10 de setembro de 2016

Capítulo catorze


Ô Mon, vieux capitaine, il est temps! Levons l’ancre!
Cepays nous ennuie, ô Mort! Appareillons!
Si le ciel et Ia mer sont noirs comme de l’encre,
Nos coeurs que tu connais sont remplis de rayons!

Para Beatrice 
Nós somos como barcos navegando pela noite – especialmente você.



O último registro na letra dos pais Baudelaire em Desventuras em Série diz o seguinte:

Como suspeitávamos, vamos ser náufragos mais uma vez. Os outros acreditam que a ilha deveria ficar longe da perfídia do mundo, e portanto este lugar seguro é perigoso demais para nós. Vamos partir em um barco que B construiu e batizou com o meu nome. Estou de coração partido, mas já estive de coração partido antes, e isto pode ser o melhor que posso esperar. Não podemos realmente proteger nossas crianças, aqui ou em qualquer outro lugar, portanto pode ser melhor para nós e melhor para o bebê se imergirmos no mundo. Aliás, se for menina vamos chamá-la de Violet, e se for menino vamos chamá-lo de Lemony.

Os órfãos Baudelaire leram esse registro uma noite depois de um jantar de salada de algas, bolinhos de caranguejo e cordeiro assado, e quando Violet acabou de ler todas as três crianças riram. Até a filhinha de Kit, sentada no joelho de Sunny, soltou um gritinho alegre.
“Lemony?”, repetiu Violet. “Eles teriam me chamado de Lemony? De onde tiraram essa ideia?”
“De alguém que morreu, presumivelmente”, disse Klaus. “Lembra-se do costume da família?”
“Lemony Baudelaire”, experimentou Sunny, e a criancinha riu de novo. A filha de Kit estava com quase um ano e se parecia muito com a mãe.
“Eles nunca nos contaram sobre um Lemony”, disse Violet, e passou as mãos pelos cabelos. Ela estivera consertando o sistema de filtragem de água o dia inteiro e estava muito cansada.
Klaus serviu mais água-de-coco para as irmãs, que as crianças preferiam beber fresca.
“Eles não nos contaram uma porção de coisas”, disse ele. “O que você acha que significa ‘já estive de coração partido antes’?”
“Você sabe o que significa ‘coração partido’“, disse Sunny, e então concordou com a cabeça quando a bebezinha murmurou “Abelardo”. A mais jovem dos Baudelaire era a melhor em decifrar o modo de falar um tanto inusitado da criancinha.
“Acho que ela quer dizer que devemos partir”, disse Violet.
“Deixar a ilha?”, disse Klaus. “E ir para onde?”
“Qualquer lugar”, disse Violet. “Não podemos ficar aqui para sempre. Aqui há tudo o que possamos precisar, mas não está certo ficar assim tão longe do mundo.”
“E sua perfídia?”, perguntou Sunny.
“Seria possível pensar que já tivemos perfídia suficiente para toda uma vida”, disse Klaus, “mas a vida é mais do que segurança.”
“Nossos pais partiram”, disse Violet. “Talvez devamos honrar sua vontade.”
“Chekrio?”, disse a bebê, e os Baudelaire a examinaram por um momento. A filha de Kit estava crescendo muito depressa, e explorava avidamente a ilha a cada oportunidade. Todos os três irmãos tinham de ficar de olho nela, em especial no arboreto, que ainda continha pilhas de detritos mesmo depois de um ano de catalogação. Muitos dos itens da enorme biblioteca eram perigosos para criancinhas, mas a pequenina nunca se machucara seriamente. Ela também ouvira falar em perigo, sobretudo no registro de crimes, desatinos e desventuras da humanidade que os Baudelaire liam em voz alta todas as noites, muito embora eles não tivessem lhe contado a história inteira. Ela não sabia de todos os segredos dos Baudelaire, e de fato havia alguns que nunca saberia.
“Não podemos nos abrigar aqui para sempre”, disse Klaus. “De qualquer modo, a perfídia virá dar nestas praias.”
“Estou surpresa que ainda não tenha acontecido”, disse Violet. “Uma profusão de destroços de naufrágios foi arrastada para cá, mas ainda não vimos um único náufrago.”
“Se partirmos”, perguntou Sunny, “o que encontraremos?”
Os Baudelaire silenciaram. Como nenhum náufrago chegara naquele ano, eles tinham poucas notícias do mundo além de alguns fragmentos de jornal que sobreviveram a uma terrível tempestade. A julgar pelas matérias, ainda havia vilões à solta no mundo, embora uns poucos voluntários também parecessem ter sobrevivido a todos os problemas que trouxeram os irmãos à ilha. As matérias, no entanto, eram d’ O Pundonor Diário, por isso as crianças não podiam ter certeza se eram acuradas. Pelo tanto que sabiam, os ilhéus tinham espalhado o Mycelium Medusoide, e o mundo inteiro poderia estar envenenado. Isso, porém, parecia improvável, pois o mundo, que se saiba, não importa o quão monstruosamente pudesse ter sido ameaçado, nunca sucumbiu por completo. Os Baudelaire também pensaram em todas as pessoas que esperavam ver de novo, muito embora, lamentavelmente, isso também parecesse improvável, se bem que não impossível.
“Não saberemos até chegar lá”, disse Violet.
“Bem, se vamos partir, é melhor nos apressarmos”, disse Klaus. O Baudelaire do meio levantou-se e caminhou até o banco, onde ele tinha construído um calendário que acreditava ser razoavelmente acurado. “A plataforma costeira vai inundar em breve.”
“Não vamos precisar de muita coisa”, disse Sunny. “Temos uma boa quantidade de alimentos não perecíveis.”
“Eu cataloguei uma boa quantidade de equipamento naval”, disse Violet.
“Eu tenho alguns bons mapas”, disse Klaus, “mas devíamos também deixar espaço para alguns dos nossos detritos favoritos. Há alguns romances de P. G. Wodehouse que eu estava pretendendo ler.”
“Projetos”, disse Violet, pensativa.
“Meu batedor”, disse Sunny, olhando para o item que Sexta-Feira escamoteara para ela muito tempo atrás, e que provara ser um utensílio muito útil, mesmo depois que a bebê superara a fase de comida batida.
“Bolo!”, gritou a criancinha, e seus tutores riram.
“Levamos isto?”, perguntou Violet, erguendo o livro que tinha lido em voz alta.
“Acho que não”, disse Klaus. “Talvez chegue algum outro náufrago, e continue a história.”
“De qualquer modo”, disse Sunny, “ele terá alguma coisa para ler.”
“Então estamos realmente partindo”, disse Violet, e eles realmente estavam. Depois de uma boa noite de sono, os Baudelaire começaram a se preparar para a viagem, e era verdade que eles não precisavam de muita coisa. Sunny conseguiu acondicionar uma grande quantidade de comida que seria perfeita para a jornada, e até deu um jeito de incluir sub-repticiamente alguns luxos, como um pouco de ovas que ela colhera de peixes locais e uma torta de maçã um pouco amarga mas ainda assim saborosa. Klaus enrolou diversos mapas em um cilindro caprichado e acrescentou vários itens úteis e interessantes da vasta biblioteca. Violet adicionou alguns projetos e equipamentos ao monte, e então selecionou um barco entre todos os destroços de naufrágios que estavam no arboreto. A mais velha dos Baudelaire ficou surpresa ao descobrir que o barco que parecia ser o melhor para a tarefa era o mesmo em que eles tinham chegado, embora, depois de terminar os reparos e prepará-lo para a viagem, ela afinal não tivesse ficado tão surpresa. Violet consertou o casco do barco, prendeu velas novas aos mastros e por fim olhou para a placa com o nome Conde Olaf; franzindo de leve as sobrancelhas, arrancou a fita e a removeu. Como as crianças tinham notado em sua viagem para a ilha, havia outra placa por baixo, e quando Violet leu o que estava escrito nela, e chamou seus irmãos e sua filha adotiva para vê-la, mais uma pergunta sobre as suas vidas foi respondida, e mais um mistério havia começado.
Finalmente, o dia da partida chegou, e quando a plataforma costeira começou a inundar, os Baudelaire carregaram o barco – ou, como diria o tio Monty, vaporetto – para a praia e o encheram com todos os suprimentos. Violet, Klaus e Sunny olharam para as areias brancas da praia, onde novas macieiras estavam crescendo. As crianças tinham passado quase todo o seu tempo no arboreto e, assim, o lado da ilha onde era a colônia é que agora dava a sensação de ser o “outro” lado da ilha, em vez de o lugar onde seus pais viveram.
“Estamos prontos para imergir no mundo?”, perguntou Violet.
“Só espero não imergir no mar”, disse Klaus com um sorrisinho.
“Eu também”, disse Sunny, e sorriu de volta para o irmão.
“Onde está a bebê?”, disse Violet. “Quero ter certeza de que estes coletes salva-vidas que projetei servem direito.”
“Ela quis dizer adeus para a mãe dela”, disse Sunny. “Logo estará aqui.”
E, de fato, a figura pequenina da filha de Kit podia ser vista engatinhando em direção às crianças e a seu barco. Os Baudelaire observaram-na se aproximar, perguntando a si mesmos qual seria o próximo capítulo na história daquela menininha, e isso realmente é difícil de dizer. Alguns afirmam que os Baudelaire reingressaram nas fileiras de C.S.C. e estão engajados em bravas missões até hoje, talvez sob nomes diferentes para evitar ser capturados. Outros sustentam que eles pereceram no mar, se bem que boatos sobre a morte de alguém afloram com grande frequência, e com grande frequência se provam irreais. Mas, seja como for, como a minha investigação acabou, nós com efeito chegamos ao último capítulo da história dos Baudelaire, mesmo que os Baudelaire não tenham chegado. As três crianças subiram no barco e esperaram a bebê engatinhar até a beira da água, onde pôde se colocar em posição vertical agarrando-se à popa. Logo a plataforma costeira iria inundar, e os órfãos Baudelaire estariam a caminho, imergindo no mundo e deixando esta história para sempre. Até mesmo a bebê agarrada ao barco, cuja história acabara de começar, logo iria desaparecer desta crônica, depois de pronunciar apenas umas poucas palavras.
“Vi!”, ela gritou, que era o seu jeito de chamar Violet. “Kla! Sun!”
“Não partiríamos sem você”, disse Violet, sorrindo para a bebê.
“Venha a bordo”, disse Klaus, falando com ela como se fosse uma adulta.
“Sua coisinha”, disse Sunny, usando um termo carinhoso que ela mesma inventara.
A bebê parou e olhou para a parte de trás do barco, onde tinha sido afixada a placa com o nome. Ela não tinha como saber isso, é claro, mas a placa tinha sido pregada na popa do barco por uma pessoa que estava exatamente no mesmo lugar onde ela estava agora – pelo menos, até onde minha pesquisa revelou. A criancinha estava em pé em um ponto na história de outra pessoa, durante um momento que era seu, porém ela não estava pensando nem na história distante no passado nem na sua própria, que se estendia futuro adentro como o mar aberto. Ela estava olhando para a placa, e sua testa estava franzida de concentração. Finalmente, ela pronunciou uma palavra. Os órfãos Baudelaire perderam o fôlego ao ouvi-la, mas não podiam dizer com certeza se ela estava lendo a palavra em voz alta ou apenas declarando o seu próprio nome, e certamente jamais ficariam sabendo. Talvez essa última palavra tenha sido o primeiro segredo da bebê, juntando-se aos segredos que os Baudelaire estavam guardando dela, e todos os outros segredos imersos no mundo. Talvez seja melhor não saber precisamente o que ela queria dizer com essa palavra, pois algumas coisas é melhor deixar no grande desconhecido. Algumas palavras, é claro, seria melhor deixar impronunciadas – mas não, acredito que não a palavra pronunciada pela minha sobrinha, uma palavra que aqui significa que a história acabou. Beatrice.

4 comentários:

  1. Kkk pensei q tinha acabado no capitulo 13

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    1. Pois é, esse último teve um capítulo a mais hueaheaheu

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  2. Meu Deus, ele fez esse suspense todo pra no final só falar que o nome da mãe das crianças era a Beatrice... Em momento nenhum da história ele citava os nomes...
    pra falar a verdade, fiquei um pouco decepcionada com esse final rs

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  3. Caraca... Mds que final...
    Eu já suspeitava que essa Beatrice que ele tanto falava era a mãe deles... Eu juro que tem um olho na minha lágrima por causa desse final...
    MAS SÃO TANTAS PERGUNTAS SEM RESPOSTAS QUE ME DEIXA FRUSTRADA ;-;

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