13 de setembro de 2016

Capítulo 7

— Os Farhat são persas — disse Parisa, que morava comigo. Era ela quem saía com o cara da gangue de motocicletas. Se os pais descobrissem, matariam ela; foi o que nos informou, toda contente. — Não literalmente — continuou explicando para Jesse, que pareceu um tanto alarmado. — Eu também sou persa, sabia? Minha mãe quer que eu encontre um estudante de medicina que nem você. — Ela piscou os cílios postiços e grossos para ele. — E se eu conseguir encontrar um que seja tão gato quanto você, eu me casaria mesmo. Mas ele teria que ser persa, é claro.
— Eu sou espanhol — disse Jesse rapidamente.
Acho que estava meio ansioso por estar cercado por tantas meninas lindas (pelo menos eu acho todas lindas; eu com certeza sou), sendo uma delas persa, e todas fuxiqueiras que estavam escutando nossa discussão inteira no quarto.
Ele não precisava se preocupar, no entanto. As minhas meninas o protegeriam. E a mim também.
— Não faz mal — garantiu Parisa. — Com esse cabelo e essas sobrancelhas, você passa no teste.
— Ele é comprometido, Par — lembrei.
— Eu sei, mas talvez eu pudesse pegar ele emprestado nas férias — ronronou Parisa. — Minha mãe ficaria tão feliz.
— Ou então você poderia parar de namorar um chefe de gangue que abusa de mulheres, faz contrabando de drogas e trafica produtos roubados — sugeriu Valentina, a que está se formando em estudos de lésbicas. — Ou será que isso ia atrapalhar o seu plano de se vingar do seu pai por não ter comprado aquela BMW que você queria de formatura?
Parisa sorriu e ergueu os ombros magricelos.
— Era um Porsche. E o Ray não é tão ruim quanto os amigos. Além disso, eu não resisto ao tamanho do — ela olhou para Jesse, viu a minha expressão de advertência e sorriu ainda mais — carburador dele.
Valentina revirou os olhos e se serviu de mais vodca com cranberry. Nós todas concordávamos que esse era o melhor drinque porque não apenas era gostoso, como dizem que suco de cranberry ajuda a eliminar infecção urinária.
— Voltando ao assunto — falei, e dei uma tossida —, você disse que os Farhat moram em Carmel?
— Isso. Tem uma comunidade persa bem grande lá. — Parisa me deu o endereço num papel do seu bloco de notas em formato de um cachorrinho pomeranian — quer dizer, não tão grande quanto em Los Angeles, mas, tipo, grande — e então explicou para Jesse como se ele fosse uma criança: — A maioria das pessoas pensa em carpetes e gatinhos quando escutam falar em persa, mas na verdade somos um grupo étnico do Norte do Golfo Pérsico.
Jesse sorriu educadamente.
— Sim, eu sei. Mas obrigada por esclarecer.
— Ah — exclamou ela —, imagina.
Dei um tapinha no ombro dela.
— Então, você sabe qual é a desse menino Zack?
— Sei, claro. É Zakaria, não Zack. Quer dizer, o nome ocidentalizado dele é Zack, mas em persa é Zakaria. Os pais dele são amigos dos meus, e eu já fui na casa deles algumas vezes. Esse garoto é tão mimado... assim, é verdade que vários filhos persas são, mas ele é ainda mais porque é o mais novo e a família é, tipo, mega rica. O pai é cirurgião cardíaco, e eles são superamigos dos Ahmadi, os pais daquela menina que morreu mês passado. Acho que até eram parentes distantes, primos de segundo grau, alguma coisa assim. Eu fui no enterro, e a mãe do Zakaria estava chorando loucamente. Bem, todo mundo estava, foi muito triste. A Jasmin era muito nova, e um cara matou ela. Como algo assim acontece?
— Pergunta pro seu namorado — sugeriu Valentina.
Parisa a ignorou.
— Mas a Sra. Farhat estava especialmente chateada. O Zakaria também. Ficou de óculos escuros o tempo todo pra ninguém ver que os olhos dele estavam vermelhos.
— Aw — disse Melodia, a menina cuja família não a deixava falar com homens que não fossem da mesma religião. Obviamente, não era uma regra que ela seguia quando a família não estava por perto. — Que triste.
Jesse e eu nos olhamos. Eu sabia o que ele estava pensando. Zack ficou de óculos para esconder o fato de que os olhos estavam vermelhos de tanto chorar... ou não.
— E você sabe que tipo de carro esse Zack tem? — perguntei para Parisa.
— Que tipo de carro ele não tem, né? Na última vez que fui lá, ele estava com, tipo, três carros... um Jeep pra praia, um Beamer pra escola, e uma caminhonete pra fazer sei lá o que os homens gostam de fazer com caminhonetes.
Matar meninas que não estão interessadas neles, pelo visto.
— Obrigada, Par — falei, e coloquei o endereço no bolso do jeans. — Você ajudou muito.
— Não entendo por que vocês estão indo lá agora — disse Lauren, a bruxa. — Não que eu não seja grata à deusa mãe, porque a gente precisa de chuva, mas há risco de inundação em todo canto, e estão falando para as pessoas não pegarem as estradas.
— É — disse Melodia. — É uma boa noite pra ficar dentro de casa, e não pra sair.
Não dava para saber o quanto daquilo era preocupação genuína ou desejo de que ficássemos mais um pouco para que elas ouvissem mais a nossa conversa atrás da porta. Eu não sabia direito o quanto haviam escutado. Não o suficiente, é claro, para saber que eu era capaz de falar com mortos, mas o bastante para saber que Jesse e eu estávamos discutindo por algum motivo.
Eu entendia – e até simpatizava com e agradecia por – o interesse delas. O drama da vida real é infinitamente melhor que o que vemos na TV, onde só tem coisa inacreditável.
No entanto, eu não ia dar essa satisfação a elas por uma série de razões. Tínhamos uma alma e uma vida para salvar.
— Desculpem, meninas — falei. — Jesse está muito preocupado com esse menino. Qual é a doença que você acha que ele pode ter contraído na Emergência? Ebola?
Jesse revirou os olhou para cima. Sempre pegava no meu pé por causa da minha inabilidade de mentir de forma convincente, mas o meu professor de sociologia disse que os estudos mostram que, quanto maior a mentira, mais difícil de as pessoas não acreditarem porque a maioria dos seres humanos acha que ninguém jamais contaria uma mentira tão descarada na cara deles (e é por isso que acreditam tanto nas enganações dos políticos, dos mestres de obras e dos namorados safados).
— Deve ser só um caso leve de salmonela, Suzannah — disse o Jesse. — E foi na lanchonete do hospital, não na Emergência. Mesmo assim, é importante falar com ele e a família imediatamente. Essas coisas se propagam se as devidas precauções não são tomadas.
— Achei que você tinha vindo aqui pra levar a Suzannah num jantar de Dia dos Namorados — comentou Ashley, desconfiada. Sendo ladra, tinha uma audição mais aguçada do que as outras. Precisava dessa habilidade para as suas atividades. E visto que era estudante de justiça criminal, também ia precisar dela para a carreira futura.
— Pois é, achei que seria bom juntar trabalho e lazer — disse o Jesse, assumindo uma expressão de culpa. — Você me pegou, Ashley.
Ela sorriu e deu um tapinha no ombro dele.
— Foi mal, Jesse. Não quis te deixar numa saia justa.
Foi quando notei um tom verde reluzente novo no pulso dela. Olhei direito e vi que ela estava usando um bracelete de esmeralda e diamantes com pulseira de ouro branco.
Parecia caro.
Um bracelete de esmeralda e diamantes?
Onde foi que a Ashley – que precisou penhorar todas as joias para pagar as multas pelos crimes que cometeu no auge da disfunção – conseguiu uma joia tão cara?
Então, me lembrei do envelope grande que eu havia colocado na bolsa-carteiro. Rapidamente, abri a bolsa e peguei o envelope. Ele havia sido aberto e selado novamente – com destreza para que fosse difícil de detectar, caso eu já não estivesse suspeitando. Eu provavelmente teria percebido antes se tivesse tirado meio segundo para analisar o envelope direito.
Abri o envelope e vi uma caixa vazia de joia – uma daquelas de acabamento lindo que vendem em joalherias de luxo, com laço largo de seda e selo de autenticidade – e um cartão.
O cartão era desses bem bregas e genéricos de Dia dos Namorados, o tipo que Jesse disse que eu era boa demais para receber.
Tinha formato de coração com um cupido apontando a flecha para a pessoa que o leria.
Você me mata, dizia em uma fonte divertida.
Ao abrir, vi que Paul escreveu com aquela letra atroz dele (estava acostumado a digitar, mandar mensagens de texto e jogar, não a escrever com canetas, como Jesse):

Sei que você vai odiar, mas vi essas duas coisas (o cartão e o bracelete) e pensei em você. As esmeraldas são da cor dos seus olhos (eu sei, estou ficando sentimental com a idade, não estou?), e você me matou há muito tempo.
Sei também que o seu primeiro impulso vai ser devolver o bracelete, mas por quê? Esse seu namorado mestiço morto-vivo não tem dinheiro pra comprar nada bonito no Dia dos Namorados, então finge que é dele. Pode ser o nosso segredinho, como os outros segredinhos que guardamos dele ;-)
Sempre com amor,
Paul

Levantei o rosto – não a fim de olhar para algum lugar em específico, mas porque não conseguia ler aquelas palavras por nem mais um segundo – e vi Ashley olhando para mim com o rosto todo corado. Devia ter visto o que eu estava fazendo, notado a minha expressão e achado que a raiva era direcionada a ela, visto que era a única suspeita de ter roubado o presente que devia estar dentro do embrulho.
Ela colocou o punho decorado com o bracelete atrás das costas, e então, com mais vergonha ainda, mostrou o punho novamente e apontou para ele.
Desculpa, articulou ela sem produzir nenhum som, com expressão de angústia. Vou devolver.
Eu quase soltei uma gargalhada.
Sim, respondi da mesma forma. Vai, sim.
Só para que eu pudesse devolver o bracelete para Paul com um bilhete sugerindo que ele pegasse tanto o presente quanto o cartão e enfiasse os dois no...
— Pronta pra sair? — perguntou Jesse, então notou o cartão na minha mão. — Que isso?
— Ah — respondi, e taquei tudo (cartão, envelope, caixa vazia de joia) na lata do lixo. — Nada.
Jesse ficou entretido me observando enquanto eu tentava fechar a tampa do lixo. Acho que estava sendo um pouco mais violenta do que o necessário.
— Não me parece nada.
— Mas pode acreditar, é nada. — A tampa finalmente fechou direito. Estiquei as costas. — E sim, estou pronta. Vamos.

2 comentários:

  1. Não sei qual é o problema dela com o Paul... Ele era legal e se redimiu das merdas que tinha feito. -_-

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