30 de setembro de 2016

Capítulo 7

Kylie torceu para que toda aquela confusão pudesse de algum modo terminar bem – e que seu traseiro fosse a única coisa que saísse machucada.
— Seja sincera — ordenou Perry.
Miranda hesitou antes de responder.
— Eu... eu não correspondi.
Della inclinou a cabeça para mais perto da orelha de Kylie e cochichou:
— Ela está mentindo.
Perry deu um passo à frente e estudou a fisionomia de Miranda, como tentasse descobrir se podia acreditar nela.
— Por que eu não acredito em você? — Ele fez uma pausa. — E mesmo que não tenha correspondido, você não fez nada para que ele parasse.
Miranda hesitou e então seus ombros caíram como se ela reconhecesse a derrota. Kylie percebeu que ela tinha decidido jogar limpo.
— Não, eu não fiz nada para ele parar. E, sim, talvez eu tenha correspondido um pouquinho. Mas...
— Isso é tudo o que eu precisava saber.
Dor e decepção transpareceram nos olhos de Perry e por um segundo Kylie se perguntou se era o mesmo sentimento que ela tinha sentido quando viu Trey colado a outra garota. Depois foi a dor de ver Mandy beijar Derek. E não se podia esquecer da ocasião em que ela tinha descoberto que Lucas havia fugido com Fredericka.
— Não é justo! — murmurou Miranda.
— Ah, pode não ser justo, mas é tão ruim quanto o que você fez! — rebateu Perry — Poderia ter sido bom se fosse entre nós — Ele se virou e começou a se afastar.
Estava a uns três metros de distância quando Miranda o chamou.
— Não quer saber por que não fiz nada para ele parar de me beijar?
Perry voltou-se para ela e a encarou.
— Estou mais curioso para saber por que você acha que eu me importaria.
Miranda pareceu perder o fôlego diante das palavras de Perry. Então deu vários passos na direção dele.
— Eu não fiz nada para que Kevin parasse porque... estava cansada esperar você me beijar.
— É mesmo? — Perry avançou, pondo um fim à pequena distância que havia entre os dois. Seu braço direito a enlaçou pela cintura e ele a puxou para junto dele. Não fez uma pausa nem hesitou. Ele a beijou – não um selinho apenas. Pareceu a Kylie que se tratava do melhor tipo de beijo, o mesmo que Derek lhe dera na noite anterior. O tipo de beijo que uma garota pode sentir da ponta dos pés até o último fio de cabelo. E pelo jeito como Miranda se apoiou no peito de Perry; Kylie pode adivinhar que seu corpo todo correspondia.
— Uau! — Kylie murmurou, sorrindo.
— É... uau! — Della se inclinou para mais perto. — Acho que Perry arranjou um par.
Kylie mordeu o lábio para não rir.
— Se isso fosse um filme, haveria uma música tocando ao fundo.
— Eu poderia cantar — brincou Della, com um sorriso malicioso.
— E acabar com todo o clima... — respondeu Kylie, devolvendo a brincadeira. — Eu ouvi você cantando no chuveiro uma vez.
Rindo, as duas olharam novamente para o casal se beijando.
Perry afastou os braços de Miranda e deu um passo para trás. O jeito abrupto com que interrompeu o beijo pareceu estranho. E não foi só Kylie quem notou. Perry se afastou tão rápido que Miranda quase perdeu o equilíbrio.
Ele encarou Miranda com uma expressão que não se esperaria ver no rosto de alguém que acabou de beijar a garota dos seus sonhos. A raiva e a mágoa que Kylie tinha percebido antes nos olhos de Perry não se dissiparam com o beijo. Agora, ele parecia ainda mais furioso.
— Isso... — ele disse, o tom de voz refletindo a emoção nos seus olhos — foi só pra mostrar que valeria a pena ter esperado por mim.
— Valeria? — perguntou Miranda, com a voz trêmula.
— Pode apostar. — Perry se virou e começou a se afastar. Mas enquanto andava ele estendeu o braço para trás e mostrou a Miranda o dedo médio.
— O que ele quer dizer com isso?! — perguntou Miranda, chocada.
— Adivinha! — respondeu ele, sem olhar para trás.
Miranda deu meia-volta e se aproximou das amigas. Ela pôs a mão na boca e seus olhos começaram a se encher de lágrimas.
— Mas que droga... — o coração de Kylie estava apertado por causa da amiga.
— Babaca! ... — gritou Della para Perry.
Holiday veio correndo pela trilha. Ela parou e olhou para as três amigas, enquanto Perry se afastava.
— O que aconteceu? — perguntou.
— Nada — respondeu Della.
Holiday olhou de Della para os olhos lacrimosos de Miranda, que observava estática, Perry ir embora. Então a líder do acampamento olhou novamente para Della.
— Eu ouvi.
— Tudo bem... quase nada — respondeu Della, dando de ombros. Como se percebesse o tumulto emocional de Miranda, Holiday aproximou-se e passou o braço pelos ombros da garota.
— Vamos lá, que tal uma conversa?


— O que está fazendo? — Della perguntou, entrando na cozinha cambaleando de sono às duas da manhã.
Kylie desviou os olhos da tela do computador e fitou a amiga.
— Usando uma marreta para abrir outra janela.
Della deu um passo para trás.
— Você andou tendo um daqueles sonhos barra-pesada de novo?
Kylie sorriu.
— Não. Estou pesquisando para ver quantos Brightens existem na região de Dallas.
— Quantos o quê? — perguntou Della, recostando-se na mesa da cozinha.
— Brightens. O sobrenome do meu pai era Brighten e minha mãe me disse que seus pais moravam em Dallas quando eles se conheceram. Como Daniel não pode me dizer o que eu sou, vou descobrir por mim mesma.
— Mas eu pensei... Você não disse que ele era adotado?
— Isso mesmo — Kylie voltou a atenção para a tela do computador franziu a testa. — Droga. Existem mais de cem Brightens na região metropolitana de Dallas. Quem ia adivinhar que era um nome tão comum?
— Se ele foi adotado, então como isso pode ajudá-la a descobrir o que você é? — Della perguntou, se curvando para olhar a tela.
— Talvez eles me ajudem a descobrir quem são os pais verdadeiros dele.
— Eu queria ser uma mosquinha na parede para ouvir essa conversa “Olá, vovô e vovó, sou a neta que vocês nunca conheceram, mas agora que eu sei que adotaram o meu pai que morreu antes de eu nascer, não estou nem aí com vocês. O que eu quero mesmo é encontrar os meus verdadeiros avós.”
Kylie olhou carrancuda para Della.
— Você não está ajudando em nada.
— Só estou mostrando como vejo a situação.
— Bem, então eu preferia que você ficasse quieta. — Kylie cerrou seus olhos e tentou se agarrar ao fiapo de esperança que ainda tinha. Mas lá no fundo estava com medo de que Della estivesse certa. As chances de encontrar os Brightens eram quase nulas. Procurá-los para perguntar sobre o pai biológico quando ela nem devia saber que ele era adotado! Bem, seria preciso mais do que uma marreta para abrir essa janela.
— Ei — chamou Della, cutucando o ombro de Kylie. — Imprima esses números e Miranda e eu podemos ajudá-la nesses telefonemas.
Kylie olhou novamente para Della.
— Você faria isso?
— Você me deu o seu sangue, não deu?
— É verdade — disse Kylie, voltando a fixar os olhos na tela do computador. Então ela pegou mentalmente a marreta outra vez e apertou o botão de imprimir.


— Me solte! Me solte!
Dois dias depois, algo fez com que Kylie acordasse sobressaltada. Sem saber direito por que estava se debatendo na cama, ela abriu os olhos. O vapor da sua própria respiração flutuava acima da sua cabeça num padrão ondulante. O ar gelado do quarto revelava que horas eram. Amanhecia.
Ela puxou as cobertas até o pescoço e fechou os olhos. E, então, bum! A lembrança do sonho desabou sobre ela.
Me solte! Me solte!
Ela ouviu o eco dos seus próprios gritos, como se estivessem ricocheteando nos cantos escuros do quarto. Seu coração acelerou, pulsando contra o peito como um animal capturado numa armadilha. Tum. Tum. Tum.
Ela agarrou o cobertor com as duas mãos e mentalmente lutou para não ser puxada de volta para o pesadelo. Seus esforços foram inúteis. O sonho se tornou realidade.
Tiras de tecido prendiam seus braços como se alguém tentasse mantê-la amarrada. Piscando, ela tentou se concentrar, mas sua visão parecia prejudicada. Tudo parecia prejudicado. Sua cabeça girava. Ela contou uma, duas, três figuras borradas e embaçadas na frente dela. Chutou com as duas pernas, mas uma lentidão esmagadora comprometia a sua força.
Esforçou-se para se soltar, mas as figuras pairando acima dela se multiplicaram. As mãos agarraram seus membros mais rápido do que ela podia se mover. As amarras em torno dos seus pulsos ficaram mais apertadas. Incapaz de se mexer, ela observou com horror quando outra figura embaçada se aproximou dela com uma faca.
— Não! — Seu próprio grito a arrancou do pesadelo. Abrindo os olhos, ela fechou os punhos e olhou para o teto, com receio de que, se piscasse, seria arrastada de volta.
— É só um sonho. Só um sonho — repetiu várias vezes. Virando-se ela tentou se levantar, mas a vertigem do sonho parecia ter dominado seu corpo. Ela teve que se reclinar na cama.
— É só um sonho. Só um sonho. — Contou as respirações e, só quando a temperatura do quarto subiu, ela tentou se levantar novamente. A onda de vertigem passou, mas o pânico persistiu. Sua mente recapitulou rapidamente as imagens apavorantes, bombeando medo nas suas veias. Então ela percebeu com horror que, no sonho, ela era a mulher. Era o fantasma.
Agarrando seu jeans, ela o vestiu apressada, sem trocar a blusa do pijama. Sem se incomodar em pôr os sapatos ou um sutiã, correu para fora do quarto e saiu da cabana. Seu coração ainda estava na boca quando ela chegou aos degraus da varanda. Apesar da hora, a escuridão era como um manto negro sobre o céu e só alguns raios de luz começavam a tingir o horizonte.
Kylie pegou a trilha até a cabana de Holiday, mas se lembrou de que a líder do acampamento chegava ao escritório logo ao amanhecer. A facilidade e rapidez com que ela caminhava deveriam ser reconfortantes, não só serviram como uma lembrança de que tudo na vida dela não parava de mudar. E ela não sabia para onde essas mudanças a levariam.
A meio caminho do escritório, seus pulmões finalmente começaram a exigir mais oxigênio. Respirando grandes golfadas de ar, ela dobrou os joelhos ligeiramente e descansou as palmas nas coxas. Fitando os pés descalços, lutou para impedir que as imagens dos sonhos não passassem como um filme de terror na sua cabeça.
— Foi só um sonho — sussurrou para si mesma em meio ao silêncio da madrugada.
E foi então que ela notou. A quietude. O silêncio sepulcral.
O tipo de silêncio que significava que ela não estava sozinha. Como não sentiu a temperatura cair, deduziu que não era um espírito. Lembrou-se do vampiro que ousara invadir o acampamento. O mesmo que Burnett insistia em dizer que poderia tê-la atacado facilmente caso fosse essa a sua intenção. E se ele tivesse voltado para terminar o serviço?
Ela ficou ereta. Seu primeiro impulso foi correr.
O segundo foi gritar.
O terceiro, não tão forte quanto os outros dois, foi deixar de bancar a garotinha indefesa e enfrentar como adulta quem quer – ou o que quer – que fosse.
Antes que tivesse tempo de optar pela alternativa número três, o mundo ao seu redor voltou à vida. Reconfortando-se com o coaxar dos sapos, o piar ocasional de um passarinho e o zumbido dos insetos, ela conseguiu expulsar o medo do peito. Não havia dúvida de que os últimos dias a tinham deixado meio desconfiada. Um segundo de silêncio na sinfonia do amanhecer não significava que ela estava sendo seguida.
Ou pelo menos não por um vampiro. Nem por algum motivo de que se lembrasse... Ela voltou o olhar para a borda da floresta, onde árvores se enfileiravam, como guardas protegendo a floresta. Nenhum lobo de olhos dourados espreitava na escuridão. Nem outra criatura da noite. Obviamente, a única coisa que a seguia no momento era sua própria paranoia. Intensificada pelo pesadelo.
Soltando o ar dos pulmões, ela recomeçou a caminhar na trilha. Depois de alguns passos, ouviu algo. Antes que pudesse reagir, uma lufada do ar frio da manhã a atingiu.
Preparando-se para lutar por sua vida, com o pensamento fixo nos perigosos vampiros e determinada a provar que não era uma presa fácil, Kylie levantou um pouco os braços e assumiu uma posição de defesa.
Então ela viu.
Não um vampiro.
Um pássaro gigantesco – um cruzamento de uma enorme garça-azul que só podia ter existido numa época pré-histórica – estacionou seu traseiro sem penas na frente dela e bateu as asas, que deviam ter de dois a dois metros e meio. Chocada e mal acreditando no que via, Kylie ofegou. A criatura era quase um metro mais alta do que ela. Sem saber direito o que fazer, ela deu um passo para trás. As fagulhas começaram a se formar no mesmo instante.
Cruzando os braços sobre o peito, ela se sentiu uma idiota por não ter percebido no ato.
— Isso não tem graça nenhuma! — Kylie sibilou quando Perry apareceu.
— O que não tem graça? — ele perguntou, num tom sério que ela raramente via nos lábios de Perry.
— Você quase me matou de susto, isso não tem graça. Estou realmente cansada, farta de...
— Desculpe. Não quis assustar você. Eu te vi correndo. Quis ter certeza que estava tudo bem.
Ela não soube dizer se foi o tom de voz dele ou sua expressão, mas que ele estava dizendo a verdade. Não estava de gozação. Estava preocupado.
— Tá tudo bem. — No entanto, quando ela olhou mais atentamente olhos dele, percebeu que nada estava bem.
Perry, o cara que só fazia piada, era o retrato da dor. Era quase o reflexo da dor que ela vira nos olhos de Miranda. E aquela situação era uma completa estupidez. Se os dois se gostavam tanto, por que simplesmente não esqueciam aquela história toda com Kevin?
— Ela realmente gosta de você, Perry — Kylie disse, sem conseguir se conter.
— Gosta do Kevin também.
— Ela não gosta do Kevin. Ele a beijou, só isso. E vocês dois nem chegaram a ficar juntos.
— Ela sabia que eu gostava dela. Eu me sentava com ela quase todo dia na hora do almoço.
— Tudo bem, mas a gente espera que um namorado faça mais do que simplesmente se sentar e almoçar com a gente.
— Eu sei disso — ele rebateu. — Eu teria... só estava esperando o momento certo.
— E por que agora não é o momento certo?
— É tarde demais.
Kylie balançou a cabeça.
— Você vai mesmo deixar que um beijo impeça você de ficar com quem realmente gosta? Será que você é tão...
— Cabeça dura? — ele completou. — Sou, os metamorfos são assim. Obviamente você não sabe nada sobre nós, afinal quase se matou!
— Mas se você gosta mesmo dela, então...
— Gostava — corrigiu ele. — Eu gostava dela. Miranda é passado.
Pequenas fagulhas de luz começaram a rodopiar em torno dele.
— Ah, e obrigada por tentar me proteger aquele dia. Mas, sério, não faça isso outra vez.
O pássaro gigante reapareceu. As asas em movimento no ar agitaram os cabelos de Kylie e ao mesmo tempo uma dor profunda latejou na boca do seu estômago.
O brilho dourado de lâmpadas acesas iluminava a janela do escritório quando Kylie fez a última curva da trilha. Ela parou e ficou ali, olhando para a janela, se lembrando do olhar triste de Perry e desejando que ela pudesse mudar aquilo.
Subindo os degraus, abriu a porta e chamou o nome de Holiday, para que a amiga não se sobressaltasse com uma visita tão cedo.
— Estou na minha sala! — Holiday gritou de volta, enquanto Kylie entrava no cômodo.
Holiday fez um gesto com a mão, para que Kylie se sentasse. Ela se deixou cair na cadeira e se recostou no assento.
— Você está bem? — Holiday perguntou, enquanto verificava uma pilha de correspondências.
Kylie suspirou.
— Miranda ainda está deprimida. Eu acabei de topar com o Perry e tentei falar com ele, mas ele não quis me ouvir. Não que não pareça estar sofrendo por causa dela. Ele não está nem fazendo piadas mais. Della está com TPM e por isso está perdendo a paciência com Miranda, porque tudo o que ela quer fazer é devorar potes de sorvete e chorar pelos cantos por causa do Perry.
Kylie parou um segundo para tomar fôlego, depois continuou. Ela sabia que estava falando como uma matraca, mas não conseguia parar.
— Mas eu sei que não é Miranda nem a TPM que está deixando Della rabugenta. É a ideia de ir para casa com os pais no fim de semana e ter de conviver com a família. Mas, Miranda, mesmo quando não está deprimida, nunca encara muito bem o humor instável de Della. Agora, então, Della e Miranda estão ameaçando arrancar o coração uma da outra e alimentar o gato com ele. Na verdade, acho que Della queria o fígado de Miranda; é Miranda que quer o coração de Della. Portanto... respondendo à sua pergunta... Nada está bem.
Holiday tirou os olhos da correspondência e se limitou a oferecer uma palavra.
— Interessante.
— O que é interessante? — Kylie teve a vaga impressão de estar numa sessões de psicanálise da Dra. Day.
O olhar de Holiday voltou-se mais uma vez para a correspondência.
— Muita coisa anda acontecendo, de fato. — Ela separou uma correspondência da pilha antes de olhar para Kylie. — Mas acontece que eu não perguntei de Miranda, nem de Della, nem de Perry. Eu perguntei como você estava.
— Então sou uma idiota por me preocupar com minhas amigas? — Kylie perguntou, aborrecida.
E, sim, ela estava para ficar menstruada também então podia ser um pouquinho de TPM. Ou poderiam ser os milhares de outros problemas que carregava nas costas como um gorila infeliz.
— Não quis dizer que é uma idiota. — O tom de voz suave e carinhoso de Holiday incomodou mais Kylie do que o tom psicanalítico. Provavelmente porque fez com que ela se sentisse menos como uma idiota e mais como uma ingrata.
Holiday descansou o queixo nas mãos entrelaçadas, um gesto tão típico dela que, na mente de Kylie, a líder do acampamento estava sempre com o queixo apoiado na mão.
— Só quis dizer que acho que você esconde os seus problemas de mesma concentrando-se nos problemas dos outros.
Kylie se lembrou de que o motivo que a levara ao escritório do acampamento antes do amanhecer não era exatamente Perry ou Miranda. Portanto de fato, Holiday talvez tivesse um pouco de razão. Mas quem disse que Kylie estava disposta a dar o braço a torcer?
— Então, pode ser que eu seja só uma pessoa legal. — Kylie afundou um pouco mais na cadeira e lamentou ter ficado irritada. Nenhum dos problemas de Kylie era culpa de Holiday e, além do mais, o relacionamento cada vez melhor entre elas era uma das poucas coisas boas na vida de Kylie naquele momento. Por essa razão, no final da sentença ela se desculpou com um sorriso.
— Legal? Ah, não tenho dúvida disso — disse Holiday, sorrindo. — Então vou tentar de outro jeito. Como vai você, Kylie?
Kylie se aprumou na cadeira e apoiou os dois cotovelos na escrivaninha.
— Quanto tempo você tem?
— Quanto tempo você precisar. — Holiday deixou que alguns segundos se passassem em silêncio e depois perguntou: — O que está acontecendo entre você e Derek?
— Nada. Por quê?
Holiday arqueou uma sobrancelha, com um ar de suspeita.
— Eu vi você saindo sorrateiramente do refeitório ontem quando ele entrou, e o mesmo aconteceu no jantar.
— Eu só não queria falar com ele.
Era verdade. Em parte. Ela também não queria que ninguém com a capacidade de ler emoções ou farejar hormônios soubesse o quanto ela se derretia só de olhar para ele. Enquanto ela não conseguisse controlar seus pensamentos, seria melhor não chegar muito perto quando estivessem em público. Ou sozinhos, ela tinha de admitir. E, sem dúvida, mais cedo ou mais tarde iria ter de explicar aquilo a Derek. Se dependesse dela, seria “mais tarde”.
— Aconteceu alguma coisa? — Holiday perguntou.
Kylie cruzou os braços.
— Estou imaginando coisas ou você não me disse pouco tempo atrás para tomar cuidado para não... — ela não quis dizer em voz alta. — Você não me avisou para ter cuidado quando estivesse com ele? E agora que estou tomando cuidado, você age como se isso estivesse errado. O que quer que eu faça?
Holiday apertou os lábios enquanto pensava.
— Tomar cuidado, sim. Mas eu não disse para você evitá-lo.
— Talvez não tenha dito, mas neste momento essa é a maneira que encontrei de tomar cuidado. É meu jeito de lidar com isso.
Holiday ergueu a mão, como que rendida.
— Tudo bem. Então lide com isso do seu jeito. — Ela fez uma pausa, depois soltou outro longo suspiro que deu a entender que ela não aprovava a atitude de Kylie. — Você já falou com o seu padrasto?
Kylie revirou os olhos.
— A minha mãe ligou pra você de novo? Juro, não consigo imaginar por que ela acha uma ótima ideia que eu perdoe o homem, quando ela mesma não tem nenhuma intenção de perdoá-lo pelo menos no próximo século.
Holiday retorceu um pouco os lábios, como se estivesse pesando as palavras antes de dizê-las.
— Ele está se divorciando da sua mãe, não de você.
É, a mãe de Kylie dissera mais ou menos a mesma coisa, mas não tinha conseguido convencê-la.
— Não é o que parece. — Ela ainda podia se lembrar do dia em que implorou para que o pai a levasse para morar com ele. Mas, não, ele não a quis, então por quê? Ela olhou para Holiday outra vez. — A minha mãe disse também que ele está saindo com uma garota que é só uns dois anos mais velha que eu?
— Não, mas você me disse. No dia em que fomos tomar sorvete. — Holiday a fitava com os olhos cheios de compreensão. — Olhe, Kylie, não estou dizendo que ele não esteja errado. Mas isso não tem nada a ver com o relacionamento entre vocês dois. Se eu deixasse que a relação entre os meus pais afetasse os meus sentimentos, odiaria os dois.
— Sinto muito, mas eu discordo totalmente. Isso pode ser algo entre eles, mas o que ele está fazendo afeta a mim, sim. Me afeta de muitas maneiras. Por exemplo, minha mãe me telefonou ontem para dizer que está pensando em vender a nossa casa. A casa onde eu passei a minha infância, o lugar que considerei meu lar a minha vida inteira.
Holiday reclinou-se na cadeira.
— Isso é duro. Eu ainda me lembro de como fiquei chateada quando a minha mãe vendeu a nossa casa. Mas...
— Nada de “mas” — rebateu Kylie. — Minha mãe não devia me pressionar a fazer uma coisa que nem ela consegue fazer. Ela não consegue perdoá-lo. Talvez eu também não consiga. Então, simplesmente diga isso a ela da próxima vez que ela ligar. Ou talvez eu mesma diga.
Holiday franziu a testa.
— Não foi a sua mãe quem ligou. Foi o seu padrasto. E ele disse que ele...
— Ah, não. Ele ligou pra você? — Kylie se lembrou de como tinha sido embaraçoso quando o pai tinha paquerado Holiday, encarando-a com um ar babão, como se ela fosse um pirulito e ele fosse tarado por doces. — Por favor, não me diga que ele convidou você pra sair ou coisa do gênero.
— Não. Ele parecia de fato preocupado. Disse que vive mandando e-mails e telefonando e você não dá notícias.
— Se ele estivesse tão preocupado poderia simplesmente aparecer no dia da visita dos pais. Mas ele aparece? Não. E sabe por quê? Aposto que é porque a namoradinha não quer que ele venha. Os pais dela provavelmente não lhe dão permissão para sair da cidade.
— Ou talvez seu pai não venha porque acha que você não quer vê-lo. — Holiday balançou a cabeça. — Simplesmente acho... que talvez fosse melhor você falar com ele. — Ela mordiscou o lábio e depois apertou os lábios. — Ah, que seja. Já dei minha opinião, mas ainda diria mais. Também acho que você está usando a fuga como uma maneira de lidar com tudo o que está acontecendo na sua vida agora. Com o seu pai e agora com Derek. E, francamente, devo acrescentar que a fuga não é um método muito bom de se lidar com as coisas. Eu sei porque também já tentei usá-lo uma ou duas vezes.
— É — concordou Kylie, sentindo-se uma bela idiota outra vez, mas incapaz de fazer alguma coisa a respeito. — Mas até que surja outro método como que por encanto na minha cartola, é esse que eu tenho de usar. — Ela quase quis se defender dizendo que não estava fugindo de nada. Tinha passado um dia e meio ligando para todos os Brightens da região de Dallas, tentando encontrar os pais adotivos do seu pai, para que pudesse encontrar seus pais verdadeiros e quem sabe descobrir o que ela era.
Holiday franziu a festa.
— Todos nós acabamos aprendendo as lições do modo mais difícil, não é mesmo?
— Acho que sim — concordou Kylie, sem saber ao certo se as coisas poderiam ficar mais difíceis. — Só não estou pronta para enfrentar meu pai... meu padrasto... ou o que estou sentindo por Derek. Será que é muito pedir um tempo?
— Não, não é muito. Mas, de modo geral, quanto mais demoramos resolver um problema, mais difícil ele fica. Às vezes, simplesmente precisamos encarar as coisas de frente. Meu pai costumava dizer que a gente precisa olhar na cara do problema e cuspir no olho dele.
— Nunca dominei a arte de cuspir.
Holiday sorriu e depois desviou o olhar para a correspondência outra vez. Suspirando, ela ergueu o olhar.
— Quer evitar isso também? — disse, empurrando uma carta na direção de Kylie.
— O quê? — Kylie encarou o envelope e viu o nome dela rascunhado letra conhecida.
A letra de Lucas. Ele tinha escrito outra carta.

3 comentários:

  1. hum Lucas eu não evitaria uma carta dele minha filha; coitado do Perry
    😞😞
    Ass: Mary loba

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  2. Dizapega dizapega Kylie do Lucas, OLX, hehehe.

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  3. já estou chippando Perry com a Miranda, mas vai ser difícil pq os dois são cabeças duras! saudades do Lucas kk

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