13 de setembro de 2016

Capítulo 9

Se eu não tivesse acreditado na versão que Mark me contou sobre o que aconteceu naquela noite na ponte Rocky Creek, passei a acreditar quando vi a expressão no rosto de Zack Farhat ao me ouvir dizer que Mark estava indo matá-lo.
Puro pânico. Por um segundo, ele colocou as mãos no colchão king-sized e começou a se levantar como se fosse realmente me seguir.
Nunca vi um indivíduo com tamanha expressão de culpa, alguém que sabia que fez a coisa errada e vinha esperando o que estava por vir. Zack – um garoto forte, moreno e bonito – estava aceitando o seu destino como um homem.
Pô, que bom, pensei. Não era o que eu estava esperando, mas que bom... é a primeira coisa boa que acontece hoje, na verdade. Talvez as coisas estejam começando a melhorar pra mim.
É claro que tirei conclusões cedo demais.
Não durou muito. E por que duraria?
Um segundo depois, Zack pareceu perceber alguma coisa por trás da sua neblina induzida por drogas e parou de se mover. O pânico foi embora e deu lugar a uma expressão que eu reconheci. Já havia visto aquela expressão nos rostos de centenas de caras que eram bem como ele.
Não. Esquece. Nada de vitória para a Suze. Aquele menino se achava mais esperto do que eu. Mais esperto do que todo mundo. E por que não se acharia? Havia matado duas pessoas e saído ileso. Tudo o que tinha de fazer era se ater à sua história, e pronto. Ou era o que ele achava.
Ele se sentou na cama novamente.
— Peraí — disse ele, arrastando a palavra como se tivesse umas cinco sílabas, no verdadeiro estilo chapado. — O Mark não tem como vir aqui me matar. Ele tá morto.
— Essa última parte você acertou — respondi. — A primeira, nem tanto. O Mark está morto, mas não muito feliz por ele e Jasmin terem sido mortos por você. Tá vendo, é por isso que menores de idade não podem fumar esse negócio, a não ser que estejam sob tratamento com a orientação de um médico. Faz com que fiquem esquecidos. — Dei um tapa na testa dele com as costas da mão quando falei esquecidos. — E burros. — Dei outro tapa na palavra burros.
— Ai. — Ele abaixou a cabeça e foi para o outro lado da cama para que eu não o alcançasse. — Para com isso. Do que você tá falando? Por que você acha que eu tenho alguma coisa a ver com...
— As mortes de Mark Rodgers e Jasmin Ahmad? Nossa, Zack, não sei. Talvez aquilo?
Apontei para a parede do outro lado do quarto, oposta às portas francesas que davam para a varanda com vista para o Oceano Pacífico (que naquele momento não parecia nada em paz, por causa da tempestade). Na parede, havia dezenas – talvez até centenas – de fotos da Jasmin, incluindo a mesma da sua lápide, que devia ter sido tirada para a formatura do último ano, visto que havia outras fotos com a mesma pose e roupa, e o mesmo sorriso confiante para a câmera.
Só que em vez de mandar aquelas fotos todas com os convites de formatura, a família em luto parecia tê-las enviado para amigos e familiares a fim de anunciar a sua morte.
Zack havia arrumado todas aquelas fotos em formato de coração ao redor de outra foto que mostrava os dois de braços dados. Parecia ser uma festa de Halloween, considerando que ele estava vestido de tigre e ela, de coelho (estimei que eles estavam no quarto ano, possivelmente a última vez que a Jasmin se deixou ser fotografada ao lado dele por vontade própria, pelo menos fotos não digitais).
Embaixo daquele mural, Zack havia acendido uma série de velas de devoção em uma pequena mesa, onde também colocou uma cópia do que parecia ser o livro de formatura deles, aberto na página que mostrava a destreza da Jasmin na equipe de corrida.
Imagina. Ele não era nada obsessivo.
— Se aquilo não for um santuário — falei —, então não sei o que é.
— E daí? — Zack parecia mal-humorado. — O que tem de tão estranho nisso? Ela era minha prima, e morreu. É isso que as pessoas fazem quando alguém que amam morre.
— É mesmo? E quanto você amava ela, Zack? O suficiente pra ter uma crise de ciúmes quando ela começou a namorar outra pessoa?
Isso o afetou. O olhar dele ficou mais sombrio, e a parte da frente da mandíbula começou a se projetar. Acho que ele estava tentando parecer másculo, mas era meio difícil para um moleque com tantos cordões de ouro... ainda mais jogando vídeo game. Ele pegou o controle de novo.
— Sai do meu quarto — disse ele, olhar fixado na tela. — Nem sei quem você é. E certamente não sei de que porra você tá falando.
— Acho que sabe exatamente do que estou falando, Zack. Você foi atrás deles na noite do acidente. Seguiu os dois até o restaurante, viu o Mark fazendo o pedido e a Jasmin dizendo sim.
Ele deu de ombros, ainda olhando para a tela. Os sons das mortes atormentadas que estava causando eram altos o suficiente para quase abafar o som da chuva lá fora.
— Boa tentativa, moça — disse ele. — Todo mundo no restaurante viu isso. Saiu no jornal.
— O que não saiu no jornal foi o que aconteceu depois que Mark e Jasmin foram embora do restaurante — falei. — Como você seguiu os dois para fora do estacionamento na sua... como foi que o Mark falou? Ah, sim. Na sua caminhonete monstro. Aí você acendeu o farol alto e ficou bem no rabo deles até forçar o carro contra o penhasco da ponte Rocky Creek porque a outra pista estava fechada.
Essa parte chamou a atenção dele. Seus dedos congelaram sobre o controle. O olhar dele, inquieto, veio parar em mim.
— Isso... isso não é verdade. — Mas o vacilo na voz dele (e o que disse depois) provaram o contrário. — E mesmo que fosse, e não é, não tem testemunha. Mark morreu. Jasmin também. Mark não pode fazer nada comigo porque ele está morto.
Foi nesse momento que as portas francesas da varanda se abriram com uma grande explosão.

Um comentário:

  1. O jesse é muito lindo e com essa pinta de nerd bonitão aiai é uma coisa

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