manhã chamejando acima e o mar faiscando na margem da plataforma costeira, o ambiente em que se encontravam parecia tão longe dos problemas e da perfídia quanto naquela tarde na Fonte das Finanças Vitoriosas. Mas, mesmo no mais límpido dos dias, os problemas e a perfídia raramente estão tão longe quanto a gente pensa. Naquela tarde distante no distrito financeiro, por exemplo, os problemas podiam ser encontrados nos corredores do edifício com torres – onde entregaram à mãe dos Baudelaire um boletim meteorológico e uma carta náutica que revelaram, quando ela os estudou à luz de vela na noite, problemas muito maiores do que tinha imaginado – e a perfídia podia ser encontrada logo além da fonte – onde uma mulher disfarçada de vendedora de pretzel tirou uma fotografia da família a gargalhar e passou a câmera furtivamente para o bolso do paletó de um perito financeiro que se dirigia apressado a um restaurante, onde o rapaz do vestiário removeria a câmera e a esconderia em uma enorme taça de sorvete com frutas que certo dramaturgo iria pedir de sobremesa, apenas para uma garçonete de raciocínio rápido fingir que o creme do molho zabaglione tinha azedado e jogar o prato inteiro em uma lata de lixo no beco, onde eu estava sentado havia horas, fingindo procurar uma cadelinha perdida, que na verdade estava correndo para a entrada dos fundos do edifício com torres, removendo o seu disfarce, dobrando e guardando na bolsa – e naquela manhã na plataforma costeira não foi diferente. Os Baudelaire deram mais alguns passos em silêncio, apertando os olhos contra o sol, e então Sunny bateu com delicadeza na cabeça do irmão e apontou para o horizonte. As três crianças olharam atentamente e viram um objeto repousando meio torto na margem da plataforma costeira, e isso era problema, muito embora não parecesse problema no momento. Era difícil dizer com o que se parecia; dava só para afirmar que era grande, quadrado e irregular, e as crianças correram mais para perto, a fim de ver melhor. Violet foi na frente, pisando com cuidado em volta de alguns caranguejos que estalavam as pinças junto à plataforma; Klaus seguiu atrás com Sunny ainda nos ombros e, mesmo quando chegaram ao objeto, acharam difícil identificá-lo.
A primeira vista, o grande, quadrado e irregular objeto dava a impressão de ser uma combinação de tudo do que os Baudelaire sentiam falta. Parecia uma biblioteca, porque o objeto era nada menos que montes e montes de livros, cuidadosamente empilhados uns por cima dos outros em um enorme cubo. Mas também parecia uma invenção, porque, envolvendo o cubo de livros, do mesmo modo que um barbante envolve um pacote, havia tiras grossas que pareciam feitas de borracha, em vários tons de verde, e de um lado do cubo fora afixada uma grande aba de madeira deteriorada. E parecia igualmente uma fonte, pois vertia água por todos os lados, vazando através das páginas intumescidas dos livros e pingando na areia da plataforma costeira. Contudo, embora se tratasse de uma visão inusitada, as crianças não olharam para o cubo, e sim para alguma coisa no topo daquela estranha geringonça. Era um pé descalço, caído sobre um lado do cubo como se houvesse alguém dormindo em cima de todos aqueles livros, e os Baudelaire puderam ver, bem no tornozelo, a tatuagem de um olho.
“Olaf?”, perguntou Sunny, mas seus irmãos sacudiram a cabeça. Eles já tinham visto o pé do conde Olaf mais vezes do que gostariam de contar, e aquele pé era muito mais estreito e limpo que o do vilão.
“Suba nas minhas costas”, disse Violet para o irmão. “Talvez consigamos içar Sunny para o topo.”
Klaus assentiu, subiu cautelosamente nas costas da irmã, e então, muito devagarinho, pôs-se em pé nos ombros de Violet. Os dois Baudelaire formaram uma torre trêmula e Sunny esticou as mãozinhas e ergueu-se do mesmo modo como se içara para fora do poço do elevador na Avenida Sombria 667 não faz tanto tempo, e viu a mulher que estava deitada inconsciente no topo do monte de livros. Estava usando um vestido de veludo vermelho-escuro, raiado e encharcado por causa da chuva, e seus cabelos se esparramavam atrás dela como um largo leque emaranhado. O pé caído por cima de um lado do cubo estava torcido de um modo estranho, errado, mas afora isso ela parecia ótima. Os olhos estavam fechados e a boca franzida, mas a barriga, distendida e arredondada por causa da gravidez, subia e descia com a respiração calma e funda; as mãos, cobertas por longas luvas brancas, estavam docemente pousadas sobre o peito, como se ela estivesse reconfortando a si mesma, ou à sua criança.
“Kit Snicket!”, gritou Sunny para os irmãos abaixo dela, com a voz velada de espanto.
“Sim?”, respondeu uma voz esganiçada e rascante – uma palavra que aqui significa “irritante e tristemente familiar”. Saindo de trás do cubo de livros, uma figura avançou para saudar as crianças; Sunny olhou para baixo e franziu a testa enquanto a torre de Baudelaire mais velhos se virava para ficar de frente para a pessoa que os confrontava. Essa pessoa também estava usando um vestido talar – uma palavra que aqui significa “chegando até os calcanhares” –, raiado e encharcado, muito embora o vestido não fosse só vermelho, mas também laranja e amarelo, as cores se fundindo enquanto a pessoa se aproximava cada vez mais das crianças. Essa pessoa não estava de luvas, no entanto uma pilha de algas fora arrumada de forma a lembrar cabelos longos, que cascateavam horrendamente por suas costas, e apesar de a barriga da pessoa também ser distendida e arredondada, era distendida e arredondada de um modo estranho e pouco convincente. Teria sido muito inusitado se a barriga fosse genuína, pois era óbvio só de olhar para a cara da pessoa que não se tratava de uma mulher, e a gravidez só ocorre em machos raramente, muito embora o cavalo-marinho seja um animal que fica grávido de tempos em tempos.
Mas essa pessoa, chegando mais e mais perto da torre dos Baudelaire maiores e olhando furiosamente para a mais jovem, não era um cavalo-marinho, é claro. Se o estranho cubo de livros era um problema, então aquele homem era a perfídia, e como tão frequentemente é o caso em se tratando de perfídia, seu nome era conde Olaf. Violet e Klaus olharam para o vilão, Sunny olhou para Kit e então as três crianças olharam para o horizonte, onde outros ilhéus tinham avistado o estranho objeto e estavam vindo na direção deles. Por fim, os Baudelaire se entreolharam e se perguntaram se a cisão estaria assim tão distante, ou se eles tinham viajado um mundo de distância apenas para encontrar todos os problemas e perfídias do mundo olhando-os bem na cara.

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