30 de setembro de 2016

Capítulo 8

Uma parte de Kylie queria empurrar a carta de volta para Holiday. Ela não tinha prometido esquecê-lo? Sabia que a amiga não a forçaria a pegar a carta. Será que já não tinha coisa demais em que pensar no momento? Por que iria complicar ainda mais a própria vida?
Holiday puxou a carta de volta e deixou-a de um lado da escrivaninha.
Olhando para a líder do acampamento, esperou ver desaprovação em seus olhos, porque, mais uma vez, Kylie não estava disposta a encarar seus problemas de frente. Mas tudo o que ela viu no rosto de Holiday foi compreensão.
— Não tenho certeza se quero ler — confessou Kylie.
— Por quê? — Holiday perguntou.
— Ele fugiu com outra garota.
— Não acho que ele pense em Fredericka como...
— Mas ela pensa nele assim. E, se ela se atira em cima dele... bem, ele é homem.
— Eu sei, mas nem todos os homens...
— Mas alguns são. E saber a diferença é como matemática – difícil. Você acha que entendeu tudo e depois descobre que chegou à resposta errada. E nem tente discordar, porque é por isso que você ainda não deu uma oportunidade a Burnett.
Holiday descansou o queixo na palma da mão e não discutiu com Kylie. Depois de vários instantes de silêncio, ela disse:
— Eu posso simplesmente guardá-la na gaveta e, se você decidir que quer ler mais tarde, poderá fazer isso.
Sim, Holiday poderia fazer isso, mas e Kylie? Será que ela realmente queria sair dali sem levar a carta? Conseguiria fingir que não se importava com Lucas? Que não se preocupava com ele desde que ele tinha ido embora, não se preocupava com o que ele não podia contar a ela, e que parte do que ele não podia contar envolveria Fredericka?
Mas, se ela ainda se importava com Lucas, então o que realmente sentia por Derek? Ou será que o que sentia por Derek era mesmo de verdade ou ele estava manipulando os sentimentos dela?
Ah droga! Será que a vida dela podia ficar mais complicada?
Ela podia muito bem levar a carta e deixar a coisa rolar, sabendo que seria como tinha de ser.
Kylie estendeu a mão e puxou a carta de sob a mão de Holiday. Depois de olhar para ela por alguns segundos, dobrou-a e guardou-a no bolso do jeans. Mais tarde, sozinha, quando estivesse pronta para cuspir no olho do problema, ela pensaria naquilo.
Quando olhou para Holiday, ela assentiu com a cabeça, como se achasse que Kylie tinha feito a coisa certa. Não que Kylie tivesse certeza disso. De muito pouca coisa na vida ela tinha certeza agora.
Elas voltaram a ficar em silêncio e, quando Kylie começou a se sentir desconfortável, Holiday tocou em outro assunto tão perturbador quanto o precedente.
— E o fantasma? Alguma novidade?
— Novidade? Sim, mas nada que ajude. — Kylie franziu a testa, com vontade de fugir desse problema também, como tinha feito com Derek e o padrasto. Mas a violência e a ameaça das visões não lhe davam alternativa. — Acho que ela foi torturada pelos seus raptores.
— Uau! — exclamou Holiday. — E você acha que isso realmente aconteceu ou ela só está querendo comunicar alguma coisa com essa cena?
— Acho que aconteceu. — Kylie mordeu o lábio, pensando no aviso de que aquilo aconteceria com alguém que ela amava se ela não fizesse alguma coisa. — Parecia muito real, como no sonho em que Daniel levava um tiro. Eu era ela no sonho. E eles se aproximavam de mim com umas facas estranhas. Senti uma facada e quando tentei me defender eles me amarraram. — Lembrando-se do sentimento de terror, Kylie percebeu seu coração acelerando. O pânico começou a crescer em seu peito outra vez.
Holiday estendeu o braço e tocou a mão de Kylie. Do seu toque irradiou-se uma sensação reconfortante que subiu pelo braço de Kylie. O medo represado no coração dela esgueirou-se como um camundongo assustado. E, como por encanto, o pânico foi diminuindo até se transformar num sentimento menos avassalador.
Kylie olhou para a líder do acampamento.
— Obrigada, mas isso não vai resolver nada. É como um band-aid num ferimento à bala.
— Eu sei — disse Holiday, franzindo a testa. — Mas, quando tudo o que você pode oferecer a alguém é um toque reconfortante, é isso que você quer fazer.
Kylie soltou um longo suspiro.
— O que vai acontecer se eu não desvendar esse enigma?
A mão de Holiday, pousada no braço de Kylie, ficou mais quente, como se ela sentisse que Kylie precisava de outra dose de calma.
— Você aceita que fez tudo o que estava ao seu alcance e segue em frente.
O absurdo do que Holiday estava dizendo, aliado à responsabilidade que pesava sobre os ombros de Kylie, de repente pareceu demais para ela. Kylie puxou o braço, afastando-o da mão de Holiday.
— Não, eu não poderia fazer isso... Não poderia viver em paz com a minha consciência. Quer dizer, se entendi bem, alguém vai morrer. Morrer de verdade, e não vai ser uma morte fácil. — Todos os problemas da vida de Kylie começaram a saltar de um lado para o outro na cabeça dela, como bolas de pingue-pongue. Seus olhos se encheram de lágrimas. Ainda doía pensar no funeral da avó; ela não aguentaria perder mais ninguém. — Simplesmente não posso fracassar. Não tenho essa opção.
A mente de Kylie começou a dar voltas, tentando descobrir quem podia estar em perigo. Seria sua mãe? Alguém da sua família? Alguém do acampamento? Ou mesmo Holiday? Ah, Deus, e se fosse Lucas ou Derek? Ela olhou para a porta e lutou contra uma vontade irresistível de sair correndo dali.
Holiday limpou a garganta.
— Embora a gente nunca queira fracassar, o nosso dom não é garantia de que podemos ajudar alguém. Às vezes temos que aceitar que não somos capazes de consertar as coisas.
Kylie balançou a cabeça.
— Talvez você se conforme com isso, mas eu não posso. — Ela mordeu o lábio até quase sangrar. — Eu deveria ter recusado esse dom. Não estou à altura dele. Devia tê-lo mandado de volta, com um bilhete dizendo, “obrigada, mas não quero”. — O bolo em sua garganta ficou maior, comprimindo suas amídalas. — É tarde demais para recusá-lo?
— Acho que sim. Você se abriu para ele quando...
Kylie se levantou tão rápido que a cadeira de madeira se virou e bateu chão, com um estrondo que ecoou pelo pequeno escritório.
— Kylie, espere! — A voz de Holiday a perseguiu enquanto ela corria para a porta, mas ela não prestou atenção. Dane-se! Ela tinha de encontrar um jeito de decifrar a mensagem do fantasma. Tinha de descobrir, caso contrário, alguém que ela amava morreria e Kylie não conseguiria mais encarar a si mesma se isso acontecesse.
Ainda com a garganta apertada de emoção, ela subiu os degraus da sua cabana bem a tempo de ver o Sol finalmente nascendo no céu. Os raios dourados de luz batiam em suas costas e projetavam uma sombra alongada sobre a varanda. Quando ela deu outro passo, o Sol deve ter se erguido um pouco mais no horizonte, porque a sombra pareceu dançar no assoalho da varanda. Sombras dançantes a faziam se lembrar... da cachoeira.
Ela prendeu a respiração. Precisava ir até a cachoeira. Por mais que parecesse loucura, era como se ali fossem lhe dizer alguma coisa que a ajudaria a encontrar as respostas. Ela deixou a ideia mergulhar no seu cérebro exaurido. E como o Sol às suas costas, o primeiro raio de esperança despontou dentro dela.
Inspirando uma grande golfada de ar pelo nariz, ela de repente se sentiu revigorada, cheia de energia.
Ela podia ir até a cachoeira. Só não queria ir sozinha. Seu olhar se voltou para a porta da cabana. Por que teria que ir sozinha? Ela tinha amigas.
Com fantasmas ou sem fantasmas, elas a ajudariam se ela pedisse.
É verdade que já tinha pedido antes e elas se recusaram, mas desta vez era diferente. Desta vez iria implorar. Elas não se recusariam, não é? Só havia um jeito de descobrir.
Entrou, apressada, pela porta da frente, passou voando pelo seu gatinho com mania de perseguir tornozelos e escancarou a porta do quarto de Della.
— Preciso de você. Acorda.
Ela viu Della levantar a cabeça e fitá-la com olhos cheios de sono. As manhãs não eram a melhor hora do dia para Della.
Em seguida, Kylie correu até a porta de Miranda e a abriu com ímpeto.
— Miranda. Acorda. Preciso de vocês duas.
Miranda se apoiou num cotovelo. Seus olhos estavam inchados de tanto chorar, como se ela tivesse passado metade da noite soluçando sobre o travesseiro – o que, conhecendo Miranda, era provavelmente verdade. O coração de Kylie se apertou pela amiga e ela quase disse, “Deixa pra lá”. Mas depois voltou atrás, pois realmente queria as duas amigas com ela, Miranda e Della. E talvez Della estivesse certa: era hora de Miranda parar de choramingar pelos cantos e começar a superar a dor.
— Por favor... — Kylie pediu antes que Miranda tivesse chance de resmungar qualquer coisa.
Kylie foi até a mesa da cozinha esperar pelas duas, mas estava ansiosa demais para se sentar. Ficou andando de lá pra cá, esperando que as duas amigas se levantassem, para ela começar a implorar.
— É melhor que seja importante — resmungou Della, irrompendo na cozinha e desabando numa cadeira. — Você sabe que horas são? Não são nem seis ainda. É nessa hora que eu durmo mais gostoso.
Miranda saiu do quarto segundos depois, usando uma camiseta, shorts e chinelos de coelho. Kylie encarou os chinelos de Miranda; as orelhas sacudiam a cada passo, enquanto a garota sonolenta arrastava os pés até uma cadeira vazia. Depois de se acomodar, ela olhou para cima.
— O que foi? — murmurou.
— Somos uma equipe, não somos? — Kylie perguntou. — Estamos sempre prontas para ajudar umas às outras. Não é isso o que sempre dizemos?
— Por que tenho a impressão de que isso é uma convocação? — Della baixou a cabeça, batendo a testa na mesa de carvalho. Se qualquer outra pessoa tivesse batido a cabeça na madeira com a mesma força, provavelmente teria desmaiado ou pelo menos ficado com um galo do tamanho de um ovo.
— Só diga o que quer de nós. — Miranda dobrou os braços sobre a mesa e descansou o queixo sobre o punho. O cabelo multicolorido, esparramado sobre o tampo da mesa.
Kylie olhou para Miranda e Della, ainda com a cabeça voltada para baixo e a testa apoiada na mesa, e seu coração se contraiu. Se elas dissessem não, ia doer.
Della deve ter ouvido o coração acelerado de Kylie, porque levantou a cabeça e a encarou.
— Desembucha, Garota Fantasma! Será que é tão ruim assim?
Engolindo em seco, Kylie obedeceu. Desembuchou.
— Preciso que vocês venham comigo à cachoeira. Eu só quero...
— Ah, nem vem com essa! — Della exclamou.
— Sem chance... — acrescentou Miranda ao mesmo tempo, reclinando na cadeira.
— Mas eu tenho que ir — disse Kylie.
— Então vá! — Della respondeu, acenando com a mão na direção da porta.
Kylie engoliu o nó que se formou na sua garganta.
— Não quero ir sozinha.
— Então você quer que a gente se sacrifique também — rebateu Della.
— Não vai acontecer nada — Kylie insistiu.
— Então por que temos que ir? — perguntou Miranda, com uma cara emburrada.
— Nada de ruim vai acontecer — repetiu Kylie, sentando-se numa cadeira, já sem esperança diante da atitude das amigas.
— Quem disse? — perguntou Della.
— Eu estou dizendo — Kylie respondeu. — Eu só... só não quero ir sozinha.
— Porque está com medo — Della insistiu. — E por um motivo muito bom. Você não sabe o que fazem os anjos da morte?
Kylie hesitou.
— São eles que julgam os sobrenaturais. — Ela repetiu o que tinha ouvido, mas a verdade é que não entendia muito bem os anjos da morte. Como podia entender se ninguém queria falar sobre eles? Bem, ninguém menos Holiday, e ela só tinha contado que nunca encontrara esses anjos cara a cara.
— Isso mesmo, são eles que nos julgam e às vezes determinam a punição também — explicou Miranda. — Eu conheço uma garota, Becca. Ela estava... brincando de jogar feitiços nas pessoas que a incomodavam. Pessoas que, na verdade, não mereciam ser enfeitiçadas. Talvez ela estivesse agindo mal, mas, que droga!, seus feitiços eram mais um aborrecimento do que qualquer outra coisa. Então, dois dias depois, ela saiu de casa e suas roupas pegaram fogo. Num estalar de dedos, ela quase virou cinzas. Hoje está desfigurada, toda cheia de cicatrizes, e todo mundo diz que foram os anjos da morte que lhe deram uma lição.
— Ou talvez fosse a vingança de alguém que ela enfeitiçou — retrucou Kylie.
— Todos eles passaram por um interrogatório no Conselho das Bruxas. Provaram que eram inocentes.
Kylie discordou com a cabeça.
— Nós nem sabemos se os anjos da morte existem mesmo. Talvez sejam só fantasmas mais poderosos — afirmou Kylie, repetindo outra coisa que Holiday tinha lhe dito. Se Della e Miranda soubessem da metade do que Daniel tinha feito, levando-a a participar dos seus sonhos, e tirando-a do corpo e fazendo-a incorporar no dele para que pudesse reviver sua morte, bem, elas provavelmente pensariam que ele era um anjo da morte.
Della inclinou a cadeira para trás, apoiando-a sobre duas pernas.
— Se você não acredita que eles existam, então por que quer ir até lá?
— Porque se houver a menor chance de existirem, e se forem mais poderosos do que os fantasmas comuns, então talvez sejam capazes de me ajudar a salvar quem eu amo. — Ela nunca tinha explicado nada disso a Della ou Miranda. Como poderia, se surtavam cada vez que ouviam a palavra “fantasma”?
— Salvar quem? — Della, balançando na cadeira apoiada nas pernas de trás, olhou ao redor do cômodo, como se elas tivessem companhia.
— Não sei. Poderia ser você. — Kylie olhou no fundo dos olhos negros de Della. — Ou você. — Ela apontou para Miranda. — Existe um fantasma que vive me dizendo que alguém que eu amo vai morrer. E cabe a mim...
— Espero que não seja uma de nós — disse Miranda.
Della bufou.
— Talvez seja uma de nós e vamos morrer porque você quer nos levar à cachoeira e nos oferecer em sacrifício para os anjos da morte.
— Você sabe que eu não faria isso. — A frustração pairava ao redor dela ainda mais forte do que antes. Ela batia o pé descalço no chão de ladrilhos, tentando ser paciente, mas estava lhe faltando paciência ultimamente.
Della balançou a cabeça.
— Quer dizer, já é bastante ruim ter que aceitar que fantasmas aparecem o tempo todo pra você, mas sair por aí, atrás de anjos da morte... — Ela deixou a cadeira cair sobre as quatro pernas num baque. — Não quero ficar com um monte de cicatrizes na cara. Não quero mesmo.
Kylie fitou as duas amigas.
— Tudo bem, mesmo que eles existam, o que vocês duas fizeram de tão ruim a ponto... de eles atearem fogo nas suas roupas? — Ela fitou Miranda. — Você não está jogando feitiços em qualquer um. — Depois voltou a olhar para Della. — E você não...
— Você não sabe o que eu já fiz! — interrompeu-a Della, com os olhos mais brilhantes. — Droga!, nem eu mesma sei. Quando a gente se transforma em vampiro, fica um tempo completamente sem noção das coisas e eu fiquei assim. Não sei o que aconteceu durante dois dias inteiros. Nem quero saber. Por isso não critico ninguém; por que iria perder tempo julgando os outros? E por isso não vou a lugares onde dizem que há anjos da morte. Talvez você jamais tenha cometido um pecado, mas eu não sou perfeita.
Kylie notou o sentimento de culpa na voz da amiga.
— Eu não acho que você tenha feito nada tão ruim.
— Eu não teria tanta certeza. — Miranda fez uma careta. — Veja como ela é cruel comigo — lamuriou Miranda.
Della encarou Miranda.
— Ah, pelo amor de Deus, nunca fui cruel com você.
— Que mentira... — respondeu Miranda. — Você não tem feito outra coisa nestes últimos dias. Eu estou sofrendo e tudo o que você faz é gozar da minha cara.
— É, mas eu faço isso porque gosto de você. Na esperança de que você veja o quanto está sendo babaca. Chorando por causa de um cara que fez todo aquele estardalhaço só porque um dos amigos dele beijou você. Você devia sair por aí beijando todos os outros amigos dele só pra mostrar que não está nem aí. Mas fica chorando pelos cantos...
— Ei, eu não sou babaca! — Miranda levantou seu dedo rosado.
— Eu disse pra você nunca apontar essa droga de dedo cor-de-rosinha pra mim! — Della pulou da cadeira e começou a gritar alguma coisa sobre como todas as bruxas deviam queimar no inferno.
Kylie ficou sentada ali, ouvindo as duas trocarem insultos. Então, frustrada e completamente sem paciência, ela se levantou, pegou seu tênis ao lado da porta e saiu. Parou na varanda para calçá-lo.
Sentando-se nos degraus da varanda, enfiou o pé direito. Os dedos ficaram espremidos dentro do calçado, como seu coração dentro do peito, e ela afrouxou os cadarços antes de amarrá-los. Será que Della e Miranda tinham percebido que ela havia saído? Nesse instante, percebeu que a frustração e a impaciência não eram as únicas emoções que disputavam espaço em seu peito. Também havia a mágoa.
Será que não percebiam o quanto ela precisava delas naquele momento? Enquanto amarrava o tênis, teve a esperança de que mudassem de ideia.
Que decidissem que a amizade das três era forte o suficiente para confiarem nela.
Pé direito devidamente amarrado, Kylie calçou o outro pé e recomeçou todo o processo. Ainda conseguia ouvir as duas lá dentro gritando. Ainda não tinham percebido que ela havia saído da cabana. Ou talvez tivessem e não ligassem. Aquilo a magoava, também.
Se qualquer uma das duas precisasse dela, ela não as decepcionaria.
Ficou de pé, percebeu que ainda vestia a blusa do pijama junto com o jeans e estava sem sutiã, mas não se importou. Saltou os degraus da varanda.
Percorrendo a trilha num passo firme, ela se lembrou de que nem sabia direito como chegar à cachoeira. Mas algo dentro dela dizia que conseguiria chegar lá. Ela faria isso. E faria sozinha.
Kylie fez uma parada rápida na margem do bosque, insegura quanto à direção a tomar. Ela se lembrou de que podia ouvir a queda d’água da pedra onde ela e Derek tinham ido. Também se lembrava de ter ouvido a queda quando estava no riacho onde havia pegadas de dinossauro. A cachoeira devia estar entre os dois pontos, por isso ela continuou seguindo a trilha. Só tinha andado alguns metros sob o manto espesso formado pela copa das árvores quando a luz difusa da manhã enfraqueceu, tornando-se uma sombra nevoenta de um tom cinza violáceo. Ela podia sentir a neblina no rosto.
O calor das primeiras horas da manhã tinha afugentado a friagem da noite, forçando-a a se dispersar na forma de neblina. Mas a cerração agarrava-se às árvores e pairava a alguns metros do solo. Ela sentiu um calafrio de apreensão na nuca. Mas, crente de que era só paranoia, ignorou a sensação e continuou seguindo em frente. Mais rápido.
Depois de uns quinhentos metros, ela se aventurou a sair da trilha de terra batida, esperando que o barulho da cachoeira a atraísse, como parecia ter feito antes. Ouviu e continuou a correr. Nada de cachoeira. Só o som da sola do tênis batendo no chão de terra, acompanhado dos barulhos costumeiros da natureza.
Kylie continuou avançando por entre as árvores, encontrando uma trilha ou abrindo outra enquanto enveredava pela floresta. Os espinhos dos arbustos se agarravam ao seu jeans, como se tentassem impedi-la de avançar. Mas ela não diminuiu o passo. Ocasionalmente, um galho de árvore um pouco mais baixo parecia surgir de repente no caminho, mas ela se abaixava a tempo ou o afastava com os braços.
Lembrou-se do dia em que tentou acompanhar o passo de Della por um trecho da floresta muito parecido com aquele, na primeira noite da fogueira. Quase não conseguia andar. Isso já não acontecia mais. Agora suas pernas se moviam em sincronia, com passos sucintos e eficientes.
O pensamento lhe ocorreu mais uma vez: mudança. Tudo estava mudando. Ela sentia a mudança no modo como se movia, na rapidez com que andava; sentia a mudança rio modo como sorvia o oxigênio dos pulmões pela boca. O que mais mudaria?
Aquilo não era importante, pelo menos não no momento, disse a si mesma. A única coisa importante era decifrar a mensagem do fantasma. Salvar a vida de alguém era prioridade. Depois ela podia se preocupar consigo mesma.
Kylie piscou e então sentiu o rosto ser nocauteado por um punhado de folhas de um galho baixo. Ouviu um som alto de algo se quebrando e pôde jurar que era o galho, mas não quis acreditar. Quanto mais se embrenhava na floresta, mais densa ficava a vegetação e mais rápido ela corria. E mais rápido o seu coração batia, com a mistura de medo e expectativa. Todo o seu corpo formigava com a adrenalina.
Será que ela era louca de ir à cachoeira? Será que Della e Miranda estavam certas? E se os anjos da morte vissem seus pecados e quisessem castigá-la?
Buscou mentalmente os erros que tinha acumulado ao longo da vida: mentir para a mãe, ver uma garota praticando bullying na escola e não fazer nada, atropelar um esquilo na aula de direção. Quanto mais ela pensava, mais longa parecia sua lista de pecados.
Será que ela só estava arranjando encrenca indo à cachoeira? Ou salvando alguém que amava de algo terrível?
Nesse momento ela ouviu. Ou melhor, não ouviu. Os únicos sons na floresta eram o baque do tênis no solo e o barulho dos galhos batendo no seu jeans e os espinhos se agarrando a ele, enquanto corria. Ela parou e se abraçou. Exausta, dobrou o corpo para a frente. O ar silencioso estava pesado, até mais do que a neblina que pairava um pouco acima do chão e agora serpenteava pelas árvores. E foi nesse instante que ela percebeu. Não estava sozinha.

2 comentários:

  1. Sei como a Kylie se sente...

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  2. Iiiiih amiga... se for o lobo... Sla...
    Só acho que tu deveria correr! Muito mais.

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