18 de setembro de 2016

Capítulo 8

Já estava completamente escuro quando cheguei em casa, mas falei para mim mesma que não estava preocupada com o aviso de tia Pru. Apesar da quantidade impressionante de poder psíquico que Lucia havia mostrado na escola, ela pareceu concentrada em focar tudo em Becca, não em mim.
“Crianças perdidas e sofrendo às vezes podem ser muito cruéis.” Isso podia facilmente resumir Paul e a forma como estava se voltando contra Jesse... e contra mim.
Minha mãe também usara a palavra perdido para se referir a ele. Só que Paul não era uma criança.
Mesmo assim, ainda que Lucia tivesse escolhido me atacar de novo, o Condomínio Paisagem Montanha Carmel – nome equivocado concebido pela empresa que gerenciava o prédio onde eu morava – não seria o lugar ideal para isso. A tal “paisagem” era, na verdade, apenas uma vista dos vinhedos na base das montanhas que, mais para a frente, viravam a cadeia Santa Lúcia. Era contra seus picos estonteantes que as ondas massivas do Pacífico batiam no Big Sur, bem mais adiante na estrada à beira-mar.
Não era uma grande coincidência que o lugar onde eu morava tinha vista para as Santa Lúcia, xarás do fantasma que eu queria mediar? Não era um nome tão comum.
Fingindo um ânimo que eu estava longe de sentir, acenei para meus vizinhos e me juntei a eles no que já havia se tornado rotina: o caminhar arrastado depois do trabalho, desde nossos carros até os apartamentos, o destrancar simultâneo das portas a fim de chegar a nossas geladeiras, TVs, nossos sofás.
Mesmo assim, gosto de meu apê. Não é nada de mais, apenas um quarto em um prédio de trinta apartamentos perto da estrada G16. Kelly Prescott Walters provavelmente daria uma risada de escárnio ao pensar em viver ali, e não em um apartamento de dois quartos em um condomínio na praia Pebble, com vista para o mar e ofurô privado (se bem que agora deve morar em uma mansão de 20 milhões com o marido bilionário).
No entanto, se o trânsito estivesse bom, meu apartamento ficava a menos de quinze minutos da praia Carmel (e de minhas aulas e do trabalho). E os outros inquilinos – recém-casados com filhos pequenos, ou solteiros como eu, divorciados ou ainda namorando, em sua maioria – eram gente boa. Eu gostava de ir para casa, o único lugar onde jamais tinha de me preocupar em ser atacada pelas almas dos mortos, visto que “espíritos malignos não podem adentrar uma casa não habitada, a não ser convidados”.
Foi o que disse Sir Walter Scott – que escreveu Ivanhoé e um bando de outros livros que o padre Dominic tentava muito me fazer ler – e é (em geral) verdade. Há várias maneiras de convidados indesejados (tanto paranormais quanto humanos) entrarem em uma casa.
Mas há também inúmeras precauções que você pode tomar para mantê-los longe.
Não estou falando apenas de crucifixos e mezuzás nas paredes e portas de entrada (apesar de eu ter os dois. Tomo todas as precauções que posso). Antes de me mudar, contratei minha própria firma de segurança para trocar todas as trancas do apartamento (caso algum inquilino anterior – ou suas ex – tenham se “esquecido” de entregar as chaves).
Depois, instalei travas de metal nas portas de vidro da varanda, mesmo que eu morasse no segundo andar. Verdade, era muito pouco provável que alguém fosse escalar a varanda do apartamento de baixo para invadir minha casa.
Mas minha preocupação não era com ladrões.
Depois disso, salpiquei uma mistura de sal grosso com ácido bórico (o tipo em pó vendido em lojas de construção) ao longo de todas as portas e janelas externas, assim como nas dobras das bancadas da cozinha. O sal era para afastar Pessoas Mortas Não Obedientes. O ácido bórico era para baratas. Pensei: por que não matar duas pestes indesejadas de uma só vez? Como Paul disse, sou uma menina moderna.
É claro que nada disso impediu que o padre Dominic fosse fazer uma purificação geral usando água benta (a possibilidade de o ácido bórico se solidificar me preocupou, mas deu tudo certo).
Não falei para ele que Pru, tia de Cee Cee, já havia aparecido e feito uma limpeza Wicca, abençoando o lugar com fumaça de sálvia, e que Jesse havia colocado um centavo reluzente de cobre virado para cima em todos os cantos do apartamento, admitindo, com vergonha, que era algo que suas irmãs costumavam fazer (é claro que, na época dele, era metade de um centavo, e as moedas eram realmente de cobre. Hoje, são feitas de zinco). Ele não acreditava nisso, mas por que não?
de fato, por que não? Todo mundo tem superstições. Eu não ia julgar a de ninguém. Tenho várias também.
Assim que tranquei a porta, tirei o sapato plataforma, abri o sutiã e dei comida a Romeo, o rato de laboratório que eu roubara de minha turma de Condicionamento Operante depois de treiná-lo, com sucesso, para correr em um labirinto acionar uma trava de alimentação.
O professor havia avisado para não nos apegarmos aos ratos. Não é válido, para pesquisadores, se apegar emocionalmente aos animais de laboratório, do mesmo jeito que não é bom que terapeutas ou médicos se liguem emocionalmente a seus pacientes. A fim de que o profissional sirva ao cliente da melhor maneira, ambos precisam permanecer distanciados.
Além disso, quase todas as conquistas na história da Medicina devem seus avanços fundamentais a testes com animais. Mais cedo ou mais tarde, a maioria dos ratos de laboratório acabam sendo dissecados.
No entanto, só fiz aquela aula porque era um pré-requisito. Eu não planejava seguir carreira em pesquisa clínica, assim como não planejei me apegar emocionalmente a meu rato (isso estava virando um padrão irritante: como mediadora, eu também não planejava me apegar emocionalmente a nenhum dos fantasmas que tentei mediar, mas vejam o que aconteceu).
Assim que os exames terminaram, troquei Romeo por um rato parecido que achei em um pet shop.
Os ratos são muito mais limpos e inteligentes do que as pessoas pensam. Romeo e eu construímos uma conexão pessoal genuína e totalmente única. Ele é treinado a fazer as necessidades em cima de papéis, e gosta de dormir em meu ombro enquanto assisto à TV. De jeito nenhum eu ia deixar meu amiguinho no laboratório para que um aluno de doutorado fizesse experimentos com ele – e possivelmente o matasse – durante o verão.
Paul tinha razão: eu provavelmente seria a pior conselheira do mundo.
Mas visto que a opinião dele não me interessa muito, não estou preocupada.
Enquanto Romeo mastigava alegremente o jantar feito de cenouras e nozes sem sal em sua gaiola, eu me joguei no sofá (também conhecido como a cama de Gina) e liguei para o celular e para a casa do padre Dominic. Claro que ele não atendeu.
Deixei uma mensagem, que eu esperava mesclar o tom correto de profissionalismo e de urgência.
— Oi, padre D, sou eu. A irmã. E já deve ter falado com o senhor sobre um suspeito terremoto que tivemos hoje no escritório... Então, não foi bem isso. Mas não se preocupe, está tudo totalmente sob controle. Quero dizer, grande parte. Enfim, uma outra coisa meio estranha aconteceu... nada sério. Eu só queria saber se o senhor já ouviu falar sobre uma maldição antiga do Livro dos mortos... alguma coisa relacionada à ressurreição e ao que acontece quando você destrói o lugar de descanso de um fantasma?
Eu não podia revelar exatamente sobre o que estava falando, claro, porque sabia que, assim que o fizesse, o padre Dominic perceberia que eu me referia a Jesse. O velho teria um surto e ligaria para ele. O tipo de dor de cabeça que eu não precisava.
— Enfim, me ligue quando ouvir esta mensagem — continuei. — Muito obrigada. Espero que o senhor esteja se divertindo com os outros diretores de escolas na sua conferenciazinha. Tchau!
Eu desliguei, certa de que não receberia uma resposta tão cedo. O padre Dominic era quase tão ruim quanto Jesse ao lidar com telefones, embora pelo menos Jesse gostasse de mandar mensagem de texto. O celular do padre Dominic não tinha nem essa função. Era um daqueles telefones para pessoas idosas que não conseguem ver bem, com botões extremamente grandes. Dei o celular para ele após uma semana de pura frustração, quando ele não conseguiu responder a nenhuma mensagem porque não sabia como escutar as gravações. Pelo menos o celular novo tinha um botão enorme que indicava quando uma mensagem era deixada. Torci para que ele percebesse e apertasse o botão.
Chequei meu celular e vi que havia recebido várias mensagens enquanto dirigia para casa. Ainda não tinha notícias de Shahbaz Effendi, aluno de egiptologia, mas disse a mim mesma que isso não significava que ele estivesse me ignorando. Podia estar dormindo. Podia estar fazendo escavações arqueológicas. Podia estar em outro fuso horário, do outro lado do mundo. Não necessariamente ele achou que eu era uma mentirosa esquisita.
Pelo menos Cee Cee havia me respondido. Esteve ocupada desde a última vez em que a vi, pouco tempo atrás.

Cee Cee
Você faz alguma ideia de quantas mulheres/meninas/ bebês com o primeiro nome Lucia morreram no estado da Califórnia nos últimos 10 anos? É um dos nomes femininos mais comuns nos E.U.A. (significa “luz”).
A não ser que você consiga me dar parâmetros de pesquisa mais específicos (cidade/estado/ano/causa de morte), vou levar dias para filtrar isso.
Nov 16 5:45 PM

Definitivamente, eu teria de comprar um cartão de presente mais caro.
Uma coisa era certa, no entanto: eu não ia contar para ela que Adam MacTavish estava ignorando seus telefonemas e mensagens, mas respondeu rapidamente ao e-mail que enviei para ele:

Para: suzesimon@academiamissao.edu
De: adam.mactavish@michiganstate.edu
Assunto: Sua Casa
Data: Novembro 16 8:33:07 PM EST

Oi, Suze! Bom receber uma mensagem sua. Ainda bem que está tudo bem ou não tão bem, acho, considerando as novidades sobre sua antiga casa. Sinto muito sobre isso.
Obrigado pelos parabéns. Cee Cee está certa, realmente fiz o exame de Direito. Não é uma coisa tão incrível quanto as pessoas pensam. Se bem que devo admitir que tenho comemorado bastante desde que descobri ;-)
Mas você teve sorte de me encontrar em um momento sóbrio. Dei uma olhada no anexo que você mandou, e, embora propriedades/leis de construção não sejam minha especialidade, pelo que entendi sua velha casa foi comprada (ela e outras ao redor) pelas Indústrias Slater, que é uma empresa privada, com vendas privadas. Então eles não estão violando nenhuma regra de propriedade.
Além disso, as casas estão situadas fora da zona de preservação histórica de Carmel-bythe-Sea, em Carmel Hills.
Você pode conseguir que a casa seja declarada um marco histórico, mas isso vai levar pelo menos sessenta dias. Só então você vai ter como impedir a demolição. No entanto, o trabalho está marcado para começar na semana que vem.
Em outras palavras, Suze, lamento dizer: você está ferrada.
Estarei em casa na semana que vem para o feriado de Ação de Graças. Vamos nos encontrar com Cee Cee para tomar um café no Clutch, como nos velhos tempos!*

Adam
*Vivo esquecendo que a tia dela mudou o nome! Quis dizer, no Médium Feliz.

Bem, isso era desanimador, mas não tão ruim quanto pensei. Pelo menos havia alguma coisa que eu podia fazer. Era melhor que o que eu vinha imaginando: eu na frente de minha antiga casa, enfrentando as escavadeiras de Paul com meu taco de beisebol.
Não perderia as esperanças... pelo menos não por enquanto.
Eu me virei no sofá para dar uma olhada na piscina através das portas de vidro da varanda. Daquele ângulo, vi que as luzes do jardim externo haviam sido ligadas, assim como as da piscina. A água artificialmente azul me chamou. Eu sabia que estava cheia de cloro e químicos, e provavelmente de xixi dos filhos dos vizinhos, mas não liguei. Eles a mantinham aquecida quando fazia frio, e nadar ali era um paraíso comparado a quarenta minutos no aparelho elíptico da academia.
E também me ajudava a pensar. Eu tinha muito a pensar.
Isso porque, apesar das mensagens de Cee Cee e de Adam, e de ter recebido algumas mensagens de colegas de turma perguntando se eu ia ao happy hour (que coraçõezinhos alcoólatras mais queridos), além de um convite de meu meio-irmão Jake para passar em sua casa a fim de “beber e tal” (mas somente se eu levasse Gina depois que ela saísse do trabalho. Jake era muito transparente – vinha dando em cima dela havia anos), recebi também algumas mensagens de voz preocupantes.
A primeira era da irmã Ernestine, que queria saber como – mas como! – eu pude sair do escritório e deixá-lo daquele jeito, e o que eu achava que devíamos fazer com as trigêmeas, minhas meias-sobrinhas.
A outra mensagem era da mãe das trigêmeas, Debbie, esposa de meu meio-irmão Brad, querendo saber quem a irmã Ernestine achava que era para sugerir que suas filhas talvez tivessem déficit de atenção quando, na verdade, eram apenas menininhas naturalmente animadas e criativas.
Depois disso veio uma de Brad, perguntando se eu podia por favor tirar “aquela velha pentelha da irmã Ernestine” de cima dele porque ela estava arruinando seu casamento. E queria saber se eu ia ao “beber e tal” de Jake, e se podia ir comigo, caso eu fosse – qualquer coisa que o tirasse de perto de Debbie, que o estava enlouquecendo.
Ótimo. Muito bom.
Isso fazia contraste direto com seu irmão mais novo, David (que eu chamava de Mestre em segredo, visto que era o mais inteligente de meus meios-irmãos), que me mandou uma foto de si no seu quarto em Harvard, usando – por motivos que não explicou – sutiã e maquiagem.
Fiquei sem saber se ele estava saindo do armário ou questionando estereótipos de gênero para algum projeto de aula. Conhecendo David, eu diria que podia ser qualquer um dos dois, ou os dois, ou nenhum.
Mas respondi à mensagem dele imediatamente – ao contrário das mensagens de seus irmãos mais velhos, que ignorei – com um sinal de joia.
E por fim – e nunca menos importante – havia uma mensagem de Jesse:

Jesse
Quieres jugar al médico?
Nov 16 5:47 PM

Eu sabia o que médico significava. Tinha quase certeza de que jugar era brincar ou jogar, como em jugar al tenis.
Ele estava me provocando? Estava realmente perguntando se eu queria brincar de médico?
Eu estava respondendo...

Mucho gusto!
Nov 16 6:15

... quando meu celular vibrou, Indicando que eu havia recebido outra mensagem.
Cliquei na tela ansiosamente, torcendo para que fosse o padre Dominic (ou o aluno de egiptologia), ligando com as repostas para todos os meus problemas (ou, melhor ainda, Jesse num intervalo do trabalho mandando mensagem simultaneamente), mas meu sorriso congelou no rosto.
Não era Jesse.

El Diablo
Vá em frente, não me responda mesmo, não. Sei que vou te ver na sexta às 8. Não me obrigue a fazer uma coisa do que vamos nos arrepender depois, Suze. Quero dizer, VOCÊ vai se arrepender.
Nov 16 6:42 PM

El Diablo era o apelido que dei para Paul em meu celular. O nome me pareceu apropriado, já que eu tinha certeza de que ele era Satanás.
Depois disso, me senti enjoada e sabia que não conseguiria mais ficar no apartamento, mesmo que estivesse tão aconchegante, com meu rato de laboratório de estimação mascando cenoura e meu namorado me provocando em espanhol.
Meu namorado que talvez não fosse mais existir em alguns dias.
Eu precisava liberar a energia. Precisava clarear a mente. Precisava me livrar da sensação de que havia sido tocada por alguma coisa pegajosa.
O jantar é o melhor horário para cair na piscina de meu prédio. O resto das pessoas estão na academia, ou esquentando jantares no micro-ondas, reunidas em torno de seus móveis Ikea, assistindo a Jeopardy, ao jornal ou a algo no Netflix.
Não sou viciada em exercícios físicos, mas preciso me manter em forma – não apenas para poder caber em minhas roupas, mas para brigar com todas as pessoas mortas (e chantagistas sexuais) que ficam me pentelhando.
Saí do apartamento, fui até a área da piscina e tirei os chinelos, a camiseta e a calça de yoga, deixando tudo na espreguiçadeira, junto da toalha. Então entrei na água reluzente e aquecida, e afundei até o topo da cabeça (embora meu cabeleireiro, Christophe, sempre me implorasse para usar toca de natação. Alega que estou arruinando as luzes pelas quais ele cobra uma fortuna).
Acontece que tocas de natação são feias e apertam minha cabeça, de modo que não consigo pensar. Tenho meus melhores momentos de reflexão quando estou nadando.
Embaixo d'água, eu não escutava o trânsito da G16, nem os grilos nas plantas decorativas que a empresa que gerenciava o prédio colocou em volta da piscina. Não escutava o bater dos talheres no apartamento 2-B (eles deixam a porta da varanda aberta durante o jantar, assim como eu).
Comecei a nadar, e logo só escutava o barulho da água e de minha própria respiração.
Quando terminei, decidi me secar e dirigir até a loja de ferramentas de construção – tinha uma Home Depot aberta até às 22h em Monterrey – a fim de comprar todos os sacos de sal grosso que tivessem (provavelmente achariam que eu era louca. Nevava tão pouco em Carmel que era considerado um evento apocalíptico). Depois eu colocaria sal em cada centímetro da casa 99 na Pine Crest Road, assim como na terra em torno dela. Salpicaria até nos jardins das casas vizinhas.
Eu não tinha provas de que daria certo, mas que outra escolha eu tinha? Meu apartamento era cheio de sal para espantar os espíritos conturbados. Salgar o terreno onde atos obscuros aconteceram não manteria o mal contido?
Isso provavelmente não deteria o demônio por muito tempo, mas, se eu também conseguisse levar o padre D para mais uma de suas bênçãos na casa – e talvez, enquanto isso, abençoasse Jesse também – talvez desse certo.
Não que eu achasse minimamente que Jesse ficaria quieto para ser abençoado – pelo menos não sem uma explicação. Ele ia à missa todo domingo, assim como nos dias sagrados. Se havia um demônio dentro dele, seria preciso uma baita bênção para fazê-lo sair. Eu provavelmente teria de arrumar um imã, um rabino e uma sacerdotisa Wicca, além do padre Dom, para me livrar da maldição.
Se ao menos eu tivesse chutado Paul na garganta em vez de na virilha, naquela noite da formatura. Se tivesse quebrado um osso da mandíbula e o matado, provavelmente teria conseguido alegar autodefesa. Se eu acabasse com ele agora que era tão conhecido – graças à revista Los Angeles e aos pais dele, que o estavam processando – o caso talvez fosse gerar muita repercussão, e, se eu fosse a julgamento, provavelmente passaria um tempo na cadeia... embora bem menos que Jesse, como sou branca e mulher.
Mas qualquer tempo na cadeia é tempo demais para alguém que só consegue dormir com três travesseiros e lençóis cem por cento algodão.
O que eu estava pensando? Jamais conseguiria matar outro ser humano... pelo menos não um que eu conhecia.
Ou conseguiria? Se fosse para proteger tudo – e todos – que eu amava?
Quando foi que as coisas ficaram tão complicadas? Se não fosse um babaca do passado aparecendo para me chantagear sexualmente, era um espírito-mirim homicida estraçalhando meu escritório. Pessoas não obedientes, vivas e mortas, pareciam sempre chegar do nada e arruinar minha vida. Será que eu nunca conseguiria relaxar e curtir o momento, só para variar?
É imerecido – para usar um dos termos favoritos da irmã Ernestine – que eu estivesse pensando exatamente nisso quando uma PMNO apareceu na água ao meu lado.
Entretanto, eu estava tão absorvida pelos pensamentos obscuros em relação a Paul, escutando minha própria respiração e batimentos cardíacos, vendo a sombra de meu corpo no chão da piscina enquanto eu dava minhas voltas, que não percebi, apesar do aviso de Pru uma hora antes.
Só me dei conta quando as mãos seguraram meu pescoço, como garras, me arrastando para o fundo.
E assim, de repente, era eu quem estava prestes a morrer.

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