13 de setembro de 2016

Capítulo 8

— Parece que os Farhat estão dando uma festa.
— O quê?
A voz do Jesse me assustou. Eu estava hipnotizada pelo som dos limpadores no para-brisas conforme passávamos pelas ruas alagadas de Carmel-by-the-Sea. Estava ruminando sobre como, em uma só noite, vi vasos de plantas sendo jogados em mim, arruinei um pedido perfeito de casamento, fui assediada por um ex e causei uma mudança catastrófica no clima no Norte da Califórnia.
E o mais surpreendente era que aquele não era o pior Dia dos Namorados da minha vida.
— Falei que parece que os Farhat estão dando uma festa.
Parecia mesmo. A casa no endereço que Parisa nos deu ficava numa rua à beira-mar tão exclusiva que as casas ali eram anunciadas com valores de sete dígitos (quando ficavam à venda, o que era raro). A casa enorme dos Farhat estava tão acesa que parecia uma loja de brinquedos no Natal, e buquês de balões de hélio em formato de coração – agora um tanto desengonçados por conta da chuva – decoravam a cerca, pontuando a fila de carros pela entrada toda, até o final da rua.
Evidentemente, os Farhat não iam deixar que o tempo – ou a morte de uma prima amada – atrapalhasse a diversão deles.
— Que bom — falei. — Dá pra gente entrar como se tivesse sido convidado. Pena que não trouxemos aquela garrafa de espumante. Teria sido um bom presente pra despistar.
Jesse estacionou o mais perto que podia da casa, mas ainda assim chegaríamos encharcados.
— Isso é uma das várias coisas que amo em você, Suzannah — disse ele. — Você sempre é tão educada com os pais dos jovens que sem querer ajudou a colocá-los em perigo.
— Foi assim que eu fui criada.
Conferi meu reflexo no espelho do parasol e vi que minha maquiagem e cabelo estavam em ordem, embora em breve fossem ser arruinados pela chuva. Tinha um guarda-chuva no banco de trás, e eu ia usá-lo com certeza, mas não era esse o tipo de chuva que estava caindo. Era uma chuva do mal, do tipo que cai de lado.
— Vamos? — perguntei.
— Vamos.
Invadir festas para as quais não fui convidada – mas agir como se tivesse todo o direito do mundo de estar ali – é mais um dos meus vários dons. Basicamente, é só ter confiança; e os sapatos certos, é claro. Se você estiver usando os sapatos certos, pode fazer o que quiser.
E naquela noite eu estava usando o meu par favorito: botas pretas plataforma de couro com bico reforçado em aço e salto grosso que basicamente berravam não se mete com esta garota. Não sei por que Mark Rodgers não se intimidou.
O fato de estar entrando na festa dos Farhat com o Jesse ao meu lado também ajudava.
Ele é tão alto e bonito, e – temos que admitir – parece ser tão de outro mundo, embora viva neste agora, que as pessoas não conseguem parar de olhar, achando que já o viram antes. (Viram, sim. Ele se parece com todos os poetas românticos espanhóis do meado do século XIX, ou soldado ou capitão de navio que morreu tragicamente logo após ter o seu retrato pintado por algum artista que se encantara por eles. Todo mundo já viu figuras como essas em museus ou em alguma mansão, programas de TV da PBS, ou coisa do tipo.)
Aquela noite não foi diferente. Uma senhora de cabelo escuro que vestia calças largas e muitas joias de ouro veio logo falar conosco assim que entramos – nós na verdade voamos porta adentro por causa do vento forte.
— Oh, olá! — exclamou ela. — Vocês conseguiram chegar!
— Conseguimos — falei, tirando a jaqueta de couro. Eu a entreguei para a pessoa que estava espreitando, de calça preta, camisa branca, colete preto e gravata-borboleta... o uniforme padrão para equipes contratadas para festas em Carmel.
Fiquei aliviada ao ver que a festa estava a todo vapor lá dentro da casa, que era agressivamente moderna e estava lotada de pessoas de meia-idade bem-vestidas, todas com taças de vinho e conversando o mais alto possível. Tentavam se escutar além do som da chuva no teto, das ondas estourando do outro lado da porta corrediça que dava na piscina e das teclas que berravam no piano de cauda, ao qual um cantor profissional bradava como era “incrííível” e “maravilhoooso” que estivéssemos prestigiando sua música.
Com uma olhada rápida, reconheci o prefeito de Carmel, o chefe de polícia e o chefe da promotoria pública, todos batendo papo com suas esposas.
Se um espírito louco e assassino tivesse entrado ali para matar o filho dos Farhat naquela última hora, duvido que eles ainda estariam na festa, muito menos naquele clima animado – caso notassem, é claro. As Pessoas Mortas Não Obedientes nem sempre anunciam a sua presença de maneira tão óbvia quanto Mark fez no cemitério.
Mesmo assim, eu tinha quase certeza de que ele ainda não alcançara a doce vingança que queria, senão a tempestade lá fora já teria diminuído.
E tudo indicava que o Zack estava em casa, pois Jesse e eu vimos o Beamer e o Jeep que Parisa tinha descrito, além de uma caminhonete F150 que parecia pertencer a um adolescente – a parte da frente havia sido levantada para ficar ainda mais alta sobre os pneus gigantes, e tinha um adesivo enorme de um touro bufando (mascote do time de futebol de uma das escolas da região) no vidro traseiro. Os três estavam estacionados perto da casa.
Examinamos a caminhonete mais de perto (o máximo que foi possível no escuro e na tempestade), mas não encontramos nada mostrando que ela poderia ter se envolvido em um assassinato automobilístico na Big Sur no mês anterior... a não ser que o garoto fosse amigo de algum mecânico extremamente talentoso (e rápido).
Sim, ele podia ter pedido para algum amigo ir buscá-lo em casa naquela noite. Era possível que ele e seu “grupo de amigos” – é como chamam agora, em vez de facção – tenham ido ao cinema, ou coisa do tipo.
Mas será que os pais dele o teriam deixado sair naquela chuva?
— A gente veio na incerteza mesmo — continuei falando para a anfitriã, examinando o salão de teto alto para ver se havia algum sinal de alguém da idade do Zack. No entanto, só consegui ver mais balões de hélio no formato de coração e uma bandeira que dizia OBRIGADO, DOADORES! Decorada com vários corações. Eu não fazia ideia de quem tinha doado o quê, e também não me importava. — Ainda mais na estrada à beira mar... você não ia acreditar no tamanho das ondas. É por isso que as pessoas colocam bolsas de areia nas entradas. Mas chegamos!
A senhora – era mais velha, e tinha luzes tão lindas no cabelo que fiquei com inveja – tinha de ser a Sra. Farhat. Estava radiando orgulho de proprietária.
— Maravilhoso! — disse ela. — Quanto mais, melhor. Sabe, nós damos esta festa todo ano, e nunca nos decepcionamos com o número de pessoas que aparece, embora seja no Dia dos Namorados. Algumas pessoas acham um pouco mórbido, mas as doenças cardíacas, afinal de contas, são...
— ...a causa número um de mortes no mundo — completou Jesse, entregando o casaco e nosso guarda-chuva encharcado para o ajudante. — Para falar a verdade, acho muito astuto da sua parte fazer um evento beneficente para as doenças do coração no Dia dos Namorados, Sra. Farhat. Por ano, mais mulheres morrem de doenças cardiovasculares do que de todas as formas de câncer somadas. Mas elas são tão fáceis de prevenir com dieta e exercícios corretos.
— Sim — disse a Sra. Farhat, instantaneamente encantada. Jesse apertou a mão que ela havia estendido para ele. — Exatamente, eu sei. Minha mãe morreu de doença cardíaca. Quando descobrimos quão doente ela estava, nem o meu marido teve tempo de ajudá-la. Venho tentando chamar atenção para o assunto desde então. Obrigada. E você é quem?
— Hector de Silva — disse ele, e olhou bem fundo nos olhos dela. — Dr. Hector de Silva.
A expressão dela não teria se iluminado mais se ele tivesse dito que era Bond. James Bond.
— Um médico? — disse ela, segurando o seu braço. — Por que não nos conhecemos antes? Você certamente não trabalha no hospital daqui, ou eu o conheceria...
— Não, não trabalho aqui — disse ele. — Pelo menos não por enquanto. Mas espero que sim, um dia.
— Um dia! — A Sra. Farhat já o estava levando para longe de mim, em direção à sala lotada. — Com mãos que nem as suas, meu jovem, você pode trabalhar em qualquer lugar, pode acreditar. Eu sei dessas coisas, conheço médicos. O meu marido é cirurgião cardíaco. Deixe-me apresentar você a ele. Rashid. Rashid!
Jesse foi logo sugado pela multidão de admiradores, como esperei que aconteceria. Ele era bem crescido e conseguiria se virar.
Enquanto isso, eu precisava dar uma bisbilhotada.
— Crudité? — perguntou uma garçonete ao passar. Estava segurando uma bandeja de legumes crus decorados. — São bons para o coração.
— Hum — respondi. — Claro. — Peguei um rabanete em formato de coração e o engoli. Não sou muito fã de legumes crus, exceto quando estão ralados dentro de um taco, mas aquele estava surpreendentemente bom. — Obrigada. Você pode me dizer onde fica o banheiro?
— Claro. — A menina apontou para o final do corredor. — À esquerda. Não tem erro.
— Obrigada. Ah, e você sabe se Zack, o filho dos Farhat, está aqui? Um amigo dele me pediu pra dar oi.
A menina sorriu amigavelmente, ansiosa para ser prestativa.
— Ele está aqui, sim. Estava na cozinha agora há pouco. Acho que levou comida pro quarto. — Olhou para a escadaria curvada que ficava na frente da porta, do outro lado da entrada, indicando onde ficava o quarto do Zack. Não acho que tenha feito de propósito, no entanto. — Quer dizer, não este tipo de comida. Ele fez uma pizza no microondas.
— Muito obrigada — falei, e peguei outro rabanete. — Humm, isso está uma delícia.
— Foi comprovado que consumir frutas e legumes, combinados com o hábito de praticar atividade física regular e evitar o uso nocivo de álcool e tabaco reduz o risco de doenças cardiovasculares — disse ela, obviamente porque a anfitriã mandou.
— Nossa — falei —, que ótimo. Obrigada.
— De nada! — Ela seguiu em direção à próxima vítima, quer dizer, convidado, e eu segui para a escadaria como tivesse todo o direito de estar indo para o segundo andar. A única forma de ser flagrado xeretando é não demonstrar confiança enquanto estiver fazendo isso. Se uma pessoa flagrar você em um lugar onde não deveria estar, é só fingir que está com raiva. É culpa dela que você esteja no lugar errado porque outra pessoa falou que era ali que você devia estar. Como é que você ia saber que aquela pessoa estava errada?
Sério. Funciona (quase) sempre.
Precisei entrar em apenas quatro quartos (dois a mais do que o normal) para achar o Zack. Ele nem se deu ao trabalho de trancar a porta, o idiota.
— Sério? — falei ao entrar no quarto. Ele estava sentado na cama na frente de uma televisão gigante de plasma jogando vídeo game e fumando em um vaporizador. — Eu podia ser qualquer pessoa; sua mãe, seu pai, o chefe de polícia. Ele está lá embaixo, sabia? É boa ideia mesmo fumar isso agora?
Zack olhou para mim com olhos vermelhos de tanta maconha.
— É e-juice. Quem diabos é você, e o que quer?
— Isso não é e-juice, e sendo menor de idade é melhor você ter receita pra isso, a permissão dos seus pais. Senão está violando o código de saúde e segurança da Califórnia e pode perder o direito de dirigir veículos. Todos os seus veículos.
Essa informação fez com que ele abaixasse o vaporizador e engolisse saliva com força.
— Meu nome é Suze Simon — continuei —, e por mais que eu não consiga acreditar no que digo, estou aqui pra salvar você. Agora levanta antes que o Mark Rodgers chegue e mate você.

3 comentários:

  1. Suzy sempre tão delicada...
    (Eu escrevo Suzy com y, tá, eu prefiro assim.)

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  2. tão sutil Suze mds o goroto vai pirar😂
    ass: mary singer

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  3. Tão delicada como coice de mula!

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